O presidente da Carris está a dar uma nova dimensão a um dos mais famosos fados de Amália Rodrigues, já que começou a perfumar os autocarros com uma fragância denominada “Happy City”, onde, de acordo com o autor, se misturam os aromas de Lisboa – jacarandá, Tejo, pastel de nata, alfazema e canela.
José Manuel Silva Rodrigues, 58 anos, não consegue distinguir todas estas nuances no perfume, mas garante que ele cheira bem e promete que esta experiência sensorial, em curso em 40 autocarros, se alargará a toda a frota.
Vencer o preconceito contra os transportes públicos e tornar as viagens de autocarros mais atraentes e agradáveis é a cruzada particular deste macro-economista, que há mais de um quarto de século trabalha neste sector, com escalas na CP, Fertagus e Rodoviária Nacional.
“Cheira bem, cheira a Lisboa” não foi o primeiro fado que o inspirou. Numa anterior passagem pela Carris, em 95/96, o poema “O Amarelo da Carris” de Ary dos Santos, imortalizado por Carlos do Carmo, esteve na origem da decisão de mandar pintar os autocarros de amarelo, pondo-os em sintonia cromática com os eléctricos e tornando a paisagem urbana de Lisboa indiscutívelmente mais bonita e alegre.
O comandante da frota de 750 autocarros (Volvo, MAN e Mercedes) e 60 eléctricos, que, guiados por 1650 tripulantes impecavelmente fardados (“o mau fardamento pode dar origem a processo disciplinar”, adverte), fazem diariamente 95 carreiras escalando 2 000 paragens, chegou para o almoço conduzido por um motorista e num Mercedes da Carris – mas preto, não amarelo.
Escolheu o Sancho, na Travessa da Glória, ao lado do elevador celebrizado pela Xana dos Rádio Macau e um dos quatro (além da Lavra, Bica e Santa Justa) Monumentos Nacionais e emblemas de Lisboa que integram o património da Carris. A poluição e o congestionamento foram os principais assuntos de uma conversa feita à mesa de um restaurante que fica numa pequena perpendicular da mais poluída e congestionada avenida do país.
Logo à chegada, enquanto despia a gabardina, apaixonou-se à primeira vistas pelos salmonetes expostos à entrada na bancada de peixe. Pediu um, bem grelhado, que temperou generosamente com limão e acompanhou com grelos cozidos e uma flute de Encosta d’Arêgos, um vinho minhoto de carácter limonado. À sobremesa, voltou aos tons laranja (que vestiam os autocarros até à sua chegada à Carris) ao pedir uma papaia.
Em 2003, quando voltou à Carris, investiu 94 milhões de euros na renovação da frota, baixando a sua idade média de 16,5 anos para seis (a de Madrid tem oito). “540 dos 750 autocarros são novos”, diz com orgulho, este antigo director-geral dos transportes terrestres, que começou a trabalhar com 21 anos, como técnico de 3ª no Ministério do Ultramar, e que no início dos anos 80, nos Governos Balsemão, foi adjunto dos ministros das Finanças Morais Leitão e João Salgueiros.
Diariamente, entram em Lisboa meio milhão de carros, com uma média de 1,2 pessoas a bordo. As consequências são terríveis em poluição, congestionamento, ruído e horas perdidas em engarrafamentos, calculando-se que impliquem um desperdício equivalente a 6% do PIB.
Renovada à frota e feito um esforço por facilitar a vida aos clientes, Silva Rodrigues declarou guerra ao automóvel ao desencadear a campanha Nem Mais um Carro. “Não basta ter um produto bom. É preciso que o mercado o conheça”, explica o presidente da Carris. O objectivo é aumentar em 5% a quota dos transportes pública na mobilidade lisboeta. Os progressos são lentos. Em 2009, o número de viagens de Carris subiu 2,5%, situando-se nas 240 milhões (num total de 400 milhões, em que a outra fatia pertence ao Metro).
“Para aumentarmos a velocidade média, que está estabilizada nos 14,8 km/hora, diminuir o tempo das viagens e cumprir os horários, é preciso aumentar os 60 km de corredores Bus que são 10% da nossa rede. Estamos a trabalhar com a Câmara para a afectação de mais espaço aos transportes públicos”, explica Silva Rodrigues, que preconiza medidas duras no combate ao estacionamento selvagem e indevido, bem como a criação de dificuldades, através do aumento dos preços, ao estacionamento na Baixa.
A oferta de soluções de mobilidade porta-a-porta, combinando autocarros, eléctricos, metro, comboio, bicicleta e o automóvel é o alfa e o ómega da acção do presidente da Carris, que teme o impacto dos carros movidos a electricidade.
“Ao ser mais barato, o veículo eléctrico pode ter efeito perverso de agravar o congestionamento”, avisa Silva Rodrigues, que na sua juventude nunca teve passe da Carris. Como morava em S. Bento, ia a pé para o Liceu Passos Manuel e para o ISE. E fez a escola primária num colégio propriedade do padrinho, que era no prédio onde morava – só tinha de subir do 1º para o 2º andar.
Jorge Fiel
Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias
Na sua peregrinação por 200 empresas, em busca de apoios para o próximo Fantasporto, o meu amigo Mário Dorminsky não arranjou novos patrocinadores, apesar de não ter ouvido um único “não”. “Vamos a ver” foi a resposta 200 vezes repetida.
“Vamos a ver” é um novo sinónimo do velho e brutal (mas esclarecedor) “não”, uma versão da mentira “amanhã telefono-te” dita pelos amantes de uma só noite quando se separaram à luz do dia seguinte.
O “não” parece estar em vias de extinção nesta sociedade contaminada pelo vírus guterrista do querer agradar a toda a gente, em que se prefere adoçar a negativa com uma falsa esperança a desenganar as pessoas com a crua verdade.
O “vamos a ver” é um refúgio dos cobardes sem coragem para dizer “não” e que mantêm, em vão, acesa uma esperança que só se extingue após a 5ª chamada não atendida, o 6º mail não respondido, ou a 7ª SMS ignorada. Uma cobardia cara em desperdício de tempo e frustração de expectativas de quem ainda desconhece que o “vamos a ver” quer dizer “não” traduzido para português vernáculo.
Odeio a cultura do rodeio, das palavras a abater acompanhadas de hipócritas palmadinhas nas costas, que entranhou na nossa sociedade, substituindo o saudável “pão pão queijo queijo” por um linguarejar apaneleirado, em que ao básico “gosto”/“não gosto” foi acrescentado o assexuado “não desgosto”.
Lamentavelmente, o Governo, que devia ser um exemplo de coragem e frontalidade, também adoptou a linguagem circular e descafeinada para camuflar a sua falta de coragem.
Sábado, fiquei com uma pulga atrás da orelha quando o ministro das Finanças, questionado pelo Expresso sobre a ausência de adjudicações para as linhas de TGV Lisboa-Porto e Porto-Vigo, respondeu fazendo recurso a uma barragem de 122 palavras, compondo frases redondas como “o TGV tem de ser adaptado à realidade orçamental”, “o calendário mantém-se, mas temos de fazer opções”, “não é dizer que está necessariamente comprometido”.
Segunda feira, percebi tudo ao ler a manchete do Jornal de Negócios: “Estudo das Finanças reconhece que o TGV subirá o endividamento /Linhas do Porto e Vigo são as que mais contribuem/O novo aeroporto de Lisboa terá efeitos económicos positivos na economia”. O Governo pôs em marcha uma campanha de preparação da opinião pública para deixar ficar no tinteiro o TGV para o Porto e Vigo – uma campanha iniciada com a resposta “vamos a ver” de Teixeira dos Santos, mais um homem do Norte a quem os ares de Lisboa lhe fizeram encolher os ditos. Às tantas, está à espera que seja uma vez mais o ministro espanhol a dar-nos a má notícia e oficializar o adiamento…
Jorge Fiel
Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias
Foto de Luís Costa Carvalho
Mário Dorminsky, 54 anos, é um Touro que se sente ao espelho quando lê as características do seu signo: considera-se um lutador persistente, que não desiste enquanto não leva a sua avante, um pouco ditador com a mania de centralizar tudo, mas um tipo bonacheirão e bem disposto, que faz amigos com facilidade.
É talvez esta capacidade de arredondar as esquinas do dia a dia que explica o facto de há cinco anos trabalhar como vereador da Cultura de Luís Filipe Menezes, que acha que o seu cunhado é “a loura do PSD” (Mário é casado com Beatriz, irmã de Pacheco Pereira), e de no seu outro chapéu, o de presidente da Cinema Novo (a entidade organizadora do Fantasporto), estar há dez anos em litígio com a Câmara de Gaia.
O conflito radica no não cumprimento pela autarquia da promessa, reduzida a escrito num protocolo assinado por Menezes e Dorminsky, de ceder à Cinema Novo um antigo armazém da Real Companhia Velha, que no entretanto foi parar a outras mãos e vai ser o Cais Cultural de Gaia. Mas Mário está convencido que tudo se resolverá e o seu projecto de instalar na margem esquerda do Douro uma Casa do Cinema (misto de museu da história da Sétima Arte e de videoteca gigante) irá um dia sair do papel. A esperança é a última coisa a perder.
Almoçarmos no Areal, que, como o nome indica, fica em cima da praia de Miramar (umas das 17 de Gaia com bandeira azul) e muito perto da casa que Dorminsky comprou há pouco tempo e usa como residência de fim de semana. Não resistiu a uma baba de camelo a seguir a um bife à padeiro (uma variante do célebre bife Wellington) numa refeição que acompanhou com água Vitalis e uma Super Bock Stout - a Unicer é, há um quarto de século, um dos principais patrocinadores do Fantasporto, o maior festival de cinema do país, que recebe em média 80 mil espectadores e cuja 30º edição arranca em Fevereiro.
Financiar o festival é uma dor de cabeça para Mário, que recebeu a mais moderna forma de dizer não (o “vamos a ver”) como resposta das 200 empresas a quem propôs patrocinarem o Fantasporto e se queixa amargamente de, a semanas da abertura do festival, o Instituto de Turismo de Portugal (ITP) ainda ter dito nada quanto a apoios.
“O ano passado recebemos 55 mil euros”, diz Mário, nada satisfeito pela desproporção dos apoios. Os 700 mil euros que o Turismo dá ao festival Estoril quase chegavam para fazer todo o Fantas 2010, que tem um orçamento de 780 mil euros (menos 25% que o 2009).
“Vamos fazer muito fumo com pouco fogo. Os espectadores não vão sentir que há crise. Vamos fazer uma belíssima omeleta francesa, pouco cozinhada como eu gosto, com poucos ovos”, garante Dorminsky a propósito de um festival, que inclui um ciclo dedicado à história do cinema francês (14 filmes, desde os irmãos Lumière até ao dias de hoje) uma homenagem a Luis Galvão Teles, conferências sobre robótica e work shops sobre efeitos especiais.
Apesar do Fantas ter projecção nacional, tal como Serralves e a Casa da Música, Mário não tem dúvidas que é prejudicado por estar no Porto. “Quinze revistas de companhias de aviação pediram-nos informação para publicação. Somos mais respeitados no estrangeiro do que no nosso país” , diz, recordando a história do enviado do JN ao Mundial da Coreia, que quando estava a credenciar-se e se declarou português, foi logo questionado pelo correspondente da Time em Seul: “Conheces o Dorminsky?”.
Apesar de declarar “trabalhar sem rede”, devido ao défice de equipamentos culturais em Gaia, diz que lhe tem dado “muito gozo” ser vereador, desbobinando com orgulho o nome de algumas das suas realizações, como o Teatro Brazão, o Arquivo Municipal Sophia ou o Atelier Soares dos Reis. Mas acha que se podia fazer muito mais e melhor.
“Porto, Gaia e Matosinhos deviam articular a oferta cultural, para que haver uma complementaridade de eventos. Devia haver uma empresa intermunicipal a gerir a cultura. Ao não conseguirem entender-se, os presidentes da Câmara prejudicam a imagem e a posição do Norte face ao centralismo total que Lisboa exerce sobre o resto do país”.
Jorge Fiel
Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias
Menu
Areal, Avenida da Praia, Miramar, Gaia
Cesto de pão … 1 euro
2 bifes à padeiro … 18,50
Água sem gás … 1,50
2 Super Bock Stout … 3,00
Baba de camelo … 3,50
2 cafés … 1,60
Total … 29,10
Em 1989, quando o meu amigo Manuel Serrão celebrou o funeral do seu primeiro e breve casamento com uma festa de despedida de casado, estava longe de imaginar que era precursor de uma tendência que desponta com pujança nos mercados emissores da moda em termos de comportamento social.
Como os gay estão longe de compensar a brutal queda nos matrimónios hetero, as lojas que vivem das listas de casamento entraram em alerta vermelho e fazem tudo para apoiar a institucionalização das festas de despedida de casados. A ideia têm lógica. Quando nos divorciamos, ficamos reduzidos a metade dos nossos bens - pelo menos, porque, em boa parte dos casos, a portagem é bem mais alta e evadimo-nos apenas com a roupa que temos no corpo, ficando por isso carentes de pratos, copos, garfos, toalhas, cadeiras e chaleiras.
Não vivemos num tempo em que seja possível continuar a prosperar repetindo as receitas que deram resultado no passado. É preciso inovar, não ter medo de arriscar, pois é entre disparates equívocos ou reflexões erradas que sorrateiramente surgem as grandes ideias e projectos.
Olho para o Orçamento e vejo boa política (a capacidade do primeiro ministro em ganhar a “abstenção construtiva” de Portas e dar “boas indicações” a Manuela) mas fraco arrojo. Ficamos com a incómoda sensação de dejà vu. É mais do mesmo.
Taxar em 35% os pornográficos bónus dos banqueiros é uma cópia tímida de uma invenção de Gordon Brown, que fixou a fasquia em 50% e foi imitado por Sarkozy. No país em que, segundo o Banco Mundial, os prémios mais pesam na factura salarial das empresas (32,2% contra 11,3% da média dos 12 países estudados) Sócrates não devia ter-se quedado pela banca no agravamento da carga fiscal sobre remunerações extraordinárias que escapam à base tributável da Segurança Social.
Congelar os salários dos funcionários públicos, que o ano passado tiveram um ganho real do poder de compra próximo dos 4%, é uma medida envergonhada. Bravo foi o primeiro ministro irlandês ao reduzir o seu salário em 20% antes de cortar em 10% os vencimentos dos servidores do Estado.
Os que têm emprego devem sacrificar-se para amaciar a vida dos desempregados. E os que ganham mais têm a obrigação de ser solidários com os mais pobres e os pensionistas. Não vejo razão para não se ter ousado criar um novo escalão de IRS para rendimentos superiores a 100 mil euros.
Olho para o Orçamento, vejo que as confrangedoras faltas de ambição e imaginação se reflectem na redução microscópica do défice, e vêm-me à cabeça uma frase do velho Keynes: “A dificuldade reside não nas ideias novas mas em escapar das velhas”.
Jorge Fiel
Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias
Lisboa não podia estar mais na moda. Nos European Travel Awards, foi eleita o melhor destino turístico europeu, em absoluto mas também de “city breaks” e cruzeiros. Mas estas distinções não fizeram desaparecer as rugas da testa do alentejano que nos últimos 20 anos transformou a capital portuguesa numa das mais cintilantes estrelas do turismo europeu.
No segmento de cinco estrelas, onde Lisboa tem 20 hotéis (mais do que Madrid, Amesterdão ou Viena) a luz vermelha de alarme acendeu-se com a quebra de 30% nas receitas registada em 2009. A reconversão do Terminal 2 da Portela em base para low cost como a Easyjet e a Ryanair está no topo das medidas para atacar estes sintomas de crise.
“Em 2001, as pessoas ficaram com medo de viajar por causa do 11 de Setembro. Agora é diferente. Viajar tornou-se uma necessidade tão básica como ter um telemóvel no bolso ou água, electricidade e televisão por cabo em casa. As pessoas continuam a querer viajar, só que mais barato. O preço vai ser o factor decisivo para o turismo nos próximos anos”, afirma Vitor Costa, 55 anos, director geral da Associação de Turismo de Lisboa (ATL), que tem um orçamento de 28 milhões de euros e congrega, entre os seus 600 sócios, toda a gente com interesse no sector, desde entidades públicas a privados como hoteleiros, donos de restaurantes, equipamentos turísticos, agentes de viagens.
Na relação qualidade/preço, Lisboa é competitiva com as cidades suas concorrentes, que são Madrid, Barcelona, Milão, Praga, Viena, Berlim e Amesterdão - Roma está um pouco acima, Londres e Paris são de outra liga. Mas baseia a competitividade nos preços da hotelaria serem 27% mas baratos, que amortecem o custo mais elevado das passagens aéreas.
“A hotelaria não consegue esticar mais a corda. Não há margem para os preços desceram mais. O nó do problema é o aeroporto. Precisamos de viagens mais baratas. A prioridade de um aeroporto deve ser potenciar o negócio turístico e não defender os interesses de uma companhia aérea”, afirma Vítor Costa, que escolheu almoçarmos no Martinho da Arcada.
Estava um bonito dia de sol e havia clientela na esplanada, mas optamos por comer na sala assombrada pelo espírito do seu freguês mais famoso (Pessoa). Como o quartel general da ATL fica ali perto, no nº 15 da rua do Arsenal, Vítor almoça sempre pelas imediações. Normalmente nos restaurantes da rua dos Correeiros. Episodicamente no Martinho, onde não se demorou na lista, Encomendou logo o bife, nem muito, nem mal passado, que acompanhou com água e sobremesou com um pêro descascado.
Enquanto mergulhávamos as batatas às rodelas no molho, recordou a primeira vez que viu a Lisboa, ainda moço de 14 anos, no ano seguinte às das grandes cheias de 67, que mataram 462 pessoas e desalojaram mais de mil. Apesar da ponte sobre o Tejo já ter sido inaugurada há dois anos, o pai, dono uma fabriqueta de mobiliário em Cercal do Alentejo (próximo de Vila Nova de Mil Fontes) optou por não se aventurar no trânsito na capital. Deixou o carro na outra banda e atravessaram o rio grande de cacilheiro.
Três anos depois, quando veio de vez para Lisboa, estudar leis, era bom rapaz, mas um pouco tímido. No primeiro dia, a senhora que lhe alugou um quarto nos Olivais explicou-lhe como chegar à faculdade: “Apanhas o 31. Quando vires um jardim muito grande com um edifício ao fundo, sais e entras na escola que fica do lado esquerdo”. Não se perdeu. Passou a manhã nas aulas e quando chegou à hora do almoço, em vez de perguntar o caminho para a cantina, optou por ir atrás de uns colegas que conhecia de vista. O único contratempo é que também os imitou na escolha do prato, que nunca tinha comido. “Durante muitos anos fiquei a detestar caril de frango”, confessa.
Depois de se licenciar em Direito, foi advogado até ser eleito vereador da Câmara de Lisboa, na lista da CDU, nas autárquicas em que Krus Abecassis perdeu a maioria absoluta. “Ele tratava toda a gente por tu, menos as pessoas de quem não gostava. A mim tratava-me por você. Ao Rego Mendes, outro vereador CDU, começou a tratar por tu, mas ele respondeu-lhe que só tuteava amigos. No jantar de despedida de Abecassis, depois da coligação liderada por Sampaio ter ganho a Câmara, quando chegou a hora dos discursos, brinquei com o facto dele adormecer nas reunião. No fim, veio ter comigo, deu-me dois beijos e disse-me: Tu és um filho da puta, mas o outro (Rego Mendes) ainda é pior”, recorda Vitor.
No final do almoço, enquanto passeávamos pelas arcadas de um Terreiro do Paço transformado em estaleiro (mas que vai estar pronto a tempo do papa dar lá missa em Maio), foi detalhando pormenores da reabilitação da frente ribeirinha e revelou o seu entusiasmo pelo impacto do TGV:
“Não vejo as razões par brincar com o ministro por ele ter dito que Lisboa pode tornar-se a praia de Madrid. A capital espanhola não tem mar, nem rio, nem golfe. É muito quente no Verão e muito fria no Inverno. Temos de explorar o facto de com o TGV ficar à mesma distância de Lisboa, Barcelona e Sevilha. O TGV vai alterar no sentido positivo a estrutura do destino Lisboa. Hoje, numa pequena estadia, o turista pode ir a Fátima ou a Sintra. Com a alta velocidade em meia hora está em Évora e em 45 minutos põe-se em Coimbra”.
Jorge Fiel
Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias
Menu
Martinho da Arcada
Praça do Comércio 3, Lisboa
Couvert … 2 euros
Queijo … 5,00
2 bifes da vazia à portuguesa … 35,00
Água sem gás … 1,50
Pero … 3,50
2 cafés … 3,00
Total … 52,00
Tenho muita pena dos piratas, que acabam por naufragar, mas sempre de modo diferente. É esse um dos segredos das histórias do Astérix. Estamos carecas de saber que piratas vão naufragar, que os romanos vão levar uns tabefes dos irredutíveis gauleses empanturrados em poção mágica, e que toda a aldeia (toda não, pois o bardo Assurancetourix persistirá em cantar e será amarrado e amordaçado para não o fazer) vai reunir-se à volta de uma enorme mesa a banquetear-se com javalis. A questão não é saber o que vai acontecer - mas sim como vai acontecer.
Gosto dos piratas. Tenho um carinho muito especial pelas eternas discussões entre o ferreiro Cetautomatix e o peixeiro Ordralfabetix a propósito da frescura do peixe comercializado por este último. Mas o meu personagem preferido é o romano Tullius Detritus, que desenpenha um papel central na Zaragata, o 15º dos 24 álbuns desta impagável saga (para mim não contam as histórias órfãs do fabuloso humor de Goscinny).
Tullius é um terrível intriguista que deixa um rasto verde (os balões com os diálogos têm um fundo verde para simbolizar graficamente a tensão nas discussões) de discórdia por todos os sítios em que passa, manejando com eficácia o princípio de dividir para reinar. É um hábil mentiroso, talentoso a provocar discussões, eficaz ao ponto de pôr em fúria o mais calmo dos mortais. Atirado para a arena do circo, como castigo para a sua traição, escapa indemne, após ter posto os leões a comerem-se uns aos outros.
Lembrei-me do Tullius a propósito do PSD. Quando leio o Alberto João dizer “Eu não vou concorrer a um partido que não me grama, no qual, infelizmente, eu estou lá dentro” ou ouço o Marcelo prever que “o próximo líder não vai durar mais de dois anos” fico com a certeza absoluta de que o Tullius anda pelo PSD a fazer desgraça.
O PSD teve a fama de ser o mais português de todos os partidos e tem o proveito de ser o mais partido de todos. Ao longo dos 36 anos de democracia, conheceu 16 lideres, enquanto que o PS, o seu principal concorrente governou-se com apenas seis (Soares, Constâncio, Sampaio, Guterres, Ferro e Sócrates). Até agora, em média, cada um dos 16 líderes aguentaram-se 27 meses à bronca, em linha com a previsão de Marcelo, mas esta média é muito deformada pelos dez anos do pontificado cavaquista.
Olha-se para o PSD nas vésperas de eleições de novo líder e fica-se com aquela sensação de dejà vu, de estarmos perante o enredo das aventuras de Astérix em que sabemos de antemão o que vai acontecer – só não sabemos como. Com um única diferença. Nos gauleses, a história tem um fim feliz. Nos laranjinhas, acaba irremediavelmente com todos aos tabefes.
Jorge Fiel
Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias
A alta qualidade do hardware é incontestada. O londrino Times acaba de incluir a Casa da Música na lista restrita dos cinco edificios mais significativos construídos em todo o Mundo na primeira década deste século.
Conquistar o reconhecimento internacional do software musical e educativo que corre neste estranho edifício riscado pelo holandês Rem Koolhas é a grande aposta de Nuno Azevedo, 45 anos, o administrador delegado da grande marca que o Porto herdou do ano que em que foi Capital Europeia da Cultura.
Quando, em Janeiro de 2006, Nuno tomou conta da Casa da Música, receava-se que a derrapagem no custo das obras do edifício se estendesse à gestão do equipamento cultural. Havia polémica em torno do director artístico, interrogações sobre o papel dos Estado e dos privados, dúvidas sobre a capacidade da instituição em atrair e formar públicos enquanto cumpria a missão, única, de interpretar a música em todas as suas declinações, da clássica ao rock, passando pelo jazz, pop electrónica, contemporânea e um enorme etc.
“Olhando para trás era o cabo dos trabalhos. Mas as coisas têm corrido bem. Há uma dinâmica positiva. A adesão das empresas e do público são dois casos de sucesso”, afirma Nuno, orgulhoso por ter ajudado a criar uma relação quente e afectiva entre pessoas e o edifício ícone.
O modelo de fundação, onde privados e Estado convivem, está a correr tão bem como em Serralves, a cerca de três km de distância na Av. Boavista onde foi inventado e testado pela primeira vez. Em 2005, o ano em que abriu portas, o Estado pagava 90% do Orçamento. O ano passado apenas teve que de cobrir 70%. E Nuno está convencido, até 2012, essa percentagem descerá para uns 60 a 65%.
Os números são optimistas. Em 2009, a Casa recebeu 470 mil visitantes e 1561 eventos musicais, a que assistiram 211 mil espectadores (mais 54% que em 2006). E nunca deu prejuízo.
Ganhas as batalhas da adesão do público e das empresas, a Casa da Música parte à conquista do seu reconhecimento internacional como centro de excelência artística, o grande objectivo para este ano, em que a Áustria é o país tema da programação, que abre hoje com a 1º Sinfonia de Mahler executada pela Orquestra Nacional do Porto, que ao longo de 2010 vai interpretar todas a sinfonias do compositor austríaco.
“Poucas orquestras do Mundo podiam programar a integral de Mahler”, diz Nuno, acrescentando que “a ONP é a melhor sinfónica portuguesa” e este será o ano da sua transformação numa referência a nível internacional, com uma digressão em que actuará nas melhores e mais famosas salas de espectáculos do Mundo.
O Ano Áustria também chegou ao 7º último piso da Casa da Música, onde fica o restaurante onde almoçamos. Escolhemos o menu austríaco, da responsabilidade do chef Florian, da Wiener Konzert Haus (e que já teve dois restaurantes com estrelas Michelin), com uma intromissão portuguesa – bebemos branco de uma garrafa de Cartuxa que Nuno tinha aberto no almoço da véspera.
Nuno não está arrependido por ter trocado um lugar na administração da holding do maior grupo empresarial português pela Casa da Música. Esta é mais a sua praia. “Gosto mais de construir do que de gerir. O que me entusiasma é virar as coisas ao contrário e encontrar saídas novas”.
O mais velho dos três filhos de Belmiro de Azevedo foi aos 14 anos para Inglaterra, onde acabou o secundário. Antes de ir para a Universidade de Louvaina (Bélgica), onde se licenciou em Ciências Políticas e Relações Internacionais, tirou um ano sabático em que vagabundeou pela Alemanha, trabalhou numa fábrica (parte do primeiro salário de mil marcos foi aplicado na compra de uma estereofonia) e viu actuar ao vivo, em Munique, Joan Baez e Bob Dylan, naquele que é muito capaz de ter sido o concerto da sua vida.
Regressado a Portugal, ainda se demorou um ano por Lisboa, onde foi jornalista no Diário de Lisboa, então dirigido por Mário Mesquita, com quem tinha feito amizade em Louvaine. Ter sido o enviado especial à libertação de Mandela, foi o ponto alto do seu ano como repórter. “Era o único jornalista português na conferência de imprensa que ele deu em casa do Desmond Tutu”, diz, Nuno, que ficou impressionado com a humildade e total ausência de rancor do líder do histórico líder na ANC.
Depois fez o que tinha a fazer. Foi trabalhar para o grupo fundado e dirigido pelo pai, para mais tarde não se culpar por não ter feito a experiência. Mas à medida que os anos passavam, maior era a certeza de que a Sonae não seria o ponto de chegada da sua carreira.
Daqui até ao final do seu segundo mandato quer consolidar a Casa da Música como sinónimo, a nível internacional, de excelência artística. Em 2012, vai fazer uma viagem de carro até ao Rovuma, que durará dois meses e já está a preparar - ruma ao Cairo e acompanha o Nilo até ao Sudão, estando por desenhar o resto do percurso. Depois se verá. Porque o que o entusiasma não é gerir, mas construir, virar as coisas ao contrário e encontrar a saídas novas.~
Jorge Fiel
Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias
Menu
Restaurante Casa da Música
Av. Boavista 604- 610, Porto
2 Menu Áustria … 24,00
Creme de manjericão
Porco assado com couve branca e knodel
Vinho branco
Topfentorte
2 cafés
Total…. 24,00
Não são nobres razões éticas que me levam a não suportar a mentira, mas antes motivos bem mesquinhos, do estilo da desculpa “estão verdes, não prestam” dada pela raposa para não comer as uvas na célebre fábula da La Fontaine. Eu evito mentir apenas porque sei que sou incompetente na matéria. Todos nós conhecemos grandes fingidores, que mentem descaradamente com uma notável convicção. Às vezes até os invejo, mas não consigo imitá-los.
Na minha boca, a mentira tem a perna muito curta. Quando tento mentir, sinto que a minha cara, olhos, mãos e linguagem corporal gritam, em uníssono, que estou a faltar à verdade - e então a mentira não só é inútil como, ainda por cima, me deixava embaraçado e cheio de vergonha por ter sido apanhado. Uma merda!
Como todos os mentirosos incompetentes, desenvolvi uma técnica de protecção que consiste em usar a omissão da verdade como sucedâneo da mentira. O problema é que eu sei perfeitamente que o que não se diz também pode ser uma afirmação falsa.
José Sócrates ganhou a primeira maioria absoluta para o PS com duas promessas: TGV e novo aeroporto de Lisboa. Quatro anos e meio depois, foi reeleito numas legislativas que foram, no essencial, a vitória do Sim num referendo sobre o uso dos grandes investimentos públicos no combate à crise.
Os governos andam sempre a boca cheia de obras e projectos, mas vai-se a ver e não passam da palavra a acto. Entre 1998 e 2008, Portugal foi o país de toda a UE em que o investimento público mais caiu, à média de 4,6% por ano.
Lendo os jornais, com o meu detector de mentiras ligado, vejo sinais claros de que o acordo com o PSD para combater o défice e aprovar o Orçamento vai ser o álibi para deixar cair, uma vez mais, o investimento público. As notícias de cortes superiores a 10% no Pidacc são óbvios balões de ensaio lançados por um Governo que quer que a opinião pública olhe para o que ele diz e não para aquilo que não faz.
Estou a ver que o TGV Lisboa-Porto e o Porto-Vigo vão ser sacrificados no altar do acordo com o PSD, e que a partir de 2015 vai ser mais rápido fazer de comboio os 600 km que separam as capitais ibéricas do que os 300 km que dividem as duas principais cidades portuguesas.
Estou a vez que em vez de optar por cortar na despesa como o Governo de Dublin (onde o primeiro ministro deu o exemplo, diminuindo em 20% o seu ordenado e em 15% o dos seus ministros, antes de cortar 10% nos salários públicos), Lisboa prepara-se para reduzir o défice à custa do desenvolvimento.
Estou a ver que Sócrates é um fino poeta, um grande fingidor, pois o que não se diz também pode ser uma afirmação falsa.
Jorge Fiel
Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias
Os cabelos vermelhos de Rita Lee e cor de rosa de Nina Hagen são a mais forte recordação que Roberta Medina, 30 anos, guarda do primeiro Rock in Rio, que faz amanhã 25 anos abriu as portas no Rio de Janeiro, num recinto que durante dez dias acolheu os Queen, Rod Stewart, Yes, AC/DC, James Taylor, etc.
Inventado para servir de rampa de lançamento da marca de cerveja (Malt 90) com que a Brahma queria aumentar a penetração na juventude, o 1º Rock in Rio teve consequências diversas para os intervenientes. A Mc Donalds entrou no Guiness vendendo 53 mil hamburgers num só dia, dentro do recinto. A Malt 90 foi um fracasso, já que problemas com a pasteurização levaram a que recebesse a alcunha de Malt nojenta e fosse retirada do mercado. Roberto, o organizador, ficou crivado de dívidas e com uma filha que pintava regularmente o cabelo de cores extravagantes, uma mania que lhe chegou à adolescência, que ela atravessou com uma madeixa azul permanente.
Encontramos com uma Roberta de cabelo castanho à porta do 230 da av. da Liberdade, onde, no 5º andar bate o coração do Rock in Rio. Fomos a pé até à Adega Alcafache, onde a refeição foi quase tão desastrosa como o trágico acidente ferroviário que o nome do restaurante evoca.
Tal como eu, ela prefere a Coke Light, mas só havia Zero. Meia hora depois de ter sido encomendado, o Bacalhau à Brás revelou-se inexistente. Idem aspas relativamente ao segundo pedido (Salmão grelhado com arroz de tomate). Por isso, Roberta acompanhou a terceira escolha de um aviso sério: “Se volta sem o peixe espada, vai buscar sushi para mim ao restaurante do lado”.
Roberta é muito engraçada e tem aquele ar leve e divertido que só os brasileiros conseguem ter, mas – não façam confusão! - ela é a czarina que fez acontecer as quatro últimas edições do maior festival do Mundo e que além do Rock in Rio deste ano, em Lisboa, está a preparar a estreia da marca em 2011, em Poznan, na Polónia.
Tinha 22 anos quando o pai (a quem se refere como Roberto) lhe pôs às costas a responsabilidade pela organização do 3º Rock in Rio, proporcionando-lhe nove meses de inferno e uma formação completa (licenciatura, mestrado, doutoramento e pós-doc) na produção de mega-eventos. “Roberto diz que nada é impossível e a gente acredita”.
Viveu muito em pouco tempo, mas continua tão apaixonada por realizar coisas como quando, aos 17 anos, começou a trabalhar como faz tudo numas produções Disney no Barra Shopping, no Rio. Apesar de ter sido adulta à força, garante que vai “ser criança para sempre”.
“O Pai Natal existe mesmo, nem quero nem discutir isso, agora se vem ou não de trenó…”, conclui Roberta que é capaz de ser uma adolescente fascinada pela magia de Mickey e gamada no Stitch, tanto gosta e precisa de música como de silêncio - e se adaptou bem a Portugal (“tenho dois países em que em sinto em casa”) mas gostava de participar na produção das Olimpíadas de 2016, no Rio.
Jorge Fiel
Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias
Adega Alcafache
Rua de Santa Marta 37 C, Lisboa
2 Colas Zeros … 2,50 euros
Peixe espada … 8,90
Bacalhau na brasa… 8,90
2 Cafés … 1,10
Total… 21,40
Tenho uma enorme simpatia pelos burros. Não exactamente pelos meus concidadãos desprovidos de inteligência, mas pelos animais propriamente ditos. Gosto de os ouvir zurrar e do seu aspecto pachorrento.
Persistente, trabalhador e capaz de se adaptar a meios adversos, o burro está pouco conceituado em Portugal, mas nos Estados Unidos é o símbolo dos Democratas, sendo corrente, nos estados por eles governados, ver nos vidros dos carros um autocolante com a imagem de um burro montado num elefante, o animal que representa os Republicanos.
Sei de alguns algarvios que não têm nada de burros e vivem às custas do burro, que entre nós é um animal subsidiado. O que o Estado português paga anualmente ao dono, chega para o alimentar, sobrando ainda um pequeno lucro que é engordado no Verão, através da venda a turistas alemães de passeios de burro na Costa Vicentina.
Vem esta algaraviada a propósito de uma folha A4 policopiada, que nos anos 70 estava afixada um pouco por toda a parte, de mercearias a repartições públicas, em que a frase tese “Cooperação? Até os burros compreendem” era demonstrada com auxílio de uma banda desenhada em que dois burros, atados um ao outro, percebiam que, se cada um puxasse para o seu lado, não iriam a lado nenhum.
Em Paredes, algures no coração da região mais jovem do país (Vale do Sousa) onde está 80% da indústria de mobiliário, um empresário chamado António Augusto Rocha em boa hora descobriu uma alternativa à luta inglória para ter preços para fornecer a Ikea e especializou a sua Móveis Viriato num nicho de mercado: a indústria hoteleira. Vende primeiro e depois fabrica soluções personalizadas aos cerca de 50 hotéis cinco estrelas de cadeias como a Meridien, Hilton, Radisson, Pestana, Renaissance ou Club Med que, em média, equipa todos os anos.
Logo a abrir este 2010, António Rocha deu-nos a boa notícia da constituição da hi.Global, empresa em que estão associadas oito fabricantes portugueses. A ideia é que os hotéis a quem a Moveis Viriato fornece camas, cadeiras, armários, candeeiros, cortinados e candeeiros passem a adquirir uma solução local portuguesa, incluindo alcatifas da Lusotufo, revestimentos cerâmicos da Recer, torneiras e fechaduras da Cifial, revestimentos de cortiça da Amorim, louça de porcelana da Costa Verde, têxteis lar da Lasa e colchões da Molaflex.
Nenhuma destas empresas é visita frequente das páginas da imprensa económica, que se deixa encandear pelas EDP, GALP, PT e bancos, convencida de que a economia portuguesa é o PSI 20 e o resto é paisagem. Já agora, e por falar em burros, cooperação e grandes empresas, alguém é capaz de me explicar direitinho por que é que a Zon e a Soanecom ainda não fundiram?
Jorge Fiel
Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias
Foto Pedro Granadeiro
Lá onde quer que esteja, o antigo operário chapeleiro Dionísio Santos Silva deve estar orgulhoso. O seu filho Eduardo foi ministro da Instrução da I República. O seu neto Artur meteu-se no Foguete para ir a Lisboa convidar Humberto Delgado a desafiar Salazar. O seu bisneto Artur, o pai do primeiro banco privado (BPI) do pós 25 de Abril, preside à Comissão Nacional para a Comemorações do Centenário da República.
Em 1891, o bisavô do banqueiro tinha uma loja de chapéus no nº 65 da rua de Santo António, no Porto, quando foi posto a ferros e submetido a Conselho de Guerra acusado de ser um dos cabecilhas do 31 de Janeiro, a primeira revolta republicana contra uma Monarquia que ainda haveria de sobreviver mais 19 anos. Como só morreu em 1920, com 67 anos, viveu o suficiente para assistir ao triunfo dos seus ideais, a 5 de Outubro de 1910.
Com tão egrégios bisavô, avô e pai, todos eles imortalizados na toponímia do Porto, foi consensual a escolha de Artur Santos Silva, 68 anos, para dirigir as comemorações do centenário da República, no ano anterior a umas presidenciais em que se o seu nome consta da lista de possíveis candidatos, o que o incomoda bastante: “Isso não tem qualquer fundamento. Não se passou nada. Não estou disponível, nem tenho qualquer interesse no lugar ou perfil para ele”.
Arranjou um buraco de hora e meia na sua agenda atafulhada, para um café, 4ª à tarde, na Casa da Música, de que é presidente do Conselho de Fundadores, uma das suas muitas ocupações – além de presidente do BPI, é membro do Conselho Geral da Universidade de Coimbra (onde se licenciou em Direito, em 1963) e administrador de uma data de instituições, como a Gulbenkian, Partex ou Jerónimo Martins.
Vinha de um almoço no Grappa (o italiano do Porto Palácio), e ainda tinha de afazeres a resolver antes de se retirar para a sua casa em Amonde (perto de Vila Praia de Âncora), onde passa os fins-de-semana e é a base para grandes passeios de bicicleta que o levam, na companhia de amigos, até ao outro lado do rio, à margem galega do Minho.
O pontapé de saída das comemorações vai ser dado no Porto, no dia 31, data em que estará ao lado de Cavaco a inaugurar a exposição sobre a resistência e luta pela liberdade entre 1891 e 1974, comissariada por Teresa Siza e Manuel Loff, que estará na Cadeia da Relação, onde Camilo escreveu, de um jacto, Amor de Perdição, quando ali estava preso acusado de adultério. Na ocasião, será mostrado o quadro sobre a Bandeira Nacional que a encomendado a Nikias Skapinakis.
Divulgar as grandes realizações da República e celebrar os seus ideais projectando-os para o futuro são o alfa e o ómega das comemorações que encerram em Lisboa, a 5 de Outubro, dia em que o Hino Nacional será tocado por esse país fora, em simultâneo por centenas de bandas de música.
“A República representa a afirmação da liberdade e da cidadania, o combate à pobreza e a celebração do Estado de Direito”, afirma Artur, que desvaloriza as críticas do presidente da Causa Real. Paulo Teixeira Pinto, que em 2006, quando liderava o BCP, tentou, sem sucesso, comprar o banco fundado por Santos Silva, considerou “inoportunos” os gastos com as comemorações.
“Cada um tem as suas razões, mas o nosso orçamento até é muito contido, se tivermos em conta as mais de 500 iniciativas em marcha”, responde Artur . Os dez milhões de euros postos à disposição da comissão estão a ser aplicados em exposições, conferências, em apoios à investigação e à edição, mas revelaram-se curtos para aventuras no domínio do audiovisual. No desporto, além dos Jogos do Centenário, está agendado um Portugal-Espanha em futebol, em que Juan Carlos não é esperado.
As escolas estão no centro das preocupações. “A educação foi a grande obsessão da I República”, recorda, acrescentando que o municipalismo foi outra das marcas republicanas. Santos Silva não é um apoiante da regionalização, mas reconhece existir “uma alocação desigual de recursos por parte do Estado” e defende que “uma maior descentralização do poder” e reforço das competências dos municípios.
“Tem de haver uma distribuição mais justa dos recursos nacionais”, reconhece o responsável por umas comemorações cuja marca física que ficará para as gerações vindouras será a renovação da frente fluvial de Lisboa, entre Belém e o Terreiro do Paço.
Jorge Fiel
Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias
Restaurante Casa da Música
Avenida da Boavista 604/610, Porto
2 cafés … 2,00 euros
Não sou daqueles que acham que nós, homens, fomos mais penalizados do que as mulheres na hora em que o Criador, na sua imensa sabedoria, deliberou sobre as penitências a observar pelos dois sexos relativamente à culpa pelo Pecado Original.
Ter de fazer a barba parece-me uma penitência bem mais benigna do que a suave prestação mensal que as mulheres adultas pagam, a título quase vitalício, para se redimirem dos nossos antepassados Adão e Eva terem trincado a maçã num compreensível momento de desvario – quem nunca cedeu a essa tentação que atire a primeira pedra!
Nunca fui de me dar ao incómodo de fazer a barba todos os dias. Habituei-me a justificar com as poupanças - em tempo (que é dinheiro), lâmina, espuma, água e after shave -, o que era olhado como um desleixo. Há coisa de poucos anos, José Mourinho foi um dos líderes da revolução libertadora que legalizou socialmente a barba de três dias, absolvendo-me do facto de só me por em frente ao espelho, antes do banho, uma ou duas vezes por semana.
Fechar o ralo do lavatório é o meu primeiro gesto da rotina quando faço a barba, o que me permite usar na limpeza da lâmina a água gasta na preparação da cara para a espuma. No final, depois de abrir o ralo, limpo com uma folha de papel higiénico os pelos que ficaram acumulados no lavatório. Temos de poupar água, que é um factor escasso.
O problema é que no lavatório Portugal o ralo Lisboa suga e desperdiça todos os recursos que a torneira do resto do país lhe despeja, sem que até agora ninguém lhe tenha conseguido por travão.
Num artigo publicado no Expresso, no dia de Natal, Daniel Bessa, fez as contas (o que ele sabe fazer, ao contrário do incompetente que o despediu do Governo) e concluiu que para trazer o défice de volta aos 3% do PIB o Estado português tem de arranjar dez mil milhões de euros.
Aumentar as receitas não é viável, pois não se pode tirar sangue das pedras – a economia está em coma e o tacho da cobrança coerciva das dívidas fiscais já está rapado. Reduzir o investimento público seria criminoso no país da UE que na década 98/08 teve o pior desempenho neste capítulo, com uma queda anual média de 4,6%.
A alternativa é reduzir drasticamente a despesa, o que implica desmantelar este Estado velho, gordo e centralista que gasta metade da riqueza do país. O combate à crise exige o reordenamento do território, a destruição deste aparelho de Estado e a redistribuição de competências.
Só a Regionalização pode fechar o ralo do desperdício lisboeta por onde se esvai a nossa riqueza. Se não se fizer, o resto do país não tem outra alternativa senão fechar a torneira e começar a pensar numa solução à catalã.
Jorge Fiel
Esta crónica foi hoje publicada no DN
Vinte e três séculos depois de Epicuro nos ter avisado que “nada impede que exista uma infinidade de Mundos”, Nuno está a dar razão ao filósofo ateniense - descobriu 32 novos planetas, o que lhe valeu ser um dos três portugueses contemplados com a bolsa de um milhão de euros, atribuída pelo European Research Council (ERC) a 219 investigadores, de um total de 2503 candidatos.
“Estamos a caminhar a passos largos para descobrir outros pequenos planetas azuis a orbitar outras estrelas parecidas com o Sol”, garante Nuno Cardoso dos Santos, 36 anos, que escolheu almoçarmos na Duvália, que, tal como a Petúlia, pertence a Ilídio Pinto (histórico dirigente do hóquei portista), e fica no Campo Alegre, perto do Centro de Astrofísica da Universidade do Porto (CAUP).
Ainda não era uma da tarde quando lhe serviram os filetes de pescada. Fechou a refeição com um pingo de descafeinado. Ele estava com pressa pois tinha uma reunião às 14h30.
Nuno nasceu em Lourenço Marques, mas ainda bebé veio com os pais (ela professora primária, ele pequeno empresário) para Lamego. Viveu ainda em Mirandela e em S. João da Madeira até ir estudar para Lisboa. A Física foi apenas o caminho. O objectivo era a Astronomia.
Lembra-se da primeira vez em que, ao colo da avó, ficou fascinado com a Lua e as estrelas. Em Mirandela, durante um eclipse do Sol, já o vemos a fazer cálculos, com uma mão nos binóculos e a outra num cronómetro. Tinha 16 anos quando construiu o seu primeiro telescópio e se apaixonou pelos anéis de Saturno, cometas, enxames de estrelas, nebulosas e crateras da Lua. Estava escrito nas estrelas que ia ser astrónomo.
Michael Mayor, que em 1995 descobriu o primeiro exoplaneta (planeta fora do sistema solar), e a possibilidade de colaborar com o Observatório de Genebra, foram a poderosa força de gravidade que o atraiu à Suíça, onde demonstrou, no seu doutoramento, que as estrelas com mais elementos pesados (tudo o que não é hidrogénio e hélio) tem mais probabilidades de ser orbitadas por planetas.
Acabado de desembarcar em Genebra, recebeu guia de marcha para o Chile. “Senti-me um piloto de uma nave espacial à procura de novos planetas”, diz Nuno (que na adolescência delirou com a saga Guerra das Estrelas) ao recordar a primeira experiência ao comando do telescópio suíço no Observatório de La Silla, no deserto de Atacama.
Ser bem sucedido na caça de novos planetas implica paciência, cálculos complicadíssimos e sonos trocados. “Trabalhar de noite é muito duro”, diz Nuno, que em La Silla (onde já esteve 20 vezes) se deita ao nascer do dia e começa a trabalhar quando o sol se põe.
Os períodos de observação duram em média duas semanas, durante os quais recolhe dados que depois trabalha no CAUP. A velocidade de uma estrela varia se tiver planetas à volta. É através destas alterações, que ele descobre novos planetas e reúne informação (diâmetro, período orbital, atmosfera) sobre eles. Apesar de não os ver, sabe que eles estão lá e conhece-os.
O trabalho de cartografar a Via Láctea ainda está numa fase incipiente. Os 400 exoplanetas descobertos são quase todos muito grandes, do tamanho de Júpiter, que tem 300 vezes mais massa que a Terra. “O objectivo é chegar a um catálogo de pequenos planetas rochosos, parecidos com a Terra, que orbitem as suas estrelas à distância certa, para que possa existir água no estado líquido, a suportar a vida tal como a conhecemos”, explica.
Nuno está convencido de que não estamos sozinhos e um dia vamos descobrir que há vida num planeta distante: Mas não vai ser amanhã. “Na Ciência, temos de planear a médio e longo prazo. Em Portugal, a investigação está no bom caminho, mas ainda nos falta capacidade para fixar cientistas, porque não lhes damos estabilidade. Vivemos de bolsas. Hoje funciona, mas amanhã pode deixar de haver financiamento e ou abandonamos o trabalho ou vamos embora. Temos de ser capazes de absorver os melhores”, concluiu Nuno, a quem a bolsa da ERC garante estabilidade até 2014, o ano em que o seu filho vai fazer cinco anos.
Jorge Fiel
Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias
Duvália
Rua do Campo Alegre 654, Porto
Couvert … 1,20 euros
½ Filetes de pescada … 9,00
½ Tripas à moda do Porto … 6,50
Água … 2,00
Café … 0,80
Pingo de descafeinado … 0,90
Total … 20,40
Logo à noite, vai ser como deve ser. Cubro a base do prato com azeite, adiciono a gota de vinagre, tempero com pimenta, esmago o dente de alho e a malagueta - e vou misturando até ficar pronta a cama para a posta de bacalhau.
Talvez o meu apelido não seja estranho ao facto de sempre me ter interessado pelo fiel amigo, cuja história e evolução penso não terem ainda sido analisadas nas escolas de negócios, nem reflectidas pelos sociólogos e outros psicanalistas da Pátria. O’Neil exortou-nos a seguir o cherne. Sem melindre para o mano da garoupa, nem ofensa à memória do poeta, apelo a que sigamos o bacalhau, em tudo quanto ele nos tem para dar e não se esgota no prato.
Quantas vezes na cozinha, com uma embalagem com pedaços de bacalhau à frente, me interroguei sobre o que fazer. Bolinhos de bacalhau? À Brás ou à Gomes de Sá? Ou tão só a simples punheta, essa espécie de sushi à portuguesa?
Todos sabemos que há mil maneiras de cozinhar bacalhau, mas nem todos estamos convencidos há mais de uma maneira de fazer as coisas bem e somos tolerantes ao ponto de perceber que a verdade é plural - e temos de respeitar ideias, hábitos e comportamentos diferentes. Logo, durante a ceia, faça a si próprio o favor de aprender com o bacalhau a critica implícita que ele faz ao pensamento único e ao sectarismo dos que pensam ser donos da razão.
Peixe das águas frias dos mares do Norte, o bacalhau é uma matéria prima importada a que acrescentamos o valor da salga e da cura, desde que os nossos navegadores chegaram à Terra Nova. Não é por acaso que o coração da indústria bacalhoeira bate em Aveiro, terra onde abunda o sal e o sol.
No séc. XX, o bacalhau superou a inovação tecnológica (a invenção do frigorífico), mantendo-se fiel ao tradicional processo de conservação (salga e cura), e logrou um upgrade da imagem, deixando de ser olhado como comida de pobres.
Recentemente, adaptou-se ao desembarque massivo das mulheres no mercado de trabalho e ao mal da falta de tempo. Como, no dia a dia, ninguém tem paciência para o demolhar convenientemente, apresenta-se agora na versão demolhada e ultra-congelada já pronta a cozinhar – e menos salgado para não sair da dieta dos hipertensos. E não perdeu de vista as novas gerações, entrando nas pizzas e lasanhas.
Para que não fique tudo em águas de bacalhau, ele só precisa mesmo que o país que o adoptou o assuma sem complexos como o seu maior embaixador gastronómico. O pastel de bacalhau é tão fundamental como a nata. As pataniscas têm tudo para serem uma coqueluche. E não há turista que não adore bacalhau com natas. Itália tem pizzas e pastas. Espanha tem paella e tapas. Portugal tem bacalhau. ‘bora aí internacionalizá-lo à séria!
Jorge Fiel
Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias
Foto Ana Jesus Ribeiro
Não vale a pena ficar com remorsos ecológicos. O bacalhau não só não está em vias de extinção como, ainda por cima, nós estamos muito longe de ser o seu pior inimigo.
“Só na Terra Nova, há cinco milhões de focas e cada uma estraga em média, todos os dias, 80 kg de bacalhau. Sozinhas dão cabo de mais bacalhau do que nós, os espanhóis e os italianos juntos”, denuncia Rui Costa e Sousa, 55 anos, esclarecendo logo o uso do verbo estragar: “As focas só comem as vísceras. O resto, deitam fora”.
A concentração na Europa do Sul do consumo de um peixe que habita as águas geladas dos mares do Norte tem uma boa explicação: “Para ser gostoso, o bacalhau tem de levar azeite”.
Rui Costa (que é sportinguista) sabe do que fala pois é o maior importador de bacalhau seco, com quem lida profissionalmente há 33 anos, após ter feito o espólio no quartel da Ajuda da Polícia Militar, onde, sob o comando do major Tomé, fez uma tropa acidentada nos anos quentes de 74 e 75, marcada por plenários às seis da manhã, troca de murros e tiros com os comandos - e em que as manifs onde se gritava “Nem mais um só soldado para as colónias!” o pouparam a uma viagem até Nova Lisboa.
Ainda não havia IP5 quando deixou a Tondela natal, atravessou a Serra do Caramulo e desaguou em Aveiro, fazendo o percurso inverso ao do peixe fresco que o pai vendia e viajava de comboio desde o litoral.
Nos primeiros quatro anos, fez um pouco de tudo, desde camionista a carregar fardos às costas, o que descreve como curso de Económicas e Vassouras. Em 80, casou e estabeleceu-se como armazenista. Passou a industrial já nos bons tempos dos anos 90, “em que havia muito dinheiro e pouco bacalhau, ao contrário de agora em que há muito bacalhau e pouco dinheiro”.
A facturação da RCSI (Rui Costa e Sousa & Irmão) estagnou nos 70 milhões de euros, apesar das vendas não pararem de crescer. “Este ano, os preços caíram entre 20% a 30%. Portugal é o sítio do Mundo onde o bacalhau é mais barato”.
O homem que ganhou o direito a ser chamado pelo nome da sua principal marca (Sr. Bacalhau) recebeu-nos numa das cantinas da sua fábrica no Cais dos Bacalhoeiros (Gafanha), que fica mesmo em frente a um enferrujado bacalhoeiro russo comprado pelo sucateiro Godinho após ter sido arrestado por dívidas.
Uma sopa de bacalhau inaugurou uma refeição monotemática em que foram servidos dois pratos, generosamente regados por um tinto de Silgueiros. O primeiro, mais tradicional, foi um Bacalhau à Beira Baixa, em que a posta cozida repousa em cima de uma rabanada de regueifa e é acompanhada por batatas, grelos e uma cebolada que o mestre Silva (um dos comensais e amigo da casa) fez questão de precisar ter sido confeccionada com duas partes de azeite, uma de vinagre e uma pitada de colorau.
O segundo prato, mais experimental, foi inventado pelo Mestre Silva que o baptizou Bacalhau à Rui Costa (“A melhor posta é a do Rui Costa”, gracejou logo o próprio) e consiste numa posta limpa, sem espinhas nem peles, passada por farinha, envolta num molho que leva manteiga, calda de pêssego, natas e Porto, e acompanhada por arroz chao chao enriquecido com pedacinhos de bacalhau.
Rui Costa fez questão de sublinhar que a sua versão favorita é o bacalhau na brasa, com muita cebola e azeite. “Este é o melhor bacalhau que há à face da Terra. O Belmiro só come Sr. Bacalhau”, declarou.
Há coisa de dez anos, o mundo do bacalhau foi abalado pela invenção da posta demolhada e ultra-congelada, revolução a que ele aderiu, contratando à concorrente Riberalves, para director industrial, Guedes Vaz (outro dos comensais), a quem ele se refere afectuosamente como “o catedrático do bacalhau”.
“O consumidor não sabe nem tem tempo para demolhar o bacalhau como deve ser. Dependendo da grossura, precisa de estar entre 60 a 100 horas em água gelada, mudada uma meia dúzia de vezes”, explica Rui Costa que deve localizar no Brasil (onde faz 30% das vendas e o mercado cresce a olhos vistos) a nova fábrica de ultra-congelados, e partilha um segredo do negócio: “No dia em que é pescado, o bacalhau tem logo de ir dormir ao sal e demorar-se por lá um mínimo quatro meses”.
Jorge Fiel
Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias
Cantina da fábrica RCSI
Cais dos Bacalhoeiros, Gafanha da Nazaré
Sopa de Bacalhau
Bacalhau à Beira Baixa
Bacalhau à Rui Costa
Dão Curral da Burra (tinto)
Cafés (com umas gotas de uísque velho)
Assim de repente, vejo que aqui pelo Porto já não me restam muitos amigos benfiquistas. O Rogério Gomes fez muito bem em concentrar no Gil Vicente a sua paixão clubística. O Vítor Pinto Basto é um caso à parte, pois simpatiza ao mesmo tempo com águias os dragões – ninguém me tira da cabeça que ela anda a treinar-se para Kofi Annan. O Mário Dorminsky deixou de ligar a futebol. E, com a sabedoria que só pode ter quem passou mais de metade da vida rodeado por milhares de livros, o António Catarino prefere falar de automóveis e rugby.
Há, claro, o Aníbal Campos, que é daqueles benfiquistas irredutíveis e com pedigree, ao ponto de também sofrer pelo Real Madrid, mas a esse já não o vejo há uma data de tempo – com grande pena minha.
Um jogo entre Porto e Benfica é mais ou menos como as férias, em que o divertimento tem três andamentos: a excitação da preparação, o saborear das férias propriamente ditas e o prazer de as relatar.
Como não tenho benfiquistas por perto, o meu divertimento no antes do derby resume-se a sentir à distância, via Media, o cheiro a medo e a nervosa ansiedade que transpira dos benfiquistas, já convencidos que, uma vez mais, a sua equipa se vai esgotar no papel de segunda lebre da Liga (a principal é, este ano, o Braga), que parte entusiasmada no Verão, ganha velocidade no Outono, desacelera no Inverno e desiste na Primavera.
Está cada vez mais curto o prazo de validade dos factos políticos e desportivos. Três meses depois de se ter enfiado num buraco, por causa das alegadas escutas de que estava a ser alvo (afinal, vai-se a ver, e o escutado era o outro…), Cavaco já se sente com a cabeça fora de água e promoveu o amigo Lima.
Os meus amigos portistas, que há coisa de um mês receavam que hoje nos pudesse acontecer uma coisinha má, andam felizes da vida a recordar a proeza do Lemos – que numa época marcou seis golos (quatro nas Antas e dois na Luz) ao Benfica de Eusébio – e os saudosos cinco secos aplicados na Supertaça, em casa do adversário. Nestes tempos difíceis é enorme a volatilidade dos estados de alma.
Hoje à noite, no durante, o que me dará mais gozo, para além da convincente vitória azul e branca, será ver como as equipas, que desembarcam em campo (será mesmo relvado?) com um plano de batalha definido ao pormenor com régua e esquadro, vão reagir às contrariedades, com um golo madrugador de Hulk, a expulsão anunciada do David Luiz ou a confirmação da lesão de Aimar.
Depois - os meus amigos benfiquistas conhecem-me – a minha vaidade será demonstrar, uma vez mais, quão competente sou a fazer o mais difícil, que é saber ganhar.
O champanhe será bebido em privado, com os meus amigos portistas. Como sempre, irei abster-me do mau gosto de perturbar o luto dos meus amigos benfiquistas com SMS gozonas, telefonemas achincalhantes, tuítes ácidos ou bocas foleiras no FB.
Jorge Fiel
Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias
Natal não é só quando um homem quer, também é para a semana e, como de costume, estou atrasado na minha lista de prendas. Não deixa de ser irónico que Jesus Cristo, cujo nascimento vamos comemorar, tenha sido poupado a duas das coisas mais difíceis que um homem tem de fazer: viver com uma mulher e fazer a lista de compras de Natal.
Tudo é delicado, logo a começar pela delimitação do perímetro de beneficiários. Trata-se de uma troca de presentes, o que quer dizer que podemos embaraçar uma pessoa ao dar-lhe uma prenda, quando a ela nunca lhe passou pela cabeça dar-nos outra coisa senão o desejo de um bom Natal!
Para evitar ser eu a ficar enrascado, tenho sempre dois ou três presentes de reserva, com a etiqueta pronta a ser preenchida em caso de emergência. Cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém. Quando, na noite dos Óscares, não se vê um lugar vazio no Kodak Theatre isso não quer dizer que os convidados apareceram todos e a horas, mas sim que a organização contratou figurantes vestidos a rigor e prontos a ocupar as cadeiras vagas um minuto antes das televisões entrarem em directo.
Elaborada a lista, há que escolher a prenda adequada ao gosto e necessidade de cada beneficiado e compatível com o dinheiro que estamos dispostos a gastar com ele. A dificuldade no cabal desempenho desta tarefa variaem função inversamente proporcional ao tamanho do nosso orçamento. Quanto maior ele foi mais fácil é. Não há quem não aprecie receber um Rolex verdadeiro ou uma caixa de robalos fresquinhos. E um Mercedes novo dá jeito a toda a gente.
Como os tempos não estão para brincadeiras, há que evitar o desperdício. O economista Joel Waldfogel estima em 25 mil milhões de euros o valor destruído no mundo com as prendas de Natal. Mais vale oferecer meias ou cuecas, mesmo correndo o risco de enfrentar um sorriso amarelo e ouvir a frase : “Estava mesmo a precisar…”.
Last, but not the least, há que valorizar as ofertas. Está provado que as pessoas avaliam as prendas que recebem em 20% menos do que custaram, um problema que não é de fácil ultrapassagem, pois não é educado deixar ir a etiqueta com o preço. Não é por acaso que no Natal 2008 o Tom Cruise gastou 4.900 euros só em papel de embrulho.
Com o seu nascimento, Jesus arranjou-nos uma data de chatices. Valha-nos que o inquérito da Deloitte revela que as famílias portuguesas encaram o futuro com optimismo e por isso, este Natal, vão gastar 620 euros mais que as inglesas (600) e as alemãs (485).
Eu aderi a esta onda positiva. Ao fim e ao cabo, o consumo natalício pode ser o Viagra de que a economia precisa para se endireitar. E, como avisa o Warren Buffet, “ter o dinheiro parado é como deixar o sexo para a velhice”.
Jorge Fiel
Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias
A cozinha é território das mulheres, mas quando chegamos à haute cuisine, às estrelas Michelin e aos chefs que atingiram o Olimpo da celebridade, ao lado de cantores pop, vedetas de Hollywood ou futebolistas milionários, entramos num mundo quase exclusivamente masculino.
Mafalda, 33 anos, tem uma explicação: “O trabalho na cozinha de um grande restaurante é duro. É muita gente em stress, num espaço reduzido e num ambiente agressivo de vapores e cheiros. E a carga horária é muito pesada. O horário pode ser das nove às seis, mas o mais certo é não sairmos antes das duas da manhã. Chega a uma altura em que nós, mulheres, temos de optar entre a carreira e a família ”.
Melhor aluna do curso de chefes de cozinha do Natural Gourmet Institute for Health & Culinary Arts de Nova Iorque, Mafalda tinha 25 anos e trabalhava no Monte’s, em Chelsea, quando escolheu ser mãe.
Quando o espaço ocupado por Marina (a filha mais velha, que tem sete anos) na sua barriga se tornou incomportável com o duro trabalho na cozinha, não teve outro remédio senão sair do restaurante frequentado por Beckham, Madonna e príncipe William, e arranjar um emprego mais calmo na Book for Cooks, livraria londrina especializada em livros de culinária que tem uma cozinha ao fundo, onde são experimentadas receitas e servidas refeições rápidas.
Regressada a Portugal há cinco anos, Mafalda arranjou um irmão (Vasco, dois anos, obcecado por automóveis) para a Marina, escreveu dois livros práticos (“Cozinha para quem não tem tempo” e “Cozinha para quem quer poupar”), teve uma rubrica no Praça da Alegria (RTP) e uma participação no Mundo das Mulheres (SIC).
Falou-nos dos seus planos que, tal como as flores, vão desabrochar na Primavera, à mesa do Monte Mar, o restaurante da Quinta da Marinha que escolheu um pouco a medo (“não será muito caro?”), num dia em que a chuva nos impediu de desfrutar da magnífica varanda. Acompanhou os filetes de pescada com um improvável sumo de laranja, apenas por precaução, pois estava constipada e nas vésperas de umas mini-férias em Londres, aproveitadas a rever amigos, fazer compras de Natal em Oxford Street e repôr o stock de Earl Grey de chá verde na Fortnum & Mason. Não tomou café, porque do que ela gosta mesmo é de galões.
Na Primavera vai relançar o site, voltar à televisão e abrir um café (“Não é tão absorvente como um restaurante”) no Monte Estoril, onde mora. “Vai abrir às oito da manhã com um pequeno almoço fantástico. Durante o dia servirá comida leve, fresca e sazonal, num ambiente muito relaxado”, descreve Mafalda, que tem em curso uma cruzada de preservação dos sabores antigos e deliciosos da comida cozinhada pelas suas avós Pinto Leite e César Machado.
“É possível fazer comida boa e saudável, temperada como antigamente”, diz, acrescentando ter pena que se esteja a perder o hábito da família conviver à volta da mesa: “Cozinhar é um acto de amor. É preciso ter carinho a pôr as coisas no prato, cortando, por exemplo, a maçã em forma de coração. E, ao fim de semana, a família pode juntar-se na cozinha a fazer um risotto”.
Mafalda nasceu no Porto, onde estudou no Colégio Inglês. A paixão pela cozinha despertada pelas avós, aguçou-se quando aos 16 anos se tornou vegetariana e tinha o desafio de infiltrar sabores no tofu, “uma tela em branco que não sabe a nada”. Aos 18 anos, iniciou a peregrinação pelo mundo fazendo cozinha vegetariana numa comunidade auto-suficiente, em Inverness, Escócia.
A excelente nota no curso em Nova Iorque abriu-lhe as portas do Chez Pannisse, em S. Francisco, de onde partiu para quatro anos como responsável pelas refeições num spa de luxo no Havai. Em Londres, no Monte’s aprendeu a cortar carnes. “Ser vegetariana fez parte do meu crescimento como pessoa. Em Portugal, com um peixe fabuloso, carne fantástica e queijos magníficos é quase um crime ser vegetariano”, diz Mafalda, que no Natal vai andar entre Lisboa e o Porto. Passa a véspera no Estoril. No dia, repartirá o almoço entre as famílias materna e paterna e à noite vai jantar à irmã. Como não é fã de rabanadas, vai levar um tiramisu, a sua sobremesa preferida.
Jorge Fiel
Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias
Restaurante Monte Mar
Av. Nossa Srª do Cabo, 2845, Cascais
2 Filetes de pescada com arroz de berbigão… 46,00 euros
2 Águas do Castello 0,25 l… 4,00
1 Sumo de laranja natural …4,00
1 copo Monte Velho branco … 4,50
1 café … 2,00
Total … 60,50 euros
Sally e John Bercow
Sally Bercow é uma mulheraça loura e de olhos cinzentos, que não abdica dos saltos altos, apesar de descalça já ser bastante mais alta do que o marido, John, o speaker da Câmara do Comuns. Ao contrário de Carla Bruni, fez ouvidos de mercador aos especialistas em imagem que a aconselharam a calçar sapatos rasos.
Como está desempregada, pensou candidatar-se a um lugar no Parlamento e o primeiro passo que dado nesse sentido foi esvaziar de esqueletos um armário atulhado deles. Em entrevista ao Evening Standard, Sally procedeu a um metódico strip tease de um passado em que fez tudo que as mães recomendam às filhas para não fazerem. Todos os dias apanhava uma bezana e todas as noites ia para a cama com um tipo diferente. Copos e sexo não esgotam o rol de pecadilhos de Sally, onde consta ainda ter adornado o cv com um grau em Teologia.
Estas saborosas revelações deliciaram os Media britânicos e fizeram crescer água na boca da Oposição conservadora, que logo tratou de arejar e escalpelizar o assunto na Câmara dos Comuns.
Como se já não bastasse andar toda a gente a comentar o passado libertino da mulher, desabou em cima do speaker mais um esqueleto, desta vez saído do seu próprio armário. A edição londrina do Metro desenterrou um ensaio que ele publicou com 23 anos, sugestivamente intitulado “The John Bercow Guide to Understanding Women”.
Abordagens ousadas - “Se estiveres livre logo à noite, posso passar por tua casa para arranjarmos nomes para as tuas maminhas” – constam deste precioso manual, que incluiu capítulos especializados: “Como engatar virgens”, “Como se ver livre de uma mulher após ter feito sexo com ela” e “Como levar para a cama raparigas bêbadas”, sendo que o seu casamento com Sally serve como garantia da eficácia dos conselhos constantes deste último capítulo.
Fiquei cheio de inveja dos ingleses. Os nossos escândalos, do tipo Face Oculta, são uma porcaria quando comparados com este episódio da mulher bêbada e ninfomaníaca do speaker atrevido. Para recompensar, sábado de manhã fiquei cheio de orgulho por ser de um português a banca de comida mais procurada em todo o mercado da Portobello (sandes do lombo de um porco assado à vista de todos, rissóis, bolinhos de bacalhau e pasteis de nata) e à tarde fui uma das duas milhões de pessoas que andaram às compras em Oxford St por baixo de iluminações de Natal fornecidas pelos Castros de Espinho.
Eu sou assim, como a maioria dos portugueses. A um tempo orgulhoso com o sucesso dos nossos, mas sempre pronto a dizer mal deles (já repararam que as travessuras sexuais do Ronaldo são uma brincadeira quando comparadas com as do Tiger Woods?) e convencido que a galinha da vizinha é mais bonita que a minha.
Jorge Fiel
Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias
Fotografia de Carlos Jorge Monteiro
A nossa língua está a mudar a uma velocidade vertiginosa e o novo acordo ortográfico está inocente. O culpado é o telemóvel, mais concretamente as SMS, palavra hermafrodita – a maior parte das pessoas atribui-lhe o sexo feminino (que vai buscar a mensagem), mas o masculino seria o mais correcto, pois é a abreviatura de Serviço de Mensagens Escritas.
“A lei do menor esforço é um motor essencial da evolução da língua”, reconhece Dinis Manuel Alves, filho de um guindasteiro do porto do Lobito, onde nasceu há 51 anos, e que agora é o responsável pela licenciatura em Comunicação Social do Instituto Miguel Torga, de Coimbra.
A bem dizer, não é o responsável pela licenciatura, porque as SMS e o MSN não são os únicos agentes de mudança da língua. O “correctês” dá uma ajuda: o 1º ciclo é a antiga licenciatura minguada por Bolonha, o 2º ciclo respondia por mestrado e as cadeiras dão agora pelo nome de “unidades disciplinares”.
A ideia de traduzir Torga para linguagem SMS tem origem num inocente desabafo numa aula, produzido por Dinis, que é senhor de um curriculum tão trepidante e ziguezagueante como se antevê tenham de ser todos neste frenético e perigoso séc. XXI: fez Direito, foi deputado eleito pelo PS, licenciou-se em Jornalismo e vagabundeou pela rádio (TSF), televisão (TVI) e jornais (Grande Reportagem, Jornal de Coimbra, Expresso e Tal & Qual), até deitar âncora na Universidade, doutorando-se em Comunicação Social e fixando-se como professor e investigador.
“A língua nunca é uma questão fechada. Mas temos de ter normas para nos entendermos”, diz Dinis, em jeito de preâmbulo ao desabafo de quem, como ele, não acha graça ao desleixo em curso na escrita que não é propriedade privada dos alunos - a confusão entre o s e o ç levou Vara a escrever “suspenção” e um jovem professor a dirigir-se, por escrito, ao “Concelho Científico”.
O baralhanço entre o verbo estar e ter – “eu tive em Londres” - foi a mãe do desabafo: “Quem dá assim erros devia, de castigo, traduzir para linguagem SMS um diário inteiro do Torga!”.
Duas alunas engraçaram com a ideia, puseram o dedo no ar e iniciaram a empreitada de tradução de 27.882 palavras (114.796 caracteres) do Diário XII de Torga (diarioxii.blogspot.com), que viria a ser completada por duas miúdas do 10º ano.
Intragável, a palavra que Dinis arranjou para caracterizar o resultado final deste trabalho, não se adequa, de maneira nenhuma ao magnífico entrecosto que deitamos abaixo num restaurante que estava cheio como um ovo - sábado é dia das famílias irem almoçar fora.
O Diário XII ficou intragável em linguagem SMS por que foi escrito num tempo em que os ponteiros do relógio andavam mais devagar e as professoras não eram tratadas por stôras. Também seria intragável a visão de um Cavaco de brinco na orelha, calções à guna abaixo dos joelhos, All Stars roxas e com o nome Maria, em caracteres chineses (arranjados pelo Fernando Lima), tatuados no antebraço.
Mas, como nos avisou o Dylan, os tempos estão a mudar. 1 500 SMS por semana sabem a pouco a uma maioria de adolescentes que preferem mandar mensagens aos amigos do que estar a falar com eles de viva voz. Impregnada de oralidade, simplificada, enriquecida com smileys que sinalizam o estado de espírito, a linguagem usada no Twitter e SMS veio para ficar. O operador inglês dot.mobile traduziu para linguagem SMS as principais obras da literatura britânica.
“A esferográfica Bic foi trocada pelo teclado. Não tarda muito a serem precisas aulas para ensinar caligrafia aos adolescentes”, concluiu Dinis, que ficou triste L quando soube que, no final de um lauto almoço, tinha de empurrar o meu carro que ficara sem bateria. Só ficou feliz J quando me viu pelas costas ;-).
Jorge Fiel
Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias
D. Duarte II
Rua de Moçambique 34, Coimbra
8 bolinhas de carne … 4,00
2 entrecosto com arroz de feijão malandro… 22,00 euros
1 Quinta de Cabriz branco … 9,00
Total … 35,00 euros
Gosto muito dos filmes em que entra o John Cusack. O primeiro que vi foi Grosse Point Blank, uma espectacular comédia de corrosivo humor negro, em que ele faz de Martin Blank, um assassino profissional a precisar de Prozac, que, a pretexto de um reunião do curso, regressa a Grosse Point, pequena cidade do Michigan.
Nesta fita é tudo bom, desde o trocadilho do título (point blank quer dizer à queima roupa) até à Minnie Driver (no papel de ex-namorada e DJ da rádio local), passando pela banda sonora, que abre com o arrasador “I can see clearly now”, de Johnny Cash, inclui Brahms, Bowie e The Cure, e está recheada de canções escritas por Joe Strummer, dos Clash.
Como sou tão fanático pelos livros do Nick Hornby como ele é pelo Arsenal, não perdi a adaptação ao cinema de Alta Fidelidade, feita por Stephen Frears, com o Cusack na pele de Rib Gordon, dono de uma loja de música que só vende discos de vinil e está à beira da falência, um azarado aos amores viciado em fazer listas de cinco mais qualquer coisa.
Eu também tenho a mania das listas e não tenho dúvida nenhuma de que Being John Malkovich, de Spike Jonze, faz parte do meu top ten de filmes favoritos. No delirante argumento de Charlie Kaufman, Craig Schwartz (Cusack), um desempregado que vai trabalhar como arquivista no sétimo andar e meio de um prédio (onde todos têm de andar curvados) e descobre uma porta de acesso a uma estadia de 15 minutos dentro da cabeça de John Malkovich. Um filme que nem sequer precisava da Catherine Keener para ser uma verdadeira moca!
Apesar de gostar muito do John Cusack, ainda não decidi se vou ou não ver o 2012, em que ele faz de escritor divorciado mal sucedido (ganha a vida como motorista de limusine) que se vê na contingência de ter evitar o fim do mundo.
Quem ouve Medina Carreira ou lê João César das Neves não precisa de ir ver o filme de James Cameron para se sentir a bordo do Titanic quando faltavam 20 minutos para a meia noite de 14 de Abril de 1912 e o paquete chocou com um iceberg a 640 km da Terra Nova.
Quem lê nos jornais que o desemprego ultrapassou a barreira dos 10% (e vai continuar a subir) e os défices estão descontrolados não precisa de ir ao cinema para ver um filme catástrofe, porque já está a viver um.
Quando em 1775, Lisboa foi destruída pelo terramoto, o Marquês do Pombal aproveitou a catástrofe para lançar as bases de uma cidade moderna e próspera. É desta visão estratégica que precisamos. E, para começar, temos de deixar de cuidar dos mortos e enterrar os vivos. Porque parar de escavar é a regra número um para quem está metido num buraco e quer sair dele.
Jorge Fiel
Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias
Anda feliz da vida e é caso para isso. Não é todos os dias que o Estoril recebe mil jornalistas e publicidade gratuita, por acolher um acontecimento do calibre da Cimeira Ibero-Americana, que propicia a Juan Carlos e Hugo Chavez, autor e destinatário da mais célebre frase do século – “porque no te callas?” – um reencontro no local onde o rei se fez homem.
O Estoril está habituado a receber famosos. Em 1870, a Cidadela de Cascais foi escolhida por D. Luiz para residência oficial de Verão. Entre as duas guerras, era, a par de Biarritz, Mónaco e San Sebastian, uma das jóias do turismo europeu - ao ponto de ser a estação terminal do Sud Express. E na II Guerra, foi nesta costa elegante e sofisticada, transformada em centro de espionagem, que se refugiaram meia dúzia de famílias reais e Edmond de Rothschild, o homem mais rico do Mundo.
Depois de nos anos 60 ter sido escala obrigatória do roteiro de vedettes, como Sylvie Vartan, Adamo, Grace Kelly ou Françoise Hardy, chegou a vez de Cristina Kirchner e Lula se encantarem com a baía de Cascais. “A cimeira ajuda a divulgar o Estoril como destino privilegiado para grandes reuniões internacionais”, reconhece Duarte Nobre Guedes, 59 anos, que preside ao Turismo e Centro de Congressos do Estoril, após ter feito carreira na cerâmica (Cerexport e Vista Alegre).
Por estes dias, Duarte e os seus colaboradores andam com os jornalistas estrangeiros ao colo, mostrando-lhes o que o melhor da região, não só de Cascais, mas também o Palácio da Pena ou os Jerónimos, porque não são ciumentos. “Lisboa faz parte do produto do Estoril. Há uma complementaridade. Por isso, vendemos Lisboa como um produto nosso”, afirma este gestor que fez três Dakars (6º, 8º e 27º lugares), sendo o único português a ganhar uma etapa e o único concorrente, em toda a história do rali, a cortar a meta antes das motos.
“Não somos um bairro turístico de Lisboa. Somos um destino. Temos dimensão e notoriedade”, acrescenta Duarte, que escolheu almoçarmos no Costa do Estoril, em frente ao Centro de Congressos e bem perto do Hotel Palácio, onde Ian Fleming escreveu Casino Royale, o primeiro livro da saga 007. Como já lhe conhecem os hábitos, não precisou de pedir a salada de alface e tomate com que abre sempre a refeição. No final, cedeu à tentação e, antes do chá, comeu uma colher de mousse de chocolate.
Tradicionalmente famoso como estância balnear, o Estoril foi ultrapassado, no segmento sol e praia pelo Algarve, e passou um mau bocado nos anos após o 25 de Abril, em que foi desqualificado, esquecido e maltratado. Corrigida a rota para destino de alta qualidade para negócios e congressos, vive um novo e próspero fôlego, documentado pelas 1,2 milhões de dormidas, com uma estadia média de quatro dias (contra apenas 2,5 de Lisboa) por turista, vendidas em 2008.
A qualificação da oferta (em 31 hotéis, dez são de cinco estrelas e outros dez são de quatro) explica porque é que o Estoril tem o mais alto preço médio por quarto – 90 euros acima de Lisboa (80) e dos 70 que são a média nacional e da Madeira.
Com sete campos de golfe, o maior casino da Europa, autódromo, marina, hipódromo, aeródromo, Parque Natural, e os dois empreendimentos imobiliários com o m2 mais caro do país, é natural que o Estoril aguente melhor a crise. “Este ano, o nosso preço por quarto vai cair 4%. Em Lisboa cai 11% e no Algarve não digo senão o secretário de Estado mata-me”, conta.
A sustentabilidade é a mais recente arma que ele está a usar para tornar o Estoril um destino ainda mais sexy. O seu Centro de Congressos é o único do Mundo com certificação ambiental, conseguida após um esforço de redução em 12% do lixo produzido e racionalização dos consumos de água, papel e energia. O próximo passo é um investimento fotovoltaico, que fará a electricidade emigrar da coluna das despesas para a das receitas.
E como os plásticos estão absolutamente proibidos, os chefes de Estado e Governo dos 22 países ibero-americanos vão beber água de garrafas de vidro e receber lápis para tomarem apontamentos durante as reuniões da Cimeira no Centro de Congressos.
Jorge Fiel
Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias
Menu
Restaurante Costa do Estoril
Avenida Amaral, Estoril
2 couvert… 2,00 euros
1 salada … 3,00
2 Filetes de garoupa com arroz de tomate … 30,00
2 Castello 0,25 l … 3,00
1 Vitalis … 2,00
1 Mousse chocolate … 3,50
1 chá … 1,50
1 café … 1,00
Total … 46,00 euros
Tenho o nariz torto. A narina esquerda não funciona. Infelizmente, esta surdez parcial do meu olfacto não me protege do fétido fedor que sevicia quem passa ao largo de Aveiro. Falo do mau cheiro literal, não do figurado - do negócio do sucateiro Zé Godinho ter quartel general em Esmoriz, de Oliveira e Costa ser de Esgueira, e Vara e os Penedos serem visitas frequentes de Aveiro, onde mantêm longas conversas com o juiz de instrução criminal.
Se trapalhadas e negociatas obscuras libertassem realmente um odor pestilento, não se podia passar perto de Aguiar da Beira e os carteiristas do eléctrico 28 estavam no desemprego, pois a podridão do ar nos mais belos e ricos bairros de Lisboa afugentaria os seus 2,5 milhões de turistas.
A fábrica de Cacia da Portucel é a origem do fedor que tortura os automobilistas viciados na A1 e os passageiros económicos e/ou ambientalistas do Alfa. Há coisa de 15 anos, quando visitei esta celulose, comprovei a enorme capacidade humana em se adaptar a circunstâncias adversas. Achei que o almoço era a ocasião certa para fazer a pergunta. Fartos de a ouvir, os anfitriões responderam pacientemente que algumas semanas bastavam para concluir o processo de dessensibilização - e deixarem de sentir o cheirete.
Esta fantástica capacidade para comermos num ambiente de latrina preocupa-me muito, principalmente nesta altura em que para decifrarmos os casos de actualidade é preciso ter um curso de Direito (e dos bons, aqueles da Independente não chegam). Só assim compreendemos as nuances da arquitectura de um sistema judicial canceroso e sabemos traduzir para português um dialecto judicial atulhado de “atentados ao Estado de Direito”, “elementos probatórios”, “irrelevância criminal”, “denegação de justiça”, “medidas de coação”, “expedientes administrativos” e “emissões de certidões”.
Temo que, tal como os trabalhadores da Portucel de Cacia, nós, os portugueses, nos dessensibilizemos e deixemos de sentir o fedor a podridão da pandemia de escândalos a que estamos sujeitos. Por isso, ou estes políticos conseguem reduzir drasticamente a quantidade de lixo que produzem e arranjam um eficiente tratamento da sua porcaria (dotando-se de um sistema subterrâneo de esgotos e de uma ETAR na periferia, longe dos nossos olhos), ou o melhor é darmos ouvidos ao conselho de Eça de Queiroz: “Os políticos e as fraldas devem mudar-se com frequência – pela mesma razão”.
Não me apetece viver num país que cheira como uma casa de banho que continua em uso apesar ter o autoclismo avariado – e em que não consigamos ouvir a marcha “Cheira bem, cheira a Lisboa” sem nos escangalharmos a rir às gargalhadas.
Jorge Fiel
Esta crónica foi publicada hoje no Diário de Noticias
Foto Carlos Manuel Marques
O pastel de nata deve falar connosco. Pegue num, resista à tentação de dar logo uma dentada, vire-o, aproxime-o da orelha e aperte-o delicadamente com os dedos. Se ele ronronar um ligeiro crrec crrec está tirada a prova dos nove. Temos pastel de nata!
Esta foi uma das revelações feitas ao almoço por Vicente Themudo de Castro, 37 anos, um dos dois confrades honorários do Pastel de Nata, que andou 14 anos perdido no mundo das finanças até que, há dois anos, deu o seu grito do Ipiranga e dedicou-se à gastronomia (é crítico profissional e autor amador), a sua grande paixão desde os seis anos, idade em que em vez de jogar ao pião preferiu iniciar-se no segredo dos fios de ovos com o cozinheiro francês da tia bisavó.
A Pastelaria Cristal foi uma escolha óbvia, já que o seu pastel de nata foi eleito o melhor do mundo, na prova realizada em Abril, no Pavilhão de Portugal, por um júri constituído pelo advogado José António Sousa (o outro confrade honorário), o enólogo Domingos Soares Franco e os chefs Vítor Sobral e David Pasternack (nomeado o melhor chef de Nova Iorque), que redigiram notas de prova levando em conta seis critérios: frescura, qualidade da massa, teor de açúcar, cozedura, aspecto e sabor.
Apesar de relativamente acanhado (quatro mesas, oito cadeiras), a Cristal é muito concorrida por clientela habitual do bairro que se despacha ao balcão. Durante a semana vende, em média, 150 natas por dia. Mas ao fim de semana marcham 500 por dia e há fila. “Já vi dois Ferraris estacionados à porta ao mesmo tempo”, conta Herculano Marques, 65 anos, que depois de correr mundo a gerir marisqueiras (das quais a mais célebre foi a Napolitano, na ilha de Luanda), optou por, há 14 anos, mudar para o ramo da pastelaria e deitar âncora na Lapa.
Como vinha de uma prova de Barcas Velhas, tinha um lanche na Penha Longa e um jantar em Beja, Vicente não acabou o croquete e o esplêndido rissol de leitão, empurrados com uma Sagres, antes de se concentrar no pastel de nata.
“Desde que não se peça Coca Cola…” foi a resposta quando lhe perguntamos qual a bebida adequada para acompanhar a nata. “Como não é um pastel muito doce, harmoniza muito bem com um vinho generoso seco, um Moscatel, Madeira ou Porto rubi”, explica Vicente, acrescentando que a combinação mais usual é o café/nata, o invariável almoço do professor Marcelo quando estava ali ao lado a tentar gerir o PSD.
“O pastel de Belém é um pastel de nata com marca registada”. Uma frase chegou para arrumar este assunto melindroso, antes de detalhar as diferenças: “O folhado é mais amanteigado, mais à francesa do que este”, refere, enquanto pega na nata da Cristal e a vira-a ao contrário. “Está a ver? Não cai nada. Já não arriscaria fazer isto com um pastel de Belém que tem um creme muito mais líquido”. Por estas razões, a nata de Belém tem um prazo mais validade muitíssimo mais curto (duas/três horas) do que a generalidade das outras, que aguentam até ao dia seguinte.
A rede social The Star Tracker, que reúne mais de 20 mil quadros portugueses espalhados pelo mundo, foi a barriga onde se deu a gestação da Confraria. Nas conversas na rede, Vicente constatou que não é fácil por os portugueses de acordo. O Ronaldo nunca rende na Selecção e o vinho do Porto não seduz os abstémios. Apenas o pastel de nata reunia o consenso e gerava a unanimidade.”É o melhor embaixador de Portugal”, concluiu.
Um dia ao fim da tarde, na Versalhes, Vicente e José António Sousa comentavam como a nata se tornara o mais vigoroso símbolo internacional da portugalidade, quando decidiram fundar a confraria – uma estrutura leve, sem trajes nem presidentes, apenas confrades (263), dos quais dois honorários, que são os porta vozes – que decidiu proclamar o dia da sua fundação (1 de Julho) como o Dia Mundial do Pastel de Nata. E para o ano, para comemorar o seu 2º segundo aniversário, vai expedir, em aviões da TAP, meio milhão de natas para serem gratuitamente distribuídos nas empresas em que trabalham portugueses, em destinos tão variados como Nova Iorque, Londres, Rio de Janeiro, Luanda, Paris, Joanesburgo, Bruxelas, São Paulo, Luxemburgo ou Maputo.
Jorge Fiel
Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias
Menu
Pastelaria Cristal
R. Buenos Aires 25 A, Lisboa
2 rissóis de leitão… 2,60 euros
2 croquetes … 1,80
1 Sagres … 1,10
1 Super Bock… 1,10
1 Moscatel Favaios … 1,00
3 pastéis de nata … 2,70
2 cafés … 1,10
O senhor Marques não nos deixou pagar o almoço
A coexistência pacífica entre os povos e não ingerência nos assuntos internos dos outros Estados foram os princípios aprovados, em 1955, na conferência de Bandung, que esteve na origem do Movimento dos Não Alinhados, que queria aquecer a alma enregelada de um mundo que vivia a Guerra Fria entre EUA e URSS.
23 anos depois, numa cave da rua Antunes Guimarães (Porto), a meio de uma directa de estudo para a cadeira de Teoria da História, o meu amigo Zé Meireles elaborou uma feliz adaptação ao indivíduo dos dois princípios estabelecidos em Bandung para as nações: 1. Cada qual leva no que é seu; 2. Quem dá conselhos na rua leva no cu em casa.
Ao longo vida tenho observado o espírito de tolerância e respeito pelos outros encerrado nestes pedacinhos de ouro do Meireles, que invoco a propósito do casamento gay. Como sempre achei que cada qual leva no que é seu (e me habituei a não arriscar a dar conselhos) sou naturalmente a favor. Desconfio que os gay não sabem no que se vão meter, mas, repito e sublinho, estão no seu direito.
Hoje em dia o pessoal opta por juntar os trapinhos (a chamada união de fcato) e marimba-se para a legalização da situação nos livros dos notários ou aos olhos do Senhor. O que até se compreende porque o prazo de validade das relações não pára de encurtar e se casar até é barato (custa, em média, 100 euros), o divórcio é muito caro, não só em chatices afectivas mas também materiais – fica a 250 euros, se for amigável, porque se não, upa upa, por causa dos honorários dos advogados. Como metade dos casamentos acaba em divórcio, há cada vez mais gente a cortar-se.
Os gay querem casar-se de papel passado? Porreiro, pá! As grandes vítimas do Simplex (os notários) até agradecem. Casem-se! Compreeendo-os perfeitamente. É a velha história do fruto proibido.
Já compreendo mal porque é que Sócrates meteu no topo da agenda política um dossiê que faz azia a Cavaco, indispõe a Igreja e fractura o seu grupo parlamentar, quando há um ano podia ter despachado o assunto, deixando-se ir à boleia da proposta do Bloco de legalizar o casamento gay.
E não compreendo de todo que os panditas do PS e PSD – em particular os dois lideres parlamentares, pessoas do Porto que ou não leram, ou não perceberam, A Queda de um Anjo, de Camilo – citem o Zé Maria do Big Brother e digam que “não há condições” para avançar com a Regionalização porque não é uma matéria urgente e é preciso reunir um grande consenso político.
Estão a brincar connosco? A legalização do casamento gay é uma matéria urgente? Havia um grande consenso político quando se convocaram os dois referendos sobre o aborto? Andam a fazer de nós parvos. E eu não gosto que façam de mim parvo.
Jorge Fiel
Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias
Foto Paulo Jorge Magalhães
Dantes, mal se levantava da cama, às seis da manhã, ia logo por o café a fazer. “Adoro o cheiro do café”. Agora, a primeira coisa que faz é despachar o email, rotina que repete religiosamente antes de se deitar, por volta das duas. “Não preciso de dormir muito”, confessa Nuno Sousa, 41 anos, médico e investigador na área nas Neuro-Ciências. “Sete horas de sono são, em média, suficientes para um adulto. Dormir demais faz mal porque torna os processos mais lentos”.
Quando se é uma das maiores autoridades mundiais em stress, não podemos estranhar ter a caixa de correio sempre a abarrotar, e ele não considera educado deixar um mail sem resposta mais de um dia.
O email e o telemóvel podem facilitam-nos a vida mas são também indutores de stress. “Estamos a acelerar cada vez mais as nossas vidas”, constata Nuno, que distingue dois tipos de stress, o bom e o mau. “Debaixo de algum stress, a nossa performance melhora, sem consequências porque a adrenalina tem um efeito rápido”, explica. O problema é o stress crónico, que se verifica quando os estímulos indutores ultrapassam, de forma continuada, a nossa capacidade de adaptação e provocam doenças, fazendo subir a tensão arterial e aumentando o risco de diabetes e depressão.
Nuno tornou-se uma coqueluche mundial ao publicar (em conjunto com sete outros cientistas portugueses) na revista Science, um artigo, onde conclui que as pessoas expostas a stress tendem a tomar decisões erradas, mas que isso pode ser resolvido.
Encontramo-nos na Escola das Ciências de Saúde da Universidade do Minho, de que ele é o director e um dos fundadores. Logo à entrada, ficamos com a sensação de estarmos numa universidade americana transplantada para o campus de Gualtar, nos arredores de Braga. A escola está povoada por grupos de estudantes com ar feliz, que conversam, comem, estudam e discutem, espalhados por salas e laboratórios com equipamento state of the art.
O ensino da Medicina em Braga é muito diferente do ministrado nas outras faculdades do país. Para praticarem consultas, os 600 alunos têm ao dispor cerca de 70 doentes standard, actores formados durante um ano para serem especialistas numa doença (pericardite, infecção renal, insuficiência respiratória, etc), também usados no processo de avaliação. Parte dos exames são feitos num consultório equipado com uma câmara, que permite aos professores, que estão no gabinete ao lado, seguirem o diálogo entre aluno e actor, a quem previamente entregaram o guião - o falso doente pode começar a consulta a dizer ao futuro médico que só precisa que ele lhe passe uma receita.. .
Depois de uma vista de olhos pela escola, fomos no Toyota Corolla do Nuno para o Arcoense, famoso pela sua comida caseira, onde almoçamos sem stress (não ligamos aos telemóveis) até às 16h30.
Nuno é do Porto, onde se licenciou em Medicina e começou a usar o cérebro para entender como funciona o cérebro. O período de maior stress da sua vida foi a fase final do doutoramento em que provou que, ao contrário do que se pensava, o stress crónico não provoca uma matança neurónios e o hipocampo apenas fica atrofiado porque diminuem as sinapses (a comunicação entre neurónios) - ou seja, que eliminando a causa a situação era reversível.
Este tese foi o ponto de partida para a investigação de uma equipa multidisciplinar (médicos, biólogos, bioquímicos, psicólogos, veterinários e engenheiros de sistemas, biomédicos e biólogos) cujas conclusões publicadas na Science, despertaram o interesse do New York Times.
Com base em trabalho laboratorial com ratos, Nuno provou que o stress leva-nos a tomar decisões erradas, pois, ao atrofiar o circuito cerebral que nos dá a flexibilidade para encarar e reagir a uma situação adversa e inesperada, deixa-nos dependentes da parte do cérebro onde temos armazenados os hábitos, que nos permitem, por exemplo, guiar até a casa, em piloto automático, sem ligar ao trajecto. A boa notícia é que através de terapia, fármacos e estímulos eléctricos vai ser possível, proximamente, activar o circuito atrofiado e poupar-nos aos erros e depressões a que o excesso de pressão nos tem obrigado. Ou seja, dentro de poucos anos, o guarda redes Enke já não se teria suicidado…
Jorge Fiel
Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias
Menu
Arcoense
R. José Justino Amorim 96, Braga
Dobradinha… 2,50 euros
Favas com presunto … 2,50
Pataniscas de bacalhau … 3,00
Assado misto (costela mindinha, cabritinho e porco bisel)… 43,50
Meio litro de tinto da casa (Douro) … 6,50
Diversos (pão, água e café) …5,70
Total … 63,70
O Froiz subiu de 5,95 para 7,90 euros o preço do quilo do rolo da carne picada recheada com queijo e chouriço, em linha com aumentos superiores a 30% verificados no bife. Tenho pensado muito nas razões deste aumento e até já me passou pela cabeça escrever ao Dear Economist, do Financial Times, para saber o que é que o Tim Harford pensa sobre o assunto.
A melhor explicação que arranjei para a brutal inflação do custo da matéria prima do meu assado dominical foi a da que a pessoa que marca os preços das carnes na rede galega de supermercados foi uma das vítimas do flash forward e teve uma visão muito cor de rosa do estado da nossa economia a 21 de Abril de 2010.
Passo a dar o contexto, para acautelar o caso, altamente improvável, de não ser umas das 12 milhões de pessoas que não perdem um episódio de FlashForward. A intriga desta série televisiva (AXN, 4ª feira, 22h25) baseia-se num desmaio global ocorrido às 11 da manhã (Pacific Standard Time) do passado 6 de Outubro, com a duração de 2m17s, durante o qual a generalidade das pessoas abriu uma janela no futuro e teve uma visão da sua vida a 21 de Abril de 2010.
Não sei se fui vítima deste blackout, o que até se compreende porque às 11h00 em Los Angeles são três da manhã no Porto e eu, a essa hora, tenho o hábito de estar a dormir. Não tive nenhuma visão do futuro, que fundamente uma atitude mais optimista ou pessimista na compra de prendas de Natal. Mas sei que o marcador do preço das carnes do Froiz não foi o único a ter uma visão encorajadora durante os 137 segundos em que perdeu a consciência.
Os bancos voltaram a abrir a torneira do crédito à habitação e o preço das das casas voltou logo a subir. A Brisa prevê, para 2010, um aumento de 3,6% no tráfego das auto-estradas. E, apesar da tradicional correcção de Outubro, os indicadores anualizados do Euronext Lisbon dizem que o champanhe está de regresso à bolsa.
Apesar desta euforia, eu (que, como estava ressonar durante o blackout, não faço a mínima do que vai acontecer na Primavera) continuo bastante preocupado com o Inverno da nossa economia revelado pelas previsões de Outono da Comissão Europeia de que Portugal vai ter crescimentos microscópicos do PIB (0,3% em 2010, e 1%, em 2011), dos mais baixos da UE e do Mundo, depois de este ano termos perdido a riqueza que demoramos quatro anos a construir.
Eu não sou daqueles que olham para os dois lados antes de atravessar uma rua de sentido único, mas não consigo deixar de enrugar a testa quando vejo o Estado a gastar mais de metade do PIB e os escândalos a sucederem-se, ameaçando tolher o Governo numa altura em que, mais que nunca, o país precisa de governo.
Jorge Fiel
Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias
A professora, de 48 anos e educação religiosa, nunca tinha tido um orgasmo. A sua experiência sexual pouco satisfatória resumia-se ao ano em que esteve casada. Após dez anos de abstinência, ouviu Marta preconizar o recurso à masturbação. Seguiu o conselho e desfrutou o seu primeiro e maravilhoso orgasmo.
A sexóloga chorou quando ouviu a descrição minuciosa do enorme prazer sentido pela professora, que marcou uma consulta só lhe agradecer.
Licenciada em Psicologia, onde era conhecida pelo apelido Valente, a primeira grande paixão de Marta foi o teatro (onde usava o apelido Tereno) e conheceu o marido Filipe, que lhe deu o apelido Crawford e dois filhos, a Bárbara, 17 anos, e o João, 13, uma família acrescentada há três anos com o Jack, um grande cão cinzento de raça Weimaraner, que ela reconhece ser ainda virgem e não levar uma vida sexual muito saudável.
Iniciou-se nos palcos na Barraca, com uma adaptação do Baile, de Ettore Scola, encenada por Helder Costa. O mais provável é que hoje fosse conhecida da telenovela das nove, e não dos programas sobre sexo apresentados em horário, se não tivesse sido vitima de uma daquelas partidas de mau gosto que a vida às vezes nos prega. Deixou de ser actriz porque uma pessoa a quem era muito chegada morreu na véspera de ela estrear uma comédia para crianças.
Garante que a saída do anonimato, induzida pelos programas que fez na televisão, não lhe mudou muito a vida. “Não se metem muito comigo. Nunca tive uma experiência desagradável”, diz, apesar de reconhecer, que de vez em quando, a abordam na rua com perguntas, como aquele senhor na casa das 70 anos, que devia ser um pouco surdo pois falava aos berros, e a interpelou quando ela andava às compras na Massimo Dutti do Vasco da Gama, para saber se ela estava de acordo com o tratamento que o médico lhe prescrevera para o seu problema de disfunção eréctil.
Ser míope ajuda-a a preservar a privacidade. “Se não me maquilhar e estiver de óculos ninguém me conhece”, diz. Na verdade, não a reconhecemos à primeira quando ela chegou à porta do Aya com os seus óculos de massa Ralph Lauren, que funcionam como máscara.
Escolheu um combinado de sushi e sashimi, acompanhado de saké frio (espalhou logo o sal fino pelas bordas da caixa), e sepultado por um gelado de chá. Marta nunca foi ao Japão, mas a filha Bárbara viveu lá um ano, a norte de Tóquio, no âmbito de um programa de intercâmbio de jovens ASF. Uma experiência dura, que a mãe resumiu e funcionou como desbloqueador de conversa, no início do almoço, aqui e ali agitado pela comemoração ruidosa de um aniversário por um grupo de amigos de outra Bárbara (a Guimarães) no compartimento ao lado.
Marta começou a dar consultas de sexologia a transexuais, no Júlio de Matos, ainda durante o estágio do ISPA, pelo que está numa belíssima posição para avaliar a evolução recente do estado sexual da Nação.
Ao longo dos últimos 15 anos, uma das coisas que mudou foi a atitude masculina em face da falta de desejo. “Há muito mais homens a pedirem ajuda. Dantes escondia-se o problema. Os homens achavam que era uma vergonha não estarem sempre prontos a ter uma erecção. A disfunção eréctil deixou de ser uma vergonha e passou a ser encarada como uma doença”.
Outro dos problemas cada vez mais frequentes na sua consulta é o vaginismo, doença em que, por mais excitada que a mulher esteja, a vagina fecha-se de tal modo que é impossível penetrá-la. Na origem desta fobia está um medo, qualquer- de engravidar, de apanhar uma doença, de sentir dor – que a ela tem de identificar para poder tratar. Marta não se cansa de dizer que é um mito achar que o sexo passa pelo penetração, mas quando o casal procura engravidar o vaginismo é um sério problema.
As novas formas de infidelidade, como uma relação virtual privilegiada entre duas pessoas, que se masturbam enquanto se excitam à distância, foi outras das grandes alterações, bem como o crescimento do fenómeno de homens viciados na prostituição de luxo. “É muito aliciante para homens sem problemas de dinheiro recorrerem a raparigas lindíssimos, com corpos de modelo, poderem variar e sentirem-se à vontade para verbalizar os seus fetiches”, refere.
A sua maior preocupação é a falta de informação. Por incrível que pareça ainda há mulheres que lhe perguntam se correm o risco de engravidar por se terem sentado num assento que estava quente e tinha sido usado por um homem.
As mulheres que se divorciam na casa dos 40 anos, que sempre tiveram uma relação de confiança com um só parceiro, são o grupo com maior progressão da Sida, porque não estão habituadas a usar preservativo e começam a fazer sexo sem estarem protegidas.
“Os miúdos deviam brincar com preservativos desde a 4º classe. Para se habituarem a usá-los e encará-los como uma segunda pele”, preconiza Marta, que defende a distribuição aos pré-adolescentes de preservativos de dimensão adequado ao tamanho do seu pénis.
O normal também mudou Quando ela começou a dar consultas, o sado-masoquismo estava indexado na lista de comportamentos desviantes. “Hoje normal é tudo o que os parceiros envolvidos permitam”, remata Marta, que aguentou com boa cara estar quase três horas a satisfazer-nos a curiosidade durante um almoço XL que custou praticamente o mesmo que ela leva por uma consulta de uma hora (95 euros).
Jorge Fiel
Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias
Menu
Aya
R. Campolide 351, Twin Towers, Lisboa
Ponte sushi sashimi …60,00 euros
Sake especial (masusake) …. 19,50
Maccha ice … 4,50
Cream anmitsu … 6,00
3 cafés … 3,60
Total … 93,60
A audiência correu bem. O senhor, de idade avançada, expôs o seu drama ao ministro, que logo lhe deu razão e instruiu o chefe de gabinete a pôr em marcha a resolução do problema.
À despedida, o idoso estava encantado. Desdobrava-se em vénias e repetia protestos de eterna gratidão, agarrado à mão do ministro, quando pronunciou a frase fatal: “Dou por muito bem empregues os 500 contos que paguei para conseguir esta audiência”.
O ministro estremeceu e pediu-lhe para repetir o que acabava de dizer. Afinal tinha ouvido bem à primeira. “Foi ao senhor deputado x”, respondeu o cidadão, quando perguntado sobre quem lhe solicitara os 500 contos.
Como o ministro tinha sido tão atencioso, o idoso não podia dizer não quando ele lhe pediu escrever o que acabara de contar - e assinar por baixo. Cópias deste manuscrito seguiram para a direcção do partido e do grupo parlamentar. “O deputado ainda está lá, na Assembleia da República” é o final triste desta história contada pelo ex-ministro.
Já se passaram alguns anos sobre este episódio, e pelo andar da carruagem, a Transparency International tem a razão quando põe Portugal em queda livre no ranking dos países menos corruptos do mundo. Em 2001, estávamos em 25º. No ano passado, íamos em 32º. Cravinho, ex-ministro das Obras Públicas, já nos avisara que “a grande corrupção de Estado é uma situação muito complicada e em crescendo”.
É triste constatar que Balzac estava cheio de razão quando escreveu que por de trás de cada fortuna há um crime, pois não me lembro de ter tropeçado em alguém que tivesse enriquecido à custa do seu salário.
É muito triste reparar que continuam por esclarecer o negócio dos submarinos, o Freeport, o caso Portucale e a Operação Furacão – a que agora se junta a Face Oculta, em que tudo leva a crer que um sucateiro de Ovar conseguiu comprar, a dinheiro ou em Mercedes, responsáveis pela nata das blue chips do PSI 20 (Millennium, REN, Galp e EDP).
Não podemos assobiar para o lado e fazer de conta que não vemos o degradante espectáculo de haver gentalha, que era suposto ser honesta, a abusar da sua posição para nos roubar.
Há duas emoções que comandam o pensamento e acção dos ladrões de colarinho branco: o medo e a ganância. Para pôr um travão aos desmandos provocados pela ganância é urgente implantar um regime de tolerância zero para quem rouba o nosso dinheiro.
O Governo que estabeleceu um regime de terror fiscal para amedrontar os pequenos contribuintes, tem obrigação de saber criar um regime de terror, que atemorize os corruptos. Se não o fizer, todos nós nos sentiremos incentivados a dedicar-nos à prática do salto à Vara para a riqueza.
Jorge Fiel
Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias
Quando chegou à recepção do Bairro Alto Hotel, pouco antes das seis da tarde, a inglesa vinha numa pilha de nervos. Não trazia bagagem e o problema era mesmo esse. A companhia aérea extraviara-lhe a Samsonite com a toilette para a festa dessa noite em Lisboa.
Alertada para o drama, A directora geral assumiu o comando das operações. Acalmou a cliente. Tudo se iria resolver. “It’s impossible”, repetia a inglesa que não acreditava que fosse possível o suave milagre operado nas duas horas seguintes, em que, num corrupio, desfilaram pelo seu quarto vestidos, sapatos, malas, cabeleireira, maquilhadora e manicura. Às 20h30, estava belíssima, pronta para a festa. Para Adélia, “impossible is nothing”.
É por estas e por outras que a Conde Nast Traveler elegeu como o 31º melhor do Mundo este pequeno hotel (55 quartos) muito fotogénico, instalado num edifício pombalino. Uma das outras razões que levou a bíblia do turismo e viagens a inclui-lo na lista exclusiva Best of The Best foi a extraordinária capacidade de Adélia, que acaba de vencer o I Concurso Nacional de Motivação, promovido pelo ISCTE.
“Para mim, trabalhar é um enorme prazer. Amo tudo o que faço. Ou é a sorte que vem ter comigo, ou sou eu que consigo transformar tudo em paixão”, declara Adélia, que começou a carreira como recepcionista no Meridien, após ter acabado o curso da Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa. Transferiu-se depois para a Penha Longa, onde se demorou dez anos e fez de tudo (de directora de alojamento a directora de banquetes), menos cozinha (que é especialidade do marido, subchefe na Bica do Sapato), até aceitar o convite para abrir o Bairro Alto, porque ficou encantada com o projecto e lhe deram carta branca para escolher a equipa.
Almoçamos no fabuloso terraço do hotel, que tem uma vista de cortar a respiração do rio e telhados de Lisboa. Escolheu a salada Caesar, porque anda a ver se perde algum do peso ganho durante a gravidez do Santiago (que tem dois anos e meio), se bem que o objectivo não seja recuperar a forma que tinha quando era atleta de ginástica acrobática do Sporting.
Nativa do signo Virgem, Adélia é uma perfeccionista e “uma vendedora nata”, sendo provável que a queda para as vendas faça parte do património genético, pois os pais tinham uma loja de electrodomésticos em Sacavém. Pensa, fala e decide muito rápido. Está sempre o radar ligado, olhos e ouvidos atentos ao que se passa à sua volta. Irrequieta e eléctrica, dispensa a cafeína. Na hora do café, optou por um “pingo clarinho”. E usou um argumento demolidor para não aceitar que pagássemos a conta: “Ficava logo toda a gente a pensar que o meu orçamento para despesas tinha levado um grande corte”.
“Às vezes basta pormo-nos no lugar das outras pessoas”, responde quando lhe perguntamos a receita para agradar e motivar. E conta um episódio para demonstrar como aprende com os clientes. Durante a campanha eleitoral, um comício nocturno e barulhento no Largo de Camões estava a impedir um cliente de dormir. Ele queixou-se. Ofereceram-lhe um chá e um quarto mais resguardado. No dia a seguir, cheio de olheiras, o cliente comentou que. se lhe tivessem perguntado o que podiam fazer para o ajudar, teria pedido que o mudassem para outro hotel. “Estava cheio de razão. Devíamos ter-lhe feito essa pergunta e arranjado um quarto num hotel onde ele pudesse passar a noite sossegado”, diz.
“Como sou muito sensitiva, consigo estar muito próxima das pessoas. Esforço-me por ouvir, apoiar e orientar. É fundamental ter as pessoas motivadas. Só se estivermos bem é que conseguimos fazer os clientes felizes. Quando há problemas é bom ter um ombro amigo. Sei que, de vez em quando, é preciso compensar as pessoas e dizer-lhes, ‘o que é que andas aqui a fazer?, está sol, vai para praia!’”, afirma.
A gestora mais motivadora do país dirige uma equipa de 65 pessoas, em não há um licenciado sequer. “Não há nenhuma faculdade em que se aprenda a oferecer bem estar”, explica Adélia, que, no entanto, está a encarar seriamente a hipótese de se inscrever no ISPA e fazer Psicologia – para aprender a motivar ainda melhor!
Jorge Fiel
Esta matéria foi publicada hoje no Diário de Notícias
Menu
Terraço do Bairro Alto Hotel
Praça Luís de Camões 2, Lisboa
Salada Caesar (peito de frango grelhado, alface romana, lardons de bacon e molhos caeser) …12,50 euros
Sandwich Garrett (pão ciabatta com presunto pata negra, queijo brie e tomate marinado) … 9,50
Chá gelado de ananás, menta e coco … 4,50
Água de Castello … 2,50
Copo de Planalto … 5,00
Pingo claro … 3,00
Café ... 3,00
O almoço foi oferecido, numa cortesia do Bairro Alto Hotel
As conversas que distraem os operários durante o trabalho diminuíram radicalmente na Inarbel desde que as “grandes músicas” da RFM começaram a passar, 24 horas por dia, na instalação sonora da fábrica. Esta foi uma das três coisas que aprendi na visita guiada que o empresário têxtil Zé Armindo, 36 anos, me proporcionou à sua fábrica, no Marco de Canaveses, onde produz roupa para criança da marca Dr Kid.
Se com a RFM e intervalos de 15 minutos, de duas em duas horas, aumentou a produtividade na fábrica, para atingir esse objectivo nos escritórios Zé Armindo teve de fazer desaparecer as cadeiras e encomendar mesas especiais, com mais de um metro de altura.
Na Inarbel as reuniões são de pé, para poupar tempo. Numa reunião de pé, tratam-se, em 15 minutos, assuntos que demorariam hora e meia a resolver numa reunião com toda a gente sentada.
Costuma dizer-se que o tempo é dinheiro, mas Jim Rohan, um especialista em programas de motivação, ensinou-nos que o tempo é mais valioso do que o dinheiro, porque podemos sempre ganhar mais dinheiro, mas não podemos ganhar mais tempo – o dia nunca durará mais do que 24 horas.
Contas feitas por alto, calculo que, desde que há 30 anos comecei a trabalhar, participei em cerca de dez mil reuniões. Algumas foram divertidas, como, por exemplo, aquela de preparação da primeira página do Expresso em que o Zé António Saraiva, face à ausência da Cândida Pinto, sugeriu que aproveitássemos para dizermos mal dela, proposta logo acatada por todos. Mas a esmagadora maioria foram chatas e ineficazes, um desperdício de tempo e dinheiro.
Sempre me impressionou que jornalistas brilhantes se comportassem como miúdos travessos abandalhando as reuniões, chegando atrasados, atendendo o telemóvel, entregando-se a pequenos exercícios de vaidade, distraindo-se em conversas laterais, falando a demais e a despropósito.
Oito em cada dez empresários portugueses acham que a maioria das reuniões são desnecessárias e improdutivas, segundo um inquérito da AESE. Tudo que é excessivo faz mal. Até comunicar. Entre FB, Twitter, mails, Messenger, reuniões e telefonemas gastamos a comunicar tempo que seria mais bem empregue a trabalhar. O excesso de reuniões é uma das maiores fontes de ineficiência das organizações. Segundo calcula Kevan Hall, o guru inventor do “speed lead”, desperdiçamos um dia por semana (nove anos de vida!) em reuniões que não acrescentam valor.
Seriamos todos mais ricos e felizes se imitássemos o Zé Armindo, eliminássemos as cadeiras das salas de reunião e encomendássemos mesas 40 cm mais altas. A prosperidade passa por reuniões menos frequentes e mais curtas.
Jorge Fiel
Esta crónica foi publicada hoje no DN
Juca (o mais novo) com irmão, irmã e a mãe, Maria Natércia
Mal soube que ele tinha aceite a direcção de Informação da TVI, o companheiro habitual de golfe das madrugadas de 4ª feira (Joaquim Oliveira) ligou-lhe a dar os parabéns e adverti-lo para o facto do seu principal trunfo (“ser um gajo porreiro”) ser também uma grande fraqueza.
“A eleição de Obama e o fantástico desempenho de Lula demonstram que o mundo está sequioso de gente empenhada em sarar as feridas existentes e não em abrir novas. A TVI estava a precisar de um gajo porreiro. Não vim para fracturar mais, mas para relaxar e fazer as pessoas felizes”, explica Júlio (Juca para os amigos).
O novo director de Informação da TVI tem 46 anos, nasceu no Porto, filho de um guarda livros, mas com quatro meses de idade já estava a voar para Angola. Cresceu em Sá da Bandeira (actual Lubango) e retornou em 1975. A experiência africana ficou-lhe tatuada, como se pode ler nos dois best sellers em que ficcionou as aventuras do regresso a Portugal do milhão de portugueses que viviam nas ex-colónias (Os Retornados) e dos soldados que, de G3 em punho, tentarem manter o império colonial (Um Amor em Tempos de Guerra).
Encontramo-nos na TVI num dia chuvoso, e fomos para a Petisqueira do Gomes, em Barcarena, no Fiat 500 verde pistáchio (o único desta cor existente em Portugal), que ele usa durante as semanas nas deslocações em Lisboa. Os fins de semana passa-os no Porto, com a mulher Manuela (professora) e os filhos André (17 anos) e Mariana (14 anos), na casa junto ao Parque da Cidade, onde tem Pinto da Costa como vizinho.
Zé Gomes, o dono do restaurante, é de Ponte de Lima e a sua paixão pelo FC Porto revela-se em grandes emblemas espalhados pelo restaurante. Juca também é dragão (doente). Equipado de azul e branco, foi por diversas vezes campeão nacional de basquetebol, modalidade em que é detentor de um recorde difícil de bater – 128 pontos marcados num só jogo.
Com os olhos postos no futuro, recorre a uma metáfora futebolística para responder a uma questão do passado. “O Diego, internacional brasileiro, foi dispensado pelo FC Porto não por ser mau futebolista mas porque a sua maneira de jogar não se enquadrava na filosofia de jogo que o treinador queria imprimir à equipa”, diz. Para perceber o que ele pensa do famigerado Jornal de Sexta é ler Moura Guedes no lugar de Diego, Juca no de treinador - e TVI no de equipa.
“Tenho igual carinho e atenção por todos os jornais da TVI, de 2ª a domingo, do Diário da Manhã ao Jornal Nacional , passando pelo Jornal da Uma que apresentei durante muitos anos. Todos eles são igualmente importantes na minha concepção de informação”, declara.
Empowerment, a buzz que é o último grito da moda em termos de gestão de recursos humanos, é uma palavra querida para Juca: “Quero que as pessoas que até agora estavam apenas habituadas a executar reactivem a função pensar e assumam mais responsabilidades. Esse é o segredo do sucesso”.
Fazer com que a informação da TVI ajude Lisboa a descobrir o resto do paíss, do Norte até ao Algarve e regiões autónomas, é um dos objectivos de Juca, que não quer nunca perder as audiências de vista:
“O Zé Eduardo Moniz sabia programar como ninguém em Portugal e dar audiências aos jornais. Eu sei que devemos à ficção nacional sermos o canal líder. A nossa informação tem de ser abrangente e adequada ao público que temos. Não me vou esquecer, por um segundo que seja, do compromisso com os telespectadores”.
Emigrado em Lisboa, não está preocupado com a sua longevidade no cargo. “Estamos em tudo a prazo. Até na vida. Não me interessa saber se vou ficar dois, cinco ou dez anos. Estou aqui para fazer um bom trabalho e tenho a certeza que não vou falhar. Sou jornalista e estou director de Informação. Não pedi a ninguém para vir para aqui, não estou agarrado ao lugar. Não estou condicionado por nada, nem por ninguém. Sei o que quero e estou habituado a subir as escadas sem ter de me apoiar em qualquer corrimão”, afirma Juca, que, confessa, adoraria ter Marcelo de regresso à TVI. “Pelo professor, voltaria logo à antena”, conclui.
Jorge Fiel
Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias
Menu
A Petisqueira do Gomes
Largo General Humberto Delgado, 2, Barcarena
Couvert … 1,20 euros
Entradas (bolos de bacalhau, chamuças e filetes de polvo)… 10,00
Bacalhau à Gomes … 30,00
Vinho da casa (branco do Douro) … 7,50
2 cafés ... 1,30
Total … 45,50 euros
O João Carreira Bom, que, além de excelente cronista também não era parvo nenhum, achou um remédio infalível para fazer os Altos e Baixos do Expresso sem pagar a portagem de inflacionar a lista de inimigos que este tipo de coluna costuma acarretar. A receita, de uma simplicidade desarmante, consistia em elogiar as pessoas que punha a descer e criticar as que colocava a subir.
Quando alguém lhe telefonava a queixar-se por ter sido posto a descer, ele educadamente chamava a atenção para as palavras gentis que lhe dedicara. Se o motivo da reclamação era uma frase mais áspera, o Carreira Bom lembrava ao queixoso que tinha saído a subir. Usando esta técnica, designada por cobertura de risco nos meios financeiros, controlava os danos inerentes a uma rubrica agreste.
O Carreira Bom tinha o rabo escaldado e não é impossível que esta astuta prudência mergulhasse as raízes no facto de ter estado quase a ser despedido do Expresso após ter publicado na Gente uma pequena nota narrando alegadas desventuras marítimo-sexuais de um advogado, por sinal amigo de peito do patrão.
Eu teria evitado alguns dissabores se tivesse dado ouvidos ao conselho do Carreira Bom durante os três anos em que tive o encargo de fazer a coluna de Altos e Baixos da Economia do Expresso. Mas sempre fui adepto de que cada pessoa deve vestir o seu próprio fato – e o meu não contempla as meias tintas, nem o recurso ao “por um lado…” mas “por outro…” para tentar agradar a toda a gente.
Vem esta história a propósito do debate sobre o interesse dos políticos em plantar notícias e pressionar quem decide o que vai na primeira página ou abre o telejornal.
Para mim, nisto do jornalismo, há duas coisas tão óbvias como a Terra ser redonda e a água molhada:
a) Todas as fontes foram, são e serão sempre interesseiras. Ninguém no seu perfeito juízo conta algo a um jornalista se não estiver completamente convencido que tirará proveito da publicação do que acaba de comunicar;
b) Os políticos, empresários, dirigentes desportivos, agentes culturais, agências de comunicação, etc, sempre tentaram, tentam e tentarão condicionar a agenda dos Media e pressionar os responsáveis pelos fluxos informativos.
O interesse e a pressão são legítimos. Estão no papel deles. Acho tão ridículo um jornalista queixar-se disso como ouvir um guarda-redes acusar um avançado adversário de lhe ter tentado marcar golo. O papel dos responsáveis editoriais consiste em destrinçar o que é do interesse público e dos leitores do que não é, evitar que produtos tóxicos contaminem o produto que dirigem - e aguentar as consequências. Isso é o que importa. O resto é ruído e conversa mole.
Jorge Fiel
Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias
Talvez seja forçado dizer que nove em cada dez multimilionários dormem em lençóis portugueses, mas a verdade andará por lá perto, porque os nossos têxteis lar têm a fama (e o proveito) de serem de excelente qualidade.
“Recebemos agora a encomenda de mais cem roupões para a casa no sul de França do Abramovich. Gostou tanto deles que quer mais para oferecer aos amigos”, conta David Schneider, 42 anos, senior vice-president da Li & Fung, multinacional com 80 escritórios em 40 países, onde trabalham 15 mil pessoas, e que tem um catálogo de clientes recheado de marcas como a Disney, Calvin Klein, L’Oreal ou Tommy Hilfiger.
A Li & Fung (LF) só não tem fábricas nem lojas. De resto trata de tudo, desde a ideia, até ao design, colocação da encomenda, controlo de produção e entrega ao retalho. Em 2008, tratou da produção de quatro biliões de peças. Calcula-se que mais de 1/3 do que está à venda num grande centro comercial norte-americano foi colocado por ela.
“O nosso trabalho é procurar o produto certo ao preço certo”, explica David, que nasceu no Porto, licenciou-se em Genebra (Suiça) e já trabalhou em Moçambique e na África do Sul. Passa metade do ano a viajar, pois além de responsável pelo escritório português (que fica na Maia, emprega 60 pessoas e factura 60 milhões) tem a seu cargo áreas de negócio em destinos tão distantes como a Índia, Turquia, China e Paquistão.
Escolheu almoçarmos no Do Park - que fica em frente ao Parque da Cidade, na urbanização onde vive Pinto da Costa -, restaurante dirigido por Manuel, do falecido Dom Manoel, que nos tempos de esplendor da indústria nortenha era a cantina preferida dos empresários. Como está de dieta, David não tocou no paté do couvert, resumindo a refeição frugal a robalo grelhado, acompanhado por água.
A Li & Fung é um dos melhores termómetros para medir a competitividade da nossa indústria. “Já comprámos mais vestuário. Agora já só vale 50% da facturação, sendo que os têxteis lar, a cerâmica e o vidro são os sectores com mais peso na outra metade”, diz
“Temos vindo a perder competitividade porque não estamos a ser suficientemente inovadores” diagnostica David, um liberal que cita Reagan (“O Governo nunca é a solução, é sempre o problema”) e tem uma posição crítica sobre alguns aspectos da actuação governamental.
Acha um desperdício as acções de promoção sectoriais (vinho do Porto, turismo, calçado, etc): “O Governo devia promover a marca Portugal e assim beneficiava todos os sectores”.
Acusa o Governo de não ter sido eficaz no desfazer do nó dos seguros de crédito, que penalizou muito as nossas exportações no coração da crise: “Devia ter feito como outros Governos que logo se atravessaram, garantindo a cobertura do risco de não pagamento”.
Está preocupado com os prazos de pagamentos, que chegam a ultrapassar os 180 dias: “Isto assim não é uma economia saudável. Quando uma empresa fecha, é um rombo para os fornecedores. Devíamos imitar o Sarkozy que impôs por lei um prazo máximo de 60 dias”.
E considera lamentável que a energia caríssima afecta a competitividade, em particular na cerâmica, indústria onde o maior custo é a energia.
Apesar desta chuva de reparos, David não é uma pessoa azeda. Está satisfeitíssimo por a Vista Alegre ter ganho o fornecimento exclusivo de chávenas para a Nespresso. E olha o futuro com um optimismo moderado.
“Em meados do próximo ano, a recuperação vai ser evidente. Mas nada voltará a ser como dantes. Temo que o new normal seja marcado por mais intervenção do Estado e crescimentos mais pequenos, devido ao proteccionismo e a não se andar para a frente com Doha e o aprofundamento da liberalização do comércio internacional”, antecipa David, que não duvida de que o pior já passou: “Quem aguentar até 2010, vai ganhar muito dinheiro”.
Jorge Fiel
Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias
Menu
Do Park
Av. Boavista 4191/4201, Porto
Couvert … 1,80 euros
Robalo grelhado …25,80
2 Vitalis 0,5 l … 2,90
Água Castello 20 cl … 1,45
2 cafés … 1,90
Total … 33,85 euros
Há coisa de meio ano, mudamos de casa. Aproveitamos essa ruptura para criar novos hábitos. Um deles, talvez o mais importante, foi o de ter televisão desligada na hora da refeição. Nem imaginam o tempo de qualidade que ganhamos. Com o televisor off, a família está on, e falamos de tudo - inclusive de televisão.
Noutro dia, em cima da mesa, a fazer companhia às pataniscas de bacalhau (acompanhadas por feijão preto com pedacinhos de bacon), esteve o significado do Ucrânia-Inglaterra, do apuramento para o Mundial da África do Sul, ter sido transmitido apenas pela Net e vendido à razão de 4,99 libras por lar.
Não sou tão radical como o colunista do Guardian que leu neste facto o anúncio da morte da televisão, mas se fosse dono de um canal estaria seriamente preocupado, porque as más notícias sucedem-se. Na semana anterior, soubemos que, na mesma Inglaterra, o investimento publicitário na Internet foi, pela primeira vez, superior ao canalizado para a televisão.
O computador já assassinou as máquinas de escrever e agora, propulsionado por uma Internet empanturrada pela poção mágica da largura de banda, prepara-se arruinar os grupos de Media que fizeram das licenças de emissão de televisão o centro de gravidade da sua actividade.
Lá em casa, continuamos a ver televisão, mas cada vez menos. Nas horas de lazer, os dois sub 18 já passam mais tempo em frente ao computador do que ao televisor. E a dieta de consumo mudou radicalmente. Raramente vamos aos generalistas, preteridos em função dos canais de notícias, dos Sport TV e das séries dos Fox e AXN.
Por tudo isto, fiquei muito aborrecido quando li que a RTP vai receber do Estado mais 62 milhões de euros, através de um aumento de capital, elevando para 292 milhões de euros o total de fundos públicos a que vai sumiço este ano.
Não tenho nada contra a RTP. O Malato tem muito jeito para apresentar o Jogo Duplo, que combina cultura e divertimento, proporcionando uma animado serão em família. E a RTPN é o primeiro canal que busco quando quero saber notícias nacionais. Mas não descortino uma boa razão para nós, contribuintes, estarmos a pagar os prejuízos crónicos de uma empresa que nos faz tanta falta como uma dor de dentes.
Recentemente, o TGV partiu o país entre os que o acham um investimento urgente e os que alegam mão termos dinheiro para o fazer. Na verdade, os argumentos “não tenho tempo” e “não tenho dinheiro” são muito mentirosos. Ao fim e cabo, nós temos sempre tempo e dinheiro. A questão reside nas prioridades para o emprego do tempo e dinheiro disponíveis.
Desde o ano 2000, já gastamos 2,4 mil milhões de euros com a RTP. O país teria ganho se em vez de desperdiçarmos assim este dinheiro o tivéssemos investido no TGV.
Jorge Fiel
Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias
Os politólogos trabalham o resultado das eleições, bem como os dados dos seus inquéritos pós-eleitorais, como se fossem pintores em frente a uma tela. O pintor faz uns riscos, deita um bocado de tinta, e depois dá um passo atrás, para ter perspectiva, antes de avançar de novo e continuar a pintar.
Marina deu esse passo atrás para conseguir ver melhor o que está diante dos seus olhos e convenceu-se que estamos a assistir à fragmentação do sistema partidário.
Olhando em perspectiva para os resultados das legislativas de 2005, das presidenciais de 2006 (onde o rebelde Alegre reuniu um milhão de votos) e das europeias e legislativas deste ano, a investigadora do Instituto de Ciências Sociais (ICS), da Universidade de Lisboa, não tem dúvidas: “O nosso sistema bipartidário está sob uma enorme pressão”.
“No auge do bipartidarismo, PS e PSD chegaram a somar 80% dos votos. Nas últimas europeias tiveram juntos o pior resultado de sempre (58,3%)”, afirma Marina Costa Lobo, 37 anos, acrescentando que tudo indica que os menos de 67% de votos concentrados a 27 de Setembro nos dois partidos centrais do espectro partidário não são uma excepção, mas revelam uma tendência.
Marina nasceu em Lisboa, onde vive na Estrela, mas aos 13 anos seguiu na bagagem da mãe e padrasto para a Suíça, tendo feito em Lausanne os três últimos anos do secundário. Passou depois um ano em Portugal, a trabalhar na Herdade do Esporão, antes de voltar a meter-se num avião para se licenciar em Ciência Política e Económica em Durham, no Norte de Inglaterra.
Esteve um ano em Londres, na Andersen Consulting, antes de voltar à Universidade, fazendo em Oxford um doutoramento sobre o poder do primeiro ministro e o funcionamento do Governo em Portugal. Antes de começar a tese, tinha a sensação que no final de década cavaquista, o primeiro ministro tinha muito mais poder do que no início.
Na tese demonstrou que essa sensação era verdadeira e explicou como Cavaco aumentou o seu poder, governamentalizando o PSD (a análise das listas permitiu-lhe quantificar o crescente denominador comum entre dirigentes do partido e membros do Governo) e reforçando imenso o peso da presidência do Conselho de Ministros.
Almoçamos em Entrecampos, perto do ICS. Marina hesitou um bocado (“Tenho de decidir se estou ou não de dieta”, gracejou) antes de escolher um risotto de espargos, enquanto contava pormenores da sua aventura ferroviária para ir de Roma a Sienna, onde esteve a semana passada a arguir um doutoramento – e explicava que não aproveitou a viagem para passar lá o fim-de-semana porque tem filhas pequenas (oito e cinco anos).
O facto das autárquicas permitirem o surgimento de candidaturas independentes e favorecerem a personalização do voto, inspira-lhe cuidados e comentários.
“Os independentes não são realmente independentes. São gente com ideologia e interesses. As candidaturas independentes têm possibilitado a autarcas arguidos, com processos pendentes na Justiça, ou até mesmo já condenados, escaparem à penalização das elites partidárias, recandidatarem-se e manterem-se na presidência de câmaras”, acusa Marina, que elogia a atitude de Marques Mendes de ter excluído Valentim e Isaltino das listas do PSD.
Estes casos, tal como o de Fátima Felgueiras, levam-na a encarar positivamente o escrutínio dos partidos, que para se credibilizarem têm de ser cuidadosos na selecção dos seus representantes.
A teoria do “rouba mas faz” e a fraca opinião que a generalidade das pessoas têm da Justiça ajudam, na sua opinião, a explicar a reeleição sistemática de autarcas condenados por corrupção.
A importância das câmaras como grandes geradoras de emprego e negócios nos municípios mais pequenos permite compreender porque é que 40% dos presidentes já estão no lugar há pelo menos dois mandatos e, por isso, se recandidatem hoje pela última vez. Mas não é esse o caso de Oeiras, para o qual Marina não encontra outra explicação senão a hipótese do argumento “rouba mas faz” também ser eficaz junto do eleitorado mais instruído dos grandes meios urbanos.
Jorge Fiel
Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias
Menu
LA Caffé
Av. Campo Grande 3-B 1º andar, Lisboa
Couvert … 3,90 euros
Risotto de espargos verdes com ovo mexido e azeite de trufa …12,00
Risotto de tomate com pimentos, atum e poejos … 13,00
Água LA Caffé Serra da Estrela ... 3,10
2 cafés … 3,00
Total … 35,00 euros
Os meus amigos de Lisboa ficam surpreendidos por lhes sugerir a Pousada da Juventude quando me perguntam onde devem ficar quando vêm ao Porto. Ao contrário do que o nome indica (e a generalidade das pessoas pensa), as Pousadas de Juventude estão abertas a clientela de todas as idades. E a pousada do Porto está num local magnífico, com uma vista deslumbrante do Douro e a sua foz.
Tenho formatada uma lista de recomendações para os meus amigos que visitam o Porto. Para a experiência francesinha, acompanhada por um príncipe e antecedida de um rissol de carne, aconselho o Capa Negra, no Campo Alegre.
Na Baixa, além dos incontornáveis Majestic e Lello – que se não são o café e a livraria mais bonitos do mundo pelo menos andam por lá perto -, acho imprescindível um passeio a bordo do eléctrico 22, do Carmo até à Batalha, complementado pela descida de funicular até à Ribeira, onde só tem a ganhar se visitar o Palácio da Bolsa (o Salão Árabe é de cortar a respiração) a atravessar a pé o tabuleiro inferior da ponte Luiz I, não se esquecendo de olhar para montante e apreciar devidamente a elegância da ponte D. Maria, uma jóia de Eiffel.
As melhores vistas panorâmicas do Porto obtêm-se a partir de Gaia. As minhas preferidas são as das esplanadas do Bogani (Cais de Gaia) e do Arrábida Shopping. Já que está na margem esquerda, não perde nada se visitar umas caves de Vinho do Porto. É um cliché turístico, mas vale a pena.
Com partida da Ribeira (onde tem a opção de embarcar num cruzeiro pelas seis pontes), junto à igreja de S. Francisco (aquela que tem o interior revestido a ouro), o eléctrico 1 percorre a marginal fluvial. Depois, a partir do Jardim do Passeio Alegre, o melhor é mesmo seguir a pé, ao nível das praias, parar a meio numa esplanada, passar o Castelo do Queijo chegar à frente marítima do Parque da Cidade e olhar a fantástica Anémona que assinala a entrada em Matosinhos.
Se os meus amigos vêm com tempo contado e não podem fazer o programa completo, eu não os deixo partir sem verem os três mais recentes tesouros que enriqueceram a cidade nos anos de viragem do século. Vir ao Porto e não visitar Serralves, ver a Casa da Música e ir de metro até ao Dragão é muito mais grave do que ir a Roma e não ver o papa.
É por isso que eu, portuense, fico triste por ter um presidente da Câmara que nunca pôs os pés no Dragão, só foi uma vez a Serralves (e porque o Fernando Lanhas o foi buscar aos Paços do Concelho e o obrigou a visitar a exposição dele) e não frequenta a Casa da Música – apesar de morar ali ao lado, a menos de cinco minutos a pé. O Porto merece melhor.
Jorge Fiel
Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias
Foto Paulo Jorge Magalhães
Nunca foi a Guimarães? Pois então prepare-se para ir, porque Cristina acha que “nenhum português pode dar-se ao luxo de não conhecer Guimarães” - e ela não é mulher para descansar antes de atingir os seus objectivos.
Cristina Azevedo, 44 anos, licenciada em Relações Internacionais e pós graduada em Análise Financeira, é a presidente da Fundação Cidade de Guimarães, que está a preparar a Capital Europeia da Cultura 2012.
Nasceu na Beira, Moçambique, de onde veio, órfã de pai e com ano e meio, para Arco de Baúlhe, pequena vila minhota onde as suas origens familiares estão tatuadas na toponímia – o capitão Elísio de Azevedo que dá o nome à rua principal era seu avô.
Quando tinha dez anos, a mãe, professora primária, mudou para Braga, para garantir a educação das duas filhas. No Conservatório Regional da Gulbenkian, Cristina aprendeu ballet e piano, tendo professores marcantes como Borges Coelho e Cândido Lima. Nos institutos Francês, Inglês e Alemão acrescentou línguas a uma sólida bagagem onde já estavam a música e a dança.
Concluído o curso, iniciou-se na área financeira em Paris, foi directora de marketing da Bolsa em Lisboa, e vice-presidente da CCRN no Porto. Regressa agora ao Minho, 23 anos depois de ter saído de Braga, para ajudar Guimarães a aproveitar ser capital europeia da cultura para diversificar as actividades económicas, pois é um dos concelhos mais fustigados pelo desemprego e que mais sofre com a dolorosa reconversão da têxtil.
Almoçamos numa esplanada na Praça de Santiago, em pleno coração de um dos três centros históricos portugueses proclamados Património da Humanidade pela Unesco (os outros são o Porto e Angra do Heroísmo).
“Este centro histórico belíssimo é fruto de uma recuperação exemplar iniciada em 1983, desenvolvida em parceria com os privados, em negociações casa a casa, senhorio a senhorio, inquilino a inquilino”,explica Cristina, que não se cansa de o palmilhar: “É conhecendo as cidades com os pés que elas entram no nosso coração”.
Não precisou de olhar para a lista. No Cheers, pede sempre o mesmo: sopa, salada composta (nozes, tomate e queijo fresco) e sumo de laranja. Uma escolha que evidencia preocupações desnecessárias, pois além de muito alta também é muito magra e não conseguiria engordar porque nunca está quieta – até parece que tem bichinhos carpinteiros.
A Fundação nasceu a 28 de Agosto, mas Cristina já sabe o que vai fazer para demonstrar em Guimarães a eficácia da cultura como factor de desenvolvimento e sector económico.
Conhecer e criar são as palavras chave e por isso a partir de 2011/12 o pólo de Guimarães da Universidade do Minho vai ser enriquecido com o Instituto Superior de Design e o Centro de Formação Avançada, que leccionará uma dúzia de cursos de pós graduação com destaque para as indústrias criativas, com ligação ao tecido empresarial da região.
Couros, uma área de 10 hectares onde, em 13 fábricas desactivadas e tanques de tinturaria em granito, persiste a memória da indústria de curtumes será a área de intervenção para a 2ª fase da reabilitação do Centro Histórico.
Um laboratório de interpretação da paisagem é uma das ideias para a recuperação e ordenamento da Veiga de Creixomil, uma área verde de 50 hectares, à entrada da cidade, que Álvaro Domingues classificou como “uma mistura de Parque Biológico e terreno agrícola”.
A requalificação do Coliseu e dos museus do Chiado e de Arte Antiga foi a herança tangível de Lisboa 94. A Casa da Música é o ícone do Porto 2001. De Guimarães 2012 vai ficar a transformação em plataforma das artes do mercado municipal e uma fábrica contigua – bem como o novo museu que reunirá obras de José de Guimarães e as colecções de arte africana e pré-colombiana que o artista vai ceder à cidade.
Estes são alguns dos projectos que fervilham na cabeça de uma Cristina apostada em que o orçamento de 111 milhões de euros seja investido (não apenas gasto) e com os olhos postos no futuro: “Na cidade mais portuguesa de Portugal, a História tem de ser usada como trampolim e não como sofá”.
Jorge Fiel
Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias
Menu
Cheers
Praça de Santiago 15, Guimarães
Creme de legumes … 1,50 euros
Salada composta … 3,00
Alheira com grelos … 7,50
Sumo de laranja ... 2,00
Água 1,5 l … 2,00
Total … 16,00 euros
Evito mentir, mas não por razões éticas ou morais, pois em muitos casos uma pequena mentira até pode ser vantajosa – por exemplo, quando jura que não foi por a sua amiga estar muito mais velha e gorda que não a reconheceu.
Fujo da mentira por ser incompetente nesta matéria. O psicólogo Peter Ekman diz que em 54% das vezes uma pessoa normal detecta uma mentira. No meu caso, essa percentagem é de 99%, pois sempre que tento colorir a realidade sinto o nariz a crescer, a voz a tremer, os olhos a piscar e grossas gotas de suor a escorrem pela testa. No que me toca, Gepeto tinha toda a razão quando ensinou a Pinóquio que “a mentira tem as pernas curtas e o nariz longo”.
Tento remediar esta falha apostando nas omissões e meias verdades, mas sei que esta minha incapacidade em mentir me inibe de ser político. Clinton jurou na televisão que não fez sexo com a Lewinsky. Nixon declarou que ignorava tudo sobre Watergate. Durão garantiu que não ia aumentar os impostos. Marcelo inventou, em benefício de Portas, uma descrição de uma reunião (inexistente) em Belém, adornada com o pormenor da ementa (caso da vichyssoise).
“Um político de sucesso, com muitos anos de carreira, foi obrigado a aprender a mentir de modo tão profissional diante das câmaras, que a imensa maioria das pessoas não é capaz de detectar os deslizes”, afirma Ekman, o maior especialista mundial em mentira.
Os bons políticos mentem como respiram e se calhar não têm outra solução, a acreditar em Dostoievski que recomendava que “para tornar a verdade mais verosímil precisamos de lhe adicionar mentira”.
Eu não só evito mentir como, neste mundo em que a privacidade foi sacrificada no altar da segurança, parto do princípio de que tudo que digo, escrevo ou faço está a ser ouvido, lido ou observado.
Bruno Castro, da Visionware, especialista em segurança informática, disse-me um dia, meio a brincar (mas também meio a sério), que não podia garantir a 100% que um computador fechado num cofre e desligado da Net estivesse protegido de um ataque.
No Alaska, a ex-governadora Palin sabia que os emails podiam ser acedidos, por isso impôs que o seu staff usasse os endereços pessoais, e não os estaduais, pois ao menos assim evitava que pudessem ser apresentados como prova em tribunal.
A propósito de emails, ouvi dizer que Cavaco anda preocupado com a segurança dos seus computadores, por isso deixo-lhe um bom conselho, Fale ao Bruno Castro, que ele explica-lhe tudo num instante. Senão ficar convencido, então recomendo que recorra ao comissário Kurt Wallander, que ainda recentemente se desembrulhou muito bem de uma complicada conspiração informática (ver A Muralha Invisível, de Henning Mankell).
Jorge Fiel
Esta crónica foi publicada hoje no Diário de Notícias
Como toda a gente que tem filhos pequenos, ele está habituado a acordar cedo por isso não estranhou que hoje, apesar de ser domingo, tenha saído da cama às sete da manhã, como de costume.
Votou à abertura das urnas, no Pedro Nunes, em Lisboa, antes de seguir para o Centro de Sondagens da Católica. Vai passar boa parte de manhã horas ao telefone com comandantes de posto da GNR, membros da Comissão Nacional de Eleições, presidentes de junta de freguesia e de mesas de voto.
Calmo e ponderado, Pedro está a resolver a bem todos os pequenos conflitos locais suscitados pela presença à saída das mesas de voto, das brigadas destacadas para 48 freguesias para recolherem em urnas a repetição do voto de 20 mil eleitores que fundamentarão as previsões que a RTP divulga às 20h00.
De manhã está mais ocupado a ser capacete azul, mas à tarde começa a apertar o tempo para tratar os dados recolhidos um pouco por todo o país pela centena de inquiridores da Católica, pois às 18h00 ele está de partida para a RTP.
Nesse dia longo, Pedro vai a sociedade portuguesa a funcionar. Os mais velhos são madrugadores e votam logo de manhãzinha, o que concede um avanço inicial à direita, reforçado com o pico de afluência às urnas no Norte, a seguir à missa. O Bloco de Esquerda só começa a subir a seguir ao almoço e vai em crescendo até ao fecho das urnas.
“É um dia ao mesmo tempo enervante e divertido”, sintetiza Pedro Magalhães, 39 anos, que há três anos dirige o Centro de Sondagens da Católica, onde foi parar em 1999, porque precisavam lá de alguém “que percebesse de política”.
Licenciado em Sociologia no ISCTE, deu aulas na Católica (Martim Avillez Figueiredo, o director do i, foi um dos seus alunos no curso de Comunicação Social) antes de se doutorar na Ohio State, de onde trouxe uma sólida formação em Estatística, área que as universidades do Midwest são particularmente fortes.
Desde o regresso dos EUA que trabalha como investigador do Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa. Mas continua a ser professor. “Gosto de dar aulas. É muito bom para o pensamento e ajuda a ter a cabeça arrumada”, confessa este politólogo que define assim esta sua condição: “O nosso negócio é descrever o mundo político o melhor possível e procurar explicações plausíveis para que ele seja como é”.
Pedro apareceu com um ar descontraído, All Stars nos pés e pulôver sem mangas, no LACaffé do Campo Grande, que fica perto do ICS. Fala com clareza e credibilidade e tem aquele ar do bom rapaz com que todos os pais sonham para marido das suas filhas.
Pediu um Cola Zero para acompanhar as “lascas de bacalhau com brás de tomate e azeite de coentros” (os consultores de cartas recomendam que o descrição dos pratos na lista seja o mais pormenorizada possível…), que se revelaram ser bacalhau à Brás, apresentado em formato de pudim e encimado por saborosas lascas do dito.
O facto das sondagens terem sido o bombo de festa na noite e rescaldo das últimas eleições europeias (apenas a Marktest admitiu a vitória do PSD) não lhe encheu a testa de rugas.
“Uma abstenção elevada baralha tudo. É a grande inimiga das sondagens. Não é por acaso que as europeias correm quase sempre mal”, afirma, acrescentando o exemplo do primeiro referendo sobre o aborto, em que, por causa da altíssima taxa de abstenção, na própria noite de apuramento dos resultados ainda toda a gente dizia que o Sim ia ganhar.
“As sondagens não são previsões eleitorais. Medem intenções e não comportamentos. As pessoas podem estar sinceramente convencidas que vão votar quando estão a responder ao inquérito, mas depois chega o dia e afinal não vão”, explica.
O trabalho das empresas de sondagens tem os seus espinhos. Quase um terço da população não tem telefone fixo. E nos inquéritos presenciais é virtualmente impossível chegar à fala com as pessoas que vivem em condomínios fechados. Mas apesar destes apesares, Pedro Magalhães está convencido que esta noite as sondagens não vão ficar mal na fotografia.
Jorge Fiel
Esta matéria foi publicada hoje no Diário de Notícias
Menu
LACaffé
Av. Campo Grande 3 B, 1º andar, Lisboa
2 couvert … 3,90 euros
2 lascas de bacalhau … 28,00
1/4 Água das Pedras … 1,70
1 Coca Cola Zero 0,33 l .. 1,75
1 salada de frutas … 5,00
2 cafés … 3,00
Total … 43,35 euros
Quando li um comentador de peso a comparar o duelo Sócrates/Ferreira Leite a um Benfica-Sporting, pensei logo: olha mais um que parou no tempo da Outra Senhora, em que os dois clubes de Lisboa alternavam os títulos à razão de três para os da Luz, um para os de Alvalade.
Mas depois do debate, dei por mim a pensar que a comparação afinal não era tão esfarrapada, e que o seu autor acertara, se calhar da mesma maneira involuntária que o relógio parado dá a hora certa duas vezes por dia. As palavras Porto, Norte e Regionalização não foram pronunciadas na única vez em que os dois candidatos a primeiro ministro estiveram frente a frente na televisão a disputarem os votos dos indecisos.
A bondade do TGV para Madrid foi esmiuçada, mas não se ouviu um pio sequer a propósito da linha Lisboa-Porto-Vigo, apesar dos estudos da firma britânica Steer Davies Gleave garantirem que ela não é só é viável mas também geradora de um benefício líquido superior a cinco mil milhões de euros. Na troca de argumentos desencadeada pela retórica retro anti-espanhola de Ferreira Leite, a única referência à linha para o Porto saiu da boca do ministro espanhol.
No Norte, o céu está mais carregado de nuvens do que no resto do país. Vivem aqui um milhão de pobres. Mais 300 mil que há três anos. A segunda região que mais contribui para a riqueza do país é mais pobre de Portugal – e uma das 30 mais pobres da Europa, ao lado de regiões romenas e búlgaras.
Apesar disso, nenhum dos candidatos achou que valia a pena desperdiçar o precioso tempo de antena do seu Benfica-Sporting televisivo a explicar como planeia combater a bolsa nortenha de pobreza e redistribuir de forma solidária a riqueza por todo o país.
Como portista e nortenho, olho para todos os Benfica-Sporting sem paixão, mas com interesses – prefiro sempre que perca o que ameaça mais perto a liderança do FC-Porto.
No Benfica-Sporting que se vai jogar no domingo é do interesse do Norte que perca quem se pronunciou contra a Regionalização e o TGV – e acha que “é preciso parar tudo porque não há dinheiro”, mas não incluiu nesse tudo o investimento de 2,5 mil milhões de euros na expansão do Metro de Lisboa nem a ruinosa compra de submarinos que nos fazem tanta falta como uma dor de dentes.
No Benfica-Sporting de domingo, o mal menor é que perca quem tem a mentalidade do espanhol dono de um cavalo que morreu após 15 dias de jejum forçado e se lamentou: “logo agora que ele se tinha habituado a viver sem comer é que morreu”. Domingo, é preciso evitar que ganhe a velha política do “pobretes mas alegretes”, que tem tanta possibilidade de ter sucesso como uma bailarina com uma perna de pau.
Jorge Fiel
Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias
Nunca ligou à política e não faz a mínima ideia em quem vai votar no próximo domingo, mas não alinha nessa do papão espanhol e até olha com muita simpatia a criação de uma Liga Ibérica, sugerida por Rui Pedro Soares, administrador executivo da PT, que é responsável por 10% das receitas do futebol nacional.
“Se o nosso futebol quiser crescer, o caminho é por aí”, afirma Miguel Salema Garção, 41 anos, membro da Comissão Executiva do Sporting SAD. Como a geografia deu-nos apenas dois vizinhos, e um deles é o mar, acha inevitável que as empresas de todos os sectores encarem toda a Península como mercado doméstico.
“Dada a nossa pequena densidade demográfica, temos de apostar na iberização para potenciar o negócio. Numa Liga Ibérica, as receitas dos patrocinadores, assistências e direitos televisivos seriam incomparavelmente maiores”, explica.
Ao longo da sua carreira de gestor, feita entre os CTT e os seguros, Miguel trabalhou um ano em Madrid, numa corretora de seguros do grupo Aon (actual patrocinador do Manchester United) e guarda gratas recordações dessa experiência.
“Os espanhóis percebem melhor do que nós que a função de um profissional é criar valor para o accionista e assim aumentar a riqueza do país e melhorar o seu próprio nível de vida. E têm um sentido de patriotismo que faz-nos falta a nós, portugueses, que somos invejosos e não valorizamos devidamente gente como Durão Barroso, o Ronaldo, o Mourinho ou o Figo com grande sucesso internacional”, declara Miguel, um homem desempoeirado, que casou há 11 anos na Jamaica (um dois em um, já que passou lá a lua de mel) com um advogada que já lhe deu dois sportinguistas, o Manel, de nove anos e a Maria, de quatro.
Almoçamos no Casa 21, no piso da tribuna presidencial do Alvalade XXI, um restaurante concessionado à Casa do Marquês, empresa de catering de José Eduardo, decorado com quadros da autoria de Jordão – o que não deixa de ser comovente, porque, quando ambos eram futebolistas, o actual empresário da restauração partiu (sem querer) a perna ao actual pintor.
Os maus resultados do último exercício (prejuízos superiores a 13 milhões de euros) da SAD leonina não desanimam Miguel: “As pessoas pensam que a crise não chegou ao futebol, mas estão enganadas. As grandes empresas reduziram o investimento, diminuiu o número de espectadores e há menos transacções de direitos desportivos. Além disso, temos estado a segurar os talentos. Nas últimas três épocas, apenas vendemos o Nani”.
Miguel garante que o Sporting está “no trilho certo”, tem uma das melhores academias do Mundo, é o clube português com mais capacidade de gestão, tem um presidente “que combina experiência, profissionalismo e paixão”, e, excepção feita ao tempo dos Cinco Violinos, vive o período de maiores sucessos desportivos da sua história.
Este optimismo alarga-se à sua análise da competividade da indústria portuguesa de futebol: “Está provado por A + B que sabemos fazer talentos mundiais neste sector”, diz, acrescentando que, no entanto, “é preciso aprofundar a profissionalização a todos os escalões, não só os clubes, mas também liga, federação e associações”.
“Os jovens gestores devem poder encarar o futebol como um sector para fazerem a sua carreira, igual a qualquer outro, como a informática, finanças ou distribuição. Se os jogadores, treinadores e directores desportivos circulam por todo o Mundo, porque não acontecerá o mesmo com os gestores?”, pergunta.
Há, no entanto, um pingo de irracionalidade a turvar este raciocínio, já que Miguel declara, sob palavra de honra, que “seria absolutamente incapaz de trabalhar no Benfica”, afirmação susceptível de embaraçar Domingos Soares de Oliveira, o sportinguista que é responsável pelo pelouro financeiro na administração do Benfica.
“Nesta área só me vejo a trabalhar no Sporting. O profissionalismo é o mesmo, mas há a componente da paixão. É um prazer enorme trabalhar no meu clube de sempre”, concluiu Miguel, que, apesar de ser filho de um benfiquista, é o sócio 10 184 do Sporting e foi um dos fundadores da Juventude Leonina.
Jorge Fiel
Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias
Menu
Casa 21
Estádio Alvalade XXI (ao lado porta 4)
2 couvert … 6,00 euros
2 choquinhos à algarvia… 25,00
2 buffet fruta e doce … 10,00
1 água Vitalis 1 l .. 2,00
1 Quinta do Castro tinto … 22,00
2 cafés … 2,00
Total … 67,00 euros
O beijo na cara tem muito que se lhe diga. Os lisboetas usam o beijo único. Eu, que sou parolo, habituei-me de pequeno a dar dois beijos. Apesar de frequentemente ficar pendurado, por a face já lá não estar quando vou dar o segundo beijo, mantenho-me fiel ao beijo stereo, tanto mais que os franceses dão três beijos e são os maiores especialistas mundiais em questões de etiqueta.
Mas estou a encarar a hipótese de congelar esta prática por causa da terrível interpretação do art. 283º do Código Penal feita pelo Rui Pereira de Melo, da Abreu & Associados.
O 283 determina que quem propagar uma doença contagiosa arrisca-se a passar na choldra entre cinco (contágio por negligência) a oito anos (caso se prove ter havido intenção).
Na douta opinião do Melo, o 283º aplica-se ao contágio da gripe A. Ou seja, se eu, sem saber, estiver a chocar o H1N1 e o transmitir a alguém através dos beijos stereo, estou sujeito a ser posto à sombra até 2014.
A gripe A tem muito que se lhe diga. O Paulo dos Marques, consultor do Governo, prevê que dentro de um mês haverá tanta gente no país com gripe A como pobres no Norte – ou seja, um cerca de um milhão.
Os lojistas do Freeport acusam a gripe A de lhes estar a dar cabo do negócio, apesar da publicidade suplementar que o PSD e a TVI têm feito ao seu outlet.
O presidente da Associação Portuguesa de Seguradores teme que as suas associadas abram falência se os seguros de saúde tiveram de cobrir as despesas provocadas pela gripe A (apesar de eu já ter ouvido médicos garantirem que ela se cura com quatro euros e uns dias de cama).
O BCP identificou a gripe A como a grande ameaça à sua actividade no 2º semestre e a ministra da Saúde adverte que as crianças com febre serão impedidas de entrar nas escolas (será que vamos ter à entrada alguém a pôr-lhes a mão na testa ou a enfiar-lhes um termómetro?).
A gripe A tem todo o aspecto de ser um caso muito sério, o que me deixa um bocado aborrecido por ninguém das minhas relações ter sido (ainda, acrescento com uma réstia de esperança) vítima dessa praga.
Mesmo da gente que só conheço dos Media, não sei de ninguém com a Gripe A – nem a Moura Guedes, nem a Nereida, nem a Cláudia Jacques, nem o advogado do Relvas, nem a Melanie Laurent (na fotografia) nem a ex-mulher do Carlos Queiroz, nem o Malato, nem o Ricardo Salgado, nem a Elsa Raposo ou Jorge Coelho.
É por isso que às vezes dou por mim a pensar se não estaremos a ser vitimas de uma gigantesca partida, e se a pandemia da Gripe A não será uma nova caçada aos gambozinos, uma espécie de Pai Natal dos tempos modernos, inventados pela LPM do Obama para afastar o espantalho da crise da cabeçalhos dos jornais e das aberturas dos telejornais…
Jorge Fiel
Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias
É natural que uma miúda que cresceu no Seixal, num quarto com vista para as chaminés da Siderurgia e do Barreiro, se torne numa militante ambientalista. Susana, 35 anos, leva o assunto muito a sério. Não depila as axilas nem se adorna com brincos ou anéis, dispensa maquilhagem e não usa secador de cabelo. Anda quase sempre de transportes públicos ou à boleia. Fecha a torneira enquanto se ensaboa ou escova os dentes, e guarda num balde a água que sai do duche antes de ficar morna; “Sempre é uma descarga a menos que faço no autoclismo”, explica.
“Compro o mínimo de roupa possível, prolongo ao máximo a vida de todos objectos, como o esfregão da louça, não deixo nada em stand by, só uso lâmpadas energeticamente eficientes e mesmo assim a minha pegada ecológica é excessiva. Se toda a gente tivesse o mesmo padrão de consumo, os recursos do planeta não chegavam”, afirma a frugal Susana, que apenas é desregrada no consumo de fruta – é capaz de comer, de uma vez só, um kg de cerejas ou meia melancia.
Almoçamos numa esplanada, no Seixal, junto à marginal do Tejo onde ela corre três vezes por semana com o marido, um engenheiro que trabalha na área informática. A banda sonora da refeição foi 100% portuguesa, mas variada - desde Paulo de Carvalho até ao inesquecível “Não venhas tarde”, de Carlos Ramos, passando pela “Balada da Rita”, de Sérgio Godinho (“aviso-te, a vida é dura, põe-te em guarda”).
Susana serviu-se só uma vez, apenas deixou ficar no prato dois pequenos pedaços de camarão (não gosta de marisco) que enriqueciam a feijoada (que partilhamos) e ficou contrariada por a água (natural) vir numa garrafa de plástico. “Em vez de embalagens reutilizáveis, aposta-se reciclagem, que desculpabiliza as pessoas, mas consome mais recursos”, comenta.
“Consumimos muito, não temos coragem de usar transportes públicos e comemos proteínas a mais. Devíamos comer menos e de melhor”, afirma a presidente da Quercus, que não bebe café e prefere sempre os produtos nacionais, por razões ecológicas.
Licenciada em Sociologia, calcula ter pronta em Maio a tese de doutoramento, sobre eficiência energética, baseada no trabalho das Eco-Brigadas da Quercus que vão gratuitamente às casas das pessoas e, após uma auditoria, aconselham medidas concretas para reduzir a conta da energia. “Temos dificuldade em encontrar pessoas que queiram poupar”, ironiza, com alguma amargura, a propósito do serviço não ser muito solicitado.
Na última Primavera, a vida dela levou uma volta. Foi mãe pela primeira vez , uma semana depois de ser eleita presidente da Quercus, que tem 18 núcleos regionais, 20 profissionais e 14 mil sócios, dos quais apenas uma minoria (quatro mil) paga a quota de 20 euros/ano e contribuiu assim para o orçamento anual da associação ambientalista, que ronda o milhão de euros.
Susana é uma mãe muito económica, logo a começar pelo curto nome que deu à filha (Ana) e a acabar no facto da bebé usar roupas, cadeira, alcofa e carrinho emprestados, passando pelo uso de fraldas de pano e do aproveitamento para descargas da água de lavar os biberões, que são (obviamente) de vidro. Provavelmente, Ana vai ser filha única. “Promover a natalidade é olharmos para o umbigo. Já há gente a mais no planeta”, avisa a mãe dela.
Susana não acredita que a crise tenha o efeito regenerador de corrigir os excessos: “A crise é muito suave para mudar os hábitos das pessoas. São precisas mudanças radicais. Não deixa de ser irónico que numa sociedade onde se consome desvairadamente, a boa notícia que anuncia o fim da crise seja a subida do indicador do consumo das famílias”.
Filha de um trabalhador da construção civil e de uma doméstica que andou nas limpezas, cedo começou a poupar, não só por necessidade, mas também por militância. Quando puseram um caixote, junto à sala dos professores, para recolher papel para reciclar, ela até as embalagens do açúcar e farinha levava de casa, apesar de ter apenas 15 anos e demorar 20 minutos a pé a chegar à escola do Fogueteiro.
Susana não mudou. À despedida, junto ao cais do Seixal, reparei que tinha trazido a garrafa de plástico da água – para a reutilizar.
Jorge Fiel
Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias
Menu
O Bispo
Praça da República 2, Seixal
2 águas 0,5 l … 2,00 euros
1 feijoada de chocos… 6,00
1 café .. 0,65
Total … 8,65 euros
Em toda a minha vida, o único bem palpável que roubei foram livros. Parei com essa actividade ilícita algures em 1973, depois de ter sido apanhado a sair de uma livraria com um livro sobre os Fedayin entalado no sovaco e dissimilado (pelo visto mal) no interior de um casaco aos quadrados igual ao usado pelos pescadores, que estava muito em voga à época.
No essencial, roubava livros com a louvável intenção de sustentar o programa básico de formação política dos colegas de liceu que tencionava recrutar para os Círculos Vermelhos (estruturas estudantis semi-legais dirigidas pela trotskista LCI), que contemplava a Introdução à Teoria Económica Marxista, de Ernest Mandel, Estado (um ensaio do Lenine e outro do Trotsky), e Combate Sexual da Juventude, de Wilhelm Reich – a leitura era aconselhada por esta ordem, que podia ser invertida se a potencial recruta fosse uma tipa gira.
A recordação de um pecadilho antigo vem a propósito da afirmação, produzida por Ferraz da Costa, de que em Portugal “se rouba muito” e “o país não tem dimensão para se roubar tanto”.
O presidente do Fórum da Competitividade emergiu da semi-clandestinidade em que mergulhou quando abandonou a CIP, em 2001, para denunciar a excessiva dimensão da roubalheira, aproveitando a oportunidade (uma entrevista ao Expresso) para fazer um diagnóstico severo do estado de saúde mental de Manuel Pinho (“toda a gente sabe que ele é maluco”).
Ferraz da Costa é muito capaz de ter razão quando aponta o roubo como uma das causas da nossa aflitiva perda de competitividade. Entre 2005 e 2009, caímos oito posições, de 9º para 17º lugar, na UE 27, no ranking da Competitividade Global do Fórum Económico Mundial.
Questionado sobre quem rouba, Ferraz deu uma resposta inteligente: “Todos os que podem”. Se a apropriação indevida de dinheiros e bens está limitada a quem tem poder para o fazer (e a sua punição depende de uma Justiça gravemente doente), já o roubo de tempo está ao alcance de toda gente e temos de o combater, pois, como nos avisa sabiamente Jim Rohn, um especialista em motivação, “o tempo é mais valioso do que o dinheiro, porque podemos ganhar mais dinheiro, mas não podemos ganhar mais tempo”.
Para sermos mais competitivos, temos de aprender a gerir o tempo, saber privilegiar o prioritário ao urgente, reeducar os ladrões de tempo que não sabem trabalhar, promover a pontualidade, castigar os atrasados que nos fazem perder tempo, e expurgar as empresas dos abusadores de tempo que as infestam.
Chegado ao fim, espero que consideram bem empregue o tempo investido na leitura desta crónica. A última coisa que eu queria era roubar-vos tempo.
Jorge Fiel
Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias
Foto Helder Capela
Não é preciso ser um Einstein para adivinhar que Carla não vai votar Sócrates. A animosidade é recíproca. Ela não seria reeleita bastonária, nas eleições do próximo sábado na Ordem dos Notários, se isso dependesse do voto do primeiro ministro.
A bastonária acha que o Governo faz a vida negra aos notários por não concordar com a sua privatização, decidida pelo anterior executivo laranja. Mas o facto de, em Abril, Carla ter enviado a todos os notários um pedido de informações sobre escrituras envolvendo Sócrates e seus familiares não ajudou nada a aliviar a tensão entre o S. Bento e a Ordem.
“Cinco notários já pediram para regressar à Função Pública, uma possibilidade que está em aberto até Fevereiro. Estou convencida de que a maioria dos meus colegas aguarda o resultado das legislativas para decidir se ficam como notários”, afirma Carla Soares, nascida há 44 anos em Lobito, Angola, que escolheu almoçarmos no Origami, um japonês da zona da Expo, onde ela mora desde 1999, quando regressou da Madeira, onde iniciou a carreira como notária, após oito anos na advocacia.
Nativa do signo Leão, auto-retrata-se como “frontal, transparente, voluntariosa, empenhada e talvez ousada”, sendo que o talvez é um toque de modéstia. Como é “naba na cozinha” gosta muito de ir a este japonês com o filho, que apesar de só ter dez anos gosta de peixe cru e considera o Origami melhor que o Aya.
A relação entre a oferta e a procura dos notários inverteu-se de forma dramática. Quando Carla tomou posse do cartório da rua da Madalena, em Lisboa, em Outubro de 2002, tinha 11 funcionários e fazia 40 escrituras/dia.
“Em pouco tempo, com os mesmos funcionários, fazíamos uma média de 300 escrituras por dia. Havia pessoas que vinham do Barreiro e traziam-nos medalhas benzidas para agradecer terem conseguido vez tão rapidamente”, diz.
O panorama mudou radicalmente, com a privatização dos notários, a duplicação das licenças (o mapa dos cartórios existente em 2005 estava em vigor desde 1960) e o Simplex.
Há cinco anos, dava-se gorjeta para marcar uma escritura. Hoje os cartórios estão às moscas. O andar que Carla comprou na av. Liberdade para instalar o seu cartório só está parcialmente ocupado. Tem oito postos de trabalho, mas só duas funcionárias – e subaproveitadas. “Muitos colegas já só têm um funcionário e, quando ele está de férias, vão atender para o balcão”, conta.
A privatização não só aumentou a oferta, mas também alargou a outros (advogados, solicitadores, câmara de comércio) a capacidade de fazer contratos que era exclusiva dos notários.
Como se isto não bastasse, a bastonária queixa-se da concorrência desleal feita pelas conservatórias públicas. Antes da privatização, os notários faziam os contratos e as conservatórias registavam-nos. Agora estão numa concorrência, que ela não considera saudável.
“Um cidadão que recorra ao Casa Pronta, paga 300 euros, sem IVA, pelo contrato e registo. Ora a mim, só o registo custa 250 euros – o dobro do preço de há um ano”, exemplifica Carla, acrescentando que desde que o Simplex se iniciou, em 2006, as receitas dos notários caíram 78,3%, (só em 2008 a quebra foi de 41,5%).
“A maneira como o Simplex foi feito está a esganar os notários e a diminuir as receitas do Estado. O Ministério da Justiça vai ter pela primeira vez de ir buscar dinheiro ao Orçamento de Estado, já que as suas receitas directas caíram no último ano 100 milhões de euros, apesar de o número de actos jurídicos ter aumentado”, acusa a bastonária.
“Os portugueses é que vão pagar essas brincadeiras da Casa Pronta e da Empresa na Hora, promovidas por um Governo que só se preocupa com o mediatismo e em fazer demagogia, sem medir as consequências do que faz”, conclui esta mulher envolvida numa guerra sem quartel com Sócrates. Um deles (pelo menos) vai perder nas eleições deste mês.
Jorge Fiel
Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias
Menu
Origami
Alameda dos Oceanos, Ed. Lisboa, Parque das Nações, Lisboa
2 buffet … 29,60 euros
2 copos de cerveja… 3,80
2 cafés .. 2,40
Total … 35,80 euros
Apesar de ter sido bastante acidentado, não tenho razão de queixa do curso de História que fiz na Faculdade de Letras de Universidade do Porto, entre os anos lectivos 75/76 e 79/80.
Foi agitado logo do princípio. As aulas a começarem apenas em Fevereiro de 1975. No primeiro ano, havia uma lista de cem cadeiras, a escolher à vontade do freguês e se podiam ir fazendo ano após ano, mais ou menos arbitrariamente. Podíamos arrancar o curso com a seguinte combinação de cadeiras, tão interessante quanto desirmanada: Cronologia da Idade do Bronze Peninsular, História da I República, Introdução à Sociologia e Movimentos Populares na Idade Média.
Em todos os anos seguintes o plano de curso foi alterado, sendo que a mais profunda das mudanças ocorreu nas férias de Verão, a seguir a eu ter passado para o 5º ano. Estava a banhos no Carvoeiro quando soube que o curso tinha minguado para quatro anos.
Passei as férias na dúvida sobre se já teria ou não acabado o curso quando na rentrée, há precisamente 30 anos, me foi explicado que tinha sido achado uma solução do tipo salomónica.
O curso, que era suposto ser de cinco anos e acabar em Junho de 1980, encolheu para quatro anos e meio e a sua conclusão foi antecipada para Janeiro, para não prejudicar os meus colegas que curso que queriam ir dar aulas e assim não teriam de concorrer ao mesmo tempo que os do ano anterior.
Nos cinco anos, mal medidos, em que andei na faculdade aprendi que mais importante do que estudar (decorando factos inúteis, que a memória cedo enviaria para o arquivo morto) era aprender a estudar.
Em 1980 saí da faculdade equipado com um preciosa ferramenta, que consiste em saber procurar e relacionar os factos, peneirar e calibrar a informação, de modo a poder pô-la em perspectiva e permitir assim que ela nos ajude a perceber o passado, compreender o presente e tentar ver o futuro.
Desde que acabei o curso, o mundo nunca mais tirou o pé do acelerador. Numa semana, o New York Times publica mais informação do que a que Luís de Camões recebeu em toda vida. Calcula-se que em 2009 serão produzidos quatro exabytes de informação, mais do que em todos os cinco mil anos anteriores.
A informação técnica duplica todos os anos, o que quer dizer que, num curso de quatro anos, quando o aluno chega ao 3ª, metade do que aprendeu no 1º já está desactualizado.
Neste mundo o papel da escola é ensinar-nos a estudar, pensar, trabalhar - e a perceber à primeira o que Sun Tzu queria dizer quando há 2 500 anos escreveu: :”Não é preciso ter os olhos abertos para ver o sol, nem é preciso ter os ouvidos afiados para ouvir o trovão. Para se ser vitorioso, é preciso ver o que não está visível”
Jorge Fiel
Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias
Quando era miúda e estava na praia da Luz com os pais, mal dava por turistas italianos, ia logo pôr a toalha ao pé deles, só para os ouvir falar. Este fascínio antigo pelo italiano só pode ter influenciado o entusiasmo que o movimento Slow Cities (ou melhor, CittaSlow) lhe despertou, ao ponto de, em 2003, ter metido os ombros à empresa de o trazer para cá.
“Hoje não se vive – corre-se. Não podemos deixar que a globalização nos uniformize e transforme em autómatos”, declara Ana Albuquerque, uma jurista de 45 anos que trabalha em S. Brás de Alportel, uma das quatro cidades portuguesas, todas algarvias (as outras são Lagos, Tavira e Silves), certificadas pelo movimento.
Preservar e melhorar as cidades onde se pode levar uma vida tranquila é, em síntese, o programa do movimento, nascido em 1999, em Orvieto (Itália), na esteira do imenso sucesso do Slow Food, o seu irmão, dez anos mais velho.
Mais de 70 pequenas cidades (está vedada a entrada a capitais e a cidades com mais de 50 mil habitantes), no seu essencial europeias (mas também as há da Austrália e Coreia do Sul), integram este movimento, após a sua candidatura ter sido passado a pente fino pelos inspectores do Citta Slow, que a analisam à luz de 55 critérios, onde constam hospitalidade, política ambiental, história e a preocupação em não deixar morrer as tradições locais.
Ana não é algarvia. Aliás não é fácil dizer de onde ela, pois nasceu em Coimbra, filha de uma açoriana, mas aos quatro meses mudou-se para Lourenço Marques, onde o pai, professor de Química, foi dar aulas. Aos seis entrou para a primária em Londres, onde o pai fazia o doutoramento. E aos dez, por obra e graça do 25 de Abril, estava de volta a Coimbra, onde se licenciou em Direito e casou com um agente imobiliário que crescera em Angola. Aos 28 anos foram para o Algarve em busca de um clima mais próximo do africano.
Agora, ao fim de 17 anos no Algarve, está a pensar trocar S. Brás de Alportel pelo Porto, por causa da sua filha. Leonor, 11 anos, é futebolista na Sociedade 1º Janeiro, mas deu nas vistas (não só no futebol mas também no atletismo, pois ganhou a Milha do Dragão) no campo de treinos do FC Porto, ao ponto de receber convites para se mudar para o Norte – hipótese que agrada à mãe, uma portista ferrenha, que está a reactivar a Casa do FC Porto do Sotavento e dá os primeiros passos como empresária, lançando colecções de vestuário feminino e puericultura (0-4 anos) licenciadas pelos três grandes.
Escolheu almoçarmos no António, em cima da praia de Porto de Mós (Lagos). Aceitamos a sugestão de ementa do empregado e ela escolheu a bebida. “Da última vez que estiveram cá os italianos, no final de um jantar na Meia Praia regado a sangria de espumante, eu já era fluente em italiano”, gracejou.
Como o Slow Cities usa o caracol como símbolo, não é de espantar que o almoço tenha demorado três horas. A salada de camarão foi servida na sala, mas entretanto vagou uma mesa na esplanada, onde comemos a corvina.
“Ser Slow City ajuda a captar turistas. Mas o objectivo é a qualidade de vida dos residentes – não é uma cidade onde seja óptimo fazer férias e tirar fotografias bonitas, mas péssima para viver”, explica.
O princípio é ser movimento de base, em que as ideias e soluções partam das comunidades. “Temos de acabar com a mentalidade do ‘isso não é connosco, é com o Estado’. O Estado somos nós!”, diz, antes de desfiar um catálogo de coisas estão a ser feitas.
Dá o exemplo da cidade italiana que tornou os horários dos serviços públicos mais amigáveis para os cidadãos que trabalham, abrindo-os aos sábados de manhã. Da que acabou com a poluição visual das antenas de televisão. E da outra que aplica uma taxa aos munícipes que produzam mais lixo que o permitido.
Fala de coisas grandes, como restaurar os centros históricos e vedá-los ao trânsito automóvel, mas também de coisas pequenas, como acabar com a poluição sonora dos sistemas de alarme ruidosos. E conta, com orgulho, que no próximo ano lectivo, as ementas das escolas de S. Brás de Alportel vão incluir, duas vezes por semana, pratos algarvios.
Jorge Fiel
Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias
Menu
O António
Praia de Porto de Mós, Lagos
Salada de camarão … 24,00 euros
0,6 kg corvina … 19,14
Sangria Murganheira 24,50
2 cafés .. 1,90
Total … 69,54 euros
Desatei a ler e reler romances do Maigret. O pretexto foram cinco dias em Paris, onde fiquei no Ibis Bastille, junto ao boulevard Richard Lenoir, onde o comissário habita, nos policiais de Simenon, o belga a quem os biógrafos creditam ter escrito mais de 400 livros e dormido com mais de dez mil mulheres (a primeira estatística é bem mais verificável que a segunda).
Fascina-me a maneira como o comissário resolve os mistérios usando o instinto e o conhecimento psicológico das pessoas envolvidas na intriga, e das relações entre elas - ao contrário dos seus sucessores que apanham o culpado porque o laboratório identificou o ADN de um pêlo inadvertidamente deixado no local do crime.
No mundo de Simenon, que era a cores mas nós imaginamos sempre a preto e branco, toda a gente usa chapéu, Maigret bebe vários copos de branco antes do meio dia, abusa do Calvados e fuma cachimbo no autocarro, e nem toda a gente se pode dar ao luxo de ter em casa um telefone que está agarrado à parede por um fio. O emprego e o casamento eram ambos para vida, neste mundo a que sou transportado todos os dias por um livro da colecção Vampiro.
A invenção da pílula, os fabulosos Anos 60, o Maio francês, a Internet e os telemóveis sepultaram este mundo de Simenon num lugar tão distante, em anos e valores, como a Idade Média, o que é enganador porque eu ainda me lembro de dar corda ao relógio, de haver escarradores nos cafés e barbeiros – e da festa que foi lá em casa quando o meu pai comprou pela primeira vez um televisor para vermos os jogos do Mundial de 66.
O mundo está a mudar a uma tal velocidade, que o US Labor Department calcula que os estudantes actuais vão ter entre dez a 14 empregos diferentes antes de fazerem 38 anos.
Foi neste mundo em desvairada mudança, em que 15% das pessoas que casaram o ano passado nos EUA se conheceram na Net, que Cavaco vetou a lei das Uniões de Facto, por considerar “inoportuno” fazer alterações de fundo no final da legislatura.
JP Morgan, o fundador do banco homónimo, dizia que um homem tem sempre dois motivos para fazer o que faz – um bom motivo e o verdadeiro motivo.
Dar uma ajuda à sua amiga Manuela, ao acentuar a guerrilha com o Governo, é o bom motivo do veto. Mas o verdadeiro motivo é que Cavaco ultrapassou o prazo de validade, o que até se compreende, pois quando ele deixou de ser primeiro ministro ainda íamos a um dicionário ou à enciclopédia esclarecer as 31 biliões de dúvidas mensais que hoje são resolvidas pelo Google.
Cavaco não é do tempo das SMS e iPods, mas sim um bocado do mundo de Simenon que sobreviveu até à era do Facebook. Por isso, não estranho que agora, quando olho para ele, o vejo a preto e branco.
Jorge Fiel
Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias
Foto António Pedro Valente
A lenda de Endovélico e o santuário com a pedra onde se faziam os sacrifícios a este deus pagão, representado com cara de javali, são uma das contribuições de Terena para o programa da semana de visita a três aldeias das Terras do Grande Lago, um dos produtos que estão a ser desenhados pela Rede de Turismo de Aldeia do Alentejo, presidida e inventada por Apolónia Rodrigues.
Durante essa semana no Alqueva (o maior lago artificial da Europa, com uma linha de margem equivalente à costa portuguesa), o turista vagabundeará entre as aldeias de Terena, Juromenha e Telheiro, dormindo em casas de turismo rural e alimentando barriga e espírito com gastronomia e tradições locais. Poderá, ainda, andar a cavalo, frequentar work-shops de ervas aromáticas, iniciar-se nos mistérios dos monumentos megalíticos, ouvir os pássaros, ver as estrelas e dar passeios de barco ao luar.
“Não estamos a fazer mais do mesmo, mas a criar elementos diferenciadores. A nossa oferta está nos antípodas do sol/praia/discotecas e dirige-se aos culture criatives, gente com 35 a 45 anos e grande poder de compra, que procura a Natureza e quer uma oferta de serviços de alta qualidade em destinos não poluídos”, explica Apolónia, 36 anos. licenciada em Gestão e Planeamento de Turismo pela Universidade de Aveiro.
As palavras parece que têm pressa em sair da boca desta nortenha, que há onze anos se mudou para o Alentejo (mora em Borba e trabalha em Évora) e de cuja cabeça saiu este projecto coqueluche – ganhou o Prémio Ulisses, da Organização Mundial de Turismo, e é case study para a OCDE, como exemplo de turismo cultural, e para o Ministério da Agricultura, como exemplo de turismo rural - e lhe valeu a eleição para a Comissão Executiva da rede do programa Eureka Tourism.
O prolongamento inesperado da sua estadia na Palestina, onde esteve a convite da Autoridade Palestiniana, interessada em importar o conceito de turismo de aldeia e sustentabilidade que ela criou, levou ao adiamento do nosso almoço por uma semana.
Apolónia escolheu o Dom Joaquim, restaurante que não podia estar mais na moda, pois a nossa conversa está foi sobressaltada pelo bruá da chegada de Sócrates e comitiva, que na 3ª feira desceram ao Alentejo no âmbito do programa de requalificação dos edifícios escolares.
Preferiu água (“hoje à tarde vou ter de guiar”, disse) para acompanhar o bacalhau à lagareiro, mas disponibilizou-se para escolher a marca do copo de vinho tinto que bebi. À sobremesa, hesitou antes de encomendar o doce de abóbora - temia que ele estivesse muito doce, mas o receio acabou por revelar-se infundado. Não bebeu café, o que se compreende, pois é daquelas pessoas que parecem possuídas por bichinhos carpinteiros.
Aproveitar o turismo para evitar a morte das aldeias e desenvolvê-las é a base deste projecto, que reúne 15 aldeias alentejanas e foi a barriga da gestação da rede europeia com o mesmo espírito (de que ela é também é fundadora e presidente, que agrupa 50 aldeias romenas, italianas, polacas e finlandeses, sob a marca Genuineland - a que acabam de aderir a Toscânia, Piemonte, um região grega e outra eslovena.
“Nós temos o know how e dominamos o conceito. Cada aldeia é um mini-destino a desenvolver. O essencial é a sustentabilidade – cultural, social, ambiental e económica. Não se pode cometer o erro de arranjar as pedras e esquecer as pessoas”, afirma Apolónia.
Logo que manifesta interesse em aderir à rede, a aldeia é submetida a uma espécie de TAC, que permite fazer o diagnóstico, identificando lacunas e pontos a valorizar (tradições, espiritualidade, paisagem, história, edificado, etc). Se não há restaurante ou alojamento, a rede encarrega-se de arranjar investidores..
“O turista é cada vez mais exigente. O território e a paisagem que vendemos têm de estar preservados, não podem ter lixo e devem estar habitados por comunidades felizes e com qualidade de vida”, remata Apolónia, que tanto se preocupa com as férias dos outros que acaba por não ter tempo para ela própria ir de férias.
Jorge Fiel
Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias
Menu
Dom Joaquim
Rua dos Penedos 6, Évora
Cesto de pão … 1,60 euros
Torresmos rissol … 3,20
Azeitonas … 1,00
Bacalhau à lagareiro …12,50
Polvo assado … 12,50
2 águas 0,75l … 3,00
1 copo tinto Herdade Sobreira … 4,50
1 doce de abóbora … 3,20
1 café 0,90
Total … 44,40 euros