Quinta-feira, 11 de Fevereiro de 2010
Esta vida são dois dias

Não preciso de ser dono deste quadro do Dórdio Gomes para tirar prazer dele

Quando eu tinha 14/ 15 anos, a felicidade era muito barata. Podia custar 17$50, o preço da francesinha e um príncipe no Capa Negra do Campo Alegre. Podia até ficar de borla, se a miúda que nos punha as hormonas aos saltos não tirava a mão dela, quando lhe dávamos a nossa, alimentando as legítimas expectativas de que mais tarde ou mais cedo (de preferência mais cedo!) passaríamos a formas superiores de luta, ao nível do contacto físico.

A partir destas experiências de prazer procurado, percebi que sofrimento e risco fazem parte do processo de obtenção da felicidade. A francesinha sabia melhor quando eu tinha fome e a cerveja quando estava com sede. Para nos habilitarmos a uma queca, é preciso arriscar sofrer um pontapé nos tomates do nosso amor próprio, se a rapariga dos nossos sonhos húmidos retira rapidamente a mão que lhe demos e explica, toda lampeira, que gosta de muito de nós - mas só como amigos. O sexo e o amor sabem muito melhor quando estamos cheios de fome e sede deles.

Nos últimos 30 anos, o período de maior prosperidade de toda a história da humanidade, registou-se uma hiper-inflação dos custos da felicidade, provocada pela febre da propriedade, em que as pessoas erradamente confundiram posse com o prazer, esquecendo de que mais importante do que ter uma coisa é usufruir dela e que são os objectos que nos possuem – e não o contrário.

Deste período de correcção de valores e comportamentos, que designamos por crise, vai emergir um novo normal, marcado pela diminuição do custo de utilização dos produtos, em que alugaremos a roupa de bebé, que dura apenas três meses, e acharemos ridícula a mania de todos possuírem um carro próprio – imaginem que não havia outra maneira de usar avião a não ser ter um nosso!

No novo normal, avaliaremos em termos custo/beneficio a relação entre o tempo que gastamos a ganhar dinheiro e o tempo de prazer de que desfrutamos com o produto do nosso trabalho. Tom Jobim tinha razão quando disse que “o que importa é ser feliz” mas temos de ser criteriosos sobre onde se adquire a felicidade - se na cama, na pastelaria ou no fundo de uma garrafa – e no preço a pagar por ela. 

Nestes tempos difíceis, que põem à prova a alma dos homens, não podemos dar demasiado importância à “situação explosiva”, “morte lenta”, escutas, Face Oculta, dívida, desemprego ou défice. O melhor é descontrair-se e divertir-se. Abra a garrafa de Barca Velha que corre o risco de se passar. Goze as milhas do cartão antes que caduquem. Tire partido de tudo quanto é de borla e pode dar muito prazer. Esta vida são dois dias e o primeiro está a acabar.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias


Música: John Lee, Fairport Convention

Publicado por Jorge Fiel às 10:10
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8 comentários:
De Com.ta tranquilidade a 11 de Fevereiro de 2010 às 14:18
Bravo, meu caro Jorge Fiel!


De Viva O Glorioso a 12 de Fevereiro de 2010 às 00:38
Ó com tranquilidade então não tinhas ido com o caralho?

Enfiámos 4 na peida do carvalhal, ve lá se não tiveste sorte.

Vocês são iguais aos do fraudulento corrupto do Porto

eheheheheh!!!


De Trolho a 12 de Fevereiro de 2010 às 21:29
Os androides desertaram? Renderam-se? Entregaram-se? Dedicaram-se apenas a apanhar nas nalgas?

Assim não tem piada! Mas por outro lado, passamos a poder comentar os postes.


De naosoudeca a 16 de Fevereiro de 2010 às 20:35
Coitados dos vermelhoides ! Temos de ter muita paciência com eles,ao fim e ao cabo são vitimas da sua traumatizante infância! Foram criados na maior da promiscuidade e miséria,como aliás são criados todos os ratos! Uma mãe que sai cedo de casa para esgalhar o sustento para os pobresitos,muitas vezes sujeitando-se a descer ao mais degradante nível da condição humana! Os pobres sós em casa,os mais velhitos cuidadm como podem dos mais pequenos! O pai ,ou aquele que lhes deu o nome chega a casa altas horas da noite,acorda os pequenos e a pobre mãe,apenas para os desancar a todos pois a bebedeira não dá para mais!Criados nestas terríveis condições que é que acontece? A história repete-se e são os seus filhos e esposas que sofrem o mesmo terrível destino de geração em geração até ao dia do juízo final!Enfim!A escória do sociedade!


De Nuno Maia a 17 de Fevereiro de 2010 às 16:13
Bom post, caro Jorge Fiel.


De Casimiro Teixeira a 28 de Fevereiro de 2010 às 00:41
Gostei imenso do boost moralista, e é um facto de que nesta vida, deve-se comer a carne, sugar o tutano, e até chegar ao ponto inglório de se chuchar no osso, pois nunca se sabe quando será a nossa carne a ser comida e os nossos ossos a serem chuchados, ainda assim, sou um optimista disfarçado de cínico, e acredito em finais felizes, não poderia o rapaz, ficar com o melhor dos três: Cama, comida e bebida? A francesinha, a francezinha " e a cervejola?


De jogos da sue a 21 de Junho de 2010 às 17:58
Belíssimo!
ótimo post!
parabéns !


De compre da china a 21 de Junho de 2010 às 18:03
Tempos bons e antigos...
no es mesmo meu caro!?


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