Sexta-feira, 11 de Maio de 2012
O drama da mitologia benfiquista

 

Há muitos, muitos anos, os nossos antepassados inventaram deuses para explicar fenómenos - o vento e a chuva, o sol e a lua, o fogo e a tempestade, o dia e a noite - para os quais não tinham explicação, e organizaram religiões com o objetivo de influenciar os humores imprevisíveis da mãe Natureza.

Bastante empreendedores, como está documentado pela capacidade de construírem as pirâmides do alto das quais 43 séculos de História nos contemplam, os antigos egípcios arquitetaram uma narrativa religiosa bastante completa, onde, por exemplo, Rá, deus do Sol, cuspiu Shu, deus do Ar, e Tefnut, deus da Humidade.  No panteão de deuses egípcios, Ísis encarregava-se dos seres vivos, mas nem o futuro (Osíris superintendia a todo o  processo da jornada até ao Além) nem os sentimentos - Seth era a divindade que tratava do ódio - eram negligenciados.

Interesseiros, os gregos abriram espaço na sua mitologia para Hermes, deus dos comerciantes, a quem rezavam e dedicavam o sacrifício de animais, na tentativa de o satisfazer e melhorarem as vendas.

Coube aos hebreus o louvável esforço de racionalização desta confusão panteísta de adoradores de uma multidão de deuses. Abraão foi, à época, o equivalente à Maria Manuel Leitão Marques, o rosto do Simplex religioso, da fundação de uma religião monoteísta, em que um só Deus, todo poderoso, esponsável por toda a Criação, que se ocupa em regime de acumulação de todos os pelouros - e a quem os fiéis podem recorrer seja qual for a índole da sua aflição. Muito melhor que a Loja do Cidadão.

Nove em cada dez dos seis milhões de benfiquistas refugiaram--se na religião para achar uma explicação para a esmagadora hegemonia portista no      nosso futebol. Os panteístas atribuem as culpas a efeitos conjugados da ação malfazeja de alguns anjos e demónios, como Jesus (o Jorge), Vítor Pereira (o dos árbitros), Luís Filipe Vieira e Pinto da Costa. Outros, monoteístas, optam por culpar apenas os árbitros por todas as suas desgraças.

Como portista e agnóstico compreendo a desorientação teológica que se apoderou dos benfiquistas. A moderação da minha satisfação pela conquista do bicampeonato deve-se ao facto de por mais de uma vez ter festejado tris, tetras e até um penta. Mas para se gabar de ter vivido um bi, um benfiquista tem de ter pelo menos 28 anos -e um sportinguista 59 anos!

Enjeitar as responsabilidades pelas derrotas e fracassos, atirando- -as para as costas largas da arbitragem, não é o caminho certo para os benfiquistas contrariarem o domínio azul e branco e devolverem algum suspense à indústria do futebol.

Demonizar os árbitros e sacrificar animais à Fortuna (a deusa romana da Sorte) é o drama da mitologia benfiquista. Para voltar às vitórias, o Benfica tem de aprender com Minerva (a deusa romana da Sabedoria) a lição de que as vitórias portistas são filhas da combinação de talento com competência e muito, muito, trabalho. Só assim a sua fé no futuro terá fundamento.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias



Publicado por Jorge Fiel às 15:24
Link do post | Comentar | Ver comentários (11) | Adicionar aos favoritos

Quarta-feira, 9 de Maio de 2012
Saramago foi feliz com a Pilar

Os espanhóis têm uma data de coisas adoráveis como o manchego, as plazas mayores, o pulpo à galega, a alegria de viver, Penélope Cruz, Manuel Vasquez Montalban, o Jerez fino, Lluis Llac, Santiago de Compostela, Goya, Almodóvar e o Barcelona - para citar só uma dúzia de exemplos tirados ao acaso de uma lista que seguramente não caberia neste espaço.

Os espanhóis têm coisas que eu adoro, mas outras que nem tanto, como a horrível mania de dobrar os filmes (ninguém no seu perfeito juízo pode  ostar de ouvir o De Niro a falar em Castelhano), chamar pantalones vaqueros aos jeans e tratar o Pepe pelo brasileiro Pepe - quando querem elogiar as suas exibições - e por o português Pepe - quando se trata de criticar a sua excessiva dureza.

Os espanhóis são diferentes dos portugueses, pois preferem as coisas deles às dos outros, ao contrário de nós, que achamos sempre a galinha da vizinha mais bonita que a nossa.

A bem dizer, os espanhóis - ou, se quisermos ser mais rigorosos, galegos, castelhanos, bascos, catalães, andaluzes, estremenhos e por aí adiante - também são muito diferentes uns dos outros, e apesar dos quatro séculos em que estivemos de costas voltadas e com as fronteiras fechadas, um andaluz é mais parecido com um algarvio do que com um basco, e um minhoto é mais parecido com um galego do que com um alentejano.

O provérbio "de Espanha nem bom vento nem bom casamento" foi cunhado no tempo em que estivemos de costas voltadas e já deixou de ser verdadeiro, como ficou demonstrado por Saramago, que foi muito feliz com Pilar e ficou em parte a dever o Nobel ao facto de ter sido adotado pelos nossos vizinhos do lado. E são os ventos de Espanha que curam os deliciosos presuntos de pata negra de Barrancos.

A abertura das fronteiras, o Erasmus e a natural osmose das duas economias eliminaram as desconfianças, filhas do desconhecimento, entre os povos ibéricos, agora circunscritas a pequenos grupos que se entretêm a tentar manter vivas causas quixotescas, como a questão de Olivença ou a manutenção do feriado nacional antiespanhol.

Quando precisa de ir a Bruxelas, o presidente da Junta da Extremadura vai a Lisboa apanhar o avião, porque Lisboa (280 km) fica mais perto de Mérida do que de Madrid (320 km). E quando querem viajar para Londres ou Paris, os galegos voam a partir do Porto na Ryanair.

Portugal e Espanha são os dois vizinhos que habitam a Península Ibérica e por isso condenados a entender-se. Hoje, na Alfândega do Porto, há uma reunião de condomínio entre Lisboa e Madrid. É um encontro importante. Mas mais importante que a cimeira é o reforço dos laços estabelecidos entre a Galiza e o Norte, a Extremadura e o Centro.

Temos de construir uma Ibéria multipolar, porque, na UE, os ventos da História sopram no sentido de um regime federalista, em que os poderes concentrados nas capitais vão ser progressivamente distribuídos por Bruxelas e as regiões.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias


Tags:

Publicado por Jorge Fiel às 09:38
Link do post | Comentar | Ver comentários (6) | Adicionar aos favoritos

Segunda-feira, 7 de Maio de 2012
Mais cm2, menos cm2

Um pequeno incidente marcou a chegada desta primavera chuvosa. A 20 de março, fiz uma pergunta retórica: "Para que serve o presidente da República?", a que dei uma resposta disfarçada de conselho: "Não vale responder: para torrar 17 milhões de euros/ano, que é quanto custa manter a Presidência da República, cujos gastos subiram 31% nos cinco anos do primeiro mandato de Cavaco".

Esta frase, que gastou 10 cm2 do nosso JN (e usou números publicados e nunca antes desmentidos), não caiu bem em Belém, que enviou uma clarificação logo publicada, ocupando 248 cm2 da edição de 21 de março, o que coloca duas questões.

Faz sentido dar à clarificação de uma frase um espaço 24,8 vezes superior ao ocupado pela frase que clarifica?

Apesar de um não ser muito tentador, eu respondo que sim. Sim, porque o respeito que a Presidência da República (PR) nos deve merecer exige que lhe seja concedida toda a latitude para esclarecer a maneira como ela gasta os dinheiros públicos.

Quem tem razão? Eu ou Cavaco?
Aqui a resposta certa é os dois. Belém diz que em 2006, no ano em que Cavaco assumiu funções, o Orçamento da PR foi de 17 milhões de euros. É verdade. Eu digo, em 2006, a verba inscrita no Orçamento para o funcionamento da PR foi de 14,1 milhões. Também é verdade. Uma coisa é verba inscrita outra é verba gasta. Belém diz que tem vindo a diminuir as despesas e compara os 17 milhões, gastos em 2006, com os 15,1 milhões inscritos no Orçamento 2012. É verdade. Eu digo que comparando o último ano completo de Sampaio com o primeiro de Cavaco, as despesas de funcionamento da PR subiram 2,53 milhões, ou seja 19%.

Podia estar aqui a gastar cm2 de jornal a fazer comparações, dispondo os números à luz da perspetiva que melhor ilustra o meu ponto de vista, mas sinto que não só não posso (o espaço desta crónica é finito: 220 cm2) como também não devo fazê-lo.

Não sei se deva comparar os 16 milhões de euros que PR portuguesa gastou em 2011 com os 8 milhões de euros gastos nesse ano pela Casa Real espanhola.

Sei que corro o risco de passar por monárquico ao comparar os 1, 6 euros que Belém custa, em média, a cada português, com os 0,93 euros que a Coroa britânica custa aos seus súbditos, ou os 55 cêntimos per capita que os suecos pagam para manter o Carlos XVI Gustavo, rainha Sílvia e respetiva família.

E não quero parecer demagógico ao comparar os 500 funcionários dependentes do Palácio de Belém com os 400 ao serviço do Palácio de Buckingham.

Se calhar vou abster-me de criticar o que me parece serem os gastos excessivos de Belém, porque, como bem sublinhou a PR na sua clarificação de 248 cm2, os 16 milhões de euros cobrem também as despesas do Museu da Presidência, o Conselho de Estado e os conselhos das ordens honoríficas, bem como os gabinetes dos anteriores chefes de Estado - e se Eanes é austero (no seu tempo a PR gastava 163 vezes menos que agora), já não ponho as mãos no fogo por Soares, que noutro dia até queria pôr-nos a pagar os 300 euros de multa que apanhou por ser apanhado a 200 à hora.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias


Tags: ,

Publicado por Jorge Fiel às 09:31
Link do post | Comentar | Ver comentários (1) | Adicionar aos favoritos

Domingo, 6 de Maio de 2012
O caso das prostitutas gregas

Um dos feitos maiores do cavaquismo, de que o próprio Aníbal mais se orgulhou à época, foi conseguir tirar Portugal da cauda da Europa, quando passámos aos gregos a lanterna vermelha do último lugar na estatística do PIB per capita na UE. Foi uma enorme alegria patriótica mas não durou muito, por causa não só da esperteza dos gregos mas também dos alargamentos que levaram a casa europeia a crescer da antiga dúzia para os atuais 27.


Os gregos sempre foram muito marotos, e em 2006, num golpe de magia abençoado por Bruxelas, aumentaram o seu PIB em 25%, através de uma mudança do método de cálculo da riqueza produzida, que passou a contabilizar o contrabando de tabaco, a lavagem de dinheiro e o valor acrescentado produzido pelas prostitutas.

Esta operação bizarra não foi inédita. Em 1987, a Itália tinha feito crescer o seu PIB em 15% num passe idêntico, que pôs os italianos a serem estatisticamente mais ricos que os ingleses.  

 

Estes aumentos artificiais têm efeitos práticos bastante simpáticos numa data de estatísticas importantíssimas. Ao aumentar em 25% o PIB, mediante a incorporação do suposto valor acrescentado produzido de atividade ilegais, Atenas reduziu automaticamente o défice de 2,4% para 1,9%.


A simplicidade desarmante destes truques contabilísticos obriga-nos a olhar com desconfiança para as estatísticas que nos servem diariamente e estão a transformar a nossa vida num pesadelo - pois só de pensar no futuro ficamos logo com dores de cabeça.


Se o Eurostat autorizasse o INE a reavaliar em alta o nosso PIB, pondo uma lupa em cima do contributo da economia subterrânea, tiraria um grande peso de cima de Vítor Gaspar, que veria facilitada a tarefa de cumprir as metas que prometemos à troika - mas, na vida real, continuaríamos tão pobres ou tão ricos como antes desse exercício de caráter iminentemente ficcional.


As estatísticas valem o que valem - e na maior parte das vezes valem pouco. Sabe como é calculada a contribuição para o PIB de professores, médicos e enfermeiros do SNS, militares, políticos e restantes funcionários públicos? É simples. O contributo deles para a ficção da riqueza nacional medida pelo PIB é calculado pelo que ganham e gastam.

 

Dito por outras palavras. O recuo do PIB é umas das consequências negativas de um saudável emagrecimento do Estado e diminuição das suas despesas. Ao baixar em 25% o poder de compra dos funcionários públicos, o Governo está também a encolher o PIB!


As estatísticas valem o que valem - e na maior parte das vezes valem pouco, como o demonstra a anedota do homem que casou com a sua mulher a dias. Ela continuou a fazer a mesmas coisas que fazia enquanto era solteira, mas como o homem lhe deixou de pagar, ao passar de patrão para marido, o PIB diminui, apesar de tudo levar a crer que eles ficaram mais felizes.


Moral da história. O que temos a fazer é não levar isso do PIB muito a sério - e sermos felizes.


Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias


Tags:

Publicado por Jorge Fiel às 09:23
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

Quinta-feira, 3 de Maio de 2012
Como lidar com a ressaca

 

Há duas maneiras de lidar com a ressaca. A tentação é de aliviar o mal-estar repondo os níveis de álcool no sangue. Mas a solução boa e duradoura consiste em tirá-lo do organismo, o que implica uma certa dose de sacrifício.
Na ressaca de duas décadas de bebedeira despesista, o Governo Passos não teve outra solução senão recorrer ao atalho de meter mais álcool para a veia. Os seis mil milhões dos fundos de pensão da Banca compuseram as contas de 2011 e permitiram-nos cumprir o prometido à troika, mas debilitaram a Segurança Social que assumiu responsabilidades com bancários que implicam uma despesa anual suplementar estimada em 500 milhões de euros.
Teve de ser, e o que tem de ser tem muita força, mas foi uma espertice igual à dos miúdos nórdicos que fazem xixi nas calças para aquecer as pernas que estão a tremer de frio. No imediato, dá resultado, mas a prazo ainda vão sofrer mais.
As estatísticas do primeiro trimestre confirmaram o que já se suspeitava: a Segurança Social é a mais perigosa das bombas-relógio que o Governo tem nas mãos, pois a sua sustentabilidade assenta no delicado equilíbrio entre uma série de variáveis tão voláteis como o desemprego, inflação, envelhecimento da população, esperança de vida e crescimento da economia.
De janeiro a março, o buraco da Segurança Social agravou-se à razão de 3,3 milhões de euros/dia, devido ao efeito conjugado da quebra de 2,5% nas contribuições e do aumento de 23% nas despesas com reformas e subsídio de desemprego.
O congelamento dos subsídios aos pensionistas e das reformas antecipadas não é senão o início de uma série de medidas de emergência que visam conter as proporções de um incêndio ateado pelo aumento do desemprego e a recessão e que se propaga a uma enorme velocidade no terreno seco de um sistema em que há cada vez menos a descontar e mais a receber.
Não é preciso ser um Einstein para perceber a insustentabilidade do sistema pay-as-you-go em que assenta a nossa Segurança Social, em que os que estão no mercado de trabalho descontam parte do ordenado para pagar as pensões dos que estão na reforma - na expetativa (otimista) de que mais tarde, quando chegar a sua vez, haverá outros a descontar para lhes pagar a reforma.
O ideal, mas impraticável neste momento, é o modelo sueco, em que há um desconto mínimo obrigatório para o regime público, e acima de um determinado montante (três a cinco salários mínimos), o contribuinte é livre de entregar a públicos ou privados a gestão da sua poupança para o futuro.
Enquanto o estado lamentável das contas públicas não permitir a evolução para este regime de plafonamento de contribuições e reformas, o Governo não pode nunca esquecer que neste particular das reformas está a brincar como o fogo, com o dinheiro que os contribuintes pouparam ao longo de uma vida - e entregaram nas mãos do Estado para acautelar a sua subsistência futura quando por alguma razão tiverem de deixar de trabalhar. Trata-se, por isso, de dinheiro sagrado.
Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias

 



Publicado por Jorge Fiel às 12:09
Link do post | Comentar | Ver comentários (33) | Adicionar aos favoritos

Sexta-feira, 27 de Abril de 2012
Destralhar o edifício legislativo

Ainda sou do tempo dos sinaleiros, normalmente gordos, instalados em cima de um palanque, no meio do cruzamento, a esbracejarem mandando vir ou parar o trânsito, com a cabeça enfiada dentro daquele imponente capacete branco que lhes fez ganhar a alcunha de cabeças de giz. Mas, devo confessar, sou um fã dos semáforos.

O que me atrai nos semáforos é a simplicidade e universalidade do sistema. Não importa se estamos de carro ou a pé, em Nova Iorque, Cabul, Paris, Cartum ou Bogotá. O verde manda-nos seguir em frente e o amarelo avisa-nos de que o sinal vai passar ao vermelho que nos obriga a parar. Tão simples que até um analfabeto percebe. Claro que depois há variantes. Em Berlim, as luzes estão decoradas com uns bonecos patuscos. Em algumas cidades espanholas e em Lisboa, na zona da Expo, há semáforos que nos avisam quantos segundos faltam para mudar de cor. Em Los Angeles, se a manobra for feita com cuidado, é permitido virarmos à direita mesmo quando está vermelho. E há sinaléticas complementares inventadas em benefício de cegos ou daltónicos.

Nas coisas essenciais da nossa vida a simplicidade e fiabilidade são valores inestimáveis, mas lamentavelmente a esmagadora maioria dos políticos ou desconhece este princípio sábio ou não tem o bom senso de o observar quando, para mal dos nossos pecados, chegam a lugares de Governo com o peito cheio de ar e convencidos de que tudo quanto foi feito pelos seus antecessores está errado e tem de ser mudado.

Estou a falar de gente que até pode estar bem preparada e ser bem-intencionada (à partida temos de admitir tudo), mas que, se pudesse, na impossibilidade de fazer o negócio por ajuste direto, abria logo um concurso público para o fornecimento, chave na mão, de um novo sistema de semáforos, em o que o azul seria o novo sinónimo de proibição, o laranja substituiria o verde, enquanto que o amarelo passaria a cor-de-rosa.

Num país como o nosso em que ninguém sabe ao certo quantas leis existem e estão em vigor diplomas que se contradizem uns aos outros, manda a prudência que, em vez de produzir mais legislação, os deputados e ministros concentrem os seus esforços em desbastar a selva legislativa, mãe de um
emaranhado de burocracia que nos prende os movimentos, entope os tribunais - e nem sequer aproveita aos advogados.

Destralhar o asfixiante e labiríntico edifício legislativo que habitamos é prioritário se queremos mesmo atacar um sistema de Justiça, com anedóticos indicadores de produtividade e em que ninguém confia. Como se consegue isso? Deixo ficar uma sugestão. No primeiro ano, os ministros deviam estar proibidos de legislar. E partir do segundo ano, só podiam fazer uma lei nova por cada duas velhas que eliminassem.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias


Tags: ,

Publicado por Jorge Fiel às 08:26
Link do post | Comentar | Ver comentários (21) | Adicionar aos favoritos

Segunda-feira, 23 de Abril de 2012
O Porto tem dupla personalidade

O Porto sofre de dupla personalidade. Cheguei a essa conclusão durante um almoço de polvo assado com o Tiago (o TAF do blogue A Baixa do Porto) numa esplanada da Ribeira, num daqueles belos dias ensolarados e mornos proporcionados pelo inverno do aquecimento global.

Passo a explicar. Os restaurantes e passeios estavam cheios de gente, mas eu e o Tiago devíamos ser os únicos clientes portuenses. O resto do pessoal tinha um T de turista tatuado na testa.

O Porto está na moda e ainda bem para todos. Para os que nos visitam, pois podem desvendar uma cidade diferente das outras, que tem para lhes oferecer coisas tão únicas como Serralves, a Casa da Música, as caves do vinho do Porto e muitos quilómetros de belos passeios à beira do rio ou do mar.

É também bom para nós, portuenses, porque beneficiamos da transfusão de vida e de dinheiro nas veias de uma metrópole que padece com a anemia geral que se apoderou da economia do país e com o vil desprezo a que os governos de Lisboa nos têm votado.

A animação da Baixa e da Ribeira, garantida noite e dia pelos turistas desembarcados pela Ryanair no Sá Carneiro e pelos 3500 estudantes estrangeiros que frequentam a Universidade do Porto, é uma das faces da doença que atacou a cidade.

O Centro Histórico e tradicional da cidade é vivido por turistas, viajantes e moradores temporários, com os habitantes locais a fazerem as vezes de figurantes num filme protagonizado pelas pontes, a torre dos Clérigos, os bares da Galeria de Paris, a francesinha e os finos de Super Bock, a livraria Lello, o Parque da Cidade e os magníficos painéis de azulejo que revestem as igrejas ou o átrio da estação de S. Bento.

O centro da cidade vivido pelos portuenses não é acessível a pé, mas sim de carro, e é constituído por um triângulo largo, que tem o NorteShopping/Mar Shopping/IKEA num vértice, o Arrábida/GaiaShopping/Corte Inglés no outro, e o Dolce Vita/Parque Nascente no terceiro. É nestas novas catedrais do consumo que a maioria dos portuenses faz as compras e gasta os tempos livres.

A dupla personalidade não é propriedade privada do Porto. Trata-se de uma doença que atinge outras cidades como a nossa que sofreram de um crescimento urbano acelerado e horizontal, caótico e difuso.

Esta expansão tipo mancha de óleo, potenciada pelas autoestradas, criou aglomerados com baixa densidade populacional, tipo cidade jardim, baseados no uso intensivo do automóvel, insustentáveis não só do ponto de vista ambiental, mas também da viabilidade de uma rede eficaz de transportes públicos.

A nossa qualidade de vida, o futuro do Planeta e o ressurgimento económico do Porto exigem a criação de condições para que os portuenses regressem à Baixa, voltando a habitar e viver o núcleo central da cidade, curando-a assim do distúrbio de dupla personalidade que a afeta

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no JN


Tags:

Publicado por Jorge Fiel às 12:14
Link do post | Comentar | Ver comentários (31) | Adicionar aos favoritos

Domingo, 22 de Abril de 2012
Contra a reabilitação jacuzzi

A Pasteleira é um bom sítio para viver. Tem um bosque precioso e um parque estupendo, está razoavelmente servido de transportes públicos e fica junto ao rio e ao mar, que proporcionam vistas deslumbrantes aos felizardos que moram nos andares altos das torres ou não têm casas à frente. É muito fixe.

Morei mais de 20 anos na Pasteleira e gostei muito. Só mudámos porque a senhoria não se mostrou recetiva à proposta de lhe comprar o andar que fiz quando achei chegado o momento de investir em casa própria a poupança de uma vida.

É bem portuguesa esta mania de ser dono da sua casa. Trata-se de uma tendência filha do casamento entre a drástica redução da oferta de casas para arrendar a preços razoáveis (provocada pelo congelamento das rendas) e a oferta bancária massiva de crédito a habitação a preços baratos.

O resultado é um mercado habitacional desequilibrado, onde menos de 20% das casas são arrendadas (na Holanda são 40%) e perto de metade dos contratos são de rendas inferiores a 60 euros/mês.

Não obstante, comprar casa pareceu-me a medida mais acertada, à luz do objetivo de abordar o período conturbado que se avizinhava com um passivo praticamente nulo e encargos fixos mensais reduzidos ao mínimo - ou seja, menos capitalizado, mas capaz de sobreviver com um rendimento baixo. Ao contrário do que muita gente pensa, austeridade e empobrecimento não são necessariamente sinónimos.

Quando em 2008, o ano da falência da Lehman nos pusemos em campo, definimos as características do alvo - T4, duas casas de banho (uma com janela exterior) preferencialmente na zona ocidental - e o limite da nossa oferta: 200 mil euros.

Após meio ano e dezenas de visitas, apaixonamo-nos por um T4+1 duplex na Boavista, desabitado há mais de uma dúzia de anos e a precisar de grandes obras. Negociámos o preço do imóvel e das obras de reabilitação, até em conjunto excederem apenas ligeiramente o nosso teto.

Os sistemas elétricos e de canalização foram feitos de novo. Ficámos com pena (e frio no Inverno) de não haver dinheiro para lareira, aquecimento central ou vidros duplos. Tivemos de poupar muito na cozinha e casas de banho. Aproveitámos ao máximo os materiais existentes. Mas vai fazer agora três anos que nos mudámos e estamos todos muito satisfeitos com a casa nova.

Com base nesta minha experiência, fico de boca aberta ao saber que a SRU pede 82 mil euros por um T0 na Ribeira e 310 mil euros por um T3 em Mouzinho da Silveira - e que não está a ganhar dinheiro, mas a tentar vender a preços do custo.

O que o Porto precisa não é de uma reabilitação urbana jacuzzi para ricos - até porque a maioria deles prefere morar na Foz -, mas de uma reabilitação low cost, que aumente a oferta de casas pequenas, práticas e baratas para quem gosta e quer viver no Centro Histórico.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no JN


Tags:

Publicado por Jorge Fiel às 12:11
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

Quarta-feira, 18 de Abril de 2012
Qual é a ponte mais bonita?

Qual é o melhor disco dos Beatles? O Sgt Peppers ou o White Album? Saramago ou Lobo Antunes? O Porto 87 de Artur Jorge ou o Porto 04 de Mourinho? Paris ou Londres? Vinho branco jovem e frutado ou com madeira? Pelé ou Maradona? Antas ou Foz? Ronaldo ou Messi? Braga ou Guimarães? Tawny ou ruby?

Há milhares de questões tão fraturantes como estas que dividem colegas, amigos e familiares, proporcionando discussões intermináveis, em que os argumentos se vão desbobinando como cerejas.

Vem este introito a propósito da minha incapacidade em estabilizar uma opinião sobre qual é a mais bonita das pontes do Porto.

Tem dias em que me deixo comover pela extraordinária leveza da D. Maria Pia, uma das obras maiores de Eiffel, uma ponte "toda em renda de Bruxelas" (Teixeira de Pascoaes).

Mas o meu coração balança quando, seguindo em direção à Foz, deparo com o gigantesco arcaboiço dos dois tabuleiros da formosa ponte Luiz I, riscada por Teófilo Seyrig, que une o morro granítico da Sé com a escarpa da Serra e a Ribeira com o Cais de Gaia.

E fico baralhado em definitivo quando, após o Douro vencer a penúltima curva antes de chegar ao seu destino, surge a ponte da Arrábida e o audacioso e elegante arco com que Edgar Cardoso deixou de boca aberta o mundo da engenharia no dealbar dos anos 60.

Não tenho dúvidas sobre a composição do pódio, mas sim sobre o lugar que cada uma destas três pontes ocupa. Se tivesse de escolher agora mesmo, era capaz de colocar a da Arrábida no lugar mais alto.

A par da Torre dos Clérigos, de Nasoni, e da Casa da Música, de Rem Koolhaas, e do Museu de Serralves, de Álvaro Siza, as pontes são um emblema do Porto e também um barómetro revelador da importância relativa da cidade e da região no conjunto do país.

As duas mais antigas foram inauguradas com nove anos de intervalo - Maria Pia em 1877 e Luiz I em 1886 - no final de um século XIX, que foi um dos períodos mais prósperos da nossa região.

Os 77 anos que foi preciso esperar até à inauguração, em 1963, da terceira ponte, a da Arrábida, dizem tudo sobre a incapacidade da I República, o atrofiamento a que o Estado Novo submeteu o país, e a importância (praticamente nenhuma) que o centralismo lisboeta atribuía ao Porto.

As três pontes (S. João, Freixo e Infante) abertas em dez anos (95-05), retratam um período dourado de uma cidade orgulhosa de ter finalmente o seu sistema de metro, ser Capital Europeia da Cultura, ver o Centro Histórico proclamado Património da Humanidade e assistir à glória europeia do clube que leva o seu nome.

O novo esplendor do Porto e do Norte, que o ressurgimento cultural e das exportações prenuncia, ficará assinalado na História pela construção de mais pontes, em sentido literal e figurado, a coserem as duas margens do nosso rio, o Douro, que vai deixar de dividir - e passará a unir.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias


Tags: ,

Publicado por Jorge Fiel às 20:13
Link do post | Comentar | Ver comentários (25) | Adicionar aos favoritos

Sexta-feira, 13 de Abril de 2012
Não deixem o comboio descarrilar

Andei sempre de Alfa ou Intercidades entre o Porto e Lisboa. Veterano de meia dúzia de anos com idas à segunda de manhã e regressos na sexta ao final da tarde, não tenho a menor dúvida de que o comboio é meio de transporte ideal entre as duas cidades.

Relativamente ao carro, o que se perde em flexibilidade de horários é amplamente compensado pelo muito que se ganha em segurança, tempo de trabalho ou descanso (ao volante não é conveniente ir a ler ou a dormir), dinheiro e custos ambientais.

O tempo que se demora é apenas ligeiramente superior ao que se consegue de automóvel, uma desvantagem que fica a dever-se apenas ao desperdício de 1,3 mil milhões de euros torrados nas obras inacabadas de renovação da Linha do Norte.

O Alfa, com capacidade para velocidades médias na ordem dos 200 km/hora, precisa de 2.45 h para fazer 300 km porque anda numa linha ultracongestionada onde circulam diariamente 591 comboios!

Este país com mais autoestradas por km2 (e menos km de linha eletrificada) é resultado da conjugação do labor do lóbi do betão com a inépcia da nossa classe política.

Durão Barroso e Manuela Ferreira Leite tiraram o TGV do fundo da gaveta em que Ferreira do Amaral arrumou um projeto que tinha sido colocado em cima da mesa por João Oliveira Martins, o primeiro ministro das Obras Públicas de Cavaco.

Antes de bazar para Bruxelas, Durão acordou com Aznar, numa cimeira ibérica, não uma, nem duas, nem três, mas cinco linhas de TGV: Lisboa-Madrid, Porto-Vigo, Porto--Lisboa, Aveiro-Salamanca e Évora-Faro-Huelva.

O TGV não foi uma maluquice de Sócrates, que ganhou a primeira maioria absoluta do PS prometendo TGV mais Ota e conseguiu a reeleição batendo Ferreira Leite que cometeu o erro de transformar as legislativas num referendo nacional sobre a alta velocidade.

Nos últimos 15 anos, os governos conseguiram a proeza de desperdiçar dinheiro, ao ponto de deixarem a economia do país em pior estado que o chapéu de um trolha, e não construíram um só km de TGV, que tiveram a arte de diabolizar e passou a ser sinónimo de luxo supérfluo - apesar de estar em fase adiantada de construção em Marrocos.

Não é preciso ser um Einstein para perceber que a escalada louca do preço do petróleo e os custos ambientais do transporte rodoviário e individual aconselham investimentos em transportes públicos e ferroviários, movidos a energias limpas e renováveis.

Não tem de se chamar TGV. Os espanhóis batizaram-no de AVE. Não tem de andar a 350 km/hora. Bastam os tais 200 km/h de que fala Álvaro para as Linhas de Alta Prestação - e podemos chamar-lhe isso mesmo: LAP.

Mas arranjem p.f., e o mais depressa possível, LAP que escoem rapidamente mercadorias e pessoas, de Sines e Aveiro para Badajoz e Salamanca, e cosendo o litoral, de Setúbal a Vigo, amarrando os nossos portos e centros urbanos à rede de alta velocidade espanhola.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias


Tags: ,

Publicado por Jorge Fiel às 11:23
Link do post | Comentar | Ver comentários (11) | Adicionar aos favoritos

Quinta-feira, 12 de Abril de 2012
O BPN dava um filme indiano

Não imaginam quanto lamento não ter o tempo nem o talento para digerir os 70 volumes e 700 apensos do caso BPN e escrever um thriller baseado nos factos reais da maior fraude portuguesa do século. A realidade supera sempre a ficção. Duvido que John Grisham fosse capaz de imaginar a cena do juiz presidente do coletivo ter de fazer uma coleta para comprar no IKEA uma estante para arrumar o processo - que lhe foi negada pela DG da Justiça.

A galeria de personagens é estupenda. Ken Follet teria de nascer duas vezes para conseguir inventar um naipe tão rico, denso e variado.
No protagonista, Oliveira e Costa, que por alguma razão era conhecido na sua terra (Esgueira) como Zeca Diabo, e que munido de um cartão laranja subiu na vida ao ponto de chegar a secretário de Estado.

Saído do Governo de Cavaco, na sequência de um perdão fiscal mais que suspeito a empresas de Aveiro (Cerâmica Campos, Caves Aliança), foi recompensado pelo seu amigo com uma vice-presidência do BEI, apesar de ter uminglês ainda mais rudimentar que o de Zezé Camarinha.

Amigo do seu amigo, Costa comprou, em 2001, um lote de ações da SLN (dona do BPN), a 2,4 euros cada, que revendeu com prejuízo (a um euro/ação) ao amigo algarvio (o Aníbal, não o Zezé) e à filha dele. Menos de dois anos depois, Cavaco e Patrícia venderam as ações com um lucro de 140% - ele ganhou 147 mil euros, ela 209 mil. Nada mau.

Quando o naufrágio foi evidente, Zeca Diabo teve a dignidade de ir ao fundo com o barco, aceitou fazer de único responsável pelas patifarias. Em recompensa pela imolação, foi libertado devido "ao seu estado de saúde e por se encontrar em carência económica".

O elenco de atores secundários também é muito atraente e diversificado. Por exemplo, Manel Joaquim (Dias Loureiro), o filho de comerciantes de Linhares da Beira que chegou a ministro, conselheiro de Estado e administrador-executivo do BPN, carreira em que fez fortuna ao ponto de poder comprar, por 2,5 milhões de euros, à viúva de Jorge Mello, uma mansão no Monte Estoril.

Temos também Vítor Constâncio que, apesar de usar óculos e ser o governador do Banco de Portugal, foi o último a ver a falcatrua, anos depois da Deloitte, Exame e Jornal de Negócios terem alertado para o assunto.

E ainda Scolari, que recebia 800 mil euros/ano, Figo (apenas 400 mil/ano) e Vale e Azevedo, que sacou dois milhões (passaram-lhe o cheque antes de verificarem as garantias), e tantas outras figuras do nosso Gotha que lucraram com um banco que tinha balcões em gasolineiras e ativos tão extravagantes como 80 Mirós e uma coleção de arte egípcia.

O enredo é fabuloso. Dava um filme indiano. Só espero que, na venda ao BIC, o Estado tenha tido o bom senso de reservar os direitos de adaptação ao cinema desta história, que estou certo será disputada por Hollywood e Bollywood. Sempre será algum dinheiro que entra para minorar o prejuízo de seis mil milhões.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias


Tags:

Publicado por Jorge Fiel às 11:14
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

Segunda-feira, 9 de Abril de 2012
Para acabar de vez com a chulice

Agatha Christie, sim. Toda. Mas não só. Também Stanley Gardner, Rex Stout, Simenon, Chandler .... enfim toda a galeria de autores que a coleção Vampiro nos apresentou em livros de bolso baratos, com capas lindas (em particular as de Lima de Freitas) e encadernações péssimas.

Vampiro sim, mas não só. Também outros clássicos, como Poe, Conan Doyle ou Maurice Leblanc, ou não tão clássicos como a mais recente geração de autores nórdicos, inaugurada pelo imperdível Henning Mankell e colocada em órbita por Stieg Larson.

Fanático por policiais, não resisto a um bom mistério, como este que vou expor, protagonizado pelo Porto e a região de que é o principal centro de serviços e a porta de entrada e saída de gentes e mercadorias.

O Porto tem o mais elogiado aeroporto do país, o que mais cresce (carga e passageiros) e é regularmente eleito como um dos melhores do Mundo (senão mesmo o melhor), na sua categoria. Temos Leixões, o mais eficiente, lucrativo e cobiçado de todos os portos portugueses.

Temos indústrias tradicionais (têxtil, vestuário, calçado e metalomecânica, etc.) que souberam aguentar o impacto da globalização e fazer do Norte a única região do país que exporta mais do que importa.

Temos Amorim e Belmiro, os dois maiores empresários da geração pós 25 Abril, que se firmaram sem terem de ser levados ao colo pelo absurdo Condicionamento Industrial do Estado Novo.

Temos o vinho do Porto, produzido no Douro, declarado pela Unesco Património da Humanidade, e as duas marcas de produtos portugueses com maior notoriedade internacional (Mateus Rosé e Super Bock).

Temos Serralves e a Casa da Música, dois Pritzker, a escola de Arquitetura mais famosa do Mundo. Fomos o berço do rock português, uma linhagem que nasce com a dupla Tê/Veloso e inclui Abrunhosa e os GNR de Reininho.

Temos Manoel de Oliveira, o Fantasporto, as Curtas de Vila do Conde, o FITEI, o TN S. João, o Palácio de Vila Flor, o Theatro Circo e dois centros históricos (Guimarães e Porto) que a humanidade adotou.

Temos o F. C. Porto, a mais bem-sucedida e admirada das nossas equipas de futebol, que não é um eucalipto e soube acarinhar o crescimento do Sp. Braga, o clube do distrito mais jovem da Europa, que se afirma como o terceiro grande.

Temos a melhor, maior e mais internacional das universidades, a UP, bem no centro de uma competitiva teia de produção de conhecimento formada pelas suas congéneres de Aveiro, Braga e Trás- os-Montes.

Se temos tudo isto, se o Porto é o melhor destino turístico europeu 2012, se o Norte é a segunda região que mais contribui para a riqueza do país, por que é que continua a ser a mais pobre e negligenciada?

Este mistério tem duas explicações. A primeira é de que Porto e Norte têm excelentes jogadores, mas falta-lhes o líder que os transforme numa equipa vencedora. A segunda é que depois de darmos o nome ao país - e de dar a carne de primeira, para ficar com as tripas -, chegou a hora de dizer não aos chulos que vivem e prosperam com a mão metida no nosso bolso.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias



Publicado por Jorge Fiel às 10:00
Link do post | Comentar | Ver comentários (45) | Adicionar aos favoritos

Domingo, 8 de Abril de 2012
Casado, mas com vida de solteiro

Neste dia em que celebramos a Ressurreição, sei que corro o risco de parecer herege ao citar James Joyce, que para modelo ideal de homem preferiu Ulisses a Jesus, que considerava incompleto por nunca ter casado.

Nos primeiros 30 anos de vida, Cristo levou uma existência apagada. Com José, o pai legal, aprendeu o ofício de carpinteiro. E estudou as Escrituras, como qualquer jovem judeu da época. Nos três últimos e extraordinários anos da sua vida, abundantemente documentados nos Evangelhos,foi bondoso com os enfermos e ajudou pobres, humilhados e ofendidos. Mas quanto a mulheres, apenas sabemos que perdoou a pecadora e libertou Maria Madalena dos "sete demónios". Não viveu com nenhuma.

Dou razão a Joyce. Viver com outra pessoa é uma das coisas mais difíceis que um homem tem de fazer. Obriga à busca permanente de consensos e equilíbrios entre direitos e obrigações e à generosidade de partilhar não só os bons momentos mas também aturar os maus.

Recordo Joyce e a vida de Cristo a propósito da muita hipocrisia e irresponsabilidade que anda no ar a propósito da ratificação do Tratado Orçamental, que 25 dos 27 membros da UE aprovaram a 2 de março,obrigando-se a transpor de forma permanente, para o ordenamento jurídico nacional, a regra de ouro do défice orçamental não exceder 0,5% do PIB e a divida pública ser inferior a 60% da riqueza nacional.

Vale a pena parar um pouco para pensar nisto, evitarmos cair na demagogia barata e sermos contaminados pela argumentação desonesta de políticos medrosos ou que, em respeito pelo seu passado, melhor fariam em estar calados e a gozar as delícias da reforma, abstendo-se de ser mal-educados e ainda por cima mandarem para nós a conta das multas por excesso de velocidade.

Perdidas as colónias, optamos por casar com a Europa. Em 86, fomos admitidos na CEE. De então para cá vivemos sempre acima das nossas possibilidades, beneficiando de um casamento acima da nossa classe, pelo que fomos dizendo sempre que sim quando chamados a reforçar os votos matrimoniais. Aplaudimos com entusiasmo o mercado único, a livre circulação de pessoas e mercadorias. Deliramos orgulhosos por nos deixarem entrar no clube restrito da moeda única.

Andamos felizes e contentes a esbanjar muito mais do que produzíamos até darmos por nós a balouçar à beira do abismo da falência. A Europa rica, com que estamos casados de livre vontade, deu-nos a mão, quando lhe pedimos ajuda, mas naturalmente impõe condições.

Digo naturalmente, fazendo coro com Campos e Cunha, quando o primeiro ministro das Finanças de Sócrates diz: "Uma vez que não nos soubemos governar é melhor aceitar a tutela".

Digo naturalmente, subscrevendo por baixo o exemplo luminoso que Teixeira dos Santos (sucessor de Campos e Cunha) dá aos seus alunos da FEP: "Não podemos estar casados e continuar a levar vida de solteiro".

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias


Tags:

Publicado por Jorge Fiel às 09:54
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

Quinta-feira, 5 de Abril de 2012
Vai trabalhar, malandro

Tempo e dinheiro (a ordem é arbitrária) são duas das coisas mais preciosas que há nesta vida. A grande porra é que de dia para dia fica cada vez mais difícil desfrutar delas em simultâneo, num regime satisfatoriamente equilibrado.
A abundância de tempo não faz a felicidade do milhão de portugueses desempregados e que, na sua imensa maioria, ambicionam ter trabalho.

Os desempregados têm tempo mas não têm dinheiro, enquanto que os felizardos como eu, que dão graças ao seu Deus por terem trabalho e chegarem ao fim do mês com o salário religiosamente depositado na conta, têm dinheiro, mas falta-lhes cada vez mais tempo livre.

"É porque hoje vou conseguir trabalhar menos de 12 horas", respondeu-me, noutro dia, um colega quando lhe perguntei por que é que andava com cara de Páscoa, ou seja com um ar alegre e jovial.

A má notícia é que não está para breve o fim deste nosso calvário. O desemprego vai continuar a aumentar e os bem-aventurados que conseguem manter um emprego vão ter de carregar a cruz de trabalhar cada vez mais e melhor, na esperança de que ocorra o milagre da ressurreição da nossa economia.

Amanhã é feriado, a Sexta-Feira Santa que antecede o domingo de Páscoa e assinala o julgamento, crucificação e morte de Cristo. Mas hoje, a quinta-feira que celebra os últimos momentos da vida de Jesus e a Última Ceia, já há muitos portugueses, em particular funcionários públicos (como, por exemplo, Cavaco e Passos, que anteciparam para ontem o seu habitual encontro semanal), que já não trabalham. É a tolerância de ponto.

Tolerância de ponto são palavras mágicas para todos os que incensam o direito à preguiça, os bons malandros que são licenciados em engenharia de pontes e estão na primeira linha da luta contra a redução dos feriados preconizada pelo Governo e com a qual eu estou completamente de acordo.

Trabalhar mais não resolve por si só o nosso grave problema de produtividade - mas ajuda muito. É uma condição necessária, mas não suficiente. Temos também todos de aprender a trabalhar melhor, um processo de aprendizagem permanente a que só a morte põe termo.

Cada feriado custa 37 milhões de euros e nós precisamos de produzir mais riqueza, não de a desperdiçar. É um abuso continuarmos a ter 14 feriados (sem contar com o Carnaval e as tolerâncias de ponto), quando os gregos vivem com 12, os franceses e alemães com dez, e os ingleses como oito. Na via-sacra que estamos a percorrer, é indefensável a manutenção de 140 dias de lazer por ano (entre férias, feriados e dias de descanso), ou seja trabalharmos apenas 62% dos dias. E não me parece bem queixarmo-nos da redução dos dias de férias de 25 para 22, quando os americanos se contentam com um máximo de 14 e os japoneses com apenas 11.

O caminho é doloroso, mas infelizmente não há outra maneira de voltarmos à vida e fazer a nossa economia despertar do estado comatoso em que a deixamos cair.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias



Publicado por Jorge Fiel às 09:47
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

Terça-feira, 3 de Abril de 2012
São omeletes para todos

Os jardins do Polana, em Maputo, são um local encantador mas Américo Amorim já não estava a achar piada nenhuma ao assunto, apesar de desfrutar de uma calmante e bela vista do Índico. Na sua primeira visita a Moçambique desde a lua de mel, o que ele queria era fazer negócios, usando como testa de ponte a Mabor Moçambique, que lhe tinha caíra no regaço por via da aquisição da fábrica de Lousado da mais famosa marca portuguesa de pneus.

Ao todo éramos uma dúzia. Nesta viagem exploratória, Américo levava gente de várias áreas de negócio do seu grupo, desde a finança aos cabos elétricos, passando pela têxtil e hotelaria.

À imagem do seu líder, o grupo Amorim atravessava um período de expansão irrequieta e acelerada, mas o mesmo não acontecia com o serviço na esplanada do Polana, que em hora menos acertada foi escolhida para um almoço rápido.

O tempo anda mais devagar no relógio dos moçambicanos do que nos nossos, o que desesperava o empresário. O empregado demorou uma eternidade a fazer a primeira aparição, que apenas serviu para se inteirar do óbvio (queríamos almoçar), e uma outra eternidade a aparecer com as listas.

"São omeletas para todos", ordenou o homem mais rico de Portugal quando, após uma terceira eternidade, o empregado apareceu para tomar conta dos pedidos. À primeira fiquei surpreso, mas só precisei de segundos para racionalizar e aprender a lição. A tarde de trabalho teria ido pelo esgoto abaixo se cada um de nós stressasse com diferentes pedidos o empregado de mesa e o pessoal da cozinha.

Na Grécia Antiga, o berço da democracia, em épocas de emergência, os cônsules nomeavam um ditador para assumir o poder até a situação regressar à normalidade (para não ficarem com ideias, devo esclarecer que o ditador estava em funções por um período curto e era pessoalmente responsabilizado pelas decisões tomadas).

Lembrei-me de Américo Amorim (o melhor, a par de Belmiro de Azevedo, que emergiu na nossa classe empresarial após o 25 de Abril) a propósito do BPN, sem que isso tenha a ver com a curiosidade dele ter estado ligado ao seu parto (foi, em 93, um dos acionistas fundadores) e enterro (é acionista do BIC).

"Não tenho cultura para esse número, meu amigo", respondeu-me uma vez, quando lhe perguntei se era verdade que, para efeitos da sua privatização, a PT tinha sido avaliada em mil milhões de contos e que ele estava interessado em comprá-la.

Calcula-se que a conta final do BPN ande à volta de seis mil milhões de euros. Como, tal como o meu amigo Américo, não tenho cultura para estes números, só fiquei esclarecido sobre a real dimensão da tragédia quando soube que seis mil milhões de euros são, de acordo com um estudo da Visa,o
impacto económico positivo dos Jogos de Londres 2012 na economia inglesa. Dito por outras palavras, para os nossos bolsos, o BPN são uma espécie de Olimpíadas. Só que ao contrário.



Publicado por Jorge Fiel às 10:47
Link do post | Comentar | Ver comentários (27) | Adicionar aos favoritos

Sexta-feira, 30 de Março de 2012
O meu Mini não é de confiança

O problema era na caixa de velocidades, mas isso só foi apurado três dias depois do final desta história, que, no seu essencial, se passou há cinco anos na A1, na tarde quente de uma sexta-feira de maio, e foi protagonizada pelo Mini Clubman branco, de 1974, que comprei no início do século, na segunda vez que tive de emigrar para Lisboa.

Já há um par de meses que o carro se queixava. E para o fim era o cabo dos trabalhos para ele vencer, em primeira!, a ligeira rampa da garagem do edifício da Impresa, em Paço de Arcos.  

Decidi esperar, porque o meu regresso ao Porto, que eu acreditava ser o definitivo, estava por semanas e preferia entregar o carro aos cuidados do António Santos, o mecânico de Arcozelo que é provavelmente o maior especialista vivo em Minis.

Sexta acordei mais cedo, atulhei o carro com roupa, livros e CD, acondicionados naquelas caixas vermelhas dos CTT. Ao início da tarde, após ter fechado pela última vez o caderno de Economia do "Expresso", guiei devagar pela Marginal até Santa Apolónia.

Fiquei para a minha vida e sem saber o que fazer depois de ter sido informado por um papelinho, colado no portão do serviço auto, que o transporte ferroviário de viaturas tinha sido descontinuado em abril.

Apesar de estar careca de saber que o Mini não estava com saúde para a grande viagem, não havia outra solução senão fazer-me à estrada. Não o podia deixar ficar para trás, abandonado numa rua em Lisboa, com a tralha acumulada durante três anos e meio à vista dos olhares gulosos dos amigos do alheio.

Aguentou com garbo até à Serra dos Candeeiros. Ao km 104 claudicou. O motor trabalhava, as velocidades entravam, mas o Mini não se mexia. O reboque demorou apenas mais uns minutos que a meia hora prometida pela menina da Assistência em Viagem. Estava eu a começar a fazer conversa com o condutor do reboque, que julgava me iria levar ao Porto, quando ele virou para a área de repouso de Fátima, onde deixou parte da carga (eu e as caixas) e me disse para esperar por um táxi que me viria buscar - e avisou que o Mini só na segunda estaria em Arcozelo.

O taxista, que demorou uns 20 minutos a chegar, era uma tagarela que me alarmou logo de entrada, ao dizer que estava com problemas nos travões, e me surpreendeu ao sair da autoestrada em direção a Leiria. "Tenho instruções para o levar a uma rent-a-car", respondeu quando eu protestei dizendo que o meu destino era o Porto.

Foi ao volante de um carro coreano (talvez tão pequeno como o meu Mini mas que tinha a enorme vantagem de tratar as subidas por tu) que fiz a última etapa desta atribulada viagem, que recordo a propósito desta edição do nosso JN em que o verbo confiar é conjugado em todas as secções. O moral que tiro desta aventura é duplo. Apesar de não ser simples, o serviço de Assistência em Viagem revelou-se confiável. Apesar de não ser de confiança, eu continuo a gostar muito do meu Mini Clubman, fabricado no ano da Revolução dos Cravos.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias

 



Publicado por Jorge Fiel às 10:40
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

Terça-feira, 27 de Março de 2012
O PSD e uma garfada de cabidela

O mais provável é que a primeira vez não esteja longe, mas a verdade é que nunca votei no PSD. O que, visto a frio, e atendendo ao facto de já ter acontecido votar no PS, comporta uma grande dose de irracionalidade porque na ação, quer estejam no Governo quer estejam no Oposição, PSD e PS são iguais, além de previsíveis.

Reconheço desde já que nunca ter votado PSD e ter posto a cruzinha na mãozinha é tão irracional como eu comer com gosto o sangue nos rojões e não conseguir levar à boca uma garfada de arroz de cabidela.

Apesar de, na ação, serem como Dupont e Dupond, os dois partidos do Bloco Central têm personalidades muito distintas.

O PSD é um partido difícil de domar, possuído por um caráter autofágico, que o levou a devorar 16 líderes em 38 anos. No mesmo período, o PS gvernou-se com apenas sete (Soares, Constâncio, Sampaio, Guterres, Ferro, Sócrates e Seguro).

Passos é o 17º - faz hoje exatamente dois anos e um dia que foi eleito em Carcavelos, desmentindo assim a previsão de Marcelo, que na altura disse que ele não iria durar dois anos - e está prestes a atingir a idade média de vida dos líderes laranja, que é de 26 meses (estatística deformada pela década de Cavaco), pelo que não demorará a substituir Balsemão (25 meses) no pódio de longevidade, onde Marques Mendes, que se aguentou à bronca 29 meses, está em 2º lugar.

O PSD é um partido irrequieto que não dá vida boa aos seus líderes, principalmente se eles não conseguirem ser pródigos na distribuição de benesses. Olhando para a galeria de retratos de ex-líderes que preenche as paredes da escadaria principal da sede, na São Caetano à Lapa, reparamos que três deles morreram em circunstâncias trágicas - Sá Carneiro, Mota Pinto e Soares Franco.

Partido do tipo albergue espanhol, onde convive gente tão diferente como Alberto João e Pacheco Pereira, capaz de dar ao país modelos de autarca tão diversos como Isaltino, Rio e o major Valentim, o PSD é geneticamente tão diferente do PS que até custa a crer como é que conseguem atuar como irmãos gémeos.

Este mimetismo comportamental dos dois partidos que governaram o país nos últimos 35 anos só pode ter a ver com a sua incapacidade em, chegados ao Poder, afrontar os interesses instalados, deixar de satisfazer as ávidas clientelas e de agirem sem ter as sondagens como astrolábio. É o caráter de máquinas de conquista e administração de poder que faz com que PSD e PS sejam ao mesmo tempo tão diferentes e tão iguais.

Olhem para Passos Coelho, tão bem-intencionado, e que, apesar de escoltado pelos rigorosos Gaspar e Moedas, deixou derrapar para setembro a entrada em vigor da Lei das Rendas (que a troika queria ver rapidamente em execução), atolou-se nas exceções ao teto salarial para os gestores públicos, enredou-se no dossiê PPP e não deu ainda passos decisivos no sentido da urgente reforma da Justiça.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias


Tags:

Publicado por Jorge Fiel às 10:44
Link do post | Comentar | Ver comentários (37) | Adicionar aos favoritos

Domingo, 25 de Março de 2012
Os malefícios do zapping

Lembro-me como se fosse hoje. Após uma primeira fase impecável, em que despachámos com chapa três os nossos três adversários (Brasil de Pelé incluído), aos 25 minutos já estávamos a perder por uns incríveis 3-0 com os fracotes da Coreia do Norte.

A épica reviravolta ficou tatuada na memória da minha geração, que por muitos anos que viva nunca esquecerá onde estava no dia dos 5-3 à Coreia e no 25 de Abril.

Eu estava em casa, no 2.º andar do 304 da Avenida de Rodrigues de Freitas, junto ao Jardim de S. Lázaro, em frente ao enorme televisor Nordmend que o meu pai tinha acabado de comprar a prestações à D. Delfina, da Rádio Mundial, a loja de eletrodomésticos que ocupava o primeiro andar do nosso prédio.

Tinha acabado a primária e andava com dores de barriga por causa dos exames de admissão ao liceu e à escola industrial, quando desembarcou na nossa casa o primeiro exemplar da caixa que mudou o mundo.

Nos últimos 50 anos, mundo e pais mudaram - e de que maneira! - por causa da televisão, mas não só. Hoje, quando chega à primária, para o seu primeiro dia de aulas, uma criança leva a sua cabecinha desorganizada pelas quatro mil horas de televisão que, em média, já leva no papo.

Num mundo em que a atenção humana passou a ser o fator escasso, as crianças crescem em frente à televisão, a verem 26 mil anúncios por ano e a viciarem a cabeça na agressiva linguagem do videoclip inventada pelos publicitários para tentarem fazer ouvir a sua mensagem no meio do ruidoso bombardeamento de informação a que estamos submetidos.

A lamentável falta de capacidade de concentração da geração Internet é filha do malefício do zapping e tem de ser combatida pelo sistema de ensino logo no início, nos bancos da escola primária, para evitar que a  generalidade dos estudantes chegue à Universidade com dificuldade em acompanhar um raciocínio mais elaborado e incapaz de seguir uma exposição que dure mais de dez minutos.

Nestes tempos em que adolescentes e jovens adultos são exímios em usar os polegares para enviarem 150 SMS por dia, a missão da Escola é ensiná-los a usar a cabeça para pensar - e treiná-los para ganharem capacidade de concentração e sacrifício.

Nestes tempos em que muitos estudantes - muito mais do que seria razoável e desejável - têm dificuldade em levar a cabo, na vida real (que é muito diferente da dos videojogos), uma tarefa que envolva um desafio mais complicado, o mais complicado e decisivo desafio da Escola não é ser eficaz a transmitir-lhes conhecimentos, mas sim a ensinar-lhes a procurar e aprender os conhecimentos de que vão precisar para se desembrulharem ao longo da vida.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias



Publicado por Jorge Fiel às 10:37
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

Terça-feira, 20 de Março de 2012
Para que serve o Presidente?

Sou um escritor, um desempregado de longa duração. Era assim, com esta frase caraterística do seu peculiar sentido de humor (adjetivado de "desmanchado" por Maria João Seixas), que Alface se via ao espelho.

Autor de um imperdível quinteto de curtas histórias juvenis, que me fazem escangalhar a rir logo a começar pelos títulos - "Um pai porreiro ganha muito dinheiro", "Uma mãe porreira é para a vida inteira", "Avó não pises o cocó", "Filhos assim dão cabo de mim" e "A prima fica em cima" - Alface atravessou a vida a desafiar as convenções e morreu em conformidade, aos 58 anos, de AVC, na Culturgest, a meio de uma leitura do livro "O fim das bichas".

Adoro o Alface, mas também gosto de Chopin, prodigioso pianista e compositor polaco que se perdeu de amores pela George Sand e acabou nacionalizado pelos franceses e sepultado no Père Lachaise.

Saber que Santana Lopes está disponível para deixar de andar por aí e que passou a incluir o anafado lote de presidenciáveis desencadeou na minha cabeça uma associação de ideias aos falecidos Alface e Chopin.

Em 1995, quando presidia ao Sporting, Santana foi à televisão queixar--se de que andava a ser ameaçado, presumivelmente pelos Super Dragões, e exibiu como prova uma carta anónima que recebera e que continha o aviso: Cuidado com os rapazes!

Veio a saber-se que "Cuidado com os rapazes" é o título de um livro de Alface e a carta anónima, com a frase ameaçadora, era tão-só um convite para a apresentação da obra.

Ex-secretário de Estado da Cultura de Cavaco, Santana não brilhou quando respondeu "os concertos para violino de Chopin" à pergunta sobre as obras do repertório erudito que mais lhe agradavam.

Entre as 264 peças que nos deixou o versátil polaco contam-se sonatas, noturnos, mazurcas, valsas, estudos, improvisos, polonesas, etc., mas, lamentavelmente, nenhum concerto para violino.

A proto-candidatura de Santana engrossa uma lista já bem composta de presidenciáveis (Marcelo, Durão, Guterres, Costa, Carvalho da Silva) apesar de estarmos a quatro anos do ato e de antes ainda termos autárquicas e legislativas.

Intriga-me este entusiasmo precoce, que contrasta vivamente com a maçada e desinteresse da última campanha presidencial e o facto de, em Portugal, o PR ter muitos votos mas poucos poderes. A queixa de Cavaco de que o que ganha não lhe dá para as despesas (e ele optou por receber a pensão, maior que o salário presidencial!) não afugentou a freguesia.

Como estou intrigado com este entusiasmo, deixo à vossa consideração duas perguntinhas apenas, uma retórica (a primeira) e outra nem tanto:

Para que serve o PR?

(Não vale responder: Para torrar 17 milhões de euros/ano, que é quanto custa manter a Presidência, cujos gastos subiram 31% nos cinco
anos do 1º mandato de Cavaco)

Por que raio continuamos nas meias tintas e não optamos por um regime parlamentarista, como o alemão, ou presidencial como o francês, e poupamos uma eleição e uma data de intrigas de baixo coturno?

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias



Publicado por Jorge Fiel às 10:23
Link do post | Comentar | Ver comentários (57) | Adicionar aos favoritos

Sexta-feira, 16 de Março de 2012
Um retrato menos mentiroso

Se excluir o futebol e alguns (poucos) noticiários, é raríssimo eu ver televisão em direto. Faço a minha própria programação. Enquanto aguardo, ansioso ao ponto de estar quase a começar a roer as unhas, pela 3.ªº temporada de Downton Abbey e a 2.ª de Homeland (segurança nacional), tenho a gravar três séries (Body of proof, The Protector e Rizzoli & Isles), que me entretenho a ver quando me apetece, nas folgas ou à noite. De vez em quando, faço um raide pela programação dos Fox, AXN, Discovery, Travel e História e ponho a gravar, avulso, um episódio, filme ou documentário.

Sei que não sou o único com este perfil. Em Inglaterra, mais de metade do consumo de televisão não é feito em direto. Quer isto dizer que está seriamente desfocado qualquer retrato das audiências que não leve em conta a nova realidade do espetador programador.

Durante 13 anos, a verdade a que tínhamos direito sobre as audiências televisivas foi-nos fornecida pela Marktest a partir de uma amostra cansada e contaminada pelo pecado original de ser constituída com base em entrevistas para telefone fixo, o que excluía logo à partida sensivelmente metade dos lares portugueses e grupos sociais tão significativos como os jovens urbanos e as classes mais pobres. A amostra da Marktest estava velha também porque não media o consumo de programas em diferido e não contabilizava os sistemas de receção de televisão por satélite.

Como a amostra estava velha e cansada e a tecnologia usada não permitia captar as novas formas de consumo, em 2010, a CAEM, que reúne os três protagonistas da indústria televisiva - anunciantes, agências de publicidade e meios (RTP, SIC, TVI, Zon e Meo) - achou por bem abrir o concurso para a mediação de audiências, que foi ganho pela GfK. A importância desta questão reside no facto da audiência ser a moeda padrão do negócio da televisão - cada ponto vale dinheiro.

O normal funcionamento do mercado na indústria dos Media exige um retrato mais verdadeiro do consumo de televisão que seja pelo menos quase tão exato como o dos jornais, onde se conhece, com precisão até à unidade, a tiragem, circulação paga, vendas em bloco e vendas em banca de cada título.

Já sabíamos que as audiências televisivas estavam a fragmentar-se a grande velocidade e que, nos dias de semana, os portugueses passam o dobro das horas na Internet (cinco horas) do que do ecrã de televisão (duas horas e meia).

O novo e mais verdadeiro retrato do consumo de televisão que está a emergir revela-nos que a caixa que mudou o Mundo já não é a determinante no sistema de constituição de opinião pública - e confirma o fracasso da estratégia da RTP de, apesar do seu duplo financiamento (público, do nosso bolso, e privado, dos anunciantes), teimar em apostar na luta pelas audiências imitando a natureza e conceito dos canais privados e generalistas, em vez de construir uma identidade e personalidade própria.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias



Publicado por Jorge Fiel às 10:15
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

Segunda-feira, 12 de Março de 2012
Coisas que estamos carecas de saber

Sou careca. É de família. O meu pai era calvo. E o meu  io não é exatamente um Beatle. Há uma dúzia de anos, ao reparar que em vez de ficarem brancos os meus cabelos caíam, desistindo da vida, jurei que nunca seria daqueles carecas envergonhados que recorrem a complicadas obras de engenharia para encobrir as misérias.

Sempre me incomodaram as vãs tentativas de mascarar um crânio calvo usando um único e enorme cabelo (que às vezes suspeito ter origem no sovaco) que se desenvolve em infinitas circunvalações que só uma poderosa laca pode manter intactas e coladas a um couro cabeludo desprovido de cabelo.

No âmbito desta decisão de ostentar uma política capilar de verdade, comprei uma máquina de cortar o cabelo à escovinha, Philishave HQ C241, que  ainda se mantém ao serviço desbastando, de 15 em 15 dias, os cabelos remanescentes.

Sempre que me falam em dinheiro bem gasto, vêm-me logo à cabeça os seis contos (cerca de 30 euros) investidos na boa e velha Philishave que me pouparam mais de 300 idas ao barbeiro (minhas e dos meus filhos Pedro e João) - mas também o pornográfico desperdício de dinheiro pelos nossos governos.

A apertada curva em que fomos apanhados deve-se essencialmente ao facto de termos malbaratado a chuva de dinheiro da UE, que beneficiou  capitalistas sem capital, empresários de água doce que vivem e prosperam à custa de jeitos, favores e influências - em vez de ser aplicado a financiar empreendedores que não temem o risco e as exigências das apostas de longo prazo.

O conúbio de interesses e a partilha de despojos elevaram os serviços e a construção à condição de favoritos do regime, como o demonstram os dados do Banco de Portugal - em cada cinco euros de crédito concedido, 3,5 euros foram para a construção, habitação, imobiliário e obras públicas, e apenas 30 cêntimos para o setor transformador - e a vergonhosa derrapagem das obras da Parque Escolar, em que cada escola custou cinco vezes mais que o previsto.

O dinheiro de Bruxelas foi desperdiçado em áreas não produtivas, com destaque para infraestruturas (os 386 milhões gastos na A32, que está às moscas, são o exemplo mais recente), em vez de ser investido no setor transformador.

Desde a entrada na CEE, os governos PS e PSD construíram uma sociedade cada vez mais desigual na distribuição de riqueza, com o Poder Político, Económico e Administrativo cada vez mais concentrado na capital, e diferenças abissais de desenvolvimento entre as várias parcelas de um país falido.

Não temos muito tempo para arrepiar caminho. Neste contrarrelógio, gastar bem significa corrigir os desequilíbrios regionais e investir os escassos recursos que nos restam no apoio à exportação, apostando na produção de bens transacionáveis, em energias limpas e numa rede eficaz de transportes públicos. Tudo numa lógica low cost, sem luxos, nem desperdícios.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias



Publicado por Jorge Fiel às 10:43
Link do post | Comentar | Ver comentários (48) | Adicionar aos favoritos

Domingo, 11 de Março de 2012
Eu vou morrer

Vou morrer. Só não sei quando, nem como, sabe-se lá se de uma maneira tão prosaica e inopinada como a falecida colega Marie Colvin, a repórter de guerra do "Sunday Times" que usava uma pala à Moshe Dayan sobre o olho esquerdo e foi desta para melhor a tentar recuperar os sapatos durante um bombardeamento das forças do regime sírio ao centro de Imprensa de Homs.

O Grande Criador, na sua infinita bondade e sabedoria, achou por bem organizar a nossa vida como um thriller, ou seja cheia de suspense e de imprevisto relativamente ao momento do passamento.

Nós, tal como as empresas, nascemos, crescemos, amadurecemos e morremos, sendo que a duração do ciclo da vida se prende não apenas com fatores subjetivos, que podemos gerir, mas também com fatores objetivos, que nos escapam ao controlo - e nos podem levar a perecermos subitamente, vítimas de doença mortal, como um cancro letal, para o ser humano, ou da invenção do computador pessoal, para o fabricante de máquinas de escrever.

Pessoas e empresas podem viver cada dia como se fosse o último, como se não houvesse amanhã, sacrificando a longevidade no altar do prazer e lucro imediatos. Ou podem poupar-se, optando por uma gestão prudente de corpo, alma e recursos, reinvestindo em vez de estar sempre a distribuir pingues dividendos.

Podemos ter uma vida mais longa ou mais breve, mas ninguém,  pessoas ou empresa, logrará escapar à Grande Ceifeira. É à luz desta inevitabilidade que temos de pensar a evolução das falências.

Apesar de estar em curso um violento ajustamento das nossas vidas e costumes, a subida das falências acusada pelas estatísticas é relativamente modesta, situando-se em cerca de 2% do universo total de empresas, enquanto que a média nos países desenvolvidos ronda os 8% por ano.

Esta discrepância significa que as 4731 falências registadas em 2011, apesar de serem mais 14% que em 2010, não são necessariamente um motivo de preocupação. O que é dramático é que a lentidão da justiça esteja a retardar o processo natural de regeneração do tecido económico e a atrapalhar o normal funcionamento do mercado, prejudicando concorrentes, fornecedores, credores e trabalhadores (os da Nórdica das Caxinas demoraram mais de 12 anos a receber as indemnizações a que tinham direito).

Aproveito esta reflexão sobre falências para chamar a atenção para as oportunidades de negócio na indústria da morte, um setor onde a
procura é superior à oferta (a escassez de crematórios tem obrigado à deslocação até à Figueira da Foz de cadáveres nortenhos para serem incinerados) e o risco é quase nulo.

Só na ficção de Saramago (o magistral "Intermitências da morte") é que as pessoas deixam de morrer. Na vida real, com o envelhecimento da população, estão a cair como tordos.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias

 



Publicado por Jorge Fiel às 10:37
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

Terça-feira, 6 de Março de 2012
Quero pataniscas de bacalhau

A Manuela e o Luís, um casal de amigos nossos de Lisboa, já tinham as ideias bastante arrumadas quando chegamos, ligeiramente atrasados, para jantar, na Cozinha do Manel. Pareceu-nos bem a ideia de partilharmos tripas e rojões, tanto mais que a seguir, para ajudar a digestão, íamos dar um grande passeio a pé pela Baixa, a espreitar a movida (era sexta-feira). Pensei no Duorum, do Zé Maria Soares Franco (ex-Barca Velha), quando me deram a tarefa da escolha do vinho, condicionada a tinto do Douro.

"E que tal se trouxesse um pratinho de tripas para cada um e depois, em vez dos rojões, viesse um galo espetacular com arroz no forno, que não está na lista?", contrapropôs o Zé António que, simpático e solícito como sempre, fez questão de pessoalmente tomar conta dos pedidos.

O frango, XXL (as sobras alimentaram quatro bocas em minha casa ao almoço do dia seguinte), estava realmente delicioso, tal como o Vallado
("Anda muito bom", recomendou o Zé António) que se mostrou à altura dos acontecimentos.

Recordei este jantar memorável a propósito de um artigo, publicado na "Nature", onde se defende a tese de que as nossas escolhas não são tão livres como parecem. Baseado em experiências concretas, o neurocientista John-Dylan Haynes conclui que em 60% a 80% das situações é possível prever  ntecipadamente o que vamos escolher.

Os progressos neste domínio têm sido muito bem aproveitados pelas marcas para convencerem os consumidores - e reforçaram a componente científica do marketing e a publicidade. Nestes tempos do bombardeamento cirúrgico, seria imediatamente despedido quem se atrevesse a repetir uma das mais clássicas frases de Henry Ford: "Sei que metade da publicidade que faço é inútil. Só não sei qual é essa metade".

Nascida no terreno da filosofia, a questão da liberdade de escolha tem de ser reavaliada à luz dos avanços das neurociências e não pode ser encarada como um problema menor.

Há escolhas condicionadas mas inevitáveis. Ninguém, no seu perfeito juízo, teima em encomendar a dourada se o dono do restaurante o desaconselha ("Não está em condições"), ou recusa a sua sugestão de ir pelo rodovalho ("Está fresquíssimo. Foi o meu almoço").

Há escolhas facilmente previsíveis. Como sabe que eu nunca comi coelho, a Isabel é capaz de prever, com 100% de certeza, a minha decisão
se me der a escolher entre atum de cebolada e coelho à caçador.

A questão da liberdade de escolha afeta não só as pequenas coisas do nosso quotidiano mas também as coisas grandes da política. Como cidadão e eleitor sinto-me como, há um século, os clientes do Ford T, que podiam escolher a cor preferida para o seu automóvel, contanto que fosse a preta. Não havia mais nenhuma disponível.

Qual é a liberdade que temos de escolher quem nos governa, se na realidade só podemos optar entre o atum de cebolada do PS e o coelho à
caçador do PSD?  A liberdade de escolha é uma treta. Porque aquilo que me apetece mesmo não é nem atum nem coelho, mas sim pataniscas de bacalhau. Ou então bacalhau à Dilma.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias



Publicado por Jorge Fiel às 10:31
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

Sexta-feira, 2 de Março de 2012
Somos todos boavisteiros

 

O Porto é a minha religião. O Porto cidade/região e o Porto clube, de que não me posso gabar de ter envergado a camisola pois quando tive a honra de o representar o fiz em tronco nu, vestido apenas com uns Speedos azuis e brancos - na minha adolescência fui atleta (medíocre, para grande pena minha) de natação do FCP, secção dirigida à época por um jovem engenheiro chamado Belmiro, que era a menina dos olhos do presidente Afonso Pinto de Magalhães.

Nesta minha dupla qualidade de portuense e portista, o Boavista sempre me mereceu sentimentos contraditórios. Tem coisas boas, como as camisolas (além de originais são bonitas) e o Bessa, um estádio à inglesa, adequado às raízes de um clube fundado pelos britânicos da antiga fábrica Graham.

Tem, porém, coisas menos boas, como ter servido de biombo onde se abrigaram portuenses de confissão benfiquista ou sportinguista, o que conferiu ao Boavista a fama de ser um clube de conveniência.

O facto de Valentim Loureiro, o mais provável pai do Boavistão, ser sportinguista, foi uma fatalidade suplementar que ajudou a colar ao clube a imagem de ser uma espécie de segunda escolha ou prémio de consolação.

Feito o desabafo, declaro acreditar sinceramente que os anos de ouro dos axadrezados, no dobrar do século - em que além de terem sido campeões nacionais foram passageiros frequentes dos 2.o e 3.oº lugares da tabela, botaram figura na Liga dos Campeões e alcançaram as meias-finais da Taça UEFA - , tenham ajudado o clube a definitivamente deitar corpo, cimentando identidade e apetrechando-se com clientela própria de apoiantes em regime de exclusividade.

O drama foi que os suspeitos e invejosos do costume (a saber, os donos da bola no tempo da Outra Senhora) não perdoaram o grito do Ipiranga do Boavista e ficaram nervosos com a emergência a Norte de mais um grande.  E assim, há quatro anos, o Boavista foi compulsivamente empurrado para uma injusta descida aos infernos, como dano colateral da conspiração para arrumar o F. C. Porto, montada por quem tentava desesperadamente obter na secretaria o que era incompetente para conseguir no relvado. Ou seja, quem se lixou foi o mexilhão, como bem diz o povo na sua imensa sabedoria.

O tempo tem vindo a provar que foram de pólvora seca todos os tiros furiosamente disparados pela dupla Mizé Morgado (realizadora do "Apito Dourado") e Ricardo Costa (encenador do "Apito Final"), os organizadores de uma série lamentável de fiascos e derrotas.

Nesta semana, em que o Tribunal Administrativo do Círculo de Lisboa declarou ilegal a reunião fantasma do Conselho de Justiça da FPF que despromoveu o Boavista, todas as pessoas de bem devem juntar a sua voz ao coro que exige justiça para o Boavista.

Queremos as camisolas axadrezadas de volta à primeira Liga. Até isso acontecer, somos todos boavisteiros! Justiça para o Boavista!

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias



Publicado por Jorge Fiel às 10:26
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2012
Não sou filho de pai rico

Passar as tardes no cinema é um dos pequenos prazeres que me reservo quando as folgas calham em dias de semana. Às vezes vejo dois filmes, como aconteceu há 15 dias, quando papei a Dama de Ferro (grande Meryl Streep!) e o Millennium, um a seguir ao outro. Na 6.ª feira fiquei-me pela Detenção de Risco, um thriller que vale apenas pelo Denzel Washington e a Cidade do Cabo.

O meu sítio preferido é o multiplex UCI no Arrábida. Pela qualidade das salas mas também pela oferta alargada de 20 filmes e a flexibilidade dos horários, com as sessões a começarem entre as 13 horas e as 14 h, o que muito me agrada. Ainda por cima, ao contrário do que acontece noutras salas, as fitas são exibidas sem intervalo, o que é um corte. Os filmes devem ser consumidos sofregamente, de um fôlego, e não às prestações como quem compra um carro.

Apesar de ter lido todos os três livros do Stieg Larsson e por isso conhecer o essencial da intriga, durante as três horas que durou a exibição do Millennium esqueci por completo a realidade e vivi por dentro as emocionantes aventuras da Lisbeth Salander e do Mikael Blomkvist.

Dantes não era assim. Uma ida ao cinema incluía a dimensão da compra de um ovo Kinder, já que durante os dois intervalos (a seguir aos trailers e no meio do filme) alimentávamos a esperança de tropeçarmos num amigo ou sermos brindados com um encontro inesperado com uma potencial namorada.

Tribuna, balcão ou plateia. A diversidade na escolha de lugares não compensava a oferta mais curta naqueles tempos em que os arrumadores, munidos de lanternas, nos conduziam aos lugares na expectativa de receberem uma gorjeta.

O Mundo mudou muito desde esses tempos que forneceram a matéria-prima para uma deliciosa história sobre o valor do dinheiro, contada por José Manuel dos Santos na imperdível crónica que publicava no Atual do "Expresso".

"A diferença é que o meu filho teve um pai rico e eu não", respondeu o velho senhor, quando o arrumador do cinema ganhou coragem para lhe fazer notar que enquanto ele o gratificava apenas com cinco tostões de gorjeta o filho tinha as mãos mais largas - dava-lhe um escudo. A melhor maneira dos nossos filhos aprenderem alguma coisa sobre dinheiro é não termos nenhum.

Nós, portugueses, perdemos o respeito ao dinheiro desde que a torneira de Bruxelas começou a jorrar. Embebedamo-nos com o crédito fácil e barato que veio atrelado ao euro e endividamo-nos alegremente como se não houvesse amanhã.

Só agora começamos a pagar a conta. Estamos a viver a ressaca dolorosa dos excessos do crédito e a tentar pôr ordem nas finanças públicas, depois da sua fragilidade ter sido brutalmente exposta pela crise financeira.

Eu, que não sou filho de pai rico, nunca deixei de dar valor ao dinheiro, que raramente me faltou mas sempre me custou muito a ganhar. Portugal só retomará o crescimento quando todos voltarmos a respeitar o dinheiro.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias



Publicado por Jorge Fiel às 13:44
Link do post | Comentar | Ver comentários (87) | Adicionar aos favoritos

Domingo, 26 de Fevereiro de 2012
Queremos mentiras novas

Antigamente, os bófias usavam bigode e farda cinzenta, eram gordos, velhos, broncos e partilhavam o patamar social das sopeiras, nome depreciativo atribuído às criadas internas que desaguavam nas cidades para servir nas casas de quase todas as classes, até mesmo as da mais pobre pequena burguesia.

Ser casada ou filha de um polícia não era motivo de orgulho. A democracia e a europeização do país beneficiaram muito a classe, que ganhou prestígio e subiu na escala social à medida que se alargava a mulheres e era fornecida com gente mais formada, educada - e vestida com fardas azuis de bom corte.

Começar a ser frequente tratar com polícias mais jovens foi o primeiro sinal de que eu estava a envelhecer. O segundo e mais alarmante, que me fez perceber que já tinha mais passado do que futuro, foi a chegada de Obama à Casa Branca, histórica pois pela primeira vez os EUA elegiam um presidente mais novo do que eu.

Nunca mais parou de crescer o meu respeito pelas 23 109 mulheres e homens que integram a PSP e que apesar de não terem um salário por aí além (em média ganham por mês apenas 1458 euros brutos, menos 884 euros que os colegas da GNR) garantem a segurança nos 6% do território habitado por 50% da população.

É por isso que fiquei incomodado com a manchete de ontem do "Expresso", um ataque baixo à capacidade e brio profissional da PSP, acusada de ser incapaz de proteger o PR de um bando alegre de adolescentes de uma escola artística.

Apesar de Cavaco ter ao seu dispor 30 elementos do Corpo de Segurança Pessoal da PSP, segundo o "Expresso" apurou, "junto de três fontes distintas", os quatro agentes da equipa de segurança avançada deste corpo, presentes no local da manifestação juvenil, declararam-se incapazes de evitar que o presidente fosse agredido "mal saísse do carro" e como "não estavam reunidas as condições mínimas para fazer a visita" recomendaram que ela fosse anulada.

A ser verdade que a PSP não consegue garantir a segurança do PR durante o dia, num bairro sossegado e de classe média de Lisboa, está achada a serventia para os seis blindados encomendados para Cimeira da Nato mas só entregues bem depois dela ter terminado. Cavaco vai deslocar-se no interior de um desses blindados de sete toneladas quando tiver de passar perto de Chelas e da Damaia ou de outros bairros problemáticos, como o Lagarteiro e a Bela Vista (Setúbal).

Mas, aqui cá para nós, desconfio que atribuir à Polícia a responsabilidade pelo impedimento de Cavaco não passa de uma história inventada à pressa e colada com cuspe para proteger a depauperada imagem do PR - à custa da da PSP.

Sei que a vida é mesmo assim, mas não me conformo. Queremos mentiras novas e mais bem contadas. Contratem um guionista bom. Ou então mudem de agência de comunicação.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias



Publicado por Jorge Fiel às 13:37
Link do post | Comentar | Ver comentários (1) | Adicionar aos favoritos

Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2012
Um paradoxo para lamentar

Talvez por não ter tomado chá em pequenino, ando a esforçar-me para recuperar o atraso. Há mais de uma dúzia de anos que chaleira, bule e caneca fazem parte do meu equipamento básico de secretária, a par do copo de cartão amarelo do Nathan's (surripiado na loja original de hot dogs, em Coney Island), onde acomodo tesoura, borracha, agrafador, lápis e esferográficas Muji.

Este hábito de beber fica barato aos meus empregadores, que apenas contribuem com a água e eletricidade. Eu entro com equipamento, mão de obra e chá - como em tudo na vida, gosto de variar, mas o meu preferido é Earl Grey de chá verde da Fortnum & Mason.

Mal chego ao JN, antes de me sentar a ler os jornais, ligo o computador e vou à casa de banho encher a chaleira de água. Talvez por causa desta minha rotina diária, tive uma enorme dificuldade em perceber por que é que, de acordo com um estudo do Conselho da Administração (CA) da Assembleia da República (AR), servir água da torneira aos deputados ficaria 30 vezes mais caro do que manter a distribuição gratuita de água mineral engarrafada.

A análise deste interessante paradoxo exige informação de contexto. Em novembro de 2010, para pouparem dinheiros públicos, os deputados decidiram passar a matar a sede com a água da torneira.

Esta louvável resolução não passou da potência ao ato, pois o eminente José Lello (então presidente da CA da AR) declarou-se incapaz de organizar a operação logística de distribuição de água da torneira pelos deputados.

Nesta legislatura, com o não menos eminente Couto dos Santos a governar a casa da democracia, o assunto está de volta com o estudo que conclui que suprir as necessidades mensais dos deputados de 3200 litros de água engarrafada fica por 259 euros, enquanto que hidratá-los com água da companhia custaria 2710 euros!

Tudo tem uma explicação. Sendo a matéria-prima muito mais barata vinda da torneira do que comprada engarrafada, o que encarece a primeira solução é o custo da sua implementação.

De acordo com o estudo, a distribuição de água da torneira implica um investimento de 4680 euros em jarros (verba contestada pelo deputado socialista Pedro Farmhouse que acha possível comprar 100 jarros por 1300 euros)  e exige a afetação a tempo inteiro de pessoal especializado às tarefas de "enchimento, limpeza, colocação e arrumo de vasilhames".

Acresce ter ficado sem resposta uma questão nuclear de carácter geoestratégica. A saber, onde ir buscar a água? Às casas de banho do Parlamento, que ficam perto, ou à cozinha, que fica longe?

Vistas assim as contas, está tudo explicado e o paradoxo parlamentar traveste-se num paradoxo para lamentar.

Fica claro como a água (engarrafada ou da torneira) que os deputados vivem num mundo diferente do nosso. Se calhar até estamos todos a ouvir o mesmo disco - mas seguramente uma canção diferente. Eles falam e pensam em FM. Nós em OM. Só pode ser isso. Mas é grave. E chato!

 

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias



Publicado por Jorge Fiel às 11:26
Link do post | Comentar | Ver comentários (28) | Adicionar aos favoritos

Terça-feira, 21 de Fevereiro de 2012
Com um O de otário na testa

A prova dos nove tirei-a em Maputo, algures em 1991, após ter jantado comida chinesa com o Jorge Armindo e o Vaz Branco (que à época trabalhavam no grupo Amorim), no Sheik, um restaurante perto do Polana, na esquina entre as avenidas Julius Nyerere e Mao Tsé-Tung. A seguir ao jantar, descemos para a discoteca, a que se acede por uma porta à direita, após atravessar um corredor, razoavelmente longo e estreito. A porta estava guardada por um porteiro que depois de se afastar para deixar entrar o Jorge e o Vaz Branco me interpelou dizendo: "São cinco mil meticais!"

Rapidamente fiz contas de cabeça e procedi a uma análise comparada da minha fachada com a dos meus amigos. As conclusões deste exercício foram esmagadoras:

1. Não há maneira de a divisão de 5000 por três dar conta certa;

2. Mesmo admitindo que o fato azul do Jorge e o fato cinzento do Vaz Branco fossem de melhor corte que o meu Alto (o topo de gama da Maconde) não me parecia provável que o porteiro pudesse ter detetado isso em tão pouco tempo e num ambiente tão deficientemente iluminado.

Para que não ficassem dúvidas, interroguei o camarada porteiro: "Os cinco mil meticais referem-se à entrada de nós os três ou só à minha?". Foi nesse momento que obtive a confirmação, a prova dos nove, do que já desconfiava há algum tempo. Era só à minha! Dito por outras palavras, tenho gravado na testa um O, de otário, invisível aos olhos de muita gente (não é, por exemplo, visível nas fotografias ou quando me olho ao espelho para fazer a barba), mas que lamentavelmente é visto por algumas pessoas, por norma gente abusadora e de fraca índole.

Esclareço desde já que não estavam em causa os 5000 meticais. Eu tinha no bolso das calças um rolo de notas de metical, que não consegui gastar e há coisa de dois anos, antes de mudar de casa, ainda estavam arrumadas na gaveta das meias, presas por um elástico, e eram usadas para fazerem as vezes de dinheiro de Monopólio quando jogava poker com os meus filhos. Se o porteiro me tivesse pedido nove mil meticais, eu prontamente lhos teria dado e provavelmente ainda estaria na doce ignorância sobre a capacidade de alguns trafulhas verem um O na minha testa.

Veio-me este episódio à lembrança ao rever indicadores económicos que me levam a desconfiar que os sucessivos governantes instalados em Lisboa têm a capacidade do porteiro do Sheik e veem O, de otários, gravados na testa dos 3,7 milhões de nortenhos.

Apesar de habitarmos em apenas 23% do território e sermos 35% da população, produzimos 40% do VAB, temos uma balança comercial excedentária (a taxa nortenha de cobertura de importações pelas exportações é de 129%, contra uma média nacional de 74%), representamos 50% do emprego industrial - e somos, desde 99, a região mais pobre do país, com um rendimento per capita de 80% da média nacional e 65% da comunitária. Já é tempo de pôr um ponto final a este abuso.

 

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias



Publicado por Jorge Fiel às 11:20
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

Sexta-feira, 17 de Fevereiro de 2012
Para aliviar o toque rectal

A esmagadora maioria dos homens que, como eu, andam por aí há mais de meio século vivem aterrorizados com o cancro na próstata, que além de ser uma ameaça estatística com prováveis consequências devastadoras para a vida sexual das vítimas ainda por cima é tradicionalmente despistado por um método invasivo (o famigerado toque rectal) que esfrangalha o orgulho de qualquer macho latino.

Como, no particular das doenças, sou absolutamente irresponsável, sinto-me no dever de explicar que este tópico só me veio à cabeça por ter tropeçado numa notícia susceptível de nos engraxar o orgulho patriótico. A saber, da colecção do Museu Nacional de Arqueologia consta uma múmia egípcia com 2300 anos de idade a quem foi diagnosticado um cancro na próstata com extensões ósseas que faz dela um caso único no Mundo.

O cancro na próstata é um bom ângulo para abordar os cortes orçamentais que levaram um milhão de portugueses a perder a isenção total no acesso aos cuidados de saúde de que beneficiavam.

O Serviço Nacional de Saúde é, regra geral, muito bom, mas também é muito caro e comporta muito desperdício. Como, também na saúde, estávamos a viver acima das nossas possibilidades, Passos Coelho não teve outro remédio senão cometer a um gestor experimentado a tarefa de, em dois anos, abater 1,3 mil milhões de euros a um orçamento de 8,5 mil milhões de euros.

Era insustentável que a nossa despesa global com saúde se mantivesse acima dos 10% do PIB. O ajustamento brutal no orçamento do Ministério de Paulo Macedo implica mais receitas (daí o aumento das taxas moderadoras) e ganhos de eficiência - mas também menos transplantes, menos cirurgias, menos TAC e ecografias, menos subsídios aos medicamentos.

A propósito de menos cirurgias, vale a pena reflectir sobre o que nos contam sobre o caso do cancro na próstata Jerome Groopman e Pamela Hartzband, no recomendável livro intitulado Your Medical Mind, How to Decide What is Right for You, que problematiza a questão da racionalidade das decisões em matéria de saúde - e a quem elas devem competir.

Quando é diagnosticado cancro na próstata, nove em cada dez urologistas recomendam a remoção do órgão. Esta decisão, que parece razoável, é cntestada pelos autores do livro citado, que chamam a atenção para o facto deste carcinoma evoluir lentamente e demonstram haver mais homens a morrer com este cancro do que por causa dele.

Jerome e Pamela convidam-nos a olhar para as estatísticas provando que apenas um em cada 48 pacientes a quem foi removida a próstata beneficiaram com essa cirurgia. E acrescentam que, como agravante, dos restantes 47, um pouco mais de metade (24) sofreram efeitos secundários (incontinência e impotência ou perda de desejo sexual) da intervenção.

Moral desta história: dar informação e poder ao doente para decidir é também uma forma de poupar. E gastar menos com a saúde não significa sermos menos saudáveis - e é fundamental para fazer com que o toque rectal (em sentido figurado) a que estamos todos submetidos seja menos violento e de mais curta duração.

 

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias


Tags:

Publicado por Jorge Fiel às 11:08
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

Segunda-feira, 13 de Fevereiro de 2012
Sobre a utilidade dos jornais

Como tenho a mania (um bocado chata, reconheço) de me pôr a contar histórias por tudo e por nada, quando os meus amigos de outras profissões me questionam, em tom curioso ou provocatório, sobre a utilidade dos jornais em papel neste mundo a abarrotar de informação, respondo-lhes recordando dois episódios por mim vividos.

O mais recente passou-se há exactamente cinco anos, em Nova Iorque. Ao fim-de-semana não há nada melhor do que começar o dia com uma grande caminhada. Por isso, numa manhã de sábado, atravessei o Central Park lateralmente, de este (onde fica o Days Inn, o hotel onde eu estava hospedado) para oeste (onde fica a Museum Mile).

Estava lindo, com um manto branco a cobrir o verde do mais famoso dos parques, mas como presumo todos sabem a neve é bonita para se ver à distância, não para se caminhar em cima. Como agravante, nos passeios uma fina camada de gelo dissimulava ardilosas poças de água.

Por duas vezes, ao atravessar a rua, meti a pata na poça, ou seja, mergulhei ambos os pés em poças de água camufladas por traiçoeiras camadas de gelo. Como tenho por hábito viajar sem calçado de «back up», creio que compreendem porque fiquei aflito quando senti que a água tinha ultrapassado sem cerimónia a pele das sapatilhas Nike e o algodão das meias pretas Calvin Klein (compradas no outlet 21 Century, em frente ao Ground Zero, a 9,99 dólares a embalagem de três pares).

O que me valeu naquele momento difícil foi o "USA Today". Sentei-me num banco. Descalcei-me. Guardei as meias encharcadas num saco de plástico (são inimigos do ambiente mas utilíssimos numa viagem), embrulhei os pés húmidos em folhas do caderno Sports (dedicado ao arranque da época da Nascar) e voltei a calçar-me. Um conforto. O jornal evitou-me o mais que certo resfriado.

Não foi a primeira vez que fui salvo pelos jornais. Num belo dia de Abril, em 2004, saí do Porto, de manhãzinha, em mangas de camisa, em direcção à Corunha. O Porto estava primaveril. Na Corunha, 300 quilómetros a norte, chovia e fazia frio. Encharcado e enregelado nas bancadas do Riazor (onde o FC Porto venceu o Depor e apurou-se para a final da Champions) usei um velho truque dos sem-abrigo e forrei o corpo com os jornais que tinha levado para pôr a leitura em dia e matar o tempo até à hora do jogo. Foi remédio santo.

Servem estas duas historietas de pretexto para lembrar que já só faltam sete dias para o bom e velho JN se reinventar e aparecer nas nossas mãos ainda mais elegante, com roupa nova e todo a cores, tão fiável e próximo como sempre, mas ainda mais vibrante, entusiasmado, apaixonado, orgulhoso da sua pronúncia do Norte - e com as mesmas qualidades de sempre no particular do isolamento térmico :-). Já falta menos de uma semana!

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Noticias


Tags:

Publicado por Jorge Fiel às 20:38
Link do post | Comentar | Ver comentários (48) | Adicionar aos favoritos

Domingo, 12 de Fevereiro de 2012
A sorte dos peixinhos vermelhos

A sorte dos peixinhos vermelhos é serem absolutamente desprovidos de memória e por isso encararem cada volta que dão ao aquário como se fosse a primeira. O segredo da sua felicidade reside na incapacidade de se lembrarem do que fizeram no segundo anterior. Se tivessem memória davam em doidos.

Esta história dos peixinhos vermelhos faz parte do meu stock de desbloqueadores de conversa, prontos a serem usados para quebrar silêncios pesados, designadamente antes de começar a ser servido o vinho nos jantares em que fui posto numa mesa em que não conheço ninguém.

Uma das vantagens desta história é que tem implícita uma deixa em que qualquer comensal atento pode pegar para a problematizar ou fazer uma sequela, questionando se aqueles peixinhos vermelhos (ou até dourados) que se suicidam saltando para fora dos aquários sofreriam a infelicidade de terem vindo ao mundo equipados com um pedacinho de memória, por uma qualquer deficiência genética - ou distracção do Criador.

Mas não façam confusão. Um desbloqueador de conversa bom para um jantar não é seguramente o mais adequado para um outro tipo de situações, em que o tempo não se mede por horas, mas sim por escassos minutos ou até apenas segundos, como quando encontramos um vizinho (de quem não
sabemos nem o nome nem o que faz na vida) na bicha do supermercado, ou partilhamos o silêncio embaraçante com uma desconhecida num elevador sem banda sonora apropriada - como o "Smooth Operator", da Sade, ou "Orinoco Flow", da Enya.

Nestas circunstâncias a conversa mole sobre o tempo (meteorológico, não o medido pelo relógio) é imbatível. "Sempre é melhor assim do que chuva" é a resposta correcta quando nos dizem, com a cara aberta num esgar: "Isto é que está cá um frio!". São trocas de palavras tão desprovidas de calor como o sol de Inverno mas servem perfeitamente para calafetar o vácuo de um encontro casual no elevador ou na fila do Pingo Doce.

A propósito, devo dizer-vos que apesar de estar frio, e de o frio estar este ano mais caro (por vias do aumento de 6% para 23% do IVA da electricidade), acho exagerado o alarmismo causado pelos meteorologistas com a ameaça da vaga de frio vinda da Sibéria.

Tem estado frio, mas nada de muito diferente do normal para a época. Nada que expulse os fumadores das esplanadas ou me tenha levado ao gavetão onde guardo cachecol, luvas e gorro. Suspeito que os meteorologistas que previram o desembarque em Portugal da massa de ar frio proveniente do Árctico estão tão apanhados pelo clima como os analistas do "Financial Times" e do "Wall Street Journal" que anunciam a nossa bancarrota.

Esta falibilidade dos manda- chuvas e jornalistas anglo-saxónicos leva-me a desconfiar que, ao contrário da previsão catastrofista dos serviços geológicos norte-americanos, os 22 mil ursos polares não estão condenados a desaparecer até 2050, vítimas do aquecimento global.
Ando numa de optimismo - e tentado a dar razão a Paul Valery, que nos aconselhou a não insultar o futuro, tentando prevê-lo.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias


Tags:

Publicado por Jorge Fiel às 12:36
Link do post | Comentar | Ver comentários (3) | Adicionar aos favoritos

Quarta-feira, 8 de Fevereiro de 2012
Não basta ser bom na cama

Sou um pai global. A Mariana vive e trabalha em Los Angeles. O Pedro está em Galway a fazer o Erasmus. O João - acho que nunca me enganarei na idade dele, por muito grave que seja o Alzheimer, pois nasceu no ano 2000 - ainda vive comigo.

Sempre que me pedem um currículo, a primeira informação que alinho é: Jorge Fiel, 55 anos, três filhos, jornalista, antes de tentar resumir capacidades e conhecimentos. Os meus filhos são o mais pesado e generoso investimento que fiz no futuro da nossa língua e do nosso país.

No momento em que o PR reinicia os seus Roteiros (a versão cavaquista das Presidências Abertas de Mário Soares) pondo em cima da mesa a dramática questão do declínio da fecundidade, não posso esconder o orgulho que sinto por ter três filhos. Neste particular, até falo em cima da burra. Maria e Cavaco tiveram dois filhos (Patrícia e Bruno), ou seja limitaram-se a repor o stock, enquanto eu ultrapassei largamente a taxa de fecundidade mínima (2,1) para a renovação das gerações, um valor que Portugal não atinge desde 1982.

O Inverno demográfico é estruturalmente mais alarmante que o colapso grego ou o passivo monumental das empresas de transportes públicos, para já não falar de pentelhos, como os 45 mil euros de salário que a EDP paga a Catroga ou a controvérsia da tolerância de ponto no Carnaval.

Em 2011, o número de bebés nascidos em Portugal (99 mil) foi o mais baixo de sempre, apesar da contribuição externa (10% das mães são estrangeiras), deixando-nos com um vergonhoso índice de fecundidade de 1,37 (número médio de filhos por mulher), o 2.º mais baixo do Mundo, a seguir à Bósnia.

A manter-se esta quebra na taxa de natalidade, o regresso ao crescimento será uma quimera, a Segurança Social vai explodir e Portugal definhará e será um país cada vez mais pobre e cada vez mais velho. O problema não está no conhecimento, nem tão-pouco no desejo. Nos treinos, apresentamos resultados invejáveis. Um estudo da multinacional farmacêutica Lilly revela que nós, portugueses, fazemos duas vezes sexo por semana, o melhor desempenho dos 13 países analisados - bem acima de média (1,4) e o dobro de americanos e dinamarqueses!

O problema é que não basta ser bom na cama. É também preciso rematar ao golo. Para tirar partido em benefício do futuro do país do potencial sexual que alardeamos, é preciso o Governo estimular a procriação, aumentando os subsídios sociais e deduções fiscais ao jovens pais (e garantindo-lhes flexibilidade horária), assegurando uma cobertura nacional de creches e infantários e premiando as empresas que contratem grávidas.

A França investe 3,8% do orçamento no incentivo à maternidade. É vital para o nosso futuro como nação voltarmos a ver grávidas e carrinhos de bebé nos parques e nas ruas. Não há no Mundo coisa mais preciosa que os filhos.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias



Publicado por Jorge Fiel às 12:29
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

Terça-feira, 31 de Janeiro de 2012
Imbecilmente sublime, disse Marx

Como é hábito na nossa terra, ao mínimo descuido recorro ao calão e tenho especial apreço pelo insulto, uma disciplina elevada à categoria de arte pelo capitão Haddock. Da fabulosa colecção de insultos do velho marinheiro, destaco aqui alguns avulso, como analfabeto diplomado, astronauta de água doce, apache, cataplasma, flibusteiro, protozoário (acho delicioso insinuar que alguém é um ser unicelular, sem funções diferenciadas) e troglodita - um insulto que o professor Marcelo adora usar.

"Sua badalhoca! Não te lavas por baixo", foi o mais espectacular insulto que ouvi, algures nos anos 80, numa briga entre mulheres na Ribeira.

A arte do insulto não é um exclusivo de personagens de banda desenhada ou mulheres arreliadas. Também é declinada por políticos ilustres.

"Vadio grotesco, desajeitadamente manhoso, velhacamente ingénuo, imbecilmente sublime, superstição premeditada, paródia patética, anacronismo inteligentemente estúpido, palhaçada histórico-mundial, hieróglifo indecifrável" foi o comentário escrito por Karl Marx a propósito da esmagadora vitória de Luís Napoleão nas presidenciais francesas de 1848.

Entre nós, o "vá para a puta que o pariu", cuspido a Francisco Sousa Tavares por Raul Rego, e registado no Diário da Assembleia da República de 19 Março 1980, soa cru e brutal, mas a altercação valeu pela resposta do marido de Sophia: "O senhor é um escarro moral".

Um insulto pode ser voluntário e Scut (ou seja, sem consequências), como foi o caso do cabo da GNR que mandou "pró caralho" o sargento que lhe recusou uma troca de turno e foi absolvido pela Relação de Lisboa, que lhe perdoou a virilidade verbal.

Um insulto pode ser involuntário e portajado (ou seja, ter consequências), como está a ser o caso do presidente da República que faltou ao respeito de 9,9 milhões de portugueses ao queixar-se que os dez mil euros que recebe por mês não lhe vão chegar para as despesas.

Cavaco arrependeu-se e ficou desorientado, como se vê pelo facto de ter tentado emendar a mão através de um circunspecto comunicado à Lusa, em vez dos habituais e modernaços posts no Facebook.

Compreende-se que ele queira controlar os danos e virar as atenções para outro lado. Mas, caramba, ele e a sua rapaziada deviam ter aprendido alguma coisa com aquela barraca das escutas a Belém inventadas no Verão de 2010 em benefício do "Público".

Pior que o insulto involuntário é tentar encobri-lo pondo "fontes da Presidência" a jorrar uma intriga de meia-tigela que no fim-de-semana fez as primeiras páginas do "Expresso" ("Cavaco contra Estado mínimo de Passos Coelho") e do "Público" ("Cavaquistas querem que Vítor Gaspar saia"), baseadas naquilo que Marcelo apelidou, com graça, "cavaquistas anónimos".

A um PR exige-se mais profissionalismo e competência. Em tudo. Até nas manobras de intoxicação e contra-informação.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias

 



Publicado por Jorge Fiel às 11:31
Link do post | Comentar | Ver comentários (14) | Adicionar aos favoritos

Domingo, 29 de Janeiro de 2012
A propósito do Banco Fiel

As miúdas da minha geração sonhavam ser hospedeiras da TAP e os rapazes aspiravam a ser pilotos de avião. Eu sempre sonhei ser banqueiro. Nunca fiz segredo disso.

Sempre que passava pela esquina da Sampaio Bruno com a Sá da Bandeira e olhava de baixo para a imponência da sede do Banco Pinto de Magalhães sonhava acordado com a hipótese de um dia ser dono de um banco e ter os bolsos fundos para comprar não um mas dois ou três Cubillas e assim habilitar o meu Porto a interromper o longo jejum e voltar a ser campeão.

Sem falsas modéstias, acho que tenho o apelido ideal para ser banqueiro. Banco Fiel é uma marca seguramente melhor que Banco Mello ou Banco Pinto de Magalhães. E pelo menos tão boa como Banco Espírito Santo.

Crescer não me tirou o sonho da cabeça. Antes pelo contrário. Qualquer adulto destro a fazer contas de cabeça fica excitado pela desarmante simplicidade de um negócio como o bancário, que ainda é mais sexy que a Scarlett Johansson e a Charlize Theron juntas.

Ter as pessoas a fazerem fila para nos emprestarem dinheiro barato e depois emprestar esse dinheiro a um preço bem mais caro é um negócio de sonho.

Espertalhões, os banqueiros inventaram uma língua própria (vendas a descoberto, imparidades, carência de capital...), recheada de vocábulos em inglês (spread, warrant, yeld...), para nos convencer que a profissão de banqueiro só é acessível a um punhado de eleitos.

O negócio é tão bom e tão simples, que para abrir um banco e ser banqueiro é preciso uma autorização do Banco de Portugal, que foi concedida a João Rendeiro (Banco Privado) e a Oliveira Costa (BPN), mas está obviamente fora do alcance de alguém como eu que não sou imensamente rico, não milito num partido do arco governativo, não faço parte da Maçonaria ou da Opus Dei, nem sequer sou sócio do Benfica.

Pragmático como me orgulho de ser, há muito interiorizei que nunca serei banqueiro - nem sequer bancário, profissão bastante jeitosa, pois é a que menos sente os efeitos da crise, já que os que estão no activo continuam a ter 25 dias de férias e os reformados são os únicos a receberem 13º mês e subsídio de férias.

Depois de durante anos a fio terem apresentado lucros gordos e recordes, os bancos vão revelar resultados modestos na próxima 6.ª (com excepção do BPI, que os divulga na 5.ª), um dia judiciosamente escolhido para diluir o impacto negativo das notícias durante um fim-de-semana em que não há bolsa e os jornais económicos não saem.

Os banqueiros são os espertalhões, como está demonstrado pelo BCP, que fez uma chicotada psicológica e foi ao Santander contratar o
André Villas-Boas da banca (o Mourinho está no Lloyd's) para anestesiar a dor dos prejuízos (fala-se em 600 milhões) que vai anunciar.

Os banqueiros são uns espertalhões, por isso não tenha pena deles. Faça antes como eu, que tenho inveja deles. E tenha pena de mim por não
ter conseguido fundar o Banco Fiel.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias


Tags:

Publicado por Jorge Fiel às 11:21
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2012
Tenho medo de ir ao médico

Tenho muito medo de ir ao médico. Não que tenha razão de queixa dos médicos. Antes pelo contrário. Sempre que vesícula, coração ou amígdalas me obrigaram, não hesitei em pôr-me nas mãos deles e as coisas correram bem, como está afinal demonstrado pelo simples facto de vos estar a maçar com estas linhas.

Tenho medo de ir ao médico porque, diz-me a experiência, corro o sério risco de me descobrirem doenças que eu preferia continuar a ignorar, se bem que esteja careca de saber que esta atitude é igual à da avestruz que mete a cabeça na areia ou à da criança que fecha os olhos na vã tentativa de se tornar invisível.

Enquanto cliente, não tenho a mínima razão de queixa dos cuidados prestados pelo Serviço Nacional de Saúde (SNS). Os hospitais não são um sítio  gradável de se visitar e sempre me aterrorizou a perspectiva de ter de ficar a pernoitar . Logo para começar detesto o cheiro. Mas esta fobia pelos hospitais nada tem a ver com os profissionais que lá trabalham, desde os auxiliares aos médicos, passando pelo pessoal de enfermagem e administrativo. De todas as vezes que as circunstâncias me forçaram a recorrer a eles, só tenho a dizer bem.

Se enquanto cliente não tenho razão de queixa, já enquanto contribuinte sinto-me horrorizado pelo terrível desperdício gerado pela desorganização e neficiência do SNS.

Horroriza-me saber que no hospital da Guarda há médicos a ganharem 20 mil euros por mês, devido às horas extraordinárias que fazem nas Urgências, porque os médicos mais novos acham insuficiente o prémio de 750 euros/mês que lhes oferecem para ir para o Interior.

Horroriza-me a inexplicável variação do custo médio padrão do doente nos hospitais públicos, que oscila entre os 4022 euros no Norte e os 6458 euros no Alentejo, passando pelos 4358 no Centro, 4464 no Algarve e 5306 em Lisboa.

Aflige-me não perceber por que é que, em média, cada cirurgião faz menos de duas cirurgias por semana.

Aflige-me não compreender por que é que o passivo consolidado do sector público empresarial da saúde cresceu 26,7%, entre 2009 e 2010, fixando-se nuns astronómicos 4,5 mil milhões de euros, que davam para construir o TGV Porto-Lisboa.

Horroriza-me saber que os hospitais públicos precisam de arranjar 1,6 mil milhões de euros até ao fim do mês para fazerem face aos compromissos.

Aflige-me saber que a gestão ruinosa do SNS está a arrastar para a falência centenas de boas empresas e a lançar no desemprego milhares de bons trabalhadores.

A saúde está muito doente e não a coisa não vai lá com analgésicos. Não é preciso ser médico para diagnosticar que tem de ser internada nos Cuidados Intensivos. Não é preciso ter um Nobel da Economia para perceber que está na hora do Estado deixar de ser prestador de cuidados de saúde e se remeter ao papel de atento e competente regulador. O sistema privado é sempre mais eficiente a gerir o financiamento e a gerar o lucro.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias


Tags:

Publicado por Jorge Fiel às 11:11
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2012
Como espalhar um boato

A repressão funciona. Custa-me reconhecê-lo, mas é verdade. Enquanto me lembrar dos 120 euros que paguei de multa, sempre que estiver ao volante e o telemóvel tocar, ele fica a ladrar sozinho. Eu não atendo.

Se, em 1992, não tivesse sido obrigado a viver durante uma semana num sítio (uma enfermaria do Hospital de St.º António) onde o tabaco era proibido, o mais certo era ter acontecido uma de duas coisas: ou continuava a fumar dois maços de SG Filtro por dia, ou já estava a fazer tijolo - o tabagismo é a principal causa de morte prematura.

Vinte anos depois, estou muito satisfeito por ter deixado de fumar. Economizei dinheiro e pulmões. Passei a respirar e a dormir melhor - e a acordar mais feliz. Confesso que nas primeiras semanas senti a falta do cigarro quando tomava café no final de uma boa refeição, mas essa carência era compensada pela redescoberta de sabores e aromas.

Aplaudi a legislação antitabágica de 2006, cujo impacto positivo já é mensurável: o contingente de fumadores minguou 5% e 22% dos viciados reduziram o consumo, que apesar de ter caído de 12 para 11 biliões (entre 2011 e 2010) de cigarros ainda garante ao Estado uma confortável receita fiscal de 1,35 mil milhões de euros, oito vezes superior à proporcionada pelo vício do álcool (175 milhões).

Apoio o provável endurecimento da lei do tabaco e sigo com curiosidade as consequências do proibicionismo, em particular desde que li um artigo do New York Times que salientava duas tendências curiosas: a satisfação dos donos dos restaurantes (as receitas tinham aumentado porque a diminuição da venda de digestivos, cujo consumo está associado ao cigarro, fora compensado pelo aumento da rotação das mesas) e o anormal crescimento dos divórcios nos casais mistos (um fumador e outro não), recenseado por estatísticas e sociólogos: no final da refeição, vai lá fora fumar um cigarrito, à porta do restaurante trava conhecimento com outros fumadores, começam a conversar e, já se sabe, muitas vezes é mesmo a ocasião que faz o ladrão.

Esta última consequência será muito mitigada se, como tudo indica, for para a frente a intenção já anunciada de ilegalizar as concentrações de fumadores à porta de restaurantes e bares.

No nosso país, a proibição teve o excelente efeito secundário de desencadear o ressurgimento das esplanadas e de alterar de uma forma profunda o relacionamento nos locais de trabalho.

Os não fumadores passam o dia sem levantar o cu da cadeira, interagindo pessoalmente cada vez menos com os colegas - quando têm algo a dizer, usam o telefone interno, o mail ou o Messenger. Os fumadores encontram-se cá fora, várias vezes ao dia, nas pausas para fumar um cigarro, que aproveitam para pôr a má língua em dia. Hoje, para pôr a circular um boato numa empresa, é preciso escolher um fumador para o espalhar.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias


Tags:

Publicado por Jorge Fiel às 10:47
Link do post | Comentar | Ver comentários (25) | Adicionar aos favoritos

Quarta-feira, 18 de Janeiro de 2012
Guimarães somos todos nós

Viajar à borla e conhecer pessoas (muitas e variadas) foram as duas razões fundamentais que me levaram a aspirar ser jornalista, uma decisão sábia tomada mais ou menos a meio do meu curso de História, algures na segunda metade dos anos 70.

Não foi fácil, mas compensou. "O caminho é sinuoso, mas o horizonte é radioso". Não encontro melhor frase do que esta, pedida emprestada ao livrinho vermelho de citações do presidente Mao, para sintetizar o que aconteceu na sequência de minha decisão de me tornar jornalista.

Não foi fácil. Até conseguir ser jornalista habilitado a pedir a carteira profissional, fui revisor de provas aqui no JN e colaborador do "Norte Desportivo", especializado em todas as modalidades que metiam água (natação, canoagem, remo, vela...) e em relatos de jogos de futebol feitos via rádio.

Mas compensou. Ainda não tinha passado um ano sobre o orgulho de ter visto o meu nome impresso pela primeira vez num jornal quando tive o meu baptismo do voo, viajando até à Grécia para acompanhar a estreia de velejadores portugueses num Mundial de Windsurf, como enviado especial do "Norte Desportivo" - onde tive a sorte e o privilégio de conhecer, trabalhar e aprender com jornalistas já consagrados, como o Manuel Tavares, o Fernando Santos e o Couto Soares, que 32 anos depois reencontrei na Redacção do nosso JN.

Ao longo destes anos, o jornalismo tem sido muito bom para mim e deu-me tudo (e em quantidades mais que generosas...) quanto eu ambicionava quando era um jovem universitário e deitava contas ao futuro. Fartei-me de viajar, de viver experiências e conhecer pessoas e mundo.

Jamais esquecerei as viagens ao fim da tarde, a bordo do Star Ferry, entre Kowloon e Central, a primeira vez que passeei deslumbrado na Broadway, o prazer de estar deitado na relva, numa manhã quente de Verão, na Place des Vosges, ou de dar um mergulho logo após o acordar, em Ipanema.

Sou urbano. Se me pedissem a lista das minhas cidades preferidas, eu teria de fazer duas. Na das cidades tipo Scarlett Johansson, que nos deixam de boca aberta e a salivar, constariam obrigatoriamente Hong Kong, Nova Iorque, Paris e Rio de Janeiro. No outro top ten, no das cidades tipo Juliette Binoche, que nos dão vontade de namorar, têm lugar cativo Cracóvia, Santiago de Compostela, Praga - e Guimarães.

Com o peito cheio pelo orgulho por termos uma cidade tão bela, cujo Centro Histórico foi classificado pela UNESCO como Património da Humanidade, não podemos deixar de dizer, em coro, Guimarães somos todos nós.

A três dias da inauguração da Capital Europeia de Cultura 2012, sinto a obrigação de fazer notar que é imperdoável não aproveitarmos esta oportunidade que Guimarães nos está a oferecer para visitar, conhecer, saber mais e viver a cidade onde começou esta grande aventura chamada Portugal.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias



Publicado por Jorge Fiel às 10:43
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

Segunda-feira, 16 de Janeiro de 2012
Tirem as patas do porto de Leixões

Sempre me intrigou o fascínio dos políticos pelos académicos. Após matutar no assunto concluí que essa atracção se deve a um misto de admiração e cumplicidade.

Admiração por os académicos estarem equipados com persistência e tempo para consagrar ao estudo e investigação, enquanto eles tiveram de focar toda a sua atenção e esforços na perigosa prática de alpinismo no aparelho do partido, sendo, por isso, não raro obrigados a optarem por atalhos embaraçosos para se munir de um título académico.

Cumplicidade porque ambos, políticos e académicos, estão irmanados na ambição de atravessarem a vida razoavelmente protegidos do cortejo de maçadas que aflige todos os que estamos expostos aos vexames que os humores do mercado infligem a quem trabalha e arrisca no mundo real das empresas privadas.

Só este fascínio dos políticos pelo mundo universitário, que chega a revestir-se do carácter místico e pouco científico de fé, explica que, num dos momentos mais críticos da nossa História, Passos Coelho tenha entregue o superministério que reúne Economia, Trabalho, Obras Públicas e Transportes a um estrangeirado que viveu metade da vida adulta a 8270 km de distância da pátria.

Compreende-se que Passos tenha sublinhado a sua chegada ao Poder com a divulgação de sinais de um estilo de governação mais austero (como a opção de voar em económica) e tenha começado por poupar no número de ministérios.

Mas custa a entender por que é que o primeiro-ministro de um país que balouça à beira do abismo concentra uma data de tarefas vitais (privatizações, revisão da legislação laboral, trágica situação das empresas públicas de transportes, comunicações, turismo, comércio, etc.) nas mãos de um académico com zero de experiência política, zero de experiência governativa e zero de experiência de gestão.

Ter um superministério não bastou para fazer de Álvaro um superministro e a melhor prova disso é o facto de ele ter permitido que desenterrassem do fundo da gaveta o projecto, abandonado pelos governos Santana e Sócrates, de reunir numa empresa todo o sistema portuário nacional.

Depois de, no passado, ter tido a fama de ser o mais caro porto do Mundo e palco de conflitos laborais constantes, Leixões vive há um quarto de século em paz social, é o mais lucrativo dos nossos portos, teve em 2011 o melhor ano de sempre, registando um crescimento de 12%, rebocado pelas exportações, que subiram 27,5%.

O Norte e Portugal não podem tolerar que este exemplo luminoso de gestão seja usado para disfarçar incompetências alheias e tapar os buracos dos prejuízos dos outros portos. O ministro Álvaro já devia ter percebido que não se deve mexer no que funciona bem - e que os superiores interesses do Norte e do país impõem que ninguém ponha as patas em cima do porto de Leixões.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias



Publicado por Jorge Fiel às 10:40
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

Domingo, 15 de Janeiro de 2012
Principio de Peter e Lei de Murphy

Afinal já temos medidas para o crescimento: franchisar os pasteis de nata. Esta frase chegou-me 6ª feira, por SMS, enviada pelo meu amigo Anibal, empresário metalomecânico com actividade industrial no distrito de Aveiro e uma forte base comercial em Inglaterra.

Li a frase - suficientemente curta para ser um tweet - e logo a identifiquei como a certidão de óbito político de Álvaro. O ridículo mata.

Atingir o Princípio de Peter (num sistema hierárquico, todo o funcionário tende a ser promovido até ao seu nível de incompetencia) equivale a accionar a Lei de Murphy - e tudo quanto pode correr mal começa, inevitavelmente, a correr mal. É o que o que nos está a acontecer com o mega-ministério que devia funcionar como uma dose de Prozac mas não passa de um réplica dos trágicos coros grego e só acentua o ambiente depressivo.

Até foi favorável a minha primeira impressão de um ministro que pedia para o tratarem pelo nome próprio, arregaçava mangas, no sentido literal, e prometia também fazê-lo no sentido figurado: "Chegou a hora de reconstruir Portugal. Só falta a necessária vontade de o levar a cabo".

Um par de meses chegou para confirmar que não basta a vontade. Também é preciso saber. E o Álvaro não sabe, para grande pena e desgraça nossa.

Há cinco anos, a AEP iniciou uma campanha de promoção do consumo dos produtos portugueses, com a marca Compro o que é nosso. Mais de 800 empresas aderiram à iniciativa, cujo sucesso é mensurável pelo crescimento das vendas, que oscilam entre um mínimo de 5% e um máximo de 15%, das 8500 marcas que usam o rótulo garantindo que o valor acrescentado português do produto é superior a 50%.

Ora há cinco anos o nosso Álvaro estava em Vancouver a dar aulas e a questionar-se sobre as razões que levaram Deus a demorar tanto tempo a criar o Universo, o tema abordado na sua obra O diário de Deus criacionista.

Talvez por isso, talvez por se terem esquecido de o avisar da campanha da AEP, talvez por ser distraído e lá em casa o pelouro das compras estar atribuído à sua mulher Isabel, talvez pela conjugação de alguns ou todos estes talvez, o ministro da Economia convenceu-se estar na posse de uma ideia nova e luminosa e em Setembro, deu uma conferência de imprensa, anunciando o lançamento da iniciativa Mais Portugal justificada pela "incipência da aposta na produção nacional".

"A diminuição do défice passa pela diminuição das importações", explicou com o ar impante de quem acabava de inventar a roda.

Com diplomacia e tacto, a AEP fez ver ao ministro que já estava no terreno uma campanha com o mesmo objectivo e que, se ele quisesse, teria todo o gosto em ceder a marca Compro o que é nosso. Álvaro deixou a associação sem resposta. Não tugiu nem mugiu. Foi o primeiro sinal de um terrível erro de casting.

Antes de trocar Vancouver por Lisboa, Álvaro fez uma declaração de amor: "Gosto muito de Portugal e gostaria muito que o meu país tivesse futuro". Neste momento, já não tenho dúvidas. O futuro do nossa pátria será mais sorridente se ele sair da Horta Seca e voltar às salas de aula no Canadá.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias


Tags:

Publicado por Jorge Fiel às 10:36
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

Quinta-feira, 12 de Janeiro de 2012
Como fugir ao desemprego

Antes desta inevitável fúria liberalizadora da legislação laboral, os patrões queixavam-se de que contratar um trabalhador equivalia a casar com ele para toda vida. No geral tinham razão. Apesar de ser bastante permissiva quanto a despedimentos colectivos (não foi por acaso que cresceram 54% entre 2010 e 2011), a lei portuguesa ainda é bastante rígida no que toca ao despedimento individual.

Não faz sentido que um empregador se sinta acorrentado a um trabalhador. Da mesma maneira que não estava certo que um casamento só pudesse ser dissolvido se ambos os cônjuges se pusessem de acordo em divorciar-se. Para um casamento ser justo, ambas as partes devem ter a liberdade de a qualquer momento lhe porem termo.

Está mal que um trabalhador seja livre de se despedir e que a contrária não seja verdadeira. Estava mal que uma mulher não pudesse divorciar se o homem se opusesse - ou vice-versa.

A nova lei do divórcio flexibilizou a ruptura do contrato entre um casal e só não inverteu a tendência de queda dos casamentos porque, no entretanto, o mercado das relações entre as pessoas se ajustou, escapando à rigidez e iniquidade da legislação através das uniões de facto, o equivalente afectivo-sexual ao expediente dos recibos verdes usado no mercado do trabalho.

A instituição casamento está em crise, o que se compreende até porque os seus principais propagandistas são solteiros e comprometidos para a vida com o celibato, o que configura aquela situação equivoca do "olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço".

Os portugueses casam-se cada vez menos. Entre 2000 e 2011 o número de casamentos caiu de forma continuada de 53.899 para 37.166. E casam-se cada vez mais tarde. Em 20 anos, a idade média dos noivos subiu quatro anos, para 28 (mulheres) e 30 anos (homens).

Não há estatísticas para a evolução das uniões de facto, mas tudo leva a crer que cresce em regime de vasos comunicantes com a quebra nos casamentos. O facto dos filhos de pais não casados representarem já cerca de 40% dos nascimentos é a prova dos noves desta tese.

A ligeira interrupção no crescimento exponencial dos divórcios - de 4.380 (2000) para 19.532 (2010) - registada no ano passado (18.211) não deve ser lida como um inversão de tendência, mas antes à luz da lei da precedência. Só podemos divorciar-nos se estivermos casados - e há cada vez menos portugueses casados.

São cada vez menos os casamentos que resistem ao teste dos tempos. São cada vez menos os empregos que resistem às alucinantes mudanças da economia. O emprego para a vida acabou. O casamento para a vida também - como bem o notou o Frei Bento Domingues: "Não vejo como o casamento possa ser estável um mundo tão instável".

Neste mundo em desvairada mudança, a única solução para evitarmos estarmos no desemprego, afectivo ou laboral, é sermos capazes de estar sempre a reinventar-nos. Este é o desafio do século XXI.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias



Publicado por Jorge Fiel às 14:06
Link do post | Comentar | Ver comentários (26) | Adicionar aos favoritos

Terça-feira, 10 de Janeiro de 2012
Está na hora de Rui sair do armário

Todos navegamos pela vida com uma carga de manias. Não ser muito dado à poesia é uma das minhas manias. A Adília, o O'Neil e o Pina são as excepções. Custa-me a perceber por que é que numa altura destas, em que é urgente poupar, a generalidade dos poetas teima em desperdiçar papel e não aproveita as linhas até ao fim.

Para não prejudicar a imagem razoavelmente lisonjeira que tenho de mim próprio, atribuo este pecadilho ao défice excessivo de sensibilidade que ataca sobretudo nos homens - e tento convencer-me de que este desinteresse se deve ao facto do poeta ser um fingidor, a acreditar num dos nossos expoentes máximos na matéria.

Não conheço em pormenor as manias do presidente da Câmara do Porto, que ontem celebrou dez anos no cargo, mas já deu para perceber que ele tem uma aversão pelo risco que lhe está a prejudicar a carreira.

Como todos os políticos, Rui Rio tem uma costela de poeta. Finge que não quer sair do Porto, mas ambiciona regressar a Lisboa e sonha ter o retrato na escadaria principal da sede do PSD, na São Caetano à Lapa, decorada com as fotos dos 16 líderes que antecederam Passos Coelho.

Apesar de nem às paredes confessar esta ambição, já todos percebemos que Rui governa o Porto obcecado com duas coisas: dourar a imagem que o resto do país laranjinha tem dele e impedir que Menezes atravesse o rio e se instale no seu gabinete.

Tenho pena de que Rio seja apenas mais um dos políticos que encaram o Porto como um trampolim - um ponto de partida e não de chegada. Mas compreendo as suas ambições.

O que não compreendo é por que é que deixa a obsessão anti-Menezes toldar-lhe o discernimento e prejudicar-lhe a carreira. O que eu não compreendo é por que é que não se cura do medo de arriscar e assume uma candidatura à liderança do PSD, já no Congresso de Março.

O Rui tem tudo a ganhar se puser um dedo no ar e der um passo em frente. Depois de Cavaco, todos os barões que ousaram candidatar-se acabaram por ter direito a retrato na sede.

Em 95, Durão perdeu para Nogueira, mas quatro anos depois chegou à liderança em Coimbra, derrotando Santana Lopes e Marques Mendes.

Santana esperou quatro anos pela sua vez. Marques Mendes teve de ser mais paciente e aguardou cinco anos pelo Congresso de Barcelos, onde derrotou Menezes - que viria a conquistar o partido uma dúzia de anos após ter abandonado o Coliseu, de madrugada e a chorar, depois de ter acusado os barrosistas de serem "sulistas, elitistas e liberais".

Até chegar onde chegou, Passos teve de engolir a derrota com Ferreira Leite e a humilhação de ser riscado da lista de deputados. Na política, como na vida, é preciso ter a coragem de perder - e assim ganhar balanço para uma vitória. A história sopra um bom conselho ao ouvido de Rui: Está na hora de saíres do armário, de deixares de ser uma mera caixa de ressonância das críticas de Belém a Passos - e assumires uma candidatura à tua cadeira de sonho.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias


Tags: ,

Publicado por Jorge Fiel às 14:03
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2012
Um almoço com Durão no Tivoli

Durão Barroso ainda era secretário de Estado quando intercedeu junto do comissário Manuel Marín para que os PALOP pudessem beneficiar de um programa comunitário. O espanhol aceitou o empenho e disse: "Gosto de vocês. São como os italianos. Menos brilhantes, mas mais honestos".

O presidente da Comissão Europeia usou este episódio para responder à pergunta sobre como é que nós somos olhados na Europa, feita ontem durante um almocinho de duas horas, no Tivoli Lisboa, com 16 responsáveis de jornais, rádios e televisões.

Estava tudo impecável. Abrimos com carpaccio de novilho, acompanhado por Vinha Grande. A seguir, foi uma tranche de robalo com um branco alentejano. Antes do café, servido com "petits macarons", tivemos direito a uma espetada de frutos tropicais. Há vidas bonitas. A refeição foi boa, mas a conversa ainda melhor.

Não vou cometer inconfidências sobre o que foi dito à mesa, porque aceitámos que o almoço era em off, mas sinto que devo partilhar as impressões com que fiquei do pensamento e estado de espírito de Durão.

Fiquei satisfeito por ele não ser daqueles que olham para os dois lados antes de atravessar uma rua de sentido único. Pelo contrário.

Está optimista e crítico das cassandras e do "intelectual glamour of pessimism".

Está optimista, apesar de consciente de que a UE se encontra no pior momento da sua vida - ou caminha para a integração ou para a desintegração.

Acha que a esmagadora maioria dos estados-membros (Alemanha incluída) está empenhada em salvar o euro. Os avanços institucionais são a prova disso. A Comissão Europeia nunca teve tantos poderes. E o novo tratado está, em alguns aspectos, mais à frente que os EUA.

Atribui o pessimismo dominante ao controlo de 95% do mercado da informação pelos anglo--saxónicos (que não são entusiastas do euro). O resto vai atrás, contagiado. Gostei da análise. Em termos de comunicação, a Alemanha vale cem vezes menos que o Financial Times, Economist e Wall Street Journal juntos.

Sobre Portugal, fiquei com a ideia de que Bruxelas pensa o que diz em voz alta. Faz uma avaliação positiva, acha que o Governo está a esforçar--se por safar a coisa, mas que ainda nada está decidido - enquanto a Irlanda está a cair para o lado bom e a Grécia para o lado mau.

Pareceu-me que o grande medo de Durão é que a Grécia caia (estava com cara de tripla se a questão fosse um Totobola), não só pelos efeitos devastadores para os gregos, mas também pelo risco de contágio nos afectar - e as novas firewalls não serem ainda suficientemente fortes para nos proteger. Resta-nos a consolação de sermos mais honestos que os gregos, que quando vão ao hospital só são atendidos se levarem no bolso dinheiro vivo para pagar aos médicos e enfermeiros.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias

PS. Mantive-me fiel às minhas duas resoluções de Ano Novo. Comi devagar, ao ponto de ser admoestado pela Leonor Ribeiro (a jornalista que há uns bons dez anos faz de canivete suíço do Durão) por estar a empatar o repasto - e não abri a boca, pois não tinha nada de importante para dizer.


Tags: ,

Publicado por Jorge Fiel às 13:53
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

Terça-feira, 3 de Janeiro de 2012
Para evitar correntes de ar

Comer devagar foi a minha mais relevante decisão de Ano Novo, tomada após ter sabido que a investigação de uma cientista portuguesa provou que quanto mais depressa ingerirmos os alimentos mais engordamos.

Usando como base o trabalho de um ano com 500 jovens obesos acompanhados pelo Hospital Pediátrico de Bristol, Júlia Galhardo ganhou um prémio internacional ao demonstrar que mais importante do que o que se come é o tempo que demoramos a mastigar os alimentos

O nó da questão está em saborear lentamente a comida gastando assim o lapso de tempo que demora entre a ingestão dos alimentos e a mensagem de saciedade ser transmitida a quem de direito. Na máquina complicada (mas quase perfeita) que é o nosso organismo, há uma data de coisas importantes relacionadas com as hormonas.

Comecei a aplicar a minha resolução de Ano Novo no almoço de ontem, comprado por 8,70 euros (atenuados por um vale de desconto de um euro usável a partir de hoje) no Wok to Walk do Via Catarina.

Correu bem. Demorei 35 minutos a esvaziar o prato de noodles de arroz com carne de vaca, cebola frita, mistura de pimentos, molho picante Hot Asia, acompanhado por limonada. Quando cheguei ao fim, já estava frio, mas soube-me pela vida. E só comi tudo porque o meu carácter judaico-cristão impede-me de desperdiçar comida.

Tenho de reconhecer que o uso de pauzinhos ajuda a comer mais devagar - e a levar à boca quantidades de alimento mais reduzidas que o binómio garfo/faca. Os orientais sabem-na toda.

Fiquei tão satisfeito que logo a seguir, já saciado e a título de sobremesa, permiti-me um pequeno luxo (a que já não me dava há um bom par de anos) e sentei-me na cadeira do senhor Araújo, o engraxador residente do Via Catarina, que a troco de dois euros (a que eu acrescentei 35 cêntimos de gorja) me deixou os meus City Walker a brilhar e ainda mais macios.

Enquanto mastigava devagar, matutei nos equívocos gerados pelos atrasos na transmissão de mensagens nestes tempos em que o fantástico desenvolvimento tecnológico nos convenceu erradamente de que tudo é instantâneo, desde a transmissão de um email, até às imagens de um jogo de futebol, passando pela capacidade de todo o nosso corpo perceber que já não precisa de mais comida.

Por muito micro que sejam, há sempre atrasos, sendo que um dos mais clássicos - a velocidade de propagação da luz ser superior à do som - leva a que algumas pessoas nos parecem inteligentes até as ouvirmos.

Enquanto o sr. Araújo me engraxava os sapatos, saltei desta primeira conclusão para uma outra, inspirada por alguns momentos de reflexão sobre a mensagem de Ano Novo de Cavaco.

Era bom se optassem por ficar caladas todas as pessoas que têm dificuldades em comunicar e/ou não sabem muito bem o que hão-de dizer. E tomei logo ali a minha segunda decisão de Ano Novo: pensar duas vezes antes de abrir a boca. Para evitar correntes de ar.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias


Tags: ,

Publicado por Jorge Fiel às 09:45
Link do post | Comentar | Ver comentários (45) | Adicionar aos favoritos

Segunda-feira, 2 de Janeiro de 2012
'bora aí fazer-lhes a desfeita?

 Para mim foi um alívio ter entrado em desuso aquela moda de enviar SMS a desejar Bom Natal e Feliz Ano Novo para toda a gente da lista telefónica do telemóvel. O claro declínio desta epidemia é um dos efeitos secundários benéficos da crise.

Eu nunca tive essa mania. Por uma questão de educação, respondo a todas as mensagens que contenham um elemento de personalização (o meu nome, por exemplo). Mais nada.

Há três anos, quando alimentar diariamente o blogue Lavandaria ocupava um lugar cimeiro na minha lista de prioridades, utilizei as SMS recebidas por ocasião das festas como matéria--prima para um post.

Hoje a escassez de mensagens não me permitiria esse exercício, mas apesar de achar essa mania uma maçada, sinto que devo partilhar com quem me prenda com o seu tempo e atenção a melhor SMS de Ano Novo que recebi: 'bora aí fazer-lhes a desfeita e ter um grande 2012, enviado pelo Rui Zink.

Não desfazendo na sábia homília de Ano Novo do bispo do Porto, que muito apreciei, agrada-me muito o espírito subversivo e inconformista que o Zink conseguiu sintetizar numa pequena frase de 52 caracteres (espaços incluídos).

Há muito do manguito do Zé Povinho na mensagem de Ano Novo do Rui Zink às portuguesas e portugueses (e seguramente gente de outras nacionalidades) da sua lista telefónica. Uma das coisas que nos faz agarrar à vida é a profunda satisfação de desiludir os poderosos e contrariar um triste fado prematuramente escrito.

E é nessa rebeldia que nos caracteriza que eu encontro um suplemento de esperança no futuro, de que não vamos ter saudades de 2011 e acabaremos este ano de 2012 a rirmo-nos todos, a bandeiras despregadas, da piada que define o economista como um perito que saberá amanhã explicar por que motivo aquilo que previu ontem não aconteceu hoje.

Sei que esta teoria tem o defeito de não ter dados que a confirmem, mas a verdade é que as coisas mudam. Há um par de anos, quando a Nokia - que agora balouça à beira do abismo - era uma Meca a seguir, de acordo com os nossos governantes, se alguém me viesse desafiar a investir no lançamento de uma nova cadeia de hambúrgueres eu chamava-lhe maluco, mas a h3 prospera não só em Portugal, mas também em Espanha, Brasil e Polónia.

"Estamos em tempo de crise, mas sobretudo de sair dela", avisou-nos D. Manuel Clemente, a partir do altar da Sé do Porto. E para sairmos da crise, o que mais desejo é que neste 2012 sejamos todos famintos de coisas novas, cientes da nossa ignorância, ávidos por aprender e com sede de descobrir. Para transformar este cabo das Tormentas no cabo da Boa Esperança temos de nos inspirar nos nossos antepassados que deram novos mundos a conhecer ao Mundo. É preciso ousar, correr riscos, amar, expor-se, empenhar-nos de corpo e a alma no que fazemos. 'bora aí fazer-lhes a desfeita e ter um grande 2012'!

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias


Tags:

Publicado por Jorge Fiel às 09:42
Link do post | Comentar | Ver comentários (2) | Adicionar aos favoritos

Terça-feira, 27 de Dezembro de 2011
As galinhas de Tchekov

Alexander Tchekov dedicou toda a vida à titânica e mal sucedida tentativa de ensinar as suas galinhas a entrarem sempre pela mesma porta e saírem por outra. Esta grotesca tentativa do irmão mais velho de Anton, o genial escritor russo, faz-me lembrar os não menos vãos esforços de tentarem fazer o país andar para a frente apostando todos os recursos em Lisboa.

A Grécia, o mais acabado dos exemplos da falência da macrocefalia, iniciou, a instâncias da troika, um processo de desconcentração do poder e descentralização dos recursos, deixando-nos sozinhos, como o único país não regionalizado da zona euro.

Estarmos orgulhosamente sós não preocupa os filhos das fábricas partidárias que nos desgovernam, pois infelizmente eles partilham o egocentrismo daqueles lisboetas que estão convencidos que não têm sotaque (pois tomam o deles como cânone) e a indigência de raciocínio do automobilista que segue na auto-estrada a tentar evitar os carros que lhe aparecem pela frente e que ao ouvir na rádio que há um carro a circular em contra-mão na A5 comenta para os seus botões: "Um?!? São às centenas!".

O nó do problema reside na incapacidade demonstrada pelos nossos governantes - de Soares a Passos, passando por Cavaco, Guterres, Durão, Lopes e Sócrates - em sequer verem que o pecado original está na estratégia de concentrar todos os recursos na capital, na esperança que essa locomotiva reboque o resto do país, o que nunca acontecerá porque Lisboa já há muito que está desengatada das outras carruagens do comboio português.

Quando se está no Terreiro do Paço perde-se a perspectiva do resto do país, que passa ao estatuto secundário de paisagem (ou província). O resultado é o acentuar das desigualdades internas.

Quem olha para o país de fora de Lisboa já percebeu que a chave para o desenvolvimento consiste em repensar tudo e apostar numa cobertura equilibrada do território nacional.

Por que é que Espanha tem dez cidades com mais de meio milhão de habitantes e Portugal só tem dez cidades com mais de 40 mil almas? A diferença de população entre as duas nações não é a resposta, que encontramo-la se olharmos para 1992, o ano em que Madrid foi Capital Europeia da Cultura, Barcelona teve os Jogos Olímpicos e Sevilha recebeu a Expo Universal - e nos lembrarmos que o magnífico Guggenheim, riscado por Gehry, foi para Bilbau.

Chegamos a esta crise devido a uma administração desonesta da riqueza - o alerta não é meu, mas antes do padre Manuel Morujão, o porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa.

A macrocefalia de Lisboa é um problema estrutural do país - o diagnóstico não é meu, mas sim de D. Manuel Clemente, que é bispo do Porto mas cresceu e fez-se homem em Lisboa.

O que nos vale a nós, portugueses da província e figurantes da paisagem, é que a questão política deixou de ser central, pois a incompetência dos políticos que só têm ideias com rugas gerou a vitória da economia - e o primado do económico e social.

Quando pioram, as coisas ficam mais claras.*

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias

*Este Fin foi pedido emprestado a Godard



Publicado por Jorge Fiel às 11:13
Link do post | Comentar | Ver comentários (18) | Adicionar aos favoritos

Sexta-feira, 23 de Dezembro de 2011
Um Richelieu à moda do Porto

Por trás de um grande homem como Rui Rio não há apenas uma grande mulher (a minha ex-colega e amiga Lídia) mas também outro grande homem - no caso Manuel Teixeira, o todo-poderoso chefe de gabinete do presidente da Câmara do Porto.

A todos quantos se dão à maçada de ler estas palavras, peço já desculpa por abusar da vossa paciência e deste espaço para falar deste meu ex-colega e amigo, mas parece-me que ele merece ser tirado da sombra discreta a que se remeteu e beneficiar um pouco das luzes da ribalta, pelo menos uma vez sem exemplo.

Natural de Tarouquela, Cinfães, estudou no seminário em Évora, onde debutou no jornalismo como correspondente do saudoso "O Comércio do Porto", diário em que viria a fazer carreira, chegando a director - e onde tive o prazer de o conhecer.

"Três tiros e uma mulher a menos" - que ocupa por direito um lugar no top ten dos meus títulos favoritos de primeira página - saiu da cabeça imaginativa e sintética do Manel Teixeira, um dos mais eficientes chefes de Redacção com quem trabalhei, amigo e apoiante da primeira hora de Cavaco, senhor de boas ligações aos sociais-democratas de Fafe (onde pontificava a família Marques Mendes) e apaixonado pelo Direito e o Jornalismo.

A vida dá as suas voltas, e após ter desempenhado um papel activo na privatização de "O Comércio do Porto", acabou a sua passagem pelo jornalismo na Radiopress, sem nunca concretizar o sonho de ultrapassar a circulação do "Jornal de Notícias".

Estava na TSF como administrador quando Rui o foi buscar para o seu lado, formando uma dupla que entrará seguramente para a história da cidade do Porto, não interessa agora para o caso se pelos bons ou maus motivos.

Antes de começar a alinhar estas frases, pensei em duplas famosas, que pudesse dar como exemplo para a dupla Rio/Teixeira. Afastei a hipótese Sherlock/ Watson, pois nenhum deles é tão brilhante como o detective ou tão leve de ideias como o médico.

Descartei as duplas Astérix e Obélix (nenhum deles teve a sorte de cair no caldeirão da poção mágica quando era bebé) e D. Quixote/Sancho Pança - apesar de reconhecer que mais frequentemente do que seria desejável o presidente da Câmara e o seu chefe de gabinete ficam com o pensamento enevoado e envolvem-se em investidas estéreis contra moinhos de vento imaginários.

Concluí, por fim, que a dupla mais parecida é a outrora formada pelo rei Luís XIII e o cardeal Richelieu - com Teixeira no papel do primeiro-ministro que foi o arquitecto do absolutismo francês e combateu sem tréguas os protestantes.

O Direito e o Jornalismo foram sempre as grandes paixões do Richelieu à moda do Porto, pelo que não me espanta que ele abuse do recurso a processos e se exceda a escrever para os jornais - nomeadamente para o JN (cisma que deve vir dos seus tempos de director d'"O Comércio do Porto").

Como tenho pena que o talento de Teixeira para a escrita esteja a ser desperdiçado em peças secas, vou sugerir à Direcção do nosso jornal que o convide para escrever no JN. Até já arranjei um nome para a coluna: Direito de Resposta. Seria uma bela prenda de Natal!

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias


Tags:

Publicado por Jorge Fiel às 10:05
Link do post | Comentar | Ver comentários (8) | Adicionar aos favoritos

Quinta-feira, 22 de Dezembro de 2011
De Pai Natal para Pai Natal

A nossa vida divide-se em três fases. Primeiro, acreditamos na existência do Pai Natal. Depois, já percebemos que não há lá em casa uma chaminé por onde possa descer um velho pançudo e de barbas, vestido de vermelho e com um saco às costas - mas fazemos de conta que acreditamos nessa patranha porque beneficiamos dela. Por fim, passamos a ser contribuintes líquidos para a manutenção do esquema. Estou nesta última fase há uma data de anos. Ou seja, sou o Pai Natal e sei que a esmagadora maioria das preclaras e preclaros leitores partilham essa minha condição.

Eu adoro dar. Não sou um Pai Natal forreta, ao contrário da Maria Cavaco e do Pedro Passos Coelho, que no ano passado, ainda a crise ia no adro e o pessoal tinha agasalhado o 13.º por inteiro, adoptaram medidas excessivas de contenção.

No Possolo, no Natal de 2010, os adultos (PR incluído) ficaram a seco. Só as criancinhas tiveram direito a prenda. Este miserabilismo natalício do casal Maria e Aníbal contaminou a Laura e o Pedro - após a consoada, em Massamá, só a mais nova das quatro filhas de Passos Coelho teve um presente para desembrulhar.

Vá lá que neste ano, Belém e S. Bento optaram por guardar de Conrado o prudente silêncio neste particular das prendas de Natal. Fizeram bem, porque mesmo sem sinais exagerados de pânico por parte de quem manda, estão a fechar em média cem lojas por dia, de acordo com a Confederação de Comércio e Serviços de Portugal.

Como o período do Natal representa metade da facturação anual para a maioria das lojas, não podemos ficar indiferentes ao impotente desespero de quem naufraga, fechando as portas do seu estabelecimento, com a praia à vista.

Nas voltas que dei pela Baixa, para investir a metade que sobrou do 13.º em prendas (no seu essencial livros, música, DVD e vinhos) impressionou-me o esforço de muitas lojas para se aguentarem, antecipando os saldos/reduções que tradicionalmente só faziam depois do Natal.

Vítor Bento avisou-nos de que um dos riscos da actual crise é as pessoas deixarem de gastar. "Isso seria muito mau", adverte o sério e reputado economista que em boa hora Cavaco escolheu para substituir Dias Loureiro no Conselho de Estado. Vai daí, apelo a todos os colegas pais e mães natais para que, na medida das suas possibilidades, continuem a demonstrar o afecto pelas pessoas que gostam, dando-lhes presentes.

Não desperdicem, nem exagerem. Mas, por favor, não se intimidem. Não tenham medo de consumir - com moderação. Esta vida são dois dias e o primeiro está a acabar-se. E se não falarmos no entretanto, desde já vos desejo um óptimo Natal, deixando-vos, a título de prenda, um pedacinho do nosso Eça:

"As desgraças públicas nunca impedem que os cidadãos jantem com apetite: e misérias da pátria, enquanto não são tangíveis e não se apresentam sob a forma flamejante de obuses rebentando numa cidade sitiada, não tirarão jamais o sono ao patriota".

 Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias


Tags:

Publicado por Jorge Fiel às 09:56
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

Segunda-feira, 12 de Dezembro de 2011
Nós só queremos Lisboa a arder

Há alguns anos (não muitos), com os ânimos incendiados pela vã tentativa do estado-maior benfiquista de quebrar a hegemonia portista com manobras na secretaria, esteve em voga a palavra de ordem "Nós só queremos Lisboa a arder".

A provocação não caiu no goto da generalidade dos residentes na capital, pelo que amiúde alguns lisboetas, meus amigos ou conhecidos, perguntavam-me se também eu achava bem a ideia de pegar fogo à sua cidade.

"Não. Lisboa é uma bela cidade. O que defendo é o uso de uma bomba de neutrões, de modo a preservar o magnífico património edificado". Foi esta a resposta que formatei para dar nessas ocasiões. Quando a pergunta não é séria, sinto-me desobrigado de responder a sério.

Neste novo século, trabalhei oito anos em Lisboa, uma das mais bonitas cidades do Mundo, pela qual é muito fácil uma pessoa ter uma paixão fugaz e à primeira vista.

Estou imensamente feliz por o JN me ter proporcionado voltar a viver na cidade que amo e onde nasci, mas não posso negar que, de vez em quando, ainda sinto uma pontinha de saudade de alguns pequenos prazeres que Lisboa pode oferecer, como um fim de tarde no miradouro da Graça, petiscar ao almoço uma sanduíche de rosbife e um copo de branco no terraço do Regency Chiado, ou tomar o café matinal na esplanada da Ponta do Sal, em S. Pedro do Estoril.

Quando alguém é incapaz de diferenciar se estamos a falar em sentido estrito ou figurado, geram-se situações embaraçosas e terríveis mal-entendidos. Ninguém quer mesmo Lisboa a arder. O que queremos a arder, num fogo purificador, é a governação centralista que empobrece o Norte e desgraça o país.

O modelo centralista de pôr todas as fichas em Lisboa, partilhado por todos os partidos do arco da governação, é o responsável por 2000-2010 ter sido a pior década de Portugal desde 1910-20 - anos terríveis em que vivemos uma guerra mundial, golpes de Estado e a epidemia da gripe espanhola.

Na primeira década deste século, o crescimento médio anual da nossa economia foi de 0,47%, apesar do afluxo diário médio de seis milhões de euros de Bruxelas, que valiam todos os anos 2% do PIB.

Já ultrapassado pelo Alentejo e Açores, o Norte é a região mais pobre do país, apesar de ser a que mais contribui para a riqueza nacional, com 28,3% do PIB, logo a seguir a Lisboa e Vale do Tejo, com uns 36% enganadores, já que aí está contabilizada a produção feita noutras partes do país pelas grandes companhias nacionais e multinacionais com sede na capital.

Quando leio que ao abrigo do famoso efeito de dispersão - uma vigarice inventada para desviar para Lisboa fundos comunitários - dinheiro destinado às regiões mais pobres está a ser usado pelos serviços gerais e de documentação da Universidade de Lisboa, dá-me vontade de ir para a rua gritar "Nós só queremos Lisboa a arder".

Não. Nós não queremos mesmo Lisboa a ser consumida pelas labaredas. O que queremos é dizer que estamos fartos de ser chulados e já é tempo de impedir que Portugal continue a arder em lume brando, por culpa de governantes incompetentes ou corruptos.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias



Publicado por Jorge Fiel às 12:21
Link do post | Comentar | Ver comentários (57) | Adicionar aos favoritos

Domingo, 11 de Dezembro de 2011
O Rui usa cinto e suspensórios

 O aviso de que um homem tem sempre dois motivos para aquilo que faz - um bom motivo e o verdadeiro motivo - é um dos mais importantes legados à Humanidade do falecido John Pierpoint Morgan.

Estribados neste pedacinho de ouro do fundador do célebre JP Morgan,, jornalistas e comentadores desconfiam que os políticos raramente dizem o que pensam e pensam no que dizem. Marcelo protagonizou um clássico desta trampolinice quando disse que nem que Cristo descesse à Terra seria candidato à liderança do PSD, na véspera do congresso do Europarque, em 99, que o elegeu presidente.

Embora saiba que a capacidade em aldrabar o próximo, com competência, seja um dos requisitos fundamentais para quem quer progredir na coisa pública, acredito na existência de políticos honestos e bem intencionados, - apesar de não me achar um crédulo (não acredito em OVNIs).

Peguemos, por exemplo, no caso de Rui Rio, que tem preconizado com insistência a eleição directa do presidente da Área Metropolitana do Porto e o reforço dos poderes da Junta.

O bom motivo para a defesa deste sucedâneo da Regionalização seria, de acordo com Rio, beneficiar as duas grandes concentrações urbanas do país com um governo metropolitano, mais ágil e eficaz que o central.

Mas, de acordo com cínicos analistas, o verdadeiro motivo de Rio é assegurar o seu futuro imediato (está proibido por lei de se recandidatar à Câmara do Porto) ao mesmo tempo que tenta impedir o seu arqui-rival Menezes de assumir as rédeas de uma região que tem sofrido por estar órfã de liderança.

Sei que Rio não gosta de Menezes. Mas custa-me a crer que tenha apresentado aquela proposta com o duplo e maquiavélico objectivo de arranjar um emprego para ele e tramar o seu inimigo figadal.

Sei que Rio inscreveu no Orçamento da Câmara para 2012 a dotação para pagamento dos subsídios de férias e 13º mês. Custa-me crer que a explicação que ele deu (acautelar uma eventual declaração da inconstitucionalidade do Orçamento que prevê a suspensão ou redução do pagamento desses subsídios) seja tão só o bom motivo - e que o verdadeiro motivo seja demarcar-se publicamente e uma vez mais de Passos Coelho.

Sei que devemos estar sempre de pé atrás com os políticos, mas temo que uma vez mais a desconfiança seja exagerada. O Rui é mesmo assim. Cauteloso e prudente, do tipo de usar cinto e suspensórios ao mesmo tempo.

É por isso que nunca arriscou candidatar-se à liderança do partido. É por isso mesmo que seria um óptimo reforço para a equipa de Vítor Gaspar que tem em mãos a hercúlea tarefa de baixar até 0,5% o défice orçamental.

Seria uma transferência magnífica, em que todos ganhavam. Ganhava o Porto e ganhava o país. E nem oneraria muito os cofres do Estado, porque o Rui ainda não se desfez da casa que tem em Lisboa.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias


Tags:

Publicado por Jorge Fiel às 12:17
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

Sexta-feira, 9 de Dezembro de 2011
A Cátia não liga aos sindicatos

Algures no Verão do ano passado, visitei um call center, na Infante Santo (Lisboa), e fiquei espantado. Num vasto open space, 200 pessoas falavam ao telefone, ao mesmo tempo e em 19 línguas diferentes, resolvendo problemas tão diversos como a do finlandês que não sabia mudar o pneu do seu Peugeot ou de um português que queria obter informações suplementares sobre um PPR.

Cheirava a trabalho naquela sala espaçosa, que tresandava à generosa ideia europeia (que ultimamente tem gaguejado), pois o idioma em vigor em cada grupo de estações de trabalho era assinalado por uma bandeira.

O que mais me impressionou foi saber que era inferior a mil euros o salário médio daquelas pessoas, fluentes em pelo menos uma língua estrangeira e altamente treinadas - os que atendem as chamadas para a linha verde de um banco são frequentemente chamados para dar formação ao pessoal dos balcões.

Uma questão ficou a bailar na minha cabeça enquanto esperava pelo eléctrico na 24 de Julho. Por que raio é que os largos milhares de operadores dos call center, que ganham pouco e trabalham muito em condições bem longe das ideais, ainda não constituíram um sindicato?

Não precisei de chegar ao Cais do Sodré para resolver esta intriga e achar a resposta certa a esta questão pertinente. Os operadores de call center não fundaram um sindicato pela mesma razão que nenhum esquimó compra um frigorífico ou um guineense pede ao Pai Natal um aquecedor - porque não precisam de um sindicato para nada.

A ideia de criar um sindicato também não atravessou a cabeça de gente com novas profissões, como webdesigners, djs, trabalhadores de help desk, personal trainers ou mesmo celebridades, sejam elas mais ou menos duráveis, como a Cinha ou a Cláudia Jacques, ou instantâneas e voláteis, como o Zé Maria, do primeiro Big Brother, a Cátia, da Casa dos Segredos, ou o falso Estripador de Lisboa, da dupla Felícia/Sol.

E se nos dermos ao trabalho de pesquisar nas estatísticas, confirmamos que este alheamento também se apoderou das profissões tradicionais. Um estudo do ISCTE garante que 2/3 dos trabalhadores portugueses não estão sindicalizados - e que quatro em cada cinco nunca fizeram greve.

A situação não está a melhorar. Na última década, a taxa de novos sindicalizados na CGTP caiu mais de 40%. E, de acordo com a OCDE, a percentagem de sindicalizados sobre o total da nossa mão-de-obra recua todos os anos 2,3%.

O problema não é dos trabalhadores. O mundo virou do avesso desde que os sindicatos foram inventados para proteger a classe operária dos excessos da exploração patronal, filha da Revolução Industrial.

O mundo mudou, mas os sindicatos não. Continuam a usar a mesma linguagem, discurso, atitude e formas de luta que eram boas no séc. XIX quando era mal-educado andar na rua com a cabeça descoberta (e ainda não tinham sido inventados o automóvel, a televisão e as férias pagas), mas que no séc. XXI apenas conseguem mobilizar os funcionários públicos.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias



Publicado por Jorge Fiel às 12:12
Link do post | Comentar | Ver comentários (88) | Adicionar aos favoritos

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.
Posts recentes

O drama da mitologia benf...

Saramago foi feliz com a ...

Mais cm2, menos cm2

O caso das prostitutas gr...

Como lidar com a ressaca

Destralhar o edifício leg...

O Porto tem dupla persona...

Contra a reabilitação jac...

Qual é a ponte mais bonit...

Não deixem o comboio desc...

Autores
Manuel Serrão
Posts




Juca Magalhães
Posts




Manuel Queiroz
Posts




Jorge Fiel
Posts




Mário Rui
Posts




Rogério Gomes
Posts




António de Souza-Cardoso
Posts




Fernando Rocha
Posts




Arquivos

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Tags

todas as tags

Créditos
Fotografia no cabeçalho da autoria de almofrela.
blogs SAPO
Subscrever feeds