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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Pássaro, lombrigas e rinoceronte

Paquidérmico e grotesco, o rinoceronte é também neurótico e pouco sociável. O seu temperamento irascível é famoso entre a bicharada. Duro de ouvido e quase cego, deve parte de leão da sua qualidade e tempo de vida ao tchiluanda, um pequeno e improvável amigo.

O tchiluanda é um pássaro africano que vive à custa do rinoceronte. Cata as carraças que se alojam nas suas orelhas ou pele grossa. E usa o bico pequeno e afiado para retirar os restos de comida que se alojam nos dentes. Ou seja, ao mesmo tempo que se alimenta, alivia o rinoceronte do vampirismo da carraça e impede que os seus dentes apodreçam e ele acabe por morrer à fome.

Este pequeno pássaro faz ainda de sentinela, avisando o rinoceronte da presença de inimigos através de um grasnado agudo.

O Estado português é como o rinoceronte - paquidérmico, grotesco, duro de ouvido e quase cego - graças à incompetência e ausência de sentido de Estado de políticos que se entretiveram a comprar retumbantes vitórias eleitorais à custa do dinheiro dos nossos impostos.

Quando chegou ao poder, em 1985, prometendo menos e melhor Estado, Cavaco encontrou 464 mil funcionários públicos. Quando saiu, dez anos depois, deixou-nos 639 mil, mais bem pagos e com mais regalias.

A reforma do sistema remuneratório da Função Pública, promovida por Cavaco, foi a mãe do monstro despesista que nos asfixia e quase atirou para a falência. O diagnóstico é do insuspeito Miguel Cadilhe.

1991 é o ano da segunda maioria absoluta de Cavaco e também o ano recorde do crescimento da despesa com a Função Pública: subiu 15,2%.

Ao contratar 87 mil novos funcionários públicos por legislatura, Cavaco estabeleceu um recorde de que nem Guterres (75 mil por legislatura) se conseguiu aproximar.

Nos últimos dois anos, os cortes na despesa do Estado foram horizontais, atingindo por igual todos os funcionários que vivem à sua custa, quer os que lhe são úteis e até indispensáveis (como é o caso do tchiluanda), quer os parasitas inutéis e absolutamente dispensáveis , como os montes de lombrigas que pululam nas bostas de rinoceronte.

Mais mil para trás ou para a frente, parece pacífico que o ajustamento do Estado obriga à exclusão de 70 mil funcionários (ou seja 10% do efetivo) da sua folha de salários.

Esta tarefa é bem mais fácil do que pode parecer, pois há 65 mil funcionários públicos (dos quais 40% na Defesa e 15% na Educação) contratados a prazo, 34 mil pediram a reforma (antecipada, no caso de 25 mil) e ainda há que contabilizar rescisões por mútuo acordo e o recurso à megabolsa de excedentários.

A arte do Governo não está em livrar-se de 70 mil funcionários, mas sim em cortar apenas na gordura, não atingindo nervos e veias. Ou seja, livrar-se das lombrigas mas preservar os tchiluandas.

Jorge Fiel

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Trabalho sexual é trabalho!

Ann, uma rapariga de Southampton que conheci (em todas as aceções do verbo, incluindo a bíblica) na apanha do morango, em Inglaterra, proporcionou-me uma iniciação sexual bastante completa. Naquele verão de 1972, em que viajei pela Europa de InterRail, eu tinha 16 anos, acabados de fazer. Sei que muito provavelmente devo à Ann o facto de, até agora, nunca ter sentido necessidade de usar os serviços de profissionais para ter uma vida sexual regular e satisfatória.

Esta declaração de nunca ter ido às putas pode encerrar algum orgulho mal disfarçado, mas acreditem que não contém uma gota sequer de crítica velada às trabalhadoras do sexo e seus clientes. Também nunca comi lampreia, fui à neve ou joguei golfe, e isso não quer dizer que menospreze ou critique quem se entretém a fazer grandes caminhadas animado pelo objetivo de enfiar uma pequena bola num buraco, ou os fanáticos pela lampreia e o esqui.

E se escrevi um prudente até agora na última frase do primeiro (e longo) parágrafo isso deve-se apenas a uma cautela derivada da leitura de um caso curioso ocorrido na Dinamarca, onde o diretor de um lar de terceira idade provocou uma enorme polémica ao incluir uma prostituta nos serviços de conforto - barbeiro, manicura e pedicura, enfermeiro, médica, etc. - providenciados aos idosos residentes.

"Registamos melhorias significativas na disposição e saúde dos idosos após a visita da acompanhante", contou o diretor do lar dinamarquês, que enfrentou o usual coro de críticas de hipócritas e falsos moralistas, mas contou com o apoio do ministro da Saúde dinamarquês.

Há no nosso país uma indústria do sexo, que envolve cerca de 60 mil pessoas (mais ou menos tantos quantos os profissionais de saúde), cujos diferentes setores - que vão desde a prostituição até à rede de 150 sex shops, passando pelos/as strippers, atores e atrizes de filmes porno, trabalhadores de linhas eróticas, etc. - vivem na penumbra, entre uma legalidade disfarçada e uma clandestinidade consentida.

Que atire a primeira pedra quem nunca usufruiu de um produto desta indústria. E, por favor, na hora de meterem a mão na consciência, não esqueçam as loucas festas de despedida de solteiro, que nunca um livro vendeu tanto em tão pouco tempo como "As 50 sombras de Grey" (rotulado de porno para mamãs) e que as estatísticas juram que um em cada dois homens e uma em cada cinco mulheres veem regularmente pornografia.

Numa altura em que quase toda a gente espreita uma oportunidade para fugir aos impostos e condena o crescimento da economia paralela, convinha deixarmos de ser hipócritas e aplaudir a luta dos/as prestadores de serviços sexuais que reivindicam a legalização da sua atividade e querem ser reconhecidos como trabalhadores como outros quaisquer, que pagam IRS e descontam para a Segurança Social, para em contrapartida terem direito a férias, subsídio de desemprego e reforma. Trabalho sexual é trabalho!

Jorge Fiel

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22 maquinistas da CP no Dragão?

No dia em que encherem o Estádio das Antas com gente a pagar bilhete para ver 22 escriturários a escreverem à máquina, estarei de acordo com os que criticam o dinheiro que os jogadores de futebol ganham. Este argumento, do saudoso José Maria Pedroto, foi o melhor que ouvi em defesa dos elevados salários dos futebolistas, que à época eram muito menos pornográficos e estratosféricos do que agora.

 

No início dos anos 80, o jogador mais bem pago do Porto ganhava o equivalente a 30 salários mínimos. Agora leva para casa cerca de 300 salários mínimos. Em 30 anos, ao nível do topo, a inflação no futebol português andou dez vezes mais rápida do que no resto da sociedade.

 

O argumento de Pedroto é bom e racional. Mas apesar de saber que as exibições e golos do Cristiano Ronaldo ajudam a encher o Santiago Bernabéu (e o Real Madrid a cobrar um balúrdio pelas transmissões televisivas dos seus jogos), confesso que a minha consciência judaico-cristã fica bastante incomodada por saber que um português com o salário mínimo precisaria de trabalhar 300 anos (até ao século XXV, portanto) para receber o que o CR7 ganha num mês.

 

O argumento de Pedroto é bom e racional. No entanto nunca consegui digerir muito bem o hábito de pagarem aos futebolistas prémios de vitória ou até de empate. Compreendo o mecanismo de estimular um trabalhador através da instituição de um sistema de prémios por objetivos, mas no caso dos futebolistas até parece que o que lhe pagam ao fim do mês (e não é assim tão pouco) é para perderem os jogos.

 

Também não consigo entender algumas peculiaridades do regime de trabalho dos 1200 maquinistas da CP, que beneficiam de 18 subsídios (oito fixos e dez variáveis), apesar das constantes transfusões de dinheiro dos contribuintes serem a única coisa que impede a morte de uma empresa com um passivo XXL de 3,3 mil milhões de euros.

 

Sempre que termina um período de trabalho completo, o maquinista da CP recebe um prémio. Cada vez que conduz, manobra ou faz o acompanhamento de um comboio, ganha um abono. E se o seu trabalho estiver organizado por turnos ou escalas, tem direito a um subsídio. E por aí adiante. Ao ler a lista arrependi-me de não ter ido para maquinista da CP.

 

Percebo que os maquinistas queiram defender o belíssimo pacote de regalias (algumas próprias de futebolistas, como a de receberem um prémio por terem cumprido o seu horário de trabalho...) mas não me parece justo que os clientes da empresa (os passageiros) sejam os únicos prejudicados pelas greves que fazem.

 

Até porque, e usando a imagem de Pedroto, acho muito duvidoso que alguém pague um bilhete para ver 22 maquinistas da CP a brincar aos comboios - pouca-terra, pouca-terra - no meio do relvado do Dragão.

 

Jorge Fiel

 

Esta crónica foi hoje publicada no JN

 

O parasita defende o seu bife

As famílias portuguesas habituaram-se rapidamente à ideia de que não podiam continuar a gastar mais do que ganhavam. Confrontadas com o desemprego, aumento dos impostos e do custo dos serviços (transportes, água, luz, saúde...), e a diminuição do poder de compra e apoios sociais, ajustaram-se, mudando o seu perfil do consumo.

 

Começaram por transferir o consumo para dentro de casa, para mal dos restaurantes e bem dos super e hipermercados, que viram as vendas de congelados crescer em flecha. Depois, em 2012, repararam que cozinhar em casa ficava mais barato do que meter uma lasanha no micro-ondas.

 

As empresas portuguesas habituaram-se rapidamente à ideia de que não podiam continuar a suportar custos superiores às receitas. Acabado de vez o tempo do crédito fácil e barato, com o consumo interno em queda livre, viraram-se para a exportação e, para evitarem o abismo da falência, ajustaram-se aumentando a produtividade, à custa da diminuição do poder de compra dos trabalhadores (chamados a produzir mais em troca de menos dinheiro) e de despedimentos.

 

O Estado é o único setor da sociedade portuguesa que continua a viver como dantes e a prova dos nove deste autismo criminoso é a cândida resposta dada pelo gabinete do secretário de Estado da Cultura (o sem vergonha Barreto Xavier) quando questionado sobre a nomeação de 27 funcionários publicada - só nove são novos, disseram.

 

O Estado português é o único setor da economia que quando está em dificuldades (a dívida pública é de 200 mil milhões de euros, 120% do PIB, o dobro do valor máximo a que nos com prometemos) continua a contratar, em vez de despedir.

 

É preciso ser muito idiota para acreditar que tudo pode continuar na mesma, que o Estado e os seus funcionários podem passar incólumes e a assobiar para o lado à custa do sangue dos impostos e sacrifícios das famílias e das empresas privadas. O nosso drama é quem não consegue sequer identificar o problema é absolutamente incapaz de arranjar"uma solução.

 

As contas estão feitas. O número mágico é quatro. Quatro como os evangelhos canónicos, os pontos cardeais, os ventos e as bestas do Apocalipse. Quatro mil milhões de euros é quanto o Estado tem de passar a gastar menos todos os anos.

 

Parece difícil mas não é. Quatro mil milhões são 5% do Orçamento do Estado. Centenas de milhares de famílias e empresas já fizeram ajustamentos bem superiores a 5% dos seus orçamentos e sobreviveram.

 

E, por favor, não tentem atirar--nos areia para os olhos. Poupem--nos à histeria mentirosa de que cortar 5% ao Orçamento implica desmantelar o Estado social. Isso é o paleio de parasitas e ladrões de impostos que prosperam com a mão metida nos nossos bolsos. Quando o parasitado (o Estado obeso) está em perigo, o parasita defende-o. Defende o seu bife.

 

O nosso drama é que a vocação de um político de carreira é fazer de cada solução um problema.

 

Jorge Fiel

 

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Cavaco fez-se ao penalti

 

Tenho para mim que, no futebol, num lance de penálti, a única verdade objetiva e incontestável é a paixão subjetiva de quem emite um juízo. Tal como o reformado algarvio que preside à nossa nação, nestes casos eu raramente me engano e nunca tenho dúvidas. Sempre que o árbitro assinala um penálti a favor do Porto está carregadinho de razão.

E todos os penáltis marcados a favor do Benfica são, no mínimo, duvidosos, para não dizer escandalosos ou até verdadeiros "roubos de igreja", como diria o saudoso Pedroto, opinião que creio ser partilhada pela reformada transmontana que é a segunda figura do Estado e portista encartada.

Tenho uma enorme admiração e algum respeito pelos árbitros. Entre tangíveis (dinheiro) e intangíveis (fama) ganham uma ínfima parte do que é pago aos futebolistas. Sabem que a sua honestidade, bem como a honorabilidade das suas mães, será questionada. E, como agravante, ainda são obrigados a ajuizar logo, no momento, se num determinado lance há ou não lugar à marcação de grande penalidade.

Mesmo depois das imagens terem sido revistas vezes sem conta, em câmara lenta e a partir de diferentes ângulos, é raro gerar-se o consenso entre os peritos na matéria. Deu primeiro na bola ou nas pernas? Tinha intenção de fazer falta? Foi dentro ou fora da grande área? Qual a intensidade do encosto? Bola no braço ou braço na bola? O árbitro estava bem posicionado?

As dúvidas, atenuantes e perguntas sem resposta que a tecnologia potencia são tantas que um penálti deixou de ser o castigo máximo assinalado de acordo com as regras do jogo para se tornar num estado de espírito do árbitro, que tem de ajuizar na hora e incorpora na decisão não só a sua visão do lance mas também o resultado, o peso relativo das duas equipas, e mais uma data de coisas, entre as quais o cadastro do jogador que pede a falta, pois todos sabemos que o que mais abunda são avançados especialistas em simular grandes penalidades.

No caso do pedido ao Tribunal Constitucional para que verifique se três artigos do OE 13 violam a Constituição, parece-me nítido que o reformado Cavaco se está a fazer ao penálti. Trata-se de matéria que o afeta pessoalmente (optou por receber as reformas da Caixa Geral de Aposentações e do Banco de Portugal, por a soma ser muito superior ao salário de 6523 euros que compete ao PR) e de que há um ano se queixou, quando disse temer que o dinheiro não lhe chegasse para as despesas.

Como se isso não bastasse, os juízes do Constitucional vão decidir numa matéria que também lhes interessa pessoalmente. Assunção Esteves reformou-se aos 42 anos, com uma pensão de 7255 euros (por que optou por ser superior ao salário de 5219 euros que compete ao presidente da AR) após dez anos de extenuante trabalho no Tribunal Constitucional. Atendendo a estes óbvios conflitos de interesse, estou curioso de saber a decisão. Será marcado penálti contra Passos?

Jorge Fiel

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É preciso mudar de medicação

Tenho um método simples e infalível para não me desiludir, que consiste em nunca me iludir. Só se desilude quem previamente se iludiu. Ao recusar a ilusão adquiri um seguro imbatível que me protege do terrível sofrimento da desilusão.

Inicio a minha mensagem de Ano Novo aos leitores do JN, que tão generosamente me beneficiam com a sua atenção, partilhando este truque, válido para todas as esferas da nossa vida, mas inútil relativamente ao ano que está a dar os primeiros passos.

OCDE, Governo, Banco de Portugal, Comissão Europeia e todos os outros organismos que ousam insultar o futuro tentando prevê-lo foram unânimes no alerta. Os tempos que se avizinham são péssimos. 2013 vai ser pior que 2012 . Mais desemprego e menos apoios sociais. Menos salário e mais impostos.

O céu vai estar carregado de nuvens negras, de acordo com todos os boletins meteorológicos dos economistas.

Em face de tantos e tão credenciados avisos, não há lugar a ilusões e só por hábito e cortesia é que desejamos Bom Ano a amigos e conhecidos. Sabemos que o mais certo é que 2013 seja um ano mau.

Apesar de, por princípio, ser avesso a ilusões, também não sou daquelas pessoas que olham para os dois lados antes de atravessar uma rua de sentido único.

Não tenho com a vida mal-entendidos que me levem a ser pessimista. Sei que a unanimidade nem sempre é consensual. E já aprendi que prever o futuro olhando para o passado é partir do princípio que as condições vão permanecer constantes - ou seja, é exatamente a mesma coisa que guiar um carro a olhar apenas para o retrovisor.

Por isso, recomendo que olhemos para a estrada à nossa frente, não deixando que a árvore das caneladas entre S. Bento e Belém, que vão ter de ser dirimidas pelo Tribunal Constitucional, nos distraiam e toldem a visão da floresta.

E olhando para a frente com olhos de ver, quer-me parecer que mais lá para o fim deste ano, talvez após as eleições alemãs, o médico vai convencer-se que o doente até está a portar-se mais ou menos bem (tem feito dieta, toma os remédios e esforça-se por adotar um estilo de vida mais saudável), mas o tratamento não está a dar os resultados esperados, pelo que talvez seja melhor mudar a medicação.

Até porque, como nos ensinou George Bernard Shaw, o progresso é impossível sem mudança e aqueles que não conseguem nunca mudar de ideias não podem mudar nada.

E se algures entre a 7.ª e a 8.ª avaliações da troika, o médico alemão se convencer de que é melhor prescrever um tratamento diferente ao paciente português, apesar de eu não ser dado a ilusões, acredito que este 2013, que começou como o ano das Tormentas, acabe por se transformar no ano da Boa Esperança.

Jorge Fiel

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É preciso ter boca boca

 

Aproveitei as folgas de 5.ª e 6.ª para uma escapada a Santiago de Compostela, que correu muito bem, pois no segundo dia não choveu e, ainda por cima, vi o futuro - bênçãos que só podem resultar da bondade do apóstolo, talvez uma maneira dele me retribuir a visita ao seu túmulo, na cripta da catedral, e o abraço que dei à sua figura, que domina o altar-mor.

Comecei a ver o futuro logo na 5.ª, não nas folhas de chá, nem na bola de cristal, mas numa gasolineira da Repsol, na pessoa da trintona com rabo de cavalo que sozinha assegurava todo o expediente - atestava o depósito, depois ia até ao interior do posto receber o pagamento, antes de voltar à bomba para atender o cliente seguinte - , sempre com um sorriso nos lábios.

Engracei logo com a Susana, a rapariga da receção do hotel Altair, pelo despacho com que solucionou as minhas duas preocupações do momento. Assinalou no mapa o local onde estávamos e riscou com esferográfica o trajeto mais curto até ao parque de estacionamento La Salle (vizinho do Centro Galego de Arte Contemporânea, projetado por Siza), onde - acrescentou -, com o carimbo do hotel no bilhete do parque, eu beneficiaria de um desconto de três euros (de 12 para nove euros) na tarifa diária, se pagasse ao guarda e não na máquina. E não hesitou um segundo quando lhe perguntei pela melhor livraria de Santiago. Pegou no mapa, fez uma cruz e escreveu Follas Novas, onde comprei um guia de Santiago, uma História de Espanha e três livros de Vasquez Montalban, a biografia da Pasionaria e duas aventuras do Pepe Carvalho.

Na manhã seguinte, lá estava a Susana de volta, com ar divertido, a dar-nos à escolha café, chocolate ou chá, bem como croissants ou "tostadas", e a trazer o sumo de laranja e o resto dos pedidos, depois de os ter confecionado à nossa vista, na cozinha ao fundo da sala do pequeno-almoço.

Na hora do regresso, o gabinete do guarda do parque de estacionamento estava deserto, apesar da janela aberta, indiciava a primeira mancha na eficiência galega.

Começava a desesperar quando reparei num papel colado no vidro onde estava escrito "timbre" e apontava para a campainha. Toquei e o guarda apareceu logo, de vassoura e apanhador, muito simpático, a pedir desculpa, "andava nas limpezas".

A escapada a Santiago correu bem. Os mexilhões ao vapor do Gato Negro e o pulpo à feira da Maria Castaña estavam divinos. E que bem que sabe descansar das voltas pelo Casco Velho nos sofás do Café Casino, na rua do Vilar.

Mas acima de tudo foi muito bom ter visto o futuro e confirmado que os maquinistas da CP e os trabalhadores do Metro de Lisboa (só para citar dois exemplos) são uma espécie de amish, parados no tempo e prisioneiros do passado.

A trintona da Repsol, a Susana e o guarda do parking La Salle ensinam-nos que neste século XXI é imprescindível ter boa boca.

Jorge Fiel

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A moral do bacalhau cozido

Parece que não, mas se espremermos as meninges, até do bacalhau cozido com batatas, couves, ovo, cebola, etc. (a cenoura e o nabo, que eu, por norma, dispenso, estão compreendidos no perímetro deste etc.), podemos aprender e tirar lições para a vida.

Das 1001 receitas para confecionar pratos de bacalhau, o cozido é provavelmente a que exige mais do peixe e menos do(a) cozinheiro(a). Cozer não requer grande arte, mas antes belas postas do lombo, de preferência altas, com um estágio mínimo de cinco meses no sal e demolhadas a preceito.

A tarefa do cozinheiro fica muito facilitada quando trabalha com matéria-prima de boa qualidade. E não me refiro apenas ao bacalhau. Se tenho nas mãos uma magnífica peça de carne, o meu papel é não a estragar. Basta temperá-la com sal, passá-la um bocado de um lado, virá-la e já está.

A criatividade do chef só é convocada quando a matéria-prima é de deficiente qualidade, o que obriga a puxar pela imaginação para apresentar um prato decente e atraente. Os franceses inventaram as natas para disfarçar o drama de uma peça de carne pouco saborosa e tão dura como a sola de um sapato. Os espanhóis abusam da cebola, tomate e alho para camuflar as misérias de um bacalhau anémico.

Nós, portugueses, para resolvermos uma refeição a partir de uma daquelas embalagens de bocados de bacalhau que estão à venda, a preços módicos, nos híper e supermercados, temos à mão uma série de recursos, como as pataniscas, os bolinhos, bacalhau à Braz, à Gomes de Sá, arroz de bacalhau, e por aí adiante - as punhetas, essa espécie de sushi à portuguesa, estão integradas no âmbito deste por aí adiante, apesar de carecerem de uma matéria-prima de qualidade irrepreensível para atingir o patamar da excelência.

O grande problema, neste plano inclinado em que vivemos, é que a uma matéria de qualidade mais do que deficiente se junta um cozinheiro pouco imaginativo que teima em tentar aplicar uma receita que não agrada a ninguém.

Tudo tem uma moral. É só preciso encontrá-la. Em abril de 1985, a Coca Cola surpreendeu o Mundo ao anunciar uma nova receita para o refrigerante mais vendido em todo o Mundo. O problema foi que o sabor mais doce que os consumidores tinham adorado nos testes acabou por ser liminarmente rejeitado no mundo real. Ao fim de três meses, a Administração da multinacional teve a inteligência e flexibilidade para reintroduzir no mercado a Coca Cola clássica. E só precisou de mais alguns meses para deixar de produzir a New Coke.

Espero que o chef Passos Coelho tenha a inteligência, flexibilidade e sabedoria necessárias - que já nos deu a ideia de ter ao recuar no dossiê TSU - para mudar rapidamente de receita. A matéria-prima é fraca, pelo que o sucesso do prato depende muito da sua capacidade e audácia.

A ver se daqui a um ano já não vivemos com esta sensação de vazio em tudo igual à que eu sentia no final do Natal quando era miúdo e ajudava a minha mãe a apanhar o papel dos presentes abandonado e espalhado debaixo da árvore.

Jorge Fiel

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Desliguem a televisão

O Alberto da Ponte é um tipo muito divertido, um pândego com um sentido muito apurado do espetáculo, o que só pode ajudar quando se é presidente da RTP. Algures nos anos 80, quando era uma estrela ascendente da Unilever - onde teve a seu cargo campeões de vendas como o Vim, Pepsodente e Rexina -, convocou a sua equipa para uma reunião de emergência em que confessou, com semblante carregado, que cometera um ato infeliz, de graves consequências para a vida e carreira de todos eles.

Dito isto, pediu desculpa, sacou de uma pistola, deu um tiro na cabeça e caiu inanimado no chão, perante o desespero dos colegas, que demoraram longos segundos até se aperceberam que tinham acabado de presenciar a partida de Carnaval do Alberto da Ponte.

Apesar de ter mais vidas do que um gato, a RTP atravessa um dos momentos mais difíceis dos seus 55 anos de vida. Para começar, ninguém compreende porque é que um país que corta nas pensões dos reformados teima em manter uma televisão com uma programação idêntica à dos canais privados - e que este ano nos custou 508 milhões de euros (Relvas dixit). Para terem um ideia, o Hospital de S. João custa 289 milhões/ano e na Casa da Música, para poupar um milhão, o Governo não respeitou a palavra dada.

Com as audiências em queda livre e incapaz de concorrer no prime time com o forte pacote de novelas da SIC (Dancin' Days, Gabriela e Avenida Brasil) e o misto da TVI, que serve a Casa dos Segredos como sobremesa a duas telenovelas (Louco Amor e Doce Tentação), a RTP resolveu transformar-se num reality show - o Brutosgate - com um elenco de gente conhecida (apesar de deficitário na componente feminina) e os ingredientes certos: traição e perseguições, polícia e política.

Danado para a brincadeira, Alberto da Ponte é coprodutor deste reality show mas desempenha um papel secundário na telenovela da privatização da RTP, realizada por Miguel Relvas, que se está a revelar um thriller, cheio de reviravoltas inesperadas, onde o papel do principal protagonista (António Borges) se tem vindo a apagar e ainda ninguém conseguiu perceber a importância que os novos atores (os angolanos da Newshold), recém-chegados ao elenco, vão ter nas cenas dos próximos capítulos.

O enredo é apaixonante e eu até era capaz de me estar a divertir com o assunto, se tudo isto não passasse de uma brincadeira, de uma partida de Carnaval. O problema é sermos nós, contribuintes, que estamos a pagar (e caro) esta tragicomédia. Por isso, não nos resta senão rezar para que esta novela esteja em últimas exibições e que a RTP seja despachada o mais depressa possível.

E já agora, se querem um bom conselho, para preservar a nossa sanidade mental o melhor que temos a fazer é desligar a televisão e ir para o café conversar.

Jorge Fiel

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Desgovernados por intrujões

Não sei se conhecem o Som da Rua, mas aviso já que pode ser enternecedor ouvir este coro, constituído por 40 sem- abrigo do Porto, que arrancou fartos aplausos quando atuou na Gulbenkian. Apesar de ser duro de ouvido e desafinado, ouço música quando leio, escrevo, conduzo, acordo e adormeço. Nietzsche tinha razão quando escreveu que sem música a vida seria um erro.

Além de entretenimento e diversão, a música é também uma ferramenta preciosa na reabilitação, terapia e formação. Impressionou-me saber que ter aprendido a tocar um instrumento era o maior denominador comum a todos os estudantes com média para entrarem em Medicina.

O coro HML - onde se reúnem médicos, enfermeiros e doentes do Magalhães Lemos e que tem um repertório onde avultam canções da autoria dos utentes do hospital - demonstra a importância da magia da música em complicados processos terapêuticos.

E quem viu o espetáculo "Bebé babá", produzido e levado à cena pelas mães e bebés da prisão feminina de Santa Cruz do Bispo, garante que ele é a prova provada do papel da música na reabilitação.

O que há em comum entre o Som da Rua, o coro HML e o espetáculo das mães e bebés presas é o Serviço Educativo da Casa da Música, que ajudou a nascer estes e muitos outros projetos luminosos, como o das 14 freiras franciscanas de Gondomar que não se queriam despedir da vida (têm todas mais de 80 anos) antes de gravarem as canções da sua meninice.

A Casa da Música não é só aquele edifício estranho, tipo nave de extraterrestres, considerado, a par do auditório Walt Disney de Los Angeles e a sede da Filarmónica de Berlim, umas das três mais belas salas de espetáculos construídas nos últimos cem anos.

A Casa da Música é a Sinfónica do Porto, a Orquestra Barroca, o Remix Ensemble e o Coro (as quatro formações residentes), e os 527 mil visitantes e 318 espetáculos que recebe anualmente.

A Casa da Música é também o Serviço Educativo, que envolve 50 mil pessoas, prováveis (estudantes) e improváveis (cegos, presos, sem- abrigo) nos 120 eventos que promove todos os anos.

Não podemos aceitar que este trabalho notável seja posto em causa por um Governo de intrujões, que manda um secretário de Estado sobresselente dizer aos fundadores da Casa da Música que o corte ao financiamento público vai ser de 30%, e com efeitos retroativos, não honrando por isso a palavra dada por Francisco José Viegas de que seria de 20% (igual ao do CCB).

Não podemos aceitar que uma Casa da Música bem gerida - é quem mais apoio de mecenas recolhe (três milhões/ano) -, que recebe 267 mil espectadores/ano nas suas atividades, seja tratada de forma diferente que um CCB que tem apenas 125 mil pessoas/ano a frequentar os eventos que organiza.

Soubemos resgatar o Coliseu à IURD. Agora temos de impedir que um Governo de trampolineiros estrangule a Casa da Música.

Jorge Fiel

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  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D