Domingo, 27 de Janeiro de 2013

Pássaro, lombrigas e rinoceronte

Paquidérmico e grotesco, o rinoceronte é também neurótico e pouco sociável. O seu temperamento irascível é famoso entre a bicharada. Duro de ouvido e quase cego, deve parte de leão da sua qualidade e tempo de vida ao tchiluanda, um pequeno e improvável amigo.

O tchiluanda é um pássaro africano que vive à custa do rinoceronte. Cata as carraças que se alojam nas suas orelhas ou pele grossa. E usa o bico pequeno e afiado para retirar os restos de comida que se alojam nos dentes. Ou seja, ao mesmo tempo que se alimenta, alivia o rinoceronte do vampirismo da carraça e impede que os seus dentes apodreçam e ele acabe por morrer à fome.

Este pequeno pássaro faz ainda de sentinela, avisando o rinoceronte da presença de inimigos através de um grasnado agudo.

O Estado português é como o rinoceronte - paquidérmico, grotesco, duro de ouvido e quase cego - graças à incompetência e ausência de sentido de Estado de políticos que se entretiveram a comprar retumbantes vitórias eleitorais à custa do dinheiro dos nossos impostos.

Quando chegou ao poder, em 1985, prometendo menos e melhor Estado, Cavaco encontrou 464 mil funcionários públicos. Quando saiu, dez anos depois, deixou-nos 639 mil, mais bem pagos e com mais regalias.

A reforma do sistema remuneratório da Função Pública, promovida por Cavaco, foi a mãe do monstro despesista que nos asfixia e quase atirou para a falência. O diagnóstico é do insuspeito Miguel Cadilhe.

1991 é o ano da segunda maioria absoluta de Cavaco e também o ano recorde do crescimento da despesa com a Função Pública: subiu 15,2%.

Ao contratar 87 mil novos funcionários públicos por legislatura, Cavaco estabeleceu um recorde de que nem Guterres (75 mil por legislatura) se conseguiu aproximar.

Nos últimos dois anos, os cortes na despesa do Estado foram horizontais, atingindo por igual todos os funcionários que vivem à sua custa, quer os que lhe são úteis e até indispensáveis (como é o caso do tchiluanda), quer os parasitas inutéis e absolutamente dispensáveis , como os montes de lombrigas que pululam nas bostas de rinoceronte.

Mais mil para trás ou para a frente, parece pacífico que o ajustamento do Estado obriga à exclusão de 70 mil funcionários (ou seja 10% do efetivo) da sua folha de salários.

Esta tarefa é bem mais fácil do que pode parecer, pois há 65 mil funcionários públicos (dos quais 40% na Defesa e 15% na Educação) contratados a prazo, 34 mil pediram a reforma (antecipada, no caso de 25 mil) e ainda há que contabilizar rescisões por mútuo acordo e o recurso à megabolsa de excedentários.

A arte do Governo não está em livrar-se de 70 mil funcionários, mas sim em cortar apenas na gordura, não atingindo nervos e veias. Ou seja, livrar-se das lombrigas mas preservar os tchiluandas.

Jorge Fiel

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Quinta-feira, 24 de Janeiro de 2013

Trabalho sexual é trabalho!

Ann, uma rapariga de Southampton que conheci (em todas as aceções do verbo, incluindo a bíblica) na apanha do morango, em Inglaterra, proporcionou-me uma iniciação sexual bastante completa. Naquele verão de 1972, em que viajei pela Europa de InterRail, eu tinha 16 anos, acabados de fazer. Sei que muito provavelmente devo à Ann o facto de, até agora, nunca ter sentido necessidade de usar os serviços de profissionais para ter uma vida sexual regular e satisfatória.

Esta declaração de nunca ter ido às putas pode encerrar algum orgulho mal disfarçado, mas acreditem que não contém uma gota sequer de crítica velada às trabalhadoras do sexo e seus clientes. Também nunca comi lampreia, fui à neve ou joguei golfe, e isso não quer dizer que menospreze ou critique quem se entretém a fazer grandes caminhadas animado pelo objetivo de enfiar uma pequena bola num buraco, ou os fanáticos pela lampreia e o esqui.

E se escrevi um prudente até agora na última frase do primeiro (e longo) parágrafo isso deve-se apenas a uma cautela derivada da leitura de um caso curioso ocorrido na Dinamarca, onde o diretor de um lar de terceira idade provocou uma enorme polémica ao incluir uma prostituta nos serviços de conforto - barbeiro, manicura e pedicura, enfermeiro, médica, etc. - providenciados aos idosos residentes.

"Registamos melhorias significativas na disposição e saúde dos idosos após a visita da acompanhante", contou o diretor do lar dinamarquês, que enfrentou o usual coro de críticas de hipócritas e falsos moralistas, mas contou com o apoio do ministro da Saúde dinamarquês.

Há no nosso país uma indústria do sexo, que envolve cerca de 60 mil pessoas (mais ou menos tantos quantos os profissionais de saúde), cujos diferentes setores - que vão desde a prostituição até à rede de 150 sex shops, passando pelos/as strippers, atores e atrizes de filmes porno, trabalhadores de linhas eróticas, etc. - vivem na penumbra, entre uma legalidade disfarçada e uma clandestinidade consentida.

Que atire a primeira pedra quem nunca usufruiu de um produto desta indústria. E, por favor, na hora de meterem a mão na consciência, não esqueçam as loucas festas de despedida de solteiro, que nunca um livro vendeu tanto em tão pouco tempo como "As 50 sombras de Grey" (rotulado de porno para mamãs) e que as estatísticas juram que um em cada dois homens e uma em cada cinco mulheres veem regularmente pornografia.

Numa altura em que quase toda a gente espreita uma oportunidade para fugir aos impostos e condena o crescimento da economia paralela, convinha deixarmos de ser hipócritas e aplaudir a luta dos/as prestadores de serviços sexuais que reivindicam a legalização da sua atividade e querem ser reconhecidos como trabalhadores como outros quaisquer, que pagam IRS e descontam para a Segurança Social, para em contrapartida terem direito a férias, subsídio de desemprego e reforma. Trabalho sexual é trabalho!

Jorge Fiel

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Terça-feira, 22 de Janeiro de 2013

22 maquinistas da CP no Dragão?

No dia em que encherem o Estádio das Antas com gente a pagar bilhete para ver 22 escriturários a escreverem à máquina, estarei de acordo com os que criticam o dinheiro que os jogadores de futebol ganham. Este argumento, do saudoso José Maria Pedroto, foi o melhor que ouvi em defesa dos elevados salários dos futebolistas, que à época eram muito menos pornográficos e estratosféricos do que agora.

 

No início dos anos 80, o jogador mais bem pago do Porto ganhava o equivalente a 30 salários mínimos. Agora leva para casa cerca de 300 salários mínimos. Em 30 anos, ao nível do topo, a inflação no futebol português andou dez vezes mais rápida do que no resto da sociedade.

 

O argumento de Pedroto é bom e racional. Mas apesar de saber que as exibições e golos do Cristiano Ronaldo ajudam a encher o Santiago Bernabéu (e o Real Madrid a cobrar um balúrdio pelas transmissões televisivas dos seus jogos), confesso que a minha consciência judaico-cristã fica bastante incomodada por saber que um português com o salário mínimo precisaria de trabalhar 300 anos (até ao século XXV, portanto) para receber o que o CR7 ganha num mês.

 

O argumento de Pedroto é bom e racional. No entanto nunca consegui digerir muito bem o hábito de pagarem aos futebolistas prémios de vitória ou até de empate. Compreendo o mecanismo de estimular um trabalhador através da instituição de um sistema de prémios por objetivos, mas no caso dos futebolistas até parece que o que lhe pagam ao fim do mês (e não é assim tão pouco) é para perderem os jogos.

 

Também não consigo entender algumas peculiaridades do regime de trabalho dos 1200 maquinistas da CP, que beneficiam de 18 subsídios (oito fixos e dez variáveis), apesar das constantes transfusões de dinheiro dos contribuintes serem a única coisa que impede a morte de uma empresa com um passivo XXL de 3,3 mil milhões de euros.

 

Sempre que termina um período de trabalho completo, o maquinista da CP recebe um prémio. Cada vez que conduz, manobra ou faz o acompanhamento de um comboio, ganha um abono. E se o seu trabalho estiver organizado por turnos ou escalas, tem direito a um subsídio. E por aí adiante. Ao ler a lista arrependi-me de não ter ido para maquinista da CP.

 

Percebo que os maquinistas queiram defender o belíssimo pacote de regalias (algumas próprias de futebolistas, como a de receberem um prémio por terem cumprido o seu horário de trabalho...) mas não me parece justo que os clientes da empresa (os passageiros) sejam os únicos prejudicados pelas greves que fazem.

 

Até porque, e usando a imagem de Pedroto, acho muito duvidoso que alguém pague um bilhete para ver 22 maquinistas da CP a brincar aos comboios - pouca-terra, pouca-terra - no meio do relvado do Dragão.

 

Jorge Fiel

 

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Segunda-feira, 14 de Janeiro de 2013

O parasita defende o seu bife

As famílias portuguesas habituaram-se rapidamente à ideia de que não podiam continuar a gastar mais do que ganhavam. Confrontadas com o desemprego, aumento dos impostos e do custo dos serviços (transportes, água, luz, saúde...), e a diminuição do poder de compra e apoios sociais, ajustaram-se, mudando o seu perfil do consumo.

 

Começaram por transferir o consumo para dentro de casa, para mal dos restaurantes e bem dos super e hipermercados, que viram as vendas de congelados crescer em flecha. Depois, em 2012, repararam que cozinhar em casa ficava mais barato do que meter uma lasanha no micro-ondas.

 

As empresas portuguesas habituaram-se rapidamente à ideia de que não podiam continuar a suportar custos superiores às receitas. Acabado de vez o tempo do crédito fácil e barato, com o consumo interno em queda livre, viraram-se para a exportação e, para evitarem o abismo da falência, ajustaram-se aumentando a produtividade, à custa da diminuição do poder de compra dos trabalhadores (chamados a produzir mais em troca de menos dinheiro) e de despedimentos.

 

O Estado é o único setor da sociedade portuguesa que continua a viver como dantes e a prova dos nove deste autismo criminoso é a cândida resposta dada pelo gabinete do secretário de Estado da Cultura (o sem vergonha Barreto Xavier) quando questionado sobre a nomeação de 27 funcionários publicada - só nove são novos, disseram.

 

O Estado português é o único setor da economia que quando está em dificuldades (a dívida pública é de 200 mil milhões de euros, 120% do PIB, o dobro do valor máximo a que nos com prometemos) continua a contratar, em vez de despedir.

 

É preciso ser muito idiota para acreditar que tudo pode continuar na mesma, que o Estado e os seus funcionários podem passar incólumes e a assobiar para o lado à custa do sangue dos impostos e sacrifícios das famílias e das empresas privadas. O nosso drama é quem não consegue sequer identificar o problema é absolutamente incapaz de arranjar"uma solução.

 

As contas estão feitas. O número mágico é quatro. Quatro como os evangelhos canónicos, os pontos cardeais, os ventos e as bestas do Apocalipse. Quatro mil milhões de euros é quanto o Estado tem de passar a gastar menos todos os anos.

 

Parece difícil mas não é. Quatro mil milhões são 5% do Orçamento do Estado. Centenas de milhares de famílias e empresas já fizeram ajustamentos bem superiores a 5% dos seus orçamentos e sobreviveram.

 

E, por favor, não tentem atirar--nos areia para os olhos. Poupem--nos à histeria mentirosa de que cortar 5% ao Orçamento implica desmantelar o Estado social. Isso é o paleio de parasitas e ladrões de impostos que prosperam com a mão metida nos nossos bolsos. Quando o parasitado (o Estado obeso) está em perigo, o parasita defende-o. Defende o seu bife.

 

O nosso drama é que a vocação de um político de carreira é fazer de cada solução um problema.

 

Jorge Fiel

 

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Terça-feira, 8 de Janeiro de 2013

Cavaco fez-se ao penalti

 

Tenho para mim que, no futebol, num lance de penálti, a única verdade objetiva e incontestável é a paixão subjetiva de quem emite um juízo. Tal como o reformado algarvio que preside à nossa nação, nestes casos eu raramente me engano e nunca tenho dúvidas. Sempre que o árbitro assinala um penálti a favor do Porto está carregadinho de razão.

E todos os penáltis marcados a favor do Benfica são, no mínimo, duvidosos, para não dizer escandalosos ou até verdadeiros "roubos de igreja", como diria o saudoso Pedroto, opinião que creio ser partilhada pela reformada transmontana que é a segunda figura do Estado e portista encartada.

Tenho uma enorme admiração e algum respeito pelos árbitros. Entre tangíveis (dinheiro) e intangíveis (fama) ganham uma ínfima parte do que é pago aos futebolistas. Sabem que a sua honestidade, bem como a honorabilidade das suas mães, será questionada. E, como agravante, ainda são obrigados a ajuizar logo, no momento, se num determinado lance há ou não lugar à marcação de grande penalidade.

Mesmo depois das imagens terem sido revistas vezes sem conta, em câmara lenta e a partir de diferentes ângulos, é raro gerar-se o consenso entre os peritos na matéria. Deu primeiro na bola ou nas pernas? Tinha intenção de fazer falta? Foi dentro ou fora da grande área? Qual a intensidade do encosto? Bola no braço ou braço na bola? O árbitro estava bem posicionado?

As dúvidas, atenuantes e perguntas sem resposta que a tecnologia potencia são tantas que um penálti deixou de ser o castigo máximo assinalado de acordo com as regras do jogo para se tornar num estado de espírito do árbitro, que tem de ajuizar na hora e incorpora na decisão não só a sua visão do lance mas também o resultado, o peso relativo das duas equipas, e mais uma data de coisas, entre as quais o cadastro do jogador que pede a falta, pois todos sabemos que o que mais abunda são avançados especialistas em simular grandes penalidades.

No caso do pedido ao Tribunal Constitucional para que verifique se três artigos do OE 13 violam a Constituição, parece-me nítido que o reformado Cavaco se está a fazer ao penálti. Trata-se de matéria que o afeta pessoalmente (optou por receber as reformas da Caixa Geral de Aposentações e do Banco de Portugal, por a soma ser muito superior ao salário de 6523 euros que compete ao PR) e de que há um ano se queixou, quando disse temer que o dinheiro não lhe chegasse para as despesas.

Como se isso não bastasse, os juízes do Constitucional vão decidir numa matéria que também lhes interessa pessoalmente. Assunção Esteves reformou-se aos 42 anos, com uma pensão de 7255 euros (por que optou por ser superior ao salário de 5219 euros que compete ao presidente da AR) após dez anos de extenuante trabalho no Tribunal Constitucional. Atendendo a estes óbvios conflitos de interesse, estou curioso de saber a decisão. Será marcado penálti contra Passos?

Jorge Fiel

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Quinta-feira, 3 de Janeiro de 2013

É preciso mudar de medicação

Tenho um método simples e infalível para não me desiludir, que consiste em nunca me iludir. Só se desilude quem previamente se iludiu. Ao recusar a ilusão adquiri um seguro imbatível que me protege do terrível sofrimento da desilusão.

Inicio a minha mensagem de Ano Novo aos leitores do JN, que tão generosamente me beneficiam com a sua atenção, partilhando este truque, válido para todas as esferas da nossa vida, mas inútil relativamente ao ano que está a dar os primeiros passos.

OCDE, Governo, Banco de Portugal, Comissão Europeia e todos os outros organismos que ousam insultar o futuro tentando prevê-lo foram unânimes no alerta. Os tempos que se avizinham são péssimos. 2013 vai ser pior que 2012 . Mais desemprego e menos apoios sociais. Menos salário e mais impostos.

O céu vai estar carregado de nuvens negras, de acordo com todos os boletins meteorológicos dos economistas.

Em face de tantos e tão credenciados avisos, não há lugar a ilusões e só por hábito e cortesia é que desejamos Bom Ano a amigos e conhecidos. Sabemos que o mais certo é que 2013 seja um ano mau.

Apesar de, por princípio, ser avesso a ilusões, também não sou daquelas pessoas que olham para os dois lados antes de atravessar uma rua de sentido único.

Não tenho com a vida mal-entendidos que me levem a ser pessimista. Sei que a unanimidade nem sempre é consensual. E já aprendi que prever o futuro olhando para o passado é partir do princípio que as condições vão permanecer constantes - ou seja, é exatamente a mesma coisa que guiar um carro a olhar apenas para o retrovisor.

Por isso, recomendo que olhemos para a estrada à nossa frente, não deixando que a árvore das caneladas entre S. Bento e Belém, que vão ter de ser dirimidas pelo Tribunal Constitucional, nos distraiam e toldem a visão da floresta.

E olhando para a frente com olhos de ver, quer-me parecer que mais lá para o fim deste ano, talvez após as eleições alemãs, o médico vai convencer-se que o doente até está a portar-se mais ou menos bem (tem feito dieta, toma os remédios e esforça-se por adotar um estilo de vida mais saudável), mas o tratamento não está a dar os resultados esperados, pelo que talvez seja melhor mudar a medicação.

Até porque, como nos ensinou George Bernard Shaw, o progresso é impossível sem mudança e aqueles que não conseguem nunca mudar de ideias não podem mudar nada.

E se algures entre a 7.ª e a 8.ª avaliações da troika, o médico alemão se convencer de que é melhor prescrever um tratamento diferente ao paciente português, apesar de eu não ser dado a ilusões, acredito que este 2013, que começou como o ano das Tormentas, acabe por se transformar no ano da Boa Esperança.

Jorge Fiel

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Domingo, 30 de Dezembro de 2012

É preciso ter boca boca

 

Aproveitei as folgas de 5.ª e 6.ª para uma escapada a Santiago de Compostela, que correu muito bem, pois no segundo dia não choveu e, ainda por cima, vi o futuro - bênçãos que só podem resultar da bondade do apóstolo, talvez uma maneira dele me retribuir a visita ao seu túmulo, na cripta da catedral, e o abraço que dei à sua figura, que domina o altar-mor.

Comecei a ver o futuro logo na 5.ª, não nas folhas de chá, nem na bola de cristal, mas numa gasolineira da Repsol, na pessoa da trintona com rabo de cavalo que sozinha assegurava todo o expediente - atestava o depósito, depois ia até ao interior do posto receber o pagamento, antes de voltar à bomba para atender o cliente seguinte - , sempre com um sorriso nos lábios.

Engracei logo com a Susana, a rapariga da receção do hotel Altair, pelo despacho com que solucionou as minhas duas preocupações do momento. Assinalou no mapa o local onde estávamos e riscou com esferográfica o trajeto mais curto até ao parque de estacionamento La Salle (vizinho do Centro Galego de Arte Contemporânea, projetado por Siza), onde - acrescentou -, com o carimbo do hotel no bilhete do parque, eu beneficiaria de um desconto de três euros (de 12 para nove euros) na tarifa diária, se pagasse ao guarda e não na máquina. E não hesitou um segundo quando lhe perguntei pela melhor livraria de Santiago. Pegou no mapa, fez uma cruz e escreveu Follas Novas, onde comprei um guia de Santiago, uma História de Espanha e três livros de Vasquez Montalban, a biografia da Pasionaria e duas aventuras do Pepe Carvalho.

Na manhã seguinte, lá estava a Susana de volta, com ar divertido, a dar-nos à escolha café, chocolate ou chá, bem como croissants ou "tostadas", e a trazer o sumo de laranja e o resto dos pedidos, depois de os ter confecionado à nossa vista, na cozinha ao fundo da sala do pequeno-almoço.

Na hora do regresso, o gabinete do guarda do parque de estacionamento estava deserto, apesar da janela aberta, indiciava a primeira mancha na eficiência galega.

Começava a desesperar quando reparei num papel colado no vidro onde estava escrito "timbre" e apontava para a campainha. Toquei e o guarda apareceu logo, de vassoura e apanhador, muito simpático, a pedir desculpa, "andava nas limpezas".

A escapada a Santiago correu bem. Os mexilhões ao vapor do Gato Negro e o pulpo à feira da Maria Castaña estavam divinos. E que bem que sabe descansar das voltas pelo Casco Velho nos sofás do Café Casino, na rua do Vilar.

Mas acima de tudo foi muito bom ter visto o futuro e confirmado que os maquinistas da CP e os trabalhadores do Metro de Lisboa (só para citar dois exemplos) são uma espécie de amish, parados no tempo e prisioneiros do passado.

A trintona da Repsol, a Susana e o guarda do parking La Salle ensinam-nos que neste século XXI é imprescindível ter boa boca.

Jorge Fiel

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Terça-feira, 25 de Dezembro de 2012

A moral do bacalhau cozido

Parece que não, mas se espremermos as meninges, até do bacalhau cozido com batatas, couves, ovo, cebola, etc. (a cenoura e o nabo, que eu, por norma, dispenso, estão compreendidos no perímetro deste etc.), podemos aprender e tirar lições para a vida.

Das 1001 receitas para confecionar pratos de bacalhau, o cozido é provavelmente a que exige mais do peixe e menos do(a) cozinheiro(a). Cozer não requer grande arte, mas antes belas postas do lombo, de preferência altas, com um estágio mínimo de cinco meses no sal e demolhadas a preceito.

A tarefa do cozinheiro fica muito facilitada quando trabalha com matéria-prima de boa qualidade. E não me refiro apenas ao bacalhau. Se tenho nas mãos uma magnífica peça de carne, o meu papel é não a estragar. Basta temperá-la com sal, passá-la um bocado de um lado, virá-la e já está.

A criatividade do chef só é convocada quando a matéria-prima é de deficiente qualidade, o que obriga a puxar pela imaginação para apresentar um prato decente e atraente. Os franceses inventaram as natas para disfarçar o drama de uma peça de carne pouco saborosa e tão dura como a sola de um sapato. Os espanhóis abusam da cebola, tomate e alho para camuflar as misérias de um bacalhau anémico.

Nós, portugueses, para resolvermos uma refeição a partir de uma daquelas embalagens de bocados de bacalhau que estão à venda, a preços módicos, nos híper e supermercados, temos à mão uma série de recursos, como as pataniscas, os bolinhos, bacalhau à Braz, à Gomes de Sá, arroz de bacalhau, e por aí adiante - as punhetas, essa espécie de sushi à portuguesa, estão integradas no âmbito deste por aí adiante, apesar de carecerem de uma matéria-prima de qualidade irrepreensível para atingir o patamar da excelência.

O grande problema, neste plano inclinado em que vivemos, é que a uma matéria de qualidade mais do que deficiente se junta um cozinheiro pouco imaginativo que teima em tentar aplicar uma receita que não agrada a ninguém.

Tudo tem uma moral. É só preciso encontrá-la. Em abril de 1985, a Coca Cola surpreendeu o Mundo ao anunciar uma nova receita para o refrigerante mais vendido em todo o Mundo. O problema foi que o sabor mais doce que os consumidores tinham adorado nos testes acabou por ser liminarmente rejeitado no mundo real. Ao fim de três meses, a Administração da multinacional teve a inteligência e flexibilidade para reintroduzir no mercado a Coca Cola clássica. E só precisou de mais alguns meses para deixar de produzir a New Coke.

Espero que o chef Passos Coelho tenha a inteligência, flexibilidade e sabedoria necessárias - que já nos deu a ideia de ter ao recuar no dossiê TSU - para mudar rapidamente de receita. A matéria-prima é fraca, pelo que o sucesso do prato depende muito da sua capacidade e audácia.

A ver se daqui a um ano já não vivemos com esta sensação de vazio em tudo igual à que eu sentia no final do Natal quando era miúdo e ajudava a minha mãe a apanhar o papel dos presentes abandonado e espalhado debaixo da árvore.

Jorge Fiel

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Sexta-feira, 21 de Dezembro de 2012

Desliguem a televisão

O Alberto da Ponte é um tipo muito divertido, um pândego com um sentido muito apurado do espetáculo, o que só pode ajudar quando se é presidente da RTP. Algures nos anos 80, quando era uma estrela ascendente da Unilever - onde teve a seu cargo campeões de vendas como o Vim, Pepsodente e Rexina -, convocou a sua equipa para uma reunião de emergência em que confessou, com semblante carregado, que cometera um ato infeliz, de graves consequências para a vida e carreira de todos eles.

Dito isto, pediu desculpa, sacou de uma pistola, deu um tiro na cabeça e caiu inanimado no chão, perante o desespero dos colegas, que demoraram longos segundos até se aperceberam que tinham acabado de presenciar a partida de Carnaval do Alberto da Ponte.

Apesar de ter mais vidas do que um gato, a RTP atravessa um dos momentos mais difíceis dos seus 55 anos de vida. Para começar, ninguém compreende porque é que um país que corta nas pensões dos reformados teima em manter uma televisão com uma programação idêntica à dos canais privados - e que este ano nos custou 508 milhões de euros (Relvas dixit). Para terem um ideia, o Hospital de S. João custa 289 milhões/ano e na Casa da Música, para poupar um milhão, o Governo não respeitou a palavra dada.

Com as audiências em queda livre e incapaz de concorrer no prime time com o forte pacote de novelas da SIC (Dancin' Days, Gabriela e Avenida Brasil) e o misto da TVI, que serve a Casa dos Segredos como sobremesa a duas telenovelas (Louco Amor e Doce Tentação), a RTP resolveu transformar-se num reality show - o Brutosgate - com um elenco de gente conhecida (apesar de deficitário na componente feminina) e os ingredientes certos: traição e perseguições, polícia e política.

Danado para a brincadeira, Alberto da Ponte é coprodutor deste reality show mas desempenha um papel secundário na telenovela da privatização da RTP, realizada por Miguel Relvas, que se está a revelar um thriller, cheio de reviravoltas inesperadas, onde o papel do principal protagonista (António Borges) se tem vindo a apagar e ainda ninguém conseguiu perceber a importância que os novos atores (os angolanos da Newshold), recém-chegados ao elenco, vão ter nas cenas dos próximos capítulos.

O enredo é apaixonante e eu até era capaz de me estar a divertir com o assunto, se tudo isto não passasse de uma brincadeira, de uma partida de Carnaval. O problema é sermos nós, contribuintes, que estamos a pagar (e caro) esta tragicomédia. Por isso, não nos resta senão rezar para que esta novela esteja em últimas exibições e que a RTP seja despachada o mais depressa possível.

E já agora, se querem um bom conselho, para preservar a nossa sanidade mental o melhor que temos a fazer é desligar a televisão e ir para o café conversar.

Jorge Fiel

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Quinta-feira, 20 de Dezembro de 2012

Desgovernados por intrujões

Não sei se conhecem o Som da Rua, mas aviso já que pode ser enternecedor ouvir este coro, constituído por 40 sem- abrigo do Porto, que arrancou fartos aplausos quando atuou na Gulbenkian. Apesar de ser duro de ouvido e desafinado, ouço música quando leio, escrevo, conduzo, acordo e adormeço. Nietzsche tinha razão quando escreveu que sem música a vida seria um erro.

Além de entretenimento e diversão, a música é também uma ferramenta preciosa na reabilitação, terapia e formação. Impressionou-me saber que ter aprendido a tocar um instrumento era o maior denominador comum a todos os estudantes com média para entrarem em Medicina.

O coro HML - onde se reúnem médicos, enfermeiros e doentes do Magalhães Lemos e que tem um repertório onde avultam canções da autoria dos utentes do hospital - demonstra a importância da magia da música em complicados processos terapêuticos.

E quem viu o espetáculo "Bebé babá", produzido e levado à cena pelas mães e bebés da prisão feminina de Santa Cruz do Bispo, garante que ele é a prova provada do papel da música na reabilitação.

O que há em comum entre o Som da Rua, o coro HML e o espetáculo das mães e bebés presas é o Serviço Educativo da Casa da Música, que ajudou a nascer estes e muitos outros projetos luminosos, como o das 14 freiras franciscanas de Gondomar que não se queriam despedir da vida (têm todas mais de 80 anos) antes de gravarem as canções da sua meninice.

A Casa da Música não é só aquele edifício estranho, tipo nave de extraterrestres, considerado, a par do auditório Walt Disney de Los Angeles e a sede da Filarmónica de Berlim, umas das três mais belas salas de espetáculos construídas nos últimos cem anos.

A Casa da Música é a Sinfónica do Porto, a Orquestra Barroca, o Remix Ensemble e o Coro (as quatro formações residentes), e os 527 mil visitantes e 318 espetáculos que recebe anualmente.

A Casa da Música é também o Serviço Educativo, que envolve 50 mil pessoas, prováveis (estudantes) e improváveis (cegos, presos, sem- abrigo) nos 120 eventos que promove todos os anos.

Não podemos aceitar que este trabalho notável seja posto em causa por um Governo de intrujões, que manda um secretário de Estado sobresselente dizer aos fundadores da Casa da Música que o corte ao financiamento público vai ser de 30%, e com efeitos retroativos, não honrando por isso a palavra dada por Francisco José Viegas de que seria de 20% (igual ao do CCB).

Não podemos aceitar que uma Casa da Música bem gerida - é quem mais apoio de mecenas recolhe (três milhões/ano) -, que recebe 267 mil espectadores/ano nas suas atividades, seja tratada de forma diferente que um CCB que tem apenas 125 mil pessoas/ano a frequentar os eventos que organiza.

Soubemos resgatar o Coliseu à IURD. Agora temos de impedir que um Governo de trampolineiros estrangule a Casa da Música.

Jorge Fiel

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Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2012

O de cima diz bem do de baixo

Ao ver que não o ia conseguir domesticar, Lisboa recebeu-o com pedras. A campanha suja contra o bastonário eleito pelos advogados da província decorreu com o profissionalismo que Fernando Gomes testemunhou quando teve a fraqueza de trocar o lugar de melhor presidente da Câmara que o Porto teve por um gabinete subalterno na esquina do Terreiro do Paço, onde Manuel Buíça feriu de morte a Monarquia.

A campanha falhou no que estava programado ser o ato final da lapidação, o tribunal da TVI onde a tonta Moura Guedes teve a imprudência de chamar bufo a um homem que após ter sido preso pela Pide, em Coimbra, aguentou como um herói as humilhações, os três dias e três noites de interrogatórios e os 34 dias no isolamento, em Caxias.

O arraso que o bastonário deu à apresentadora televisiva, que por ter a boca maior que o cérebro está sempre a tentar dar passadas maiores que a perna, é um dos meus vídeos favoritos (a par do dos golos do 5-0 que o meu Porto deu ao Benfica do Marinho), que de vez em quando revisito no YouTube. É um espetáculo de cidadania.

Tenho muito orgulho em ser amigo do Marinho, de quem fui colega durante quase 20 anos, na Redação do "Expresso", quando ele usava o nome António Marinho.

Um das coisas que mais admiro nele é que ao longo das suas sucessivas reencarnações - universitário revoltado com a ditadura, professor, advogado, jornalista e bastonário - nunca teve medo de dizer o que pensa em voz alta e de pertencer aquele raro grupo de pessoas que quando lhe fazem uma pergunta a sua resposta não tem por objetivo agradar a quem a fez.

Com o Marinho e Pinto, bastonário reeleito por maioria absoluta e com a maior votação de sempre, estive apenas umas duas ou três vezes, a última das quais, há quase dois anos, terminou à mesa, à volta de um leitão, no Albatroz.

Mas, para além de coabitarmos um vez por mês esta página do nosso JN, vou acompanhando e aplaudindo à distância o seu combate por uma justiça mais barata, contra a soberba dos juízes, que se julgam donos dos tribunais, e um Parlamento que se tornou numa central de tráfico de influências, onde os deputados podem ter clientes com interesses nas leis que eles fazem.

Gostei da frontalidade com que avisou os estudantes para fugirem do cursos de Direito, evitando assim que a massificação acentue a proletarização e degradação da classe. E assino por baixo quando ele, de sobrolho carregado, denuncia uma Justiça injusta, cheia de silêncios e mentiras, que se curva perante os ricos e poderosos - e maltrata os pobre e desprotegidos.

Mas o que mais tenho a agradecer ao meu amigo Marinho é ter desmentido a fatalidade dos provincianos, como nós, se deixarem corromper pelo luxo e prazer - o cheiro a canela... - de Lisboa, tão bem caricaturado por Camilo, em "A queda de um anjo", na pessoa do deslumbrado fidalgo minhoto Calisto Elói.

Jorge Fiel

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Terça-feira, 11 de Dezembro de 2012

O que 007 ensina ao Vaticano

 

O que me espantou em "Skyfall" não foi o vilão Raoul Silva (magnificamente interpretado por um Bardem oxigenado) acariciar lubricamente as virilhas de Bond. O que mais me surpreendeu foi a resposta equívoca - "E quem disse que é a primeira vez?" - de um 007 que, de acordo com a publicação científica britânica "Sex Roles", teve 46 parceiras sexuais, da Ursula Andress em "Dr. No" (1962) até Hale Berry (a minha preferida) em "Morre noutro dia" (2002).

Um James Bond bissexual? Já esteve mais longe, até porque o segredo da sobrevivência da saga 007 no ambiente ultracompetitivo de Hollywood tem sido a sua capacidade de inovação e adaptação a um mundo em vertiginosa mudança.

A série Bond foi pioneira no aproveitamento dos filmes para vender carros (foi o vil metal que impôs o BMW 750 no lugar do Aston Martin DB5 prateado ressuscitado por Sam Mendes para morrer em "Skyfall"), bebidas (a Heineken pagou para James preferir cerveja ao seu clássico martini "stirred not shaken"), relógios (o Omega Seamaster vai no 7.oº filme consecutivo),telemóveis e tablets Xperia, televisores Sony e por aí adiante.

Os 007 são o mais luminoso caso de product placement, ou seja, do negócio de meter publicidade dentro das fitas. E a escolha das localizações também não é inocente. As cenas rodadas em Xangai e Macau só uma óbvia piscadela de olho ao mercado chinês, que no ano passado gastou 2,1 mil milhões de dólares em produtos made in Hollywood.

Claro que uma coisa são 2000 anos e outra são 50, mas também é verdade que no último meio século o Mundo acelerou mais do que nos restantes 1962 da era cristã. Por isso, o Vaticano terá muito a ganhar se estudar com atenção como a saga 007 se tem adaptado à mudança de vidas e costumes.

Alguma coisa está mal quando Fátima perde meio milhão de peregrinos, a diminuição de donativos obriga a Igreja a fazer despedimentos e vêm a público casos como o do vice-reitor do seminário do Fundão.

Alguma coisa está muito mal quando num mundo que treme de incerteza, as pessoas fogem da fé em vez de nela buscarem refúgio e conforto.

E o que está mal não se resolve tentando refrescar a imagem de uma religião revelando que a vaca e o burro não podiam ter assistido ao nascimento do Menino (mas que, por piedade e amor à tradição, podem ficar no presépio) e que os Reis Magos terão vindo do Sul da Península Ibérica (quem sabe se não serão algarvios de Silves?).

Está na hora de Igreja Católica iniciar um processo de perestroika e glasnost que reveja situações tão absurdas e anacrónicas como barrar o acesso das mulheres ao sacerdócio e a questão do celibato.

É melhor reconhecer os direitos das mulheres e homens da Igreja a terem uma vida sexual saudável, independentemente da sua orientação, do que reprimi-la com os resultados à vista no lamentável caso do padre do Fundão

Jorge Fiel

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Sexta-feira, 7 de Dezembro de 2012

Don´t fuck my job

O problema dos carros com mudanças automáticas é o pé esquerdo ficar a sobrar. Guiar um carro com caixa de velocidades é um trabalho que envolve os dois pés. O direito divide-se entre o acelerador e o travão, enquanto o esquerdo se especializa na embraiagem. Nos automóveis com caixa automática, é absolutamente proibido deixar o pé esquerdo entrar na dança dos pedais, senão...


Quando pego num carro automático, sei que tenho de estar em permanente tensão para evitar que as minhas rotinas de condução se imponham. Senão é asneira pela certa.


A minha asneira mais frequente é levar ao travão um pé esquerdo habituado a esmagar o pedal até ao fundo, provocando assim uma travagem brusca, cujas consequências se têm (felizmente) resumido a um susto, cheiro a borracha e desgaste escusado dos pneus.

Noutro dia, ao ler no "Jornal de Negócios" uma magnífica história da vida de Maria Isabel Lucas, 50 anos, uma estivadora do porto de Setúbal, fiquei a saber que a minha asneira não é a única a que um condutor habituado a carros com mudanças está exposto quando tem de guiar um automático.


Em defesa do argumento de que trabalhar na estiva não é para qualquer um, Isabel dá um exemplo: "Tem de ter muitos anos de experiência, aqui é tudo ao milímetro. Tenho aí visto acidentes de automóveis quando os carros são automáticos, em vez de travar, o pessoal às vezes acelera e pum, o carro galga por cima de outro carro".


Saber da estranha confusão que os estivadores fazem entre o pedal do travão e o do acelerador nos carros com mudanças automáticas desembraiou logo na minha cabeça a ideia de que a criminosa greve que desde agosto afeta os portos de Lisboa, Setúbal, Figueira da Foz e Aveiro só pode ter na sua origem a falta de discernimento de quem a faz.
 

Os cerca de 400 estivadores que envergam T-shirts trendy e cosmopolitas dizendo "Don't fuck my job" ainda não perceberam que quando se está num buraco a regra número 1 é parar de escavar - e como estão confusos, ao ponto de não se terem apercebido do tempo em que vivemos, prosseguem, egoístas, a sabotagem do esforço das empresas exportadoras.


Os cerca de 400 estivadores que abrilhantam os protestos vestidos com coletes refletores, calçados com botas de borracha de biqueira de aço e com a cara coberta por lenços pretos, à John Wayne, não perceberam que a nossa liberdade acaba onde começa a dos outros - e por isso não se importam de lixar o emprego dos outros para manterem direitos, privilégios e regalias absolutamente insustentáveis.


As consequências da irresponsabilidade suicida dos 400 estivadores grevistas só não são mais catastróficas porque o elevado sentido de responsabilidade dos outros 900 estivadores e da UGT mantêm a funcionar os portos de Leixões e Sines.


Neste caso da greve dos portos, o Governo tem uma oportunidade de ouro para demonstrar firmeza e impedir que os 400 estivadores grevistas,

em vez de cavarem apenas a própria sepultura, destruindo o seu emprego altamente remunerado, também enterrem o que resta da nossa competitividade e lixem os nossos postos de trabalho.


Jorge Fiel

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Domingo, 2 de Dezembro de 2012

Passos não é um idiota batizado

Calma! As aparências iludem. Ao contrário do que poderá parecer à primeira vista, Passos Coelho não é burro e sabe perfeitamente o que anda a fazer. Disfarça bem, mas sabe. Disfarçar é uma tática. Há gente assim, que parece idiota, sabe que parece idiota, mas como não é efetivamente idiota tira partido desse aspeto para levar a sua avante. Senão vejamos:

A Região Norte tem a mais elevada taxa de desemprego do país e a Área Metropolitana do Porto é onde a pobreza é mais dramática e se regista um mais elevado número de falências.

Portugal é o país mais desigual da UE a 27,já que 65% da nossa população vive em regiões onde o rendimento per capita é inferior a 75% da média comunitária. No país que vem a seguir, a Grécia, essa percentagem (22%) é 1/3 da portuguesa.

O Norte é a mais exportadora de todas as nossas regiões e onde são pagos os mais baixos salários do país. O salário líquido mensal em Lisboa é de 934 euros, a média nacional é 900, no Norte é de 746 - mais baixo que o pago no Alentejo, Centro e Algarve.

Neste cenário, ao tomarmos conhecimento que o primeiro-ministro se vangloriou de ter conseguido em Bruxelas um cheque extra de mil milhões de euros a ser aplicado na Madeira (100 milhões) e Lisboa (900 milhões) - as duas únicas regiões do país com rendimento per capita superior à média comunitária - é fácil sucumbir à tentação de considerar que Passos ou é um calhau com olhos ou um idiota que se prepara para acentuar a macrocefalia lisboeta que nos asfixia.

Mas é preciso ter calma. As aparência iludem. Estou em crer que Passos não é uma coisa (calhau com olhos) nem outra (um idiota centralista), e que, por isso, depois de ter o cheque do lado de cá, vai tirar da cartola um golpe de génio.

Passos vai explicar que a reindustrialização - a pedra de toque da sua agenda de crescimento, que espera que contrabalance os esfeitos perniciosos da austeridade e permita tornar o ajustamento sustentável - exige fortes investimentos a norte, a única região do país onde o tecido industrial tem as raízes mais fundas e está disponível a mão-de-obra indispensável para o sucesso deste esforço.

Com quatro ativos por cada reformado, o Norte é a região portuguesa que melhor resiste ao envelhecimento.

E se Bruxelas lhe perguntar: então pediste dinheiro para Lisboa e vais investi-lo no Norte? Passos Coelho vai argumentar, todo lampeiro, com o famoso efeito dispersão, explicando que a reindustrialização aumentará a receita fiscal e diminuirá as despesas com subsídios e prestações sociais, engordando assim os cofres do Estado com quartel-general em Lisboa.

Estão a ver? Não nos devemos precipitar. Afinal tudo leva a crer que o Passos Coelho afinal não é um idiota batizado, mas sim um tipo genial e fino como um alho.

Jorge Fiel

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Domingo, 25 de Novembro de 2012

O Estado Downton Abbey

Ando viciado na Downton Abbey. Não perco um episódio desta fascinante série que mostra como em apenas um século o Mundo e a vida privada viraram do avesso. A história começa em 1912, com o naufrágio do Titanic a lançar um salpico de perturbação no invejável ramerrão da vida dos Crawley, uma família aristocrática inglesa que caminha para a falência, imperturbável e com pompa.

Downton Abbey é o castelo do Yorkshire onde os Crawley - Lord Grantham, a mulher (Cora, uma americana rica), as três filhas, e a mãe (a fabulosa professora McGonagall da saga Harry Potter) - vivem ociosa e alegremente acima das suas possibilidades.

Uma legião de criados, comandados com punho de ferro pelo mordomo Mr. Carson, permitem aos Crawley levar a vida sem mexer uma palha. A principal canseira no seu dia a dia é, quando acordam, decidirem se tomam o pequeno-almoço na cama ou descem à sala - onde lareira e candeeiros foram acesos com antecedência para tornar o ambiente confortável.

Mrs. Patmore, a cozinheira, é a minha personagem preferida do populoso andar de baixo, onde habitam a austera governanta Mrs. Hughes e um número infindável de valets, footmen, maids, motoristas e ajudantes de cozinha, que trabalham para que nada falte aos Crawley.

Lord Grantham é um inútil simpático que após ter torrado na Bolsa o dote da mulher só evitou a bancarrota porque Downton Abbey foi resgatada pela infusão da fortuna que Matthew (um primo viúvo e afastado que se tornou seu genro ao casar com Mary, a mais velha das três filhas) herdou do sogro.

Downton Abbey faz-me lembrar o Estado português, que depois de ter vivido ociosa e alegremente acima das suas possibilidades, a contratar criadagem a eito (só entre 95 e 05, engordou a folha de salários com mais 100 mil novos funcionários públicos), apenas evitou a bancarrota ao ser resgatado pela troika.

E apesar da situação ser triste, dá--me vontade de rir quando vejo o debate sobre o nosso futuro situado em termos da escolha entre um Estado social ou um Estado liberal.

As despesas com o Estado social (pensões, saúde, subsídios de desemprego, etc.) representam apenas 25% do PIB. E Portugal é o terceiro país da OCDE onde os gastos sociais menos subiram desde o início da crise.

Em saúde, mesmo antes dos cortes, investíamos apenas 7% do PIB, menos que a média da OCDE (7,5%). Idem aspas nos apoios sociais: levam 18,7% do PIB, bem abaixo da média de 20,5%. Em contrapartida, só o Chipre (que vive em estado de guerra latente) gasta mais (4,7% do PIB) que nós (4,1%) em defesa e segurança.

A alternativa não é entre um Estado social e um Estado liberal. A alternativa é entre um Estado Downton Abbey - com 1182 empresas públicas, 29 mil carros, 356 institutos públicos, 343 empresas municipais e 1.3740 instituições sentadas à mesa do Orçamento - e um Estado bem gerido. O resto é conversa.

Jorge Fiel

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Sexta-feira, 23 de Novembro de 2012

Como lidar com arrumadores

Tenho o hábito de não dar uma moedinha aos arrumadores. Acho que eles são uns parasitas e pequenos chantagistas, que adotaram e adaptaram o engenhoso modelo de negócio inventado pela Máfia que consiste em cobrar aos comerciantes dinheiro para se protegerem deles próprios, os mafiosos.

Não é por o arrumador esbracejar a sinalizar um lugar vago que está à vista de toda a gente (pelo menos de quem tenha menos de 20 dioptrias em cada olho) que um condutor dá a moedinha. Está sim a proteger-se da ameaça velada, apesar de não verbalizada, de, na volta, encontrar o carro riscado.

Um risco no carro é o risco que corre quem não contribui para a felicidade dos arrumadores.

Eu corro esse risco na boa, pois até acho que os riscos no carro são como as rugas na nossa cara. Temos de nos habituar a viver com eles (os riscos) e elas (as rugas).

Claro que há honrosas exceções. Quando trabalhava no escritório do Porto do "Expresso", em Júlio Dinis, um colega meu mantinha sob contrato um arrumador que atuava na zona do Bom Sucesso.

Era uma espécie de serviço de valet parking, como está na moda ser disponibilizado à porta dos restaurantes de grandes metrópoles, como São Paulo ou Los Angeles, nas zonas onde lugares vagos de estacionamento são um fator escasso.

O Paulino chegava com o carro e não tinha de se preocupar em arranjar lugar. Deixava-o em segunda fila e confiava a chave ao arrumador, que o estacionava corretamente logo que surgisse uma vaga - e, mal detetava a presença de fiscalização, corria a meter diligentemente uma moedinha no parquímetro e o respetivo papelinho junto ao para-brisas.

O arrumador do Paulino não era um chantagista, mas sim um prestador de serviços, um empreendedor que sabia criar valor e um exemplo a elogiar e seguir - apesar de desenvolver a sua atividade no âmbito da economia paralela (estará muito longe de ser o único a fugir aos impostos).

Em junho, estava sentado numa esplanada, em Boston, em frente ao Macy, a preparar um passeio pelo North End, quando ouvi uma simpática voz feminina a disponibilizar-se para me ajudar.

Do you need some help? Não, não precisava, mas até parecia que sim, pois estava debruçado sobre um mapa e três guias (DK, Time Out e Gallimard).

Mal ouviu a minha resposta, a senhora simpática pegou numa vassoura e começou a varrer a rua e eu fiquei a saber, pelos dizeres estampados (Ambassador Boston Downtown) na sua sweater verde (a cor de Boston) que era uma embaixadora da cidade, destacada para prestar serviço na Baixa.

Qualificar os arrumadores, transformando-os em prestadores de serviços de valet parking, e reconverter desempregados de longa duração e beneficiários do RSI em embaixadores multitarefas (que tanto limpam a rua como usam o walkie talkie para reportar problemas ou ocorrências e disponibilizam ajuda a quem passa) seriam boas ideias para melhorar o ambiente nas nossas cidades e garantir um trabalho digno e útil aos nossos concidadãos que atravessam uma fase menos boa das suas vidas.

Jorge Fiel

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Segunda-feira, 19 de Novembro de 2012

Não gosto de dar esmolas

Não tenho o hábito de dar esmolas. Incomoda-me ser confrontado por pessoas a quem não me liga qualquer espécie de laço e que, sem mais, me pedem dinheiro. Digo que não com a cabeça, mas fico com um sentimento de culpa por não ter correspondido ao pedido de auxílio de alguém que as circunstâncias da vida forçaram a abdicar dos mais básicos princípios da dignidade humana e a andar pelas ruas, de mão estendida, a pedir uma moedinha.

Sinto culpa mas também revolta até porque há algo de extorsão emocional no ato de pedir, a que sinto que não devo ceder.

"Olha para ti, bem alimentado, dinheiro na carteira, salário a cair todos os fins de mês na conta e egoísta ao ponto de não me dares uma moeda de valor equivalente ao que custa uma saqueta de cromos para o teu filho ou ao que deixas de gorjeta na mesa do restaurante".

É esta censura chantagista que sinto no olhar dos pedintes de rua - e por isso evito cruzar-me com eles, o que já me obrigou a refazer os percursos. Em vez de subir a Av. da Boavista até à Rotunda, passei a cortar pela rua do cemitério de Agramonte para evitar a velhinha de óculos, com idade para ser minha mãe, que todas as manhãs estaciona bem cedo, nos semáforos da Casa da Música, e bate no vidro do lado do condutor a pedir uma moedinha.

Infelizmente, a pobreza alastra como uma mancha de óleo. Com 1,4 milhões de reformados com pensões inferiores a 500 euros/mês, mais de um milhão de pessoas sem emprego, 330 mil a viverem do RSI e 550 mil a ganharem o salário mínimo, não nos podemos espantar quando o Eurostat diz que um em cada quatro portugueses vive em risco de pobreza.

O mais alarmante é que, por causa do desemprego, divórcio ou sobre-endividamento, 41% dos carenciados são novos pobres. E a pobreza de quem nunca foi pobre é socialmente mais preocupante do que a resignação das pessoas que já não se importam de a ostentar, andando pelas ruas a pedir uma moedinha.

Eu sei que não me compete a mim, individualmente, combater a pobreza e desigualdade galopantes. Esse o papel de redistribuição da riqueza e fomento da coesão social pertence ao Estado que há 34 anos alimento com os meus impostos.

Mas também sei que, a curto prazo, o Estado é tão capaz de ter sucesso nessa tarefa como uma bailarina com uma perna de pau.

Por isso, todos nós devemos contribuir diretamente para atenuar a pobreza, de forma organizada e não dando esmolas, mesmo sabendo que isso é uma aspirina que atenua a dor mas não extirpa o mal. Por isso, vou ser particularmente generoso na próxima recolha do Banco Alimentar, agendada para o primeiro fim de semana de dezembro.

Temos de ser cuidadosos a distinguir entre a filantropia da responsabilidade social e a bolorenta caridade do bodo aos pobres. Mas não podemos deixar de ajudar a diminuir o índice de infelicidade no próximo Natal.

 

Jorge Fiel

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Terça-feira, 13 de Novembro de 2012

Eu até nem desgosto das 2ª feiras

 

Umas das consequências do nosso "Jornal de Notícias" se publicar todos os 365 dias do ano (366 nos bissextos) é que também todos os dias há jornalistas (e não só) a trabalharem, esforçando-se para que o JN do dia seguinte seja ainda melhor que o do dia.

O meu sistema de folgas é simples. Se numa semana descanso ao sábado e domingo, na seguinte folgo às 5.ª e 6.ª e trabalho ao fim de semana. O resultado é uma sucessão alternada de semanas em que ou estou ao serviço apenas três dias (2.ª, 3.ª e 4.ª) ou trabalho sete dias (sábado, domingo, 2.ª, 3.ª, 4.ª, 5.ª e 6.ª).

Deve ser por isso que não faço coro com o protesto da mais famosa canção (I don't like mondays) dos Boomtown Rats, de Bob Geldof. À diferença da maioria do pessoal, que tem a rotina de trabalhar uma semana de cinco dias, nem suspiro pelas 6.as-feiras nem maldigo as 2.as. Eu até nem desgosto das 2.as-feiras.

No geral, esta 2.ª, dia 11, foi bastante calma, se excluirmos o movimento no aeroporto de Lisboa, com a chegada de Merkel, para uma visita de médico de cinco horas, e de Vale e Azevedo, para uma estada mais prolongada de cinco anos.

As diferenças não se quedam por aqui. Enquanto o ex-presidente do Benfica vai ficar os cinco anos à sombra, a chanceler alemã só pode ter ido daqui com uma corzinha, pois esteve debaixo das luzes da ribalta (e das câmaras de TV) durante todo o tempinho que passou entre nós.

Este frenesim de partidas e chegadas no aeroporto de Lisboa só pode ajudar, neste momento em que estamos a desfazer-nos da ANA (que, graças a Deus, tem bastantes pretendentes) e da TAP (para quem só há um noivo reticente, que se prepara para só ficar com ela se não pagar nem um cêntimo).

Mas achei bastante parola e provincianamente excessiva a cobertura televisiva da visita da chanceler. "Última hora: Merkel aterrou em Lisboa"? Por amor de Deus, deixem de fazer concorrência involuntária e desleal ao "Inimigo Público" e ao Ricardo Araújo Pereira!

Coube à RTP o melhor momento. Após ter transmitido em direto o número (pobre) que os Homens da Luta tinham preparado, a jovem repórter desafiou as forças do mal ao insistir para que eles mostrassem a prenda que traziam para Merkel. Obtida a garantia de que estavam em direto, o Jel e o Falâncio desembrulharam um das Caldas - quase tão enorme como o aumento de impostos anunciado pelo Gaspar.

O alarido feito em torno da visita da chanceler só prova que quem manda no circo mediático televisivo ou não percebeu ou não quer perceber que é tão estúpido diabolizar a Merkel como as 2.as-feiras.

Ir trabalhar à 2.ª-feira é uma bênção num país com mais de um milhão de pessoas sem emprego. E por muito que nos custe reconhecer, culpar Merkel pelos nossos males é teimar em tentar sacudir para outros a culpa dos nossos erros - uma atitude irresponsável que apenas prova que se errar é humano ainda é mais humano atribuir os nossos erros aos outros.

Jorge Fiel

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Sexta-feira, 9 de Novembro de 2012

Fazer filhos é patriótico

É uma vergonha. Somos o 14.º melhor país do Mundo para ter filhos - de acordo com a tabela da Save the Children (a Noruega é o melhor e o Afeganistão o pior) - mas não tiramos partido disso. Temos a taxa de natalidade mais baixa da Europa, 1,3 filhos em média por mulher em idade fértil. Neste particular dos bebés, até a Grécia nos ganha. E não é por falta de prática, já que nós, portugueses, somos os que fazemos mais sexo (em média, duas vezes por semana) no universo de 13 países europeus de um estudo promovido pela multinacional farmacêutica Lilly.

É uma vergonha. Em 1956, o ano em que a minha mãe me trouxe ao mundo, nasceram 210 mil bebés em Portugal. Em 85, a Mariana, a minha primeira filha, foi uma das 130 mil crianças nascidas no ano anterior à adesão à CEE. Três anos depois, em 88, quando nasceu o Pedro, já o número de partos tinha caído para 122 mil - pouco mais que os 120 mil bebés registados no ano 2000, quando lhe dei o João como irmão mais novo.

Este século XXI tem sido uma miséria, com a natalidade em queda livre e consistente. Em 2009, caímos pela primeira vez abaixo dos 100 mil bebés. E neste ano vamos bater novo recorde negativo. No primeiro semestre, registaram-se menos quatro mil nascimentos que em 2011, pelo que não vamos chegar aos 90 mil. Uma vergonha, até um em cada oito bebés é filho de estrangeiros residentes em Portugal.

Anda tudo com os olhos postos na dívida pública, o desequilíbrio nas contas externas, a galopante taxa de desemprego e o défice orçamental, mas pouca gente se preocupa com o alarmante saldo natural negativo. Em 1961, nasceram mais 118 888 portugueses do que os que morreram. Em 2011, houve mais 4735 funerais do que partos.

Os mortos estão a ganhar aos vivos, dando razão à previsão da ONU de que em 2100 seremos apenas 6,7 milhões, ou seja, que num século a nossa população recuará cerca de 40%.

A letal combinação entre o envelhecimento acelerado e a queda a pique da natalidade arruinará a sustentabilidade da Segurança Social e comprometerá o nosso futuro coletivo.

O aumento da produtividade que a competitividade do país exige não se pode limitar aos locais de trabalho - tem de se estender à cama. Alguém tem de fazer alguma coisa, e esse alguém somos todos nós. Fazer filhos é patriótico. É investir no futuro.

A crise não pode ter as costas largas. Em 1960, Portugal era muito mais pobre, havia muito menos apoios sociais e económicos à maternidade e, apesar disso, produzíamos 200 mil bebés por ano. Mais do dobro que agora. Dois filhos por casal é o mínimo, para repor o stock de portugueses. E não pega a desculpa de que na altura só havia um canal de Televisão e era a preto e banco. Bora aí fazer filhos como se não houvesse amanhã!

Jorge Fiel

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Segunda-feira, 5 de Novembro de 2012

Tragédia à vista no aeroporto

 

Ao ver o amigo muito entretido com uma carraça, Tom Sawyer ficou invejoso e perguntou-lhe quanto queria por ela. Recebeu um não como resposta. Huckleberry Finn declarou solenemente não estar interessado em vendê-la.

"Não faz mal, de qualquer maneira é uma carraça muito pequena", desdenhou Tom. "Ora, qualquer um é capaz de dizer mal de uma carraça que não lhe pertence. Eu estou satisfeito com ela. Para mim é uma boa carraça", retorqui Huck.

"O que não falta são carraças! Se quisesse, podia ter mil!", replicou Tom, num esforço de banalização do produto, logo demonstrado pelo amigo: "Então por que é que não tens? Porque sabes perfeitissimamente que não podes! Esta carraça é muito nova, foi a primeira que vi este ano".

O negócio acabou por ser fechado. Concluída a primeira fase da negociação, passaram aos finalmente. Tom ofereceu um dente (cuja autenticidade estabeleceu levantando o lábio superior e mostrando a falha) pela cobiçada carraça, Huck não resistiu à tentação, a transação fez-se e os dois rapazes separaram-se, sentindo-se mais ricos e felizes do que eram antes.

O episódio da troca da carraça pelo dente, constante das Aventuras de Tom Swayer, de Mark Twain, resume os princípios basilares da arte de negociar e é ainda um bom ponto de partida para a redação de um manual de vendas. Um bom negócio é como o celebrado entre Tom e Huck - um negócio em que no final todas as partes ficam satisfeitas.

Pressionado pela troika a vender a ANA à pressa e em tempos de crise, o Governo dificilmente conseguirá fazer um bom negócio, pelo menos do nosso ponto de vista - o dos vendedores.

Da nebulosa de interesses diversos que formam o interesse nacional na privatização da ANA, o único que até agora foi acautelado foi da Câmara de Lisboa, que abichou 286 milhões de euros, por conta dos terrenos na Portela, de propriedade duvidosa, enquanto a Câmara do Porto continua a chuchar no dedo, apesar de ser comprovadamente proprietária de uma parcela dos terrenos do aeroporto Sá Carneiro.

Embora não seja ainda conhecido o caderno de encargos da privatização da ANA, tudo aponta para que o Governo se prepara para ter o comportamento irresponsável de ignorar os mais básicos princípios da negociação enunciados por Mark Twain e fazer ouvidos de mercador não só às pretensões dos empresários e autarcas do Norte mas também à recomendação da OCDE, que para evitar os malefícios de uma posição de monopólio privado aconselhou a divisão dos ativos, antes da venda, como forma de garantir a concorrência.

O aeroporto Sá Carneiro é demasiado importante para a economia do Porto e do Noroeste Peninsular. Seria criminoso abandonar incondicionalmente o seu futuro ao livre arbítrio de um monopólio privado - principalmente quando os empresários do Norte já se disponibilizaram para o comprar.

Jorge Fiel

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Quinta-feira, 1 de Novembro de 2012

Estou quase a apanhar o Belmiro

 

Sempre tive a mania de saber o lugar que ocupava na sociedade. Lembro-me perfeitamente do dia em que, ainda miúdo, perguntei ao meu pai se nós éramos ricos ou pobres. Ao que ele me respondeu que nem uma coisa nem outra. Éramos remediados.

Com a catequese ainda fresca, imaginei esse nosso estado de remediados como uma espécie de purgatório, onde penitenciávamos em trânsito, a caminho do céu dos ricos ou do inferno dos pobres.

Mais tarde, já no liceu, percebi que estava errado pois a viscosidade doutrinária do Estado Novo favorecia o imobilismo social, e nem fazer 13 no Totobola ou ter comprado o vigésimo premiado garantia a entrada definitiva no clube dos ricos.

Como aos pobres, no final do mês, sobravam-lhes apenas dias, não dinheiro, e os ricos olhavam o futuro com ligeireza, a tarefa de aforrar repousava quase inteiramente em cima da nós, os remediados.

A preocupação de poupar para acudir a uma eventual aflição ficou--me tatuada no caráter, por ter sido educado nos tempos da "Outra Senhora", antes da generosidade democrática, a que o 25 de Abril abriu as portas, ter implantado um Estado Social no nosso país.

Depois de ter concluído o curso, cumprido o serviço militar obrigatório e arranjado emprego, senti--me apto a assentar vida, pelo que me casei, comecei a fazer filhos e a comprar certificados de aforro.

Nunca mais deixei de poupar, porque tive a dupla sorte de nunca me ter faltado trabalho, mesmo das três vezes em que perdi o emprego, e de ter escolhido esta profissão de jornalista, que me permitiu progredir dentro dos diferentes segmentos em que se subdivide a classe média, que é como se passaram a designar os outrora remediados.

A minha transformação de contribuinte em tanso fiscal (expressão roubada ao saudoso Leonardo Ferraz de Carvalho), consumada sem margem para dúvidas a partir de janeiro, vai obrigar-me a diminuir a quantidade de dinheiro que mensalmente ponho de lado. Mas garanto-vos que não me vai impedir de continuar a poupar, por pouco que seja.

Além de ajudar a acautelar o futuro da minha família, neste momento em que a Segurança Social treme por todos os lados, sei que poupar é a melhor maneira de ajudar o meu país, pois o dinheiro que aforramos poderá ser usado para financiar os investimentos público e privado, indispensáveis ao crescimento e à criação de emprego e riqueza, sem maltratar ainda mais as nossas já pobres contas externas.

E tentando descortinar o lado bom do assalto fiscal à mão armada, de que vamos ser vítimas todos nós, tansos fiscais, que não conseguem escapar ao IRS, chamo a atenção para o facto não negligenciável de que já estou no escalão imediatamente anterior ao de magnatas como Ricardo Salgado, Soares dos Santos ou Américo Amorim.

Estou quase a apanhar o Belmiro e a ser declarado oficialmente rico. Nada mal para um ex-remediado.

Jorge Fiel

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Sexta-feira, 26 de Outubro de 2012

Um elogio aos ladrões

Se forem ao YouTube e pesquisarem "Did you know" encontram diferentes versões de um vídeo maravilhoso, recheado de dados reveladores do frenético ritmo dos tempos em que vivemos. Uma das coisas que mais me impressionaram foi ficar a saber que as dez profissões mais procuradas em 2010, nos EUA, não existiam em 2004 - o que equivale a dizer que estamos a preparar estudantes para empregos que ainda não existem, em que usarão tecnologias ainda não inventadas para resolver problemas que ainda nem sequer foram colocados.

Estes tempos exponenciais, de novas novidades e desvairadas mudanças de vidas e de costumes (frase roubada ao cronista Rui de Pina), obrigam-nos a nunca parar de aprender e a habituar-nos a conviver com a incerteza e a precaridade.

Refletindo sobre esta matéria, cheguei à conclusão de que os pequenos e médios meliantes são um dos grupos que mais depressa atingiram a excelência na capacidade de adaptação a estes novos e difíceis tempos. Senão, vejamos.

Como as agências bancárias reduziram a um mínimo insignificante o dinheiro que têm em armazém e equipam os cofres com sofisticados sistemas de alarme e abertura retardada, os ladrões redefiniram como alvo os Multibanco, que é onde agora estão as tão desejadas notas.

Como a cotação do ouro não para de subir (é o valor refúgio em épocas de crise), os ourives passaram a figurar entre os alvos preferenciais dos assaltantes.

Como os carros que vale a pena roubar não são os Clio, Punto e Corsa, em que os deputados da nação não querem andar, mas sim os Audi, Mercedes e BMW que todos os "parvenus" adoram - e estão num patamar tecnológico que não vai em cantigas de ligações diretas - os gatunos inventaram o carjacking, o roubo de viatura com condutor para lhe extorquir a chave/cartão que aciona a ignição.

Como a trepidante industrialização chinesa inflacionou o mercado internacional de matérias-primas, os bandidos desataram a gamar tudo quanto lhe cheire a cobre, latão ou outro metal em alta - tampas de saneamento, placas de trânsito, campas, etc..

A quem possa ficar chocado com este elogio aos pequenos e médios ladrões, recordo que eles desenvolvem a sua atividade desprovidos do mínimo apoio do Estado e do QREN (ou qualquer outro financiamento comunitário), na mais estrita observação da mais pura das regras do mercado (a lei da oferta e da procura) e com todos os riscos por sua conta - ao contrário dos tipos das PPP que têm o lucro garantido pois nós, os palermas dos contribuintes, alombamos com o risco por eles.

Eu, que em 56 anos de vida tive mais problemas com polícias do que com ladrões, tenho mais simpatia pelos pequenos e médios ladrões, que roubam os ricos, do que pelos ladrões de impostos, que vivem à nossa custa, sejam eles banqueiros desonestos ou políticos corruptos. São gajos que dão mau nome à classe dos ladrões.

Jorge Fiel

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Segunda-feira, 22 de Outubro de 2012

O caso do tapete de Arraiolos

O caso do tapete de Arraiolos demonstra como eu posso ser sentimental. O meu Arraiolos (só tenho um) é vulgar, mas eu gosto muito dele - ponto grosso, desenhos em tons verdes e castanhos, um pouco mais de três m2.

Ao longo dos cerca de 30 anos que leva comigo, não teve uma vida fácil. Suportou o peso de muitos móveis e alombou com as tropelias inerentes ao crescimento de três crianças. Os maus tratos fizeram-se sentir sob a forma de rasgões perigosos, pois podíamos enfiar lá o pé e tropeçar. Impunha-se uma atitude.

O especialista da loja de tapetes de Arraiolos, que fica em Santa Catarina, sugeriu-me a eutanásia. Reconstruí-lo ficava 50 euros mais caro do que fazer um novo, igualzinho e mais durável, e 150 euros acima do preço de um novo, com desenhos e cores diferentes mas área idêntica.

Não foi fácil decidir. A razão ordenava-me que comprasse um novo. E o especialista em Arraiolos dava-me argumentos para enganar a emoção encomendando um clone. Mas eu preferi pagar mais 50 euros para evitar que o primeiro tapete que comprei, depois de ter saído de casa dos meus pais, fosse deitado ao lixo.

Não me arrependi. Acho que atitudes sentimentais como esta são as mais adequadas ao novo normal a que nos temos de ir habituando.

Até agora, cada geração viveu sempre melhor que a anterior, e a subida da qualidade de vida, que deu um enorme salto com o 25 de Abril e a adesão à CEE, era quantitativamente mensurável nos seus diversos parâmetros.

Na saúde, beneficiamos do acesso democrático a cuidados médicos, da queda brutal da mortalidade infantil e do crescimento na esperança de vida. No ensino, registámos um aumento significativo dos licenciados e doutorados, bem como da quase erradicação do analfabetismo.

Nas condições de vida, passamos do défice para o superavit no parque habitacional, temos o país cheio de autoestradas sulcadas por BMW, Mercedes e Audi, os lares equipados com plasmas e LCD e os portugueses apetrechados com smartphones da última geração.

O problema foi que um dia os credores repararam que a aceleração do nosso poder de compra não tinha sido acompanhada de idêntico crescimento na produção de riqueza.

Portugal foi ao tapete e estamos em contagem de proteção, para reduzir em 30% os salários, emagrecer um Estado que sofre de obesidade mórbida e reorientar para a produção de bens transacionáveis uma economia criminosamente obcecada pelos serviços.

Para agradar aos credores, o Governo está a tentar ser eficaz na arte de depenar o pato (nós, os contribuintes), de modo a que ele grite o mínimo possível e a obter a maior quantidade de penas.

Para evitar darmos em doidos, é aconselhável dar espaço à afetividade, abandonar a religião do deus Dinheiro, e perceber que é mais fácil chegar à felicidade pela renúncia do que pela procura da satisfação de necessidades supérfluas - e cada vez mais numerosas.

Jorge Fiel

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Domingo, 21 de Outubro de 2012

Não peças boleia a um taxista

 

Quarta-feira à noite, no aeroporto de Stansted, comprei o Daily Telegraph porque estava cheio de sede. Pode parecer bizarro, mas não é. O quiosque estava a fazer uma promoção. Quem adquirisse o jornal, por 1,20 libras, levava de borla uma garrafa de 750 ml de água mineral Braxton, que se comprada isoladamente custava 1,90 libras.

Para mim foi um bom negócio. Por cerca de 1,5 euros cometi um triplo assassinato: matei a sede, o tempo e a curiosidade.

A leitura do Telegraph preencheu as duas horas e pico da viagem de regresso após cinco dias em Londres, e fiquei a saber uma data de coisas interessantes, como, por exemplo, que no Reino Unido passou a ser incompatível ser polícia e ter tatuagens na cara, pescoço ou mãos.

A manchete era sobre a decisão do attorney general britânico (que equivale à nossa PGR) de proibir a divulgação pública de 27 cartas que o príncipe Carlos enviou a diversos ministros do governo Blair. Motivo alegado? A publicação das cartas prejudicaria seriamente o seu futuro papel de rei dos britânicos. Dá para imaginar os disparates que o herdeiro da Coroa terá garatujado (ao que parece, a caligrafia dele assemelha-se perigosamente aos hieróglifos egípcios).

Achei bastante graça à resposta que Hilary Mantel - a primeira mulher a ganhar por duas vezes o Man Booker Prize - deu quando lhe perguntaram onde ia gastar as 50 mil libras do prémio. "Na rehab (desintoxicação)", respondeu a mulher, cuja fotografia a 4 colunas ao alto dominava a primeira página. Da primeira vez, em 2009, em resposta à mesma pergunta, ela disse que ia torrar a nota toda em "sexo, drogas e rock'n'roll".

Para mim foi bom negócio pagar 1,5 euros por uma garrafa de água e um jornal atraente e bem escrito, com um caderno principal de 38 páginas broadsheet, mais um 2.0 caderno económico de 12 páginas e um 3.0º desportivo, com 20 páginas. Mas duvido que tenha sido bom negócio para os editores do Telegraph.

Doeu-me na alma ver exemplares do Telegraph, ainda por folhear, espalhados como lixo pelas cadeiras e cestos de papéis. Como me doía ver, no nosso país, gente a chegar a uma banca de jornais e pedir o copo de vinho branco ou o garfo de peixe - e não o título que trazia essa oferta, na vã tentativa de sustentar artificialmente a sua circulação.

Um jornal tem de se dar ao respeito. Produzir boa informação não é barato. Imprimi-la e distribui-la custa dinheiro. Por muito tentador que seja o atalho que pode dar resultados imediatos, não podemos esquecer-nos que ele é um passo no sentido do suicídio a prazo da indústria dos jornais.

No início, o modelo de negócio dos jornais era simples. Consistia em vender informação e opinião aos leitores - e vender leitores aos anunciantes. O caminho certo é o regresso às origens, fazendo jornais que valham por si e os leitores achem que valem o dinheiro que custam. Ninguém no seu perfeito juízo pede boleia a um taxista, pois não?

Jorge Fiel

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Sexta-feira, 12 de Outubro de 2012

Ando com as tensões altas

 

Lembram-se de Romário, aquele brasileiro baixinho que fazia golos tão simples como se estivesse a passar a bola para um colega que estava no fundo da baliza? Pois no dobrar dos anos 80 para os 90, entre sair do Vasco da Gama e brilhar no Barcelona, ele passou pelo PSV, e foi entrevistado em Eindhoven por um amigo meu jornalista que, a título de aquecimento, abriu a conversa perguntando-lhe como é que ele estava a dar-se na Holanda e obteve como resposta um longo rol de lamentações.

Romário queixou-se do clima, da comida, da língua e dos hábitos - na verdade, não deve ser fácil um latino habituar-se a uma sociedade em que o convite para ir jantar a casa de alguém é acompanhado da pergunta sobre quantas batatas vamos comer -, antes de entrar nas questões profissionais, ou seja, no futebol.

Depois de se assegurar de que o meu amigo não iria publicar o seu desabafo, o brasileiro queixou-se dos colegas, que nunca lhe serviam a bola em condições: "A princípio, até pensei que era de propósito, para me queimar. Mas não. Já entendi que se não passam bem é porque não conseguem. Não é por mal que não fazem melhor. É porque não sabem".

Converti esta frase numa espécie de mantra, que me tem ajudado muito a ter paciência quando confrontado com exasperantes situações de falta de profissionalismo ou de pornográfica incompetência.

Se pressinto que vou levantar a voz e estou prestes a explodir, repito mentalmente, as vezes que for preciso, o mantra -"Não é por mal que não fazem melhor. É porque não sabem" -, até me acalmar.

Quando, há coisa de ano e meio, nos apercebemos de que as nossas finanças públicas estavam em pior estado que o chapéu de um trolha, foi claro para quase todos nós que até endireitarmos as contas iria ser preciso apertar o cinto e aguentar com abnegação o fel da austeridade.

Estou até convencido de que, em nome do sucesso do milagre regenerador do grande sacrifício nacional, aceitaríamos com estoicismo que Passos Coelho sublinhasse a sua chegada a S. Bento com o anúncio de que os subsídios de férias e de Natal ficavam sine die por conta do esforço de consolidação orçamental.

O problema é que, ao longo destes quase 16 meses, contrariando a sábia recomendação de Maquiavel (o mal deve ser feito todo de uma vez, ao contrário do bem, que deve ser administrado em prestações), o Governo não para de anunciar a conta- -gotas mais medidas de austeridade - e são cada vez mais as vozes de economistas (como João Duque e Augusto Mateus) a avisar que daqui a um ano, quando estivermos a discutir o OE de 2014, vamos estar na mesma (ou seja, pior) porque os remédios amargos que estamos a tomar não estão a atacar o mal de que padecemos, mas antes a aliviar alguns dos seus sintomas.

O drama é que se estas vozes estiverem certas, repetir o meu mantra - "Não é por mal que não fazem melhor. É porque não sabem" - não só não me acalmará como ainda por cima vai fazer subir mais a minha tensão arterial

Jorge Fiel

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Segunda-feira, 8 de Outubro de 2012

Não somos todos iguais

Somos todos diferentes e isso não se esgota nos rapazes terem pilinha e as meninas pipi. Somos diferentes porque reagimos de maneira diversa a um mesmo estímulo. No livro que publicou após ganhar a Champions no Porto, Mourinho faz a prova dos nove desta tese, ao contar como abordou a mesma situação - a estreia na equipa principal - com dois diferentes jogadores.

Pôs à vontade o que ele sabia que lidava mal com o stress ( "Mesmo que o jogo não te corra bem, és titular no próximo") e picou com uma ameaça o que só funcionava sob pressão: "Se deres barraca, nunca mais entras na equipa e no final da época estás na lista de dispensas".

Antes de Mourinho nos ter ensinado que é errado tratar todos os futebolistas da mesma maneira, já tínhamos aprendido com Jardim Gonçalves que os clientes dos bancos são todos diferentes e por isso é asneira tratá-los por igual.

Com cinco filhos, uma catrefada de netos (só Sofia, casada com João Teixeira Duarte, deu-lhe 14), e militante da Opus Dei, Jardim Gonçalves sabia do que falava quando avisou ser injusto tratarmos os filhos por igual, pois eles são diferentes e precisam de tratamento personalizado - e fez desta constatação a alavanca para o sucesso inicial do BCP, baseado na compreensão que não se pode dar o mesmo tratamento a Américo Amorim e a uma "caixa" do Pingo Doce.

Tal como futebolistas, filhos e clientes do banco, os países são todos diferentes. Com as suas 1873 lojas Biedronka de "hard discount", a Jerónimo Martins é um luminoso caso de sucesso na Polónia. Mas ia naufragando quando tentou convencer a irem ao hipermercado uns polacos que viviam em apartamentos pequenos, com uma área média de 40 m2, sem espaço para armazenar as compras do mês.

A maior das riquezas da cultura europeia é a sua diversidade, pelo que é errado tratar todos os países da mesma maneira; Moutinho estava tramado se tratasse da mesma maneira um bávaro e um andaluz.

Para acudir à crise das dívidas soberanas, os bombeiros da troika improvisaram uma receita única para combater o fogo, que aplicaram indistintamente em climas, solos e paisagens tão diversas como a grega, a irlandesa e a portuguesa.

Na sua boa fé, Passos Coelho diz que sabe para onde vamos. O problema é que há cada vez mais gente e estatísticas capazes de jurar que ele está a ir no caminho errado, enganado pelo GPS da troika.

Se calhar chegou a altura para, sem dramatismos e com a Oposição a demonstrar sentido de Estado - resistindo a gritar criancices do tipo "nós tínhamos avisado"-, nos sentarmos à mesa com a troika para produzir um trabalho de alfaiataria, ajustando o programa de ajustamento e substituindo a receita pronto a vestir por um fato feito à medida às idiossincrasias do nosso corpo. É muito diferente a temperatura do sangue que corre na veia dos gregos e do alemães. Os países são todos diferentes. É errado tratá-los todos da mesma maneira.

Jorge Fiel

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Domingo, 7 de Outubro de 2012

Dez milhões de sportinguistas

Sou portista, mas tenho uma certa simpatia pelo Sporting. Deve ter a ver com o equipamento. Aquelas camisolas às riscas horizontais verdes e brancas rimam com o relvado, principalmente nos jogos à noite. E devo dizer que a camisola Stromp também tem um encanto muito vintage.

O Sportem, como pronunciam os leões com pedigree, pode não ganhar dois campeonatos seguidos há 58 anos, pode estar mais dez anos sem ir para o Marquês festejar o título, pode perder três competições no curto lapso de semana, mas nada disto belisca a inabalável fé dos seus adeptos em que "este ano é que vai ser" (convicção mantida até algures entre o início do outono e o Natal) ou "para o ano é que vai ser".

A capacidade sportinguista para formar nove em cada dez dos nossos melhores futebolistas (Futre, Figo, Ronaldo, João Moutinho, Quaresma, etc....) e, depois, retirar disso pobre partido tem todos os condimentos de uma maldição, iniciada com Eusébio (raptado pelo Benfica após ter crescido no Sporting de Lourenço Marques), e apenas doura a imagem romântica de um clube azarado, estoicamente apoiado por um regimento de sofredores indefetíveis, fortes por saberem que o verde é a cor da esperança.

A cultura otimista do "para o ano é que vai ser" apoderou-se dos gabinetes dos administradores da SAD, como é evidente se dermos uma vista de olhos nas contas de 2011/12 e previsões para 2012/13.

No último exercício, o Sporting registou um prejuízo de 46 milhões de euros, alarmante na medida em que é superior aos 40 milhões de euros das receitas. Mas estas nuvens negras não são suficientes para deitar abaixo a confiança no futuro dos administradores leoninos que antecipam para o exercício em curso (2012/2013) um aumento de 40% nas receitas!

Não é belo prever um crescimento de 40% nas receitas num país em recessão? Não é magnífico esperar obter mais quatro milhões de euros em receitas de novos sócios numa época desportiva em que a maior alegria dos adeptos foi a suada vitória caseira sobre o Gil Vicente?

Os sportinguistas são um exemplo para o país. Se eles acreditam ser possível venderem neste ano mais quatro milhões de euros de camisolas, por que é que nós haveremos de duvidar de Vítor Gaspar quando ele diz que até 2014 vai cortar quatro mil milhões na despesa do Estado?

Se os sportinguistas acreditam que vão conseguir nesta época mais 4,5 milhões de euros em patrocínios, por que é que haveremos de duvidar quando Gaspar nos garante que daqui a um ano a nossa economia vai estar a crescer?

Os sportinguistas são um exemplo para um Portugal que se parece cada vez mais com o Sporting. Quando afirmou que os portugueses são o melhor povo do Mundo, o ministro das Finanças estava a sonhar com um país povoado por dez milhões de sportinguistas.

Jorge Fiel

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Sábado, 29 de Setembro de 2012

Visca Catalunya lliure

No sábado, primeiro dia de dezembro de 1640, quarenta fidalgos levaram a cabo um bem sucedido golpe palaciano, defenestrando Miguel de Vasconcelos, o representante em Lisboa do governo de Madrid, chefiado pelo conde-duque de Olivares, e aclamando rei D. João duque de Bragança.

Esta versão resumida da Restauração tem, de acordo com os historiadores, uma pequena incorreção (os conjurados seriam 107, não apenas 40), mas todos eles sublinham que o sucesso do golpe se ficou a dever ao facto de na primavera desse ano de 1640 ter rebentado uma rebelião da Catalunha, cujo esmagamento os conselheiros de Filipe IV consideraram prioritário sobre uma intervenção em Portugal.

Ou seja, se não fossem os catalães, muito provavelmente Portugal seria agora mais uma das autonomias de Espanha, tal como a Galiza ou o País Basco, em tensão permanente com o centralismo castelhano.

Apesar de não ter a certeza de que estejamos melhor a ser explorados por Lisboa em vez de por Madrid, sempre senti uma enorme simpatia pelos catalães que involuntariamente favoreceram a nossa libertação. Torço pelo Barça, que é o meu segundo clube. O Viatge a Itaca, de Lluis Llach, está no meu top ten dos melhores álbuns de sempre. Sou viciado nos policiais de Vásquez Montalbán. E, sim, Madrid é uma bela cidade, mas Barcelona, bem Barcelona é outra coisa.

Fartos de Madrid, os catalães iniciaram o caminho que os levará à independência. Faz sentido porque a Catalunha é uma nação, com cultura e língua próprias. Faz sentido, porque tudo leva a crer que a maioria dos seus habitantes querem ser independentes. Faz sentido porque os ventos da História sopram na direção de uma Europa federal e multipolar.

Para sobreviverem, as empresas souberam adaptar-se à mudança, substituindo o modelo de governo centralizado, vertical e fortemente hierarquizado - fonte de desperdício de recursos e pai de muitas decisões erradas - por outro concêntrico, mais eficaz e onde o poder está distribuído (empowerment).

Para sobreviverem, os aparelhos de Estado têm de imitar as empresas, o que implica a destruição de estados artificiais (como o espanhol) e pôr em marcha um processo irreversível que combine federalismo e desconcentração de poder.

A Noruega tornou-se independente da Suécia. A Eslováquia separou-se da República Checa. A Jugoslávia explodiu, dando lugar a Eslovénia, Croácia, Sérvia, etc.. É um erro estúpido pensar que o mapa da Europa é um desenho acabado.

A Catalunha quer e vai ser independente. Será o rastilho do fim do Estado espanhol tal como o conhecemos. A seguir será a vez dos bascos se emanciparem de Madrid . Depois, talvez os galegos. Todos os povos peninsulares ganharão com uma Ibéria multipolar. É nesta direção que sopram os ventos da História, Visca Catalunya lliure! (Viva a Catalunha livre!)

Jorge Fiel

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Segunda-feira, 24 de Setembro de 2012

Temos de deixar de ser lorpas

Há um par de meses, António Costa pôs o dedo no ar, declarando-se indisponível para guarda- redes do Benfica mas apto para liderar o PS. Estou 200% de acordo. Tudo é possível desde o episódio Roberto. E Dino Zoff foi campeão do Mundo aos 40 anos. Mas o António tem crescido para os lados os centímetros que lhe faziam falta em altura e não é novo - tem 51 anos e com essa idade já nem o Benje era guarda-redes.

Acho que ninguém, nem mesmo o atual secretário-geral, tem dúvidas. Costa é o socialista mais apto para liderar o partido. É tão melhor que até se resguarda na Câmara de Lisboa enquanto Seguro faz de lebre na corrida de fundo em que a meta são as legislativas de 2015. Só na última volta é que ele vai saltar do pelotão para sprintar e tentar a vitória eleitoral.

O Costa sabe-a toda. Sabiam que teve a arte de vender os esgotos de Lisboa à EPAL por 100 milhões de euros? Ou seja, que nós, contribuintes de todo o país, pagámos uma fortuna para sermos donos das tubagens onde circulam águas limpas e sujas evacuadas por meio milhão de lisboetas e provenientes das suas sanitas, lavatórios e urinóis? Cheira bem, cheira a Lisboa? Até me arrepio só de pensar nisso!

Sabiam que vamos comprar por seis milhões de euros os terrenos onde está o CCB? Sabiam que lhe pagámos 286 milhões de euros para Lisboa não atrapalhar a privatização da ANA e reconhecer a propriedade do Estado sobre os terrenos do aeroporto, alvo de disputa porque, quando os adquiriu, Duarte Pacheco acumulava o Ministério das Obras Públicas com a presidência da Câmara de Lisboa e havia dúvidas sobre qual conta passou o cheque?

O António é um finório que aproveita o dinheiro que lhe damos para brilhar, alindando Lisboa com obras tão catitas como a pasteurização do Intendente, enquanto a SRU Porto Vivo não tem dinheiro para mandar cantar um cego.

Ele é finório e nós somos burros se não aproveitarmos o caminho desbravado. Após dez anos em que ficou a meio caminho entre o sujeito e o complemento direto, Rio parece ter finalmente percebido que nas relações com o Terreiro do Paço não pode ter medo de usar os cotovelos e deve falar alto e com voz grossa - com um pau na mão direita e um frasco de mel na esquerda.

Os terrenos do Sá Carneiro foram comprados pela Câmara do Porto. Pois bem, Rui, não sejas parvo, ameaça sabotar a privatização da ANA se não formos indemnizados.

Em 2004, na conversão da STCP em SA de capitais públicos, o Estado apropriou-se de terrenos e prédios que eram do município. Pois bem, Rui, fazes muito bem em exigir que ou nos devolvem os imóveis ou nos pagam uma indemnização.

E a imaginação é o limite. Por que não vendermos o Parque da Cidade à Cristas (tem a tutela do Ambiente), por uns 100 milhões de euros? Por que não vender os terrenos da Casa da Música ao Viegas (manda na Cultura) por uns dez milhões? Temos de deixar de ser lorpas.

Jorge Fiel

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Sábado, 22 de Setembro de 2012

Por uma chuva democrática

Os putos recusam-se a andar de guarda-chuva. Eu compreendo-os perfeitamente. É muito chato andar com uma das mãos ocupada por um chuço, esteja ele aberto ou fechado. Depois ainda há as contrariedades laterais. Não sei como é convosco, mas eu, se calhar de entrar num café ou loja e à saída não estar a chover, é garantido que me esqueço dele lá dentro. Mais. Se o arrumo no bengaleiro é certo e sabido que quando voltar para o pegar ele não vai estar lá - há sempre alguém que fez de conta que o levou por engano e a melhor hipótese é que esse alguém tenha deixado um com duas varas partidas.

O problema é que quem anda à chuva molha-se - e passar um dia como os pés molhados e a roupa a secar colada ao corpo é ainda mais chato que a maçada de andar a passear um guarda-chuva, ainda por cima correndo o enorme risco de o perdermos ou de ele ser roubado ou trocado.

A minha política em relação ao uso do guarda-chuva é muito simples. Só o levo comigo se estiver a chover no momento em que saio de casa, do carro ou do jornal. Senão arrisco. Sei que não é prudente, mas tenho confiança no mercado, que funciona pior no Porto do que em Lisboa, onde basta caírem umas gotinhas para aparecer logo gente a vender guarda-chuvas em todos os acessos ao metro, mesmo que se trate de um dia de verão que que amanheceu com um sol radioso.

Como todos sabemos, a chuva forma-se nas nuvens, pelo que não nos podemos espantar que, de há três anos a esta parte, esteja a chover com tanta e crescente intensidade no nosso país e que cada dia que passa o céu esteja mais ameaçador e pejado por nuvens ainda mais negras.

O grande drama é que a chuva não molha a todos por igual. Há pessoas - estou a referir-me, por exemplo, a desempregados de longa duração e reformados com pensões baixas - que desgraçadamente têm sido atingidas por um temporal de chuva e vento tão inclemente que já lhes deu cabo do guarda-chuva. Por isso estão a tremer, enregeladas e molhadas até aos ossos.

Há outros, como eu - estou a falar dos que ainda têm trabalho e salário -, que têm sido mais felizes, pois só apanham aquela chuva de molha-todos, que se consegue suportar bem se usarmos gabardina comprida e um daqueles chapéus impermeáveis que são muito baratos nas lojas dos chineses.

Tudo leva a crer que Passos Coelho não é cego, nem surdo, não confunde determinação com intransigência e aprendeu com Mário Soares que só os burros não mudam de ideias. Só falta demonstrar que não é mudo e anunciar que errou no dossiê TSU.

Mas, por favor, não façam confusão. A tempestade pode passar, mas o mau tempo continuará. Se com toda esta austeridade em 15 meses o Governo só conseguiu cortar 1,5% no défice orçamental, vai ter de chover muito para que em 24 meses seja possível abater mais 4%

Para que possamos suportar estoicamente a chuva é urgente que ela seja democrática e atinja todos por igual - em particular os privilegiados que são useiros e vezeiros em passar pelo intervalo da chuva.

Jorge Fiel

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Quarta-feira, 19 de Setembro de 2012

Passos anda a jogar ao sete-e- meio

 Sabem jogar ao sete-e-meio? É muito simples. Usam-se apenas 40 cartas do baralho, ficando de fora oitos, noves e dez. As figuras valem meio, o ás conta por um e as outras cartas, do duque à manilha, são contabilizadas pelo seu valor nominal.

O banqueiro dá uma carta, escondida, a cada jogador, que tem de decidir logo se fica ou se quer mais uma - e nesse caso tem de escolher qual delas fica aberta na mesa, se a nova ou a primeira - e assim sucessivamente até optar por parar.

No final, o banqueiro (chamado de dealer, na versão internacional do jogo, que dá pelo nome de blackjack, usa o baralho todo, tem um sistema de contabilização um pouco diferente em que a meta é fazer 21 pontos) vai tirando cartas para si até se dar por satisfeito.

Quem fizer mais de sete e meio rebenta - ou seja, perde. Em caso de empate, ganha o banqueiro. O objetivo de cada jogador é fazer sete e meio. Se o conseguir fica com a banca, isto se o banqueiro não tiver a sorte de igualar a pontuação que dá o nome ao jogo.

Se pensarmos bem, a nossa vida, em todos os seus aspetos - desde o profissional ao afetivo, passando pelo social - é uma sucessão permanente de jogos de sete-e-meio.

Encontrar a nossa companhia perfeita é como jogar ao sete-e-meio. Temos uma sena e temos de tomar uma decisão. Ficamos ou pedimos mais uma carta? Jogamos pelo seguro ou vamos tentar ser mais felizes, perseguindo o sete e meio?

A equação da decisão de mudarmos ou não de emprego é igual à do jogador do sete-e-meio. Tens uma quina e um duque - sete pontos, portanto. Ficas-te ou pedes mais uma carta, na esperança que te saia uma dama, valete ou rei? Jogas pelo seguro ou vais tentar fazer sete e meio, apesar de correres o risco de rebentares?

Os políticos também estão sempre a jogar ao sete-e-meio. Passos Coelho tinha na mão um terno e uma figura. Três e meio. Como se tratava de jogo era demasiado baixo para ganhar e precisava de fazer sete e meio para igualar o resultado de um jogador, arriscou a cartada de transferir dinheiro do salário dos trabalhadores para os bolsos dos patrões, através de mudanças na TSU, que se revelou desastrosa. Saiu-lhe um sete e ele fez dez e meio. Rebentou com estrondo, perdendo a banca e a iniciativa do jogo.

O drama do primeiro-ministro é que tudo leva a crer que só lhe resta uma única oportunidade para ir a jogo e recuperar a iniciativa. É na sexta-feira. O busílis é que não lhe basta ganhar, ter a sorte de lhe sair uma sete como primeira carta e ficar-se. Não. Tem de fazer sete e meio para reganhar a banca.

Para conseguir esse jogo perfeito, Passos não pode ter medo de ousar recuar na sua proposta peregrina sobre a TSU. Porque, como nos avisou Kierkgaard, ousar é perder momentaneamente o equilíbrio. Mas não ousar é perder-se.

Jorge Fiel

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Sábado, 15 de Setembro de 2012

Viver abaixo da nossa inteligência

Sou hipertenso e ando sempre com o nível do colesterol mau perigosamente encostado ao máximo aceitável. Uma porra. Apesar disso, considero- -me um tipo calmo, sem mal-entendidos com a vida, capaz de rir das minhas próprias asneiras e defeitos, que não se leva demasiadamente a sério. Sou moderadamente otimista e confiante no futuro. Não sou daqueles que olham para os dois lados antes de atravessar uma rua de sentido único.

Peço muita desculpa por vos estar a maçar com este resumo da maneira como me vejo ao espelho, mas antes de comunicar que começo a ficar intranquilo relativamente ao rumo que as coisas estão a levar no nosso país, achei importante garantir-vos que não sou daquelas pessoas excitadas e nervosas, que desatam aos berros por tudo e por nada. Pelo contrário. É preciso alguém ser muito irritante, uma sumidade na arte da arreliação, para me fazer elevar a voz e tirar o sorriso.

Estamos a viver a ressaca dolorosa dos excessos de crédito e a tentar pôr em ordem as finanças públicas depois da sua fragilidade ter sido brutalmente exposta pelo rebentar da crise financeira internacional.

Quem já alguma vez abusou do álcool sabe que no essencial há duas maneiras de aliviar o mal-estar de uma ressaca. E o caminho mais adequado e correto não é o mais fácil, que consiste em beber para restabelecer um determinado nível de álcool no sangue.

É muito chato, mas o que é válido para a ressaca dos excessos de consumo de álcool também é para a ressaca dos gastos excessivos - apesar de ser tentador e extremamente popular atenuar as dores da violenta austeridade draconiana a que estamos sujeitos.

Compreendo perfeitamente a raiva dos desempregados e reformados, dos funcionários públicos e dos trabalhadores do privado, para quem é cada vez mais duro e difícil chegar ao fim do mês, e que hoje vão sair à rua para manifestar a sua revolta e descontentamento. Não só os compreendo, como também os apoio.

Mas não posso compreender - e muito menos apoiar quem tenta capitalizar em seu proveito este justo descontentamento, apesar de ser tão (ou até mais) responsável pelo dramático aperto em que vivemos. Tanto mais que desconfio seriamente de que se estivessem no Governo não teriam outro remédio senão aplicar receitas de austeridade - talvez com mais competência e dourando melhor a pílula, mas nem disso tenho a certeza.

Começo a ficar intranquilo porque desconfio de que depois de termos vivido acima das nossas possibilidades começamos a viver abaixo da nossa inteligência.

Por isso, devemos escutar a voz do bispo do Porto, que sugere tiremos partido da sabedoria dos mais velhos, criando um Senado de Seniores que aconselho o Governo.

É já muito claro que faltam cabelos brancos que aconselhem quem manda, quer no Governo quer na Oposição, lembrando a Passos que estratégia sem tática é o caminho mais lento e difícil para se alcançar a vitória e a Seguro que tática sem estratégia não passa de ruído.

Jorge Fiel

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Sexta-feira, 14 de Setembro de 2012

Cavaco, talentoso ventríloquo

 

Com a idade mudou muito a maneira como manifesto a minha indignação. Adolescente, e nos tempos da Outra Senhora, apedrejei bancos, símbolos odiados de um capitalismo financeiro que vivia com a língua na boca do Estado Novo. Com o correr dos anos fui acalmando, seguindo um guião que afinal eu sabia de cor e salteado, pois tudo estava dito e explicado na letra da canção "Father and son", de Cat Stevens.

Como tenho para mim que votar é um direito (de que não abdico) e não um dever, vou demonstrando a minha indignação face à pobreza franciscana da oferta partidária de políticas e políticos optando por me abster nas eleições.

Senti-me um tudo nada desconfortável com esta maneira suave e passiva de exprimir a indignação, até ter a sorte de tropeçar numa frase saída da pena do grande Camilo - "A paciência é a riqueza dos pobres" - que deu cimento teórico à minha atitude pouco ativa.

Para evitar confusões, esclareço desde já que nada me move contra formas mais radicais de expressão da indignação, contanto que não resvalem para lá do aceitável, como no caso do inquilino revoltado de Gulpilhares que matou com um tiro a senhoria que o ia despejar.

Já não tenho nada contra (na verdade, até achei graça) ao cidadão ribatejano que, indignado com a política de austeridade aplicada pelo Governo, atirou um ovo à cabeça de Assunção Cristas, mas tendo tido o cavalheirismo de falhar o alvo e o bom gosto de usar um ovo são - e não um ovo podre.

Um ovo, como também o seria um tomate, é o objeto adequado para arremessar à ministra da Agricultura e até pode inaugurar uma alegre série de arremessos temáticos.

Estou a pensar, por exemplo, em protestos que contemplem bombardear Aguiar-Branco com aviões de papel, atingir o ministro Álvaro com mealheiros vazios, lançar miniaturas de submarinos contra Portas, ou atirar moedas (apenas de um ou dois cêntimos) à tola do Gaspar.

O Gastão, neste particular das modalidades de expressão da indignação, é o nosso presidente da República, um talentoso ventríloquo que pode dizer o que pensa mantendo a boca fechada, mesmo sem o auxílio de bolo-rei.

Cavaco tem a sorte de poder falar através de porta-vozes oficiosos, como o Alexandre Relvas, que acusou o primeiro-ministro de não perceber patavina do que se passa nas empresas, ou a Ferreira Leite, que apelou à revolta dos deputados da maioria contra Passos (que ela, quando era líder do PSD, impediu de ser deputado) e desculpou o seu velho amigo Aníbal, explicando aos romeiros que demandam Belém que nada podem esperar do PR, pois ele está atado de pés e mãos.

O PR tem cá uma destas sortes... Se fosse a ele, jogava no Euromilhões, a ver se deixa de ter de se preocupar com o dinheiro.

Jorge Fiel

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Terça-feira, 11 de Setembro de 2012

O monstro precisa de amigos

Só pode ter a ver com a idade, mas começo a ficar farto do paleio dos treinadores de bancada que, quando tomam de ponta um jogador, não param de implicar com ele. Se dribla, dizem que tem a mania que é artista e devia ter rematado. Se remata, chamam-lhe guloso e argumentam que devia ter passado. Se passa, acusam-no de ser um cortão, pois devia ter rematado.

O que já não tem a ver com a idade, pois sou assim desde pequenino, é o complexo de Robin dos Bosques que me leva a torcer sempre pelos mais fracos - a não ser que o Porto ou Portugal estejam em jogo.

O complexo de Robin dos Bosques, somado ao esgotar da paciência com os treinadores de bancada, leva-me a ter pena dos patinhos feios e a uma simpatia instintiva por quem se vê no ingrato papel de saco de pancada em que toda gente molha a sopa.

Dou por mim a sentir pena de Passos Coelho, que além dos inevitáveis (e expetáveis) insultos e cuspidelas, murros e pontapés, oriundos da Oposição e sindicatos, está a receber as sempre desagradáveis facadas nas costas aplicadas pela sua gente: barões laranja, notáveis do CDS e empresários - o que é cruel, pois, como nota Pedro Santos Guerreiro, num duro editorial no "Jornal de Negócios", nunca um Governo foi tão amigo dos empresários.

A coisa chegou ao ponto de Alexandre Relvas - empresário e porta-voz oficioso de Cavaco, de quem foi o Mourinho em campanhas passadas - lhe chamar ignorante, acusando-o de desconhecer a realidade das empresas.

Sei que a margem de manobra do Governo é muito reduzida, para não dizer nula. Mas, infelizmente, não tenho a certeza de que a receita da troika seja a adequada para nos tirar do buraco em que nos enfiámos. E acho profundamente injusto que a quase totalidade dos sacrifícios corram por conta das famílias.

Compreendi quando em outubro de 2011, com a candura que o carateriza, Gaspar explicou que "era mais fácil e mais rápido aplicar impostos do que mudar o funcionamento do Estado". Mas, caramba, já se passou quase um ano, e continua a ser o mexilhão a sofrer. E acho que Passos Coelho ainda não percebeu que em economia as palavras pesam tanto como os números - e que o objetivo não está sempre colocado para ser atingido, mas para servir de ponto de mira, de orientação.

O problema é que não sei até quando vamos conseguir aguentar, com abnegação e estoicismo, os sacrifícios necessários para pagar os desvarios dos sucessivos governos que nos desgovernaram.

O problema é que ainda não consegui descortinar, no meio das justas críticas aos excessos da austeridade, quem esboçasse uma credível via alternativa à equação "Ou nós (coligação troika/Passos) ou o dilúvio (tragédia grega)", que continua a ser o ás de trunfo deste Governo.

Sem desprimor para os treinadores de bancada, Goethe estava cobertinho de razão quando escreveu que pensar é fácil, agir é difícil - e agir conforme o que pensamos é ainda mais difícil.

Jorge Fiel

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Sexta-feira, 10 de Agosto de 2012

Ida à Guerra de 1908, parte II

Despedido da farmacêutica onde trabalhava por ter partido um comprimido, foi parar à Guerra de 1908 após ter respondido a uma anúncio do jornal que pedia um soldado que matasse muito depressa. A guerra ainda estava fechada quando lá chegou, de táxi, às sete da manhã.  A mulher que estava à porta, a vender castanhas, informou-o que se tinha enganado. Ali era a Guerra de 1906. Tinha de subir dois anos.

Já passava das nove quando chegou à Guerra de 1908, que tinha acabado de abrir. Deram-lhe seis balas e estava ele a matar, muito quentinho, quando o capitão o mandou de espia para a guerra do inimigo, com a misão de trazer os planos da pólvora. Não os trouxe, mas aproveitou para comer uma cabeça de pescada com o capitão da guerra do inimigo.

Quando regressou, a Guerra de 1908 tinha acabado, após uma visita de um fiscal que descobriu que estavam ilegais, pois não tinham licença de porte de armas.

A Ida à Guerra de 1908, de Raul Solnado, é muito divertida. Até tem um soldado que se comunica ao capitão ter feito um prisioneiro  - e quando questionado sobre o seu paradeiro, esclareceu que não o tinha trazido pois o prisioneiro era  teimoso e não tinha querido vir.

Mas tão ou mais divertidos que os pormenores ficcionais da Ida à Guerra de Solnado são os cómicos episódios da vida real que desgraçadamente são regularmente fornecidos pela vasta e complexa nebulosa teia de corporações  das nossas forças de segurança– PSP, GNR, SEF, ASAE, PJ, Polícia Marítima, Polícia Municipal... – com a tutela dispersa por quatro  ministérios (MAI, Justiça, Economia e Defesa), o que já de si chega para dar uma ideia da eficácia do sistema.

 Há dois anos, por ocasião da Cimeira da Nato, em Lisboa, um barco da Marinha tentou fiscalizar uma lancha da GNR que, por sua vez,  ia fiscalizar os pescadores. E foi uma sorte a Polícia Marítima não ter aparecido. Marinha, GNR e Polícia Marítima atropelam-se na fiscalização do mar, não trocam informações, há tarefas sobrepostas, ou seja há despesas que podiam e deviam ser reduzidas. E em terra a situação não é muito diferente.

O desperdício de recursos gera situações tão lamentáveis como a PSP ter 778 carros (15% da sua frota) parados à porta das esquadras, avariados ou sem dinheiro para combustível, há agentes que têm de levar papel higiénico de casa - e a direção nacional pediu para reduzirem as descargas do autoclismo e terem a televisão ligada só durante os telejornais.

Neste cenário de confusão e miséria, não compreendo porque é que Passos Coelho não avança com a unificação da PSP, PJ e SEF numa Polícia Nacional, que permitiria uma redução imediata de 30% das chefias. Será porque a ministra da Justiça (que acolheu debaixo das suas saias a causa isolacionista da PJ) se opõe a esse projeto?  Se a resposta for sim, temos de dar razão a Proença de Carvalho: falta pulso ao primeiro ministro.

Jorge Fiel

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Terça-feira, 7 de Agosto de 2012

O direito a ser fábrica descoberta

Desde que nasci o meu corpo tem sofrido importantes modificações, e não me refiro às externas e óbvias, como o crescimento desmesurado da barriga ou a deserção massiva de cabelos (teria preferido que ficassem brancos, mas eles optaram por cair...).

Estou a falar de partes do equipamento de origem que me foram sendo retiradas, como as amígdalas, o pedaço de pele que cobria a cabeça do meu pénis e a vesícula. Curiosamente, mantenho o apêndice.

Tinha seis anos e andava a deixar de ser analfabeto na primária do Bonfim quando sofri uma infeção nas amígdalas. O médico foi perentório a recomendar-me a extração. Os meus pais aceitaram. Fui operado e fiquei sem elas.

No início da minha adolescência, ao verificar que a pele que cobria a cabeça da minha fábrica de fazer meninos não corria atrás com a eficiência necessária, um outro médico aconselhou a que eu fosse submetido a uma operação de circuncisão. Os meus pais concordaram.

O dias foram dolorosos até serem retirados os pontos, que tinham sido dados quando o pénis estava no tamanho mínimo e por isso qualquer variação, mínima que fosse (e toda a gente sabe que o calor dilata os corpos) no seu estado, era suscetível de proporcionar dores, que podiam ser excruciantes se calhava de subir atrás de uma moça de minissaia as escadas para o primeiro andar do autocarro da linha D. Isto para já não falar nas noites em que a Gina Lollobrigida me aparecia em sonhos e eu acordava aos berros ...

Mal os pontos saíram, o tormento acabou e não tenho razão de queixa (antes pelo contrário) de ser aquilo que em linguagem popular se designa no Porto como fábrica descoberta. Também não me queixo por não ter amígdalas - apesar de, um par de anos após ter ficado sem elas, a comunidade médica ter passado a valorizar o seu papel protetor.

Como já foi tirada comigo adulto, a vesícula não vem ao caso, que é a decisão de um tribunal de Colónia de proibir a circuncisão de crianças, alegando tratar-se de uma violação da sua integridade física praticada em nome da religião dos seus pais.

Esta deliberação do tribunal alemão, tomada na sequência de uma queixa apresentada por uns pais muçulmanos que não gostaram de que o seu filho de quatro anos fosse circuncidado, irrita-me e abre um precedente muito perigoso.

Os muçulmanos têm o hábito de deixar crescer a barba. E os judeus têm o hábito de circuncidar os filhos. O que não quer dizer que quem use barbas seja muçulmano e que todos os circuncidados sejam judeus. Eu não sou muçulmano, apesar de seis em cada sete dias da semana andar com a barba por fazer, e não sou judeu, apesar de ser fábrica descoberta desde os 14 anos.

O facto de os judeus terem o hábito de circuncidar as crianças não pode servir de pretexto para lançar um anátema sobre essa prática e para os tribunais se imiscuírem num campo como o da Medicina - para o qual não estão habilitados a arrotar postas de pescada.

Jorge Fiel

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Sexta-feira, 3 de Agosto de 2012

Será Costa o goleador de que o PS precisa?

Acho imensa graça às frases que os futuros líderes do PS arranjam para espetar nas costas dos futuros ex-líderes do seu partido. Orador brilhante (melhor que Mário Soares) e bom ator (pior que Soares), António Guterres esteve ao mais alto nível das suas capacidades histriónicas na noite das legislativas de 1991, quando confessou, perante as câmaras de televisão, estar em estado de choque com os resultados do PS (29,13%), declarando assim abertos os preparativos do funeral da curta liderança de Jorge Sampaio no partido.

Ao apanhar, na mesmo noite, a banhada da segunda maioria absoluta do PSD (50,6%) e o estado de choque de Guterres, Jorge Sampaio não teve remédio senão deixar o lugar de secretário-geral e entrincheirar-se na Câmara de Lisboa a preparar uma bem sucedida candidatura a Belém, que lhe permitiu vingar-se de Cavaco.

Os cinco anos de governo guterrista foram um preço demasiado elevado que tivemos de pagar para aprendermos que querer agradar a todos é a receita certa para o falhanço, mas valha a verdade que Guterres saiu com estilo, quando, após a estrondosa derrota nas autárquicas de 2001, explicou que se demitia para evitar que o país caísse no "pântano democrático", abrindo assim duas portas ao mesmo tempo: a de S. Bento a Durão Barroso e a do Largo do Rato a José Sócrates.

Após uma década de paz socrática (o equivalente socialista à década de pacificação interna de que o PSD beneficiou no consulado de Cavaco), volta a ouvir-se, no interior do PS, o ruído de botas, prenúncio de guerra.

Para comemorar o primeiro aniversário da liderança (?) de Seguro, António Costa resolveu fazer uma prova de vida através de uma entrevista à Lusa, em que arranjou uma formulação mais palavrosa que o "estado de choque"de Guterres (mas muitíssimo mais divertida) para comunicar que vai ser líder do PS - só não se sabe é quando.

"Se me perguntar se eu posso ser guarda-redes do Benfica, digo-lhe claramente não posso ser guarda- -redes. Ser secretário-geral é diferente. Acho que tenho algumas qualidades que poderia mobilizar a favor dessa função", confessou Costa.

Ele acha que tem "algumas qualidades" para ser secretário-gera l e eu acho a frase deliciosa, a começar pela imagem (se bem que desde que vimos Roberto na baliza do Benfica já nada nos pode espantar neste particular) e acabar no uso do condicional - "algumas qualidades que poderia mobilizar a favor dessa função".

Nesta semana ficamos a saber de ciência certa uma coisa de que já desconfiávamos. O camarada Seguro é mais um temporário. Está a aquecer o lugar para Costa ocupar quando entender chegada a hora de pôr a cabeça de fora. E como está a prazo, Tozé pode estar, como o outro, a lixar-se para as eleições.

A única interrogação que fica no ar é a de saber se António Costa será o ponta de lança que o PS necessita para marcar os golos que o levem de volta ao poder.

Jorge Fiel

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Quarta-feira, 1 de Agosto de 2012

Só aceitaria substituir o Portas

Há uma data de gente que se entretem a imaginar o que faria se ganhasse o Euromilhões. Eu não perco tempo com essa fantasia por várias razões e mais uma - seria uma fantasia completamente idiota, pois nunca apostei no Euromilhões, nem tão-pouco no Totoloto. Joguei uma meia-dúzia de vezes no Totobola e apenas uma vez na Lotaria, e com o único intuito de evitar fazer má figura, quando em 1979 fui convidado pelos meus colegas da Revisão do nosso JN a comparticipar na compra de um bilhete inteiro para o sorteio da taluda de Natal. Não saiu nada.

Não quero com isto dizer que de vez em quando não me entregue aos meus devaneios, como, por exemplo, o que faria se me convidassem para o Governo. E já tenho algumas certezas relativamente a esta situação.

Recusaria liminarmente qualquer convite para secretário de Estado. Considero que a minha experiência, idade e estatuto são incompatíveis com a aceitação de um lugar subalterno no Governo. Possuo excesso de habilitações para o cargo.

Já quanto a ministérios, tenho assente que só aceitaria de caras o dos Negócios Estrangeiros, que é um emprego de sonho.

Não chateava ninguém, fartava-me de viajar, fazia declarações às televisões, à partida e à chegada da Portela, e enchia o gabinete com molduras bonitas de fotografias minhas a dar um beijo à Merkel, um passou-bem a Hollande e sentado junto à lareira da Casa Branca na amena cavaqueira com o Obama.

Não tenho a menor das dúvidas de que se remodelasse o guarda-roupa (os meus fatos da Alto by Maconde estão a ficar cheios de lustro) e me escanhoasse, com cuidado, todos os dias, em menos de dois meses já seria percecionado pelos eleitores como um estadista.

No caso de o convite ser para outras pastas, já tenho uma resposta decorada: "Sinto-me muito honrado com o convite, que agradeço, mas há coisas que não sei fazer ou não tenho motivação para fazer". A frase não é original - a partir da segunda vírgula, é uma cópia da desculpa que António Vitorino arranjou quando decidiu não se candidatar à liderança do PS, a seguir à demissão de Ferro Rodrigues - mas temos de concordar que é muito boa, e, como agravante, verdadeira, já que cobre as duas situações possíveis.

Há coisas que não sei fazer - sei, por exemplo, estar desprovido das competências exigidas a um ministro das Finanças. E há coisas que não tenho motivação para fazer - como, por exemplo, sentar-me nas cadeiras elétricas que são os ministérios da Educação, Saúde ou Justiça.

Estou consciente de que ao partilhar este devaneio de uma noite de verão, arrisco seriamente a ser adjetivado de presumido e egoísta. Não me importo. Acho que o Mário de Sá-Carneiro estava cobertinho de razão quando disse que em terra de doidos quem tem juízo passa por doido. E nesta terra de doidos, nunca correremos o risco dos lugares de secretários de Estado e ministros ficarem por preencher.

Jorge Fiel

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Segunda-feira, 30 de Julho de 2012

O Governo está a ficar para trás

A troika só cá está há pouco mais de um ano, mas acho que quase todos nós já nos começámos a habituar a esta nova normalidade, em que o emprego passou a ser um bem precioso, escasso e irremediavelmente precário, recebemos menos, os bancos deixaram de nos querer impingir dinheiro e passaram a interessar-se pela nossa poupança, e pagamos mais pelos bens (por cortesia dos aumentos do IVA) e serviços, como a eletricidade, água, transportes, educação, saúde e comunicações, etc.

O grande trambolhão do consumo interno privado - que registou, em 2011 , a maior queda desde que há estatísticas e continua a cair - é a prova dos nove de que as famílias portuguesas se estão a ajustar e a começar a entender, se bem que à força (se calhar não não podia ser de outra maneira), que o importante não é aquilo que temos, mas antes aquilo que somos.

Eu próprio já despi os hábitos de consumo desenfreado, ganhos nos tempos do dinheiro fácil e barato, em que fui acumulando furiosamente livros que não sei quando vou conseguir ler e discos que não sei quando vou conseguir ouvir, em regime de dedicação exclusiva.

A vida ensinou-me que o mais importante não é a propriedade das coisas, mas antes o seu usufruto. E até estou, confesso-vos, um bocadinho orgulhoso com esta minha capacidade de adaptação a um novo normal, onde os nossos hábitos em relação às despesas contam mais que o salário.

O problema é que o Governo está bastante atrasado em relação a nós neste esforço de ajustamento. Não dá mostras sérias de ter percebido que os hábitos do Estado em relação às suas despesas têm de contar mais que o esforço desesperado para meter a mão nos nossos bolsos na vã tentativa de aumentar as receitas fiscais.

Os empresários privados já compreenderam que o luxo de manter empregados com mau desempenho é uma coisa do passado. O milhão de desempregados é a verdade de sangue que documenta esta compreensão, que lamentavelmente ainda não foi realmente assumida por um Governo que ainda não deu sinais de saber o que há-de fazer para eliminar os grotescos passivos das empresas públicas de transportes e emagrecer um Estado balofo e ineficiente que parece não saber viver sem gerar enorme desperdício.

Eu sei perfeitamente que pensar é fácil, agir é difícil - e agir em conformidade com o que pensamos ainda é mais difícil. Mas é indispensável regressarmos aos princípios básicos. Deve ser o Governo a trabalhar para os cidadãos e não os cidadãos a trabalhar para o Governo. E os cidadãos têm de perceber que o Estado não dá nada, apenas distribui o que recebe - e tem de reduzir drasticamente as comissões que cobra para alimentar um aparelho enxameado por sucessivas camadas de filhos das fábricas partidárias.

O Governo está a ficar para trás e infelizmente nós não podemos dar- nos a esse luxo.

Jorge Fiel

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Domingo, 29 de Julho de 2012

Vamos arriscar ser felizes?

“Hey Jude" está muito longe de ser uma das minhas canções favoritas dos Beatles. As minhas preferências neste domínio têm variado, com a idade e os humores do momento. Agora estou numa fase em que me apetece ouvir as canções de George Harrison, como "While my guitar gently weeps" (White Album) ou "Here comes the sun" e "Something" (ambas do Abbey Road).

Claro que estou sempre com disposição para ouvir todas as músicas do Sgt Peppers. Mas se me perguntarem neste preciso momento qual é, para mim, a melhor canção dos Beatles, o mais certo era eu responder a "Eleonor Rigby", uma balada curta (2m03s), triste e enigmática, que antes de constar do álbum Revolver (que o Miguel Esteves Cardoso considera o melhor de todos) foi o lado B do single Yelow Submarine, uma canção divertida mas simplória, como sempre foi o seu autor, Ringo Starr, incontestadamente o menos dotado dos Beatles.

Amar "Eleonor Rigby" (atenção que não sou o único, Bill Clinton também a elegeu como a melhor dos Beatles) não me tolda o espírito ao ponto de achar que Paul McCartney devia ter escolhido essa canção estupenda para o encerramento da abertura dos Jogos. Um hino à solidão não seria a música adequada para ser o fecho da abóbada de uma cerimónia épica, de grande arrebatamento e muito fervor patriótico.

No Outono de 1968, "Hey Jude" esteve nove semanas no top britânico. Single mais vendido dos Beatles, foi eleito pela Rolling Stone a oitava melhor canção de todos os tempos. Mas apesar destas credenciais, depois de ter visto na televisão a cerimónia inaugural de Londres 2012 adormeci intrigado a pensar nas razões que levaram McCartney a escolher esta canção para a sua última marcante exibição em público.

Acordei convencido que ele escolheu bem. Hey Jude é uma música inspiradora, fácil de trautear (parece que não, mas o "na na na na na na Hey Jude", ajuda muito) e tem uma letra otimista, que nos convida agirmos para conseguir o que queremos ("you were made to get out and get her", ou seja, deixa-te de merdas e arrisca ser feliz) e a não baixarmos os braços face à adversidade - "take a sad song and make it better", um convite explícito a nunca desistirmos de sermos e fazermos melhor.

Mas acima de tudo, os 7 minutos e 11 segundos de duração de "Hey Jude", um single lançado numa altura em que as rádios se recusavam a passar canções que durassem mais que os canónicos três minutos, são uma enorme lição. Ensinam-nos que há momentos na vida das pessoas e das sociedades em que é preciso ousar romper com as regras estabelecidas, ter a atitude aberta de responder "E por que não?" em vez de "Não" quando nos apresentam sugestões heterodoxas - e nunca temer experimentar soluções novas e diferentes. Como nos avisou o sábio Leonardo da Vinci, não se descobrem terras novas com mapas velhos.

Jorge Fiel

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Quinta-feira, 26 de Julho de 2012

Quem anda a nadar nu?

Eu sou do tempo em que o futebol era um divertimento barato. Jogava-se aos domingos à tarde, o único dia da semana livre de trabalho. Os sócios não pagavam para ir aos jogos. Os campos, tal como os comboios, dividiam-se em três classes - o peão (a pé), as superiores (a segunda classe, atrás das balizas) e as bancadas - todas com lugares expostos ao sol, ao vento e à chuva.

O futebol cresceu como uma espécie de novo ópio do povo e era o desporto favorito dos operários até que a televisão se meteu no assunto e lhe mudou a alma.

A televisão começou por aproveitar a bela campanha dos Magriços no Mundial 66 para se massificar. Milhares de famílias portuguesas aproveitaram a ocasião para comprarem o seu primeiro televisor.

Mais tarde, a explosão, um pouco por toda a Europa, de canais privados de televisão, que na sua voracidade por audiências e novas estrelas se apoderaram deste desporto, fez-se sentir em Portugal quando, em 1991, a SIC usou o futebol na campanha para que os portugueses sintonizassem o terceiro canal nos seus televisores, ao comprar os direitos para a transmissão de jogos entre F.C. Porto, Benfica e Sporting.

O futebol deixou de ser o jogo de domingo à tarde. Uma jornada em que todos os desafios se jogam ao mesmo tempo é um enorme desperdício. Por causa da televisão, passou a haver futebol à sexta à noite, ao sábado à tarde, ao sábado à noite, ao domingo ao fim da tarde, ao domingo à noite e à segunda à noite.

Ao inundarem-no de dinheiro, transformaram o futebol num negócio. O futebol ao vivo deixou de ser um espetáculo barato. Os antigos utentes do peão e da superior foram atirados para o sofá de sua casa ou a mesa de um café com Sport TV.

Agora, o futebol joga-se em estádios modernos, com lugares marcados e protegidos dos rigores dos elementos, onde as empresas alugam camarotes, ao preço de T3 com vistas para o mar, onde os convidados beberricam um copo de vinho branco enquanto apreciam a partida.

A caixa que mudou o Mundo foi a gasolina que alimentou a inflação louca que se apoderou do futebol.

Em 1980, Laurie Cunningham, a vedeta número 1 do Real Madrid, ganhava 55 salários mínimos. Hoje, Ronaldo recebe mensalmente o equivalente a 168 salários mínimos.

O futebol viciou-se nas receitas extraordinárias, em particular nas provenientes da venda dos direitos televisivos. É isso que explica a teimosa irracionalidade do Benfica em pedir 40 milhões de euros pela transmissão de 14 jogos.

O problema é que o dinheiro passou a ser um fator escasso, a publicidade está a mirrar, os patrocinadores a falir ou a apertar o cinto, os canais de televisão estão com os bolsos vazios e os Al Mansour e Abramovich já não chegam para disfarçar a crise, que inevitavelmente acabaria por chegar ao futebol. A bolha começou a rebentar. A maré começou a descer - e é só quando a maré desce que se vê quem anda a nadar nu.

Jorge Fiel

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Terça-feira, 24 de Julho de 2012

É preferível ter um filho picheleiro

 

Primeiro foi o autoclismo da casa de banho que começou a verter. Não era sempre. Tinha os seus humores. Se pressionado de determinado jeito, enchia normalmente o depósito, depois da descarga. Mas se o ativássemos de forma descuidada era capaz de ficar para ali a verter, a desperdiçar água e engrossar a conta do SMAS.

Depois foi a vez da canalização da banca da cozinha que começou a pingar e nos fez ganhar a consciência que tínhamos um problema cuja resolução não podíamos adiar mais. Pedimos ao Hélder, o vizinho arquiteto que não se importa de tratar da gestão do condomínio, se fazia o favor de nos arranjar um picheleiro.

O diagnóstico foi rápido e exigente em material. O sifão do autoclismo já dera o que tinha a dar e precisava de ser substituído, tal como a torneira e a canalização da banca. A obra afigurava-se dispendiosa, o que se confirmou: a soma de todas as parcelas da conta tinha três dígitos. De mão de obra foram 60 euros, o que dá cerca de 20 euros à hora, ou seja mais ou menos quatro vezes mais que o SNS se propõe a pagar a enfermeiros tarefeiros.

Como o meu filho mais novo, o João, que nasceu no ano 2000, está a revelar-se pouco interessado nos estudos fiquei muito seriamente a pensar que se calhar o melhor é começar a encaminhá-lo para o ensino profissional, onde pode aprender uma arte que lhe permita desembrulhar-se na vida.

É preferível ter um filho picheleiro a ganhar 20 euros à hora do que um filho advogado desempregado - ou a ganhar cinco euros à hora na caixa de um supermercado. Além de tudo, dá mais jeito.

Nem de propósito, no dia a seguir à visita do picheleiro, o nosso JN vinha confirmar a justeza das minhas ideias sobre o futuro profissional do João, ao noticiar que nas ofertas de emprego existentes no IEFP, há, em Lisboa, vagas para mecânicos a ganhar 1500 euros e para engenheiros civis com um salário de 700 euros - igual ao oferecido a um serralheiro no Marco de Canaveses.

Os dados do IEFP confirmam o enorme desajustamento entre as profissões procuradas e os profissionais que o sistema de ensino forma.

O mercado pede mecânicos, serralheiros, picheleiros, montadores de tubos e torneiros. A escola dá-lhe professores, especialistas em relações internacionais, gestores de empresas e jornalistas.

Um ano depois do bastonário dos Advogados ter apelado aos estudantes do Secundário para fugirem dos cursos de Direito, por o mercado estar saturado, não deixa de ser curioso que os dois cursos públicos com mais vagas no próximo ano letivo serem Direito de Lisboa (450 vagas) de Coimbra (330).

O que se espera do Governo, em matéria de Educação, é que, no quadro do esforço de qualificação da mão de obra nacional, use o poder que tem para conciliar a oferta e a procura. O que exige uma maior e mais séria aposta no ensino profissional.

No futuro, posso garantir, continuará a haver canos rotos, torneiras a pingar e autoclismos a verter.

Jorge Fiel

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Sexta-feira, 20 de Julho de 2012

E que tal matarmos os velhos?

Mal nascia, a criança era logo submetida a um rigoroso exame. Se lhe detetassem sinais de doença física ou mental (ou não fosse julgada suficientemente robusta), era pura e simplesmente eliminada. Na velha Esparta não se brincava em serviço. Os pais espancavam regularmente os filhos, com o objetivo de os tornar mais fortes. Se eles não aguentavam e morriam, o mal era deles. Desde o nascimento até à morte, os espartanos eram pertença do Estado. Rigor, frugalidade e disciplina eram a marca de água desta cidade-Estado que governou a Grécia após ter vencido Atenas nas guerras de Peloponeso. De tal forma que espartano passou a ser sinónimo de austero.

Na Grécia antiga, os espartanos não eram os únicos a menosprezar a vida humana. Na "República", Platão defende a eliminação física dos velhos, fracos e inválidos, argumentando que esse sacrifício seria proveitoso para o fortalecimento da economia e do bem-estar coletivo.

Os tempos espartanos em que vivemos exigem aos governantes que temperem com enormes doses de bom senso e respeito pela dignidade humana o urgente esforço de racionalização dos gastos públicos e de combate ao desperdício.

Se, por absurdo, os portugueses com mais de 65 anos fossem privados do acesso aos cuidados de saúde públicos, isso iria imediatamente aliviar o défice do SNS. Abreviar a vida dos idosos teria ainda efeitos benéficos para a sustentabilidade da Segurança Social e inverteria a preocupante tendência para o envelhecimento da nossa população.

Mas apesar dos tempos de austeridade em que vivemos, ninguém no seu perfeito juízo teria a lata de sugerir impedir o acesso dos mais velhos a cuidados de saúde públicos como medida tendente a diminuir o défice. E ainda bem que assim é.

Do estrito ponto de vista da racionalidade económica, as contas públicas beneficiariam se pegássemos nos 430 habitantes do Corvo e os realojássemos num empreendimento que o senhorio do dr. Relvas (o benfiquista e promotor imobiliário Vítor Santos, também conhecido por Bibi, que se celebrizou ao gabar-se que não pagava IRS) eventualmente tenha vago em Almada.

Mas apesar dos tempos espartanos em que vivemos, ninguém no seu perfeito juízo teria a lata de propor despovoar o Corvo, abandonando a ilha a ocasionais observadores de pássaros. E ainda bem que assim é.

Pena é que sob o louvável pretexto da racionalização dos serviços públicos, governantes com um fraco conhecimento da realidade do país estejam a fechar o interior norte e centro do país, transformando--o numa imensa reserva natural desabitada, que se for bem promovida internacionalmente será visitada por muitos turistas estrangeiros - já que os de Lisboa, esses continuarão a preferir passar os tempos livres nos montes alentejanos ou nas praias ou campos de golfe algarvios.

Jorge Fiel

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Segunda-feira, 16 de Julho de 2012

Por Prozac na água da torneira

Como não percebo nada de automóveis, reenviei logo para o meu primo Fernando, que é um especialista neste e noutros assuntos, a lista de marcas e modelos em que eu poderia escolher o carro que o JN estava disponível para pôr ao meu serviço. Na volta do mail, veio a resposta de Cracóvia, onde o Fernando está emigrado. Se fosse para ficar com o carro, recomendava o Golf. Senão aconselhava o Opel Astra.

Escolhi o Astra. Perguntado pela cor que preferia , respondi qualquer uma menos preto, cinzento ou branco. Uma semana depois, num misto de pragmatismo e resignação, disse "venha branco" (e não me estava a referir a vinho...) quando me disseram que havia um Opel Astra branco pronto para entrega.

Acho muito triste e sintomático que as nossas ruas, estradas e praças estejam cheias de carros pretos, cinzentos e brancos - e que quase ninguém arrisque salpicar a paisagem urbana com automóveis pintados de cores alegres. O cinzentismo do parque automóvel é revelador do do receio dos proprietários e de uma sociedade deprimida.

Nem sempre foi assim. No tempo em que não havia auto-estradas e as viagens para o Algarve demoravam mais de oito horas, para matar o tempo, divertiamo-nos a apostar, tentando adivinhar de que cor seria - vermelho, azul, amarelo ou verde - o próximo carro com que nos cruzaríamos nas longas retas alentejanas. Hoje em dia reeditar esse passatempo seria, por várias razões, uma absoluta idiotice.

A coisa atingiu tal ponto que as marcas já praticamente deixaram de pintar os carros de outras cores que não os fatídicos e incontornáveis preto, cinzento e branco, pois têm de fazer grandes descontos para se livrarem deles. A minha colega Margarida tirou partido desta situação e poupou uns milhares de euros na compra de um vistoso Fiat Panda cor de laranja metalizado.

Estou em crer que este cinzentismo automóvel (e convém não esquecer a importância que o carro tem na nossa sociedade como revelador do sucesso e progressão na vida do seu proprietário) sinaliza o despertar do pessimismo e espirito de impotência face à fatalidade do destino, que afinal é a marca de água da canção nacional - "Almas vencidas, noites perdidas, sombras bizarras, na Mouraria, canta um rufia, choram guitarras, amor ciúme, dor e pecado, tudo isto existe, tudo isto é triste, tudo isto é fado," cantava Amália.

Ora, o pior que neste momento nos pode acontecer é deixarmo-nos embalar pelo fado e cruzar os braços - em vez de reagir.

O que é preciso é combater a depressão e animar a malta. Nem que para isso seja necessário misturar Prozac na água da torneira - e, já agora, e por que não?, adicionar também um bocado de Viagra, pois no primeiro semestre nasceram menos quatro mil bebés que no mesmo período de 2011.

Jorge Fiel

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Domingo, 15 de Julho de 2012

Relvas fez sexo com 13 anos?

Um amigo de Miguel Relvas encontra-o a jantar sozinho num restaurante e pergunta-lhe: "Então pá, estás a comer sozinho?". Ao que o ministro lhe responde: "Nãooooo, estou no meu jantar de curso". Esta é provavelmente a melhor anedota que recebi a propósito da turbolicenciatura. E só tive a cautela de escrever provavelmente porque também adoro aquela em que ele nos faz uma confidência: "Tive relações sexuais pela primeira vez aos 13 anos! Bem, na verdade só me masturbei, mas deram-me a equivalência".

Neste intervalo entre o final de um Euro que nos correu bem melhor do que esperávamos e as férias de verão, os desenvolvimentos picarescos da licenciatura de Relvas e a novela da contratação de Rojo pelo Benfica (e de mais uns 70 jogadores que vão desfilando pela capa dos desportivos como seus prováveis reforços) chegavam e sobravam para nos entreter até chegar a hora de irmos para a praia apanhar sol e dar uns mergulhos. Não era preciso o pessoal do Tribunal Constitucional (TC) ter-se incomodado em arranjar animação suplementar.

Eu até sou capaz de perceber que os juízes do Constitucional andassem chateados por lhes terem sacado o 13.o mês e o subsídio de férias.

Pondo-me no lugar deles, também teria ficado muito aborrecido com a degradação de imagem do tribunal provocada pela forma desajeitada como os partidos cozinharam as listas de candidatos à eleição de novos juízes pelo Parlamento, uma trapalhada que esteve meses em cartaz.

Os juízes do TC estavam mesmo precisados de fazer uma prova de vida e uma demonstração de poder - e não resistiram a esta oportunidade, apesar de se exporem à crítica de que julgaram em causa própria, já que são funcionários públicos e por isso parte interessada na matéria de saber se é ou não constitucional privar dos subsídios apenas os empregados do Estado.

Ainda não consegui entender por que é que temos tantos tribunais (Supremo Tribunal de Justiça, Tribunal Constitucional, Supremo Tribunal Administrativo, Tribunal de Contas e por aí adiante) e até desconfio que a inevitável compressão das despesas públicas passará pela supressão de alguns deles.

Mas ser capaz de compreender por que é que os juízes do Constitucional deram um murro na mesa não significa apoiar (antes pelo contrário) a decisão que obriga Vítor Gaspar a desencantar mais uns dois mil milhões de euros de receitas para o Orçamento de 2013.

Para compensar o ministro das Finanças e a generalidade dos contribuintes da maçada que lhe causaram, os juízes do TC brilhariam a grande altura se declarassem inconstitucionais os contratos ruinosos das parcerias público-privadas.

Não frequentei o curso de Direito (um dos vários em que parece que o camarada Relvas esteve inscrito), mas estou convencido que acordos secretos com os concessionários, para driblar o Tribunal de Contas, e contratos em que o risco é todo assumido pelo Estado, devem violar alguma coisa na Constituição.

Jorge Fiel

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Quarta-feira, 11 de Julho de 2012

A lição do Salgueiros 08 e do Rocky Balboa

 

Sabes por que é que o Salgueiros não tem basquetebol? A resposta ("Porque não se pode estar mais de três segundos no garrafão") a esta adivinha é um clássico. Ao longo do século de vida atribulada que o clube leva, os salgueiristas ganharam a fama de abusar da pinga por causa da língua afiada e maledicente dos adeptos dos clubes rivais.

Outro dos clássicos deste almanaque é afirmar ser preciso ter cadastro e uma cirrose para se poder ser um bom salgueirista , uma insinuação torpe que não resiste à confrontação com a realidade. Só para citar um exemplo, o meu amigo Augusto Santos Silva é um bom salgueirista e não só nunca esteve preso como eu era capaz de jurar que apesar dos 56 aninhos tem o fígado de um rapaz de 16 anos.

Fundado em 1911, por um grupo de catraios (um deles, o Henrique Medina, que se celebrizaria como pintor, tinha apenas dez anos), que se reuniam à luz do candeeiro 1047 na Rua da Constituição, o Salgueiros tornou-se um clube popular, mergulhando as suas raízes entre as gentes de Paranhos.

Costa Cabral, a Arca d'Água e a zona onde agora está o Polo da Asprela da Universidade do Porto foram o oxigénio que alimentou a alma de um clube que não se importou de ser tomado de ponta por Salazar ao ousar ser o único da cidade a atrever-se a ceder o seu campo para Norton de Matos, o candidato de oposição, fazer um dos mais impressionantes comícios da campanha presidencial de 1949.

Afogado em 20 milhões de euros de dívidas e vítima das trampolinices e vigarices de um presidente que não merecia, o clube de Vidal Pinheiro entrou em coma no ano em que, ironia das ironias, o país vivia a euforia do Euro 2004 e o F.C. Porto festejava uma Champions conquistada por uma equipa de sonho, cujo maestro, Deco, o Salgueiros ajudara a resgatar ao Benfica.

Com o velho estádio transformado em estação de metro, o sonho do novo campo na Arca d'Água desfeito num negócio imobiliário abortado e de contornos duvidosos, impedido de inscrever jogadores, o Salgueiros renasceu quando já ninguém dava nada por ele.

Com um novo nome (Salgueiros 08) para contornar impedimentos legais, começou uma vida nova a partir o escalão mais baixo, a II Divisão da A.F. Porto. E de então para cá, sem aventuras, com um passo firme e seguro, foi-se tornando mais forte e subindo de escalão. Na época que está prestes a iniciar-se estará de volta aos Nacionais - vai disputar a III Divisão.

Nesta curva apertada e difícil que atravessamos, ajuda muito aprendermos com exemplos luminosos de humildade e sucesso como o do Salgueiros 08.

No filme Rocky Balboa, o pugilista tinha toda a razão quando explicava ao filho que neste Mundo, que não é um mar de rosas, triunfar significa ter a capacidade de irmos encaixando os golpes fortes e traiçoeiros que a vida nos prega e continuarmos a seguir em frente. Essa é também a lição da Alma Salgueirista.

Jorge Fiel

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Sexta-feira, 6 de Julho de 2012

A minha mãe merece um canudo

Quando era miúdo, eu era uma peste. Logo nos primeiros dias, na Maternidade Júlio Dinis, berrava tanto e portava-me tão mal que enfermeiras e auxiliares diziam que eu era pior que o Jaburu, o que suponho era uma alusão ao temperamento irascível do homónimo avançado do F.C. Porto.

Cresci a ouvir que, às vezes, eu era pior que o tio Nica, que não conheci mas era o padrão de excelência nos domínios da maldade para a minha família do lado materno.

Com a paciência de quem, para suavizar os finais do mês lá em casa, confecionava as asas que os anjos usavam nas procissões (colando e cosendo penas brancas em moldes de papelão), a minha mãe foi-me aturando as birras e arredondando as arestas do meu feitio.

Em 1975, com 19 anos, preparava--me para deixar os estudos, após um ano de experiência fracassada no ISPA, em Lisboa, quando a minha mãe me convenceu a matricular-me em História (UP), com o argumento de que o canudo me iria ser sempre muito útil.

Foi por mérito dela que a intensa participação cívica que mantive, antes e depois do restabelecimento da democracia, não se revelou incompatível com as obrigações académicas, como sucedeu, por exemplo, com Miguel Relvas.

O meu curso teve um desfecho curioso. Nas férias grandes a seguir a ter passado para o 5.0 ano, fui surpreendido pela notícia de que a sua duração tinha minguado para quatro anos. Ainda me interroguei sobre se já estaria licenciado. Mas não. Foi providenciada uma época intercalar em janeiro para os do meu ano poderem acabar o curso sem serem apanhados pelos do ano anterior.

Não pensem que estou aborrecido por ter sido obrigado a gastar quatro anos e meio - e a fazer exames a todas as disciplinas - para ter o canudo, enquanto o Miguel Relvas resolveu o assunto num ano, na Lusófona (grande Universidade!), e o José Sócrates num par deles, na Independente (outra grandíssima Universidade).

Eu compreendo. O Relvas, além de já ter sido secretário de Estado da Administração Interna, já frequentara três cursos (Direito, Relações Internacionais e História) e cometera a proeza de completar com dez valores um cadeirão (Ciência Política e Direito Constitucional). E não nos esqueçamos que, apesar de já ter sido ministro do Ambiente, Sócrates ainda foi obrigado a marrar para o exame de Inglês Técnico.

Eu compreendo o Miguel e o Zé, apanhados sem curso a subirem na política, com toda a gente a tratá-los por doutores e engenheiros - e eles, com medo de passarem por impostores, resolverem conceder-se uma nova oportunidade e arranjarem à pressa um canudo.

Compreendo o charme de ser doutor - é por isso que trato todos os meus colegas por doutores. Só acho que a paciência com que a minha mãe me aturou e a sabedoria com que fez de mim um homem justificam plenamente que lhe atribuam, a titulo póstumo, uma licenciatura, em Ciências Pedagógico-Educativas e Teoria do Comportamento. Vou já tratar de descobrir se tenho um amigo na Lusófona, Independente ou Livre.

Jorge Fiel

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Segunda-feira, 2 de Julho de 2012

Emprestem-me 100 milhões

 

Sempre fiz questão que os meus filhos deem uma mão nas tarefas domésticas, mesmo que apenas simbólica, circunscrevendo-se ao pôr e levantar a mesa e à obrigatoriedade de depositar a roupa para lavar no respetivo cesto e não no chão do quarto ou da casa de banho.

Presumo que poucos discordarão se eu disser que os nossos queridos filhos, bem como a generalidade das crianças e jovens adolescentes, são encantadores, mas que se nascem inocentes e desprovidos de maldade, como pretende Rousseau, a verdade é que a aprendem depressa e ainda bebés de colo já estão completamente apetrechados com um vasto arsenal de truques e manhas.

A manha mais usada para se furtarem a uma tarefa não é insubordinação (ou seja a recusa formal e assumida em desempenhá-la) mas antes adiá-la, indefinidamente, sob os mais vários pretextos. Primeiro fazem de conta que não ouvem. Depois seguem-se as desculpas "estou só a acabar um trabalho", "estou só a desligar o computador", "estou na casa de banho", "primeiro tenho de ir à casa de banho" ou o curto mas demolidor "vou já".

Estas táticas - a que os advogados chamam "manobras dilatórias" e que também dão um resultadão nos tribunais como se comprova pelo facto de Isaltino continuar livre como um passarinho - são altamente eficazes, sobretudo se acompanhadas de frases, como "não stresses", ou "tem calma!!!", destinadas a elevar o nível da nossa tensão arterial e fazer-nos perder a paciência, ao ponto de desistirmos de fazer cumprir a ordem e executarmos nós mesmo uma tarefa que não nos competia.

Uma das morais desta história é que não basta a jura de que estamos dispostos a assumir um compromisso se não conseguirmos adicionar a esta manifestação de vontade - saída boca fora ou passada a escrito e assinada - a credibilidade de que o efetivamente o vamos fazer e dentro do prazo acordado. Nesta questão das dívidas, o mentiroso "pago-te amanhã" é o equivalente ao "vou já" dos filhos manhosos.

Os prazos nunca são um pormenor. Salazar sabia isso melhor do que ninguém e a prova dos nove da sua esperteza de velha raposa foram as emissões de obrigações perpétuas, que vencerão a 31 de dezembro de 9999, para financiar o défice das contas públicas nacionais entre 1940 e 1943.

O busílis é convencer os credores de que poderá ser para eles um bom negócio emprestar-nos dinheiro a um prazo muito dilatado.

Já agora que estamos a falar disso, se souberem de alguém que esteja interessado em fazer-me um empréstimo de 100 milhões de euros, a vencer a 30 de maio de 2956 (faço mil anos nesse dia), fiquem desde já a saber que estou disponível para pagar uma taxa anual líquida de 5% e não vou gastar o dinheiro mal gasto - nem tão-pouco usá-lo para bater a cláusula de rescisão do Hulk.

Jorge Fiel

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Domingo, 1 de Julho de 2012

Um cheirinho no acelerador

O início da adolescência é provavelmente a idade mais achacada ao disparate. Atravessei essa fase, quando ter carro próprio (o meu pai não tinha) começava lentamente a deixar de ser um luxo. Naquele tempo em que o cinto de segurança era um acessório desconhecido e conduzir com os copos não era penalizado, a massificação do automóvel trouxe agarrada um culto pela velocidade, documentado pela popularidade do Clube 100 à Hora.

Crescia o culto de velocidade mas não cresciam as estradas onde se pudesse circular a 100 à hora com segurança. A autoestrada para Lisboa parou nos Carvalhos quando Salazar resolveu canalizar todos os recursos para a vã tentativa de que Angola continuasse nossa.

Para minimizar as consequências da loucura pela velocidade, o Governo usou o mais novo e excitante braço do aparelho de Estado (a RTP) para fazer pedagogia, mostrando fotografias horrorosas de trágicos despistes na curva do Mónaco no programa Sangue na Estrada, de Joaquim Filipe Nogueira (na foto).

Embalados por esta inconsciente mania das velocidades, nas excursões da escola, nós, os miúdos, passávamos metade do tempo a cantar um coro idiota: "Ó chofer, por favor, ponha o pé no acelerador".

Vêm estas recordações a propósito do triste facto de, fechado o parêntesis de 12 anos que decorreu entre o 25 de Abril e adesão à CEE, termos sido conduzidos por motoristas que não só não souberam escolher a rota mais adequada como ainda por cima excederam tantas vezes o limite de velocidade que acabaram por nos fazer despistar.

Esses motoristas andam por aí. Um está em Belém, a fazer de conta que não é nada com ele. Outro anda pelo Mundo a tratar dos refugiados. Há um em Bruxelas a sonhar com um palácio cor-de-rosa. E ainda aquele que está em Paris a estudar Filosofia.

Eu não gosto de guiar e não tenho a mania de que sou um ás do volante. Mas sei que manda a prudência que se trave antes de entrarmos numa curva longa e apertada - e que depois é conveniente dar um cheirinho no acelerador para manter o carro estável.

Depois da travagem brusca e a fundo imposta pela troika, chegou o momento de dar um cheirinho no acelerador. Os empurrões de manifestantes irados no Mercedes de um ministro podem ser o sinal de que não se deve esticar mais a corda.

Ao afirmar que "não faz sentido penalizar os portugueses por mais tempo", o primeiro-ministro está a segredar aos credores que após uma queda brutal de 24% no investimento, em dois anos, precisamos de voltar a ter licença para gastar - mas bem. Em ferrovia que leve as nossas mercadorias e ajude a estruturar a euro-região Galiza--Norte de Portugal. Em transportes públicos e na restruturação e privatização das EP deste setor. Na reabilitação urbana. Na modernização e emagrecimento do aparelho de Estado.

Não há milagres. Parar o galope do desemprego e a degradação da economia exige investimento. Querer crescer sem investir é a mesma coisa que querer ganhar o Euromilhões sem fazer a aposta.

Jorge Fiel

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Publicado por Jorge Fiel às 19:50
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Sexta-feira, 22 de Junho de 2012

Vamos passar no intervalo da chuva

 

Via com alguma regularidade "O elo mais fraco" até uma qualquer luminária da RTP ter tido a infeliz ideia de substituir, na apresentação do concurso, o Malato pelo Pedro Granger - nada contra o rapaz, sucede apenas que, como ficou demonstrado, até metia dó pois era absolutamente desprovido de jeito para o assunto.

Uma das coisas que apreciava em "O elo mais fraco" era o facto de proporcionar um momento agradável de convívio familiar, em que nos divertíamos a testar a rapidez e estado da nossa memória, bem como a profundidade dos nossos conhecimentos.

A outra das coisas que me atraíam muito no concurso era analisar as razões que estavam por trás do processo de eliminação de um concorrente no final de cada ronda de perguntas.

Nem sempre era afastado o elo mais fraco, ou seja o que tinha errado mais respostas. E nem sempre me pareciam inocentes os motivos que levavam os outros concorrentes a mandar um colega pela borda fora.

Estar em frente às câmaras da televisão, pressionado pelo tempo e picado pelo apresentador, cheio de vontade de ganhar dinheiro e fazer boa figura perante centenas de milhares de pessoas e cheio de medo de fazer figura de urso inculto, é uma situação altamente geradora de stress e acredito que muitos concorrentes estejam de tal maneira concentrados na sua prestação que percam por completo a noção da performance dos outros - e por isso votem a expulsão de um colega que por algum motivo inconsciente lhe desagradava e até podia ter sido o elo mais forte.

Mas não raro, em particular quando já só restavam em jogo três ou quatro concorrentes, acontecia ser claro que dois ou três dos mais fracos se coligavam para afastar o mais forte da final. Acho isso uma pulhice,
uma entorse à moral (não à letra) das regras do jogo, mas a vida também é assim - um jogo em que temos de estar prevenidos para contornar pulhices e evitar que nos cravem facas nas costas.

A Grécia é o elo mais fraco da Zona Euro. Mal seja afastada - e, dizem os oráculos, a pergunta não é se vai abandonar o euro mas sim quando e como- , nós passamos a ser olhados como o elo mais fraco.

Empenhados em evitar que a saída da Grécia inicie uma espiral que leve à desintegração da moeda única, as sumidades que governam a UE têm--se desdobrado em esforços para construir firewalls , ou seja a empilhar montanhas absurdas de dinheiro que evitem o contágio desta tuberculose financeira da periferia até ao centro.

No meu entender, o coro de rumores preparatórios do resgate da Espanha e Itália deve ser lido como uma boa notícia para Portugal, pois tira-nos da berlinda e abre uma séria possibilidade de passarmos no intervalo da chuva - e de que a notícia de que vamos poder relaxar a austeridade, porque a troika decidiu finalmente dar-nos mais tempo e mais dinheiro, irá parar a um discreto fundo de uma página par do "Financial Times". À luz da minha teoria dos jogos, elaborada a partir de "O elo mais fraco", estou satisfeitíssimo por sairmos da primeira página.

JorgeFiel

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Publicado por Jorge Fiel às 18:42
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