Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2012
Como espalhar um boato

A repressão funciona. Custa-me reconhecê-lo, mas é verdade. Enquanto me lembrar dos 120 euros que paguei de multa, sempre que estiver ao volante e o telemóvel tocar, ele fica a ladrar sozinho. Eu não atendo.

Se, em 1992, não tivesse sido obrigado a viver durante uma semana num sítio (uma enfermaria do Hospital de St.º António) onde o tabaco era proibido, o mais certo era ter acontecido uma de duas coisas: ou continuava a fumar dois maços de SG Filtro por dia, ou já estava a fazer tijolo - o tabagismo é a principal causa de morte prematura.

Vinte anos depois, estou muito satisfeito por ter deixado de fumar. Economizei dinheiro e pulmões. Passei a respirar e a dormir melhor - e a acordar mais feliz. Confesso que nas primeiras semanas senti a falta do cigarro quando tomava café no final de uma boa refeição, mas essa carência era compensada pela redescoberta de sabores e aromas.

Aplaudi a legislação antitabágica de 2006, cujo impacto positivo já é mensurável: o contingente de fumadores minguou 5% e 22% dos viciados reduziram o consumo, que apesar de ter caído de 12 para 11 biliões (entre 2011 e 2010) de cigarros ainda garante ao Estado uma confortável receita fiscal de 1,35 mil milhões de euros, oito vezes superior à proporcionada pelo vício do álcool (175 milhões).

Apoio o provável endurecimento da lei do tabaco e sigo com curiosidade as consequências do proibicionismo, em particular desde que li um artigo do New York Times que salientava duas tendências curiosas: a satisfação dos donos dos restaurantes (as receitas tinham aumentado porque a diminuição da venda de digestivos, cujo consumo está associado ao cigarro, fora compensado pelo aumento da rotação das mesas) e o anormal crescimento dos divórcios nos casais mistos (um fumador e outro não), recenseado por estatísticas e sociólogos: no final da refeição, vai lá fora fumar um cigarrito, à porta do restaurante trava conhecimento com outros fumadores, começam a conversar e, já se sabe, muitas vezes é mesmo a ocasião que faz o ladrão.

Esta última consequência será muito mitigada se, como tudo indica, for para a frente a intenção já anunciada de ilegalizar as concentrações de fumadores à porta de restaurantes e bares.

No nosso país, a proibição teve o excelente efeito secundário de desencadear o ressurgimento das esplanadas e de alterar de uma forma profunda o relacionamento nos locais de trabalho.

Os não fumadores passam o dia sem levantar o cu da cadeira, interagindo pessoalmente cada vez menos com os colegas - quando têm algo a dizer, usam o telefone interno, o mail ou o Messenger. Os fumadores encontram-se cá fora, várias vezes ao dia, nas pausas para fumar um cigarro, que aproveitam para pôr a má língua em dia. Hoje, para pôr a circular um boato numa empresa, é preciso escolher um fumador para o espalhar.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias


Tags:

Publicado por Jorge Fiel às 10:47
Link do post | Comentar | Ver comentários (11) | Adicionar aos favoritos

Quarta-feira, 18 de Janeiro de 2012
Guimarães somos todos nós

Viajar à borla e conhecer pessoas (muitas e variadas) foram as duas razões fundamentais que me levaram a aspirar ser jornalista, uma decisão sábia tomada mais ou menos a meio do meu curso de História, algures na segunda metade dos anos 70.

Não foi fácil, mas compensou. "O caminho é sinuoso, mas o horizonte é radioso". Não encontro melhor frase do que esta, pedida emprestada ao livrinho vermelho de citações do presidente Mao, para sintetizar o que aconteceu na sequência de minha decisão de me tornar jornalista.

Não foi fácil. Até conseguir ser jornalista habilitado a pedir a carteira profissional, fui revisor de provas aqui no JN e colaborador do "Norte Desportivo", especializado em todas as modalidades que metiam água (natação, canoagem, remo, vela...) e em relatos de jogos de futebol feitos via rádio.

Mas compensou. Ainda não tinha passado um ano sobre o orgulho de ter visto o meu nome impresso pela primeira vez num jornal quando tive o meu baptismo do voo, viajando até à Grécia para acompanhar a estreia de velejadores portugueses num Mundial de Windsurf, como enviado especial do "Norte Desportivo" - onde tive a sorte e o privilégio de conhecer, trabalhar e aprender com jornalistas já consagrados, como o Manuel Tavares, o Fernando Santos e o Couto Soares, que 32 anos depois reencontrei na Redacção do nosso JN.

Ao longo destes anos, o jornalismo tem sido muito bom para mim e deu-me tudo (e em quantidades mais que generosas...) quanto eu ambicionava quando era um jovem universitário e deitava contas ao futuro. Fartei-me de viajar, de viver experiências e conhecer pessoas e mundo.

Jamais esquecerei as viagens ao fim da tarde, a bordo do Star Ferry, entre Kowloon e Central, a primeira vez que passeei deslumbrado na Broadway, o prazer de estar deitado na relva, numa manhã quente de Verão, na Place des Vosges, ou de dar um mergulho logo após o acordar, em Ipanema.

Sou urbano. Se me pedissem a lista das minhas cidades preferidas, eu teria de fazer duas. Na das cidades tipo Scarlett Johansson, que nos deixam de boca aberta e a salivar, constariam obrigatoriamente Hong Kong, Nova Iorque, Paris e Rio de Janeiro. No outro top ten, no das cidades tipo Juliette Binoche, que nos dão vontade de namorar, têm lugar cativo Cracóvia, Santiago de Compostela, Praga - e Guimarães.

Com o peito cheio pelo orgulho por termos uma cidade tão bela, cujo Centro Histórico foi classificado pela UNESCO como Património da Humanidade, não podemos deixar de dizer, em coro, Guimarães somos todos nós.

A três dias da inauguração da Capital Europeia de Cultura 2012, sinto a obrigação de fazer notar que é imperdoável não aproveitarmos esta oportunidade que Guimarães nos está a oferecer para visitar, conhecer, saber mais e viver a cidade onde começou esta grande aventura chamada Portugal.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias



Publicado por Jorge Fiel às 10:43
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

Segunda-feira, 16 de Janeiro de 2012
Tirem as patas do porto de Leixões

Sempre me intrigou o fascínio dos políticos pelos académicos. Após matutar no assunto concluí que essa atracção se deve a um misto de admiração e cumplicidade.

Admiração por os académicos estarem equipados com persistência e tempo para consagrar ao estudo e investigação, enquanto eles tiveram de focar toda a sua atenção e esforços na perigosa prática de alpinismo no aparelho do partido, sendo, por isso, não raro obrigados a optarem por atalhos embaraçosos para se munir de um título académico.

Cumplicidade porque ambos, políticos e académicos, estão irmanados na ambição de atravessarem a vida razoavelmente protegidos do cortejo de maçadas que aflige todos os que estamos expostos aos vexames que os humores do mercado infligem a quem trabalha e arrisca no mundo real das empresas privadas.

Só este fascínio dos políticos pelo mundo universitário, que chega a revestir-se do carácter místico e pouco científico de fé, explica que, num dos momentos mais críticos da nossa História, Passos Coelho tenha entregue o superministério que reúne Economia, Trabalho, Obras Públicas e Transportes a um estrangeirado que viveu metade da vida adulta a 8270 km de distância da pátria.

Compreende-se que Passos tenha sublinhado a sua chegada ao Poder com a divulgação de sinais de um estilo de governação mais austero (como a opção de voar em económica) e tenha começado por poupar no número de ministérios.

Mas custa a entender por que é que o primeiro-ministro de um país que balouça à beira do abismo concentra uma data de tarefas vitais (privatizações, revisão da legislação laboral, trágica situação das empresas públicas de transportes, comunicações, turismo, comércio, etc.) nas mãos de um académico com zero de experiência política, zero de experiência governativa e zero de experiência de gestão.

Ter um superministério não bastou para fazer de Álvaro um superministro e a melhor prova disso é o facto de ele ter permitido que desenterrassem do fundo da gaveta o projecto, abandonado pelos governos Santana e Sócrates, de reunir numa empresa todo o sistema portuário nacional.

Depois de, no passado, ter tido a fama de ser o mais caro porto do Mundo e palco de conflitos laborais constantes, Leixões vive há um quarto de século em paz social, é o mais lucrativo dos nossos portos, teve em 2011 o melhor ano de sempre, registando um crescimento de 12%, rebocado pelas exportações, que subiram 27,5%.

O Norte e Portugal não podem tolerar que este exemplo luminoso de gestão seja usado para disfarçar incompetências alheias e tapar os buracos dos prejuízos dos outros portos. O ministro Álvaro já devia ter percebido que não se deve mexer no que funciona bem - e que os superiores interesses do Norte e do país impõem que ninguém ponha as patas em cima do porto de Leixões.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias



Publicado por Jorge Fiel às 10:40
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

Domingo, 15 de Janeiro de 2012
Principio de Peter e Lei de Murphy

Afinal já temos medidas para o crescimento: franchisar os pasteis de nata. Esta frase chegou-me 6ª feira, por SMS, enviada pelo meu amigo Anibal, empresário metalomecânico com actividade industrial no distrito de Aveiro e uma forte base comercial em Inglaterra.

Li a frase - suficientemente curta para ser um tweet - e logo a identifiquei como a certidão de óbito político de Álvaro. O ridículo mata.

Atingir o Princípio de Peter (num sistema hierárquico, todo o funcionário tende a ser promovido até ao seu nível de incompetencia) equivale a accionar a Lei de Murphy - e tudo quanto pode correr mal começa, inevitavelmente, a correr mal. É o que o que nos está a acontecer com o mega-ministério que devia funcionar como uma dose de Prozac mas não passa de um réplica dos trágicos coros grego e só acentua o ambiente depressivo.

Até foi favorável a minha primeira impressão de um ministro que pedia para o tratarem pelo nome próprio, arregaçava mangas, no sentido literal, e prometia também fazê-lo no sentido figurado: "Chegou a hora de reconstruir Portugal. Só falta a necessária vontade de o levar a cabo".

Um par de meses chegou para confirmar que não basta a vontade. Também é preciso saber. E o Álvaro não sabe, para grande pena e desgraça nossa.

Há cinco anos, a AEP iniciou uma campanha de promoção do consumo dos produtos portugueses, com a marca Compro o que é nosso. Mais de 800 empresas aderiram à iniciativa, cujo sucesso é mensurável pelo crescimento das vendas, que oscilam entre um mínimo de 5% e um máximo de 15%, das 8500 marcas que usam o rótulo garantindo que o valor acrescentado português do produto é superior a 50%.

Ora há cinco anos o nosso Álvaro estava em Vancouver a dar aulas e a questionar-se sobre as razões que levaram Deus a demorar tanto tempo a criar o Universo, o tema abordado na sua obra O diário de Deus criacionista.

Talvez por isso, talvez por se terem esquecido de o avisar da campanha da AEP, talvez por ser distraído e lá em casa o pelouro das compras estar atribuído à sua mulher Isabel, talvez pela conjugação de alguns ou todos estes talvez, o ministro da Economia convenceu-se estar na posse de uma ideia nova e luminosa e em Setembro, deu uma conferência de imprensa, anunciando o lançamento da iniciativa Mais Portugal justificada pela "incipência da aposta na produção nacional".

"A diminuição do défice passa pela diminuição das importações", explicou com o ar impante de quem acabava de inventar a roda.

Com diplomacia e tacto, a AEP fez ver ao ministro que já estava no terreno uma campanha com o mesmo objectivo e que, se ele quisesse, teria todo o gosto em ceder a marca Compro o que é nosso. Álvaro deixou a associação sem resposta. Não tugiu nem mugiu. Foi o primeiro sinal de um terrível erro de casting.

Antes de trocar Vancouver por Lisboa, Álvaro fez uma declaração de amor: "Gosto muito de Portugal e gostaria muito que o meu país tivesse futuro". Neste momento, já não tenho dúvidas. O futuro do nossa pátria será mais sorridente se ele sair da Horta Seca e voltar às salas de aula no Canadá.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias


Tags:

Publicado por Jorge Fiel às 10:36
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

Quinta-feira, 12 de Janeiro de 2012
Como fugir ao desemprego

Antes desta inevitável fúria liberalizadora da legislação laboral, os patrões queixavam-se de que contratar um trabalhador equivalia a casar com ele para toda vida. No geral tinham razão. Apesar de ser bastante permissiva quanto a despedimentos colectivos (não foi por acaso que cresceram 54% entre 2010 e 2011), a lei portuguesa ainda é bastante rígida no que toca ao despedimento individual.

Não faz sentido que um empregador se sinta acorrentado a um trabalhador. Da mesma maneira que não estava certo que um casamento só pudesse ser dissolvido se ambos os cônjuges se pusessem de acordo em divorciar-se. Para um casamento ser justo, ambas as partes devem ter a liberdade de a qualquer momento lhe porem termo.

Está mal que um trabalhador seja livre de se despedir e que a contrária não seja verdadeira. Estava mal que uma mulher não pudesse divorciar se o homem se opusesse - ou vice-versa.

A nova lei do divórcio flexibilizou a ruptura do contrato entre um casal e só não inverteu a tendência de queda dos casamentos porque, no entretanto, o mercado das relações entre as pessoas se ajustou, escapando à rigidez e iniquidade da legislação através das uniões de facto, o equivalente afectivo-sexual ao expediente dos recibos verdes usado no mercado do trabalho.

A instituição casamento está em crise, o que se compreende até porque os seus principais propagandistas são solteiros e comprometidos para a vida com o celibato, o que configura aquela situação equivoca do "olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço".

Os portugueses casam-se cada vez menos. Entre 2000 e 2011 o número de casamentos caiu de forma continuada de 53.899 para 37.166. E casam-se cada vez mais tarde. Em 20 anos, a idade média dos noivos subiu quatro anos, para 28 (mulheres) e 30 anos (homens).

Não há estatísticas para a evolução das uniões de facto, mas tudo leva a crer que cresce em regime de vasos comunicantes com a quebra nos casamentos. O facto dos filhos de pais não casados representarem já cerca de 40% dos nascimentos é a prova dos noves desta tese.

A ligeira interrupção no crescimento exponencial dos divórcios - de 4.380 (2000) para 19.532 (2010) - registada no ano passado (18.211) não deve ser lida como um inversão de tendência, mas antes à luz da lei da precedência. Só podemos divorciar-nos se estivermos casados - e há cada vez menos portugueses casados.

São cada vez menos os casamentos que resistem ao teste dos tempos. São cada vez menos os empregos que resistem às alucinantes mudanças da economia. O emprego para a vida acabou. O casamento para a vida também - como bem o notou o Frei Bento Domingues: "Não vejo como o casamento possa ser estável um mundo tão instável".

Neste mundo em desvairada mudança, a única solução para evitarmos estarmos no desemprego, afectivo ou laboral, é sermos capazes de estar sempre a reinventar-nos. Este é o desafio do século XXI.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias



Publicado por Jorge Fiel às 14:06
Link do post | Comentar | Ver comentários (26) | Adicionar aos favoritos

Terça-feira, 10 de Janeiro de 2012
Está na hora de Rui sair do armário

Todos navegamos pela vida com uma carga de manias. Não ser muito dado à poesia é uma das minhas manias. A Adília, o O'Neil e o Pina são as excepções. Custa-me a perceber por que é que numa altura destas, em que é urgente poupar, a generalidade dos poetas teima em desperdiçar papel e não aproveita as linhas até ao fim.

Para não prejudicar a imagem razoavelmente lisonjeira que tenho de mim próprio, atribuo este pecadilho ao défice excessivo de sensibilidade que ataca sobretudo nos homens - e tento convencer-me de que este desinteresse se deve ao facto do poeta ser um fingidor, a acreditar num dos nossos expoentes máximos na matéria.

Não conheço em pormenor as manias do presidente da Câmara do Porto, que ontem celebrou dez anos no cargo, mas já deu para perceber que ele tem uma aversão pelo risco que lhe está a prejudicar a carreira.

Como todos os políticos, Rui Rio tem uma costela de poeta. Finge que não quer sair do Porto, mas ambiciona regressar a Lisboa e sonha ter o retrato na escadaria principal da sede do PSD, na São Caetano à Lapa, decorada com as fotos dos 16 líderes que antecederam Passos Coelho.

Apesar de nem às paredes confessar esta ambição, já todos percebemos que Rui governa o Porto obcecado com duas coisas: dourar a imagem que o resto do país laranjinha tem dele e impedir que Menezes atravesse o rio e se instale no seu gabinete.

Tenho pena de que Rio seja apenas mais um dos políticos que encaram o Porto como um trampolim - um ponto de partida e não de chegada. Mas compreendo as suas ambições.

O que não compreendo é por que é que deixa a obsessão anti-Menezes toldar-lhe o discernimento e prejudicar-lhe a carreira. O que eu não compreendo é por que é que não se cura do medo de arriscar e assume uma candidatura à liderança do PSD, já no Congresso de Março.

O Rui tem tudo a ganhar se puser um dedo no ar e der um passo em frente. Depois de Cavaco, todos os barões que ousaram candidatar-se acabaram por ter direito a retrato na sede.

Em 95, Durão perdeu para Nogueira, mas quatro anos depois chegou à liderança em Coimbra, derrotando Santana Lopes e Marques Mendes.

Santana esperou quatro anos pela sua vez. Marques Mendes teve de ser mais paciente e aguardou cinco anos pelo Congresso de Barcelos, onde derrotou Menezes - que viria a conquistar o partido uma dúzia de anos após ter abandonado o Coliseu, de madrugada e a chorar, depois de ter acusado os barrosistas de serem "sulistas, elitistas e liberais".

Até chegar onde chegou, Passos teve de engolir a derrota com Ferreira Leite e a humilhação de ser riscado da lista de deputados. Na política, como na vida, é preciso ter a coragem de perder - e assim ganhar balanço para uma vitória. A história sopra um bom conselho ao ouvido de Rui: Está na hora de saíres do armário, de deixares de ser uma mera caixa de ressonância das críticas de Belém a Passos - e assumires uma candidatura à tua cadeira de sonho.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias


Tags: ,

Publicado por Jorge Fiel às 14:03
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2012
Um almoço com Durão no Tivoli

Durão Barroso ainda era secretário de Estado quando intercedeu junto do comissário Manuel Marín para que os PALOP pudessem beneficiar de um programa comunitário. O espanhol aceitou o empenho e disse: "Gosto de vocês. São como os italianos. Menos brilhantes, mas mais honestos".

O presidente da Comissão Europeia usou este episódio para responder à pergunta sobre como é que nós somos olhados na Europa, feita ontem durante um almocinho de duas horas, no Tivoli Lisboa, com 16 responsáveis de jornais, rádios e televisões.

Estava tudo impecável. Abrimos com carpaccio de novilho, acompanhado por Vinha Grande. A seguir, foi uma tranche de robalo com um branco alentejano. Antes do café, servido com "petits macarons", tivemos direito a uma espetada de frutos tropicais. Há vidas bonitas. A refeição foi boa, mas a conversa ainda melhor.

Não vou cometer inconfidências sobre o que foi dito à mesa, porque aceitámos que o almoço era em off, mas sinto que devo partilhar as impressões com que fiquei do pensamento e estado de espírito de Durão.

Fiquei satisfeito por ele não ser daqueles que olham para os dois lados antes de atravessar uma rua de sentido único. Pelo contrário.

Está optimista e crítico das cassandras e do "intelectual glamour of pessimism".

Está optimista, apesar de consciente de que a UE se encontra no pior momento da sua vida - ou caminha para a integração ou para a desintegração.

Acha que a esmagadora maioria dos estados-membros (Alemanha incluída) está empenhada em salvar o euro. Os avanços institucionais são a prova disso. A Comissão Europeia nunca teve tantos poderes. E o novo tratado está, em alguns aspectos, mais à frente que os EUA.

Atribui o pessimismo dominante ao controlo de 95% do mercado da informação pelos anglo--saxónicos (que não são entusiastas do euro). O resto vai atrás, contagiado. Gostei da análise. Em termos de comunicação, a Alemanha vale cem vezes menos que o Financial Times, Economist e Wall Street Journal juntos.

Sobre Portugal, fiquei com a ideia de que Bruxelas pensa o que diz em voz alta. Faz uma avaliação positiva, acha que o Governo está a esforçar--se por safar a coisa, mas que ainda nada está decidido - enquanto a Irlanda está a cair para o lado bom e a Grécia para o lado mau.

Pareceu-me que o grande medo de Durão é que a Grécia caia (estava com cara de tripla se a questão fosse um Totobola), não só pelos efeitos devastadores para os gregos, mas também pelo risco de contágio nos afectar - e as novas firewalls não serem ainda suficientemente fortes para nos proteger. Resta-nos a consolação de sermos mais honestos que os gregos, que quando vão ao hospital só são atendidos se levarem no bolso dinheiro vivo para pagar aos médicos e enfermeiros.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias

PS. Mantive-me fiel às minhas duas resoluções de Ano Novo. Comi devagar, ao ponto de ser admoestado pela Leonor Ribeiro (a jornalista que há uns bons dez anos faz de canivete suíço do Durão) por estar a empatar o repasto - e não abri a boca, pois não tinha nada de importante para dizer.


Tags: ,

Publicado por Jorge Fiel às 13:53
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

Terça-feira, 3 de Janeiro de 2012
Para evitar correntes de ar

Comer devagar foi a minha mais relevante decisão de Ano Novo, tomada após ter sabido que a investigação de uma cientista portuguesa provou que quanto mais depressa ingerirmos os alimentos mais engordamos.

Usando como base o trabalho de um ano com 500 jovens obesos acompanhados pelo Hospital Pediátrico de Bristol, Júlia Galhardo ganhou um prémio internacional ao demonstrar que mais importante do que o que se come é o tempo que demoramos a mastigar os alimentos

O nó da questão está em saborear lentamente a comida gastando assim o lapso de tempo que demora entre a ingestão dos alimentos e a mensagem de saciedade ser transmitida a quem de direito. Na máquina complicada (mas quase perfeita) que é o nosso organismo, há uma data de coisas importantes relacionadas com as hormonas.

Comecei a aplicar a minha resolução de Ano Novo no almoço de ontem, comprado por 8,70 euros (atenuados por um vale de desconto de um euro usável a partir de hoje) no Wok to Walk do Via Catarina.

Correu bem. Demorei 35 minutos a esvaziar o prato de noodles de arroz com carne de vaca, cebola frita, mistura de pimentos, molho picante Hot Asia, acompanhado por limonada. Quando cheguei ao fim, já estava frio, mas soube-me pela vida. E só comi tudo porque o meu carácter judaico-cristão impede-me de desperdiçar comida.

Tenho de reconhecer que o uso de pauzinhos ajuda a comer mais devagar - e a levar à boca quantidades de alimento mais reduzidas que o binómio garfo/faca. Os orientais sabem-na toda.

Fiquei tão satisfeito que logo a seguir, já saciado e a título de sobremesa, permiti-me um pequeno luxo (a que já não me dava há um bom par de anos) e sentei-me na cadeira do senhor Araújo, o engraxador residente do Via Catarina, que a troco de dois euros (a que eu acrescentei 35 cêntimos de gorja) me deixou os meus City Walker a brilhar e ainda mais macios.

Enquanto mastigava devagar, matutei nos equívocos gerados pelos atrasos na transmissão de mensagens nestes tempos em que o fantástico desenvolvimento tecnológico nos convenceu erradamente de que tudo é instantâneo, desde a transmissão de um email, até às imagens de um jogo de futebol, passando pela capacidade de todo o nosso corpo perceber que já não precisa de mais comida.

Por muito micro que sejam, há sempre atrasos, sendo que um dos mais clássicos - a velocidade de propagação da luz ser superior à do som - leva a que algumas pessoas nos parecem inteligentes até as ouvirmos.

Enquanto o sr. Araújo me engraxava os sapatos, saltei desta primeira conclusão para uma outra, inspirada por alguns momentos de reflexão sobre a mensagem de Ano Novo de Cavaco.

Era bom se optassem por ficar caladas todas as pessoas que têm dificuldades em comunicar e/ou não sabem muito bem o que hão-de dizer. E tomei logo ali a minha segunda decisão de Ano Novo: pensar duas vezes antes de abrir a boca. Para evitar correntes de ar.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias


Tags: ,

Publicado por Jorge Fiel às 09:45
Link do post | Comentar | Ver comentários (45) | Adicionar aos favoritos

Segunda-feira, 2 de Janeiro de 2012
'bora aí fazer-lhes a desfeita?

 Para mim foi um alívio ter entrado em desuso aquela moda de enviar SMS a desejar Bom Natal e Feliz Ano Novo para toda a gente da lista telefónica do telemóvel. O claro declínio desta epidemia é um dos efeitos secundários benéficos da crise.

Eu nunca tive essa mania. Por uma questão de educação, respondo a todas as mensagens que contenham um elemento de personalização (o meu nome, por exemplo). Mais nada.

Há três anos, quando alimentar diariamente o blogue Lavandaria ocupava um lugar cimeiro na minha lista de prioridades, utilizei as SMS recebidas por ocasião das festas como matéria--prima para um post.

Hoje a escassez de mensagens não me permitiria esse exercício, mas apesar de achar essa mania uma maçada, sinto que devo partilhar com quem me prenda com o seu tempo e atenção a melhor SMS de Ano Novo que recebi: 'bora aí fazer-lhes a desfeita e ter um grande 2012, enviado pelo Rui Zink.

Não desfazendo na sábia homília de Ano Novo do bispo do Porto, que muito apreciei, agrada-me muito o espírito subversivo e inconformista que o Zink conseguiu sintetizar numa pequena frase de 52 caracteres (espaços incluídos).

Há muito do manguito do Zé Povinho na mensagem de Ano Novo do Rui Zink às portuguesas e portugueses (e seguramente gente de outras nacionalidades) da sua lista telefónica. Uma das coisas que nos faz agarrar à vida é a profunda satisfação de desiludir os poderosos e contrariar um triste fado prematuramente escrito.

E é nessa rebeldia que nos caracteriza que eu encontro um suplemento de esperança no futuro, de que não vamos ter saudades de 2011 e acabaremos este ano de 2012 a rirmo-nos todos, a bandeiras despregadas, da piada que define o economista como um perito que saberá amanhã explicar por que motivo aquilo que previu ontem não aconteceu hoje.

Sei que esta teoria tem o defeito de não ter dados que a confirmem, mas a verdade é que as coisas mudam. Há um par de anos, quando a Nokia - que agora balouça à beira do abismo - era uma Meca a seguir, de acordo com os nossos governantes, se alguém me viesse desafiar a investir no lançamento de uma nova cadeia de hambúrgueres eu chamava-lhe maluco, mas a h3 prospera não só em Portugal, mas também em Espanha, Brasil e Polónia.

"Estamos em tempo de crise, mas sobretudo de sair dela", avisou-nos D. Manuel Clemente, a partir do altar da Sé do Porto. E para sairmos da crise, o que mais desejo é que neste 2012 sejamos todos famintos de coisas novas, cientes da nossa ignorância, ávidos por aprender e com sede de descobrir. Para transformar este cabo das Tormentas no cabo da Boa Esperança temos de nos inspirar nos nossos antepassados que deram novos mundos a conhecer ao Mundo. É preciso ousar, correr riscos, amar, expor-se, empenhar-nos de corpo e a alma no que fazemos. 'bora aí fazer-lhes a desfeita e ter um grande 2012'!

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias


Tags:

Publicado por Jorge Fiel às 09:42
Link do post | Comentar | Ver comentários (2) | Adicionar aos favoritos

Terça-feira, 27 de Dezembro de 2011
As galinhas de Tchekov

Alexander Tchekov dedicou toda a vida à titânica e mal sucedida tentativa de ensinar as suas galinhas a entrarem sempre pela mesma porta e saírem por outra. Esta grotesca tentativa do irmão mais velho de Anton, o genial escritor russo, faz-me lembrar os não menos vãos esforços de tentarem fazer o país andar para a frente apostando todos os recursos em Lisboa.

A Grécia, o mais acabado dos exemplos da falência da macrocefalia, iniciou, a instâncias da troika, um processo de desconcentração do poder e descentralização dos recursos, deixando-nos sozinhos, como o único país não regionalizado da zona euro.

Estarmos orgulhosamente sós não preocupa os filhos das fábricas partidárias que nos desgovernam, pois infelizmente eles partilham o egocentrismo daqueles lisboetas que estão convencidos que não têm sotaque (pois tomam o deles como cânone) e a indigência de raciocínio do automobilista que segue na auto-estrada a tentar evitar os carros que lhe aparecem pela frente e que ao ouvir na rádio que há um carro a circular em contra-mão na A5 comenta para os seus botões: "Um?!? São às centenas!".

O nó do problema reside na incapacidade demonstrada pelos nossos governantes - de Soares a Passos, passando por Cavaco, Guterres, Durão, Lopes e Sócrates - em sequer verem que o pecado original está na estratégia de concentrar todos os recursos na capital, na esperança que essa locomotiva reboque o resto do país, o que nunca acontecerá porque Lisboa já há muito que está desengatada das outras carruagens do comboio português.

Quando se está no Terreiro do Paço perde-se a perspectiva do resto do país, que passa ao estatuto secundário de paisagem (ou província). O resultado é o acentuar das desigualdades internas.

Quem olha para o país de fora de Lisboa já percebeu que a chave para o desenvolvimento consiste em repensar tudo e apostar numa cobertura equilibrada do território nacional.

Por que é que Espanha tem dez cidades com mais de meio milhão de habitantes e Portugal só tem dez cidades com mais de 40 mil almas? A diferença de população entre as duas nações não é a resposta, que encontramo-la se olharmos para 1992, o ano em que Madrid foi Capital Europeia da Cultura, Barcelona teve os Jogos Olímpicos e Sevilha recebeu a Expo Universal - e nos lembrarmos que o magnífico Guggenheim, riscado por Gehry, foi para Bilbau.

Chegamos a esta crise devido a uma administração desonesta da riqueza - o alerta não é meu, mas antes do padre Manuel Morujão, o porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa.

A macrocefalia de Lisboa é um problema estrutural do país - o diagnóstico não é meu, mas sim de D. Manuel Clemente, que é bispo do Porto mas cresceu e fez-se homem em Lisboa.

O que nos vale a nós, portugueses da província e figurantes da paisagem, é que a questão política deixou de ser central, pois a incompetência dos políticos que só têm ideias com rugas gerou a vitória da economia - e o primado do económico e social.

Quando pioram, as coisas ficam mais claras.*

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias

*Este Fin foi pedido emprestado a Godard



Publicado por Jorge Fiel às 11:13
Link do post | Comentar | Ver comentários (18) | Adicionar aos favoritos

Sexta-feira, 23 de Dezembro de 2011
Um Richelieu à moda do Porto

Por trás de um grande homem como Rui Rio não há apenas uma grande mulher (a minha ex-colega e amiga Lídia) mas também outro grande homem - no caso Manuel Teixeira, o todo-poderoso chefe de gabinete do presidente da Câmara do Porto.

A todos quantos se dão à maçada de ler estas palavras, peço já desculpa por abusar da vossa paciência e deste espaço para falar deste meu ex-colega e amigo, mas parece-me que ele merece ser tirado da sombra discreta a que se remeteu e beneficiar um pouco das luzes da ribalta, pelo menos uma vez sem exemplo.

Natural de Tarouquela, Cinfães, estudou no seminário em Évora, onde debutou no jornalismo como correspondente do saudoso "O Comércio do Porto", diário em que viria a fazer carreira, chegando a director - e onde tive o prazer de o conhecer.

"Três tiros e uma mulher a menos" - que ocupa por direito um lugar no top ten dos meus títulos favoritos de primeira página - saiu da cabeça imaginativa e sintética do Manel Teixeira, um dos mais eficientes chefes de Redacção com quem trabalhei, amigo e apoiante da primeira hora de Cavaco, senhor de boas ligações aos sociais-democratas de Fafe (onde pontificava a família Marques Mendes) e apaixonado pelo Direito e o Jornalismo.

A vida dá as suas voltas, e após ter desempenhado um papel activo na privatização de "O Comércio do Porto", acabou a sua passagem pelo jornalismo na Radiopress, sem nunca concretizar o sonho de ultrapassar a circulação do "Jornal de Notícias".

Estava na TSF como administrador quando Rui o foi buscar para o seu lado, formando uma dupla que entrará seguramente para a história da cidade do Porto, não interessa agora para o caso se pelos bons ou maus motivos.

Antes de começar a alinhar estas frases, pensei em duplas famosas, que pudesse dar como exemplo para a dupla Rio/Teixeira. Afastei a hipótese Sherlock/ Watson, pois nenhum deles é tão brilhante como o detective ou tão leve de ideias como o médico.

Descartei as duplas Astérix e Obélix (nenhum deles teve a sorte de cair no caldeirão da poção mágica quando era bebé) e D. Quixote/Sancho Pança - apesar de reconhecer que mais frequentemente do que seria desejável o presidente da Câmara e o seu chefe de gabinete ficam com o pensamento enevoado e envolvem-se em investidas estéreis contra moinhos de vento imaginários.

Concluí, por fim, que a dupla mais parecida é a outrora formada pelo rei Luís XIII e o cardeal Richelieu - com Teixeira no papel do primeiro-ministro que foi o arquitecto do absolutismo francês e combateu sem tréguas os protestantes.

O Direito e o Jornalismo foram sempre as grandes paixões do Richelieu à moda do Porto, pelo que não me espanta que ele abuse do recurso a processos e se exceda a escrever para os jornais - nomeadamente para o JN (cisma que deve vir dos seus tempos de director d'"O Comércio do Porto").

Como tenho pena que o talento de Teixeira para a escrita esteja a ser desperdiçado em peças secas, vou sugerir à Direcção do nosso jornal que o convide para escrever no JN. Até já arranjei um nome para a coluna: Direito de Resposta. Seria uma bela prenda de Natal!

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias


Tags:

Publicado por Jorge Fiel às 10:05
Link do post | Comentar | Ver comentários (8) | Adicionar aos favoritos

Quinta-feira, 22 de Dezembro de 2011
De Pai Natal para Pai Natal

A nossa vida divide-se em três fases. Primeiro, acreditamos na existência do Pai Natal. Depois, já percebemos que não há lá em casa uma chaminé por onde possa descer um velho pançudo e de barbas, vestido de vermelho e com um saco às costas - mas fazemos de conta que acreditamos nessa patranha porque beneficiamos dela. Por fim, passamos a ser contribuintes líquidos para a manutenção do esquema. Estou nesta última fase há uma data de anos. Ou seja, sou o Pai Natal e sei que a esmagadora maioria das preclaras e preclaros leitores partilham essa minha condição.

Eu adoro dar. Não sou um Pai Natal forreta, ao contrário da Maria Cavaco e do Pedro Passos Coelho, que no ano passado, ainda a crise ia no adro e o pessoal tinha agasalhado o 13.º por inteiro, adoptaram medidas excessivas de contenção.

No Possolo, no Natal de 2010, os adultos (PR incluído) ficaram a seco. Só as criancinhas tiveram direito a prenda. Este miserabilismo natalício do casal Maria e Aníbal contaminou a Laura e o Pedro - após a consoada, em Massamá, só a mais nova das quatro filhas de Passos Coelho teve um presente para desembrulhar.

Vá lá que neste ano, Belém e S. Bento optaram por guardar de Conrado o prudente silêncio neste particular das prendas de Natal. Fizeram bem, porque mesmo sem sinais exagerados de pânico por parte de quem manda, estão a fechar em média cem lojas por dia, de acordo com a Confederação de Comércio e Serviços de Portugal.

Como o período do Natal representa metade da facturação anual para a maioria das lojas, não podemos ficar indiferentes ao impotente desespero de quem naufraga, fechando as portas do seu estabelecimento, com a praia à vista.

Nas voltas que dei pela Baixa, para investir a metade que sobrou do 13.º em prendas (no seu essencial livros, música, DVD e vinhos) impressionou-me o esforço de muitas lojas para se aguentarem, antecipando os saldos/reduções que tradicionalmente só faziam depois do Natal.

Vítor Bento avisou-nos de que um dos riscos da actual crise é as pessoas deixarem de gastar. "Isso seria muito mau", adverte o sério e reputado economista que em boa hora Cavaco escolheu para substituir Dias Loureiro no Conselho de Estado. Vai daí, apelo a todos os colegas pais e mães natais para que, na medida das suas possibilidades, continuem a demonstrar o afecto pelas pessoas que gostam, dando-lhes presentes.

Não desperdicem, nem exagerem. Mas, por favor, não se intimidem. Não tenham medo de consumir - com moderação. Esta vida são dois dias e o primeiro está a acabar-se. E se não falarmos no entretanto, desde já vos desejo um óptimo Natal, deixando-vos, a título de prenda, um pedacinho do nosso Eça:

"As desgraças públicas nunca impedem que os cidadãos jantem com apetite: e misérias da pátria, enquanto não são tangíveis e não se apresentam sob a forma flamejante de obuses rebentando numa cidade sitiada, não tirarão jamais o sono ao patriota".

 Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias


Tags:

Publicado por Jorge Fiel às 09:56
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

Segunda-feira, 12 de Dezembro de 2011
Nós só queremos Lisboa a arder

Há alguns anos (não muitos), com os ânimos incendiados pela vã tentativa do estado-maior benfiquista de quebrar a hegemonia portista com manobras na secretaria, esteve em voga a palavra de ordem "Nós só queremos Lisboa a arder".

A provocação não caiu no goto da generalidade dos residentes na capital, pelo que amiúde alguns lisboetas, meus amigos ou conhecidos, perguntavam-me se também eu achava bem a ideia de pegar fogo à sua cidade.

"Não. Lisboa é uma bela cidade. O que defendo é o uso de uma bomba de neutrões, de modo a preservar o magnífico património edificado". Foi esta a resposta que formatei para dar nessas ocasiões. Quando a pergunta não é séria, sinto-me desobrigado de responder a sério.

Neste novo século, trabalhei oito anos em Lisboa, uma das mais bonitas cidades do Mundo, pela qual é muito fácil uma pessoa ter uma paixão fugaz e à primeira vista.

Estou imensamente feliz por o JN me ter proporcionado voltar a viver na cidade que amo e onde nasci, mas não posso negar que, de vez em quando, ainda sinto uma pontinha de saudade de alguns pequenos prazeres que Lisboa pode oferecer, como um fim de tarde no miradouro da Graça, petiscar ao almoço uma sanduíche de rosbife e um copo de branco no terraço do Regency Chiado, ou tomar o café matinal na esplanada da Ponta do Sal, em S. Pedro do Estoril.

Quando alguém é incapaz de diferenciar se estamos a falar em sentido estrito ou figurado, geram-se situações embaraçosas e terríveis mal-entendidos. Ninguém quer mesmo Lisboa a arder. O que queremos a arder, num fogo purificador, é a governação centralista que empobrece o Norte e desgraça o país.

O modelo centralista de pôr todas as fichas em Lisboa, partilhado por todos os partidos do arco da governação, é o responsável por 2000-2010 ter sido a pior década de Portugal desde 1910-20 - anos terríveis em que vivemos uma guerra mundial, golpes de Estado e a epidemia da gripe espanhola.

Na primeira década deste século, o crescimento médio anual da nossa economia foi de 0,47%, apesar do afluxo diário médio de seis milhões de euros de Bruxelas, que valiam todos os anos 2% do PIB.

Já ultrapassado pelo Alentejo e Açores, o Norte é a região mais pobre do país, apesar de ser a que mais contribui para a riqueza nacional, com 28,3% do PIB, logo a seguir a Lisboa e Vale do Tejo, com uns 36% enganadores, já que aí está contabilizada a produção feita noutras partes do país pelas grandes companhias nacionais e multinacionais com sede na capital.

Quando leio que ao abrigo do famoso efeito de dispersão - uma vigarice inventada para desviar para Lisboa fundos comunitários - dinheiro destinado às regiões mais pobres está a ser usado pelos serviços gerais e de documentação da Universidade de Lisboa, dá-me vontade de ir para a rua gritar "Nós só queremos Lisboa a arder".

Não. Nós não queremos mesmo Lisboa a ser consumida pelas labaredas. O que queremos é dizer que estamos fartos de ser chulados e já é tempo de impedir que Portugal continue a arder em lume brando, por culpa de governantes incompetentes ou corruptos.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias



Publicado por Jorge Fiel às 12:21
Link do post | Comentar | Ver comentários (57) | Adicionar aos favoritos

Domingo, 11 de Dezembro de 2011
O Rui usa cinto e suspensórios

 O aviso de que um homem tem sempre dois motivos para aquilo que faz - um bom motivo e o verdadeiro motivo - é um dos mais importantes legados à Humanidade do falecido John Pierpoint Morgan.

Estribados neste pedacinho de ouro do fundador do célebre JP Morgan,, jornalistas e comentadores desconfiam que os políticos raramente dizem o que pensam e pensam no que dizem. Marcelo protagonizou um clássico desta trampolinice quando disse que nem que Cristo descesse à Terra seria candidato à liderança do PSD, na véspera do congresso do Europarque, em 99, que o elegeu presidente.

Embora saiba que a capacidade em aldrabar o próximo, com competência, seja um dos requisitos fundamentais para quem quer progredir na coisa pública, acredito na existência de políticos honestos e bem intencionados, - apesar de não me achar um crédulo (não acredito em OVNIs).

Peguemos, por exemplo, no caso de Rui Rio, que tem preconizado com insistência a eleição directa do presidente da Área Metropolitana do Porto e o reforço dos poderes da Junta.

O bom motivo para a defesa deste sucedâneo da Regionalização seria, de acordo com Rio, beneficiar as duas grandes concentrações urbanas do país com um governo metropolitano, mais ágil e eficaz que o central.

Mas, de acordo com cínicos analistas, o verdadeiro motivo de Rio é assegurar o seu futuro imediato (está proibido por lei de se recandidatar à Câmara do Porto) ao mesmo tempo que tenta impedir o seu arqui-rival Menezes de assumir as rédeas de uma região que tem sofrido por estar órfã de liderança.

Sei que Rio não gosta de Menezes. Mas custa-me a crer que tenha apresentado aquela proposta com o duplo e maquiavélico objectivo de arranjar um emprego para ele e tramar o seu inimigo figadal.

Sei que Rio inscreveu no Orçamento da Câmara para 2012 a dotação para pagamento dos subsídios de férias e 13º mês. Custa-me crer que a explicação que ele deu (acautelar uma eventual declaração da inconstitucionalidade do Orçamento que prevê a suspensão ou redução do pagamento desses subsídios) seja tão só o bom motivo - e que o verdadeiro motivo seja demarcar-se publicamente e uma vez mais de Passos Coelho.

Sei que devemos estar sempre de pé atrás com os políticos, mas temo que uma vez mais a desconfiança seja exagerada. O Rui é mesmo assim. Cauteloso e prudente, do tipo de usar cinto e suspensórios ao mesmo tempo.

É por isso que nunca arriscou candidatar-se à liderança do partido. É por isso mesmo que seria um óptimo reforço para a equipa de Vítor Gaspar que tem em mãos a hercúlea tarefa de baixar até 0,5% o défice orçamental.

Seria uma transferência magnífica, em que todos ganhavam. Ganhava o Porto e ganhava o país. E nem oneraria muito os cofres do Estado, porque o Rui ainda não se desfez da casa que tem em Lisboa.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias


Tags:

Publicado por Jorge Fiel às 12:17
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

Sexta-feira, 9 de Dezembro de 2011
A Cátia não liga aos sindicatos

Algures no Verão do ano passado, visitei um call center, na Infante Santo (Lisboa), e fiquei espantado. Num vasto open space, 200 pessoas falavam ao telefone, ao mesmo tempo e em 19 línguas diferentes, resolvendo problemas tão diversos como a do finlandês que não sabia mudar o pneu do seu Peugeot ou de um português que queria obter informações suplementares sobre um PPR.

Cheirava a trabalho naquela sala espaçosa, que tresandava à generosa ideia europeia (que ultimamente tem gaguejado), pois o idioma em vigor em cada grupo de estações de trabalho era assinalado por uma bandeira.

O que mais me impressionou foi saber que era inferior a mil euros o salário médio daquelas pessoas, fluentes em pelo menos uma língua estrangeira e altamente treinadas - os que atendem as chamadas para a linha verde de um banco são frequentemente chamados para dar formação ao pessoal dos balcões.

Uma questão ficou a bailar na minha cabeça enquanto esperava pelo eléctrico na 24 de Julho. Por que raio é que os largos milhares de operadores dos call center, que ganham pouco e trabalham muito em condições bem longe das ideais, ainda não constituíram um sindicato?

Não precisei de chegar ao Cais do Sodré para resolver esta intriga e achar a resposta certa a esta questão pertinente. Os operadores de call center não fundaram um sindicato pela mesma razão que nenhum esquimó compra um frigorífico ou um guineense pede ao Pai Natal um aquecedor - porque não precisam de um sindicato para nada.

A ideia de criar um sindicato também não atravessou a cabeça de gente com novas profissões, como webdesigners, djs, trabalhadores de help desk, personal trainers ou mesmo celebridades, sejam elas mais ou menos duráveis, como a Cinha ou a Cláudia Jacques, ou instantâneas e voláteis, como o Zé Maria, do primeiro Big Brother, a Cátia, da Casa dos Segredos, ou o falso Estripador de Lisboa, da dupla Felícia/Sol.

E se nos dermos ao trabalho de pesquisar nas estatísticas, confirmamos que este alheamento também se apoderou das profissões tradicionais. Um estudo do ISCTE garante que 2/3 dos trabalhadores portugueses não estão sindicalizados - e que quatro em cada cinco nunca fizeram greve.

A situação não está a melhorar. Na última década, a taxa de novos sindicalizados na CGTP caiu mais de 40%. E, de acordo com a OCDE, a percentagem de sindicalizados sobre o total da nossa mão-de-obra recua todos os anos 2,3%.

O problema não é dos trabalhadores. O mundo virou do avesso desde que os sindicatos foram inventados para proteger a classe operária dos excessos da exploração patronal, filha da Revolução Industrial.

O mundo mudou, mas os sindicatos não. Continuam a usar a mesma linguagem, discurso, atitude e formas de luta que eram boas no séc. XIX quando era mal-educado andar na rua com a cabeça descoberta (e ainda não tinham sido inventados o automóvel, a televisão e as férias pagas), mas que no séc. XXI apenas conseguem mobilizar os funcionários públicos.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias



Publicado por Jorge Fiel às 12:12
Link do post | Comentar | Ver comentários (88) | Adicionar aos favoritos

Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2011
Tristezas não pagam dívidas

Os meus amigos já o sabem há muito tempo, mas agora tenho de o dizer em voz alta para a mobília ouvir: não vou à bola com o fado e está a fazer-me um nervoso miudinho a histeria, disfarçada de consenso nacional, gerada pela gentileza da UNESCO em incluir a canção de Lisboa na lista de 90 obras-primas consideradas património oral e imaterial da Humanidade, em que figuram as festas funerárias dos indígenas mexicanos, o teatro de marionetas siciliano e os tambores da aflição, uma dança de cura popular entre os tumbuka, uma tribo do Norte do Malawi.

O fado, que bebe a alma e mergulha as raízes na indolência dos cânticos mouros, veste-se de negro para cantar o luto, o sofrimento, a dor, a desgraça, o amor perdido, o ciúme doentio, a miséria e a saudade, ou seja, é uma canção em permanente marcha atrás, uma antologia de valores que detesto e de sentimentos perniciosos que abomino.

Ao apregoar a submissão aos ditames do destino, o fado foi, de braço dado com Fátima e o futebol, uma das fundações do aparelho ideológico do Estado Novo, que reabilitou e integrou um género musical que medrou nas casas de prostituição dos bairros pobres da Mouraria e Alfama.

No tempo em que o vinho dava de comer a um milhão de portugueses, o fado era a peça fundamental da doutrina da resignação de um povo anestesiado pelo religião e que, na sua doce e alimentada ignorância, rejubilava com as vitórias internacionais da nossa selecção no hóquei em patins, modalidade a que mais ninguém ligava pevas.

Sei que o fado se renovou, com a transfusão de vozes novas como as de Camané, Aldina Duarte, Ana Moura, Mariza ou, mais recentemente, de Carminho. Sei que mesmo nos tempos da Outra Senhora o choro da guitarra acompanhou belíssimos poemas do Ary dos Santos, do David Mourão Ferreira ou do O'Neil. Não me atrevo a beliscar sequer o tremendo talento de Amália. E se me oferecerem o Fado, do Malhoa, vou logo a correr pendurá-lo na parede da sala. Mas isso não chega para me fazer gostar do fado, uma canção triste que não rima comigo.

Não gosto do fado, como também não gosto do Benfica - clube cujo fado, desde a maldição de Bella Gutman, é não ter imagens a cores dos seus êxitos europeus para mostrar aos adeptos que não os puderam viver por terem 50 anos ou menos. Mas isso não me impede de reconhecer o talento de Eusébio, elogiar a liderança de Borges Coutinho ou admirar a resistência dos seus adeptos às adversidades.

Tenho um enorme pó à fatal e indolente resignação face ao destino que é o programa de vida do fado. Em vez de nos agarrarmos ao passado e de fazermos uma festa com a bondade da UNESCO em acolher o fado numa lista étnica (uma distinção de importância equivalente à vitória do Benfica na Taça Latina), devemos olhar para o futuro. O povo está coberto de razão quando diz que tristezas não pagam dívidas. E nós temos uma data delas para pagar.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias


Tags:

Publicado por Jorge Fiel às 11:02
Link do post | Comentar | Ver comentários (52) | Adicionar aos favoritos

Domingo, 4 de Dezembro de 2011
Há males que vêm por bem

Entre férias e trabalho, passei fora do Porto a maior parte do mês de Agosto. Quando regressei a casa, a 1 de Setembro, entre a correspondência e entulho que me enchia a caixa do correio, estava o extracto do cartão Visa Universo a lembrar-me que tinha a pagar 220 euros.

Atrasei-me no pagamento. E a culpa foi só minha. Estar fora não é desculpa. Podia e devia ter telefonado para a linha Universo a saber o montante em dívida, entidade, referência e prazo de pagamento - e liquidar a dívida a tempo e horas num multibanco em Vila do Bispo.

O castigo por este pequeno delito veio no extracto de Setembro. Os cinco dias de atraso iriam custar-me 15,60 euros. Em contas de cabeça rápidas, à Guterres, concluí que, se convertidos em juros, representavam uma taxa exorbitante na casa dos 400% ao ano - ou seja, agiotagem - pelo que expus telefonicamente a situação, sugerindo duas saídas para a sua ultrapassagem.

O BPI optou pela segunda - perder-me como cliente, mas não abdicar dos 15,60 euros - pelo que, após cumprir até ao último cêntimo as minhas obrigações com o banco, entreguei o cartão Universo no balcão de Sá da Bandeira.

Nada me move contra o BPI. Antes pelo contrário. Tenho um enorme respeito e tremenda admiração pelo seu fundador, Artur Santos Silva, e acho muita graça à maneira desempoeirada como comunica o seu sucessor, Fernando Ulrich.

Apenas resumi a história deste divórcio (após ter ganho 1327,53 euros em descontos, de acordo com as contas do banco) porque ela me veio à cabeça durante o almoço que tive na sexta-feira, em Coimbra, com a Catarina Frade, cujo relato é publicado na última página deste jornal.

A propósito da divulgação de um estudo da MasterCard, revelador de uma atitude muito responsável dos consumidores portugueses, que estão a ajustar os seus hábitos e a mudar do crédito para o débito (o decréscimo acumulado do uso de cartão de crédito é de 15% nos últimos quatro anos), a Catarina contou um episódio saboroso a propósito da tese de Filipa Moreira, uma economista e professora no IPAM em Aveiro que é sua aluna de doutoramento.

Para fazer a demonstração de que as pessoas gastam mais quando em vez de pagarem com dinheiro o fazem com cartão de crédito, a Filipa pegou nos dois bilhetes que atempadamente adquirira para o concerto dos U2 em Coimbra e pô-los em leilão em duas turmas. Na que exigiu que o pagamento fosse feito em dinheiro, o lance mais alto foi de 150 euros. Na outra, em que obrigava ao pagamento com cartão de crédito, o valor máximo atingido foi de 600 euros - que coincidia com o limite de crédito da licitante.

Ao ouvir esta história, curiosa apesar de não surpreendente, dei por mim a pensar que há males que vêm por bem - e que tenho de estar grato ao BPI por, com a sua intransigência, me ter levado a deixar de usar cartão de crédito.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias


Tags:

Publicado por Jorge Fiel às 10:58
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

Sexta-feira, 25 de Novembro de 2011
Quatro dias ou meia hora?

É extraordinário o percurso de vida de Manuel Carvalho da Silva, que, nascido há 63 anos numa família de pequenos agricultores minhotos, teve a sorte de escapar à servidão da gleba devido à pressão e persistência do seu professor primário.

Poderia ter cumprido o sonho de ser engenheiro electrotécnico (até aos 13 anos não teve luz em casa) se no final do curso industrial de montador electricista não tivesse sido chamado para a tropa e despachado para a guerra colonial em Cabinda.

Poderia ter sido empresário se em vez de vir ao mundo no pós-guerra tivesse nascido uns dez anos mais tarde, quando começou a florescer a industrialização têxtil dos vales do Cávado e Ave, uma vez que ainda adolescente já evidenciava uma costela empreendedora que lhe permitiu acumular o capital para comprar os primeiros rádio e relógio ao trabalhar as terras dos vizinhos com a debulhadora pedida emprestada ao pai.

Poderia ter sido um alto dirigente do PCP, quem sabe se até mesmo secretário-geral, se tivesse optado por colocar ao serviço do partido os seus imensos talentos de organização que encantaram os gestores das filiais portuguesas das multinacionais alemãs onde trabalhou - ao ponto de o tentarem seduzir com uma carreira internacional.

Poderia até estar com assento na Conferência Episcopal Portuguesa se o pai, em vez de insistir em que o mais velho dos seus seis filhos o ajudasse na lavoura, o tivesse mandado para o seminário.

Católico de formação, temperado pela militância nas fileiras da JEC e da Juventude Agrária, Manuel fez a escolha generosa de dedicar 30 anos da sua vida à defesa dos interesses dos trabalhadores - da melhor maneira que soube e pode.

Há exactamente uma semana, entre o final na tarde e o início da noite, tive o privilégio de estar à conversa com Manuel Carvalho da Silva, a menos de dois meses dele iniciar um novo fôlego da sua vida, em que vai tirar partido do curso e doutoramento em Sociologia, feitos após ter retomado os estudos já com 45 anos.

Perguntei-lhe se ainda acreditava em Deus e na Igreja. Respondeu-me que tinha uma forma muito própria e pessoal de viver essas dimensões.

Ontem, no momento de reflexão antes de escrever esta crónica, vieram-me à cabeça estas palavras sábias do líder da CGTP.

Revi-me nelas. Na verdade, eu tenho uma forma muito própria e pessoal de viver esta dimensão da luta sindical e da greve geral.

E essa forma própria e pessoal leva-me a preferir que o patrão me peça para trabalhar mais meia hora por dia do que apenas quatro dias por semana - como se prepara para fazer António Costa (o amigo com que Carvalho da Silva tomou café durante a campanha para as últimas autárquicas) aos trabalhadores da Câmara de Lisboa. Gosto de me sentir desejado.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias



Publicado por Jorge Fiel às 10:55
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

Quarta-feira, 23 de Novembro de 2011
Facilitem-me a ida às compras

Sou uma minoria no género masculino. Gosto de ir às compras. Mas não a todas as compras. Não me convidem para experimentar roupa nos apertados gabinetes de prova das lojas. O que eu faço com muito prazer são as compras para abastecer a dispensa e o frigorífico.

Não compro tudo no mesmo sítio. As compras para o mês - do tipo arroz, esparguete, leite, manteiga, azeite, cereais, mel, etc - faço-as no Continente. O marketing da Sonae fidelizou-me com o cartão de descontos.

Depois retoco o abastecimento entre o Pingo Doce (o papel higiénico e o sumo de cenoura/laranja são muito bons), o Lidl (a relação qualidade/preço do mozarella fresco é imbatível) e o Supercor, onde a fruta é regra geral melhor (se bem que mais cara) e me perco com alguns pequenos mimos, como a azeitona kalamata ou os pimentos recheados com queijo.

Não foi preciso a Lehman Brothers abrir falência e mergulhar o mundo nas ondas de incerteza em que vamos sobrevivendo, esforçando-nos por manter a cabeça fora de água, para eu me converter à compra de marcas brancas, onde a oferta das grandes cadeias de distribuição já é muito excelente, não só em quantidade mas também em qualidade.

Agora acabo de tomar a decisão de me tornar um comprador ainda mais inteligente. Além do preço e da qualidade, a origem dos produtos vai passar a pesar muito mais no momento de escolher o que transfiro da prateleira para o carrinho.

A decisão tem efeitos imediatos. Da próxima vez, não vou poupar dois ou três cêntimos por litro se isso significar correr o risco de estar a comprar leite de vacas polacas. Vou comprar o leite da Lactogal que estiver em promoção.

Continuarei a usar a manteiga do Continente, porque, além de magnífica, é dos Açores - quem sabe se até feita com leite daquelas vacas da Graciosa que Cavaco surpreendeu, satisfeitíssimas e gulosas, a olharem para os pastos verdejantes.

Sei que vou deparar com algumas dificuldades nesta minha opção por comprar o que é nosso. O prefixo 560 não é garantia de que o produto é mesmo fabricado em Portugal (pode apenas ter sido embalado e registado cá). Há produtos - como a fruta, vegetais, o azeite, o mel - em que é obrigatória a identificação da sua origem, mas na maioria dos casos ela pode ser escondida. E há batotices, como as detectadas pela ASAE que apreendeu figos turcos, uvas italianas e amêndoas californianas disfarçadas de portuguesas.

Por isso aproveito este desabafo para pedir ao ministro Álvaro que prepare legislação no sentido de tornar obrigatória a denominação de origem nacional nos produtos de marca branca. Não só é patriótico, amigo do ambiente e facilita as minhas idas às compras (será que o iogurte grego do Continente é feito em Portugal?) como, ainda por cima, deve ajudar o grupo Jerónimo Martins a abandonar o lugar destacado que ocupa no top ten dos maiores importadores portugueses.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias



Publicado por Jorge Fiel às 10:50
Link do post | Comentar | Ver comentários (1) | Adicionar aos favoritos

Segunda-feira, 21 de Novembro de 2011
O Rui tem bom coração

Sou tentado a dar razão às pessoas que acham que o Porto não andou muito para a frente com Rui Rio na Câmara. Conheço muita gente que diz que a cidade até andou para trás, mas acredito que essa análise mais severa pode ter a ver com um erro de que todos já fomos vítimas.

Quando estamos sentados numa carruagem parada na estação e o comboio estacionado ao lado inicia a sua marcha, dá a ideia que o nosso está em marcha atrás, mas tudo isso não passa de uma ilusão de óptica.

A velocidade com que Gaia se modernizou e prosperou com Luís Filipe Menezes é a responsável pela impressão que muitos portuenses têm de que a cidade progride às arrecuas como os caranguejos ou o nosso PIB.

O Porto tem estado um bocado parado mas talvez seja exagerado dizer que andou para trás e ignorar as qualidades do presidente da Câmara. Rui Rio não é um Fontes Pereira de Melo, um Duarte Pacheco ou um Fernando Gomes. Não é o líder de que o Norte precisa, mas é seguramente um político honesto e com bom coração, tantas vezes incompreendido pelos media.

Há coisa de dez dias, por exemplo, o JN responsabilizou a Câmara pelo despejo de um menina de nove anos do Bairro do Regado, quando, na verdade que foi reposta, o delicado assunto foi tratado pela DomusSocial, a empresa municipal criada pela Câmara para gerir a habitação social - pode parecer que não, mas se calhar faz toda a diferença!

O bom coração do Rui manifestou-se quando recebeu os motoristas da STCP e declarou-lhes a sua solidariedade - ou quando juntou os trabalhadores camarários no Rivoli e lhes confidenciou que o que mais o preocupa nestes dias cinzentos é saber que eles, como os outros funcionários públicos, "estão a ser tratados de forma injusta e desigual em relação a outros sectores da sociedade".

Há gente de mente tortuosa que diz que estas palavras não lhe saem do coração e as interpreta como uma mera manobra política de colagem a Cavaco e distanciamento de Passos para se posicionar numa eventual corrida à sua sucessão.

Da maledicência à calúnia é só um pequeno passo, e há também quem veja a mão de Rui por detrás do frenesim que se apodera da Polícia Municipal que multa sem piedade todos os carros mal estacionados nas imediações do edifício JN nos dias seguintes à publicação de notícias menos favoráveis à Câmara.

Sei que o Rui tem bom coração e seria incapaz de ordenar uma vingança tão mesquinha. Era capaz de jurar que se as vítimas do excesso de zelo localizado da Polícia Municipal se associarem e lhe pedirem uma audiência, ele vai recebê-las, mostrar-se solidário e accionar um inquérito interno ao estranho facto da tolerância zero em Gonçalo Cristóvão coincidir com a publicação no JN de notícias que não lhe agradam.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias


Tags:

Publicado por Jorge Fiel às 14:40
Link do post | Comentar | Ver comentários (43) | Adicionar aos favoritos

Domingo, 20 de Novembro de 2011
Um desabafo do 128949/7

Os meus 16 meses de funcionário público foram um dos períodos mais excitantes dos 33 anos que levo a trabalhar. Apanhei o gosto pelas grandes caminhadas. Aprendi a importância da disciplina - e a perceber por que é que o sábio Calouste Gulbenkian nos recomendou beijarmos a mão que não ousamos morder. Fiquei a conhecer as novas fronteiras da minha resistência física e psicológica. E fiz bastante turismo interno, de Mafra até ao Funchal, com escalas em Beja e Santa Margarida a propósito do Orion, o equivalente militar à romagem anual do 13 Maio a Fátima.

Achei bastante divertido calcular a trajectória dos tanques e estudei com afinco as especificidades do tiro curvo e do tiro tenso, para me habilitar a concluir com sucesso a especialidade de Anticarro e Morteiro Médio, cuja existência desconhecia. Antes de ser chamado a cumprir o serviço militar obrigatório julgava que a oferta de Infantaria se esgotava entre o arranhanço dos Atiradores e a semipeluda do pessoal de Transmissões.

Atendendo ao que se dizia que custava cada granada (e apesar de ter andado um dia surdo), deu-me um grande gozo disparar o canhão sem recuo 90. Tornei-me familiar com a G3, se bem que para desfiles e paradas preferisse usar a FBP, bem mais elegante, maneirinha e leve.

Confirmei que as botas da tropa, usadas e bem engraxadas, são do mais confortável que há para andar. Não me espantei quando o verde militar e as calças com grandes bolsos laterais entraram na moda, porque sempre achei muito fashion a farda n.º 3. Finalizando o capítulo do vestuário, devo declarar que além de útil, a rede mosquiteiral ficava a matar como cachecol quando andava de camuflado.

Arrependi-me de não ter aproveitado para tirar a carta e aprender a jogar bridge, mas mesmo assim não dou os 16 meses por mal empregues. Posso ter trazido o fígado em pior estado e atrasado a vida, mas o que ganhei em desembaraço compensa bem isso.

Num momento em que os militares se promovem à má-fila e andam pelas ruas a manifestar-se, o Otelo delira sem chutar para a veia, e as Forças Armadas reivindicam mais generais (temos uns 180, dos quais 156 no activo), apesar da IGF ter concluído que já temos 54 generais excedentários, procedi a este breve inventário do meu período de funcionário público com o número mecanográfico 128 949/77 para declarar que não há mal-entendidos entre mim e o Exército.

Posto isto, declaro que não consigo descortinar uma boa razão para continuarmos a gastar 1,2 mil milhões de euros/ano nos salários de 40 mil efectivos de umas Forças Armadas que não conseguem defender-nos das reais ameaças à nossa soberania e independência nacional que são os gananciosos mercados financeiros viciados em short selling, dos credores impacientes e desconfiados e das agências de rating.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias

 


Tags:

Publicado por Jorge Fiel às 14:32
Link do post | Comentar | Ver comentários (1) | Adicionar aos favoritos

Sexta-feira, 11 de Novembro de 2011
Zé Cariocas e Peninhas

Há de tudo nas empresas. Gente competente, que se empenha em merecer o seu salário, gosta de fazer tudo bem à primeira e está sempre disponível para ajudar o colega do lado. Mas também há gente intriguista, que deixa um rasto de discórdia por onde passa, tal como o Tullius Detritus, o personagem da Zaragata, uma das mais deliciosas aventuras do Astérix e Obélix.

Há também Zés Cariocas, que não se poupam a trabalhos para fugir do trabalho. Há ainda Peninhas, muito bem intencionados - mas que definitivamente não nasceram para trabalhar.

Uma das maiores injustiças do Mundo reside no facto de haver gente empregada que detesta ou não sabe trabalhar e pessoas de-sempregadas que gostam, sabem e precisam de trabalhar. Num mundo perfeito, os primeiros davam a vaga aos segundos e toda a gente viveria feliz.

Nas redacções, há uma espécie de criminosos, muito temida por editores e directores, vulgarmente conhecidos como assassinos de notícias, que por norma escapam impunes devido à sua habilidade e à natureza do delito. Trata-se de jornalistas a quem se entrega uma informação prometedora, bem embrulhada e acompanhada dos números de telemóvel de contactos a fazer, e cometem a proeza de liquidar a notícia a sangue-frio.

No caso concreto dos Peninhas (bem intencionados mas incapazes), o meu primo Fernando, que é gestor e percebe muito mais disto do que eu, garante que a empresa lucra mais se eles estiverem quietos do que a desenvolverem esforços patéticos para se tornarem úteis.

A partir desta teoria do Fernando dei um passo e cheguei à conclusão que uma empresa ganha quando os seus Tullius Detritus, Peninhas e Zé Cariocas fazem greve. Não só não estorvam como ainda por cima deixam de receber. Vai daí, se quiserem prejudicar mesmo o patrão, o que eles têm a fazer nos dias de greve é comparecerem como habitualmente no local de trabalho.

Vem esta reflexão a propósito das greves no sector público de transportes que - perdoem-me a franqueza - me parecem uma rematada idiotice.

Quando o pessoal da STCP, Carris, Metro de Lisboa ou Transtejo faz greve, os principais prejudicados são os trabalhadores que compram o passe e dependem em exclusivo dos transportes públicos. Quando o pessoal da CP faz greve numa sexta-feira, os principais beneficiários são a Brisa e a Galp - e quem mais perde é o país e o planeta.

A greve é um direito intocável, mas está velha e perdeu a eficácia. Até para se manifestar a indignação é preciso ser criativo. Mais tarde ou mais cedo (quanto mais cedo melhor) todos teremos de perceber que não se tira sangue das pedras - e que parar de escavar é a regra número um para quem está metido num buraco.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias

 



Publicado por Jorge Fiel às 09:35
Link do post | Comentar | Ver comentários (26) | Adicionar aos favoritos

Segunda-feira, 7 de Novembro de 2011
Do chispe ao Take Another Plane

Em 1987, quando Portugal tresandava a optimismo, deu-se o fenómeno curioso de aparecerem nos bancos clientes a pedirem para comprar chispe. Ao contrário do que à primeira vista pode parecer, eles dirigiram-se ao sítio certo. A confusão não era entre talho e banco, mas sim entre chispe e CISF - as iniciais da Companhia de Investimentos e Serviços Financeiros, que era uma das estrelas ascendentes na bolsa que subia a 5% ao dia.

Este episódio teve um enorme impacto na minha carreira profissional, pois levou-me a investir na educação financeira. Se toda a gente estava a comprar furiosamente acções, os jornais teriam de satisfazer a sua sede de notícias das empresas cotadas e dos mercados.

Jamais esquecerei a paciência que João Veiga Anjos, então presidente da Bolsa do Porto, teve para me explicar a diferença entre acção e obrigação, o que é uma blue chip e o cash flow, como calcular o PER e o PCF de uma acção, bem como o mecanismo das OPV à holandesa muito em voga è época.

Desde estes tempos, em que comecei a desvendar os mistériso do mercado de capitais, sempre que me sobra dinheiro depois de cumpridas as obrigações mensais, invisto em acções o que destino a poupança de longo prazo.

Há um misto de racionalidade e emoção na selecção das empresas em que invisto. Por isso, mesmo que a TAP já estivesse privatizada e cotada em bolsa, não compraria acções desta companhia.

Chateia-me solenemente continuar a alimentar, como contribuinte, uma companhia que se diz "de bandeira" (ou seja, ao serviço dos superiores interesses do país) para reivindicar protecção do Governo e da ANA - mas que deixa a bandeira cair sempre que isso lhe interessa.

Os superiores interesses de Portugal foram sacrificados no altar da estratégia da companhia quando a TAP desertou do Porto e abandonou Faro. "Volta e meia tenho muitos empresários zangados a dizerem que a TAP não faz nada pelo Algarve. Não vale a pena. "Levar um avião para o Algarve sai muito caro. Não temos dinheiro para isso", confessou, com candura, Luiz Mor, um dos administradores brasileiros da transportadora.

A TAP não é companhia de bandeira para o Porto nem para Faro. É só para Lisboa, onde apostou todas as suas fichas e quer manter uma situação de privilégio face à crescente concorrência das low cost, que alimentam o país com turistas.

Não quero continuar a ser accionista à força de uma companhia que quis matar o aeroporto do Porto, aumentou os custos operacionais no 1º semestre (fazendo orelhas moucas ao corte de 15% decretado pelo Governo), aumentou chefes e directores em 50%, apesar de ter perdido 137 milhões de euros - e agora vem pedir-nos uma recapitalização de 400 milhões de euros.

Lamento muito que o Governo esteja atrasado na venda da TAP, adiada para 2012, apesar de estar prevista para este ano no memorando da troika. E, como nortenho, sigo conselho de quem acha que as iniciais de TAP querem dizer Take Another Plane.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias


Tags:

Publicado por Jorge Fiel às 09:26
Link do post | Comentar | Ver comentários (30) | Adicionar aos favoritos

Domingo, 6 de Novembro de 2011
Espero que Passos não engonhe

Como detesto secar-me, guardo para depois do duche as outras tarefas que medeiam entre o acordar e a saída de casa, como escovar os dentes, fazer e tomar o pequeno almoço, espreitar o email e assegurar-me que levo no meu saco de carteiro, tudo quanto suspeito que vou precisar durante o dia.

Enquanto me desembrulho das pequenas obrigações quotidianas, o roupão turco vai-se encarregando de me secar, alimentando a minha preguiça.

Atendendo à impressionante quantidade de decisões que temos de tomar durante um dia de trabalho, é inteligente apetrecharmo-nos de rotinas formatadas que nos poupam a escolhas que podemos antecipar.

Sei perfeitamente que, às vezes, quando tenho em cima da mesa um assunto importante para decidir, faço batota e tento enganar-me, sobrevalorizando escolhas menores num esforço para me convencer que sou decisor impiedoso, que não hesita, recua ou adia quando lhe surge pela frente uma opção dolorosa e prenhe em consequências.

É muito mais fácil optar por almoçar uma americana no Big Ben ou um chao min de lulas e legumes no chinês do largo Tito Fontes, do que decidir se o Jornal de Notícias deve continuar a publicar diariamente a programação de todos os cinemas das regiões Norte e Centro.

A amostra de quatro meses de Governo Passos deixa-me moderadamente satisfeito. Trata-se de gente competente e bem intencionada, empenhada em tirar o país do buraco em que nos meteram e romper com uma tradição de favorecimento de interesses privados que durava desde 2º Governo Cavaco.

Só temo que Passos esteja a engonhar, enganando-se e enganando-nos com a tomada de pequenas decisões relativamente indolores, como a fusão de freguesias, quando se impõe uma grande reforma administrativa, que logo à partida exige um processo bem mais doloroso de fusão de municípios,

No caminho de regresso a casa, chegar ao semáforo da praça da Galiza, vindo da D. Manuel II, e decidir se sigo em frente até à Rotunda ou viro para o Campo Alegre, é bem mais simples de tomar do que marcar uma reunião com a troika para explicar-lhes que precisamos de mais 25 mil milhões de euros - e talvez também de aliviar um pouco o calendário do ajustamento.

O problema é que precisamos mesmo de mais dinheiro porque as empresas públicas de transportes não se conseguem financiar lá fora e estão a usar todo o crédito que a banca pode disponibilizar, o que está a asfixiar a economia e a atirar para a falência empresas com bom produto e encomendas - mas sem fundo de maneio e privadas do crédito dos fornecedores, que passaram a exigir pagamento à cabeça.

Apesar de não ser religioso, rezo para que Passos e Gaspar tenham coragem para tomar a dificil mas inadiável decisão de pedir aos credores um reforço do pacote de resgate que impeça a morte da nossa economia.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias



Publicado por Jorge Fiel às 09:22
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

Quarta-feira, 2 de Novembro de 2011
Cavaco não sabe escolher gravatas

A coisa parece difícil - mas não vai ser fácil. Esta frase de humor marxista, tendência Groucho, assenta como uma luva ao paciente trabalho de criação do primeiro banco privado após o 25 de Abril, desenvolvido, há 30 anos, por Artur Santos Silva.

Sozinho, de pasta na mão e sem remuneração, andou dois anos a reunir a centena de accionistas privados da SPI (antecessora do BPI) que subscreverem o capital inicial de 1,5 milhões de contos - e a tentar receber luz verde governamental.

Apesar de a AD de Sá Carneiro ter ganho as legislativas, foi mais fácil convencer TMG, RAR, Sogrape, Riopele & C.ª a abrirem os cordões à bolsa do que obter o sim do ministro das Finanças, Cavaco Silva, que por duas vezes torceu o nariz ao pedido, alegando que a abertura da banca a privados era "um dossiê muito sensível". Persistente, Artur não desistiu e acabou por conseguir a autorização em 1981, assinada por João Morais Leitão, o ministro das Finanças de Balsemão.

O banqueiro é não só persistente ao ponto da teimosia, como também paciente, como fica demonstrado pelo facto de ter adiado um ano a abertura do escritório em Lisboa da SPI - durante esse tempo esteve à espera que Fernando Ulrich, a pessoa que ele desejava para dirigir a operação da sociedade na capital, se libertasse das funções de chefe de gabinete de João Salgueiro.

Para explicar esta espera, Santos Silva cita Segismundo Warburg (fundador da SG Warburg), que recrutava pessoas da mesma maneira que comprava gravatas: não as contratava por necessidade (ninguém compra uma gravata porque precisa) mas porque gostava delas. Por necessidade, compramos líquido amarelo para a louça, papel higiénico, leite ou meias pretas - não gravatas.

A escolha da pessoa certa para o lugar certo é uma das mais difíceis tarefas de um gestor, em que mesmo os mais pintados já meteram água. Que atire a primeira pedra quem nunca se enganou na avaliação das capacidades e carácter de um ser humano.

A mesma dificuldade se sente na selecção dos amigos com que mais privamos. Que atire a primeira pedra quem nunca foi desiludido por um amigo em que confiava.

Olhando para o rol de patifarias de que são suspeitos vários ex--amigos do peito e da política do PR - Oliveira e Costa (seu companheiro no Banco de Portugal, secretário de Estado e conselheiro de investimentos), Dias Loureiro (seu ex-braço direito no PSD e Governo), Isaltino Morais (seu ministro e autarca laranja modelo) e Duarte Lima (seu vice-presidente no partido e líder parlamentar) - sou forçado a concluir que ele falha na escolha das pessoas.

A alternativa à conclusão de que Cavaco não sabe escolher gravatas é muita má. Atendendo à péssima qualidade das companhias de que se rodeou, seria terrível sujeitar o presidente à prova do provérbio popular "diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és".

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias


Tags:

Publicado por Jorge Fiel às 10:23
Link do post | Comentar | Ver comentários (8) | Adicionar aos favoritos

Terça-feira, 1 de Novembro de 2011
O fim da lei do menor esforço

Após definir um país como a soma dos defeitos e qualidades dos seus cidadãos, o Almada Negreiros não resistiu a um exercício de ironia certeira e apelou : "Coragem portugueses, só faltam as qualidades".

No capítulo do trabalho, temos seguramente muitas qualidades, mas quase sempre escondidas, só se revelando quando emigramos ou somos geridos por multinacionais que nos balizam o comportamento com uma gramática rígida de regras a observar no dia a dia laboral.

Esta incapacidade para sermos naturalmente honestos e produtivos no trabalho é filha da cultura de uma nação que se habituou a viver dos recursos dos outros - e entrou em crise sempre que perdeu uma mama.

A perda do trato da Índia teve como consequência a União Ibérica. A independência do Brasil, que pôs termo ao fluxo de ouro, café e madeiras preciosas, foi a causa remota da queda da Monarquia e gerou mais de um século de turbulência.

No século XX, a incapacidade em mantermos as colónias africanas foi o fermento do desmoronar do Estado Novo, deixando-nos a vaguear até descobrirmos em Bruxelas uma nova fonte a jorrar dinheiro.

A lei do menor esforço foi a regra que nos regeu ao longo de seis séculos. Os poderosos enriqueciam roubando, um hábito lamentável que os casos Oliveira Costa, Duarte Lima e Isaltino nos fazem suspeitar que chegou aos nossos dias.

Os mais espertos das classes baixas tornaram-se comerciantes com lábia suficiente para vender aquecedores aos guineenses e frigoríficos aos esquimós, inspirando Hergé na criação do Oliveira da Figueira, o impagável personagem português do Tintin.

E os que não conseguiam sair da cepa torta, vingavam-se, com manha e ronha, fazendo o mínimo possível.

Agora, chegámos ao fim da linha. Já não vai mais ser possível viver ao abrigo da lei do menor esforço. Os poderosos corruptos têm de ir para a cadeia - e os incompetentes têm de ser varridos para o desemprego. Os empreendedores têm de subir na escala de valor, passarem a ser mais Belmiros do que Oliveiras da Figueira. E aqueles que, como eu, optaram por trabalhar por conta de outrém, em vez de arriscarem criar o seu próprio emprego, têm de ser mais produtivos para fortalecer e tornar competitivas as empresas - e a nossa economia.

A dez horas a mais por mês que vamos trabalhar, o fim da rigidez da legislação laboral, o subsídio mais baixo e de menor duração que vamos receber se formos despedidos, são o preço a pagar por termos distribuido mais riqueza do que a produzimos.

Do ponto de vista dos trabalhadores, as novas e draconianas regras significam trocar mais horas e algum dinheiro pela preservação do emprego. Do ponto de vista dos empresários, significa um trunfo mais (os ganhos de competitividade derivados baseados da flexibilidade e redução dos custos) na luta pela sobrevivência.

Os sindicatos terão de perceber que nesta curva apertada em que fomos apanhados, os interesses dos trabalhadores e dos empresários podem ser os mesmos.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias


Tags:

Publicado por Jorge Fiel às 10:16
Link do post | Comentar | Ver comentários (2) | Adicionar aos favoritos

Sábado, 29 de Outubro de 2011
Viver dentro das Jóias de Castafiore

No início da minha adolescência investia toda a mesada que o meu pai, Alfredo da Costa Fiel (senhor de uma bela caligrafia, perícia importante para a sua profissão de escriturário do STCP), me dava na compra da revista "Tintin" e dos livros de bolso da colecções RTP e da Europa-América, numa tabacaria de uma senhora cujo nome lamentavelmente esqueci, que ficava junto à esquina da Avenida de Rodrigues de Freitas (onde eu morava, ali ao lado, no 304) com o Beco do Pedregulho.

Tenho uma dívida de gratidão para com a revista "Tintin" (cuja colecção completa ainda tenho, encadernada) e estas duas colecções de bolso, que são a base da minha cultura, que teve como levedura as oito a nove horas que passava por dia, durante as férias grandes, na Biblioteca Municipal do Porto, ao Jardim de S. Lázaro, a devorar volumes encadernados do "Mundo de Aventuras", "Falcão", "Ciclone" e outras publicações distribuídas pela Agência Portuguesa de Revistas.

A já finada revista "Tintin" introduziu-me a uma data de heróis e séries que ainda admiro, leio e releio, como o Astérix, Lucky Luke, Corto Maltese, Alix e Blake e Mortimer, mas uma das suas grandes âncoras eram as histórias do Tintin propriamente dito.

Das 23 aventuras do Tintin, a minha preferida é "As Jóias de Castafiore" - muito provavelmente porque não é uma aventura, no sentido clássico do termo. Ao longo de 62 páginas, Hergé diverte-nos, pisca-nos o olho, faz-nos rir, conseguindo manter-nos suspensos do desenvolvimento de uma intriga principal (o desaparecimento das jóias) e de várias secundárias (das quais a mais suculenta é o noivado entre a cantora do Scala de Milão e o capitão Haddock) para, no final, nos surpreender ao revelar que afinal não se passou nada.

As jóias não foram roubadas. A notícia do casamento entre o rouxinol milanês e o velho lobo-do-mar não passou de um infame boato, alimentado pela surdez do professor Tournesol ("Vai à pesca?", "Não, vou à pesca!") e pela voracidade dos jornalistas paparazzi - a beleza deste detalhe é que o livro foi publicado em 1963, ainda Lady Di era uma bebé de fraldas.

""As Jóias de Castafiore" é uma aventura entre parêntesis. Afinal, não se passa nada. Tal e qual como em Portugal - que continua a ser um país entre parêntesis. Ao governo laranja sucede-se o governo rosa, ao qual se sucede o laranja, depois o rosa, depois o laranja, e assim sucessivamente. No final, não se passa nada, continua tudo na mesma, com Portugal a divergir da média comunitária - apesar da transfusão de fundos comunitários que recebemos ininterruptamente desde 1986.

O que me leva a pensar que o nó do problema não reside na cor do Governo, mas antes no modelo de desenvolvimento centralista que os partidos do arco da governação partilham e teimam em não abandonar.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias



Publicado por Jorge Fiel às 12:04
Link do post | Comentar | Ver comentários (23) | Adicionar aos favoritos

Quinta-feira, 27 de Outubro de 2011
Cimeira devia ser em Cracóvia

Para se pouparem ao desgaste psicológico do processamento dos mortos, os nazis entregavam essa tarefa mórbida a prisioneiros, que recompensavam com uma ração extra de comida, senhas para o bordel de Auschwitz ou outras pequenas regalias.

Eram judeus, apelidados sonderkommando, que passavam em revista os corpos dos judeus acabados de morrer na câmara de gás decorada com chuveiros.

Extraíam-lhes os dentes de ouro, posteriormente fundidos em barras.

Despojavam-nos de anéis, pulseiras, brincos, e procuravam com detalhe todos os orifícios do corpo onde pudessem estar dissimuladas jóias ou dinheiro.

Cortavam-lhes o cabelo, posteriormente enviado para fábricas onde era usado como matéria-prima para confeccionar, entre outras coisas, peúgas de feltro para a tripulação dos submarinos.

Depois de processados os corpos, os sonderkommando transportavam-nos para os fornos crematórios.

Esta impressionante mecânica do processo de extermínio de milhão e meio de judeus, ciganos, homossexuais e presos políticos em Auschwitz é descrita e analisada pelo britânico Laurence Rees no livro "Auschwitz: The nazis and the final solution", que comprei na livraria deste campo de concentração, nos arredores de Cracóvia.

Domingo, ao visitar uma exposição sobre o terror nazi (1939-45) e soviético (45-56), no Museu Histórico de Cracóvia, localizado no edifício que serviu de sede à Gestapo, veio-me à memória o livro de Rees e as tenebrosas imagens da exposição de bens confiscados aos judeus - pares de sapatos, malas, próteses, roupas, óculos, pincéis de barba, carrinhos e enxovais de bebé, enxovais - que foi um dos mais violentos socos no estômago que levei quando visitei Auschwitz.

Os nazis levaram a Humanidade ao ponto mais baixo da sua história. Mas a sua derrota e a reconstrução europeia do pós-guerra foram as estacas em que assentou o maior período de paz e prosperidade do Velho Continente, proporcionado pelo diálogo entre países outrora inimigos institucionalizado primeiro timidamente com a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, e depois aprofundado até ao euro.

Nesta curva da estrada em que a Europa está, é importante darmos ouvidos aos conselhos de quem tem memória e o saber de experiência feito, como Helmut Schmidt, que, de cadeira de rodas e já para além da fronteira dos 90 anos, saiu do seu retiro para avisar: "Quem considerar que a sua nação é mais importante que a nossa comum Europa está a prejudicar os mais fundamentais interesses do seu próprio país".

Se calhar não seria má ideia que a próxima cimeira europeia se realizasse em Cracóvia, após uma visita demorada dos líderes aos campos de morte de Auschwitz e Birkenau. Talvez fosse mais produtiva.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias


Tags:

Publicado por Jorge Fiel às 12:38
Link do post | Comentar | Ver comentários (4) | Adicionar aos favoritos

Segunda-feira, 10 de Outubro de 2011
Conduzir de olhos vendados

É hoje, é hoje! Há uma anedota assim, que envolve uma sondagem em que as pessoas são inquiridas sobre a frequência com que fazem sexo, e o entrevistador, intrigado com o contraste entre a resposta ("Uma vez por ano") e o ar feliz de quem a deu, ouviu a resposta "É hoje, é hoje!" quando lhe perguntou porque estava assim tão satisfeito.

É hoje que o Orçamento de 2012 é aprovado pelo Conselho de Ministros, mas ao contrário do que acontece na anedota não há motivo de satisfação. Vai haver sexo violento, mas nós vamos ser os sujeitos passivos.

Há coisas que já sabemos. Este Orçamento é fundamental. "O momento certo para estruturar de forma séria a nossa ambição do lado da despesa é o Orçamento para 2012", avisou Carlos Moedas, o todo poderoso oficial de ligação com Troika.

Sabemos que o Governo se comprometeu a fazer 2/3 da consolidação orçamental do lado da despesa e apenas 1/3 do lado da receita - e que (Vítor Gaspar explicou) até agora o essencial das medidas tem sido tomadas do lado da receita (aumento de impostos) porque estas surtem um efeito mais rápido do que aquelas.

Sabemos que vai haver cortes de 1,6 mil milhões de euros no orçamento dos ministérios sociais (810 milhões na Saúde, 600 milhões na Educação e 205 milhões na Segurança Social), que, no seu essencial, serão feitos à custa dos doentes, professores, alunos e reformados - mas não sabemos qual será o aumento das taxas moderadores nem a extensão da penalização nas pensões superiores a 1500 euros.

Sabemos que o Governo precisa de aumentar bastante as receitas do IVA (para acomodar o eventual corte na TSU, mas não só) - mas não sabemos como o vai conseguir, sendo provável que suba a taxa reduzida (6%) porque o consumo está deslocar-se dos produtos sujeitos à taxa normal de IVA (23%) para os de taxa intermédia (13%) e baixa, o que significará agravar os preços de bens básicos.

Sabemos que as fundações de um Orçamento assentam nas previsões da evolução da economia. Sabemos que "fazer previsões é como conduzir um carro de olhos vendados e seguir as instruções de quem está a olhar para a estrada pelo vidro de trás" (José Ferreira Machado, director da Nova de Lisboa, dixit). Sabemos que, por excesso de optimismo, nos últimos cinco anos o Governo falhou as previsões económicas inscritas no OE. Mas também sabemos que, ao contrário de Sócrates, Vítor Gaspar tem os pés na terra e a sua opinião tem mais peso em S. Bento do tinha a de Teixeira dos Santos.

Sabemos que a carga fiscal está nos limites do suportável - mas não sabemos se (como garantem o ex-secretário de Estado das Finanças Sérgio Vasques e o fiscalista Tiago Caiado Guerreiro)o nosso subsidio de férias e 13º mês de 2012 vão ter de ser sacrificados no altar do milagre regenerador da nação. A partir de hoje, vamos começar a ver com mais clareza como é que vai ser o nosso 2012.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias



Publicado por Jorge Fiel às 12:41
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

Quarta-feira, 5 de Outubro de 2011
A RTP faz mal à saúde

O meu consumo de televisão em directo resume-se a alguns jogos de futebol e a umas espreitadelas ao que vai passando ao longo do dia de trabalho nos canais de notícias.

Os filmes prefiro vê-los no Arrábida Shopping, que tem as melhores salas do país e onde não fazem intervalos. Mas estou cada vez mais freguês de séries, que ponho a gravar para ver nos tempos livres das minhas folgas.

Agora, enquanto espero pelas novas temporadas de "Lie to Me" e "The Body of Proof"  - desde que fez de enfermeira McMurphy (ver foto que abre este post) , na Praia da China, tenho um fraquinho pela Dana Delany -, a minha série dramática preferida é "The Good Wife", que recomendo vivamente.

Apesar de não passar muitas horas por dia em frente ao ecrã, chamou-me a atenção a notícia de um estudo de investigadores universidade de Queensland (Austrália) que concluíram que ver televisão faz mal à saúde.

Estes especialistas quantificaram os perigos de uma forma alarmante: por cada hora em frente a televisão estaríamos a sacrificar 22 minutos de esperança de vida.

Atendendo ao facto de, segundo a Marktest, cada português passar em média 3h29m40s a pastar em frente à televisão, a conjugação destas duas estatísticas seria terrível ,em termos da nossa esperança de vida, mas animadora do ponto de vista da sustentabilidade futura da Segurança Social, que assim evitaria o risco de ruptura face ao previsível crescimento exponencial do contingente de reformados.

Só não fiquei assustado por duas razões. O estudo australiano parte do princípio que o pessoal que vê muita televisão leva um estilo de vida sedentário, o que não é obrigatório. Mais. Não acredito muito nas estatísticas da Marktest, desconfiança partilhada pelos canais de televisão, anunciantes e agências de publicidade que decidiram entregar, a partir de Janeiro, o estudo das audiências à GfK, que vai usar uma metodologia nova e mais fiável.

Mas pensando melhor, conclui que mesmo vendo-a muito pouco, a RTP tem sido muito prejudicial à minha saúde.

Faz-me subir a tensão arterial saber que um administrador da RTP gasta 700 euros/mês em telemóvel, ou seja mais ou menos o salário médio mensal dos contribuintes portugueses que lhe pagam o salário.

Chateia-me saber que o salário anual médio dos trabalhadores da RTP é superior a 40 mil euros, ou seja cada um ganha em média dois mil euros limpos por mês.

Até sinto um aperto no peito ao saber que em oito anos, entre indemnizações compensatórias, dotações de capital e contribuição audovisual, a RTP já nos custou dois mil milhões de euros, dinheiro que chegava para fazer o TGV para Vigo, e ainda sobravam 500 milhões.

Dói-me na alma saber que este Governo, que prometeu privatizar a RTP, nos vai pôr a abater 520 milhões do passivo desta empresa. Sai a 52 euros por cabeça, bebés de colo incluídos.

A RTP faz-nos mal a saúde e ao bolso. Quanto mais depressa nos livrarmos dela, melhor.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias


Tags:

Publicado por Jorge Fiel às 14:59
Link do post | Comentar | Ver comentários (54) | Adicionar aos favoritos

Quarta-feira, 28 de Setembro de 2011
Um povo viciado em adrenalina

O meu pior vicio foi o tabaco. Comecei tarde, já na faculdade, mas recuperei rapidamente o atraso em nicotina, pois nos dias em que o trabalho seguia pela noite dentro cheguei a fumar três maços de SG Filtro.

Ter passado cinco dias num sítio onde era proibido o consumo de tabaco (o hospital) por causa de um problema de coração (sempre fui precoce) ajudou-me muito a deixar de fumar, em 1992.

Por medo de uma recaída, nunca mais peguei num cigarro, cigarrilha ou charuto. Curei-me do terrível vício do tabaco, mas tenho outras dependências, que classifico de menores (somos sempre muito indulgentes connosco) como ver séries de televisão, ler thrillers e policiais, comer queijos e enchidos ou enrolar o papel dos pacotes de açúcar - mania que não é tão simples de alimentar porque tomo o café sem açúcar.

Se me perguntassem, assim de repente, qual o vício de que eu gostaria de me livrar, não hesitaria em responder: a adrenalina.

Partilho com a imensa maioria dos meus compatriotas o mau hábito de deixar para amanhã o que podemos fazer hoje, em que nos viciamos ainda catraios (pagando com pingas nas cuecas o pecado de deixar para a última a ida à casa de banho) e depois transportamos pela vida fora, estudando só nas vésperas dos exames e fazendo noitadas para cumprir os prazos.

Nós, os portugueses, somos todos viciados em adrenalina. Deixamos as coisas andar alegremente até o stresse obrigar as glândulas supra-renais a bombar para a corrente sanguínea enormes quantidades de adrenalina, um doping natural que dilata a nossa performance para além do normal.

Somos um povo de viciados em adrenalina, que se agiganta em momentos de grande stresse nacional, principalmente se conduzidos por uma liderança esclarecida e mobilizadora (como na época das Descobertas) ou reunidos em torno da prossecução de um grande objectivo mobilizador - vejam-se os casos recentes da Expo 98 e do Euro 2004.

Estamos a começar a tentar contornar a mais difícil esquina da História do Portugal que encontrámos durante as nossas vidas. Para se sustentar , o país precisa de mil milhões de euros por semana. Já todos percebemos que vai haver menos rendimento para gastar e pagar dívidas, que acabou o crédito fácil e barato, que vai haver muito menos investimento público, mais desemprego com menos subsidio, que vamos ter serviços (electricidade, transportes, saúde e educação ) mais caros e impostos mais altos.

Neste dia em que Governo comemora 100 dias e a crise pôs a adrenalina a circular-nos nas veias, só nos resta acreditar que Passos Coelho vai ser capaz levar este bom povo católico e viciado em adrenalina a acreditar no milagre regenerador do grande sacrifício nacional.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias


Tags: ,

Publicado por Jorge Fiel às 14:26
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

Quinta-feira, 22 de Setembro de 2011
Confissões de um cubano

Farto dos fins de semana da recruta, cansativos e a saber a pouco, em Dezembro de 1980, quando concluí, em Mafra, o curso de oficial milicianos (especialidade de Anti-Carro e Morteiro Médio) resolvi arriscar quando me pediram para indicar os três destinos de preferência, escrevendo, por esta ordem, Porto, Funchal e Ponta Delgada.

Fui parar à Madeira. Em 1981 (a foto que abre este post é da época) , vivi em S. Martinho, no quartel do Regimento de Infantaria do Funchal, numa Madeira que, pela mão de Alberto João, estava a atingir a velocidade cruzeiro na viagem que a levaria a 2ª região mais pobre do país a chegar a ser ser a 2º mais rica ica do país.

Durante o meu ano de cubano - informo os mais distraídos que esse é termo carinhoso usado pelos madeirenses para designar os de "Lesboa" (termo genérico que abrange todo o pessoal do "Contenente") - fiz muitos disparates (os próprios da idade e mais alguns) de que me arrependo. Mas não me arrependo nada de me ter voluntariado para ir para o Funchal (com a minha nota de curso era impossível ser colocado no Porto).

Aprendi muitas coisas. A começar por curiosas expressões locais. Da primeira vez, não percebi o que queria o soldado que me pediu autorização para "ir em cima dos pés" (tem a sua lógica, pois agachamo-nos quando temos de satisfazer ao ar livre as nossas necessidades fisiológicas de carácter sólido). E confesso ter temido pela sanidade mental do primeiro madeirense que me disse ter perdido o horário como justificação para o seu atraso (o STCP de lá chama-se Horários do Funchal).

Quem flanou pelo Funchal, comeu lapas grelhadas em Porto Moniz e depois viajou pela estrada marginal da costa norte, passeou pelas levadas, fez praia em Porto Santo, subiu ao pico do Areeiro, se deliciou com uma espetada (acompanhada de milho frito e bolo do caco) no Estreito, visitou o Chão da Lagoa (sem ser no dia em que o Johnnie Walker amplifica os devaneios de Jardim), bebeu uma poncha em Câmara de Lobos, tomou um café no Reid's e desceu até ao Curral das Freiras não pode deixar de se apaixonar pela Madeira.

A Madeira é uma região maravilhosa e quem lá viveu não pode deixar de se sentir também um pouco madeirense.

Na minha qualidade de cubano com uma costela madeirense, sinto uma enorme admiração pelo brutal desenvolvimento que Alberto João conseguiu para a sua terra natal, levando a que o Funchal seja uma duas regiões portuguesas com poder de compra superior à média comunitária.

Esta admiração só aumenta a profundidade da tristeza que sinto quando vejo Jardim manchar com os seus mais recentes actos e palavras uma notável carreira de líder político regional. Quero acreditar que se trata de uma maldição relacionada com nome e origem. Ainda não há muito pouco tempo um outro madeirense com o mesmo apelido borrou um brilhante curriculum no sector financeiro ao não saber atempadamente pôr um ponto final na carreira.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias


Tags:

Publicado por Jorge Fiel às 14:19
Link do post | Comentar | Ver comentários (1) | Adicionar aos favoritos

Sábado, 17 de Setembro de 2011
O tzaziki requer paciência

Há dois pratos típicos gregos, muito saudáveis, que acho deliciosos e aprendi a confeccionar. Não estou a falar da moussaka (apesar de nada me mover contra as beringelas, antes pelo contrário) nem do souvlaki, mas sim da salada grega e do tzatziki - não confundir por favor com os iogurtes gregos do Continente, que são porreiros mas se distinguem apenas dos iogurtes normais por usarem leite gordo como matéria-prima.

A salada grega é bastante simples e rápida de fazer. A base é constituída por tomate (não muito maduro, de preferência), pepino e queijo feta (que está a aparecer no Lidl a preços bem em conta) cortados em cubos, temperados com sal e coentros qb, regados a gosto por um azeite transmontano e generosamente adicionados por azeitonas (recomendo vivamente as kalamata, disponíveis no El Corte Inglés).

Um caso bem mais complicado é o do tzatziki, bem mais exigente em mão-de-obra e tempo que a salada grega, que se põe pronta em cinco minutos.

No tzatziki, antes de ser picado, o pepino tem de ser completamente descascado e limpo das sementes. O dente de alho tem de ser ralado. E quer os iogurtes naturais quer o pepino picado devem ser deixados a escorrer durante umas três ou quatro horas, em filtro de papel ou de pano, para se libertarem do respectivos soros (ambos bebíveis, garanto-vos). Depois é só misturar as pastas de pepino e iogurte, mexer, enquanto se junta o alho, um fio de azeite e umas gotas de limão.

É preciso ter paciência para preparar iogurte grego. Também é preciso ter muita paciência para aturar os gregos e eu sei do que falo porque naquela tarde infeliz de 4 de Julho de 2004, ao minuto 57 da final do Euro, apanhei um banho de Carlsberg morna sem álcool, proveniente de um copo atirado para o ar por um grego que estava sentado alguma filas acima de mim na bancada do Estádio da Luz (nunca perdoarei esse momento ao Scolari e ao Ricardo).

Angela Merkel, Jean Claude Trichet, Christine Lagarde são alguns dos nomes que me vêm à cabeça de pessoas que sabem ainda melhor do que eu que é preciso ter uma enorme dose de paciência em armazém para aturar as idiossincrasias dos gregos, que cultivaram, durante anos a fio, a arte de esconder de toda a gente o catastrófico desequilíbrio das contas públicas - ao pé deles, Sócrates e Alberto João fazem figura de tenrinhos apendizes.

Mário Soares pode não perceber muito de números mas está cobertinho de razão quando nos avisou de que se a Grécia cair a Europa vai ao charco. Por isso, Merkel, Trichet e Lagarde & C.ia têm de ter com os gregos mais paciência do que Job. A Europa não pode deixar cair a Grécia. O que não quer dizer que não se deva ser dura com os gregos. Ao fim e ao cabo aquela ideia de os obrigar a vender umas ilhas não é nada disparatada. Quem sabe se um dia não teremos vantagem em fazer o mesmo...

 

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias


Tags:

Publicado por Jorge Fiel às 14:02
Link do post | Comentar | Ver comentários (44) | Adicionar aos favoritos

Quinta-feira, 15 de Setembro de 2011
Opte pela maçã de Alcobaça

Não sou fã de banhos de imersão. Passam-se anos sem tomar um. O meu duche matinal é rápido. Dura pouco mais de um minuto. E gosto dele mais para o frio do que para o quente. Não consumo, por isso, muita energia. Apesar disso, estou inclinado para seguir o exemplo da Susana Fonseca que, sempre que toma duche, guarda num balde a água que sai da torneira antes de ficar morna. "Sempre é uma descarga a menos que faço no autoclismo", explica a dirigente da Quercus.

O truque doméstico de meter uma garrafa vazia no depósito de água, para diminuir o desperdício na descarga do autoclismo, foi já incorporado pela indústria. A Cerâmica de Valadares produz e comercializa com sucesso uma sanita ecológica, que permite grandes poupanças de água. Não compreendo porque é que ainda não foi industrializada a ideia simples e genial de abastecer os depósitos das sanitas com as águas escoadas do lavatório.

De certo está familiarizado com o conceito de pegada ecológica e as suas assustadoras implicações. Seria impossível todos os habitantes da Terra terem um padrão de consumo igual ao nosso, pela simples razão de que os recursos naturais do planeta se esgotariam antes disso poder acontecer. Aterrador, não é?

Só há uma Terra. Os recursos são finitos. Temos de os poupar. Seria tremendamente egoísta continuarmos a comprometer irremediavelmente a qualidade de vida dos nossos filhos.

Caminhamos para a catástrofe se não mudarmos o paradigma de predação da Natureza. Há grandes decisões tomar, que infelizmente estão fora do nosso alcance, como, por exemplo, manter a Amazónia. Sabia que se a desflorestassem, em poucos anos deixaria de haver peixe, porque os oceanos são alimentados com a matéria orgânica que cai no rio e é transportada pelo Amazonas?

Mas podemos contribuir para salvar o planeta se incluirmos na nossa rotina diária pequenos hábitos como o de separar o lixo, fechar a torneira enquanto nos ensaboamos ou escovamos os dentes, não deixar o computador e os electrodomésticos em "stand by", usar lâmpadas eficientes, comprar apenas o indispensável, andar de transportes públicos e não ter preconceitos em recorrer a bens em segunda mão.

E, lembre-se, quando estiver a comprar maçãs, opte pela de Alcobaça. Não só por patriotismo, mas também por razões ambientais . Já pensou na enorme pegada ecológica, só em transporte e frio, de cada Royal Gala argentina?

Para as gerações futuras poderem beneficiar do conforto de abrirem a torneira e sair água, premirem o interruptor e fazer-se luz, temos de aprender a viver com mais frugalidade e menos sofreguidão. Quando comparamos os rankings do desenvolvimento humano com o da pegada ecológica, temos a surpresa de ver que Cuba é quem está mais próximo do ponto de equilíbrio. Surpreendente, não é?

 

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias


Tags:

Publicado por Jorge Fiel às 13:58
Link do post | Comentar | Ver comentários (1) | Adicionar aos favoritos

Segunda-feira, 12 de Setembro de 2011
Seguro não é um Gastão

Só estive cinco anos na política. Mas que anos! Tive a sorte de viver a idade da revolta num Portugal em desvairada mudança de vidas e de costumes. Eu atravessava a fronteira da adolescência (17 anos) para a maioridade (23) . O país evoluía do marcelismo (1973) para a consolidação de uma jovem democracia (1978).

Aprendi muito e para toda a vida naqueles cinco anos que militei na LCI, um grupúsculo trotskista, avô paterno do Bloco de Esquerda. Li furiosamente, habituei-me a discursar em público, aperfeiçoei a técnica de argumentação, escrevi programas e comunicados, inventei palavras de ordem, traduzi textos, organizei greves e manifestações, colei cartazes, ocupei casas, fiz pichagens, preparei reuniões, distribuí panfletos, andei à pancada e fugi da Polícia - só para citar o mais relevante :-).

Desses tempos gloriosos e emocionantes guardo não só recordações, como também métodos de trabalho e hábitos de organização. Cerca de 40 anos volvidos, a ordem de trabalhos tipo de uma reunião política - 1. Informações; 2. Análise da situação; 3. Medidas a tomar - permanece tão actual e eficaz como o velho teorema de Pitágoras.

E tenho para mim que continua a ser fundamental fazer o balanço antes de nos aventurarmos a elencar as perspectivas.

A estabilização da democracia trouxe na mochila um sistema partidário viscoso, assente em máquinas de assalto ao Poder, guarnecidas por militantes cuja preocupação n.º 1 é garantir um futuro melhor para si - e não para o país. O egoísmo substituiu a generosidade. A política passou a ser uma coisa tão animada como o cemitério do Prado do Repouso à meia-noite.

O Congresso do PS é a prova dos nove deste lamentável estado de coisas. Era legítimo esperarmos que de Braga saísse uma ideia clara do que será preciso fazer para voltarmos a prosperar quando acabar o ajustamento brutal a que estamos sujeitos.

Era legítimo esperar, mas nicles! Em três meses de debate, o melhor que o PS conseguiu apresentar, por junto e atacado, foi uma ideia interessante para reaproximar os cidadãos dos partidos (a sugestão de Assis de os simpatizantes poderem registar-se no partido e participar na escolha dos seus candidatos, como nos EUA), uma análise acertada (a inevitabilidade do federalismo, reconhecida no discurso final de Seguro) e uma notícia para as revistas cor-de-rosa: a apresentação à sociedade de Margarida, a mulher de Tozé, que se parece mais com o desafortunado Pato Donald do que com o sortudo Gastão.

É pouco. É mesmo muito pouco para um partido que não teve a coragem de se submeter a um exercício de autocrítica, fazendo o balanço antes de se arriscar a traçar as perspectivas.

Pode viver-se sem família. Pode viver-se sem amor. Pode até viver--se sem dinheiro, levando uma vidinha miserável. Mas é impossível viver sem sonhos nem esperança. Em Braga, o PS foi incapaz de nos fazer sonhar. Seguro não é o cavaleiro da esperança.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no JN

 


Tags: ,

Publicado por Jorge Fiel às 09:14
Link do post | Comentar | Ver comentários (21) | Adicionar aos favoritos

Quinta-feira, 8 de Setembro de 2011
Escola, Google e Facebook

Não podemos atribuir a um único facto a responsabilidade pelo desencadear de grandes acontecimentos. A I Guerra Mundial haveria de arranjar outro pretexto para deflagrar se a Mão Negra não tivesse assassinado o Franz Ferdinand em Sarajevo.

O curso de História não foi a minha primeira opção. Convencido de que me seria muito proveitoso conhecer os meandros do comportamento humano, inscrevi-me em Psicologia. Desisti ao fim de um ano.

A esta desistência não foi estranha a dificuldade sentida em copiar para o caderno as equações que o professor de Matemática rabiscava no quadro. Mas no momento da decisão também pesaram estar farto de passar fome em Lisboa (não havia Psicologia no Porto), as paredes e tectos das salas de aulas do ISPA estarem forradas com cartazes do MRPP, e um dos colegas com quem partilhava um apartamento na Flamenga ter provocado uma catástrofe de proporções bíblicas ao puxar o autoclismo de uma sanita entupida.

Quem estudou História ou é um curioso desta área não precisou de ver o Match Point, de Woody Allen (e a verificar a importância que o facto do anel não ter caído ao Tamisa acaba por ter no desfecho da história), para saber que a sorte existe.

Nunca fui professor porque, a meio do curso, apostei em ser jornalista. Mas não tenho a menor das dúvidas de que tive muita sorte em ter escolhido estudar História. Seria muito pior jornalista se na faculdade não tivesse aprendido a relacionar os factos políticos, económicos, sociais e culturais, a ler os sinais dos tempos e interpretar as movimentações numa comunidade.

Neste início de ano lectivo, em época de dramática contenção de custos, olhamos para a escola e não gostamos do que vemos.

Vemos que ao longo das últimas décadas o Estado gastou mais dinheiro, teve mais professores, menos alunos e mais insucesso escolar.

Os 100 mil chumbos no Básico, 17% de repetentes no Secundário e 46% que abandonam após o 12.º ano revelam um sistema doente - e dinheiro não é a solução para inverter os termos desta terrível equação.

A chave para tornar o ensino eficiente é perceber que as escolas estão a formar estudantes para profissões que ainda não existem. De acordo com o Labour Department dos EUA, as dez profissões mais procuradas no ano passado não eram conhecidas em 2004.

A escola não se pode limitar ao papel de mera transmissora de conhecimentos. Tem de ser capaz de fornecer aos alunos ferramentas e capacidades para durante a sua vida profissional resolverem problemas que nem sequer imaginamos com o auxílio de tecnologias ainda não inventadas.

Já repararam que quem acabou o curso no séc. XX não pôde usar iPad ou fazer pesquisas no Google e amigos no Facebook?

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias


Tags:

Publicado por Jorge Fiel às 17:27
Link do post | Comentar | Ver comentários (5) | Adicionar aos favoritos

Segunda-feira, 5 de Setembro de 2011
D. Quixote em Campo Maior

 

Quando andava no liceu, fui muito gozado por causa do meu apelido. Nos anos 60 e 70, era moda baptizar os cães com o meu nome de família.

No tempo em que os jecos se alimentavam dos nossos restos e a pet food ainda não entrara no vocabulário, um daqueles empreendedores de olho vivo que se perdem por terem razão antes do tempo resolveu comercializar comida enlatada para cães com a marca Fiel. Foi um inferno!

Reagi com uma mentira. Quando implicavam comigo, dizendo que tinha o nome de comida para cães, deixava-os na dúvida ao confidenciar-lhes, com o ar mais sério do mundo, que a fábrica era de um tio meu que morava em Setúbal.

Os danos nesta frente pareciam estar controlados quando, já no estertor da Primavera Marcelista, fui arrumado pela campanha televisiva da tentativa de capitalismo popular dos irmãos Silva, protagonizada por uma família portuguesa tipo e que por isso tinha acções da Torralta e um cão chamado Fiel.

Já adulto, quando tive um rafeiro a que chamava Júlio, até encorajava os meus amigos a repetirem a graçola óbvia de comentar que eu tinha nome de cão e um cão com nome de gente.

Apesar dos incómodos que involuntariamente me causaram, sempre adorei os cães (e detestei gatos), pela sua lealdade, dedicação, inteligência e capacidade de aprendizagem. Não é por acaso que escolhi um alegre e sonoro latido para toque do meu telemóvel.

Vêm estas recordações a propósito das inesperadas declarações produzidas por Passos Coelho em Campo Maior exorcizando o demónio de tumultos nas ruas à moda de Londres ou das capitais árabes.

Quando o ouvi diabolizar "os que pensam que podem incendiar as ruas e ajudar a queimar Portugal" a primeira que me veio à cabeça foi: "O homem anda a ver telejornais a mais e isso não faz bem à cabeça de ninguém - e por maioria de razão à saúde mental de um primeiro-ministro".

Depois pensei melhor e fiquei preocupado. O caso pode ser grave. Passos parece não estar a aguentar o facto do seu estado de graça durar tão pouco como o de um treinador do Sporting . Quinta à noite, na SIC Notícias, Pacheco Pereira criticou a política do martelo, enquanto na TVI 24 Marques Mendes acusava o Governo de dar um murro no estômago da classe média. Sexta, Vasco Graça Moura avisou para a desorientação e frustração do eleitorado do PSD. Sábado, no "Expresso", Ferreira Leite arrasou a política fiscal.

Agastado com a opinião de correligionários que se comportam como cães que não conhecem dono, Passos chegou a domingo (o dia da homilia de Marcelo) e disparatou, imitando as incursões de D. Quixote contra os imaginários moinhos de vento ao investir contra os que "se entusiasmam com as redes sociais e esperam trazer o tumulto para as ruas de Portugal".

O discurso de Campo Maior foi um tremendo erro político. O primeiro-ministro não percebeu que os cães só atacam quando farejam o medo na sua presa. Não compreendeu que cão que ladra não morde. E desprezou a imensa sabedoria do dito popular "os cães ladram mas a caravana passa".

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias



Publicado por Jorge Fiel às 17:21
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

Domingo, 4 de Setembro de 2011
O estranho caso da Loja Mozart

Ficamos a saber, pelo "Expresso", que os serviços públicos de espionagem, pagos por todos nós, andam a fazer concorrência desleal aos pobres dos detectives privados

Fanático por livros policiais, sempre tive uma enorme admiração pelos detectives privados. Por todo o tipo de detectives privados, desde o pioneiro Sherlock Holmes até aos clássicos Hercule Poirot e Philip Marlowe, passando pelo menos convencional Pepe Carvalho e a imbatível dupla Nero Wolfe/Archie Goodwin. Todos estes, mais uma data deles, ocupam um lugar de destaque no meu panteão privado de heróis.

Tenho para mim que ao contrário do que acontece nos outros géneros literários, em que a imensa imaginação e enorme talento dos autores raramente conseguem superar a surpreendente riqueza da vida quotidiana, no caso da literatura policial a ficção costuma ser muito mais sexy que a realidade.

Na minha geração, as miúdas sonhavam ser hospedeiras da TAP ou veterinárias e os miúdos queriam ser astronautas ou futebolistas. Apesar de lermos de um só fôlego todos os livrinhos da colecção Vampiro (com maravilhosas capas de Lima de Freitas) que nos apareciam pela frente, não me lembro de ter tropeçado em alguém que aspirasse ser detective privado.

Nunca chegaram para encher sequer 1/4 de coluna de jornal os anúncios de detectives privados a oferecerem os préstimos a uma clientela estreita, que presumo se resumia a maridos ciumentos e a mulheres convencidas de que as provas de infidelidade recolhidas renderiam, em termos de pensão de divórcio, o suficiente para darem o dinheiro como bem gasto.

A vida real dos detectives privados nunca foi fácil. Com o abuso das SMS e vídeos para o YouTube, e as inconfidências feitas no Facebook e no Twitter, a privacidade foi sacrificada no altar do progresso tecnológico - e os detectives privados passaram a ser tão procurados como as dactilógrafas.

Como se isso não bastasse, ficamos ontem a saber, pelo "Expresso", que os serviços públicos de espionagem, pagos por todos nós, andam a fazer concorrência desleal aos pobres dos detectives privados.

Por razões não explicadas (mas que não custam a adivinhar), o camarada Paulo Santos, gestor da Ongoing África, precisava de obter umas informaçõezinhas sobre o passado e os negócios do ex-marido da sua mulher. Pôs os pés ao caminho, navegando furiosamente na Internet? Não! Contratou um detective privado? Não.

Em vez disso, pediu ajuda ao irmão da Loja Mozart (que, ao contrário do que possa pensar-se, é uma estrutura da Maçonaria e não uma loja de bombons ou instrumentos musicais) que até há bem pouco tempo foi chefe da Secreta.

Como os amigos são para as ocasiões, Jorge Silva Carvalho accionou a carteira de contactos nos serviços de informação para satisfazer a curiosidade do colega, irmão e amigo.

Todas as histórias têm uma moral. É só encontrá-la. Nesta história, não é preciso ser o comissário Maigret para a descobrir.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias


Tags:

Publicado por Jorge Fiel às 17:15
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

Sexta-feira, 2 de Setembro de 2011
Temos de esquecer o bacalhau

Tenho para mim que a lata da atum é o melhor amigo do Homem - assim, com H grande, para abranger todo o catálogo do género humano, desde os homens propriamente ditos até às mulheres, passando por travestis, transexuais, transgéneros e outras restantes variantes intermédias.

Quando a fome aperta e não temos mais nada à mão, uma lata de atum e um pão (versão minimalista) ou na companhia de uma lata de feijão frade, atalham a necessidade com rapidez e a bom preço.

A seguir à conserva de atum, a melhor amiga do Homem é aquela embalagem de bocados de bacalhau que se encontra nas prateleiras de todas as cadeias de mini, super ou hipermercados.

É mais exigente que a lata de atum, quer em termos de tempo quer de mão-de-obra e qualificações, mas proporciona-nos um sem-número de alternativas gourmet.

Comercializados praticamente despidos de pele e espinhas, estes estilhaços de bacalhau, depois de demolhados, estão prontos a servir de matéria prima à confecção de uma não negligenciável variedade de deliciosos pratos de bacalhau, como pataniscas, à Brás, punheta, à Gomes de Sá, espiritual, bolinhos, com natas, etc.

Diz o povo que há mil maneiras de cozinhar bacalhau, e, que eu saiba, ainda ninguém ousou tentar demonstrar o contrário - ou provar que uma receita é melhor que outra. Todas essas mil maneiras são opções honestas e correctas. Tudo vai do gosto e dos ingredientes que temos em armazém.

Lamentavelmente não há tantas opções como as de cozinhar bacalhau quando se trata do esforço em curso para equilibrar as nossas finanças públicas, que décadas a fio de desgoverno deixaram num estado tão miserável que nos obrigaram a vergar a cabeça e estender a mão à senhora Merkel e outros poderosos deste mundo.

A receita da troika é simples - aumentar as receitas e reduzir as despesas - sobrando apenas para os nossos aprendizes de cozinheiros (Passos Coelho e Vítor Gaspar) a margem para improvisarem nos condimentos. Não têm outro remédio senão subir os impostos, mas podem escolher que impostos aumentam - e em que percentagem. Não têm outra hipótese senão reduzir a despesa, mas podem seleccionar onde cortam - e em que montante.

Mais triste é a situação das famílias, porque nestes tempos de recessão não consta do nosso leque de opções a prerrogativa de aumentar a receita que está à disposição do primeiro-ministro e do seu ministro das Finanças.

Nós só temos uma alternativa, que é cortar nas despesas e adequar o nosso estilo de vida a um rendimento decrescente. O novo normal que vem aí implica esquecer o bacalhau (reservado para dias de festa), e resignarmo-nos à lata de atum.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias


Tags:

Publicado por Jorge Fiel às 20:53
Link do post | Comentar | Ver comentários (13) | Adicionar aos favoritos

Segunda-feira, 22 de Agosto de 2011
Eram pr'aí cinco e pico

No baile da D. Ester, foram dar com o chauffeur a dançar com a criada, enquanto a D. Inês, sequiosa, não resistiu ao whisky e partiu a coluna ao dançar o twist. Como uma desgraça nunca vem só, o D. José de Vicente, que é de S. Pedro da Cova, foi parar ao hospital depois de escorregar no soalho a dançar a bossa-nova.

Os mais velhos reconhecerão nesta sucessão de episódios o mais magnífico dos megaêxitos do Conjunto António Mafra, de que eu tomei emprestada a letra.

Voltei a ouvir o "Eram pr'aí sete e pico" na sessão de Discos Pedidos, em que a combinação iPad/YouTube fez de jukebox, que animou a nossa noite de sábado no Zavial, onde há mais de 15 anos passo a última quinzena de Agosto numa pequena casa, a não mais de 300 metros da areia.

A transparência cristalina da água do mar compensa amplamente o facto dela ser bem mais fria que a das mais concorridas praias do Sotavento algarvio.

Um areal asseado e desimpedido, que nos dispensa de estender a toalha a menos de dez metros do ser humano mais próximo, ajuda--nos tolerar o vento que às vezes pode ser chato.

E de bónus, recebemos ainda o zurrar dos burros, a bênção de noites estreladas que fariam Van Gogh morder-se de inveja, o doce aroma das figueiras onde petiscamos na ida e regresso das praias, e o coro monocórdico das cigarras.

A tranquilidade deste pedaço do Algarve intocado pela Via do Infante foi perturbada pela notícia do avistamento de tubarões, que forneceu ao Zavial Via Verde para os telejornais e a capa da imprensa sensacionalista.

Eram para aí cinco e pico quando alguém viu uma barbatana no mar, a uns 300 metros do areal. Foi o tempo de um fósforo até à praia estar toda de pé, a testemunhar o rápido desaparecimento da misteriosa barbatana.

Os nadadores-salvadores aconselharam prudência aos banhistas - que nem por isso deixaram de dar os seus mergulhos - e comunicaram o ocorrido às autoridades marítimas, enquanto que na praia se debatia o formato da barbatana - era de golfinho ou de tubarão? - e se exibiam os conhecimentos aprendidos no filme que catapultou Spielberg para a fama.

Nas horas seguintes, deu-se a matéria suficiente para o ditado "quem conta um conto acrescenta um ponto" ser convertido em tese de doutoramento, e o país foi (mal) informado de que dois tubarões, com quatro metros, foram avistados junto ao areal, no Zavial, gerando o pânico generalizado dos banhistas e obrigando à evacuação da praia - um relato ainda menos rigoroso e preciso que a indicação das horas (eram pr'aí sete e pico, oito e coisa, nove e tal) dos infaustos acontecimentos do baile da D. Ester, que terminou abruptamente quando faltou a luz, gerou-se a confusão natural, e a Locas, ao ver-se nos braços do Amaral, gritou aflita: Acendam o castiçal!

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias


Tags:

Publicado por Jorge Fiel às 20:49
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

Segunda-feira, 8 de Agosto de 2011
Fazer da tristeza graça

NUNCA me agradou o acto de proibir, mas ficaria satisfeito se a Póvoa de Varzim e outras câmaras seguissem o exemplo luminoso das de Viana e Braga e proibissem a realização de touradas

A única Tourada de que gosto é a de Ary dos Santos, assim mesmo , com t grande, pois trata-se do nome da canção que, na voz de Fernando Tordo, venceu o Festival RTP da Canção de 1973: "Não importa sol ou sombra, camarotes ou barreiras, toureamos ombro a ombro, as feras".

Um dos poetas maiores da geração de O' Neill, Natália Correia, David Mourão-Ferreira e Alegre, José Carlos Ary dos Santos (1937-84) dedicou-se a biscates diversos (entregador da Sociedade Nacional de Fósforos, vendedor de máquinas de pastilhas elásticas, escriturário do Caino do Estoril) antes de estabilizar a vida como publicitário.

Foi no mesmo Festival RTP da Canção que o retirara do anonimato em 1969 (com o poema Desfolhada, cantado pela outrora portentosa voz de Simone de Oliveira), que Ary causou polémica com Tourada, um poema ousado, onde usava a terminologia tauromáquica para, com a sua ironia mordaz, fazer uma chicuelina ao lápis azul da censura, criticando o regime marcelista e passando uma mensagem de esperança na proximidade da mudança: "Com bandarilhas de esperança, afugentamos a fera , estamos na praça da Primavera".

Gosto muita da Tourada (e de muitos outros poemas de Ary) mas nunca suportei a tourada. A embirração começou ainda eu era cachopo, nos tempos da ditadura do canal único e a preto e branco da RTP, quando nove em cada dez vezes a misteriosa Reportagem do Exterior anunciada para a noite de quarta feira se revelava uma maçadora tourada, em vez do desejado jogo de futebol.

Depois, quando comecei a politizar-me, racionalizei o ódio à crueldade das corridas de touros, uma luta desigual entre homem e animal, onde os espectadores se divertem e aplaudem cavaleiros e toureiros que fazem judiarias ao bicho, espetando-lhe ferros e bandarilhas no lombo.

Com a excepção da pega, o único momento de igualdade deste triste espectáculo (apesar do touro estar cansado da lide e a perder sangue), é tudo muito mau, até a idiosincrasia portuguesa de proibir o touro de ser morto na arena - uma rematada hipocrisia já que o animal é abatido logo após a corrida.

É muito nosso este tique d e adorar comer frango assado, massa chinesa com galinha ou caril de frango, nas não suportar sequer presenciar o "horrível" acto de cortar o pescoço à galinha - "que falta de gosto!".

Nunca me agradou o acto de proibir, mas ficaria satisfeito se a Póvoa de Varzim e outras câmaras seguissem o exemplo luminoso das de Braga e Viana do Castelo e proibissem a realização de touradas.

Nesta esquina da vida em que fomos apanhados, devemos inspirar-nos na única Tourada de que gosto, e, como nos aconselha Ary, "pegar o mundo pelos cornos da desgraça - e fazer da tristeza graça".

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias


Tags:

Publicado por Jorge Fiel às 20:42
Link do post | Comentar | Ver comentários (1) | Adicionar aos favoritos

Sexta-feira, 5 de Agosto de 2011
Sou filho único, talvez um pouco mimado

Modest Petrovich Mussorgsky

 

Sou filho único. Sei que os filhos únicos têm a fama de ser mimados - e dou de barato ter recebido o proveito correspondente a essa má fama.

Não ter de partilhar a atenção dos pais tanto pode ser bom como pode ser mau. Depende. Todos os filhos sabem que os pais podem ser muito chatos. Regra geral, quando olham para nós lembram-se sempre do tempo em que nos mudaram as fraldas ou em que nós éramos adolescentes rebeldes e inconscientes, com o cabelo pelos ombros.

Deriva da condição de pai (ou mãe) ter uma enorme dificuldade em actualizar a imagem dos filhos. Isso só mudará quando for possível implantar no cérebro humano um botão de refresh.

Na infância e alta adolescência, lamentei ser filho único à míngua de alguém lá em casa com quem brincar. Na baixa adolescência, lamentei não ter uma irmã que me apresentasse umas colegas e amigas. Depois racionalizei. Constatei que a maioria dos irmãos se dão mal uns com outros, dando razão ao pedacinho de sabedoria popular que nos recorda que os amigos se escolhem - os irmãos não.

Para compensar o facto de não ter irmãos, apostei nos amigos e fiquei satisfeito com essa opção. Estou 100% de acordo com a tese defendida por Sérgio Godinho numa das mais bonitas das suas canções: "Hoje fiz uma amigo e coisa mais preciosa no mundo não há".

Sucede que há gente para quem não chega ter amigos e por isso resolvem adoptar irmãos, organizando-se em lojas, que, presumo, são um sucedâneo das famílias tradicionais.

Como sou um fã de histórias de espionagem e thrillers (adoro Le Carré, Daniel Silva e Martin Cruz Smith), mal vi a manchete do último "Expresso" - Governo prepara razia nas secretas - não descansei enquanto não acabei de ler toda essa matéria.

Fui informado que os principais protagonistas desta intriga de Verãopertencem àquela categoria de homens que não se contentam em ter amigos - querem ter irmãos. Fiquei, por exemplo, a saber que Nuno Vasconcelos (o enfant terrrible dos media, e não só...), e Jorge Silva Carvalho (o mais público e polémico de todos os nossos agentes secretos) além de trabalharem juntos na Ongoing também são irmãos adoptivos na loja Mozart da Grande Loja Regular de Portugal, ramo maçónico a que também pertence João Paulo Alfaro, outro ex-espião que consta da folha de salários da proprietária do "Diário Económico".

Não precisei de ouvir o António Variações ("Porque eu só estou bem aonde eu não estou"), para ser íntimo da insatisfação humana, mas continuo a achar que para navegar nesta vida bastam-me amigos. Posso continuar a ser filho único. Nao é indispensável andar por aí a adoptar irmãos. Mas para me divertir sou capaz de baptizar cada núcleo de amigos. A um deles vou chamar-lhe Círculo Mussorgski. Sou doido pela peça "Uma noite no Monte Calvo"

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias



Publicado por Jorge Fiel às 11:16
Link do post | Comentar | Ver comentários (115) | Adicionar aos favoritos

Quarta-feira, 3 de Agosto de 2011
Não preciso de nascer duas vezes

Experiências com ratos demonstram que é possível estar acordado e ter o cérebro parcialmente a dormir. Essa é a explicação mais bondosa para o facto de o governador do Banco de Portugal ter demorado sete anos a perceber que algo de muito errado e ilegal se passava no BPN.

Podem aventar-se outras explicações para o facto de Vítor Constâncio ter ignorado as reservas que os auditores da Deloitte levantavam às contas do banco e os alertas constantes do trabalho publicado em 2001 na capa da "Exame", denunciando irregularidades e levantando bem fundamentadas dúvidas sobre a gestão de Oliveira e Costa.

Falar na desadequada graduação das lentes dos óculos de Constâncio pode ser uma piada de gosto duvidoso. Considerar que se tratou de uma letal combinação de negligência e incompetência é uma hipótese mais plausível, mas também muito dolorosa, pois ele não só não está arrolado como cúmplice involuntário desta gigantesca burla como, ainda por cima, acabou recompensado com uma vice-presidência do Banco Central Europeu.

Enquanto Portugal dormia sossegado, na doce ignorância, uma data de gente conhecida arruinava o BPN, como está documentado nos 70 volumes e 700 apensos que constituem o processo legal de uma catástrofe financeira, que apesar de ainda não ter conhecido o seu epílogo já nos custou, grosso modo, o equivalente a um 13.º mês para todos os contribuintes.

Da longa lista dos beneficiários da catástrofe consta o clássico Vale e Azevedo, que urdiu um ardiloso esquema para sacar dois milhões de euros ao BPN.

Dias Loureiro não poderá devolver um dólar sequer dos 71 milhões USD que gastou a comprar duas tecnológicas em Porto Rico (que faliram logo de seguida...) porque não tem nada em seu nome, nem mesmo o famoso taco de golfe que mandou fazer no Japão e ele garante ser o melhor do Mundo.

Duarte Lima, outro nome do Gotha cavaquista, comprou uma off-shore ao BPN e sacou um empréstimo de dois milhões de euros ao Insular, o banco fantasma de Cabo Verde do grupo.

Cavaco e a sua filha Patrícia lucraram, em menos de dois anos, 375 mil euros (mais ou menos o que ganha numa vida um português médio), num negócio com acções da SLN (a holding que controlava o BPN), vertiginosamente valorizadas em 140%.

Tenho a certeza de que Cavaco e Vale e Azevedo não são madeira da mesma árvore. Sei que o PR deve estar arrependido da amizade e protecção que deu a Dias Loureiro e Duarte Lima. E acredito que se soubesse o que sabe hoje não aceitaria o negócio de favor que lhe foi proporcionado pelo seu ex-secretário de Estado dos Assuntos Fiscais.

Mas estamos a viver aqueles tempos em que "já não é possível dizer mais, mas também não é possível ficar calado" (cito Manuel António Pina). Por isso declaro que não sinto a necessidade de nascer duas vezes para ser tão honesto como Cavaco.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias

 


Tags: ,

Publicado por Jorge Fiel às 11:11
Link do post | Comentar | Ver comentários (3) | Adicionar aos favoritos

Segunda-feira, 1 de Agosto de 2011
A falta de sorte de Balsemão

Outubro de 1982. Chamado de urgência a S. Bento, o ministro dos Assuntos Parlamentares, Marcelo Rebelo de Sousa, entra no seu passo apressado pelo gabinete do primeiro-ministro e dirige-se-lhe tratando-o pelo primeiro nome.

"Francisco, não. Faça o favor de me tratar por senhor primeiro-ministro", corrige um Balsemão possesso com mais uma patifaria do seu protegido, um jovem que adorava pregar partidas e exibir em público a sua imensa genialidade - em simultâneo, escrevia um artigo e ditava outro pelo telefone.

Marcelo acompanhara o primeiro-ministro na fundação do "Expresso" e do PSD. Quando a morte trágica de Sá Carneiro o atirou para a chefia do Governo, Balsemão entregou-lhe o "Expresso", que se revelou um feroz crítico do Governo constitucional liderado pelo dono, que foi dado como estando "lelé da cuca" na secção Gente.

Talvez para afastar Marcelo do "Expresso", talvez por querer aproveitar o seu talento nas negociações parlamentares, talvez pelas duas coisas, Balsemão chamou-o ao Governo.

Não demorou a arrepender-se. Na semana das autárquicas de 1982, decisivas para o futuro do moribundo Governo, Marcelo comunicou ao seu amigo Francisco que iria demitir-se do Governo.

O primeiro-ministro não gostou de ver o protegido abandonar um barco que se estava a afundar, mas não pode fazer mais do que pedir-lhe para manter a saída em segredo até ao dia seguinte às eleições. Marcelo jurou que manteria a boca calada, para não fragilizar o Governo. Dois dias depois a notícia estava escarrapachada na capa do DN.

Balsemão chamou-o logo a S. Bento, impôs-lhe o tratamento formal e com ele de pé à sua frente ("Quem é que o autorizou a sentar-se?", perguntou-lhe rispidamente), deu-lhe um violento raspanete. Marcelo defendeu-se argumentando que o considerava como um pai, e respondeu com uma graçola ("É o Édipo") à pergunta: "Se me considera como um pai como é que foi capaz de fazer-me uma canalhice destas?"

Vem este episódio a propósito da guerra das secretas, que opõe dois grupos de Comunicação Social (a Impresa, de Balsemão, e a Ongoing, de Nuno Vasconcellos), e que apanhou o Governo Passos Coelho no seu fogo cruzado - e de que Bairrão foi um dano colateral.

É curioso notar que Nuno Vasconcellos é filho de Luís Vasconcellos, o eterno lugar-tenente de Balsemão, e que o crescimento da Heidrick & Struggles (a empresa que criou com o seu amigo Rafa Mora) foi diligentemente regada com fartas encomendas pelo grupo liderado pelo melhor amigo e sócio do seu pai.

A sorte existe, como Woody Allen magistralmente demonstrou em "Match Point" (num jogo de ténis, quando a bola bate na rede, tanto pode cair para o outro lado do court, e nós ganhamos, como para o nosso - e perdemos). E obviamente Francisco Balsemão não tem sorte nenhuma a escolher os seus protegidos.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias

 


Tags:

Publicado por Jorge Fiel às 11:09
Link do post | Comentar | Ver comentários (2) | Adicionar aos favoritos

Domingo, 31 de Julho de 2011
Não mexas que é pior

O caso aconteceu logo na noite de estreia da peça levada à cena por um grupo de teatro amador dos arredores do Porto. A raiz do problema esteve no improviso achado para remediar a ausência no elenco de um actor com idade suficiente para desempenhar o papel de avô da protagonista - uma jovem viçosa e muito bem apessoada.

Como quem não tem cão caça com gato, o encenador tratou de arranjar uma barba postiça e uma almofada para disfarçar no papel de avô um rapaz tão moço quanto a actriz principal.

Sucede que, na estrita observância do argumento, a atraente actriz principal passava quase todo o segundo acto aconchegada no colo do avô.

Ora um homem não é de ferro. E a cabeça do falso avô - na realidade um jovem naquela terrível idade em que as hormonas não param de saltar - mostrou-se absolutamente incapaz de controlar a manifestação física da febril excitação sexual provocada pelo contínuo e voluptuoso esfreganço na sua fábrica do quente e aconchegado traseiro da rapariga.

Quando ela saiu do seu colo e ele também teve de se levantar, foi claro para todos os espectadores que havia mais uma coisa de pé no palco para além dos dois actores.

"Não mexas que é pior", foi a recomendação gritada da plateia por um espectador, mal viu o atrapalhado rapaz a descompor a almofada que fazia de barriga ao meter a mão por dentro das calças, na vã tentativa de disfarçar o volume que despertava a risota geral.

O episódio que acabo de contar é uma anedota romanceada. Desconheço se tem ou não um fundo verídico. Mas o conselho que serve de moral da história é bom e pode ser aplicado a diferentes esferas da nossa actividade.

Devemos sempre pensar duas vezes antes de mexer, porque boa parte dos nossos actos adquirem um estado de irreversibilidade. É impossível voltar a meter dentro do tubo a pasta de dentes a mais que saltou para fora por termos pressionado com força excessiva. Quantas vezes não nos arrependemos amargamente depois de clicar na tecla enviar ou publicar, quando o destino do email que escrevemos ou do comentário que fizemos no Facebook já deixou de estar nas nossas mãos.

A decisão de Passos Coelho de iniciar uma cruzada para dotar de paredes de vidro a administração pública, ao publicitar no site do Governo os nomes, idades e vencimentos de todos os nomeados, foi manchada pela trapalhada que envolveu a quantidade de motoristas ao serviço do gabinete do primeiro-ministro - que começaram por ser 14, diminuindo depois para 11 - e a desculpa esfarrapada fornecida, que a culpa foi de Sócrates.... Às vezes, o melhor é mesmo não mexer, como aconselhou o atento espectador da anedota.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias

 



Publicado por Jorge Fiel às 11:05
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

Sexta-feira, 29 de Julho de 2011
A bonita caligrafia do meu pai

NA GERAÇÃO do meu pai era usual passar a vida com a mesma profissão e emprego. Na minha geração ainda é viável ter uma única profissão mas a trabalhar em diferentes empresas.

O meu pai, Alfredo da Costa Fiel, tinha uma caligrafia muito bonita e caprichava nela. Tratava-se de brio profissional, pois era escriturário da Secção de Pessoal do STCP.

Durante toda a vida registou com a sua letra desenhada, em livros volumosos, todas as ocorrências - faltas, atrasos, participações, folgas e férias - com motoristas, cobradores e inspectores e demais trabalhadores da empresa.

Foi para escriturário por ser cábula. Como estava a demorar mais tempo que o razoável a concluir o secundário, o meu avô, Jaime da Ressurreição Fiel, inspector do STCP, pô-lo a trabalhar, arranjando-lhe emprego na sua empresa - onde sabia a quem devia meter uma cunha.

O meu pai teve apenas uma profissão (escriturário) e um patrão (o STCP) desde que deixou o Colégio Almeida Garrett até, poucos anos após 25 de Abril, sido reformado antecipadamente, vítima pela massificação das máquinas de escrever electrónicas, que tornaram tecnologicamente obsoleta a sua bonita e bem desenhada caligrafia.

Na geração dele, uma pessoa atravessava a vida munido de uma única profissão e trabalhando numa única empresa.

Na minha geração já não está a ser assim. Entusiasmado com a perspectiva de conhecer gente variada e de viajar muito e à borla, apostei em ser jornalista ainda antes de acabar o curso.

Como não sou daquele tipo de pessoas que olha para os dois lados antes de atravessar uma rua de sentido único, estou em crer que vou conseguir chegar ao fim da minha vida de trabalho desempenhando uma única profissão, a de jornalista.

Mas ao contrário do que acontecia na geração do meu pai, na minha geração é impossível uma pessoa manter-se no mesmo emprego durante toda a vida.

Ao longo dos 32 anos que levo como jornalista, já trabalhei em nove empresas (na foto que encima este post estava em 1982 no Comércio do Porto) , com os mais variados vínculos laborais, já estive contratado a prazo, já fui biscateiro, escrevi notícias, histórias e crónicas, em diários semanários e revistas, sobre quase tudo, desde o desporto até economia, passando pela política e casos do dia.

Na geração do meu pai era usual passar a vida com a mesma profissão e emprego. Na minha geração ainda é viável ter uma única profissão mas a trabalhar em diferentes empresas. Na geração dos nossos filhos será impensável manter-se no mercado de trabalho com a mesma profissão durante toda a vida.

Teimar em recusar uma flexibilização da legislação laboral que facilite a contratação e o despedimento é ignorar os sinais enviados por um mundo em louca aceleração, em que as dez profissões mais procuradas nos EUA não existiam em 2004 - e em que as escolas estão a preparar estudantes para empregos e profissões que ainda não foram criados, em que usarão tecnologias que ainda não foram inventadas, para resolver problemas ainda não equacionados.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias


Tags:

Publicado por Jorge Fiel às 11:01
Link do post | Comentar | Ver comentários (33) | Adicionar aos favoritos

Quinta-feira, 28 de Julho de 2011
É preciso parar de construir

A CONSTRUÇÃO na periferia de estradas, escolas, hospitais e centros comerciais fez com que as duas mais importantes áreas metropolitanas do país passassem a ser aglomerados policêntricos

As 350 mil casas que estão à venda demorariam três anos a escoar se, no entretanto, as imobiliárias não continuassem a encharcar o mercado com mais oferta (a fileira da construção tem uma velocidade de travagem em tudo idêntica à dos superpetroleiros) - e se o ritmo das vendas se mantivesse igual ao de 2010, o que é altamente improvável, pois, para ressuscitar o arrendamento, a troika impôs medidas que penalizam a propriedade e a banca passou da fase em que andava atrás de nós para nos emprestar dinheiro para a de andar atrás do nosso dinheiro.

Não é preciso ser um Einstein para perceber que já terminou o tempo em que as áreas metropolitanas do Porto e Lisboa cresceram anarquicamente como manchas de azeite, fazendo a fortuna de empreiteiros habilidosos e o upgrade de patos-bravos. Agora é preciso parar de construir e passar a reabilitar.

Um país com a dívida soberana classificada como lixo não se pode dar ao luxo de ter um milhão de habitações a precisar de obras e 100 mil milhões de euros empatados em casas vazias. No coração do Porto há 15 mil edifícios a cair. Do total de 55 350 edifícios existentes em Lisboa, 4618 (8%) estão abandonados e 7700 ameaçam ruir.

Face a esta situação é impossível não achar estranho que, apesar do programa de obras no Parque Escolar promovido pelo Governo Sócrates, a reabilitação pese menos de 7% no nosso mercado construção, quando em Espanha vale 29% e a média europeia é de 36%. Requalificar, reordenar e reabilitar são as soluções para desatar o nó complexo que nos impede de progredir.

Após o 25 de Abril, as cidades portuguesas cresceram de uma forma caótica e desordenada. O congelamento das rendas, decretado no Estado Novo e mantido pela jovem democracia, teve o efeito perverso de ser o pai de uma explosão desordenada e difusa das periferias de Lisboa e Porto.

Favorecidas pelo forte aumento do poder de compra, democratização do automóvel e multiplicação de vias rápidas e auto-estradas, as periferias das grandes cidades esvaziaram os centros urbanos tradicionais, assumindo o papel de poderoso imã que atraiu dezenas de milhares de jovens casais.

A construção na periferia de estradas, escolas, hospitais e centros comerciais, para servir as populações em movimento, fez com que as duas mais importantes áreas metropolitanas portuguesas passassem a ser aglomerados urbanos policêntricos.

A desertificação dos centros cívicos e os movimentos centrífugos dos últimos 30 anos têm de ser contrariados por um esforço de ressurgimento dos centros históricos, criando condições para que eles voltem a ser habitados e tenham uma vida activa para além das horas de expediente dos serviços.

Este esforço centrípeto é essencial para manter o Porto como um destino «trendy» para os turistas estrangeiros e para que seja restabelecido o equilíbrio ecológico na malha urbana.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias

 



Publicado por Jorge Fiel às 11:14
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

Segunda-feira, 25 de Julho de 2011
Tenho uma namorada nova

Estou careca de saber que a Isabel não vai levar nada a bem este título. Para amaciar o meu regresso a casa (hoje, como estou de fecho, vai ser tarde, já na terça-feira, o que acaba por ser uma vantagem, pode ser que ela já esteja a dormir), prudentemente resolvi substituir a minha foto com 54 anos por uma outra do tempo em que estava a deixar de ser analfabeto na escola da Junta do Bonfim, no Campo 24 de Agosto.

Nesta Europa da crise e da abundância, o único factor que se está a tornar escasso é a atenção humana. Está tudo estudado. No máximo, as pessoas demoram 15 a 20 minutos por dia a ler o seu jornal. Para ter uma boa hipótese de ser lido por um número razoável (5%?) do milhão de leitores JN, achei melhor apetrechar-me com um título sexy e uma fotografia apelativa. A vida é mesmo assim. Para sobreviver nesta selva da palavra escrita, um homem tem de dar nas vistas - não é por os alegados autores serem Saramagos ou Lobo Antunes que os livros assinados por figuras televisivas entram directo no top de vendas FNAC e lá se eternizam...

Ou seja, não é verdade que tenha uma namorada nova, mas estou a viver uma sensação que é prima remota desse magnífico estado de transporte.

E o objecto deste enamoramento não é a Scarlett Johansson mas antes o Governo Passos Coelho, que, salvaguardadas as devidas distâncias, é tão novo nas suas quase sete semanas de vida como era a actual actriz fetiche de Woody Allen quando me devastou no imperdível Lost in Translation.

Ao tomar conhecimento dos tiques, toques e idiossincrasias dos novos governantes sinto-me um adolescente a descobrir os cheiros, manias, virtudes e defeitos de uma namorada nova.

Estou convencido de que é genuíno o tique Massamá/muamba do carácter frugal de um primeiro-ministro casado com uma fisioterapeuta guineense de anca larga que não se importa de desmentir o "Povo Livre" no lamentável episódio do "desvio colossal" e faz questão em viajar em económica nos voos europeus.

Não consigo disfarçar a minha admiração por um ministro da Economia que teima em visitar empresas, pede para lhe chamarem Álvaro e não renega as opiniões desassombradas que deixou escritas em artigos, livros e blogues.

Aprecio muito o sentido de humor Monty Python de um ministro das Finanças que expressa pausadamente um raciocínio fluído - e usa sempre fatos dois números acima do seu e umas olheiras que só podem ser um certificado de stakhanovismo (na dúvida sobre o significado desta expressão, faça o favor de consultar o Google).

Nunca pediria namoro a Assunção Cristas, mas estou em crer que ela deve ser uma óptima dona de casa, uma rapariga poupada, adequada aos novos e rigorosos tempos em que todos tentamos sobreviver.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias



Publicado por Jorge Fiel às 11:09
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

Quinta-feira, 21 de Julho de 2011
O fato de treino de Belmiro

Terá Manuel Braga da Cruz dimensionado que com o seu dress code afastaria da Católica Mark Zuckerberger, pois o genial inventor do Facebook não dispensava os chinelos de piscina?

A minha consideração pelo engenheiro Belmiro já era elevada, mas subiu uma data de pontos naquela tarde de um sábado de Verão, em 1990, no lanche que se seguiu a uma partida-exibição de Boris Becker numa quadra de ténis improvisada no Estádio do Bessa.

A organização era do falecido Banco Fonsecas & Burnay, à época presidido por Pedro Rebelo de Sousa, que tratou de juntar no evento a fina flor da sociedade e finança de Lisboa e do Porto.

Já não me recordo se o convite incluía ou não dress code, mas pelo sim, pelo não, optei por fardar-me com um blazer, na observância da regra número 1 da minha política de indumentária que se resume numa palavra (camuflagem) e consiste em usar roupa que não chame a atenção.

A opção pelo blazer foi acertadíssima. Os convidados do Rebelo de Sousa mais novo trajavam todos o casual semichique, do estilo: casaco azul, camisa às riscas ou pólo (preferencialmente Lacoste ou Ralph Lauren), calças de algodão (na altura as vermelhas estavam muito na moda) e mocassins ou sapatos de vela.

Apesar do seu colorido fato de treino ser era o único ruído naquela paisagem homogénea, Belmiro aguentou firme e até ao fim a função social lanche/beberete, de copo na mão e ao lado da doutora Margarida, numa inequívoca demonstração de atitude - não consigo arranjar outra palavra que reúna o amor-próprio, ego, confiança e segurança que exalam deste comportamento.

Confesso a minha cobardia. Se chegasse de jeans, camisa de fralda de fora e crocs a uma sala cheia de gente de fato e gravata, eu engrenava logo a marcha-atrás e fugia do local a sete pés.

Para não arranhar a ideia bastante lisonjeira que tenho de mim próprio, convenci-me de que esta atitude (era precisamente por a mesma palavra poder significar coisas diferentes que Barthes qualificou a linguagem como fascista) de procurar sempre confundir-me com a paisagem é a mais adequada à minha condição de jornalista - que por definição deve ser um observador e não o centro das atenções.

Os códigos de vestuário estão cada vez menos rígidos e quase toda a gente já percebeu que também nesta matéria é preciso afrouxar o nó da gravata - no sentido figurado mas também literal.

Menos regras, mais flexibilidade e muito bom senso devem ser o alfa e o ómega da nossa actuação no século XXI.

Ao desaconselhar os alunos de frequentarem as aulas de calções e havaianas, a Universidade Católica está a revelar-nos que ficou presa no tempo, algures em meados do século XX. Terá Manuel Braga da Cruz dimensionado que com o seu dress code teria afastado da Católica Mark Zuckerberger, o genial inventor do Facebook, que não dispensava uns chinelos de piscina.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias



Publicado por Jorge Fiel às 11:05
Link do post | Comentar | Ver comentários (2) | Adicionar aos favoritos

Segunda-feira, 18 de Julho de 2011
O maravilhoso mundo dos porcos

“Qual é o nome deste animal?”, perguntou, espantado, o explorador James Cook ao ver um animal a deslocar-se aos saltos. “Kangooroo”, respondeu-lhe o nativo australiano, o que no seu dialecto queria dizer “não compreendo”. Foi deste equívoco linguístico que nasceu o nome comum desta espécie simpática.

Ao invés do canguru, o porco e o burro não tiverem sorte nenhuma com o baptismo, o que tem marcado  muito negativamente a existência destas duas classes de mamíferos pelas quais nutro uma enorme admiração.

Sei que o carinho que me inspiram burros e porcos se deve em boa parte ao complexo de Robin Hood que me habita desde pequenino e levou a que na infância sonhasse ser veterinário e na adolescência devorasse o essencial das obras de Marx (com excepção do inabordável Capital, o que me obrigou a aprender em vulgatas as bases económicas da teoria económica marxista), Lenine e Trotsky, para ficar apetrechado a integrar a vanguarda da revolução que poria termo às injustiças e desigualdades – e construir um mundo melhor.

Se eu e os revolucionários da minha geração não tivéssemos falhado estrondosamente esta tarefa, estou seriamente convencido que nesse mundo melhor se procederia a um rebranding dos burros, rebaptizando-os com um nome que fizesse justiça à sua imensa capacidade de trabalho e humildade, e dos porcos – relevando o papel absolutamente fundamental que eles têm nossas vidas.

A ternura que os porcos me inspiram, leva-me a acompanhar os desenvolvimentos da investigação científica sobre estes animais que constituem a matéria de um sem número de divinais iguarias, como o leitão assado, presunto, rojões, etc.

O hábito dos porcos se rebolarem na lama era explicado pela necessidade de manterem a pele fresca, pois não têm glândulas sudoríparas. Ora um estudo de um cientista holandês, publicado no Applied Animal Behavior Science, lança uma nova luz sobre a matéria ao garantir que os porcos se rebolam na lama para serem mais sexy (tal como as mulheres se maquilham ou os homens se perfumam) e assim atraírem os parceiros para a reprodução.

Na semana passada, cientistas sul-coreanos concluíram com sucesso a modificação genética de um porco de modo a aumentar as probabilidades de usar os seus órgãos em transplantes para seres humanos e diminuir as probabilidades de rejeição.

Partilho estas informações na esperança que elas vos ajudem a olhar de outra maneira para os porcos e a compreenderem porque é que às vezes, ao ler no nosso JN o relato de alguns actos cometido por membros da raça humana, me dá vontade de adaptar a famosa frase de Madame De Stael e desabafar: “Quanto mais conheço os homens, mais gosto dos porcos”.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias

 


Tags:

Publicado por Jorge Fiel às 16:46
Link do post | Comentar | Ver comentários (99) | Adicionar aos favoritos

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.
Posts recentes

Como espalhar um boato

Guimarães somos todos nós

Tirem as patas do porto d...

Principio de Peter e Lei ...

Como fugir ao desemprego

Está na hora de Rui sair ...

Um almoço com Durão no Ti...

Para evitar correntes de ...

'bora aí fazer-lhes a des...

As galinhas de Tchekov

Autores
Manuel Serrão
Posts




Juca Magalhães
Posts




Manuel Queiroz
Posts




Jorge Fiel
Posts




Mário Rui
Posts




Rogério Gomes
Posts




António de Souza-Cardoso
Posts




Fernando Rocha
Posts




Arquivos

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Tags

todas as tags

Créditos
Fotografia no cabeçalho da autoria de almofrela.
blogs SAPO
Subscrever feeds