Quinta-feira, 21 de Maio de 2009
Pescadinha de rabo na boca

Um banco é um sítio onde te emprestam dinheiro se conseguires provar que não precisas dele. Bob Hope é o improvável autor da definição mais adequada ao comportamento actual dos bancos portugueses.

Como toda a gente sabe, fomos metidos nesta estrangeirinha pelos desmandos e disparates do sistema financeiro. Não deixa de ser um curioso (e penoso) exercício de humor negro que o Governo esteja a usar o nosso dinheiro para impedir o colapso dos responsáveis pela violenta recessão em que vivemos.

Os bancos estão a aproveitar os apoios estatais para se recapitalizarem. A água que o Governo bomba através do sistema financeiro não chega em quantidade suficiente à economia real, sequiosa de liquidez, porque a canalização está rota – e a ganância dos banqueiros continua lá, não mudou.

Como toda a gente sabe, seria mais fácil transformar água em vinho do que extrair a ganância da alma de um financeiro, o que só seria possível com um transplante de carácter.

As empresas queixam-se de estar a morrer por falta de dinheiro e que os plafonds de apoio à tesouraria caíram para metade, mas os balanços trimestrais dos bancos mascaram esta triste realidade com tinta cor de rosa. A Caixa, por exemplo, declara que aumentou em 16,4% o crédito às empresas e em 12% a captação de poupanças e aplicações.

Este divórcio entre as queixas das empresas e os balanços dos bancos tem origem na estratégia de pescadinha de rabo na boca, afinada e posta em prática pelas luminárias em engenharia financeira.

As linhas de crédito com spread baixo são esgotadas em empresas que não precisam de dinheiro e por isso o aplicam logo a uma taxa superior. Ou seja, o dinheiro não chega a sair do banco, não entra na economia real mas tem um impacto positivo duplamente positivo na percentagem de crédito concedido e recursos captados.

O esquema é tão simples quanto pernicioso e deixa-me cheio de vontade de chamar aos banqueiros os nomes que um adepto de futebol costuma dedicar ao árbitro que marcou um penalti injusto contra o seu clube.

Até finais de Setembro, quando cair a folha, o Governo tem de inventar uma maneira mais eficaz de fazer chegar o dinheiro às PME da indústria transformadora, com um bypass ao sistema financeiro.

Senão, as empresas, com a tesouraria exaurida pelo pagamento do subsídio de férias e pelo Agosto sem facturar, vão começar a cair como tordos na falência e teremos milhares de famílias atiradas para o desemprego, a imitarem desesperadas O Grito de Munch. 

Vai ser tão mau que até os banqueiros deviam estar preocupados, porque quando o parasitado está em perigo o parasita devia defendê-lo – pois assim defende o seu bife.

Jorge Fiel

www.lavandaria.blogs.sapo.pt

Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias


Música: Chain reaction, Diana Ross
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Publicado por Jorge Fiel às 10:10
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5 comentários:
De AXN a 21 de Maio de 2009 às 23:46
Excelente este seu texto.
É, infelizmente, bem real a sua análise ao sector bancário e a ausência de apoio às PME's, quer pela banca quer pelo Governo.
Gostei particularmente do parágrafo seguinte:

"Como toda a gente sabe, seria mais fácil transformar água em vinho do que extrair a ganância da alma de um financeiro, o que só seria possível com um transplante de carácter."

que me fez lembrar de um texto de Dez/07, escrito por 'alguém' ligado ao BÚSSOLA, e que terminava do modo seguinte:

"E não deixaria de ser poético se o novo dono fosse o Banco Popular, onde Américo Amorim, o fundador do BCP, é o segundo maior accionista.

PS. Uma sugestão a quem de direito. Se não aparecer rapidamente um comprador, o melhor que o BCP tem a fazer é ir bater à porta de Fernando Ulrich e pedir-lhe que o BPI tome conta dele."



De Jorge Fiel a 26 de Maio de 2009 às 13:35
Estimado AXN

Quando, em Frei Luís de Sousa, perguntam ao romeiro quem era, ele respondeu "Ninguém".

Tudo leva a crer que o "alguém" de que fala sou eu - e não ninguém

Obrigadinho pelas gentis palavras.

Tenho dito


De salboerro a 22 de Maio de 2009 às 11:43
caros Bloguistas,

Já apresentei aqui uma proposta genérica para a implementação desse "bypasss" ao sistema financeiro, com carácter inovador e pronto a eliminar as apropriações geográficas, sectoriais e funcionais da riqueza gerada nas actividades produtivas pelo sector financeiro ou qualquer outro.
Ninguém se interessou ou prestou atenção (até lhe chamei uma forma de "micro-crédito").
Os meus respeitosos cumprimentos.
Salboerro


De José Modesto a 22 de Maio de 2009 às 15:01
A Fumigação consiste em "Gazear" o Parasita com vista ao seu exterminio.
De facto é um problema de existencia...Poucos com Muito...e Muitos com Pouco.
Bom Senso é o que se pede...e pedimos Bom Senso antes que a agitação nos tome nos invada.

Saudações Marítimas
José Modesto


De JMG a 23 de Maio de 2009 às 00:59
Mau, se agora jornalistas e blogueiros desatam a dizer coisas sensatas e aderentes à realidade, onde vamos parar? Rápido, faxavor um texto alinhado à esquerda ou à direita a debitar banalidades de doutrina aplicada a um país imaginário. Que não estamos habituados a textos baseados na real e ficamos assim um pouco - como direi? - à rasca.


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