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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Ana Maria Magalhães

O telefone tocou ao 30º dia. “Fala da Editorial Caminho”, anunciou Zeferino Coelho. “Já lemos o vosso livro”, acrescentou num tom pausado, prolongando um suspense de concurso televisivo que estava a deixar Ana Maria, então com 36 anos, numa pilha de nervos: “Vamos publicá-lo”, concluiu o editor. “Ia-me dando um chilique”, confessa a escritora.

Em rigor, esta história, que já leva vários finais felizes, começou em 1976, quando Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada foram colegas de estágio na escola Fernando Pessoa. Deram-se logo bem. As outras professoras fotocopiavam, para dar aos alunos, os textos que elas escreviam. E como tinham filhos da mesma idade, até aproveitavam as idas às vacinas para preparem trabalhos para as aulas.

Os elogios aos textos eram tantos que elas aventuraram-se a escrever um livro. Em Janeiro de 82 sentam-se as duas num canto de uma mesa quadrada. Isabel à esquerda de Ana Maria, a dona da casa que escreve à mão as frases que fluem da conversa, em sessões com a duração máxima de quatro horas. “Sempre fui eu a escrever porque tenho uma caligrafia mais bonita, gosto de desenhar as letras, e assim facilitava o trabalho à dactilógrafa – que agora se chama processadora de texto”, explica.

Em Abril, escreveram a palavra Fim em Uma Aventura na Cidade . Mas a peregrinação pelas editoras não correu bem. “Paciência, não conseguimos. Deixamos isto para os nossos filhos” resignou-se Ana Maria, desanimada com as três negas recebidas. Por ela desistiam. Mas a Isabel insistiu e ela cedeu. E tentar uma quarta e última editora.

“Sem grande crença lá fui à Caminho. O Zeferino recebeu-me com uma enorme frieza. Disse que dentro de um mês dava uma resposta. Um mês!?! Para que é que ele precisava de um mês para saber se publicava ou não um livro de 100 páginas que se lê numa hora e meia?”, conta Ana Maria, que logo baixou as expectativas de Isabel: “Não tenhas grande esperança. O tipo é um chato!”.

“As editoras que nos recusaram não perceberam que estávamos a abrir uma nova porta, pois não havia cá nada no género”, analisa Ana Maria  que nos contou esta e outras histórias à mesa da Mexicana, numa refeição testemunhada pelo belíssimo painel de azulejos Sol Mexicano de Querubim Lapa.

Sem olhar para a lista, encomendou a omeleta de cogumelos com arroz e Cola Zero, que come sempre nesta confeitaria, de que é freguesa desde miúda, porque cresceu ali ao lado na Alameda, onde moravam o pai médico, a mãe (fluente em seis línguas, além de arranhar o russo) e os quatro irmãos, um dos quais é Tó Zé Martinho, o primeiro destinatário das histórias que ela começou a inventar aos nove anos, a primeira das quais misteriosamente intitulada As Cabeças de Papel.

Não estava nos seus melhores dias porque tinha o 9º andar, na avenida dos Estados Unidos, onde vive com Zeferino Coelho (o seu segundo marido, outro desfecho feliz desta história) todo alagado, por causa de uma ruptura na conduta no 10º, mas não se cansou de contar histórias saborosas da sua vida, que podia ter levado outro rumo, se em vez de dar ouvidos aos que a convenceram a ir para Filosofia, porque o curso do ISPA não estava oficializado, tivesse teimado no seu gosto pela Psicologia.

Acabou por dar aulas de Português e História, durante 39 anos, o primeiro dos quais em 1969, em Lourenço Marques, para onde o primeiro marido fora mobilizado pelo Exército. “Nasci com a verdade ao pé da boca”, declara a escritora, que recebe 25 cêntimos por cada livro vendidos da colecção Uma Aventura (“os impostos levam metade”, lamenta) , de que vai ser agora o 52º episódio, passado no Pulo do Lobo, recanto do Alentejo profundo que ninguém conhecia antes de Cavaco o celebrizar.

A redacção da última aventura foi antecipada (costumava ser escrita de Setembro a Dezembro) por causa da previsível ida de Isabel para o Governo. “Agora como ela está mais ocupada, estou a fazer sozinha a revisão do volume sobre o século XIX da colecção de História de Portugal”. E em Abril, vai ser lançado um novo livro das duas, sobre o 5 de Outubro e a 1ª República. Apesar de Isabel ter ido para ministra, a dupla continua a bombar.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias

 

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Mexicana

Avenida Guerra Junqueiro, 30, Lisboa

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