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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

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A Relação errou: Névoa não é burro

Admiro o capitão Haddock por ter elevado o insulto à categoria de arte. O velho marinheiro, colérico e amigo de entornar o seu copo, é autor da mais fabulosa colecção de insultos da história da humanidade, sem nunca fazer cedências à banalidade pouco imaginativa do calão corrente, tendo elaborado um dicionário onde figuram pérolas como analfabeto diplomado, flibusteiro, astronauta de água doce, cataplasma e bando de bachi-bouzouk (mercenários do exército otomano) – só para citar uma mão cheia de insultos da antologia haddockiana, onde o professor Marcelo foi beber o “troglodita” de que usa e abusa, com uma intenção bem mais ofensiva do que a original (os geógrafos antigos designavam de trogloditas um povo do sul do Egipto).

Também gosto de outra classe de insultos, mais coloridos e directos, categoria em que o mais espectacular que ouvi foi proferido numa zaragata entre duas mulheres, nas imediações da rua Escura, na zona da Sé. “Sua badalhoca, não te lavas por baixo!” foi a acusação que me impressionou ao ponto de, 20 anos depois, ainda se manter, no topo do meu top ten de insultos favoritos.

Mas sei apreciar um tipo de insulto mais fino, escrito a filigrana nas entrelinhas, que escapa escorregadio a mentes mais leves ou distraídas, como o que foi cuspido a Domingos Névoa pelos desembargadores da Relação de Lisboa, na sentença em que o inocentarem da condenação de corrupção que trazia da primeira instância.

Ao fundamentarem a absolvição no facto do vereador Sá Fernandes não ter poderes para fazer o que Névoa lhe pedia, os juízes estão a chamar, por outras palavras, burro, asno e idiota ao empresário bracarense, que se preparava pagar 200 mil euros a um tipo que tinha tanta capacidade como eu ou o leitor para desencalhar o problema que a Bragaparques tinha na  Câmara de Lisboa.

Estou convencido que os juízes estão enganados e o Névoa não é burro como eles pensaram e escreveram. Apesar de não o conhecer pessoalmente, toda a gente me jura que ele é um tipo finório, que sabe perfeitamente de que lado do pão está a manteiga. Não se faz uma fortuna na construção civil a untar as mãos às pessoas erradas.

Mas acredito sinceramente que a sentença da Relação configura um caso de insulto involuntário -  e que o empresário bracarense partilha desta minha opinião e por isso não vai processar os juízes por difamação. Assim como assim, ainda lhe pouparam os cinco mil euros de multa a que o tribunal de primeira instância o condenou para expiar a pena de corrupção de que o julgaram culpado.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias      

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