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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Salto à Vara para a riqueza

A audiência correu bem. O senhor, de idade avançada, expôs o seu drama ao ministro, que logo lhe deu razão e instruiu o chefe de gabinete a pôr em marcha a resolução do problema.

À despedida, o idoso estava encantado. Desdobrava-se em vénias e repetia protestos de eterna gratidão, agarrado à mão do ministro, quando pronunciou a frase fatal: “Dou por muito bem empregues os 500 contos que paguei para conseguir esta audiência”.

O ministro estremeceu e pediu-lhe para repetir o que acabava de dizer. Afinal tinha ouvido bem à primeira. “Foi ao senhor deputado x”, respondeu o cidadão, quando perguntado sobre quem lhe solicitara os 500 contos. 

Como o ministro tinha sido tão atencioso, o idoso não podia dizer não quando ele lhe pediu escrever o que acabara de contar - e assinar por baixo. Cópias deste manuscrito seguiram para a direcção do partido e do grupo parlamentar. “O deputado ainda está lá, na Assembleia da República” é o final triste desta história contada pelo ex-ministro.

Já se passaram alguns anos sobre este episódio, e pelo andar da carruagem, a Transparency International tem a razão quando põe Portugal em queda livre no ranking dos países menos corruptos do mundo. Em 2001, estávamos em 25º. No ano passado, íamos em 32º. Cravinho, ex-ministro das Obras Públicas, já nos avisara que “a grande corrupção de Estado é uma situação muito complicada e em crescendo”.

É triste constatar que Balzac estava cheio de razão quando escreveu que por de trás de cada fortuna há um crime, pois não me lembro de ter tropeçado em alguém que tivesse enriquecido à custa do seu salário.

É muito triste reparar que continuam por esclarecer o negócio dos submarinos, o Freeport, o caso Portucale e a Operação Furacão – a que agora se junta a Face Oculta, em que tudo leva a crer que um sucateiro de Ovar conseguiu comprar, a dinheiro ou em Mercedes, responsáveis pela nata das blue chips do PSI 20 (Millennium, REN, Galp e EDP). 

Não podemos assobiar para o lado e fazer de conta que não vemos o degradante espectáculo de haver gentalha, que era suposto ser honesta, a abusar da sua posição para nos roubar.

Há duas emoções que comandam o pensamento e acção dos ladrões de colarinho branco: o medo e a ganância. Para pôr um travão aos desmandos provocados pela ganância é urgente implantar um regime de tolerância zero para quem rouba o nosso dinheiro.

O Governo que estabeleceu um regime de terror fiscal para amedrontar os pequenos contribuintes, tem obrigação de saber criar um regime de terror, que atemorize os corruptos. Se não o fizer, todos nós nos sentiremos incentivados a dedicar-nos à prática do salto à Vara para a riqueza.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias

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