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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Alberto Teixeira

 

Alberto Teixeira, o defesa central do FC Porto e  Boavista, que conquistou três Taças de Portugal e ajudou a mudar a face do futebol português ao apresentar José Maria Pedroto a Pinto da Costa, é agora o presidente da Ibersol, empresa cotada no Euronext Lisbon, que vende 215 milhões de euros de fast food em mais de 330 restaurantes Pizza Hut, Burger King e KFC, entre outros, entre Portugal e Espanha 

 

Alberto Teixeira, 60 anos, economista, não tem muitas razões para se queixar da vida. Indiferente ao recuo de 3,1% da actividade económica, à queda de 25% nas vendas de gasolina e ao trambolhão de 30% das nossas exportações, a cotação das acções da empresa a que preside subiu mais de 40% no primeiro trimestre.

As acções da Ibersol  - a empresa a que preside e de que é um dois maiores accionistas (o outro é o seu amigo António Pinto de Sousa) – sobem em direcção ao céu,  no Euronext Lisbon, propulsionadas pelas vendas dos 330 restaurantes que gere, em Portugal e Espanha.

Nos finais de Março, o lucro da companhia já ia em 2,7 milhões de euros, pois apesar da crise, os portugueses não deixaram de comer e as pizzas, sandes, tacos e pastas da Pizza Hutt, Burger King, Kentucky Fried Chicken, Pasta Café, Cantina Mariachi e Pans & Company (algumas das insígnias ad Ibersol) são uma opção que tem tanto de rápida como barata.

O rei da fast food na Península Ibérica tem ainda mais razões para estar feliz, já que o clube da sua paixão acaba de juntar a Taça de Portugal ao tetra campeonato.

Por nada deste mundo, Alberto perde um jogo no Dragão, que saboreia ao mesmo tempo que um Cohiba, a partir do camarote da Ibersol – que, como não podia deixar de ser, é a responsável pelo catering em todo o Estádio.

Mas enganam-se os que pensam que ele é apenas um desportista de bancada. Todos os fins de semana, religiosamente, pratica outra das suas paixões – o golfe. É sócio da Estela e tem handicap 14.

O golfe, em que reconhece estar viciado, começou por ser um desporto refúgio, que começou a praticar quando a força física foi desaparecendo. Na sua juventude, Alberto viveu tardes de glórias um pouco mais a norte do Dragão, no relvado das Antas. Foi futebolista profissional, conquistou três Taças de Portugal, e posou com a camisola do FC Porto e do Boavista para as inevitáveis cadernetas de cromos.

A última etapa que teve de vencer para chegar ao cimo da montanha, percorreu-a no grupo Sonae, onde se demorou 17 anos, e vagabundeou pela  indústria (em Portugal e Espanha), a holding e a distribuição, até que a 1 de Janeiro de 1998, ele e o seu Pinto de Sousa) compraram a Ibersol a Belmiro de Azevedo. O negócio tem corrido bem  - em onze anos multiplicaram os indicadores por quatro. À cotação actual, vale 163 milhões de euros.

Mas o que lhe permitiu estudar e fazer o curso de Economia foi o futebol, onde foi parar por um daqueles acasos em que a vida é fértil.

 Estávamos em 1962, a guerra colonial alastrava em Angola. Ele tinha 14 anos e, como de costume, foi ao campo de treino das Antas ver os juniores e os juvenis. Morava perto, na rua Honório de Lima. Só que desta vez, Pinga, então o treinador dos miúdos, reparou nele. Mirou-o de alto a baixo, gostou do que viu e fez a pergunta que lhe mudou a vida : “Queres equipar-te e treinar?”

“Eu era alto para a idade”, explica Alberto, que já era um atleta, pois jogava hóquei em patins no Vigorosa, desde os 11 anos. O hóquei era o outro dos seus dois amores, cultivado pelo pai, que o levava a ver a selecção nacional jogar no Palácio de Cristal.

Jogava no Vigorosa mas era já portista encartado. O seu herói era Jaburu (“Era um ídolo, a imagem dele saía como brinde no bolo rei. Tinha um remate fortíssimo, foi um dos jogadores que mais me marcou”), o ponta de lança brasileiro que Yustrich trouxe para a equipa do FC Porto campeã nacional em 1955/56 (tinha ele oito anos) e onde alinhavam Pedroto (que viria a seu treinador no Porto e Boavista), Hernâni  (“uma figura de proa”) e Miguel Arcanjo (“um tipo muito simpático com os miúdos”).  

Contra a promessa solene de que não iria nunca deixar que o desporto lhes prejudicasse os estudos, o pai, director fabril na Raione, fê-lo sócio do FC Porto, habilitando-o assim a ir ver os treinos às Antas.

No hóquei, transferiu-se para o FC Porto, onde foi treinado pelo economista e jornalista Correia de Brito e se cruzou com um seccionista que “tinha uma piada fabulosa e tinha uma grande facilidade no relacionamento com as pessoas”, chamado Jorge Nuno Pinto da Costa.

Acumulou o hóquei e o futebol até que teve de escolher e o FC Porto o obrigou a descalçar os patins, o que fez com alguma pena.

Alberto está convencido que tinha mais aptidão para o hóquei do que para o futebol, modalidade em que seu irmão Arménio (que se viria a licenciar em Medicina) era muito melhor do que ele  - só não passou do Castelo da Maia por falta de ambição.

Como o pai morreu novo,  Alberto tornou-se adulto mais cedo ao ver-se na contingência de ajudar a mãe, que com o seu magro salário de empregada na Companhia dos Telefones tinha de sustentar os quatro filhos e a sogra. “Eu meti na cabeça que era capaz de ser futebolista e continuar a estudar”, conta, acrescentando que ficará para sempre em dívida com o futebol por lhe ter pago os estudos e permitido licenciar-se em Economia.

No percurso pelos iniciados, juvenis e juniores – onde Artur Baeta era a alma mater - foi tendo colegas que se tornaram lendas do nosso futebol, como Artur Jorge, que passou a sénior no ano anterior ao dele, e Pavão.

“Lembro-me perfeitamente do dia em que ele chegou às Antas, vindo de Chaves e com a fama de ter estado treinar no Benfica. Estávamos no estádio principal e ele entrou a substituir-me no jogo-treino. Foi como se tivesse chegado alguém do outro mundo. Com ele, a bola parecia mais redonda. Era um jogador tipo Deco, box to box”, recorda Alberto, acrescentando que João Alves foi o único colega de equipa que teve cujo talento se aproximava do de Pavão.

Alberto cobriu-se de glória na sua última época como júnior, a de 1965/66. Enquanto os Magriços se preparavam para fazer um brilharete no Mundial de Inglaterra, ele foi campeão nacional e conquistou o Torneio de Limoges, feito rijamente festejado na Baixa do Porto, que se encheu num S.João antecipado. “Na altura a cidade contentava-se com pouco”, refere.

Foi “um sonho, uma alegria, uma maravilha” fazer parte daquele reduzidíssimo lote de juniores que foram escolhidos por José Maria Pedroto para ficarem nas Antas no ano em que foram promovidos a seniores. Hernâni era então o responsável pelo departamento de futebol. O presidente era o banqueiro Afonso Pinto de Magalhães.

Começou a receber dois mil escudos por mês, o que lhe permitiu logo no segundo ano de profissional, comprar o seu primeiro carro, um Simca 1000, enquanto os estudantes franceses faziam o seu Maio.

Tratava por “senhor” os mais velhos. Era senhor Américo para aqui, senhor Custódio Pinto para acolá. Mesmo não sendo titular, era frequentemente convocado. Estreou-se a lateral direito (fazia todas as posições na defesa, se bem que central fosse a favorita), a substituir o magriço Festas, num jogo em que o Porto perdeu 2-0 com a Sanjoanense.

“O Eusébio era diferente de todos os outros, e o Benfica tinha melhor equipa do que nós – mas era muito favorecido pelas arbitragens. Como não havia televisão, jogos fora éramos quase sempre roubados”, recorda.

A esperteza de Pedroto ajudava a equilibrar um pouco os pratos da balança. “Quem sabia era ele. Organizava muito bem e era inteligente no que fazia. Era aquele tipo de pessoa que teria sucesso em tudo quanto se metesse”.

No final da sua terceira época como sénior, após uma digressão a Angola (de onde o FC Porto trouxe Seninho), Alberto foi emprestado a União de Lamas, que estava na II Divisão e era dirigido pelo comendador Henrique Amorim, e treinado por Américo.

Na época seguinte, 1970/71, volta a ser emprestado, mas desta vez ao Boavista onde voltará a encontrar Pedroto como treinador, conquistará duas Taças de Portugal e um 2º lugar no campeonato.

Esteve no Boavista até ao precoce final da sua carreira, com uma parêntesis em Cabora Bassa, Moçambique, em cuja equipa jogou nos tempos deixados livres da sua actividade de oficial de artilharia do exército português. “A tropa ajudou-me muito a crescer”, garante Alberto, que andava pelo Norte de Moçambique, de arma na mão, quando Pavão morreu nas Antas e se deu o 25 de Abril.

Regressou ao Bessa, onde foi treinado por Jimmy Hagan (“Era muito bom a preparar fisicamente as equipas. A começar o mandava-nos dar 20 voltas ao campo. Nunca corri tanto na minha vida”), José Maria Pedroto e Mário Wilson (“a diferença entre eles era da água para o vinho”).

Não precisa de pensar um segundo sequer para eleger Pedroto como o melhor de todos: “Nós acreditávamos religiosamente em tudo quanto ele nos dizia no balneário. Sabia ver futebol como ninguém. Falou-se muito do 3x3x4 na passagem do Co Adriaanse pelo FC Porto. Mas, quando estávamos a perder nas Antas, o Pedroto já usava esse sistema, mudando o Bernardo da Velha de defesa direito para ponta de lança”.

Aos 28 anos acabou o curso de Economia (onde teve como colegas Daniel Bessa e Teixeira dos Santos)  e  arrumou  as botas, não aceitando o convite de Pedroto para regressar ao Porto, onde quebraria o jejum de 20 anos sem títulos.

“Tenho para mim que devemos sair enquanto as pessoas nos querem – e não empurrados”, explica. No entanto, antes de arranjar o seu primeiro emprego como economista, dera um valioso contributo para a hegemonia actual dos portistas.

Num jogo do Boavista no Estádio do Mar, apareceu lá Pinto da Costa e pediu-lhe para ser apresentado a Pedroto. Alberto explicou ao treinador que Jorge Nuno estava a tentar reerguer o Porto. Os dois homens apertaram as mãos – e foi o início de uma bela amizade que mudou o rumo do nosso futebol. 

Jorge Fiel

Esta matéria foi publicada em O Jogo

 

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