A coexistência pacífica entre os povos e não ingerência nos assuntos internos dos outros Estados foram os princípios aprovados, em 1955, na conferência de Bandung, que esteve na origem do Movimento dos Não Alinhados, que queria aquecer a alma enregelada de um mundo que vivia a Guerra Fria entre EUA e URSS.
23 anos depois, numa cave da rua Antunes Guimarães (Porto), a meio de uma directa de estudo para a cadeira de Teoria da História, o meu amigo Zé Meireles elaborou uma feliz adaptação ao indivíduo dos dois princípios estabelecidos em Bandung para as nações: 1. Cada qual leva no que é seu; 2. Quem dá conselhos na rua leva no cu em casa.
Ao longo vida tenho observado o espírito de tolerância e respeito pelos outros encerrado nestes pedacinhos de ouro do Meireles, que invoco a propósito do casamento gay. Como sempre achei que cada qual leva no que é seu (e me habituei a não arriscar a dar conselhos) sou naturalmente a favor. Desconfio que os gay não sabem no que se vão meter, mas, repito e sublinho, estão no seu direito.
Hoje em dia o pessoal opta por juntar os trapinhos (a chamada união de fcato) e marimba-se para a legalização da situação nos livros dos notários ou aos olhos do Senhor. O que até se compreende porque o prazo de validade das relações não pára de encurtar e se casar até é barato (custa, em média, 100 euros), o divórcio é muito caro, não só em chatices afectivas mas também materiais – fica a 250 euros, se for amigável, porque se não, upa upa, por causa dos honorários dos advogados. Como metade dos casamentos acaba em divórcio, há cada vez mais gente a cortar-se.
Os gay querem casar-se de papel passado? Porreiro, pá! As grandes vítimas do Simplex (os notários) até agradecem. Casem-se! Compreeendo-os perfeitamente. É a velha história do fruto proibido.
Já compreendo mal porque é que Sócrates meteu no topo da agenda política um dossiê que faz azia a Cavaco, indispõe a Igreja e fractura o seu grupo parlamentar, quando há um ano podia ter despachado o assunto, deixando-se ir à boleia da proposta do Bloco de legalizar o casamento gay.
E não compreendo de todo que os panditas do PS e PSD – em particular os dois lideres parlamentares, pessoas do Porto que ou não leram, ou não perceberam, A Queda de um Anjo, de Camilo – citem o Zé Maria do Big Brother e digam que “não há condições” para avançar com a Regionalização porque não é uma matéria urgente e é preciso reunir um grande consenso político.
Estão a brincar connosco? A legalização do casamento gay é uma matéria urgente? Havia um grande consenso político quando se convocaram os dois referendos sobre o aborto? Andam a fazer de nós parvos. E eu não gosto que façam de mim parvo.
Jorge Fiel
Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias
Foto Paulo Jorge Magalhães
Dantes, mal se levantava da cama, às seis da manhã, ia logo por o café a fazer. “Adoro o cheiro do café”. Agora, a primeira coisa que faz é despachar o email, rotina que repete religiosamente antes de se deitar, por volta das duas. “Não preciso de dormir muito”, confessa Nuno Sousa, 41 anos, médico e investigador na área nas Neuro-Ciências. “Sete horas de sono são, em média, suficientes para um adulto. Dormir demais faz mal porque torna os processos mais lentos”.
Quando se é uma das maiores autoridades mundiais em stress, não podemos estranhar ter a caixa de correio sempre a abarrotar, e ele não considera educado deixar um mail sem resposta mais de um dia.
O email e o telemóvel podem facilitam-nos a vida mas são também indutores de stress. “Estamos a acelerar cada vez mais as nossas vidas”, constata Nuno, que distingue dois tipos de stress, o bom e o mau. “Debaixo de algum stress, a nossa performance melhora, sem consequências porque a adrenalina tem um efeito rápido”, explica. O problema é o stress crónico, que se verifica quando os estímulos indutores ultrapassam, de forma continuada, a nossa capacidade de adaptação e provocam doenças, fazendo subir a tensão arterial e aumentando o risco de diabetes e depressão.
Nuno tornou-se uma coqueluche mundial ao publicar (em conjunto com sete outros cientistas portugueses) na revista Science, um artigo, onde conclui que as pessoas expostas a stress tendem a tomar decisões erradas, mas que isso pode ser resolvido.
Encontramo-nos na Escola das Ciências de Saúde da Universidade do Minho, de que ele é o director e um dos fundadores. Logo à entrada, ficamos com a sensação de estarmos numa universidade americana transplantada para o campus de Gualtar, nos arredores de Braga. A escola está povoada por grupos de estudantes com ar feliz, que conversam, comem, estudam e discutem, espalhados por salas e laboratórios com equipamento state of the art.
O ensino da Medicina em Braga é muito diferente do ministrado nas outras faculdades do país. Para praticarem consultas, os 600 alunos têm ao dispor cerca de 70 doentes standard, actores formados durante um ano para serem especialistas numa doença (pericardite, infecção renal, insuficiência respiratória, etc), também usados no processo de avaliação. Parte dos exames são feitos num consultório equipado com uma câmara, que permite aos professores, que estão no gabinete ao lado, seguirem o diálogo entre aluno e actor, a quem previamente entregaram o guião - o falso doente pode começar a consulta a dizer ao futuro médico que só precisa que ele lhe passe uma receita.. .
Depois de uma vista de olhos pela escola, fomos no Toyota Corolla do Nuno para o Arcoense, famoso pela sua comida caseira, onde almoçamos sem stress (não ligamos aos telemóveis) até às 16h30.
Nuno é do Porto, onde se licenciou em Medicina e começou a usar o cérebro para entender como funciona o cérebro. O período de maior stress da sua vida foi a fase final do doutoramento em que provou que, ao contrário do que se pensava, o stress crónico não provoca uma matança neurónios e o hipocampo apenas fica atrofiado porque diminuem as sinapses (a comunicação entre neurónios) - ou seja, que eliminando a causa a situação era reversível.
Este tese foi o ponto de partida para a investigação de uma equipa multidisciplinar (médicos, biólogos, bioquímicos, psicólogos, veterinários e engenheiros de sistemas, biomédicos e biólogos) cujas conclusões publicadas na Science, despertaram o interesse do New York Times.
Com base em trabalho laboratorial com ratos, Nuno provou que o stress leva-nos a tomar decisões erradas, pois, ao atrofiar o circuito cerebral que nos dá a flexibilidade para encarar e reagir a uma situação adversa e inesperada, deixa-nos dependentes da parte do cérebro onde temos armazenados os hábitos, que nos permitem, por exemplo, guiar até a casa, em piloto automático, sem ligar ao trajecto. A boa notícia é que através de terapia, fármacos e estímulos eléctricos vai ser possível, proximamente, activar o circuito atrofiado e poupar-nos aos erros e depressões a que o excesso de pressão nos tem obrigado. Ou seja, dentro de poucos anos, o guarda redes Enke já não se teria suicidado…
Jorge Fiel
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Arcoense
R. José Justino Amorim 96, Braga
Dobradinha… 2,50 euros
Favas com presunto … 2,50
Pataniscas de bacalhau … 3,00
Assado misto (costela mindinha, cabritinho e porco bisel)… 43,50
Meio litro de tinto da casa (Douro) … 6,50
Diversos (pão, água e café) …5,70
Total … 63,70
O Froiz subiu de 5,95 para 7,90 euros o preço do quilo do rolo da carne picada recheada com queijo e chouriço, em linha com aumentos superiores a 30% verificados no bife. Tenho pensado muito nas razões deste aumento e até já me passou pela cabeça escrever ao Dear Economist, do Financial Times, para saber o que é que o Tim Harford pensa sobre o assunto.
A melhor explicação que arranjei para a brutal inflação do custo da matéria prima do meu assado dominical foi a da que a pessoa que marca os preços das carnes na rede galega de supermercados foi uma das vítimas do flash forward e teve uma visão muito cor de rosa do estado da nossa economia a 21 de Abril de 2010.
Passo a dar o contexto, para acautelar o caso, altamente improvável, de não ser umas das 12 milhões de pessoas que não perdem um episódio de FlashForward. A intriga desta série televisiva (AXN, 4ª feira, 22h25) baseia-se num desmaio global ocorrido às 11 da manhã (Pacific Standard Time) do passado 6 de Outubro, com a duração de 2m17s, durante o qual a generalidade das pessoas abriu uma janela no futuro e teve uma visão da sua vida a 21 de Abril de 2010.
Não sei se fui vítima deste blackout, o que até se compreende porque às 11h00 em Los Angeles são três da manhã no Porto e eu, a essa hora, tenho o hábito de estar a dormir. Não tive nenhuma visão do futuro, que fundamente uma atitude mais optimista ou pessimista na compra de prendas de Natal. Mas sei que o marcador do preço das carnes do Froiz não foi o único a ter uma visão encorajadora durante os 137 segundos em que perdeu a consciência.
Os bancos voltaram a abrir a torneira do crédito à habitação e o preço das das casas voltou logo a subir. A Brisa prevê, para 2010, um aumento de 3,6% no tráfego das auto-estradas. E, apesar da tradicional correcção de Outubro, os indicadores anualizados do Euronext Lisbon dizem que o champanhe está de regresso à bolsa.
Apesar desta euforia, eu (que, como estava ressonar durante o blackout, não faço a mínima do que vai acontecer na Primavera) continuo bastante preocupado com o Inverno da nossa economia revelado pelas previsões de Outono da Comissão Europeia de que Portugal vai ter crescimentos microscópicos do PIB (0,3% em 2010, e 1%, em 2011), dos mais baixos da UE e do Mundo, depois de este ano termos perdido a riqueza que demoramos quatro anos a construir.
Eu não sou daqueles que olham para os dois lados antes de atravessar uma rua de sentido único, mas não consigo deixar de enrugar a testa quando vejo o Estado a gastar mais de metade do PIB e os escândalos a sucederem-se, ameaçando tolher o Governo numa altura em que, mais que nunca, o país precisa de governo.
Jorge Fiel
Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias
A professora, de 48 anos e educação religiosa, nunca tinha tido um orgasmo. A sua experiência sexual pouco satisfatória resumia-se ao ano em que esteve casada. Após dez anos de abstinência, ouviu Marta preconizar o recurso à masturbação. Seguiu o conselho e desfrutou o seu primeiro e maravilhoso orgasmo.
A sexóloga chorou quando ouviu a descrição minuciosa do enorme prazer sentido pela professora, que marcou uma consulta só lhe agradecer.
Licenciada em Psicologia, onde era conhecida pelo apelido Valente, a primeira grande paixão de Marta foi o teatro (onde usava o apelido Tereno) e conheceu o marido Filipe, que lhe deu o apelido Crawford e dois filhos, a Bárbara, 17 anos, e o João, 13, uma família acrescentada há três anos com o Jack, um grande cão cinzento de raça Weimaraner, que ela reconhece ser ainda virgem e não levar uma vida sexual muito saudável.
Iniciou-se nos palcos na Barraca, com uma adaptação do Baile, de Ettore Scola, encenada por Helder Costa. O mais provável é que hoje fosse conhecida da telenovela das nove, e não dos programas sobre sexo apresentados em horário, se não tivesse sido vitima de uma daquelas partidas de mau gosto que a vida às vezes nos prega. Deixou de ser actriz porque uma pessoa a quem era muito chegada morreu na véspera de ela estrear uma comédia para crianças.
Garante que a saída do anonimato, induzida pelos programas que fez na televisão, não lhe mudou muito a vida. “Não se metem muito comigo. Nunca tive uma experiência desagradável”, diz, apesar de reconhecer, que de vez em quando, a abordam na rua com perguntas, como aquele senhor na casa das 70 anos, que devia ser um pouco surdo pois falava aos berros, e a interpelou quando ela andava às compras na Massimo Dutti do Vasco da Gama, para saber se ela estava de acordo com o tratamento que o médico lhe prescrevera para o seu problema de disfunção eréctil.
Ser míope ajuda-a a preservar a privacidade. “Se não me maquilhar e estiver de óculos ninguém me conhece”, diz. Na verdade, não a reconhecemos à primeira quando ela chegou à porta do Aya com os seus óculos de massa Ralph Lauren, que funcionam como máscara.
Escolheu um combinado de sushi e sashimi, acompanhado de saké frio (espalhou logo o sal fino pelas bordas da caixa), e sepultado por um gelado de chá. Marta nunca foi ao Japão, mas a filha Bárbara viveu lá um ano, a norte de Tóquio, no âmbito de um programa de intercâmbio de jovens ASF. Uma experiência dura, que a mãe resumiu e funcionou como desbloqueador de conversa, no início do almoço, aqui e ali agitado pela comemoração ruidosa de um aniversário por um grupo de amigos de outra Bárbara (a Guimarães) no compartimento ao lado.
Marta começou a dar consultas de sexologia a transexuais, no Júlio de Matos, ainda durante o estágio do ISPA, pelo que está numa belíssima posição para avaliar a evolução recente do estado sexual da Nação.
Ao longo dos últimos 15 anos, uma das coisas que mudou foi a atitude masculina em face da falta de desejo. “Há muito mais homens a pedirem ajuda. Dantes escondia-se o problema. Os homens achavam que era uma vergonha não estarem sempre prontos a ter uma erecção. A disfunção eréctil deixou de ser uma vergonha e passou a ser encarada como uma doença”.
Outro dos problemas cada vez mais frequentes na sua consulta é o vaginismo, doença em que, por mais excitada que a mulher esteja, a vagina fecha-se de tal modo que é impossível penetrá-la. Na origem desta fobia está um medo, qualquer- de engravidar, de apanhar uma doença, de sentir dor – que a ela tem de identificar para poder tratar. Marta não se cansa de dizer que é um mito achar que o sexo passa pelo penetração, mas quando o casal procura engravidar o vaginismo é um sério problema.
As novas formas de infidelidade, como uma relação virtual privilegiada entre duas pessoas, que se masturbam enquanto se excitam à distância, foi outras das grandes alterações, bem como o crescimento do fenómeno de homens viciados na prostituição de luxo. “É muito aliciante para homens sem problemas de dinheiro recorrerem a raparigas lindíssimos, com corpos de modelo, poderem variar e sentirem-se à vontade para verbalizar os seus fetiches”, refere.
A sua maior preocupação é a falta de informação. Por incrível que pareça ainda há mulheres que lhe perguntam se correm o risco de engravidar por se terem sentado num assento que estava quente e tinha sido usado por um homem.
As mulheres que se divorciam na casa dos 40 anos, que sempre tiveram uma relação de confiança com um só parceiro, são o grupo com maior progressão da Sida, porque não estão habituadas a usar preservativo e começam a fazer sexo sem estarem protegidas.
“Os miúdos deviam brincar com preservativos desde a 4º classe. Para se habituarem a usá-los e encará-los como uma segunda pele”, preconiza Marta, que defende a distribuição aos pré-adolescentes de preservativos de dimensão adequado ao tamanho do seu pénis.
O normal também mudou Quando ela começou a dar consultas, o sado-masoquismo estava indexado na lista de comportamentos desviantes. “Hoje normal é tudo o que os parceiros envolvidos permitam”, remata Marta, que aguentou com boa cara estar quase três horas a satisfazer-nos a curiosidade durante um almoço XL que custou praticamente o mesmo que ela leva por uma consulta de uma hora (95 euros).
Jorge Fiel
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Aya
R. Campolide 351, Twin Towers, Lisboa
Ponte sushi sashimi …60,00 euros
Sake especial (masusake) …. 19,50
Maccha ice … 4,50
Cream anmitsu … 6,00
3 cafés … 3,60
Total … 93,60
A audiência correu bem. O senhor, de idade avançada, expôs o seu drama ao ministro, que logo lhe deu razão e instruiu o chefe de gabinete a pôr em marcha a resolução do problema.
À despedida, o idoso estava encantado. Desdobrava-se em vénias e repetia protestos de eterna gratidão, agarrado à mão do ministro, quando pronunciou a frase fatal: “Dou por muito bem empregues os 500 contos que paguei para conseguir esta audiência”.
O ministro estremeceu e pediu-lhe para repetir o que acabava de dizer. Afinal tinha ouvido bem à primeira. “Foi ao senhor deputado x”, respondeu o cidadão, quando perguntado sobre quem lhe solicitara os 500 contos.
Como o ministro tinha sido tão atencioso, o idoso não podia dizer não quando ele lhe pediu escrever o que acabara de contar - e assinar por baixo. Cópias deste manuscrito seguiram para a direcção do partido e do grupo parlamentar. “O deputado ainda está lá, na Assembleia da República” é o final triste desta história contada pelo ex-ministro.
Já se passaram alguns anos sobre este episódio, e pelo andar da carruagem, a Transparency International tem a razão quando põe Portugal em queda livre no ranking dos países menos corruptos do mundo. Em 2001, estávamos em 25º. No ano passado, íamos em 32º. Cravinho, ex-ministro das Obras Públicas, já nos avisara que “a grande corrupção de Estado é uma situação muito complicada e em crescendo”.
É triste constatar que Balzac estava cheio de razão quando escreveu que por de trás de cada fortuna há um crime, pois não me lembro de ter tropeçado em alguém que tivesse enriquecido à custa do seu salário.
É muito triste reparar que continuam por esclarecer o negócio dos submarinos, o Freeport, o caso Portucale e a Operação Furacão – a que agora se junta a Face Oculta, em que tudo leva a crer que um sucateiro de Ovar conseguiu comprar, a dinheiro ou em Mercedes, responsáveis pela nata das blue chips do PSI 20 (Millennium, REN, Galp e EDP).
Não podemos assobiar para o lado e fazer de conta que não vemos o degradante espectáculo de haver gentalha, que era suposto ser honesta, a abusar da sua posição para nos roubar.
Há duas emoções que comandam o pensamento e acção dos ladrões de colarinho branco: o medo e a ganância. Para pôr um travão aos desmandos provocados pela ganância é urgente implantar um regime de tolerância zero para quem rouba o nosso dinheiro.
O Governo que estabeleceu um regime de terror fiscal para amedrontar os pequenos contribuintes, tem obrigação de saber criar um regime de terror, que atemorize os corruptos. Se não o fizer, todos nós nos sentiremos incentivados a dedicar-nos à prática do salto à Vara para a riqueza.
Jorge Fiel
Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias
Quando chegou à recepção do Bairro Alto Hotel, pouco antes das seis da tarde, a inglesa vinha numa pilha de nervos. Não trazia bagagem e o problema era mesmo esse. A companhia aérea extraviara-lhe a Samsonite com a toilette para a festa dessa noite em Lisboa.
Alertada para o drama, A directora geral assumiu o comando das operações. Acalmou a cliente. Tudo se iria resolver. “It’s impossible”, repetia a inglesa que não acreditava que fosse possível o suave milagre operado nas duas horas seguintes, em que, num corrupio, desfilaram pelo seu quarto vestidos, sapatos, malas, cabeleireira, maquilhadora e manicura. Às 20h30, estava belíssima, pronta para a festa. Para Adélia, “impossible is nothing”.
É por estas e por outras que a Conde Nast Traveler elegeu como o 31º melhor do Mundo este pequeno hotel (55 quartos) muito fotogénico, instalado num edifício pombalino. Uma das outras razões que levou a bíblia do turismo e viagens a inclui-lo na lista exclusiva Best of The Best foi a extraordinária capacidade de Adélia, que acaba de vencer o I Concurso Nacional de Motivação, promovido pelo ISCTE.
“Para mim, trabalhar é um enorme prazer. Amo tudo o que faço. Ou é a sorte que vem ter comigo, ou sou eu que consigo transformar tudo em paixão”, declara Adélia, que começou a carreira como recepcionista no Meridien, após ter acabado o curso da Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa. Transferiu-se depois para a Penha Longa, onde se demorou dez anos e fez de tudo (de directora de alojamento a directora de banquetes), menos cozinha (que é especialidade do marido, subchefe na Bica do Sapato), até aceitar o convite para abrir o Bairro Alto, porque ficou encantada com o projecto e lhe deram carta branca para escolher a equipa.
Almoçamos no fabuloso terraço do hotel, que tem uma vista de cortar a respiração do rio e telhados de Lisboa. Escolheu a salada Caesar, porque anda a ver se perde algum do peso ganho durante a gravidez do Santiago (que tem dois anos e meio), se bem que o objectivo não seja recuperar a forma que tinha quando era atleta de ginástica acrobática do Sporting.
Nativa do signo Virgem, Adélia é uma perfeccionista e “uma vendedora nata”, sendo provável que a queda para as vendas faça parte do património genético, pois os pais tinham uma loja de electrodomésticos em Sacavém. Pensa, fala e decide muito rápido. Está sempre o radar ligado, olhos e ouvidos atentos ao que se passa à sua volta. Irrequieta e eléctrica, dispensa a cafeína. Na hora do café, optou por um “pingo clarinho”. E usou um argumento demolidor para não aceitar que pagássemos a conta: “Ficava logo toda a gente a pensar que o meu orçamento para despesas tinha levado um grande corte”.
“Às vezes basta pormo-nos no lugar das outras pessoas”, responde quando lhe perguntamos a receita para agradar e motivar. E conta um episódio para demonstrar como aprende com os clientes. Durante a campanha eleitoral, um comício nocturno e barulhento no Largo de Camões estava a impedir um cliente de dormir. Ele queixou-se. Ofereceram-lhe um chá e um quarto mais resguardado. No dia a seguir, cheio de olheiras, o cliente comentou que. se lhe tivessem perguntado o que podiam fazer para o ajudar, teria pedido que o mudassem para outro hotel. “Estava cheio de razão. Devíamos ter-lhe feito essa pergunta e arranjado um quarto num hotel onde ele pudesse passar a noite sossegado”, diz.
“Como sou muito sensitiva, consigo estar muito próxima das pessoas. Esforço-me por ouvir, apoiar e orientar. É fundamental ter as pessoas motivadas. Só se estivermos bem é que conseguimos fazer os clientes felizes. Quando há problemas é bom ter um ombro amigo. Sei que, de vez em quando, é preciso compensar as pessoas e dizer-lhes, ‘o que é que andas aqui a fazer?, está sol, vai para praia!’”, afirma.
A gestora mais motivadora do país dirige uma equipa de 65 pessoas, em não há um licenciado sequer. “Não há nenhuma faculdade em que se aprenda a oferecer bem estar”, explica Adélia, que, no entanto, está a encarar seriamente a hipótese de se inscrever no ISPA e fazer Psicologia – para aprender a motivar ainda melhor!
Jorge Fiel
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Terraço do Bairro Alto Hotel
Praça Luís de Camões 2, Lisboa
Salada Caesar (peito de frango grelhado, alface romana, lardons de bacon e molhos caeser) …12,50 euros
Sandwich Garrett (pão ciabatta com presunto pata negra, queijo brie e tomate marinado) … 9,50
Chá gelado de ananás, menta e coco … 4,50
Água de Castello … 2,50
Copo de Planalto … 5,00
Pingo claro … 3,00
Café ... 3,00
O almoço foi oferecido, numa cortesia do Bairro Alto Hotel
As conversas que distraem os operários durante o trabalho diminuíram radicalmente na Inarbel desde que as “grandes músicas” da RFM começaram a passar, 24 horas por dia, na instalação sonora da fábrica. Esta foi uma das três coisas que aprendi na visita guiada que o empresário têxtil Zé Armindo, 36 anos, me proporcionou à sua fábrica, no Marco de Canaveses, onde produz roupa para criança da marca Dr Kid.
Se com a RFM e intervalos de 15 minutos, de duas em duas horas, aumentou a produtividade na fábrica, para atingir esse objectivo nos escritórios Zé Armindo teve de fazer desaparecer as cadeiras e encomendar mesas especiais, com mais de um metro de altura.
Na Inarbel as reuniões são de pé, para poupar tempo. Numa reunião de pé, tratam-se, em 15 minutos, assuntos que demorariam hora e meia a resolver numa reunião com toda a gente sentada.
Costuma dizer-se que o tempo é dinheiro, mas Jim Rohan, um especialista em programas de motivação, ensinou-nos que o tempo é mais valioso do que o dinheiro, porque podemos sempre ganhar mais dinheiro, mas não podemos ganhar mais tempo – o dia nunca durará mais do que 24 horas.
Contas feitas por alto, calculo que, desde que há 30 anos comecei a trabalhar, participei em cerca de dez mil reuniões. Algumas foram divertidas, como, por exemplo, aquela de preparação da primeira página do Expresso em que o Zé António Saraiva, face à ausência da Cândida Pinto, sugeriu que aproveitássemos para dizermos mal dela, proposta logo acatada por todos. Mas a esmagadora maioria foram chatas e ineficazes, um desperdício de tempo e dinheiro.
Sempre me impressionou que jornalistas brilhantes se comportassem como miúdos travessos abandalhando as reuniões, chegando atrasados, atendendo o telemóvel, entregando-se a pequenos exercícios de vaidade, distraindo-se em conversas laterais, falando a demais e a despropósito.
Oito em cada dez empresários portugueses acham que a maioria das reuniões são desnecessárias e improdutivas, segundo um inquérito da AESE. Tudo que é excessivo faz mal. Até comunicar. Entre FB, Twitter, mails, Messenger, reuniões e telefonemas gastamos a comunicar tempo que seria mais bem empregue a trabalhar. O excesso de reuniões é uma das maiores fontes de ineficiência das organizações. Segundo calcula Kevan Hall, o guru inventor do “speed lead”, desperdiçamos um dia por semana (nove anos de vida!) em reuniões que não acrescentam valor.
Seriamos todos mais ricos e felizes se imitássemos o Zé Armindo, eliminássemos as cadeiras das salas de reunião e encomendássemos mesas 40 cm mais altas. A prosperidade passa por reuniões menos frequentes e mais curtas.
Jorge Fiel
Esta crónica foi publicada hoje no DN
Juca (o mais novo) com irmão, irmã e a mãe, Maria Natércia
Mal soube que ele tinha aceite a direcção de Informação da TVI, o companheiro habitual de golfe das madrugadas de 4ª feira (Joaquim Oliveira) ligou-lhe a dar os parabéns e adverti-lo para o facto do seu principal trunfo (“ser um gajo porreiro”) ser também uma grande fraqueza.
“A eleição de Obama e o fantástico desempenho de Lula demonstram que o mundo está sequioso de gente empenhada em sarar as feridas existentes e não em abrir novas. A TVI estava a precisar de um gajo porreiro. Não vim para fracturar mais, mas para relaxar e fazer as pessoas felizes”, explica Júlio (Juca para os amigos).
O novo director de Informação da TVI tem 46 anos, nasceu no Porto, filho de um guarda livros, mas com quatro meses de idade já estava a voar para Angola. Cresceu em Sá da Bandeira (actual Lubango) e retornou em 1975. A experiência africana ficou-lhe tatuada, como se pode ler nos dois best sellers em que ficcionou as aventuras do regresso a Portugal do milhão de portugueses que viviam nas ex-colónias (Os Retornados) e dos soldados que, de G3 em punho, tentarem manter o império colonial (Um Amor em Tempos de Guerra).
Encontramo-nos na TVI num dia chuvoso, e fomos para a Petisqueira do Gomes, em Barcarena, no Fiat 500 verde pistáchio (o único desta cor existente em Portugal), que ele usa durante as semanas nas deslocações em Lisboa. Os fins de semana passa-os no Porto, com a mulher Manuela (professora) e os filhos André (17 anos) e Mariana (14 anos), na casa junto ao Parque da Cidade, onde tem Pinto da Costa como vizinho.
Zé Gomes, o dono do restaurante, é de Ponte de Lima e a sua paixão pelo FC Porto revela-se em grandes emblemas espalhados pelo restaurante. Juca também é dragão (doente). Equipado de azul e branco, foi por diversas vezes campeão nacional de basquetebol, modalidade em que é detentor de um recorde difícil de bater – 128 pontos marcados num só jogo.
Com os olhos postos no futuro, recorre a uma metáfora futebolística para responder a uma questão do passado. “O Diego, internacional brasileiro, foi dispensado pelo FC Porto não por ser mau futebolista mas porque a sua maneira de jogar não se enquadrava na filosofia de jogo que o treinador queria imprimir à equipa”, diz. Para perceber o que ele pensa do famigerado Jornal de Sexta é ler Moura Guedes no lugar de Diego, Juca no de treinador - e TVI no de equipa.
“Tenho igual carinho e atenção por todos os jornais da TVI, de 2ª a domingo, do Diário da Manhã ao Jornal Nacional , passando pelo Jornal da Uma que apresentei durante muitos anos. Todos eles são igualmente importantes na minha concepção de informação”, declara.
Empowerment, a buzz que é o último grito da moda em termos de gestão de recursos humanos, é uma palavra querida para Juca: “Quero que as pessoas que até agora estavam apenas habituadas a executar reactivem a função pensar e assumam mais responsabilidades. Esse é o segredo do sucesso”.
Fazer com que a informação da TVI ajude Lisboa a descobrir o resto do paíss, do Norte até ao Algarve e regiões autónomas, é um dos objectivos de Juca, que não quer nunca perder as audiências de vista:
“O Zé Eduardo Moniz sabia programar como ninguém em Portugal e dar audiências aos jornais. Eu sei que devemos à ficção nacional sermos o canal líder. A nossa informação tem de ser abrangente e adequada ao público que temos. Não me vou esquecer, por um segundo que seja, do compromisso com os telespectadores”.
Emigrado em Lisboa, não está preocupado com a sua longevidade no cargo. “Estamos em tudo a prazo. Até na vida. Não me interessa saber se vou ficar dois, cinco ou dez anos. Estou aqui para fazer um bom trabalho e tenho a certeza que não vou falhar. Sou jornalista e estou director de Informação. Não pedi a ninguém para vir para aqui, não estou agarrado ao lugar. Não estou condicionado por nada, nem por ninguém. Sei o que quero e estou habituado a subir as escadas sem ter de me apoiar em qualquer corrimão”, afirma Juca, que, confessa, adoraria ter Marcelo de regresso à TVI. “Pelo professor, voltaria logo à antena”, conclui.
Jorge Fiel
Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias
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A Petisqueira do Gomes
Largo General Humberto Delgado, 2, Barcarena
Couvert … 1,20 euros
Entradas (bolos de bacalhau, chamuças e filetes de polvo)… 10,00
Bacalhau à Gomes … 30,00
Vinho da casa (branco do Douro) … 7,50
2 cafés ... 1,30
Total … 45,50 euros
O João Carreira Bom, que, além de excelente cronista também não era parvo nenhum, achou um remédio infalível para fazer os Altos e Baixos do Expresso sem pagar a portagem de inflacionar a lista de inimigos que este tipo de coluna costuma acarretar. A receita, de uma simplicidade desarmante, consistia em elogiar as pessoas que punha a descer e criticar as que colocava a subir.
Quando alguém lhe telefonava a queixar-se por ter sido posto a descer, ele educadamente chamava a atenção para as palavras gentis que lhe dedicara. Se o motivo da reclamação era uma frase mais áspera, o Carreira Bom lembrava ao queixoso que tinha saído a subir. Usando esta técnica, designada por cobertura de risco nos meios financeiros, controlava os danos inerentes a uma rubrica agreste.
O Carreira Bom tinha o rabo escaldado e não é impossível que esta astuta prudência mergulhasse as raízes no facto de ter estado quase a ser despedido do Expresso após ter publicado na Gente uma pequena nota narrando alegadas desventuras marítimo-sexuais de um advogado, por sinal amigo de peito do patrão.
Eu teria evitado alguns dissabores se tivesse dado ouvidos ao conselho do Carreira Bom durante os três anos em que tive o encargo de fazer a coluna de Altos e Baixos da Economia do Expresso. Mas sempre fui adepto de que cada pessoa deve vestir o seu próprio fato – e o meu não contempla as meias tintas, nem o recurso ao “por um lado…” mas “por outro…” para tentar agradar a toda a gente.
Vem esta história a propósito do debate sobre o interesse dos políticos em plantar notícias e pressionar quem decide o que vai na primeira página ou abre o telejornal.
Para mim, nisto do jornalismo, há duas coisas tão óbvias como a Terra ser redonda e a água molhada:
a) Todas as fontes foram, são e serão sempre interesseiras. Ninguém no seu perfeito juízo conta algo a um jornalista se não estiver completamente convencido que tirará proveito da publicação do que acaba de comunicar;
b) Os políticos, empresários, dirigentes desportivos, agentes culturais, agências de comunicação, etc, sempre tentaram, tentam e tentarão condicionar a agenda dos Media e pressionar os responsáveis pelos fluxos informativos.
O interesse e a pressão são legítimos. Estão no papel deles. Acho tão ridículo um jornalista queixar-se disso como ouvir um guarda-redes acusar um avançado adversário de lhe ter tentado marcar golo. O papel dos responsáveis editoriais consiste em destrinçar o que é do interesse público e dos leitores do que não é, evitar que produtos tóxicos contaminem o produto que dirigem - e aguentar as consequências. Isso é o que importa. O resto é ruído e conversa mole.
Jorge Fiel
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Talvez seja forçado dizer que nove em cada dez multimilionários dormem em lençóis portugueses, mas a verdade andará por lá perto, porque os nossos têxteis lar têm a fama (e o proveito) de serem de excelente qualidade.
“Recebemos agora a encomenda de mais cem roupões para a casa no sul de França do Abramovich. Gostou tanto deles que quer mais para oferecer aos amigos”, conta David Schneider, 42 anos, senior vice-president da Li & Fung, multinacional com 80 escritórios em 40 países, onde trabalham 15 mil pessoas, e que tem um catálogo de clientes recheado de marcas como a Disney, Calvin Klein, L’Oreal ou Tommy Hilfiger.
A Li & Fung (LF) só não tem fábricas nem lojas. De resto trata de tudo, desde a ideia, até ao design, colocação da encomenda, controlo de produção e entrega ao retalho. Em 2008, tratou da produção de quatro biliões de peças. Calcula-se que mais de 1/3 do que está à venda num grande centro comercial norte-americano foi colocado por ela.
“O nosso trabalho é procurar o produto certo ao preço certo”, explica David, que nasceu no Porto, licenciou-se em Genebra (Suiça) e já trabalhou em Moçambique e na África do Sul. Passa metade do ano a viajar, pois além de responsável pelo escritório português (que fica na Maia, emprega 60 pessoas e factura 60 milhões) tem a seu cargo áreas de negócio em destinos tão distantes como a Índia, Turquia, China e Paquistão.
Escolheu almoçarmos no Do Park - que fica em frente ao Parque da Cidade, na urbanização onde vive Pinto da Costa -, restaurante dirigido por Manuel, do falecido Dom Manoel, que nos tempos de esplendor da indústria nortenha era a cantina preferida dos empresários. Como está de dieta, David não tocou no paté do couvert, resumindo a refeição frugal a robalo grelhado, acompanhado por água.
A Li & Fung é um dos melhores termómetros para medir a competitividade da nossa indústria. “Já comprámos mais vestuário. Agora já só vale 50% da facturação, sendo que os têxteis lar, a cerâmica e o vidro são os sectores com mais peso na outra metade”, diz
“Temos vindo a perder competitividade porque não estamos a ser suficientemente inovadores” diagnostica David, um liberal que cita Reagan (“O Governo nunca é a solução, é sempre o problema”) e tem uma posição crítica sobre alguns aspectos da actuação governamental.
Acha um desperdício as acções de promoção sectoriais (vinho do Porto, turismo, calçado, etc): “O Governo devia promover a marca Portugal e assim beneficiava todos os sectores”.
Acusa o Governo de não ter sido eficaz no desfazer do nó dos seguros de crédito, que penalizou muito as nossas exportações no coração da crise: “Devia ter feito como outros Governos que logo se atravessaram, garantindo a cobertura do risco de não pagamento”.
Está preocupado com os prazos de pagamentos, que chegam a ultrapassar os 180 dias: “Isto assim não é uma economia saudável. Quando uma empresa fecha, é um rombo para os fornecedores. Devíamos imitar o Sarkozy que impôs por lei um prazo máximo de 60 dias”.
E considera lamentável que a energia caríssima afecta a competitividade, em particular na cerâmica, indústria onde o maior custo é a energia.
Apesar desta chuva de reparos, David não é uma pessoa azeda. Está satisfeitíssimo por a Vista Alegre ter ganho o fornecimento exclusivo de chávenas para a Nespresso. E olha o futuro com um optimismo moderado.
“Em meados do próximo ano, a recuperação vai ser evidente. Mas nada voltará a ser como dantes. Temo que o new normal seja marcado por mais intervenção do Estado e crescimentos mais pequenos, devido ao proteccionismo e a não se andar para a frente com Doha e o aprofundamento da liberalização do comércio internacional”, antecipa David, que não duvida de que o pior já passou: “Quem aguentar até 2010, vai ganhar muito dinheiro”.
Jorge Fiel
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Do Park
Av. Boavista 4191/4201, Porto
Couvert … 1,80 euros
Robalo grelhado …25,80
2 Vitalis 0,5 l … 2,90
Água Castello 20 cl … 1,45
2 cafés … 1,90
Total … 33,85 euros
Há coisa de meio ano, mudamos de casa. Aproveitamos essa ruptura para criar novos hábitos. Um deles, talvez o mais importante, foi o de ter televisão desligada na hora da refeição. Nem imaginam o tempo de qualidade que ganhamos. Com o televisor off, a família está on, e falamos de tudo - inclusive de televisão.
Noutro dia, em cima da mesa, a fazer companhia às pataniscas de bacalhau (acompanhadas por feijão preto com pedacinhos de bacon), esteve o significado do Ucrânia-Inglaterra, do apuramento para o Mundial da África do Sul, ter sido transmitido apenas pela Net e vendido à razão de 4,99 libras por lar.
Não sou tão radical como o colunista do Guardian que leu neste facto o anúncio da morte da televisão, mas se fosse dono de um canal estaria seriamente preocupado, porque as más notícias sucedem-se. Na semana anterior, soubemos que, na mesma Inglaterra, o investimento publicitário na Internet foi, pela primeira vez, superior ao canalizado para a televisão.
O computador já assassinou as máquinas de escrever e agora, propulsionado por uma Internet empanturrada pela poção mágica da largura de banda, prepara-se arruinar os grupos de Media que fizeram das licenças de emissão de televisão o centro de gravidade da sua actividade.
Lá em casa, continuamos a ver televisão, mas cada vez menos. Nas horas de lazer, os dois sub 18 já passam mais tempo em frente ao computador do que ao televisor. E a dieta de consumo mudou radicalmente. Raramente vamos aos generalistas, preteridos em função dos canais de notícias, dos Sport TV e das séries dos Fox e AXN.
Por tudo isto, fiquei muito aborrecido quando li que a RTP vai receber do Estado mais 62 milhões de euros, através de um aumento de capital, elevando para 292 milhões de euros o total de fundos públicos a que vai sumiço este ano.
Não tenho nada contra a RTP. O Malato tem muito jeito para apresentar o Jogo Duplo, que combina cultura e divertimento, proporcionando uma animado serão em família. E a RTPN é o primeiro canal que busco quando quero saber notícias nacionais. Mas não descortino uma boa razão para nós, contribuintes, estarmos a pagar os prejuízos crónicos de uma empresa que nos faz tanta falta como uma dor de dentes.
Recentemente, o TGV partiu o país entre os que o acham um investimento urgente e os que alegam mão termos dinheiro para o fazer. Na verdade, os argumentos “não tenho tempo” e “não tenho dinheiro” são muito mentirosos. Ao fim e cabo, nós temos sempre tempo e dinheiro. A questão reside nas prioridades para o emprego do tempo e dinheiro disponíveis.
Desde o ano 2000, já gastamos 2,4 mil milhões de euros com a RTP. O país teria ganho se em vez de desperdiçarmos assim este dinheiro o tivéssemos investido no TGV.
Jorge Fiel
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Os politólogos trabalham o resultado das eleições, bem como os dados dos seus inquéritos pós-eleitorais, como se fossem pintores em frente a uma tela. O pintor faz uns riscos, deita um bocado de tinta, e depois dá um passo atrás, para ter perspectiva, antes de avançar de novo e continuar a pintar.
Marina deu esse passo atrás para conseguir ver melhor o que está diante dos seus olhos e convenceu-se que estamos a assistir à fragmentação do sistema partidário.
Olhando em perspectiva para os resultados das legislativas de 2005, das presidenciais de 2006 (onde o rebelde Alegre reuniu um milhão de votos) e das europeias e legislativas deste ano, a investigadora do Instituto de Ciências Sociais (ICS), da Universidade de Lisboa, não tem dúvidas: “O nosso sistema bipartidário está sob uma enorme pressão”.
“No auge do bipartidarismo, PS e PSD chegaram a somar 80% dos votos. Nas últimas europeias tiveram juntos o pior resultado de sempre (58,3%)”, afirma Marina Costa Lobo, 37 anos, acrescentando que tudo indica que os menos de 67% de votos concentrados a 27 de Setembro nos dois partidos centrais do espectro partidário não são uma excepção, mas revelam uma tendência.
Marina nasceu em Lisboa, onde vive na Estrela, mas aos 13 anos seguiu na bagagem da mãe e padrasto para a Suíça, tendo feito em Lausanne os três últimos anos do secundário. Passou depois um ano em Portugal, a trabalhar na Herdade do Esporão, antes de voltar a meter-se num avião para se licenciar em Ciência Política e Económica em Durham, no Norte de Inglaterra.
Esteve um ano em Londres, na Andersen Consulting, antes de voltar à Universidade, fazendo em Oxford um doutoramento sobre o poder do primeiro ministro e o funcionamento do Governo em Portugal. Antes de começar a tese, tinha a sensação que no final de década cavaquista, o primeiro ministro tinha muito mais poder do que no início.
Na tese demonstrou que essa sensação era verdadeira e explicou como Cavaco aumentou o seu poder, governamentalizando o PSD (a análise das listas permitiu-lhe quantificar o crescente denominador comum entre dirigentes do partido e membros do Governo) e reforçando imenso o peso da presidência do Conselho de Ministros.
Almoçamos em Entrecampos, perto do ICS. Marina hesitou um bocado (“Tenho de decidir se estou ou não de dieta”, gracejou) antes de escolher um risotto de espargos, enquanto contava pormenores da sua aventura ferroviária para ir de Roma a Sienna, onde esteve a semana passada a arguir um doutoramento – e explicava que não aproveitou a viagem para passar lá o fim-de-semana porque tem filhas pequenas (oito e cinco anos).
O facto das autárquicas permitirem o surgimento de candidaturas independentes e favorecerem a personalização do voto, inspira-lhe cuidados e comentários.
“Os independentes não são realmente independentes. São gente com ideologia e interesses. As candidaturas independentes têm possibilitado a autarcas arguidos, com processos pendentes na Justiça, ou até mesmo já condenados, escaparem à penalização das elites partidárias, recandidatarem-se e manterem-se na presidência de câmaras”, acusa Marina, que elogia a atitude de Marques Mendes de ter excluído Valentim e Isaltino das listas do PSD.
Estes casos, tal como o de Fátima Felgueiras, levam-na a encarar positivamente o escrutínio dos partidos, que para se credibilizarem têm de ser cuidadosos na selecção dos seus representantes.
A teoria do “rouba mas faz” e a fraca opinião que a generalidade das pessoas têm da Justiça ajudam, na sua opinião, a explicar a reeleição sistemática de autarcas condenados por corrupção.
A importância das câmaras como grandes geradoras de emprego e negócios nos municípios mais pequenos permite compreender porque é que 40% dos presidentes já estão no lugar há pelo menos dois mandatos e, por isso, se recandidatem hoje pela última vez. Mas não é esse o caso de Oeiras, para o qual Marina não encontra outra explicação senão a hipótese do argumento “rouba mas faz” também ser eficaz junto do eleitorado mais instruído dos grandes meios urbanos.
Jorge Fiel
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LA Caffé
Av. Campo Grande 3-B 1º andar, Lisboa
Couvert … 3,90 euros
Risotto de espargos verdes com ovo mexido e azeite de trufa …12,00
Risotto de tomate com pimentos, atum e poejos … 13,00
Água LA Caffé Serra da Estrela ... 3,10
2 cafés … 3,00
Total … 35,00 euros
Os meus amigos de Lisboa ficam surpreendidos por lhes sugerir a Pousada da Juventude quando me perguntam onde devem ficar quando vêm ao Porto. Ao contrário do que o nome indica (e a generalidade das pessoas pensa), as Pousadas de Juventude estão abertas a clientela de todas as idades. E a pousada do Porto está num local magnífico, com uma vista deslumbrante do Douro e a sua foz.
Tenho formatada uma lista de recomendações para os meus amigos que visitam o Porto. Para a experiência francesinha, acompanhada por um príncipe e antecedida de um rissol de carne, aconselho o Capa Negra, no Campo Alegre.
Na Baixa, além dos incontornáveis Majestic e Lello – que se não são o café e a livraria mais bonitos do mundo pelo menos andam por lá perto -, acho imprescindível um passeio a bordo do eléctrico 22, do Carmo até à Batalha, complementado pela descida de funicular até à Ribeira, onde só tem a ganhar se visitar o Palácio da Bolsa (o Salão Árabe é de cortar a respiração) a atravessar a pé o tabuleiro inferior da ponte Luiz I, não se esquecendo de olhar para montante e apreciar devidamente a elegância da ponte D. Maria, uma jóia de Eiffel.
As melhores vistas panorâmicas do Porto obtêm-se a partir de Gaia. As minhas preferidas são as das esplanadas do Bogani (Cais de Gaia) e do Arrábida Shopping. Já que está na margem esquerda, não perde nada se visitar umas caves de Vinho do Porto. É um cliché turístico, mas vale a pena.
Com partida da Ribeira (onde tem a opção de embarcar num cruzeiro pelas seis pontes), junto à igreja de S. Francisco (aquela que tem o interior revestido a ouro), o eléctrico 1 percorre a marginal fluvial. Depois, a partir do Jardim do Passeio Alegre, o melhor é mesmo seguir a pé, ao nível das praias, parar a meio numa esplanada, passar o Castelo do Queijo chegar à frente marítima do Parque da Cidade e olhar a fantástica Anémona que assinala a entrada em Matosinhos.
Se os meus amigos vêm com tempo contado e não podem fazer o programa completo, eu não os deixo partir sem verem os três mais recentes tesouros que enriqueceram a cidade nos anos de viragem do século. Vir ao Porto e não visitar Serralves, ver a Casa da Música e ir de metro até ao Dragão é muito mais grave do que ir a Roma e não ver o papa.
É por isso que eu, portuense, fico triste por ter um presidente da Câmara que nunca pôs os pés no Dragão, só foi uma vez a Serralves (e porque o Fernando Lanhas o foi buscar aos Paços do Concelho e o obrigou a visitar a exposição dele) e não frequenta a Casa da Música – apesar de morar ali ao lado, a menos de cinco minutos a pé. O Porto merece melhor.
Jorge Fiel
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Foto Paulo Jorge Magalhães
Nunca foi a Guimarães? Pois então prepare-se para ir, porque Cristina acha que “nenhum português pode dar-se ao luxo de não conhecer Guimarães” - e ela não é mulher para descansar antes de atingir os seus objectivos.
Cristina Azevedo, 44 anos, licenciada em Relações Internacionais e pós graduada em Análise Financeira, é a presidente da Fundação Cidade de Guimarães, que está a preparar a Capital Europeia da Cultura 2012.
Nasceu na Beira, Moçambique, de onde veio, órfã de pai e com ano e meio, para Arco de Baúlhe, pequena vila minhota onde as suas origens familiares estão tatuadas na toponímia – o capitão Elísio de Azevedo que dá o nome à rua principal era seu avô.
Quando tinha dez anos, a mãe, professora primária, mudou para Braga, para garantir a educação das duas filhas. No Conservatório Regional da Gulbenkian, Cristina aprendeu ballet e piano, tendo professores marcantes como Borges Coelho e Cândido Lima. Nos institutos Francês, Inglês e Alemão acrescentou línguas a uma sólida bagagem onde já estavam a música e a dança.
Concluído o curso, iniciou-se na área financeira em Paris, foi directora de marketing da Bolsa em Lisboa, e vice-presidente da CCRN no Porto. Regressa agora ao Minho, 23 anos depois de ter saído de Braga, para ajudar Guimarães a aproveitar ser capital europeia da cultura para diversificar as actividades económicas, pois é um dos concelhos mais fustigados pelo desemprego e que mais sofre com a dolorosa reconversão da têxtil.
Almoçamos numa esplanada na Praça de Santiago, em pleno coração de um dos três centros históricos portugueses proclamados Património da Humanidade pela Unesco (os outros são o Porto e Angra do Heroísmo).
“Este centro histórico belíssimo é fruto de uma recuperação exemplar iniciada em 1983, desenvolvida em parceria com os privados, em negociações casa a casa, senhorio a senhorio, inquilino a inquilino”,explica Cristina, que não se cansa de o palmilhar: “É conhecendo as cidades com os pés que elas entram no nosso coração”.
Não precisou de olhar para a lista. No Cheers, pede sempre o mesmo: sopa, salada composta (nozes, tomate e queijo fresco) e sumo de laranja. Uma escolha que evidencia preocupações desnecessárias, pois além de muito alta também é muito magra e não conseguiria engordar porque nunca está quieta – até parece que tem bichinhos carpinteiros.
A Fundação nasceu a 28 de Agosto, mas Cristina já sabe o que vai fazer para demonstrar em Guimarães a eficácia da cultura como factor de desenvolvimento e sector económico.
Conhecer e criar são as palavras chave e por isso a partir de 2011/12 o pólo de Guimarães da Universidade do Minho vai ser enriquecido com o Instituto Superior de Design e o Centro de Formação Avançada, que leccionará uma dúzia de cursos de pós graduação com destaque para as indústrias criativas, com ligação ao tecido empresarial da região.
Couros, uma área de 10 hectares onde, em 13 fábricas desactivadas e tanques de tinturaria em granito, persiste a memória da indústria de curtumes será a área de intervenção para a 2ª fase da reabilitação do Centro Histórico.
Um laboratório de interpretação da paisagem é uma das ideias para a recuperação e ordenamento da Veiga de Creixomil, uma área verde de 50 hectares, à entrada da cidade, que Álvaro Domingues classificou como “uma mistura de Parque Biológico e terreno agrícola”.
A requalificação do Coliseu e dos museus do Chiado e de Arte Antiga foi a herança tangível de Lisboa 94. A Casa da Música é o ícone do Porto 2001. De Guimarães 2012 vai ficar a transformação em plataforma das artes do mercado municipal e uma fábrica contigua – bem como o novo museu que reunirá obras de José de Guimarães e as colecções de arte africana e pré-colombiana que o artista vai ceder à cidade.
Estes são alguns dos projectos que fervilham na cabeça de uma Cristina apostada em que o orçamento de 111 milhões de euros seja investido (não apenas gasto) e com os olhos postos no futuro: “Na cidade mais portuguesa de Portugal, a História tem de ser usada como trampolim e não como sofá”.
Jorge Fiel
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Cheers
Praça de Santiago 15, Guimarães
Creme de legumes … 1,50 euros
Salada composta … 3,00
Alheira com grelos … 7,50
Sumo de laranja ... 2,00
Água 1,5 l … 2,00
Total … 16,00 euros
Evito mentir, mas não por razões éticas ou morais, pois em muitos casos uma pequena mentira até pode ser vantajosa – por exemplo, quando jura que não foi por a sua amiga estar muito mais velha e gorda que não a reconheceu.
Fujo da mentira por ser incompetente nesta matéria. O psicólogo Peter Ekman diz que em 54% das vezes uma pessoa normal detecta uma mentira. No meu caso, essa percentagem é de 99%, pois sempre que tento colorir a realidade sinto o nariz a crescer, a voz a tremer, os olhos a piscar e grossas gotas de suor a escorrem pela testa. No que me toca, Gepeto tinha toda a razão quando ensinou a Pinóquio que “a mentira tem as pernas curtas e o nariz longo”.
Tento remediar esta falha apostando nas omissões e meias verdades, mas sei que esta minha incapacidade em mentir me inibe de ser político. Clinton jurou na televisão que não fez sexo com a Lewinsky. Nixon declarou que ignorava tudo sobre Watergate. Durão garantiu que não ia aumentar os impostos. Marcelo inventou, em benefício de Portas, uma descrição de uma reunião (inexistente) em Belém, adornada com o pormenor da ementa (caso da vichyssoise).
“Um político de sucesso, com muitos anos de carreira, foi obrigado a aprender a mentir de modo tão profissional diante das câmaras, que a imensa maioria das pessoas não é capaz de detectar os deslizes”, afirma Ekman, o maior especialista mundial em mentira.
Os bons políticos mentem como respiram e se calhar não têm outra solução, a acreditar em Dostoievski que recomendava que “para tornar a verdade mais verosímil precisamos de lhe adicionar mentira”.
Eu não só evito mentir como, neste mundo em que a privacidade foi sacrificada no altar da segurança, parto do princípio de que tudo que digo, escrevo ou faço está a ser ouvido, lido ou observado.
Bruno Castro, da Visionware, especialista em segurança informática, disse-me um dia, meio a brincar (mas também meio a sério), que não podia garantir a 100% que um computador fechado num cofre e desligado da Net estivesse protegido de um ataque.
No Alaska, a ex-governadora Palin sabia que os emails podiam ser acedidos, por isso impôs que o seu staff usasse os endereços pessoais, e não os estaduais, pois ao menos assim evitava que pudessem ser apresentados como prova em tribunal.
A propósito de emails, ouvi dizer que Cavaco anda preocupado com a segurança dos seus computadores, por isso deixo-lhe um bom conselho, Fale ao Bruno Castro, que ele explica-lhe tudo num instante. Senão ficar convencido, então recomendo que recorra ao comissário Kurt Wallander, que ainda recentemente se desembrulhou muito bem de uma complicada conspiração informática (ver A Muralha Invisível, de Henning Mankell).
Jorge Fiel
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Como toda a gente que tem filhos pequenos, ele está habituado a acordar cedo por isso não estranhou que hoje, apesar de ser domingo, tenha saído da cama às sete da manhã, como de costume.
Votou à abertura das urnas, no Pedro Nunes, em Lisboa, antes de seguir para o Centro de Sondagens da Católica. Vai passar boa parte de manhã horas ao telefone com comandantes de posto da GNR, membros da Comissão Nacional de Eleições, presidentes de junta de freguesia e de mesas de voto.
Calmo e ponderado, Pedro está a resolver a bem todos os pequenos conflitos locais suscitados pela presença à saída das mesas de voto, das brigadas destacadas para 48 freguesias para recolherem em urnas a repetição do voto de 20 mil eleitores que fundamentarão as previsões que a RTP divulga às 20h00.
De manhã está mais ocupado a ser capacete azul, mas à tarde começa a apertar o tempo para tratar os dados recolhidos um pouco por todo o país pela centena de inquiridores da Católica, pois às 18h00 ele está de partida para a RTP.
Nesse dia longo, Pedro vai a sociedade portuguesa a funcionar. Os mais velhos são madrugadores e votam logo de manhãzinha, o que concede um avanço inicial à direita, reforçado com o pico de afluência às urnas no Norte, a seguir à missa. O Bloco de Esquerda só começa a subir a seguir ao almoço e vai em crescendo até ao fecho das urnas.
“É um dia ao mesmo tempo enervante e divertido”, sintetiza Pedro Magalhães, 39 anos, que há três anos dirige o Centro de Sondagens da Católica, onde foi parar em 1999, porque precisavam lá de alguém “que percebesse de política”.
Licenciado em Sociologia no ISCTE, deu aulas na Católica (Martim Avillez Figueiredo, o director do i, foi um dos seus alunos no curso de Comunicação Social) antes de se doutorar na Ohio State, de onde trouxe uma sólida formação em Estatística, área que as universidades do Midwest são particularmente fortes.
Desde o regresso dos EUA que trabalha como investigador do Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa. Mas continua a ser professor. “Gosto de dar aulas. É muito bom para o pensamento e ajuda a ter a cabeça arrumada”, confessa este politólogo que define assim esta sua condição: “O nosso negócio é descrever o mundo político o melhor possível e procurar explicações plausíveis para que ele seja como é”.
Pedro apareceu com um ar descontraído, All Stars nos pés e pulôver sem mangas, no LACaffé do Campo Grande, que fica perto do ICS. Fala com clareza e credibilidade e tem aquele ar do bom rapaz com que todos os pais sonham para marido das suas filhas.
Pediu um Cola Zero para acompanhar as “lascas de bacalhau com brás de tomate e azeite de coentros” (os consultores de cartas recomendam que o descrição dos pratos na lista seja o mais pormenorizada possível…), que se revelaram ser bacalhau à Brás, apresentado em formato de pudim e encimado por saborosas lascas do dito.
O facto das sondagens terem sido o bombo de festa na noite e rescaldo das últimas eleições europeias (apenas a Marktest admitiu a vitória do PSD) não lhe encheu a testa de rugas.
“Uma abstenção elevada baralha tudo. É a grande inimiga das sondagens. Não é por acaso que as europeias correm quase sempre mal”, afirma, acrescentando o exemplo do primeiro referendo sobre o aborto, em que, por causa da altíssima taxa de abstenção, na própria noite de apuramento dos resultados ainda toda a gente dizia que o Sim ia ganhar.
“As sondagens não são previsões eleitorais. Medem intenções e não comportamentos. As pessoas podem estar sinceramente convencidas que vão votar quando estão a responder ao inquérito, mas depois chega o dia e afinal não vão”, explica.
O trabalho das empresas de sondagens tem os seus espinhos. Quase um terço da população não tem telefone fixo. E nos inquéritos presenciais é virtualmente impossível chegar à fala com as pessoas que vivem em condomínios fechados. Mas apesar destes apesares, Pedro Magalhães está convencido que esta noite as sondagens não vão ficar mal na fotografia.
Jorge Fiel
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LACaffé
Av. Campo Grande 3 B, 1º andar, Lisboa
2 couvert … 3,90 euros
2 lascas de bacalhau … 28,00
1/4 Água das Pedras … 1,70
1 Coca Cola Zero 0,33 l .. 1,75
1 salada de frutas … 5,00
2 cafés … 3,00
Total … 43,35 euros
Quando li um comentador de peso a comparar o duelo Sócrates/Ferreira Leite a um Benfica-Sporting, pensei logo: olha mais um que parou no tempo da Outra Senhora, em que os dois clubes de Lisboa alternavam os títulos à razão de três para os da Luz, um para os de Alvalade.
Mas depois do debate, dei por mim a pensar que a comparação afinal não era tão esfarrapada, e que o seu autor acertara, se calhar da mesma maneira involuntária que o relógio parado dá a hora certa duas vezes por dia. As palavras Porto, Norte e Regionalização não foram pronunciadas na única vez em que os dois candidatos a primeiro ministro estiveram frente a frente na televisão a disputarem os votos dos indecisos.
A bondade do TGV para Madrid foi esmiuçada, mas não se ouviu um pio sequer a propósito da linha Lisboa-Porto-Vigo, apesar dos estudos da firma britânica Steer Davies Gleave garantirem que ela não é só é viável mas também geradora de um benefício líquido superior a cinco mil milhões de euros. Na troca de argumentos desencadeada pela retórica retro anti-espanhola de Ferreira Leite, a única referência à linha para o Porto saiu da boca do ministro espanhol.
No Norte, o céu está mais carregado de nuvens do que no resto do país. Vivem aqui um milhão de pobres. Mais 300 mil que há três anos. A segunda região que mais contribui para a riqueza do país é mais pobre de Portugal – e uma das 30 mais pobres da Europa, ao lado de regiões romenas e búlgaras.
Apesar disso, nenhum dos candidatos achou que valia a pena desperdiçar o precioso tempo de antena do seu Benfica-Sporting televisivo a explicar como planeia combater a bolsa nortenha de pobreza e redistribuir de forma solidária a riqueza por todo o país.
Como portista e nortenho, olho para todos os Benfica-Sporting sem paixão, mas com interesses – prefiro sempre que perca o que ameaça mais perto a liderança do FC-Porto.
No Benfica-Sporting que se vai jogar no domingo é do interesse do Norte que perca quem se pronunciou contra a Regionalização e o TGV – e acha que “é preciso parar tudo porque não há dinheiro”, mas não incluiu nesse tudo o investimento de 2,5 mil milhões de euros na expansão do Metro de Lisboa nem a ruinosa compra de submarinos que nos fazem tanta falta como uma dor de dentes.
No Benfica-Sporting de domingo, o mal menor é que perca quem tem a mentalidade do espanhol dono de um cavalo que morreu após 15 dias de jejum forçado e se lamentou: “logo agora que ele se tinha habituado a viver sem comer é que morreu”. Domingo, é preciso evitar que ganhe a velha política do “pobretes mas alegretes”, que tem tanta possibilidade de ter sucesso como uma bailarina com uma perna de pau.
Jorge Fiel
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Nunca ligou à política e não faz a mínima ideia em quem vai votar no próximo domingo, mas não alinha nessa do papão espanhol e até olha com muita simpatia a criação de uma Liga Ibérica, sugerida por Rui Pedro Soares, administrador executivo da PT, que é responsável por 10% das receitas do futebol nacional.
“Se o nosso futebol quiser crescer, o caminho é por aí”, afirma Miguel Salema Garção, 41 anos, membro da Comissão Executiva do Sporting SAD. Como a geografia deu-nos apenas dois vizinhos, e um deles é o mar, acha inevitável que as empresas de todos os sectores encarem toda a Península como mercado doméstico.
“Dada a nossa pequena densidade demográfica, temos de apostar na iberização para potenciar o negócio. Numa Liga Ibérica, as receitas dos patrocinadores, assistências e direitos televisivos seriam incomparavelmente maiores”, explica.
Ao longo da sua carreira de gestor, feita entre os CTT e os seguros, Miguel trabalhou um ano em Madrid, numa corretora de seguros do grupo Aon (actual patrocinador do Manchester United) e guarda gratas recordações dessa experiência.
“Os espanhóis percebem melhor do que nós que a função de um profissional é criar valor para o accionista e assim aumentar a riqueza do país e melhorar o seu próprio nível de vida. E têm um sentido de patriotismo que faz-nos falta a nós, portugueses, que somos invejosos e não valorizamos devidamente gente como Durão Barroso, o Ronaldo, o Mourinho ou o Figo com grande sucesso internacional”, declara Miguel, um homem desempoeirado, que casou há 11 anos na Jamaica (um dois em um, já que passou lá a lua de mel) com um advogada que já lhe deu dois sportinguistas, o Manel, de nove anos e a Maria, de quatro.
Almoçamos no Casa 21, no piso da tribuna presidencial do Alvalade XXI, um restaurante concessionado à Casa do Marquês, empresa de catering de José Eduardo, decorado com quadros da autoria de Jordão – o que não deixa de ser comovente, porque, quando ambos eram futebolistas, o actual empresário da restauração partiu (sem querer) a perna ao actual pintor.
Os maus resultados do último exercício (prejuízos superiores a 13 milhões de euros) da SAD leonina não desanimam Miguel: “As pessoas pensam que a crise não chegou ao futebol, mas estão enganadas. As grandes empresas reduziram o investimento, diminuiu o número de espectadores e há menos transacções de direitos desportivos. Além disso, temos estado a segurar os talentos. Nas últimas três épocas, apenas vendemos o Nani”.
Miguel garante que o Sporting está “no trilho certo”, tem uma das melhores academias do Mundo, é o clube português com mais capacidade de gestão, tem um presidente “que combina experiência, profissionalismo e paixão”, e, excepção feita ao tempo dos Cinco Violinos, vive o período de maiores sucessos desportivos da sua história.
Este optimismo alarga-se à sua análise da competividade da indústria portuguesa de futebol: “Está provado por A + B que sabemos fazer talentos mundiais neste sector”, diz, acrescentando que, no entanto, “é preciso aprofundar a profissionalização a todos os escalões, não só os clubes, mas também liga, federação e associações”.
“Os jovens gestores devem poder encarar o futebol como um sector para fazerem a sua carreira, igual a qualquer outro, como a informática, finanças ou distribuição. Se os jogadores, treinadores e directores desportivos circulam por todo o Mundo, porque não acontecerá o mesmo com os gestores?”, pergunta.
Há, no entanto, um pingo de irracionalidade a turvar este raciocínio, já que Miguel declara, sob palavra de honra, que “seria absolutamente incapaz de trabalhar no Benfica”, afirmação susceptível de embaraçar Domingos Soares de Oliveira, o sportinguista que é responsável pelo pelouro financeiro na administração do Benfica.
“Nesta área só me vejo a trabalhar no Sporting. O profissionalismo é o mesmo, mas há a componente da paixão. É um prazer enorme trabalhar no meu clube de sempre”, concluiu Miguel, que, apesar de ser filho de um benfiquista, é o sócio 10 184 do Sporting e foi um dos fundadores da Juventude Leonina.
Jorge Fiel
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Casa 21
Estádio Alvalade XXI (ao lado porta 4)
2 couvert … 6,00 euros
2 choquinhos à algarvia… 25,00
2 buffet fruta e doce … 10,00
1 água Vitalis 1 l .. 2,00
1 Quinta do Castro tinto … 22,00
2 cafés … 2,00
Total … 67,00 euros
O beijo na cara tem muito que se lhe diga. Os lisboetas usam o beijo único. Eu, que sou parolo, habituei-me de pequeno a dar dois beijos. Apesar de frequentemente ficar pendurado, por a face já lá não estar quando vou dar o segundo beijo, mantenho-me fiel ao beijo stereo, tanto mais que os franceses dão três beijos e são os maiores especialistas mundiais em questões de etiqueta.
Mas estou a encarar a hipótese de congelar esta prática por causa da terrível interpretação do art. 283º do Código Penal feita pelo Rui Pereira de Melo, da Abreu & Associados.
O 283 determina que quem propagar uma doença contagiosa arrisca-se a passar na choldra entre cinco (contágio por negligência) a oito anos (caso se prove ter havido intenção).
Na douta opinião do Melo, o 283º aplica-se ao contágio da gripe A. Ou seja, se eu, sem saber, estiver a chocar o H1N1 e o transmitir a alguém através dos beijos stereo, estou sujeito a ser posto à sombra até 2014.
A gripe A tem muito que se lhe diga. O Paulo dos Marques, consultor do Governo, prevê que dentro de um mês haverá tanta gente no país com gripe A como pobres no Norte – ou seja, um cerca de um milhão.
Os lojistas do Freeport acusam a gripe A de lhes estar a dar cabo do negócio, apesar da publicidade suplementar que o PSD e a TVI têm feito ao seu outlet.
O presidente da Associação Portuguesa de Seguradores teme que as suas associadas abram falência se os seguros de saúde tiveram de cobrir as despesas provocadas pela gripe A (apesar de eu já ter ouvido médicos garantirem que ela se cura com quatro euros e uns dias de cama).
O BCP identificou a gripe A como a grande ameaça à sua actividade no 2º semestre e a ministra da Saúde adverte que as crianças com febre serão impedidas de entrar nas escolas (será que vamos ter à entrada alguém a pôr-lhes a mão na testa ou a enfiar-lhes um termómetro?).
A gripe A tem todo o aspecto de ser um caso muito sério, o que me deixa um bocado aborrecido por ninguém das minhas relações ter sido (ainda, acrescento com uma réstia de esperança) vítima dessa praga.
Mesmo da gente que só conheço dos Media, não sei de ninguém com a Gripe A – nem a Moura Guedes, nem a Nereida, nem a Cláudia Jacques, nem o advogado do Relvas, nem a Melanie Laurent (na fotografia) nem a ex-mulher do Carlos Queiroz, nem o Malato, nem o Ricardo Salgado, nem a Elsa Raposo ou Jorge Coelho.
É por isso que às vezes dou por mim a pensar se não estaremos a ser vitimas de uma gigantesca partida, e se a pandemia da Gripe A não será uma nova caçada aos gambozinos, uma espécie de Pai Natal dos tempos modernos, inventados pela LPM do Obama para afastar o espantalho da crise da cabeçalhos dos jornais e das aberturas dos telejornais…
Jorge Fiel
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É natural que uma miúda que cresceu no Seixal, num quarto com vista para as chaminés da Siderurgia e do Barreiro, se torne numa militante ambientalista. Susana, 35 anos, leva o assunto muito a sério. Não depila as axilas nem se adorna com brincos ou anéis, dispensa maquilhagem e não usa secador de cabelo. Anda quase sempre de transportes públicos ou à boleia. Fecha a torneira enquanto se ensaboa ou escova os dentes, e guarda num balde a água que sai do duche antes de ficar morna; “Sempre é uma descarga a menos que faço no autoclismo”, explica.
“Compro o mínimo de roupa possível, prolongo ao máximo a vida de todos objectos, como o esfregão da louça, não deixo nada em stand by, só uso lâmpadas energeticamente eficientes e mesmo assim a minha pegada ecológica é excessiva. Se toda a gente tivesse o mesmo padrão de consumo, os recursos do planeta não chegavam”, afirma a frugal Susana, que apenas é desregrada no consumo de fruta – é capaz de comer, de uma vez só, um kg de cerejas ou meia melancia.
Almoçamos numa esplanada, no Seixal, junto à marginal do Tejo onde ela corre três vezes por semana com o marido, um engenheiro que trabalha na área informática. A banda sonora da refeição foi 100% portuguesa, mas variada - desde Paulo de Carvalho até ao inesquecível “Não venhas tarde”, de Carlos Ramos, passando pela “Balada da Rita”, de Sérgio Godinho (“aviso-te, a vida é dura, põe-te em guarda”).
Susana serviu-se só uma vez, apenas deixou ficar no prato dois pequenos pedaços de camarão (não gosta de marisco) que enriqueciam a feijoada (que partilhamos) e ficou contrariada por a água (natural) vir numa garrafa de plástico. “Em vez de embalagens reutilizáveis, aposta-se reciclagem, que desculpabiliza as pessoas, mas consome mais recursos”, comenta.
“Consumimos muito, não temos coragem de usar transportes públicos e comemos proteínas a mais. Devíamos comer menos e de melhor”, afirma a presidente da Quercus, que não bebe café e prefere sempre os produtos nacionais, por razões ecológicas.
Licenciada em Sociologia, calcula ter pronta em Maio a tese de doutoramento, sobre eficiência energética, baseada no trabalho das Eco-Brigadas da Quercus que vão gratuitamente às casas das pessoas e, após uma auditoria, aconselham medidas concretas para reduzir a conta da energia. “Temos dificuldade em encontrar pessoas que queiram poupar”, ironiza, com alguma amargura, a propósito do serviço não ser muito solicitado.
Na última Primavera, a vida dela levou uma volta. Foi mãe pela primeira vez , uma semana depois de ser eleita presidente da Quercus, que tem 18 núcleos regionais, 20 profissionais e 14 mil sócios, dos quais apenas uma minoria (quatro mil) paga a quota de 20 euros/ano e contribuiu assim para o orçamento anual da associação ambientalista, que ronda o milhão de euros.
Susana é uma mãe muito económica, logo a começar pelo curto nome que deu à filha (Ana) e a acabar no facto da bebé usar roupas, cadeira, alcofa e carrinho emprestados, passando pelo uso de fraldas de pano e do aproveitamento para descargas da água de lavar os biberões, que são (obviamente) de vidro. Provavelmente, Ana vai ser filha única. “Promover a natalidade é olharmos para o umbigo. Já há gente a mais no planeta”, avisa a mãe dela.
Susana não acredita que a crise tenha o efeito regenerador de corrigir os excessos: “A crise é muito suave para mudar os hábitos das pessoas. São precisas mudanças radicais. Não deixa de ser irónico que numa sociedade onde se consome desvairadamente, a boa notícia que anuncia o fim da crise seja a subida do indicador do consumo das famílias”.
Filha de um trabalhador da construção civil e de uma doméstica que andou nas limpezas, cedo começou a poupar, não só por necessidade, mas também por militância. Quando puseram um caixote, junto à sala dos professores, para recolher papel para reciclar, ela até as embalagens do açúcar e farinha levava de casa, apesar de ter apenas 15 anos e demorar 20 minutos a pé a chegar à escola do Fogueteiro.
Susana não mudou. À despedida, junto ao cais do Seixal, reparei que tinha trazido a garrafa de plástico da água – para a reutilizar.
Jorge Fiel
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O Bispo
Praça da República 2, Seixal
2 águas 0,5 l … 2,00 euros
1 feijoada de chocos… 6,00
1 café .. 0,65
Total … 8,65 euros
Em toda a minha vida, o único bem palpável que roubei foram livros. Parei com essa actividade ilícita algures em 1973, depois de ter sido apanhado a sair de uma livraria com um livro sobre os Fedayin entalado no sovaco e dissimilado (pelo visto mal) no interior de um casaco aos quadrados igual ao usado pelos pescadores, que estava muito em voga à época.
No essencial, roubava livros com a louvável intenção de sustentar o programa básico de formação política dos colegas de liceu que tencionava recrutar para os Círculos Vermelhos (estruturas estudantis semi-legais dirigidas pela trotskista LCI), que contemplava a Introdução à Teoria Económica Marxista, de Ernest Mandel, Estado (um ensaio do Lenine e outro do Trotsky), e Combate Sexual da Juventude, de Wilhelm Reich – a leitura era aconselhada por esta ordem, que podia ser invertida se a potencial recruta fosse uma tipa gira.
A recordação de um pecadilho antigo vem a propósito da afirmação, produzida por Ferraz da Costa, de que em Portugal “se rouba muito” e “o país não tem dimensão para se roubar tanto”.
O presidente do Fórum da Competitividade emergiu da semi-clandestinidade em que mergulhou quando abandonou a CIP, em 2001, para denunciar a excessiva dimensão da roubalheira, aproveitando a oportunidade (uma entrevista ao Expresso) para fazer um diagnóstico severo do estado de saúde mental de Manuel Pinho (“toda a gente sabe que ele é maluco”).
Ferraz da Costa é muito capaz de ter razão quando aponta o roubo como uma das causas da nossa aflitiva perda de competitividade. Entre 2005 e 2009, caímos oito posições, de 9º para 17º lugar, na UE 27, no ranking da Competitividade Global do Fórum Económico Mundial.
Questionado sobre quem rouba, Ferraz deu uma resposta inteligente: “Todos os que podem”. Se a apropriação indevida de dinheiros e bens está limitada a quem tem poder para o fazer (e a sua punição depende de uma Justiça gravemente doente), já o roubo de tempo está ao alcance de toda gente e temos de o combater, pois, como nos avisa sabiamente Jim Rohn, um especialista em motivação, “o tempo é mais valioso do que o dinheiro, porque podemos ganhar mais dinheiro, mas não podemos ganhar mais tempo”.
Para sermos mais competitivos, temos de aprender a gerir o tempo, saber privilegiar o prioritário ao urgente, reeducar os ladrões de tempo que não sabem trabalhar, promover a pontualidade, castigar os atrasados que nos fazem perder tempo, e expurgar as empresas dos abusadores de tempo que as infestam.
Chegado ao fim, espero que consideram bem empregue o tempo investido na leitura desta crónica. A última coisa que eu queria era roubar-vos tempo.
Jorge Fiel
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Foto Helder Capela
Não é preciso ser um Einstein para adivinhar que Carla não vai votar Sócrates. A animosidade é recíproca. Ela não seria reeleita bastonária, nas eleições do próximo sábado na Ordem dos Notários, se isso dependesse do voto do primeiro ministro.
A bastonária acha que o Governo faz a vida negra aos notários por não concordar com a sua privatização, decidida pelo anterior executivo laranja. Mas o facto de, em Abril, Carla ter enviado a todos os notários um pedido de informações sobre escrituras envolvendo Sócrates e seus familiares não ajudou nada a aliviar a tensão entre o S. Bento e a Ordem.
“Cinco notários já pediram para regressar à Função Pública, uma possibilidade que está em aberto até Fevereiro. Estou convencida de que a maioria dos meus colegas aguarda o resultado das legislativas para decidir se ficam como notários”, afirma Carla Soares, nascida há 44 anos em Lobito, Angola, que escolheu almoçarmos no Origami, um japonês da zona da Expo, onde ela mora desde 1999, quando regressou da Madeira, onde iniciou a carreira como notária, após oito anos na advocacia.
Nativa do signo Leão, auto-retrata-se como “frontal, transparente, voluntariosa, empenhada e talvez ousada”, sendo que o talvez é um toque de modéstia. Como é “naba na cozinha” gosta muito de ir a este japonês com o filho, que apesar de só ter dez anos gosta de peixe cru e considera o Origami melhor que o Aya.
A relação entre a oferta e a procura dos notários inverteu-se de forma dramática. Quando Carla tomou posse do cartório da rua da Madalena, em Lisboa, em Outubro de 2002, tinha 11 funcionários e fazia 40 escrituras/dia.
“Em pouco tempo, com os mesmos funcionários, fazíamos uma média de 300 escrituras por dia. Havia pessoas que vinham do Barreiro e traziam-nos medalhas benzidas para agradecer terem conseguido vez tão rapidamente”, diz.
O panorama mudou radicalmente, com a privatização dos notários, a duplicação das licenças (o mapa dos cartórios existente em 2005 estava em vigor desde 1960) e o Simplex.
Há cinco anos, dava-se gorjeta para marcar uma escritura. Hoje os cartórios estão às moscas. O andar que Carla comprou na av. Liberdade para instalar o seu cartório só está parcialmente ocupado. Tem oito postos de trabalho, mas só duas funcionárias – e subaproveitadas. “Muitos colegas já só têm um funcionário e, quando ele está de férias, vão atender para o balcão”, conta.
A privatização não só aumentou a oferta, mas também alargou a outros (advogados, solicitadores, câmara de comércio) a capacidade de fazer contratos que era exclusiva dos notários.
Como se isto não bastasse, a bastonária queixa-se da concorrência desleal feita pelas conservatórias públicas. Antes da privatização, os notários faziam os contratos e as conservatórias registavam-nos. Agora estão numa concorrência, que ela não considera saudável.
“Um cidadão que recorra ao Casa Pronta, paga 300 euros, sem IVA, pelo contrato e registo. Ora a mim, só o registo custa 250 euros – o dobro do preço de há um ano”, exemplifica Carla, acrescentando que desde que o Simplex se iniciou, em 2006, as receitas dos notários caíram 78,3%, (só em 2008 a quebra foi de 41,5%).
“A maneira como o Simplex foi feito está a esganar os notários e a diminuir as receitas do Estado. O Ministério da Justiça vai ter pela primeira vez de ir buscar dinheiro ao Orçamento de Estado, já que as suas receitas directas caíram no último ano 100 milhões de euros, apesar de o número de actos jurídicos ter aumentado”, acusa a bastonária.
“Os portugueses é que vão pagar essas brincadeiras da Casa Pronta e da Empresa na Hora, promovidas por um Governo que só se preocupa com o mediatismo e em fazer demagogia, sem medir as consequências do que faz”, conclui esta mulher envolvida numa guerra sem quartel com Sócrates. Um deles (pelo menos) vai perder nas eleições deste mês.
Jorge Fiel
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Origami
Alameda dos Oceanos, Ed. Lisboa, Parque das Nações, Lisboa
2 buffet … 29,60 euros
2 copos de cerveja… 3,80
2 cafés .. 2,40
Total … 35,80 euros
Apesar de ter sido bastante acidentado, não tenho razão de queixa do curso de História que fiz na Faculdade de Letras de Universidade do Porto, entre os anos lectivos 75/76 e 79/80.
Foi agitado logo do princípio. As aulas a começarem apenas em Fevereiro de 1975. No primeiro ano, havia uma lista de cem cadeiras, a escolher à vontade do freguês e se podiam ir fazendo ano após ano, mais ou menos arbitrariamente. Podíamos arrancar o curso com a seguinte combinação de cadeiras, tão interessante quanto desirmanada: Cronologia da Idade do Bronze Peninsular, História da I República, Introdução à Sociologia e Movimentos Populares na Idade Média.
Em todos os anos seguintes o plano de curso foi alterado, sendo que a mais profunda das mudanças ocorreu nas férias de Verão, a seguir a eu ter passado para o 5º ano. Estava a banhos no Carvoeiro quando soube que o curso tinha minguado para quatro anos.
Passei as férias na dúvida sobre se já teria ou não acabado o curso quando na rentrée, há precisamente 30 anos, me foi explicado que tinha sido achado uma solução do tipo salomónica.
O curso, que era suposto ser de cinco anos e acabar em Junho de 1980, encolheu para quatro anos e meio e a sua conclusão foi antecipada para Janeiro, para não prejudicar os meus colegas que curso que queriam ir dar aulas e assim não teriam de concorrer ao mesmo tempo que os do ano anterior.
Nos cinco anos, mal medidos, em que andei na faculdade aprendi que mais importante do que estudar (decorando factos inúteis, que a memória cedo enviaria para o arquivo morto) era aprender a estudar.
Em 1980 saí da faculdade equipado com um preciosa ferramenta, que consiste em saber procurar e relacionar os factos, peneirar e calibrar a informação, de modo a poder pô-la em perspectiva e permitir assim que ela nos ajude a perceber o passado, compreender o presente e tentar ver o futuro.
Desde que acabei o curso, o mundo nunca mais tirou o pé do acelerador. Numa semana, o New York Times publica mais informação do que a que Luís de Camões recebeu em toda vida. Calcula-se que em 2009 serão produzidos quatro exabytes de informação, mais do que em todos os cinco mil anos anteriores.
A informação técnica duplica todos os anos, o que quer dizer que, num curso de quatro anos, quando o aluno chega ao 3ª, metade do que aprendeu no 1º já está desactualizado.
Neste mundo o papel da escola é ensinar-nos a estudar, pensar, trabalhar - e a perceber à primeira o que Sun Tzu queria dizer quando há 2 500 anos escreveu: :”Não é preciso ter os olhos abertos para ver o sol, nem é preciso ter os ouvidos afiados para ouvir o trovão. Para se ser vitorioso, é preciso ver o que não está visível”
Jorge Fiel
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Quando era miúda e estava na praia da Luz com os pais, mal dava por turistas italianos, ia logo pôr a toalha ao pé deles, só para os ouvir falar. Este fascínio antigo pelo italiano só pode ter influenciado o entusiasmo que o movimento Slow Cities (ou melhor, CittaSlow) lhe despertou, ao ponto de, em 2003, ter metido os ombros à empresa de o trazer para cá.
“Hoje não se vive – corre-se. Não podemos deixar que a globalização nos uniformize e transforme em autómatos”, declara Ana Albuquerque, uma jurista de 45 anos que trabalha em S. Brás de Alportel, uma das quatro cidades portuguesas, todas algarvias (as outras são Lagos, Tavira e Silves), certificadas pelo movimento.
Preservar e melhorar as cidades onde se pode levar uma vida tranquila é, em síntese, o programa do movimento, nascido em 1999, em Orvieto (Itália), na esteira do imenso sucesso do Slow Food, o seu irmão, dez anos mais velho.
Mais de 70 pequenas cidades (está vedada a entrada a capitais e a cidades com mais de 50 mil habitantes), no seu essencial europeias (mas também as há da Austrália e Coreia do Sul), integram este movimento, após a sua candidatura ter sido passado a pente fino pelos inspectores do Citta Slow, que a analisam à luz de 55 critérios, onde constam hospitalidade, política ambiental, história e a preocupação em não deixar morrer as tradições locais.
Ana não é algarvia. Aliás não é fácil dizer de onde ela, pois nasceu em Coimbra, filha de uma açoriana, mas aos quatro meses mudou-se para Lourenço Marques, onde o pai, professor de Química, foi dar aulas. Aos seis entrou para a primária em Londres, onde o pai fazia o doutoramento. E aos dez, por obra e graça do 25 de Abril, estava de volta a Coimbra, onde se licenciou em Direito e casou com um agente imobiliário que crescera em Angola. Aos 28 anos foram para o Algarve em busca de um clima mais próximo do africano.
Agora, ao fim de 17 anos no Algarve, está a pensar trocar S. Brás de Alportel pelo Porto, por causa da sua filha. Leonor, 11 anos, é futebolista na Sociedade 1º Janeiro, mas deu nas vistas (não só no futebol mas também no atletismo, pois ganhou a Milha do Dragão) no campo de treinos do FC Porto, ao ponto de receber convites para se mudar para o Norte – hipótese que agrada à mãe, uma portista ferrenha, que está a reactivar a Casa do FC Porto do Sotavento e dá os primeiros passos como empresária, lançando colecções de vestuário feminino e puericultura (0-4 anos) licenciadas pelos três grandes.
Escolheu almoçarmos no António, em cima da praia de Porto de Mós (Lagos). Aceitamos a sugestão de ementa do empregado e ela escolheu a bebida. “Da última vez que estiveram cá os italianos, no final de um jantar na Meia Praia regado a sangria de espumante, eu já era fluente em italiano”, gracejou.
Como o Slow Cities usa o caracol como símbolo, não é de espantar que o almoço tenha demorado três horas. A salada de camarão foi servida na sala, mas entretanto vagou uma mesa na esplanada, onde comemos a corvina.
“Ser Slow City ajuda a captar turistas. Mas o objectivo é a qualidade de vida dos residentes – não é uma cidade onde seja óptimo fazer férias e tirar fotografias bonitas, mas péssima para viver”, explica.
O princípio é ser movimento de base, em que as ideias e soluções partam das comunidades. “Temos de acabar com a mentalidade do ‘isso não é connosco, é com o Estado’. O Estado somos nós!”, diz, antes de desfiar um catálogo de coisas estão a ser feitas.
Dá o exemplo da cidade italiana que tornou os horários dos serviços públicos mais amigáveis para os cidadãos que trabalham, abrindo-os aos sábados de manhã. Da que acabou com a poluição visual das antenas de televisão. E da outra que aplica uma taxa aos munícipes que produzam mais lixo que o permitido.
Fala de coisas grandes, como restaurar os centros históricos e vedá-los ao trânsito automóvel, mas também de coisas pequenas, como acabar com a poluição sonora dos sistemas de alarme ruidosos. E conta, com orgulho, que no próximo ano lectivo, as ementas das escolas de S. Brás de Alportel vão incluir, duas vezes por semana, pratos algarvios.
Jorge Fiel
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O António
Praia de Porto de Mós, Lagos
Salada de camarão … 24,00 euros
0,6 kg corvina … 19,14
Sangria Murganheira 24,50
2 cafés .. 1,90
Total … 69,54 euros
Desatei a ler e reler romances do Maigret. O pretexto foram cinco dias em Paris, onde fiquei no Ibis Bastille, junto ao boulevard Richard Lenoir, onde o comissário habita, nos policiais de Simenon, o belga a quem os biógrafos creditam ter escrito mais de 400 livros e dormido com mais de dez mil mulheres (a primeira estatística é bem mais verificável que a segunda).
Fascina-me a maneira como o comissário resolve os mistérios usando o instinto e o conhecimento psicológico das pessoas envolvidas na intriga, e das relações entre elas - ao contrário dos seus sucessores que apanham o culpado porque o laboratório identificou o ADN de um pêlo inadvertidamente deixado no local do crime.
No mundo de Simenon, que era a cores mas nós imaginamos sempre a preto e branco, toda a gente usa chapéu, Maigret bebe vários copos de branco antes do meio dia, abusa do Calvados e fuma cachimbo no autocarro, e nem toda a gente se pode dar ao luxo de ter em casa um telefone que está agarrado à parede por um fio. O emprego e o casamento eram ambos para vida, neste mundo a que sou transportado todos os dias por um livro da colecção Vampiro.
A invenção da pílula, os fabulosos Anos 60, o Maio francês, a Internet e os telemóveis sepultaram este mundo de Simenon num lugar tão distante, em anos e valores, como a Idade Média, o que é enganador porque eu ainda me lembro de dar corda ao relógio, de haver escarradores nos cafés e barbeiros – e da festa que foi lá em casa quando o meu pai comprou pela primeira vez um televisor para vermos os jogos do Mundial de 66.
O mundo está a mudar a uma tal velocidade, que o US Labor Department calcula que os estudantes actuais vão ter entre dez a 14 empregos diferentes antes de fazerem 38 anos.
Foi neste mundo em desvairada mudança, em que 15% das pessoas que casaram o ano passado nos EUA se conheceram na Net, que Cavaco vetou a lei das Uniões de Facto, por considerar “inoportuno” fazer alterações de fundo no final da legislatura.
JP Morgan, o fundador do banco homónimo, dizia que um homem tem sempre dois motivos para fazer o que faz – um bom motivo e o verdadeiro motivo.
Dar uma ajuda à sua amiga Manuela, ao acentuar a guerrilha com o Governo, é o bom motivo do veto. Mas o verdadeiro motivo é que Cavaco ultrapassou o prazo de validade, o que até se compreende, pois quando ele deixou de ser primeiro ministro ainda íamos a um dicionário ou à enciclopédia esclarecer as 31 biliões de dúvidas mensais que hoje são resolvidas pelo Google.
Cavaco não é do tempo das SMS e iPods, mas sim um bocado do mundo de Simenon que sobreviveu até à era do Facebook. Por isso, não estranho que agora, quando olho para ele, o vejo a preto e branco.
Jorge Fiel
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Foto António Pedro Valente
A lenda de Endovélico e o santuário com a pedra onde se faziam os sacrifícios a este deus pagão, representado com cara de javali, são uma das contribuições de Terena para o programa da semana de visita a três aldeias das Terras do Grande Lago, um dos produtos que estão a ser desenhados pela Rede de Turismo de Aldeia do Alentejo, presidida e inventada por Apolónia Rodrigues.
Durante essa semana no Alqueva (o maior lago artificial da Europa, com uma linha de margem equivalente à costa portuguesa), o turista vagabundeará entre as aldeias de Terena, Juromenha e Telheiro, dormindo em casas de turismo rural e alimentando barriga e espírito com gastronomia e tradições locais. Poderá, ainda, andar a cavalo, frequentar work-shops de ervas aromáticas, iniciar-se nos mistérios dos monumentos megalíticos, ouvir os pássaros, ver as estrelas e dar passeios de barco ao luar.
“Não estamos a fazer mais do mesmo, mas a criar elementos diferenciadores. A nossa oferta está nos antípodas do sol/praia/discotecas e dirige-se aos culture criatives, gente com 35 a 45 anos e grande poder de compra, que procura a Natureza e quer uma oferta de serviços de alta qualidade em destinos não poluídos”, explica Apolónia, 36 anos. licenciada em Gestão e Planeamento de Turismo pela Universidade de Aveiro.
As palavras parece que têm pressa em sair da boca desta nortenha, que há onze anos se mudou para o Alentejo (mora em Borba e trabalha em Évora) e de cuja cabeça saiu este projecto coqueluche – ganhou o Prémio Ulisses, da Organização Mundial de Turismo, e é case study para a OCDE, como exemplo de turismo cultural, e para o Ministério da Agricultura, como exemplo de turismo rural - e lhe valeu a eleição para a Comissão Executiva da rede do programa Eureka Tourism.
O prolongamento inesperado da sua estadia na Palestina, onde esteve a convite da Autoridade Palestiniana, interessada em importar o conceito de turismo de aldeia e sustentabilidade que ela criou, levou ao adiamento do nosso almoço por uma semana.
Apolónia escolheu o Dom Joaquim, restaurante que não podia estar mais na moda, pois a nossa conversa está foi sobressaltada pelo bruá da chegada de Sócrates e comitiva, que na 3ª feira desceram ao Alentejo no âmbito do programa de requalificação dos edifícios escolares.
Preferiu água (“hoje à tarde vou ter de guiar”, disse) para acompanhar o bacalhau à lagareiro, mas disponibilizou-se para escolher a marca do copo de vinho tinto que bebi. À sobremesa, hesitou antes de encomendar o doce de abóbora - temia que ele estivesse muito doce, mas o receio acabou por revelar-se infundado. Não bebeu café, o que se compreende, pois é daquelas pessoas que parecem possuídas por bichinhos carpinteiros.
Aproveitar o turismo para evitar a morte das aldeias e desenvolvê-las é a base deste projecto, que reúne 15 aldeias alentejanas e foi a barriga da gestação da rede europeia com o mesmo espírito (de que ela é também é fundadora e presidente, que agrupa 50 aldeias romenas, italianas, polacas e finlandeses, sob a marca Genuineland - a que acabam de aderir a Toscânia, Piemonte, um região grega e outra eslovena.
“Nós temos o know how e dominamos o conceito. Cada aldeia é um mini-destino a desenvolver. O essencial é a sustentabilidade – cultural, social, ambiental e económica. Não se pode cometer o erro de arranjar as pedras e esquecer as pessoas”, afirma Apolónia.
Logo que manifesta interesse em aderir à rede, a aldeia é submetida a uma espécie de TAC, que permite fazer o diagnóstico, identificando lacunas e pontos a valorizar (tradições, espiritualidade, paisagem, história, edificado, etc). Se não há restaurante ou alojamento, a rede encarrega-se de arranjar investidores..
“O turista é cada vez mais exigente. O território e a paisagem que vendemos têm de estar preservados, não podem ter lixo e devem estar habitados por comunidades felizes e com qualidade de vida”, remata Apolónia, que tanto se preocupa com as férias dos outros que acaba por não ter tempo para ela própria ir de férias.
Jorge Fiel
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Dom Joaquim
Rua dos Penedos 6, Évora
Cesto de pão … 1,60 euros
Torresmos rissol … 3,20
Azeitonas … 1,00
Bacalhau à lagareiro …12,50
Polvo assado … 12,50
2 águas 0,75l … 3,00
1 copo tinto Herdade Sobreira … 4,50
1 doce de abóbora … 3,20
1 café 0,90
Total … 44,40 euros
Nunca fui às Caraíbas, mas creio não mentir se vos disser que nos últimos dias o Zavial até parece as Caraíbas – sem ponta de vento e com a água do mar claramente acima dos 20º. Um paraíso!
O Zavial é a praia onde tenho o hábito de passar 15 dias de férias. Na minha contabilidade, os tradicionais contras da costa vicentina (água fria e vento) são superados por estar numa casa a 200 metros da praia, num percurso perfumado pelas figueiras - e todas as noites perceber o porquê da expressão Via Láctea.
Não haver urbanizações à vista do alpendre onde leio, converso, como e jogo king, tendo como banda sonora o coaxar dos sapos, o zurrar dos burros e o cri-cri dos grilos, ajuda a suportar que a Natureza também nos tenha dado moscas, melgas e mosquitos.
Esta doce vida foi perturbada pela notícia de que hoje pode chover. Um drama, porque tudo o que de bom o Algarve tem desaparece com a chuva, que até os golfistas afecta.
Há três anos, andei dez dias em reportagem a apurar qual dos dois lados do Guadiana era o melhor destino de férias. Na qualidade das praias, o Algarve derrota a Costa del Sol por KO, logo ao primeiro assalto. Mas no resto, os espanhóis ganham-nos aos pontos, a começar pelo preço e acabar na qualidade de serviço, passando por aquilo que acho essencial: o que fazer quando chove.
Na Costa del Sol, os pontos de interesses cultural e histórico multiplicam-se como cogumelos depois de chuva. Há Gibraltar, um pedaço de Inglaterra, enxertado no sul de Espanha, com o atractivo suplementar dos macacos que habitam no topo do Rochedo. Há Ronda, a uns 50 km do litoral, uma pequena jóia com a sua ponte Nueva, que une as duas partes da cidade separadas por uma fantástica garganta. Há Málaga e o seu Museu Picasso, com 200 obras do mais importante artista plástico do século XX.
Do lado de cá do Guadiana, a programação Allgarve, os Abba Gold em Vilamoura e os veleiros da Audi Cup ao largo de Portimão, sabem a pouco. No Algarve, quando chove ficamos todos a olhar uns para os outros sem saber o que fazer, senão ir entupir a 125 e desesperar a procurar estacionamento junto a um centro comercial.
Ora isso é mau porque o turismo é um sector vital da nossa economia, que vale 11% do PIB e 10% do emprego - e só o Algarve representa 1/3 destas receitas.
Por isso, das duas uma. Ou equipamos muito rapidamente o Algarve de uma oferta permanente de pontos de interesse histórico e cultural. Ou então teremos de garantir aos turistas a cobertura do risco de aguaceiros - como a Lufthansa que se comprometeu a pagar 20 euros/ dia em que chova nos destinos que vende com o atractivo de serem solarengos.
Jorge Fiel
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Joana é daquelas mulheres tesas, grandes e duras, que nunca desarmam e têm sempre pronta, na ponta da língua, a resposta para tudo.
Confrontada com o aviso do bastonário para que os jovens fujam dos cursos de Direito, porque o mercado está encharcado de advogados (há 27 mil), a presidente da ANJAP (Associação Nacional dos Jovens Advogados Portugueses) responde: “Enquanto houver trabalho de advogado a ser feito por contabilistas, mediadores imobiliários e agentes funerários não há advogados a mais”.
Marinho Pinto escorou as duras críticas ao aumento das vagas nos cursos de Direito (de 1 190, em 2008, para 1 230, em 2009) nas estatísticas: em Portugal há um advogado por cada 350 habitantes, enquanto na França há um por 1 800, na Áustria um por 4 200 e na Finlândia um por 6 000.
“Numa sociedade ideal toda a gente devia ser licenciada em Direito para saber os seus direitos”, responde, com aquela cara fechada dos jogadores de poker, acrescentando que as saídas para os licenciados em Direito não se esgotam na advocacia: “Há notários, juízes, Ministério Público…”
Joana Pascoal, 31 anos, é de Sintra mas licenciou-se em Coimbra. Filha de um empresário da construção civil, a sua primeira ideia era ser diplomata, mas desistiu pois quando chegou a altura de concorrer já estava apaixonada pela advocacia.
Agora tem um escritório, que sobrevive com base num punhado de avenças. Pelo sim, pelo não, para alargar o leque de opções ao seu dispor, está a fazer uma pós graduação em Gestão na Católica.
Não faz Penal mas vai à barra. O seu primeiro caso foi complicado – um processo de interdição envolvendo pai e filho. Começou no Centro de Meios Alternativos, o que a deixou fã das soluções arbitrais e da conciliação.
“Sou totalmente a favor dos meios alternativos. Não só ajudam a desentupir os tribunais, como ainda por cima são mais baratos. A justiça é muito cara e quem sofre com isso é a classe média. O ideal é que fosse gratuita, tal como o ensino”, preconiza.
Escolheu experimentarmos o conceito de cozinha sofisticada low cost inventado por José Avillez (o chef do Tavares) e corporizado no JA à Mesa, um restaurante recém inaugurado num pequeno e simpático pátio escondido, em Santos.
Como no dia seguinte ia ser madrinha do casamento, em Águeda, de uma antigo colega de curso, dispensou a sobremesa e acompanhou o frango thai com água do Luso.
Ajudar a inserir na profissão os jovens advogados, é a missão da ANJAP, fundada em 2001 e que reúne 2 700 jovens advogados (conceito móvel que abrange todos os que têm dez ou menos anos de prática), mas “a miséria é tanta” que apenas entre 20% ou 30% pagam regularmente as quotas, cujo montante não é exorbitante - 25 euros/ano para os advogados, 15 euros para os estagiários.
As relações com a Ordem são conflituosas. Pouco tempo depois dela ter tomado posse, há ano e meio, o bastonário cortou relações com a associação, após esta ter requerido ao Ministério Público a verificação da legalidade do regulamento que afasta os estagiários das defesas oficiosas.
Estágios e estagiários são o grande ponto de fricção. “Sou a favor de um exame exigente de admissão à Ordem. Mas quando se exige dez anos de prática para se poder ser patrono e se quer limitar o número de estagiários por patrono está-se, efectivamente, a introduzir numerus clausus de uma forma encapotada. O ingresso deve ser feito por mérito, mas não pode ser vedado o acesso a uma profissão liberal”, afirma.
Joana não perdoa ainda ao bastonário a ausência de apoio na cruzada legal para estabelecer a existência de vínculo na relação laboral entre as grandes sociedades de advogados e os jovens advogados com contrato de prestação de serviços.
“As nossas críticas ao bastonário não têm a ver com o seu estilo, mas com o conteúdo das suas posições”, esclarece Joana, que se declara insatisfeita com a morosidade da justiça (“gostava de saber porque é que demora tanto tempo”), a falta de transparência, o excesso de corporativismo, e o facto dela não estar organizada em função dos interesses dos cidadãos.
Jorge Fiel
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JA à Mesa
Largo Moreira Rato 14, Santos, Lisboa
Frango thai
Bacalhau à biscainha
Àgua do Luso
Cola light
2 cafés
Total … 17,00 euros
O pessoal quando vai a Paris não falha a Torre Eiffel, espreita a Notre Dâme e o Beaubourg, não dispensa o passeiozinho de bateau mouche, tira uma fotografia junto ao Arco do Triunfo, desce os Champs Elysées a assobiar a canção homónima do Joe Dassin, vagabundeia pelo Marais, inveja as montras da rue de la Paix, opina sobre as pirâmides do Louvre – e até pode arriscar um raide à ala Denon para ver a Mona Lisa e a Virgem dos Rochedos, redouradas com novo banho de popularidade por Dan Brown.
Faz isto tudo e faz lindamente, sendo mesmo de aplaudir os estóicos que não se importam de pagar duas horas e meia na bicha e oito euros para admirarem no Museu de Orsay a mais rica colecção de pintura impressionista e expressionista do Mundo.
Fazem bem em devorar tudo isto, mais o Quartier Latin, o Sacré Coeur, a Concórdia... Mas fazem mal em não reservarem uma hora para se deixarem encantar pela irresistível beleza dos vitrais da Sainte-Chapelle.
Se nós deixarmos, a luz transparente e colorida coada para o interior da capela, o seu céu estrelado, transportam-nos para sensações irreais, próximas das obtidas numa coffee shop de Amesterdão.
Apesar de não ser masoquista, custou-me que a meio da manhã de domingo, em Agosto, numa Paris habitada por mais turistas do que indígenas, tenha entrado na Sainte Chapelle dois minutos após lá ter chegado. Praticamente não havia bicha.
A Sainte Chapelle foi mandada fazer por Luís IX para servir de relicário à suposta coroa de espinhos de Jesus, comprada ao imperador de Constantinopla pela exorbitância de 135 mil libras - mais do triplo das 40 mil libras que custou a construção da capela.
Como é bom de ver, o rei beato foi enganado. A coroa era falsa. Mas se não fora a vigarice do Beduíno II, não existiria a Sainte- Chapelle.
Balzac dizia que por de trás de cada fortuna há um crime. Eu acrescento que por de trás de cada maravilha pode existir uma vigarice.
Não consegui apurar se há vigarice por detrás do Quai de Branly, o mais branché dos museus parisienses. Desconfio dos métodos usados pelos franceses para reunir a fabulosa colecção de 300 mil estátuas, roupas, máscaras, jóias, instrumentos musicais, etc, da Oceania, Ásia, África e Américas. Mas se não fosse a pilhagem, esta memória poderia ter desaparecido.
A propósito, e como contributo para a minha campanha contra a frase-fado “Isto só cá em Portugal!”, aproveito este elogio velado da vigarice para vos informar que a Sainte-Chapelle demorou seis anos a ser construída, no século XIII, e que a edificação do Quai de Branly demorou quase o dobro (onze anos) e importou em 250 milhões de euros.
Jorge Fiel
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Amanhã é dia de operar. Na sua rotina, 2ª e 4ª estão reservadas para intervenções cirúrgicas, 15 por dia, no Hospital de Stª Maria (Porto), um programa que começa às 8h30 e acaba quando acabar, normalmente por volta das 22 horas.
Mas para amanhã, estão marcadas duas operações que nada têm de rotina, pois será a primeira vez que em Portugal se vão fazer transplantes de meniscos de cadáveres para seres vivos.
O cirurgião será João Espregueira Mendes, 49 anos (mas aparenta menos), internato feito com 20 valores, o mais jovem doutorado em Ortopedia e o terceiro de uma ínclita geração de ortopedistas com este nome, iniciada pelo avô e continuada pelo pai.
Aproveitou as férias escolares, para almoçarmos a uma 5ª, dia cativado para dar aulas nas universidades do Minho e Porto. Às 4ª, dá 65 consultas e joga ténis. As 6ª são multiusos.
Escolheu o Líder, nas Antas, próximo do Estádio do Dragão, onde está instalada a Clínica de Saúde Atlântica, de que é accionista. Pediu a açorda de marisco e fez uma refeição frugal (não repetiu, nem tocou nos fritos do couvert) acompanhada a água.
Além de portista, é um dos maiores especialistas mundiais em cirurgia do joelho, com duas invenções no curriculum - um procedimento cirúrgico e um aparelho -, o que só pode ter pesado na sua eleição para presidente da European Society of Knee Surgery, Sports Trauma and Arthroscopy.
O novo aparelho (Porto Knee Test Device) serve para medir o grau de lassidão das roturas de ligamentos durante o TAC. O procedimento cirúrgico (GUT) consiste em enxertar na articulação do joelho uma cartilagem retirada da cabeça do perónio. Ele já fez 52 intervenções deste tipo e está convencido que poderia resolver o caso de Mantorras.
Dantes, os problemas no menisco eram resolvidos com a sua remoção. Quando se descobriu que isso provocava artroses, num prazo de 20 anos, começaram a ensaiar-se técnicas alternativas, de reparação e transplante.
“As lesões nas cartilagens custam mais dinheiro aos sistemas de saúde do que os enfartes e cancros. As operações mais praticadas no mundo são as próteses de anca e de joelho”, afirma.
O brutal crescimento de problemas com os ligamentos é filho directo das pessoas viverem mais tempo e praticarem mais desporto, sem grandes cuidados prévios – compram um par de sapatilhas e desatam a correr.
Espregueira acha que “não cabe da cabeça de um tinhoso” não haver em Portugal um instituto público de Traumatologia Desportiva, onde os cidadãos possam fazer uma avaliação médico-desportiva antes de se meterem em cavalarias. “Um tipo chega aos 40 anos, vê a barriga a crescer, inscreve-se num health club, sem ter de apresentar atestado médico, e faz exercícios, sem saber se o coração aguenta”.
A sua visão critica alarga-se à inexistência de prevenção, que tão bons resultados tem dado noutros países, como os Estados Unidos, onde a moda das adolescentes jogarem futebol provocou uma onda de lesões graves, pois as mulheres têm seis vezes mais risco de fazerem rupturas de ligamentos.
A pedido das autoridades norte-americanas, Espregueira ajudou a desenhar uma campanha de prevenção que em dois anos reduziu a metade (de 30 mil/ano para 15 mil) as intervenções cirúrgicas.
A campanha baseou-se na divulgação de um DVD que exemplifica exercícios simples de aquecimento (como saltar ao pé coxinho ou correr às arrecuas) a fazer duas vezes por semana e que preparam o cérebro para reagir um milésimo de segundo antes ao movimento da perna.
A mentalidade “a galinha da vizinha é mais bonita do que a minha” também é asperamente criticada. “Teimem em mandar atletas serem tratados lá fora, quando temos dos melhores especialistas mundiais nesta matéria. Tão bons que somos procurados por atletas estrangeiros”, concluiu Espregueira Mendes que amanhã vai transplantar meniscos de cadáver, oriundos de um banco internacional de órgãos, mas que, no nosso país, só pode treinar nos escassos mortos portugueses fornecidos pelo Instituto de Medicina Legal, porque a lei não permite a importação de cadáveres para ensino e prática de cirurgia.
Jorge Fiel
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Lider
Alameda Eça de Queiroz, 126
Couvert …4,00 euros
Açorda de marisco … 32,50
1 litro de água… 2,50
2 cafés …2,00
Total … 41,00 euros
Dantes, sempre que não conseguia escapar a um casamento ou funeral, ficava enrascado na hora de apresentar cumprimentos. Desejar felicidades ou entregar condolências sempre me pareceu um estereotipo frio – e eu sentia que tinha que dar mais. Se estava metido naquela encrenca era porque laços afectivos me ligavam aos noivos, morto, ou seus familiares.
Cheguei a ensaiar, sem sucesso, fórmulas prefabricadas para pronunciar nesse momento, que só deixou de ser, para mim, um doloroso transe quando fiz a sensacional descoberta de que afinal não é preciso dizer nada. A táctica consiste em deixar-nos ficar para o fim da fila e, chegada a nossa vez, actuar de uma das maneiras que passo a pormenorizar.
No casório, há que afivelar o ar mais feliz do Mundo, olhar, olhos nos olhos, a noiva e o noivo, e abraçá-los enquanto lhes murmuramos aos ouvidos uma frase estúpida, do estilo “Vais ver que o Ramires não vale a ponta de um corno” - dita de forma ininteligível.
No velório, há que compor um ar sombrio, baixar o olhar e aplicar um abraço, breve mas apertado, enquanto se murmura ao ouvido dos familiares do falecido uma frase a despropósito, do estilo “O barco para o Seixal apanha-se no Cais do Sodré” - pronunciada de forma arrastada.
O método está testado e é 100% eficaz. Naquela situação, as pessoas ouvem o que querem ouvir e traduzirão as frases despropositadas por outras, adequadas à circunstância.
Pode ficar tranquilo. Não passará pela cabeça de ninguém que está a aproveitar aquele momento solene para expressar a sua opinião sobre o mais caro reforço do Benfica ou prestar informações sobre os transportes fluviais no Tejo.
Ora o que é válido para casamentos e funerais também se aplica aos programas eleitorais dos partidos. Sem tirar, nem pôr.
Manuela Ferreira Leite tem toda a razão quando diz que os programas são uma inutilidade, porque quase ninguém os lê (diz ela) – e ninguém no seu perfeito juízo acredita no que lá vem escrito (digo eu). O pessoal dana-se é por saber as maroteiras que ela faz na confecção das listas.
Eu até estou disposto a acreditar que os políticos estão a ser sinceros quando fazem as promessas. Que Durão não mentiu de propósito quando jurou não aumentar os impostos . Que Sócrates acreditava que ia mesmo lançar a Ota e o TGV.
O problema não é o que eles dizem, mas sim o que os eleitores querem ouvir – e isso depende mais da credibilidade de quem diz do que das palavras que lhe saem da boca.
O problema é que vai haver drama se os políticos não escutarem o que um eleitor exigente escreveu num muro do Campo Alegre (Porto). “Queremos mentiras novas!”. E boas, já agora – acrescento eu.
Jorge Fiel
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O ano passado venderam-se em Portugal 2 170 462 computadores, três aparelhos de telex e duas máquinas de escrever. Quem sabe todos estes números, de ciência certa, não é o INE mas a sim a Associação Nacional de Registo dos Equipamentos Eléctricos e Electrónicos (ANREEE).
Esta associação, de acrónimo impronunciável (dificuldade que o pessoal da rádio contorna, de forma hábil, chamando-a ANR3Es: aeneérretrêsés), foi criada para fazer cumprir a directiva comunitária que torna obrigatória a recolha e tratamento de tudo (lâmpadas incluídas) que esteja ligado à corrente ou funcione a pilhas, o que engloba praticamente todos os objectos que nos facilitam a vida, como iPods, máquinas de lavar louça, aparelhagens sonoras, micro-ondas e fogões, máquinas fotográficas e por aí adiante.
O Big Brother que regista tudo quanto é ventoinha ou varinha mágica vendida no nosso país é José António Rousseau que. além do apelido, também tem o nariz e a testa de Jean Jacques, pelo que é provável que seja seu descendente - o inventor da teoria do Bom Selvagem tinha um irmão que veio para Portugal, fugido da Revolução Francesa, e se casou com uma moça de Viseu.
Rousseau foi advogado e uma espécie de jornalista (fundou e dirigiu a Distribuição Hoje) antes de passar três anos pela Sonae, onde, entre outras coisas, foi responsável pela abertura do Cascais Shopping.
Além de presidir à ANREEE, é também secretário geral da Associação Portuguesa das Empresas de Distribuição, o poderoso lóbi que agrupa 101 empresas, com vendas anuais de 14 mil milhões de euros (8,3% do PIB) e que representam 25 mil lojas e 87 500 trabalhadores.
O dia dele deve ter mais de 24 horas, pois além de gerir estas associações, está a escrever três romances a mesmo tempo, é um estudioso da obra de Pessoa (sobre quem escreve ensaios), dá aulas de Marketing da Distribuição no ISEG e IADE, publica regularmente obras técnicas e manteve o ar mais calmo do mundo durante as mais de duas horas que durou o nosso almoço no Luca.
Abriu com uma flute de espumante e após um rápida vista de olhos à lista escolheu os ravioli de camarão tigre, acompanhados por um Chardonnay da Quinta de Cidrô e sepultados por um Scropini (gelado de limão com vodka).
Rousseau está satisfeito com o estado das coisas no seu sector, onde, ao contrário do que acontece nas embalagens, há concorrência entre duas entidades certificadas para a recolha e tratamentos dos equipamentos.
“Atingimos antes do prazo a meta dos 4 kg per capita/ano de material recolhido”, revela. O sistema funciona de uma forma simples. Quando põe em nossa casa uma máquina de lavar roupa, a loja que a vendeu é obrigada a recolher a velha, e a enviá-la para reciclagem.
Escapam a esta malha os equipamentos mais pequenos, como torradeiras, que normalmente são atirados para o lixo comum – mas mesmo aí são separadas e recolhidas para serem decompostas.
O custo da operação é suportado pelos produtores, que o repercutem no preço de venda ao consumidor – uma quantia que pode oscilar entre os 50 cêntimos, no caso de um telemóvel, e os três euros, num frigorífico de grandes dimensões.
O programa de acção de Rousseau contempla aumentar a rede de recolha (já há pontos em todos os centros comerciais mas ele que os super e hiper também tenham) e trazer para dentro do sistema as mil pequenas empresas , valem cerca de 20% das quantidades vendidas no nosso país e ainda estão fora do sistema.
Ter uma base de dados, permite à ANREEE detectar as tendências de consumo, que estão em linha com o que sucede no resto da Europa – nos televisores por exemplo, vendem-se mais LCD do que plasmas.
“Esta crise não se está a fazer sentir nos electrodomésticos e electrónica de consumo. Há dois anos que se vem verificando um ligeiro mais continuado decréscimo nas vendas, porque o mercado está maduro e as famílias já estão equipadas. Em muitos lares há quatro a cinco televisões. Agora, a pessoas compram para retocar ou substituir o que se avaria”, concluiu Rousseau, que também escreve poesia e anda intrigado por em 2008 não ter sido declarada a venda de nenhuma slot machine.
Jorge Fiel
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Luca
Rua Santa Marta 35, Lisboa
1 Couvert …1,40 euros
1 flute Prosecco … 6,50
1 Lombo de atum… 12,30
1 Ravioli de camarão … 15,90
1 Quinta Cidrô Chardonnay … 16,00
1 Scropini … 4,00
2 Cafés …1,80
Total … 57,90 euros
Patrizia tem hábitos pouco saudáveis, como por exemplo o de fumar
“Devias fazer sexo sozinha, masturbar-te com mais frequência”. Quando li esta sugestão de Berlusconi a Patrizia D’Addario, a primeira coisa que me veio à cabeça foi que o primeiro ministro italiano estava preocupado com a eventualidade desta sua fornecedora de serviços sexuais apanhar a Gripe A.
Como a generalidade das pessoas anda apavorada com o H1N, os jornais listam precauções a tomar, dando conselhos tão curiosos como afastarmo-nos das multidões nos transportes públicos e evitarmos accionar portas ou maçanetas – um luxo apenas ao alcance de magnatas como Américo Amorim, que emprega um cavalheiro simpático, que além de motorista e guarda costas, o poupa a tarefas tão desagradáveis como abrir portas ou fazer telefonemas.
Afinal a recomendação do uso e abuso da masturbação não tinha nada a ver com as preocupações sanitárias que levam as autoridades a aconselhar substituir os beijos “por uma frase de saudação, quando muito acompanhada por um aperto de mão”.
A leitura das transcrições dos suculentos telefonemas de Berlusconi permitiu-me saber que ele propôs que a Patrizia se deixasse lamber por uma amiga, uma prática perigosa, pois ela podia estar infectada sem o saber, porque o vírus da Gripe A tem sete dias de incubação.
Além de tudo, seria altamente ruinoso para Patrizia se ela acatasse o conselho de fazer sexo sozinha, pois ela cobra cinco mil euros ao cliente, de cada vez que faz sexo acompanhada.
Os devaneios eróticos deste septuagenário - que apesar do seu curriculum de trafulhices logrou ser reeleito líder de um dos sete país mais ricos do Mundo pelos descendentes de Leonardo, Galileu e Dante – suscitam-me interrogações sérias sobre o quão desadequada e gasta está a democracia ocidental.
A sensação de que expirou o prazo de validade da velha frase batida de Churchill - “A democracia é o pior de todos os sistemas políticos, com excepção de todos os outros” - reforçou-se quando soube que o presidente francês e a sua esposa pop gastaram, em 2008, 760 euros por dia em flores – ou seja mais do que 80% dos portugueses ganham num mês.
Olho para o espectáculo da elaboração das listas de deputados, ouço o que se disse e fez no Chão da Lagoa, vejo o Porto a apagar-se e sem voz - apesar de ter gerado os dois mais notáveis empresários do país (Américo e Belmiro) e vibrantes e indiscutíveis pólos de excelência, como Serralves, a Universidade, o FC Porto e a Casa da Música - , e mais me convenço de que o edifício democrático, construído quando não havia nem telefone, nem televisão, nem Net, nem aviões, está a precisar de profundas obras de restauro.
Jorge Fiel
Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias
À primeira vista soa um bocado estranho que quatro conglomerados de bebidas gastem um milhão de euros/ano a pregar ao filet mignon da sua clientela (o pessoal dos 18 aos 30 anos) para não abusarem dos copos. Mas, bem vistas as coisas, até faz sentido.
As campanhas 100% Cool e Beba com Cabeça ocupam 70% do tempo de Mário Moniz Barreto, o secretário geral da Associação Nacional das Empresas de Bebidas Espirituosas (ANEBE), que reúne quatro grupos (PrimeDrinks, Pernod Ricard, Baccardi Martini e Diageo) que controlam cerca de 80% do nosso mercado de uísques, gins, vodkas, etc – simplificando, tudo menos cerveja e vinho.
Licenciado em Direito, Mário fez um mestrado em Londres, no Departamento de Estudos de Guerra do King’s College (convenientemente dirigido por um israelita…), antes de passar um ano em Bruxelas, na DGVIII, que tinha em cima da mesa a Convenção de Lomé.
Regressado a Lisboa, trabalhou numa sociedade de advogados anglo-portuguesa até que, na viragem do milénio, os inevitáveis headhunters o desinquietaram, convidando-o para ser o advogado de defesa dos interesses dos poderosos conglomerados de bebidas que estavam a constituir a ANEBE. Disse que sim, pois desde a adolescência sentia uma grande apetência por fazer política.
Justificou a escolha do Churrasco (onde janta habitualmente com a sua patota de amigos, lista em que figuram os jornalistas António Valdemar e José Manuel dos Santos) em frente ao Coliseu, pelo facto de servir “o melhor frango do Mundo” – o que pode ser verdade.
Sentamo-nos numa mesa ao lado da que durante anos foi ocupada pelo Covões pai, que fazia do Churrasco a sua sala de jantar, onde montava escritório para acertar contas com os artistas.
Como ele fazia 38 anos nesse dia, empurramos o frango com um espumante Aliança bruto tinto, apesar das Caves Aliança, de Joe Berardo, já não serem associadas da ANEBE.
A campanha 100% Cool, desenvolvida em conjunto com a GNR, é a mais vistosa das iniciativas da associação. Estimula os jovens a, sempre que vão para os copos, designarem um condutor 100% Cool, ou seja que mantenha no zero a sua taxa de alcoolemia ao longo de toda a noite.
Os resultados da campanha, que vai na 7ª edição, são positivos. Nos cinco primeiros meses deste ano, 95% dos 215 mil condutores testados pelas brigadas 100% Cool tinham níveis de álcool no sangue inferiores aos 0,5 gramas/litro permitidas.
“As estatísticas registam uma redução recorde da sinistralidade no nosso país, não só em número de acidentes mas também de vítimas. Isso deve-se ao aumento da fiscalização e à rapidez na aplicação das multas. Nós estamos satisfeitos por termos contribuído para esta redução”, afirma.
Ao defender que a idade mínima legal para a compra de bebidas alcoólicas suba dos 16 para os 18 anos, a ANEBE revela uma posição mais fundamentalista que a do Governo, o que tem a ver com a sua mensagem de que não há álcool seguro.
No site www.bebacomcabeça.pt , que em meio ano de vida recebeu meio milhão de visitas, disponibiliza um simulador, que fornece, por exemplo, a equivalência entre o álcool contido num copo de cerveja e numa dose de uísque.
“Para os jovens, a cerveja é mais barata e acessível. Mas é preciso desmistificar o mito urbano de que há bebidas alcoólicas mais seguras do que outras. Um uísque com cola pode ter menos álcool do que uma imperial. Não há bom e mau álcool. Há bons e maus comportamentos”, garante.
Apesar do fenómeno, novo e preocupante, de cada vez mais pais portugueses deixarem sair à noite, sem supervisão, os filhos de 11/12 anos, Mário está satisfeito. “Temos um padrão invejável de consumo de álcool. Estamos no bom caminho, que é o de evitar o paternalismo e o proibicionismo. Os resultados das Leis Secas foram sempre catastróficos. Não queremos passar para o modelo nórdico”, conclui este consumidor ocasional de álcool, que gosta de vinho, de vez em quando bebe um uísque ou um gin tónico (até mesmo um Bloody Mary!), e acaba de fazer uma descoberta curiosa: vodka de uva.
Jorge Fiel
Esta matéria foi hoje publicada no DN
O Churrasco
Rua Portas de Stº Antão 83, Lisboa
1,5 Frangos no espeto … 15,00 euros
1 Salada especial… 6,50
2 Esparregado … 3,00
2 Batatas fritas … 5,60
1 Aliança bruto … 19,50
2 Águas do Luso … 3,00
2 Cerejas … 5,90
2 Cafés… 1,60
Total … 60,10 euros
Jardim Gonçalves, que também fez na vida muitas coisas de aplaudir, costumava dizer que não se devem tratar os filhos todos da mesma maneira, pois são diferentes uns dos outros. Usava esta imagem para explicar porque estruturou a oferta do banco em diversas redes, uma estratégia de segmentação reconhecida como uma das razões do rápido sucesso do BCP, o primeiro banco a perceber que Américo Amorim, o seu motorista e o director financeiro da Corticeira Amorim não podiam ser todos tratados da mesma maneira, pois tinham patrimónios e necessidades diferentes.
Quando contou num livro algumas das histórias da sua passagem dourada pelo FC Porto, José Mourinho declinou de uma forma ainda mais rica a regra de que é errado tratar os filhos todos da mesma maneira.
Conta Mourinho, que chamou Sicrano para uma conversa a dois, antes de o lançar pela primeira vez na equipa, e lhe explicou que não tinha de estar nervoso com a estreia. Mesmo que o jogo lhe corresse mal, era garantido que seria titular no fim-de-semana seguinte.
Já quando se tratou de anunciar a titularidade a Beltrano, o treinador avisou-o de que a estreia era uma oportunidade única. Se ele a desperdiçasse, bem podia pensar em ir tratar de vida , porque no Porto não teria futuro.
Mourinho é bem sucedido porque percebe como funciona a cabeça das pessoas que lidera e é capaz de adaptar a mensagem ao destinatário. Sabia que Sicrano reagia mal à pressão, por isso pô-lo à vontade. Sabia que Beltrano só conseguia elevadas performances sob pressão, por isso tratou de o pôr em tensão.
Os aspectos mais importantes e dramáticos da vida estão condensados num jogo de futebol, que é um compêndio onde se pode aprender a desembrulhar-nos neste mundo em acelerado mudança, em que as dez profissões mais procuradas em 2010 não existiam há seis anos. Pode aprender-se mais com um jogo de futebol do que numa aula de MBA.
Ao longo dos 90 minutos, um avançado raramente tem a bola mais de três minutos, durante os quais tem de decidir num segundo qual a melhor opção - driblar, passar ou rematar.
A rapidez na decisão é fundamental para sobreviver e prosperar num mundo em que se prevê que os actuais estudantes terão dez a 14 empregos diferentes antes de fazerem 38 anos.
Um bom médio não é o que falha menos passes (porque mal recebe a bola faz logo um passe curto, de pouco risco) mas aquele que cria situações de golo ao arriscar passes de ruptura.
Com o céu carregado de nuvens, a única coisa de que devemos temer é de ter medo de decidir, de falhar, e de arriscar. Não é a jogar para o lado que se ganham jogos. Só marca quem chuta à baliza – e não tem medo que o remate saia torto. O mundo não está para cobardes.
Jorge Fiel
Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias
A impressionante quantidade de chapéus que Murteira Nabo tem em armazém, aos 70 anos, lembra aqueles malabaristas que conseguem manter uma meia dúzia de bolas a circular no ar, sem as deixarem nunca cair ao chão.
Presidente da Galp e bastonário da Ordem dos Economistas, tem ainda uma costela de empresário, sendo que uma das empresas de que é sócio e gestor vai abrir, em Setembro, um hospital do cancro em Évora, a cidade onde ele nasceu.
Tinha passado a manhã na RDP África, com o chapéu de líder do movimento Elo, investido pela CPLP da tarefa de dar à luz uma confederação empresarial de toda a lusofonia, o que o levou a desabafar que está a tentar a quadratura do circulo: “Nós, portugueses, somos muito bons a definir as coisas que devem ser feitas, mas péssimos a executá-las”.
Escolheu o Aviz, celebrizado por ser a cantina de Calouste Gulbenkian e um restaurante que vai na sua quinta encarnação – deitou âncora na Duque de Palmela, sob o comando da Fundação Oriente (de que Murteira Nabo é curador), após ter largado do lugar onde está agora o Sheraton Lisboa e ter andado à deriva pelo Chiado, Amoreiras e Monte Estoril.
Apesar de ter estado preso num engarrafamento na avenida da República – onde foi feliz durante os sete anos em que presidiu à PT -, chegou à hora marcada, sem gravata e uma constipação que o arrelia há 15 dias, ao almoço em que, no essencial, usou o chapéu de presidente do Eco, um movimento de cidadania constituído por três dezenas das maiores empresas portuguesas, para ajudar a combater a praga dos fogos florestais.
Aviz, Ritz e Tivoli são os seus poisos habituais de almoço, mesmo durante o Verão, quando fixa residência na sua casa na Praia Grande, em Sintra.
Pediu um Porto e logo avisou que come pouco (só se deixou que lhe servissem uma vez o risotto de cogumelos) e tem cuidado com a alimentação (o que demonstrou ao afastar a tentação do linguado mal soube que ele era frito) – e fez questão de se assegurar que a vichyssoise não vinha muito fria (por causa da constipação).
Ainda deitou um olhar guloso ao Abade Priscos, antes de encomendar o bolo de maçã com que sobremesou uma refeição regada por um Stanley tinto, das Terras do Sado, produzido pela fundação do homónimo magnata chinês (de que ele é curador).
“Pode parecer uma blague, uma banalidade, mas sinto que nasci para melhorar o mundo, para deixá-lo melhor do que encontrei quando cheguei. Gosto de participar, ser solidário e dar o que posso. Sou assim” – foi esta a explicação fornecida para ter tantos chapéus. “Não gosto da dispersão, mas não consigo evitá-la”, acrescenta.
Murteira Nabo diz que herdou do pai, comerciante alentejano de vinhos e cereais, o espírito de cidadania e a irrequietude que tem tatuadas no carácter e fez com que ele fosse escolhido para chefe de turma, dirigente associativa de Económicas e capitão da equipa de juniores do Lusitano de Évora, campeã regional na época 56/57, onde ele se distinguiu como defesa central, ao ponto de despertar a cobiça dos olheiros do Benfica, Sporting e e Belenenses.
“Como sou barato, não levo nada, convidam-me para tudo e eu sou incapaz de dizer que não a um amigo”, conta Murteira Nabo, que apenas recebe na Galp (que acumula com a reforma da PT).
Foi incapaz de dizer não quando, no rescaldo do terrível Verão de 2005, em que ardeu 10% da nossa floresta, o amigo António Costa, então ministro da Administração Interna, lhe pediu que liderasse um movimento de empresas que ajudasse na prevenção dos fogos.
Murteira Nabo convenceu duas dezenas de empresas a porem logística e equipamentos à disposição da causa de fazer passar a mensagem de três coisas proibidas na floresta: deitar cigarros para o chão, fazer fogueiras e lançar foguetes.
“97% dos incêndios são causadas pelo homem. A maioria das ignições são involuntárias, derivam de comportamentos negligentes”, justifica. Os perigos de cigarros, fogueiras e foguetes foram repetidos nos pacotes de açúcar da Delta, nos sacos dos supermercados, nos postos da Galp, nos carimbos dos CTT, etc, Logo no primeiro ano, o movimento Eco contabilizou 60 milhões de contactos, numa campanha que a ser paga custaria sete milhões de euros.
Nos últimos três anos tem ardido cada vez menos, o que atribuiu ao efeito conjugado de condições metereológicas favoráveis (Verões mais húmidos), a franca melhoria dos mecanismos de prevenção e combate, e, também, do êxito da campanha do seu movimento. Em 2006, apenas 30% dos cidadãos achavam que deviam ser responsáveis pela prevenção dos incêndios florestais. Em 2008, essa percentagem tinha subido para 44%. “A mensagem está a passar”, garante.
Este ano, por causa dos incêndios de Março, a área ardida já superou a do ano passado, o que deixa Murteira Nabo apreensivo. Mas para ele o decisivo é fazer evoluir o movimento, retirando-lhe sazonalidade (“A prevenção é a chave. O fogo combate-se no Verão, mas previne-se no Inverno”) e deslocando o seu centro de gravidade do combate ao fogo para a defesa da floresta.
“Somos o país como maior cobertura florestal da Europa. Dois terços da nossa superfície são floresta, que vale 3,2% do PIB, 11% das exportações e 260 mil postos de trabalho. A floresta é estratégica para Portugal. Não podemos deixar os incêndios destruir esta nossa riqueza”, concluiu Murteira Nabo, um economista a quem a responsabilidade social “dá prazer” e que não gosta de fazer caridade, “mas ajudar a resolver problemas”.
Jorge Fiel
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Aviz
Rua Duque de Palmela 32, Lisboa
Couvert … 7,60 euros
1 Tawny Burmester … 4,00
2 Vichyssoise … 9,40
1 Bacalhau à Gomes de Sá … 16,20
1 Risotto cogumelos e tomilho … 14,50
1 Stanley tinto Terras do Sado … 18,80
1 Água Chic 1 l … 2,50
1 Água Pedras 0,75… 3,00
2 Sobremesas … 10,40
2 Cafés … 3,00
Total … 89,40 euros
Eu já simpatizava com ele. Ambos somos duplamente do Porto (clube e cidade). Mas Teixeira dos Santos subiu alguns pontos na minha consideração ao declarar: “Não sou um super-homem. Sou um simples cidadão que, quando tem de trabalhar mais, trabalha”.
Ao acumular a Economia com as Finanças, o ministro induziu ganhos de produtividade num sector (Função Pública) que bem anda precisado deles, como o prova o facto de termos 52 almirantes para 40 navios.
A baixa produtividade é a kryptonite que debilita a nossa economia. Portugal foi um dos três países da OCDE onde a produtividade registou a desaceleração mais significativa entre 2001 e 2006.
A riqueza por hora trabalhada em Portugal é das mais baixas da Europa, apesar de passarmos horas infindas no local de trabalho, desperdiçadas em reuniões improdutivas, incursões pessoais ao YouTube – e pausas para café, aproveitadas para alimentar a má língua interna, tão perniciosa para o ambiente como a traça num guarda-fatos.
Há a ideia que tudo muda quando vamos para fora. O exemplo clássico desta tese é o Luxemburgo, que é o país mais produtivo do Mundo e tem 20% de portugueses na sua população activa.
Acho que o problema não é de ares, pois, do lado de cá da fronteira, há, em todas as profissões (criminalidade incluída), gente muito competente, capaz e produtiva – e gente que não gosta de trabalhar e faz tudo em cima do joelho. Em Junho, em Famalicão, assistimos a dois casos exemplares destas diferentes atitudes perante o trabalho e a vida.
Na madrugada de 2 para 3, um bando de incompetentes assaltou a igreja de Stª Eulália, onde não havia um cêntimo sequer, pois, como todos os paroquianos sabem, há já dois anos que o padre substituiu as tradicionais caixas das esmolas por peditórios realizados durante a missa.
Seis dias depois, na freguesia de Ribeirão, um grupo de assaltantes limpou todo o dinheiro que havia no cofre de abertura retardada da agência do Banco Popular, após desactivarem o alarme, cortarem a electricidade e desligarem a videovigilância e os sensores de movimento. A operação demorou pelo menos três horas, mas ninguém deu por eles e não deixaram vestígios. Para tudo é preciso competência e profissionalismo.
“Temos de trabalhar mais horas e, sobretudo melhor, com mais produtividade”, avisou-nos Américo Amorim, que sabe do que fala porque apesar de só ter recebido o primeiro par de sapatos no final da primária, conseguiu reunir a maior fortuna de Portugal.
O ideal seria trabalharmos menos e produzirmos mais. Mas na nova ordem económica global em formação, não temos outro remédio senão trabalhar mais e produzir muito mais.
Jorge Fiel
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Margarida celebrizou-se após se ter cruzado com Cicciolina (no foto)
Não é gorda, nem magra. Mais para o alto do que para o baixo. Não é feia, mas ninguém a inscreveria num concurso de beleza. Margarida é uma rapariga normal, vestida à Zara (túnica azul Bershka e jeans rasgados Pull & Bear) e com sandálias brancas Seaside. A única coisa que a diferencia é que os estudos garantem que a vida sexual das raparigas portuguesas começa aos 15 anos e ela já vai nos 26 e ainda nada…
Filha única de um vigilante reformado e de uma mulher a dias, mora no Barreiro e trabalha em “marketing social”, o que traduzido quer dizer que ganha um euro por cada peluche que vende em supermercados, shoppings e hospitais, sendo que outra parte da venda reverte para uma escola de crianças com deficiência auditiva.
Escolheu almoçarmos num restaurante brasileiro, no Parque das Nações, não só porque adora tudo quanto se relaciona com o Brasil (“danço tudo, forró, samba, e pagode!”) mas também porque fica ao lado da Restart, a escola onde fez um curso de Organização de Eventos, que durou dez meses e não lhe ficou barato – teve de vender 2600 peluches para o pagar.
Pediu bobó de camarão e sumo de manga. Apesar de ser gulosa, passou a sobremesa por preocupação com a linha. Quando vai ao karaoke (a sua interpretação de Amor de Água Fresca, de Dina, é afamada) bebe um Tango, “com mais groselha do que cerveja, para ficar mais docinho”. Nas Ladies Nights, arrisca um Baileys.
Viciada em Internet (chega a estar ligada 12 horas seguidas e a comer em frente ao computador), Margarida deu o passo decisivo para emergir do anonimato quando, por brincadeira, a 13 de Janeiro de 2008 fundou o Clube das Virgens (clubedasvirgens.blogspot.com), após se ter certificado no Google que não havia nada do género em Portugal.
O sucesso não foi imediato. As adesões só começaram depois dela ter entrado no circuito mediático ao apresentar uma comunicação numa conferência sobre o Desejo, organizada pelo Espaço T, que contou com a participação especial de Cicciolina.
Neste momento, o Clube das Virgens já tem 35 sócias - meninas entre os 16 e os 32 anos que trocam confidências num fórum privado – e Margarida é uma pequena celebridade, com aparições regulares na televisão, rádio e colunas de jornais e revistas cor-de-rosa.
Expansiva, lida bem com a exposição pública, que lhe tem trazido algumas coisas boas e outras que nem por isso. A convite de uma editora, está a escrever um livro, onde desnuda os seus fantasmas. “Quando andava na 2ª classe comecei a escrever um diário, onde confessava as minhas ansiedades e amores platónicos”.
No mês passado, em troca de cobertura televisiva, a TVI pagou-lhe a primeira consulta de Ginecologia, de onde ela saiu decidida a usar a pílula, não porque esteja a fazer planos de abandonar o clube, mas porque ficou a saber lhe fará bem à pele e ajudará a regular o ciclo menstrual.
Mas já provou o lado amargo da fama. Ex-dançarina das Super Águias (que actuam com pompons antes dos jogos em casa) e benfiquista, candidatou-se e foi aceite para guiar visitas ao Estádio da Luz, mas acabou por ser dispensada antes de começar porque Luís Filipe Vieira não gostou do título – “Jesus, a Virgem e o Burro” – de um artigo alusivo ao assunto.
Margarida deu o primeiro beijo aos 22 anos e já teve dois namorados (um em 2005 e outro em 2007) que ela classifica como “amostras de relacionamento”, onde não passou “de uns beijos e uns amassos”. Acha que apesar das juras de amor, eles só queriam sexo. “As palavras enganam. As acções não”.
Não é por razões religiosas que se mantém virgem, mas apenas porque “ainda não apareceu a pessoa especial”. “Para acreditar em Deus não é preciso ter uma religião. E para falar com Ele não é preciso rezar”, explica.
Os pais não são casados e ela não é baptizada. “Não tenho o sonho de casar. Mas se casar irei como uma princesa, de branco, véu e grinalda, com vestido redondo e coroa”, conclui esta rapariga que além de ambicionar encontrar o rapaz certo para entregar a sua virgindade, adora praia, gostava de ir ao Brasil, precisa de um emprego e adorava ter um Peugeot Cabriolet azul metalizado.
Jorge Fiel
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Sabor a Brasil
Alameda dos Oceanos, Parque das Nações, Lisboa
4 pãezinhos de queijo … 1,80 euros
1 linguiça toscana … 2,00
1 chopinho 30 cl … 2,00
2 suco de manga… 7,00
2 bobó de camarão … 25,00
1 café… 1,00
Total … 38,80
Já se passou uma semana e eu continuo sem perceber porque é que a generalidade dos políticos e comentadores acham óbvio que ao fazer os célebres cornos Manuel Pinho assinou a sua certidão de óbito político.
À data da ocorrência, eu estava no Twitter e a primeira coisa que me veio à cabeça foi estabelecer uma hierarquia de gravidade de gestos mal educados.
Será que Pinho ainda estaria na Horta Seca se, em vez de ter feito cornos, tivesse posto a língua de fora, como Einstein na sua mais célebre fotografia?
Estou em crer que sim, que se teria aguentado se mostrasse a língua ou até se fizesse um manguito ao Bernardino – neste último caso até podia invocar em sua defesa tratar-se de um gesto tradicional português, imortalizado pelo Zé Povinho de Bordalo Pinheiro.
Já não tenho dúvidas de que também lhe fariam logo o funeral se ele tivesse feito piretos.
Quando vi a imagem, fiquei até agradavelmente surpreendido pela exuberância plástica do gesto do ex-ministro, com a cabeça baixa, a imitar o touro antes de marrar, e os indicadores bem espetados junto à testa!
Eu sempre fiz os cornos de uma forma mais discreta, salientando o indicador e mindinho, enquanto o polegar segura os outros dedos, escondidos na palma da mão.
No dia seguinte, ao ler, nos obituários políticos, o inventário das asneiras que Pinho disse e fez, estranhei o protocolo desta política em que um ministro sobrevive a uma data de disparates para sucumbir quando, num momento da exaltação, recorreu a um gesto (imaginativo!) para significar a sua opinião de que um deputado não parava de marrar na mesma direcção.
Quando mais penso no assunto, mais sinto que a politica portuguesa precisa de uma gramática nova e mais percebo porque é que apenas 28,5% dos eleitores estão satisfeitos com a nossa democracia, contra 35%, em 1999, e 40% em 1985. (1)
Eu preferia que Cavaco deitasse a língua de fora, do que vê-lo a gerir com incomodidade e silêncios incompreensíveis a sua ligação com Dias Loureiro e o investimento em acções da SLN.
Eu preferia que Durão fizesse piretos, do que tê-lo apanhado a mentir, ao aumentar os impostos depois de ter jurado que não o faria.
Eu preferia que Sócrates fizesse cornos, mas tivesse um curso de Engenharia concluído sem recurso a habilidades duvidosas.
Eu preferia que Manuela fizesse um manguito, em vez de ouvi-la a acusar o PS de um acto (a venda da rede fixa à PT) da sua inteira responsabilidade.
Não estou nada satisfeito com esta politica em que fazer cornos pela frente é letal - e dar facadas pelas costas é legal.
Jorge Fiel
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(1) Conclusão do estudo Reforma institucional em Portugal, perspectiva das elites e das massas, de André Freire, Manuel Meirinhos e Diogo Moreira
Não. Não foi com leite que empurramos a Posta e o Arroz do Fumeiro (pratos que partilhamos), mas sim com um Planalto bem fresco. O leite foi só para a fotografia. Um truque para chamar a atenção.
Habitualmente, Fernando restringe ao pequeno almoço o consumo de leite – com cereais ou o café. Mas o filho adoptivo, de 18 anos, é como os nórdicos, ou seja acompanha as refeições com leite, o que faz com que os dois gastem um pacote todos os dias, bem acima do consumo médio per capita português, que estabilizou nos 90 litros/ano, em linha com a média europeia.
O Restaurante Caldeira, junto ao coreto do Jardim Cordoaria, fica a poucas centenas de metros da sede na Fenelac, na rua da Restauração, que desce em direcção ao rio, e por isso é um dos que ele mais frequenta no dia a dia por Fernando.
Mas a escolha de uma casa especializada em cozinha regional portuguesa (a alternativa era um italiano na Marginal), encerra algum simbolismo num momento em que as importações de excedentes de leite francês e polaco, pelos dois gigantes da distribuição (Sonae e Jerónimo Martins), obrigou os 50 mil produtores de leite a desenterraram o machado da guerra.
“O litro de leite está a ser vendido mais barato que um litro de água”, denuncia Fernando Cardoso, 35 anos, um engenheiro agrário que há nove anos trabalha na Fenalac.
No início de Junho, a Sonae pôs o sector a ferver ao pôr à venda a 39 cêntimos o pacote de litro de leite da sua marca branca de combate É, uma descida abrupta de preço que logo seguida pelo Pingo Doce (Jerónimo Martins) e as cadeias estrangeiras (Lidl, Auchan/Jumbo, etc).
Com os dois euros que custa um litro de água Vitalis Premium no Continente, compram-se cinco litros de leite e ainda se guarda cinco cêntimos de troco.
O leite está entornado, e os produtores já começaram os protestos, um pouco por todo o país, em frente a hiper e supermercados, acusando a grande distribuição de os encurralar numa situação dramática.
“O leite foi dos poucos sectores da agricultura que se soube organizar e ter uma visão de mercado. O equilíbrio desta fileira, que representa 1,5 milhões de euros/ano, está a ser rompido pelas importações maciças de excedentes de leite estrangeiro. É pena que sejam duas cadeias portuguesas a porem em causa a produção nacional”, denuncia – a Auchan garante que o seu leite é comprado em Portugal.
A produção nacional de leite correspondia grosso modo ao consumo. Esta tranquilidade foi sacudida pelo crescimento de 50% nas importações verificado em 2008. Hoje em dia, um em cada quatro pacotes de vendidos são de leite estrangeiro, o que põe em perigo o futuro o nosso efectivo de 306 mil vacas leiteiras.
O dirigente da federação leiteira acusa a Sonae de “estar a atacar deliberadamente a Lactogal”, a maior empresa alimentar da Península Ibérica, criada por três organizações de produtores (Proleite. Agros e Lacticoop).
A Lactogal recolhe 55% da produção e com as suas marcas (Mimosa, Agros e Gresso) tem uma quota de mercado de 60%. Está a comprar o leite aos produtores a 30 cêntimos o litro, e como garante a compra de toda a produção dos seus associados está a secar 15% do leite e a constituir stocks monumentais.
A Fenelac desconfia de dumping nos 39 cêntimos por pacote. “O preço dos excedentes de leite do centro da Europa ronda os 22 cêntimos. A embalagem de Tetra Pak custa 10 cêntimos e há que adicionar os transportes, controlo de qualidade, distribuição e margem”, diz Fernando Cardoso, que acha estranho que a Jerónimo Martins venda o leite polaco dez cêntimos mais barato em Portugal do que na Biedronka.
“É impossível sermos competitivos com o litro a 39 cêntimos. Não podemos baixar mais os nossos custos de produção”, jura o secretário geral da Fenalac, que antecipa a eclosão de graves problemas sociais se a distribuição persistir no braço de ferro com os produtores de leite.
Como não vale a pena chorar sobre leite derramado, Fernando pediu um leite creme para a sobremesa. Assim como assim, sempre deu uma ajuda ao consumo…
Jorge Fiel
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Restaurante Caldeira
Campo Mártires da Pátria, 53, Porto
Posta Maronesa … 13,90 euros
Arroz do Fumeiro … 10,50
Planalto …. 9,50
Leite creme… 2,50
2 cafés… 1,40
Total … 37,80
Em Abril, Manuel Pinho estava de visita a uma corticeira de Aveiro quando uma operária lhe puxou pela manga e pediu: “Salve o nosso patrão, senhor ministro. Se o salvar a ele, salva os nossos empregos”.
Apesar de ter raízes familiares em Espinho, Pinho ficou de boca aberta. Como está mais habituado a visitar as grandes empresas da cintura industrial de Lisboa, ainda não reparara que nas PME nortenhas o velho conceito marxista de luta de classes foi substituído pela colaboração no duro combate pela sobrevivência.
Com o PIB e as exportações em queda livre, e o desemprego a galopar, a oposição clássica entre patrões e empregados deu lugar a uma nova dicotomia – entre empregados e desempregados.
Mesmo a tradicional tensão entre trabalhadores a prazo (que podem ser despedidos sem pagamento de indemnização) e do quadro foi atenuada pela chuva torrencial de falências que se adivinham.
A aristocracia operária, de que a Auto Europa é o expoente, faz mal em olhar com desdém e sobranceria para o sábio desabafo da operária corticeira. Na esmagadora maioria das PME, que são 99% do nosso tecido industrial, já toda a gente entendeu que patrões e operários estão no mesmo barco e devem unir esforços para evitar que ele se afunde.
Em Outubro de 2006 (ainda as celebridades pagavam exorbitâncias para serem apresentadas a Madoff e o Lehman era uma vaca sagrada e admirada urbi et orbi), os dirigentes do poderoso sindicato IG Metall já tinham percebido o fim da luta de classes e aceitaram aumentar a semana de trabalho, sem pagamento extra, contra a garantia da administração da Volkswagen de manter, até 2011, os 100 mil postos de trabalho na Alemanha e fazer novos investimentos no país – assinando a certidão de óbito do “operários de todo o Mundo uni-vos”.
Mais recentemente, os trabalhadores da FedEx, HP e Saks Fith Avenue (só para citar três exemplos), aceitaram reduzir os salários para ajudar as suas empresas a tentar manter a cabeça fora de água.
O recurso ao apelo à generosidade dos trabalhadores já desembarcou em Portugal. Com a perspectiva de fechar o ano com um prejuízo superior a seis milhões de euros, o Público pediu aos seus colaboradores que aceitassem reduzir o salário.
Participar no esforço de sobrevivência da empresa em que trabalhamos é um acto de coragem e lucidez que tem de ser elogiado. Mais vale perder 200 euros por mês do que o salário de 2000 euros todos os meses.
Mas para os apelos à solidariedade serem bem sucedidos, o exemplo de sacrifício tem de vir de cima. Ninguém ouvirá um apelo à redução do ordenado vindo de dirigentes que acabam de trocar de carro e de receber suculentos prémios.
Jorge Fiel
Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias
E se, de repente, deixasse de ser preciso verificar os prazos de validade, porque a embalagem muda de cor para lhe dizer que o iogurte ou o medicamento já não estão em condições de serem consumidos?
E se a escolha da cor para as paredes lá de casa deixasse de ser sinónimo de discussões infindáveis, porque a qualquer momento pode carregar e substituir o frio creme da parede da sala por um ocre quente e tropical?
E se deixasse de haver conta da EDP, pois os vidros acumulam durante um dia energia suficiente para o consumo doméstico? E se as persianas e cortinas se tornarem obsoletas, porque com um simples toque controla a tonalidade (mais escuro ou mais claro) dos vidros e até pode usá-los como mostradores de informação ou ecrãs de tv?
Estas novas novidades que vão revolucionar o nosso dia a dia num futuro não muito longínquo, serão possíveis graças a invenções geniais saídas da cabeça de Elvira Fortunato, 44 anos, cientista e líder do Laboratório de Ciência de Materiais da Nova de Lisboa.
A Elvira mais famosa do Mundo (critério Google) escolheu almoçarmos no Barbas, que considera, sem espinhas, o melhor restaurante de peixe de toda a Margem Sul, onde ela faz o essencial da sua vida. Mora em Almada e o laboratório fica no Monte da Caparica. Só atravessa a ponte para apanhar o avião (para já…) e ir a Alvalade ver o Sporting (ela e o marido compram sempre a gamebox).
Garoupinhas. Ela ia com a ideia nas garoupinhas, mas não como não as havia, aceitamos a sugestão da casa de uma (divinal!) cataplana de cherne e gambas.
Como estava um fabuloso dia de praia, comemos na esplanada – o marido Rodrigo (cientista e inventor como ela) e a filha Catarina, 11 anos (que não tinha aulas nesse dia) optaram pela sala.
Elvira tornou-se um caso sério na comunidade científica internacional com a patente da electrónica invisível, que logo despertou a cobiça da Samsung, que vai usar em todos os mostradores (telemóveis, máquinas fotográficas, tv, etc) a invenção made in Caparica, que proporciona resoluções altíssimas.
O ano passado, foi aclamada como o Cristiano Ronaldo da electrónica mundial, quando o mundo se apercebeu das enormes potencialidades da sua invenção do transístor de papel – que estão a ser exaustivamente inventariadas pela Universidade do Texas.
Jornalistas e cientistas de todo o mundo entupiram-lhe o telemóvel nos dias seguintes à divulgação, a 21 de Julho de 2008, de que ela tinha conseguido substituir o silício pelo papel (mais barato e flexível) como suporte de um transístor. O reconhecimento foi instantâneo e Elvira ganhou uma bolsa de 2,25 milhões do European Research Council, uma distinção sem precedentes para o nosso país.
É muito excitante estar à conversa com uma pessoa genial, capaz de arranjar novas aplicações para materiais comuns. Durante as duas horas que durou o almoço, abrimos sucessivamente diversas janelas fomos minimizando, sem nunca as fechar.
Elvira transpira uma autoconfiança sã, desprovida de uma gota sequer de arrogância. Está bem com a vida, apesar de não calar algumas criticas ao lado lunar da alma portuguesa: “Faço aquilo que gosto e ainda me pagam por cima”.
Quando lhe perguntamos como resiste à tentação de emigrar, responde: “O dinheiro é importante, mas há coisas mais importantes na vida do que um bruto ordenado. A minha família não está à venda. Em que outro país podia estar a almoçar o que comemos hoje com esta vista?”.
A satisfação e orgulho que tem na sua equipa (30 cientistas, de várias disciplinas, dos quais 12 doutorados) é infinita: “É a melhor equipa do mundo. No meu laboratório não existe a palavra impossível”.
Mas não esconde que lhe custa que num país, com uma fileira de papel poderosa, empresas como a Portucel e a Renova tenham desperdiçado a fantástica oportunidade que lhes foi oferecida, de aproveitar a invenção do transístor de papel para fabricar produtos inovadores e de maior valor acrescentado que o papel higiénico ou de fotocópia. Mal souberam do assunto, os brasileiros da Suzano atravessaram logo o Atlântico a correr….
Jorge Fiel
Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias
O Barbas
Praia do CDS, nº 13, Costa da Caparica
Ameijoas à Bolhão Pato
Cataplana de cherne com gambas
Bucelas Myrtus branco
Água Vitalis
2 cafés
O almoço foi oferecido pelo Barbas por cortesia “com a professora” que, apesar de sportinguista, é cliente da casa
O cabelo tornou-se um bem escasso. O nariz é torto, ao ponto de só respirar de uma narina. Não perdia nada se as orelhas fossem mais pequenas. A cara dá a impressão de nunca ter sido barbeada. A barriga é três vezes mais volumosa que o necessário. As mangas ficam sempre muito curtas. Resumindo: tenho um sério problema de imagem. O que é grave, pois, ainda por cima, já não sou um rapaz novo.
Foi por causa do substancial debate que se seguiu à entrevista de Sócrates à Sic que fiz este duro exercício de auto-análise. Já agora, e a propósito da entrevista. Ainda estou para perceber como é que ninguém teve a genial ideia de perguntar a Sócrates se ele meteu um Xanax antes de ir conversar com a Ana Lourenço.
Sabemos que ele entrou na Sic às 20h34, com um ar cansado, e que às 20h42, à saída da maquilhagem, já estava sorridente, com melhor aspecto, gel na cabeça, e “estranhamente mais calmo do que o costume”. O que se passou durante aqueles oito minutos na maquilhagem?
Apesar de ido à televisão com o mesmo fato azul-cinza e gravata vermelha que usara à tarde no parlamento, os comentadores concordam que a entrevista foi o momento fundador de um novo Sócrates, com uma imagem mais doce, simpática, contida e humilde.
Foi tal e qual como nos jogos de futebol, em que os comentadores preferem discutir a arbitragem ao jogo propriamente dito. TGV, BPN, política fiscal e BPP são pormenores para os comentadores políticos, que preferem gastar o tempo de antena a analisar os prós e contras da mudança de imagem. O sucesso desta operação parece ser mais importante do que a eficácia das medidas anti crise do governo.
O grave é que os eles têm razão. O sociólogo Jean-François Amadieu, que estuda há 30 anos a interferência e influência do aspecto físico na vida social das pessoas, garante que na política, trabalho ou escola, a imagem é mais importante do que a competência quando se trata de conquistar votos, arranjar um bom emprego ou ter boas notas.
Daniel Hammermesh, da Universidade do Texas, concluiu, após um estudo de campo de dez anos, que o salário dos feios é 9% abaixo da média e que os bonitos ganham 5% acima.
Este mundo não está para os feios, velhos e gordos. Donde concluo que estou tramado - e não sou o único.
Deste ponto de vista, para mim e para Manuela Ferreira Leite, uma pequena centelha de esperança foi acesa pela vitória nas europeias do Paulo Rangel, um rapaz que não é anoréctico nem tem pinta de basquetebolista.
Será mesmo verdade que quem o feio amo bonito lhe parece, que é como o povo resume a tese da subjectividade da beleza, que garante que ela está nos olhos de quem vê?
Jorge Fiel Esta crónica foi hoje publicada no DN
Há lista, mas não vale a pena consultá-la. Preferimos os filetes de polvo (com arroz do mesmo) aos de pescada. E Angelino esteve certeiro na escolha do vinho, o Muralhas, um verde de Monção, fresco e pouco alcoólico, por isso adequado à refeição (almoço) e à comida.
Este economista de 55 anos começou a frequentar discretamente as colunas dos jornais quando, com 26 anos, reabriu a Bolsa do Porto, fechada no pós 25 de Abril, e fez na compra e venda de acções até que, aos 40 anos, achou chegada a hora de rimar profissão com paixão e foi trabalhar para o FC Porto.
Aqui chegado, talvez valha a pena esclarecer que se registou uma mudança estrutural de orientação no Aleixo, celebrizado pelo confesso benfiquista Ramiro, a quem sucedeu o filho, homónimo e da mesma obediência clubística, que no entretanto montou a sua própria casa, deixando o restaurante de Campanhã a cargo do cunhado (portista de cachecol), irmã e mãe.
Empresarialização. Se tivéssemos que resumir numa só palavra o que Angelino tem feito na vida, o vocábulo certo seria este, com 17 caracteres, um comprimento quase finlandês.
Na bolsa, foi corretor a nível individual até, por duas vezes, empresarializar a actividade, evoluindo de broker para dealer ao ser o pivot da criação das financeiras de corretagem Socifa & Beta e Pars.
No futebol, ajudou, atrás da cortina, a empresarializar o FC Porto, constituindo a SAD e assumindo o comando directo das operações da construção e financiamento do Estádio do Dragão e do Centro de Estágio do Olival. Agora é o responsável pela parte comercial.
Aos 50 anos, achou por bem casar trabalho e família e iniciou a empresarialização da actividade cinematográfica ao constitui a Yellow Entertainement, que no dia a dia é dirigida pela sua filha Soraia.
A Yellow estreou no início do mês, em 26 salas, a sua primeira longa metragem, Star Crossed, um remake do drama shakesperiano Romeu e Julieta, tendo o Porto como pano de fundo.
Soraia, 29 anos, a mais velha do casal de filhos de Angelino (Bruno fez Design de Comunicação e trabalha em Londres), sempre foi fanática por cinema (era a melhor cliente do multiplex de 20 cinemas do Arrábida Shopping) e por isso, após acabar o curso de Gestão, na Católica, foi para Nova Iorque e Los Angeles (LA) aprender a gerir produção de cinema.
Star Crossed é o seu primeiro filho. A ideia nasceu, num jantar de amigos em LA no final de 2005, onde todos concordaram que Porto e futebol eram dois bons ingredientes para vender um filme.
A rodagem arrancou no Porto, em Agosto de 2007. Durou as seis semanas previstas, envolvendo 80 pessoas, uma equipa multinacional com quatro actores estrangeiros, realizador inglês e um director de fotografia israelita.
Também não houve derrapagem no orçamento de 2,25 milhões de euros, reunidos por Angelino na sua qualidade de produtor executivo, verba onde não entra sequer um cêntimo de subsídios públicos - e só será recuperada se o filme conseguir fazer uma carreira internacional.
“O mercado português não existe. É muito curto. O cinema em Portugal vale 70 milhões de euros/ano, o equivalente a cerca 15 milhões. O mercado interno apenas pode contribuir para recuperar 5% ou 15% do orçamento. Nós temos um problema de dimensão”, explica Angelino. No nosso país, em Portugal, além bilheteira e das receitas de product placement (Carlsberg e Vodafone), tem um contrato com a Zon Lusomundo e a Sic (para exibição em free TV).
Star Crossed é o cartão de visita da Yellow, que assim demonstrou ser capaz de fazer um produção de acordo com os parâmetros internacionais. Como não tinha curriculum, não conseguiu atrelar ao projecto, na fase da produção, uma distribuidora internacional.
“”O ponto crítico da actividade económica é a distribuição”, reconhece Angelino que está a tentar que Star Crossed seja exibido em salas internacionais antes de ir para o circuito DVD. Neste momento difícil, há uma coisa que o anima: “O Quem quer ser Milionário estava destinado para ser distribuído apenas em DVD e conseguiu oito Óscares”.
Jorge Fiel
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Casa Aleixo
Rua da Estação 216, Porto
1 Muralhas … 10 euros
2 pães … 1
2 meias de filetes de polvo…24
2 saladas mistas pequenas… 5
2 rabanadas … 5
2 cafés….2
Total….. 47 euros
O coro de vozes pesadas que se levantam contra a construção do TGV é mais uma triste manifestação do reaccionarismo português.
Em todos os grandes e pequenos momentos da nossa História, esta corrente bolorenta tentou travar o progresso, abusando dos galões da “autoridade” e “experiência” para condenar a ambição empreendedora do que ousam arriscar.
Camões simbolizou esta corrente reaccionária numa personagem. Vale a pena reler o Canto IV dos Lusíadas para reencontrar os detractores do TGV na trágica figura do Velho do Restelo, que condenou a expedição de Gama, identificando a gesta dos Descobrimentos com a ambição desmedida do ser humano.
O Velho do Restelo reencarnou na tenebrosa figura de Salazar, que travou o desenvolvimento industrial do país, submeteu-o ao isolamento e promoveu a cultura do pobretes mas alegretes, remendados mas não rotos, pobrezinhos mas honrados.
Mais recentemente, o Velho do Restelo falou pela voz dos que condenaram a Expo 98 e o Euro 2004, que mostraram ao mundo um Portugal moderno, ambicioso e empreendedor, apagando de vez a imagem do país com cheiro a chichi de gato, povoado por velhas com buço e vestidas de preto, e onde as pessoas andavam de burro.
Se os Velhos do Restelo mandassem, não havia CCB nem Casa da Música, e a zona oriental de Lisboa ainda era uma imunda sucateira.
Não é preciso ser um Einstein para perceber que temos de avançar para o TGV. Seria criminoso ficarmos de fora da rede europeia de alta velocidade, num momento em que os onze países mais prósperos da Europa têm ou estão a construir linhas de TGV.
A Linha do Norte está no limite da sua capacidade e o desenvolvimento do país exige a rápida redução da distância entre o Porto e Lisboa, e da Galiza ao porto de Leixões e aeroporto Sá Carneiro.
O reforço do investimento público para combater a crise não é uma receita socialista. Sarkozy anunciou um pacote de mil projectos, no valor de 25 mil milhões de euros, financiados pelo Estado e a concretizar em dois anos.
Ao contrário do que propalam os Velhos do Restelo, há um défice de investimento estatal. Este ano, seremos o 7º país, entre os 25 da UE, com menos investimento público em percentagem do PIB.
Durante o cavaquismo, éramos a quarta economia da UE com maior percentagem de investimento público, que nos últimos dez anos caiu para metade, de 4%, em 98, para 2,1%, em 08.
O TGV tem de avançar. Não podemos perder o comboio da Europa. Não devemos, em cada eleição, pôr em causa tudo quanto o Governo decide. Precisamos de uma injecção de adrenalina nas veias da nossa anémica economia.
Quando se tem de recuperar o tempo perdido, não se leva o pé ao travão, mas sim ao acelerador.
Jorge Fiel
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Atrasou-se duas horas, mas foi-nos informando das razões, que eram duas, boas e inesperadas. A manhã dela arrastou-se até às três da tarde por causa de uma visita surpresa da Inspecção do Trabalho na sua quinta, em Vale de Mendiz, e de uma chamada de urgência à Quinta de Roriz (onde ela ajuda a fazer os vinhos), que tinha acabado se ser comprada pelos Symington a João van Zeller.
A calma e a vista sinfónicas dos socalcos do Douro que se usufruem da esplanada do D.O.C., temperadas pela conversa com o chefe Rui Paula (que vai abrir o D.O.P. no Largo de S. Domingos, no Porto), ajudaram a que as duas horas passassem a voar.
A espera foi amplamente compensada pelo sorriso quente de Sandra e pela excelência dos seus vinhos e da comida – um menu escolhido pelo chefe.
Sandra, 37 anos, é uma enóloga muito bem sucedida. O Pintas, o primeiro filho que ela e o marido (Jorge Serôdio Borges, ex-enólogo na Niepoort) conceberam em 2001, foi aclamado no Financial Times, como “o melhor vinho do Douro” por Jancis Robinson. E o Chocapalha Reserva 05, que ela faz na quinta dos pais, em Alenquer, foi eleito o melhor tinto pelo painel de provadores da Essência do Vinho.
Ela é um dos emergentes Douro Boys, incensados na imprensa internacional, mas não tem nada de rapaz. Filha de uma suíça e de um oficial da Marinha, Sandra mede 1m85, tem uns belíssimos olhos verdes e foi modelo profissional, tendo desfilado ao lado da Bruni, Schiffer, Christensen e Evangelista nas passarelas de Paris, Madrid ou Nova Iorque.
A roupa casual - camisa Esprit, jeans Massimo Dutti e botas Timberland – não disfarçava uma elegância que não foi abalada por ter andado, há coisa de três anos, com o Francisco na barriga.
“A moda, para mim, foi aproveitar o físico para viajar, conhecer pessoas, divertir-me e ganhar dinheiro. Nunca foi o meu objectivo de vida. Dei sempre prioridade aos estudos. Na moda, é fácil um pessoa deslumbrar-se com o dinheiro, as festas e a fama, mas é tudo efémero. Espreme-se e não sai nada. Pode ser dramático se uma pessoa se deixa ficar 100% dependente da moda”, declara.
No final do curso de Agronomia, aplicou parte do dinheiro ganho na moda num mestrado em Enologia, feito em Piacenza. O pai passara à reserva e andava entusiasmado a plantar vinha numa quinta que comprara em Alenquer. E ela guardava gratas recordações de quando era miúda e ajudava o avô nas vindimas, em Alcochete.
Regressada a Portugal, há dez anos, logo tratou de fazer uma vindima no Douro, experiência que lhe foi proporcionada por Cristiano van Zeller na Quinta Vale D. Maria, onde ainda é enóloga.
Sandra não conhecia o Douro. Foi um caso de amor à primeira vista. Decidiu ficar apesar dos pais a advertirem que ia viver “para o fim do Mundo”.
“O Douro é uma região deslumbrante não só pela beleza da paisagem, mas também pelo seu enorme potencial. Há tanto por descobrir e fazer. Nós só estamos a começar. Ainda temos de provar que os nossos vinhos envelhecem tão bem como os de Bordéus e Borgonha”, explica Sandra que depois de se apaixonar pelo Douro se apaixonou por Jorge e logo trataram de fazer um vinho, baptizado a partir das pintas com que, por osso do ofício, coloriam as suas roupas de trabalho.
“Ninguém consegue copiar os vinhos do Douro”, garante esta adepta de vinhos de várias castas. “O engraçado é fazer lotes. É mais arriscado, mas conseguem-se vinhos mais complexos”.
Sandra gosta e faz Porto, e acredita no seu futuro: “O Vinho do Porto vai ter melhores dias. Mas, para isso, é preciso investir em promoção. E o nosso papel como novos produtores é criar novos consumidores. No sul não há o hábito de beber Porto”.
“O Douro está a entrar na moda como destino turístico e isso vai ajudar o Porto. Mas é preciso que não estraguem tudo. Não precisamos de turismo de massas, de abrir auto-estradas e trazer camionetas, mas sim de turismo selectivo de pessoas que gostam de vinho”, atira Sandra à despedida (já eram quase seis da tarde), antes de saltar para o X3 onde faz mais de 200 km por dia, entre as três quintas onde trabalha no Douro.
Jorge Fiel
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D.O.C.
EN 222, cais da Folgosa, Armamar
1 carpaccio de polvo … 7 euros
1 carpaccio de lingua de vaca … 8
½ Tamboril em tempura de cogumelos, acompanhado de batatinhas de Montalegre 10
½ Cachaço de porco bísaro com migas de feijão, grelos e broa de centeio 10
1 Guru branco 07 *
1 Pintas Character *
Água Vitalis 4 euros
Granizado de frutos do bosque e limão com cassis *
2 cafés 4 euros
Total….. 43 euros
*Vinhos da Sandra oferecidos pela Sandra. Granizado foi uma gentileza do chefe Rui Paula
Casa de chá de Serralves
Domingo acordei cedo, como de costume . Sentei-me ao computador, dei uma vista de olhos pelos jornais, limpei a caixa de mail e espreitei o Facebook.
Estacionei no Twitter, num debate diletante sobre a etiqueta da limpeza das fossas nasais. A discussão foi conclusiva. Todos os intervenientes concordaram em condenar firmemente o depósito de burriés na parte de baixo dos tampos das secretárias e em defender a conveniência da invenção de um burrião – um dispositivo individual de recolha de burriés, para eventual e posterior reciclagem.
Achamos ainda que seria vantajoso que o Ministério do Ambiente promovesse a distribuição de burriões através de um jornal de grande circulação, preferencialmente o Expresso, que assim sempre se limpava um pouco mais de todos os anos inundar o país com seis milhões de sacos de plástico.
Acabei a manhã em Serralves, onde, atendendo ao dia que era, reflecti demoradamente em frente à obra Uma faca lançada de um ponto qualquer de Portugal sobre um ponto não qualquer da Europa (1), de Artur Barrio, antes de tomar café na casa de chá e vagabundear pelo parque.
O almoço foi frugal (uma sanduíche de atum, empurrada por um copo de Planalto) e tardio, mas glorioso, na esplanada do Ourigo, na Foz, a ver as ondas cinzentas a bater nas rochas e a ouvir (aos berros) o Greatest Hits de Neil Young & Crazy Horse, no iPod.
Acabei a tarde nos Aliados, na Feira do Livro, onde logrei chegar ao fim de uma volta vagarosa por todos os pavilhões com apenas 10,95 euros gastos em três livros (A amiga da Madame Maigret, de Simenon, Os crimes do estrangulador enluvado, de Rex Stout, e Quinteto de Buenos Aires, de Montalbán). No caminho entre a Foz a Baixa, apanhei um bocado de trânsito junto à Católica, onde vota a maioria das pessoas da Pasteleira.
Não sei se ainda há anarquistas. Mas após ver a sondagem da RTP1 o meu primeiro pensamento foi para a enorme satisfação que deviam estar a sentir antecipadamente os libertários, que por doutrina são avessos a qualquer forma de governo.
Porque acho que votar é um direito (de que não abdico) mas não um dever, domingo fiz parte daquela maioria silenciosa de 63% dos eleitores que protestou de forma preguiçosa – os 4,63% de votos em branco são militantes.
Mas como nunca simpatizei com as ideias do Proudhon, lá para Setembro contem comigo, munido de cartão de eleitor, na minha mesa de voto, que fica na Católica. A não ser que entretanto se me varra da memória a imagem do Rangel amuado, por não lhe terem telefonado a dar os parabéns, com um emplastro, alucinado e de óculos, a suar em bica, no lado direito do ecrã.
Jorge Fiel
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…………..
(1) Trata-se de um mapa Michelin da Europa com uma faca espetada perpendicularmente nos arredores de Zurique
Nem foi preciso pedir. O Miguel passou-nos logo para a mão duas lambretas (0,1 l de cerveja de pressão) de Super Bock, servidas em copo especialmente concebido pela Unicer.
António estava a jogar duplamente em casa. A sede da Unicer é em Matosinhos e o Miguel é sportinguista como ele – devoção que não impede que o seu restaurante seja o santuário preferido do estado maior portista e do Gotha do empresariado nortenho. Quem vai à Marisqueira de Matosinhos arrisca-se a tropeçar em Pinto da Costa, Jesualdo, Belmiro ou Rui Moreira.
“O meu prato preferido é ouvir o meu concorrente dizer mal do Sporting. A última coisa que me passaria pela cabeça seria hostilizar a massa associativa de um grande”, atira Pires de Lima, 47 anos, enquanto ataca um pratinho de camarões de Espinho, que come com casca.
O seu prato preferido no Miguel é, efectivamente, robalo grelhado com arroz de amêijoas. Ele estava apenas a dar um pontapé debaixo da mesa a Alberto da Ponte, presidente da Central de Cervejas (Sagres) e leão como ele, que ameaça processar o Sporting, alegando incumprimento do contrato por o clube ir publicitar a Super Bock nas suas camisolas.
A Super Bock ficou com Porto e Sporting, a Sagres com o Benfica. Pires de Lima reconhece que há riscos, pois o futebol é dado a polémicas, mas não teme sofrer danos colaterais desta guerra.
“Temos excelentes relações com o Benfica. Manifestamos interesse em apoiar o clube. Não foi possível porque, disseram-nos, receberam uma ‘proposta irrecusável’. Mas se algum dia se sentirem insatisfeitos com o patrocinador, continuamos à disposição. Se precisar de ajuda, o Luís Filipe Vieira tem o meu número de telemóvel”..
Em 2008, pela primeira vez em 81 anos de história, a Unicer associou-se ao futebol. “Não estar no futebol significava abdicar de lutar pela liderança na cerveja. Não podia deixar o monopólio desse território à nossa concorrente”, explica este gestor, que começou a carreira em multinacionais (introduziu em Portugal a Dodot, Evax. Tampax e Scottex) antes de entrar nas bebidas - demorou-se 13 anos na Compal.
A pedido de Hermínio Loureiro, que não tinha patrocinador para as competições mais difíceis, a Unicer ficou madrinha da Liga de Honra (Vitalis) e da Taça da Liga (Carlsberg) - e com a promessa (não cumprida) de ter a preferência para a I Liga, em caso de saída da Bwin. “Mas isso agora já são águas passadas”, diz.
Pires de Lima jura que investe no futebol “menos de metade” do que a Sagres e que a sua primeira preocupação é sair mais forte deste dois anos de crise (prevê que o sol só voltará a brilhar em meados de 2010).
As vendas de cerveja em Portugal vão cair 5% este ano (10% se o Verão for mau) e em Angola o recuo será de 20% (“não há dólares”). O consumo de águas lisas registará pela primeira vez registar uma quebra. Apesar disso, ele promete lucros iguais aos de 2008.
“Cada um segue a sua agenda. A minha é a da sustentabilidade. Prefiro ser um nº 2 forte e rentável, do que um líder a perder 20 milhões de euros/ano”, afirma, antes de desfiar com orgulho os números gordos dos quatro anos que leva à frente da Unicer: tirou 40 milhões de euros aos custos, gerou 100 milhões de lucro, distribuiu 80 milhões de dividendos e abateu 50 milhões ao passivo. “Nesse período a Central perdeu 80 milhões”, acusa.
A aposta no futebol não afecta a música, que ele considera importante “pelos valores e convívio, modernidade e universalidade que transporta”. “Os consumidores percepcionam a Super Bock como mais sofisticada e arrojada. Não a podíamos deixar afunilar no futebol”, diz.
As festas são o terceiro pilar da sua estratégia. Anda satisfeitíssimo por ter conseguido ganhar as Festas de Lisboa por três anos.
“Temos de crescer a sul. O Sporting e as festas de Lisboa vão ajudar a ganhar a confiança dos consumidores”, conclui este lisboeta que não se importa de passar parte da semana longe do seu harém (a mulher e cinco filhas, todas de olhos azuis ou verdes). “Gosto de viver na Foz, do cheiro da cidade e das pessoas do Porto”.
Jorge Fiel
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Marisqueira de Matosinhos
Rua Roberto Ivens 717, Matosinhos
1 torrada aparada … 2,70 euros
1 torrada de centeio … 2,50
Camarão da costa…. 9,00
Percebas… 9,00
Robalo com arroz de amêijoas … 75,00
Cerejas… 6,00
8 lambretas … 8,00
2 cafés…2,60
Total….. 114,80
Eu não dou uma moedinha aos arrumadores.
Os meus amigos, que se deslocam em vistosos Mercedes, BMWs e Audis dizem que me posso dar a esse luxo porque a chapa cinza rato da minha carrinha Fiat Marea (matrícula de 2001) está tão crivada de amolgadelas e riscos que eu nem repararia se ela fosse vandalizada por um arrumador vingativo.
Eles devem ter razão. A minha atitude blasé face aos arrumadores fundamenta-se no facto de ter muito pouco a perder se incorrer na ira deste modernos parasitas, que substituíram na paisagem urbana os cães vadios e os doidos (que andam disfarçados – compensados, como se diz agora).
O modelo de negócio dos arrumadores é decalcado da Mafia. Em troca da moedinha, protegem-nos deles próprios.
Há, no entanto, uma pequena maioria de arrumadores que não se limitam à venda ilegal de protecção, e fornecem serviços de valor acrescentado.
Há uns bons dez anos, quando o fenómeno dos arrumadores desabrochava e o Expresso no Porto ficava na Boavista, um colega meu (António Paulino) avençou um arrumador que não só lhe punha o carro a lavar, como fazia valet parking (se não havia lugar, estacionava em segunda e deixava-lhe a chave) e metia moedas no parquímetro se os fiscais aparecessem.
Eu próprio teria recorrido a este arrumador se o dr Balsemão não me pagasse, à época, um lugar de garagem.
A praga dos arrumadores revela um pernicioso traço do nosso carácter nacional e permite estabelecer um paralelo com a corrupção.
É grave receber sem dar nada em troca, e isso é tão válido para arrumadores como para funcionários e políticos corruptos.
Há dois tipos de corrupção. A do tipo A, maioritária no pais e entre os arrumadores, é praticada por pessoas a quem pagamos só para não nos lixarem.
A corrupção do tipo B é mais benigna e positiva, pois é produtiva e faz PIB. Estes corruptos abusam da sua posição e recebem uns dinheiros por fora, mas propiciam-nos serviços (facilitam a vitória num concurso, vendem-nos, à razão de 500 euros cada, anos de descontos para a Segurança Social ou garantem que o nosso processo vai ficar no fundo do monte até prescrever), tal como o arrumador do Paulino.
Os corruptores do tipo B prejudicam o Estado, mas, como diz o povo, “ladrão que rouba ladrão em cem anos de perdão”. Um estudo do Centro de Estudos de Sociologia revela que a maioria dos portugueses partilha deste ponto de vista.
Perguntados sobre o que mais apreciam num político, a competência (34%) vem em primeiro lugar, seguida da responsabilidade e eficácia. Só 0,7% dos inquiridos refere a honestidade. É o elogio do “rouba mas faz”
Nós não nos importamos que roubem, contanto que sejam competentes, eficazes e empenhados.
Jorge Fiel
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São como as cerejas as histórias sobre o poder do futebol. Uma outra que o ele contou foi a primeiro ministro de um Palop que lhe confessou que na véspera se deitara sem jantar, pois ficara mal disposto com a derrota caseira do Benfica, por 3-0, com a Académica.
Encontramo-nos à hora do lanche, no bar da Casa da Música. Era 6ª feira e Rui Pedro Soares, 36 anos, administrador executivo da PT, tinha vindo a conduzir de Lisboa. O café, a água do Luso (natural) e a nossa conversa foram um intervalo antes de seguir para o jantar comemorativo do tetra, no Dragão Caixa.
O jantar era um misto de função e devoção. Ele é o responsável máximo pelos patrocínios da PT ao futebol. Está sentado em cima de um orçamento anual de 15 milhões de euros, dos quais mais de 80% vai directo para os três grandes. “Representamos 10% das receitas totais do futebol”, diz.
Mas Rui Pedro também é do Porto. Do Porto cidade (emigrou para Lisboa com 16 anos, quando o pai, um alto quadro da Tranquilidade, achou deviam ir viver para a cidade onde estavam as oportunidades) e também do Porto clube – onde jogou nos juniores, ao tempo de Sá Pinto e Rui Jorge.
Do ponto de vista das paixões clubisticas, na Executiva da PT reina o equilíbrio e cosmopolitismo adequados: três benfiquistas, dois portistas, um adepto do Chelsea e outro do Man Utd.
Rui Pedro está muito contente com os resultados da aposta no futebol. “O retorno do investimento aumentou 150% nos últimos dois anos. 80% dos portugueses sabe que somos os principais patrocinadores do três grandes. Este índice de notoriedade é impossível de atingir noutro meio”, afirma.
Com a saída do BES da parte de trás das camisolas, voltará a haver marcas de grande consumo a apostar em apenas um (Sagres, com o Benfica) ou dois grandes (Super Bock, com o Sporting e FC Porto), pela primeira vez desde que a Parmalat se deu mal com isso.
Rui Pedro garante que não é por temer reacções negativas que a PT está com os três grandes. “Nós trabalhamos para 100% do mercado. Nas áreas onde estamos, ou somos lideres ou vamos sê-lo. Não apontamos a nichos”, explica.
O futebol é apenas uma das suas preocupações. Os cuidados de saúde da PT (um sistema com 103 mil beneficiários, nove mil médicos convencionados e 100 mil actos médicos mensais) e a gestão do imobiliário (dois mil edifícios avaliados em 400 milhões de euros) também são pelouros dele.
Mas é natural que os seus olhos brilhem mais quando fala do futebol, que ajuda o grupo PT a ter quatro - TMN, PT, Sapo e Meo (que vai estar na frente das camisolas dos equipamentos alternativos) – das dez mais valiosas marcas portuguesas.
“Nós estamos satisfeitos com os clubes e eles connosco. Desenvolvemos um trabalho conjunto. Não é assinar o contrato e vermo-nos para o ano. O Vitor Baía, o Sá Pinto e o Rui Costa são nossos embaixadores e todas as semanas vão a escolas”, conta.
Rui Pedro garante que a PT não vai aproveitar a crise para baixar os valores dos patrocínios, e acrescenta que o casamento com o futebol é de longa duração.
“As estatísticas dizem que há uma grande probabilidade de divórcio ao cabo de sete anos de casamento. Nós vamos superar essa barreira esta época. O nosso casamento com o futebol é para toda a vida”, declara Rui Pedro que anda a ver se arranja tempo para revisitar o Rodrigues de Freitas (onde completou o 11º ano) e só tem um pequeno reparo aos seus conterrâneos: acha que não estão a ser completamente justos com a PT.
“Nenhuma outra empresa investe tanto no Porto como nós. Apoiamos a recuperação do IPO, Monumento da Guerra Peninsular e Palácio da Bolsa. Trouxemos para cá o Bike Tour. Estamos com a Casa da Música, Serralves, FC Porto, Fantasporto, Red Bull Air Race. Ajudamos o Boavista. Acho que merecíamos ser líderes no Porto em todas as áreas”, concluiu.
Jorge Fiel
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Bar dos Artistas
Casa da Música, Porto
2 cafés … 1,30 euros
1 Água do Luso … 0,80
1 Água das Pedras… 0,80
Totall….. 2,90 euros