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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Ana Albuquerque

Foto Luís Pereira 

 

Quando era miúda e estava na praia da Luz com os pais, mal dava por turistas italianos, ia logo pôr a toalha ao pé deles, só para os ouvir falar. Este fascínio antigo pelo italiano só pode ter influenciado o entusiasmo que o movimento Slow Cities (ou melhor, CittaSlow) lhe despertou, ao ponto de, em 2003, ter metido os ombros à empresa de o trazer para cá.

“Hoje não se vive – corre-se. Não podemos deixar que a globalização nos uniformize e transforme em autómatos”, declara Ana Albuquerque, uma jurista de 45 anos que trabalha em S. Brás de Alportel, uma das quatro cidades portuguesas, todas algarvias (as outras são Lagos, Tavira e Silves), certificadas pelo movimento.

Preservar e melhorar as cidades onde se pode levar uma vida tranquila é, em síntese, o programa do movimento, nascido em 1999, em Orvieto (Itália), na esteira do imenso sucesso do Slow Food, o seu irmão, dez anos mais velho.

Mais de 70 pequenas cidades (está vedada a entrada a capitais e a cidades com mais de 50 mil habitantes), no seu essencial europeias (mas também as há da Austrália e Coreia do Sul), integram este movimento, após a sua candidatura ter sido passado a pente fino pelos inspectores do Citta Slow, que a analisam à luz de 55 critérios, onde constam hospitalidade, política ambiental, história e a preocupação em não deixar morrer as tradições locais.

Ana não é algarvia. Aliás não é fácil dizer de onde ela, pois nasceu em Coimbra, filha de uma açoriana, mas aos quatro meses mudou-se para Lourenço Marques, onde o pai, professor de Química, foi dar aulas. Aos seis entrou para a primária em Londres, onde o pai fazia o doutoramento. E aos dez, por obra e graça do 25 de Abril, estava de volta a Coimbra, onde se licenciou em Direito e casou com um agente imobiliário que crescera em Angola. Aos 28 anos foram para o Algarve em busca de um clima mais próximo do africano.

Agora, ao fim de 17 anos no Algarve, está a pensar trocar S. Brás de Alportel pelo Porto, por causa da sua filha. Leonor, 11 anos, é futebolista na Sociedade 1º Janeiro, mas deu nas vistas (não só no futebol mas também no atletismo, pois ganhou a Milha do Dragão) no campo de treinos do FC Porto, ao ponto de receber convites para se mudar para o Norte – hipótese que agrada à mãe, uma portista ferrenha, que está a reactivar a Casa do FC Porto do Sotavento e dá os primeiros passos como empresária, lançando colecções de vestuário feminino e puericultura (0-4 anos) licenciadas pelos três grandes.

Escolheu almoçarmos no António, em cima da praia de Porto de Mós (Lagos). Aceitamos a sugestão de ementa do empregado e ela escolheu a bebida. “Da última vez que estiveram cá os italianos, no final de um jantar na Meia Praia regado a sangria de espumante, eu já era fluente em italiano”, gracejou.

Como o Slow Cities usa o caracol como símbolo, não é de espantar que o almoço tenha demorado três horas. A salada de camarão foi servida na sala, mas entretanto vagou uma mesa na esplanada, onde comemos a corvina.

“Ser Slow City ajuda a captar turistas. Mas o objectivo é a qualidade de vida dos residentes – não é uma cidade onde seja óptimo fazer férias e tirar fotografias bonitas, mas péssima para viver”, explica.

O princípio é ser movimento de base, em que as ideias e soluções partam das comunidades. “Temos de acabar com a mentalidade do ‘isso não é connosco, é com o Estado’. O Estado somos nós!”, diz, antes de desfiar um catálogo de coisas estão a ser feitas.

Dá o exemplo da cidade italiana que tornou os horários dos serviços públicos mais amigáveis para os cidadãos que trabalham, abrindo-os aos sábados de manhã. Da que acabou com a poluição visual das antenas de televisão. E da outra que aplica uma taxa aos munícipes que produzam mais lixo que o permitido.

Fala de coisas grandes, como restaurar os centros históricos e vedá-los ao trânsito automóvel, mas também de coisas pequenas, como acabar com a poluição sonora dos sistemas de alarme ruidosos. E conta, com orgulho, que no próximo ano lectivo, as ementas das escolas de S. Brás de Alportel vão incluir, duas vezes por semana, pratos algarvios.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias

 

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O António

Praia de Porto de Mós, Lagos

Salada de camarão … 24,00 euros

0,6 kg corvina … 19,14

Sangria Murganheira 24,50

2 cafés .. 1,90

Total … 69,54 euros 

 

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