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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Kamal Rajani

De origem indiana, nasceu em Lourenço Marques, estudou em Londres e nos Estados Unidos, mas apesar de ser fluente em gajurati chegou aos 50 anos sem ainda ter ido à Índia. A flecha de Cupido interrompeu-lhe a meio o curso de Medicina Dentária, que estava a fazer na Universidade de Indiana, e levou-a a deitar âncora no Porto, onde abriu o Mendi, o restaurante preferido dos indianos, depois do negócio de pronto a vestir da família ter soçobrado vítima de desinteligência internas e da concorrência dos espanhóis da Zara

 

Nome:  Kamal Rajani

Idade: 50 anos

O que faz:  proprietário do restaurante Mendi

Formação:  Frequência do curso de Medicina Dentária

Família:  Casado, tem duas filhas: Mafalda, 22 anos, que estudou Gestão e Turismo, e Mafalda, 16

Casa:  Apartamento na rua do Campo Alegre (Porto)

Carro: Toyota Avensis

Telemóvel:  Nokia 6000

Portátil: Toshiba

Hóbis: Tem poucos. Gosto muito de andar a pé e aos domingos adora dar grandes caminhadas, à beira rio e mar, desde Massarelos até à frente marítima do Parque da Cidade. Também gosta de comer, beber e conviver, à volta da mesa, com familiares e amigos

Golpe: Como todos os donos de restaurantes, Kamal colecciona histórias de pequenos furtos (“até rolos de papel higiénico já foram roubados da casa de banho”, conta) e golpes clássicos, mas que nem por isso deixam de ser bem sucedidos, como o daquele cavalheiro bem posto que ao jantar se instalou sozinho numa mesa, encomendou uma garrafa de vinho caro, experimentou vários pratos, e no final, depois de pedir a conta, comunicou-lhe, com um ar muito atrapalhado, que se esquecera da carteira e por isso tinha de ir buscá-la, mas fazia questão de deixar o telemóvel e a chave de casa como garantia. Até hoje. Nunca mais apareceu. O telemóvel era um chaço e a chave provavelmente nem era dele

Férias:  No Verão, têm o hábito de partir para sul e fazerem 15 dias de sol e praia. Primeiro iam para a Andaluzia, mas ultimamente têm preferido a zona do Carvoeiro, no Algarve. Na Pascoa foram passar um fim de semana prolongado a Londres

Regra de ouro: Viver dia por dia, estar bem com todas e ter paciência

 

Foi apenas por delicadeza que o administrador da Efacec perguntou aos empresários indianos, em visita de trabalho ao Porto, se achavam bem jantarem numa marisqueira de Matosinhos. A sua ideia era proporcionar-lhes uma memorável refeição de boas vindas. Ficou espantado quando os convidados lhe propuseram ir ao Mendi, de que tinham ouvido falar muito bem.

O melhor cartão de visita do Mendi é ser o restaurante favorito dos indianos, o que não deixa de ser curioso pois Kamal nunca esteve na Índia. Nasceu em Lourenço Marques, mas como as suas raízes familiares mergulham no Gujarat (estado natal do Mahatama Ghandi), ele é fluente em gurajati – e também em inglês, porque quando veio de Moçambique, em 1974, com cinco anos, foi para Londres, onde ficou a cargo de um cunhado do tio que estava lá a estudar para ROC (revisor oficial de contas).

Só sabia dizer yes e no, mas rapidamente aprendeu o inglês numa escola pública, em Chelsea, de onde foi transferido para um colégio interno, que ficava a hora e meia de comboio da estação de Charing Cross. A mudança deu-se após chegaram aos ouvidos da família os ecos de rebaldaria reinante na sua primeira escola inglesa, onde não era anormal os alunos molestarem os professores e improvisarem recintos desportivos no interior das salas de aulas. O internato estava no pólo oposto. A disciplina era férrea, tinha de andar sempre de fato e gravata, e como a água era racionada, só podia tomar banho duas vezes por semana.

Atravessou o Atlântico quando chegou a hora de ir para a faculdade, inscrevendo-se em Medicina Dentária, em Indiana (EUA). Viveu dois anos de excelente memória no campus universitário (onde o seu caril de batatas rapidamente se tornou célebre) até que Cupido se intrometeu entre ele e o consultório de dentista.

Em 1980, passava as  férias de Verão ao Porto, onde a família se tinha estabelecido com uma rede de lojas de pronto a vestir, quando se interessou por uma rapariga. Começaram a falar-se, palavra puxa palavra, e com base na descoberta da extraordinária coincidência de que ele fazia anos a 18 de Julho e ela a 19, Kamal deu um grande em frente e convidou-a para comemorem os anos juntos num jantar tête à tête, no romântico restaurante da Boa Nova, em Leça, à beira do mar e desenhado por Siza Vieira.

Como é bom de ver, não mais regressou aos Estados Unidos. Ficou a trabalhar na área de contabilidade das lojas, casou, teve duas filhas e ambos foram muito felizes até que em 1996, o negócio da família soçobrou, vitima de desinteligências internas e da concorrência agressiva dos espanhóis da Zara.

Com 37 anos, casado, com duas filhas, e desempregado, Kamal deixou sair o bichinho da gastronomia que tinha dentro de si e arriscou abrir um indiano no local que tinha sido uma steak house onde ele, uma dúzia de anos atrás, no final de um jantar, confidenciou à mulher: “Se alguma vez tiver um restaurante, será deste tamanho”.  O sonho cumpriu-se a 5 de Fevereiro de 1997, quando inaugurou o Mendi com uma jantar reservado a amigos e conhecidos. Apesar de não ter feito publicidade, no dia a seguir ao almoço tinha metade dos 40 lugares ocupados. E ao jantar a casa estava cheia. Agora, 13 anos volvidos, Kamal tem a certeza que acertou quando escolheu a palavra Mendi – que em gujarati significa sorte, pureza e alegria – para baptizar o seu restaurante.

 

Jorge Fiel

Este perfil foi publicado na rubrica Emergentes do Diário de Notícias

 

 

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