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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Luis Sepúlveda

 

Antes de deitar âncora em Gijon, há uma dúzia de anos, Luís viveu em mais de 20 cidades – Santiago do Chile, Buenos Aires, São Paulo, Moscovo, Hamburgo, etc.

Agora anda encantado com Berlim, onde noutro dia, às duas da manhã, viu uma fila enorme na rua, foi ver o que se passava e verificou que ia ser apresentada uma obra de Pirandello.  Entusiasmou-se ao ponto de comprar bilhete, apesar de não saber alemão, e ficou de boca aberta quando reparou que, antes de começar a peça, estavam a distribuir auriculares, pois havia tradução simultânea para grego, francês, inglês e francês.

“Isto é que é cultura!”, exclama Luís Sepúlveda, 59 anos, escritor e chileno, enquanto põe um ponto final na história acendendo com um pequeno isqueiro Bic cor de laranja uma cigarrilha Montecristo, gesto que repetirá  vezes sem conta durante o jantar na sala do 1º andar, reservada a fumadores, do Mauritânia Real.

Luís, que se celebrizou aos 40 anos, com o best seller mundial (18 milhões de exemplares vendidos)  O velho que lia romances de amor, tinha chegado um par de horas antes a Matosinhos, para participar no 4º encontro internacional sobre Literatura em Viagem, organizado pela Câmara Municipal.

Foi só o tempo de ir ao barbeiro, antes do jantar de filetes de pescada com salada russa, regados com vinho alentejano, que antecedeu uma noitada no B-Flat (ele é um apaixonado por jazz; Chick Corea, Gismonti e Nana Vasconcelos são alguns dos seus favoritos).

Luís corresponde à imagem romântica do escritor. Fuma muito. Conta histórias com gosto. Sepultou a refeição com uma aguardente branca de vinho verde. Deita-se tarde. A única nota dissonante será mesmo de acordar cedo – às oito da manhã já estado sentado a escrever (à mão), até às 14 horas.

A tarde é reservada à leitura ou à música (nunca as duas coisas ao mesmo tempo!), à família e amigos.

O seu processo de escrita compreende uma depuração constante, uma decantação que transforma em literatura a história que começou por contar. “Vai desaparecendo o eu e ficam as minhas personagens”, explica.

Lê de tudo. Na casa de banho tem uma biblioteca de policiais. Gostou muito da triologia Milennium de Stieg Larsson, mas faz questão de sublinhar que o mestre sueco é Mankell. Também consome muita literatura portuguesa, no original ou em traduções espanholas.  O último que leu foi a Viagem do Elefante que classifica de “precioso”. Mas também aprecia muito Francisco José Viegas, “me encanta el gordo”, José Luís Peixoto – e não poupa nos elogios ao Equador.

Uma pergunta sobre as razões porque se transferiu de editora em Portugal foi o pretexto para vir à tona a costela do revolucionário que fez parte da guarda pessoal de Salvador Allende (durante o Governo chileno de Unidade Popular)  e combateu na Brigada Simon Bolivar, ao lado dos sandinistas, na Nicarágua.

“Há cada vez menos editores de verdade e cada vez mais managers que vendem livros como se fossem batatas ou bananas”, atira Luís, que trocou a Asa (após esta editora ter sido adquirida pelo grupo Leya) pela Porto Editora.

“Eles não falam de livros, mas de produtos. Não falam de letras, mas de números. Não falam de leitores, mas de compradores”, acrescenta o chileno, que manifestamente não gosta “deles”, nem do movimento de concentração que está a atingir o mundo da edição e que ele caracteriza como “perigoso” e susceptível de proletarizar a condição de escritor.

Ele é um privilegiado, que vive só da sua escrita e tem como pátria ma língua falada por 500 milhões de pessoas. “Com yuppies à frente das grandes editoras, geram-se situações canalhas. Oferecem menos dinheiro aos autores e chantageiam-nos, dizendo-lhes que não faltam escritores que queiram publicar”, denuncia.

A concentração preocupa-o, mas o futuro hipertecnológico não o assusta.  Não acredita que estejamos a assistir ao declínio da cultura escrita (“lê-se mais hoje do que há 20 anos”, garante) e acha os ebooks “fantásticos” para ter dicionários ou enciclopédias, mas não para ler literatura. Para ele, os livros continuarão a ser papel e tinta.

 

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Mauritânia Real

R. Ló Ferreira 239, Matosinhos

Filetes de pescada com salada russa

Monte das Ânforas tinto

Dois cafés

Bagaço de vinho verde

Total: Cortesia da Câmara de Matosinhos

 

Jorge Fiel

www.lavandaria.blogs.sapo.pt

Este artigo foi hoje publicado no Diário de Notícias

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