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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

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O PSD e o caso da galinha decapitada

Tinha 12 anos e estava em Guimarães, a passar uns dias em casa de uns primos, quando aprendi que a passagem da vida para a morte não é tão súbita como eu julgava. Uma noite, já não me lembro como, os meus primos arranjaram uma galinha e decidimos cortar-lhe a cabeça. Não foi fácil. Apesar de estarmos todos a segurá-la, o Zé António (era o mais velho) demorou uma data de tempo até conseguir cortar-lhe o pescoço com o auxílio da maior faca que, à socapa, desencantou na cozinha. Mas o mais macabro estava ainda para acontecer. Mal ele ficou com a cabeça na mão, nós largamos a galinha, que, apesar de decapitada, se escapou a bater furiosamente as asas e só parou morta ao fundo da rua.

Noutro dia, ao ler A Leoa Branca, recordei este episódio quando Henning Mankell descreve uma cena em que o corpo de uma cobra continua a mexer depois de ficado separado da cabeça, que, durante após ter sido amputada ainda abria e fechava a boca mostrando os seus dentes venenosos.

Não é só no reino animal que a fronteira entre a vida e a morte pode ser assim tão lenta e porosa. No final do séc. XVI, no triste e breve reinado de D. Sebastião, o Império Português já estava morto, mas os seus inimigos ainda não tinham reparado e receavam-no ao ponto de lhe terem oferecido Larache (a praça que ele queria conquistar quando foi travado em Alcácer Quibir). O palerma não quis, achou que oferecida não tinha piada nenhum, e armou a estrangeirinha que se conhece.

Ao apanhar com os estilhaços da novela laranja em cartaz, pensei que o diferimento entre a ocorrência da morte e a nossa percepção dela também se aplica aos partidos, e não a galinhas, cobras e D. Sebastião, que mais uma vez faltou à chamada, em Mafra -, onde ao ouvir na tv o entusiasmo com os ex-lideres foram recebidos pelos congressistas finalmente compreendi todo o significado da frase I see dead people dita por Haley Joel Osment em O Sexto Sentido de M. Night Shyamalan.

Tendo a concordar com Santana Lopes quando ele diz que “o PSD está completamente desfeito” e “não tem sido um partido, mas uma casa de ódios”. Percebo o pânico de Carreira, o líder do PSD Lisboa, quando avisa: “Temos que travar esta loucura”. Acredito em Marcelo quando garante que “o próximo líder não vai durar mais de dois anos”. E acho Jardim muito optimista quando admite que “o PSD tem conserto”.

O mais provável é que o PSD já esteja morto, tal como a galinha que eu e os meus primos matámos, e a malta ainda não tenha reparado porque apesar de já não ter cabeça está a fugir pela rua abaixo, a bater furiosamente as asas.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias

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