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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Ulisses Ferreira dos Santos

 

Ulisses Ferreira dos Santos, 36 anos, é um agente FIFA e um dos donos da Sportis, empresa que organiza o World Bike Tour, que nasceu em Portugal mas alargou os seus tentáculos a Madrid,  São Paulo, Paris e Nova Iorque.  Cresceu em França, onde o pai, pedreiro, esteve emigrado, mas foi cá em Portugal que revelou a sua queda para os negócios arranjando maneira de ficar sempre a ganhar na troca de cromos de futebolistas com os colegas da Secundária de Ilhavo. Como jogador, nas camadas jovens no GD da Gafanha ou nos seniores do Benfica da Gafanha, nunca atingiu o nível que justificasse fazerem um cromo dele. Foi a transaccionar cromos de carne e osso que atingiu o sucesso

 

Tal como nove em cada dez rapazes, sonhou ser piloto de aviões, mas o mais perto que andou do que faz agora, que é grande, foi quando na Escola Secundária de Ilhavo, em meados dos anos 80, começou a evidenciar jeito para o negócio ao arranjar sempre maneira de ficar a ganhar nas transacções de cromos que fazia no recreio com os colegas.

Talvez algum scout, que presenciasse a maestria com que trocava e vendia cromos de Platini, Tigana ou Laurent Blanc, da caderneta do Euro 1984, ou Fernando Gomes, Madjer ou Rui Águas, da caderneta do Nacional de futebol 86/87, pudesse identificar naquelas capacidades do miúdo o potencial para mais tarde, já na idade adulta, ganhar a vida a transaccionar jogadores de futebol de carne e osso – e não apenas fotografias coloridas impressas em pequenos rectângulos de papel.

Ulisses jogou futebol a nível federado mas nunca atingiu um nível que lhe permitisse entrar ele próprio numa colecção de cromos. “Desde miúdo que percebi que não tinha qualidade suficiente ser um futebolista famoso”, reconhece.

O rugby foi a primeira modalidade que praticou, quando emergiu do analfabetismo em francês, numa escola primária em Amiens, para onde os pais tinham emigrado. O pai trabalhou nas obras, como maçon (pedreiro), o que era duro nos Invernos gelados em que o termómetro acusava temperaturas negativas. A mãe, doméstica, tratava em casa dos três filhos e inibia o marido de se aventurar a voos mais altos.

“O lado comercial herdei-o do meu pai, que sempre quis arriscar para subir na vida, mas a minha mãe sempre lhe cortou as ambições. Ele queria abrir um restaurante e ela desincentivou-o, pois foi sempre do género se tiveres dez guarda dez, se tiveres doze poupa os doze. Quando voltaram, ele investiu em dois terrenos na Gafanha. Estou convencido que com esse negócio dos terrenos ganhou mais dinheiro do que no tempo todo em que esteve em França”, conta.

Tinha dez anos quando os pais regressaram à Gafanha, deixando para trás Amiens. O clima era melhor. A língua era diferente  - como falava em francês com os irmãos e fizera a primária lá, demorou um ano a aprender a escrever e a expressar-se correctamente em português, antes de poder prosseguir os estudos. O frigorífico passou a estar menos recheado quer em quantidade, quer em qualidade – “havia muito menos variedades de iogurtes”. E a assistência médica era muito pior: “Lá quando tinha febre o médico ia a nossa casa. Cá parece que tínhamos planear estar doentes, tão difícil que era marcar uma consulta no Centro de Saúde”. 

Na sua escola primária, em Amiens, havia um enorme campo relvado de rugby, que era o desporto preferido da generalidade da ganapada. Ele jogava com a bola em formato de melão mas a simpatia ia para a bola redonda, torcendo (sem saber bem porquê) pelo Saint Etiénne e tendo como ídolo o Platini.

No cimento de recreio da Secundária de Ilhavo deve ter demonstrado algum talento para o futebol, pois em 1976, com 13 anos, foi chamado a alinhar nos iniciados do Grupo Desportivo da Gafanha (“Já andou na II Nacional, mas agora está na I Distrital. O equipamento é todo azul escuro, tipo Bordéus”), onde jogou duas épocas a ponta de lança.

Tinha 15 anos quando decidiu correr a Meia Maratona da Barra. Ficou tão entusiasmado por ter chegado entre os primeiros, apesar de apenas ter treinado nos dois dias anteriores à prova, que trocou o futebol pela nova paixão  -  a corrida.

Como atleta do Colónia Agrícola, especializou-se em provas de fundo, estrada e corta-mato. Durante quatro anos, até atingir a idade de sénior, conseguiu vários pódios nos Nacionais de corta-mato por equipas, tentou os 10 mil metros em pista e correu mais de 20 Meias Maratonas, com marcas interessantes como a 1h20m conseguida em 90 na Meia Maratona de Cortegaça.

Gostou muito do atletismo, de onde trouxe a ideia da Sportis, bem como o sócio (Diamantino Nunes) e os contactos que lhe permitiram pôr de pé a empresa e fazer com que ela fosse bem sucedida. Mas a necessidade de ganhar obrigou-o abandonar esta modalidade, em que podia ter-se distinguido, no momento em que ela passou a ser mais exigente em tempo e treinos, regressando ao futebol, onde jogou durante quatro épocas, como sénior, pelo outro clube da sua terra, o Sport Benfica e Gafanha, que militava  na II Distrital de Aveiro.

O trabalho nunca o atrapalhou. Nos últimos anos do secundário, ganhava uns contos de reis nas férias grandes, ajudando a descarregar os bacalhoeiros. Mais tarde, arranjou o primeiro emprego fixo numa loja de revestimentos interiores, na Gafanha, onde além de vendedor fazia também orçamentos de aplicações de estores ou persianas.

Como é ambicioso e não queria passar o resto da vida a vender cadeiras, no final do secundário fez um curso de director comercial no CESAI e com apenas 21 anos decidiu arriscar meter ombros à empresa de organizar a Meia Maratona da Rota da Luz, uma aposta que se revelou ainda melhor  que um 13 no Totobola.

As coisas não podiam ter corrido melhor. Carlos Móia, do Maratona Clube de Portugal, contactou-o mal soube dessa iniciativa e propôs-lhe juntar  Taça dos Clubes Campeões Europeus de Estrada à prova que ele estava a organizar. Tudo isto era música para os ouvidos de Ulisses. A prova foi transmitida pela RTP e coberta por um batalhão de jornalistas estrangeiros, em particular espanhóis e italianos.

Embalado por este êxito, Ulisses fundou, em 1995, como o seu amigo Diamantino, a Sportis, para organizar e rentabilizar comercialmente eventos desportivos. Em cima do estrondoso sucesso da Meia Maratona da Rota da Luz, negociaram com a Federação Portuguesa de Atletismo os direitos de publicidade nos Nacionais de Corta Mato.

A Sportis está nas duas meias Maratonas corridas em Lisboa – a de Portugal (ponte Vasco da Gama) e a de Lisboa (ponte 25 de Abril) – como organizadora das provas paralelas e prestadora de serviços. E, na sequência de um acordo com o Ministério da Educação, uniformizou as provas regionais de corta mato do desporto escolar, escolhendo percursos e definindo um calendário.

Com a sede num distrito como o de Aveiro, é natural que o basquetebol fosse a segunda modalidade em que investiram, inovando ao organizar duas edições de um inédito Mundialito de basquete de praia.

Como é natural, nos 14 anos de vida da Sportis não há apenas Aljubarrotas. Também se devem registar alguns Alcaceres Quibires, como a loja de artigo de desportos que não aguentou a concorrência da SportZone ou os 200 mil euros de prejuízo acumulados na época (2003/04) em que acordaram com Luís Filipe Vieira gerirem o basquetebol do Benfica.

“Não se perdeu tudo. Ficamos com boas relações com o clube. Somos nós que organizamos a Corrida do Benfica”, ameniza Ulisses, que deixou de jogar futebol com 25 anos (curiosamente na época em que o Benfica da Gafanha subiu à I Distrital), quando acrescentou o agenciamento de futebolistas ao rol de actividades da Sportis: “Deixei de ter os fins de semana livres para jogar, pois tinha de estar noutros campos e na bancada, a observar jogadores”.

As mais lucrativas e vistosas actividades da Sportis são as mais recentes: a representação de jogadores, área que se intensificou desde que em 2005 Ulisses se tornou agente FIFA, e o Bike Tour, iniciativa que apesar de ir apenas no seu quarto ano de vida já ganhou dimensão mundial, com etapas em S. Paulo, Paris, Madrid e Lisboa. A próxima escala é Nova Iorque.

“O projecto nasceu da necessidade, sentida em conversas com o Instituto da Droga e Toxicodependência, de promover estilos de vida saudáveis e contrariar todo o tipo de dependências. Começamos cá. Em 2008 fomos para Madrid, no ano passado para São Paulo, e a iniciativa passou a ser  internacional. Deixou de ser o Bike Tour do Porto, para passar a ser o World Bike Tour que se realiza em diferentes cidades” explica.

Mais de 80 mil pessoas já pedalaram nos Bike Tours organizados pela Sportis, que tem um orçamento de dois milhões de euros para cada prova e já registou a marca que está a estender a outros produtos, como o My Bike Tour Card que vai lançar no Brasil, em que se acumulam pontos, sempre que o seu utente usa uma ciclovia em S.Paulo, reforçando as hipóteses no sorteio de  50 viagens, com tudo pago, para participar num dos bike tours europeus.

Para se ter uma ideia do impacto que esta iniciativa está a ter no Brasil, basta dizer que esgotaram em 37 minutos as seis mil inscrições abertas, na Internet,  para o World Bike Tour S.Paulo 2010, e que as 500 inscrições extra, postas a sorteio, receberam 100 mil candidaturas.

O sucesso dos Bike Tours é enorme, ao ponto ter obrigado a Sportis a comprar uma fábrica de bicicletas, mas os olhos de Ulisses brilham mais quando fala da sua actividade como empresário de futebolistas.

Na sua caderneta de cromos de carne e osso tem 22 jogadores e já leva no curriculum a transferência do lateral esquerdo internacional brasileiro Adriano, do Curitiba para o Sevilha, bem como a do defesa direito Nelson (ex-Benfica) para o Bétis, de Gillas do Celta para o Hull City, e de Edinho do Málaga para o PAOK – além de ter trazido Linz, Peter Jehle e Kaz para o Boavista e ter colocado Elano no Shaktior Donetz.

Emídio Rafael, o defesa esquerdo da Académica, é a resposta que dá quando lhe perguntamos qual vai ser a próxima grande transferência  em que vai estar envolvido. Estou convencido que não vai demorar muito até ele estar num grande e na Selecção A”, vaticina, antes de detalhar a operação, de contornos quase militares, em que colaborou com Jorge Mendes, quando Rodrigo Tello trocou o Sporting pelo Besiktas.

“O muito que aprendi nos anos que joguei no Benfica e no Grupo Desportivo da Gafanha tem sido muito útil na minha actividade como empresário. Sei ver as coisas por dentro, como é que um futebolista encara os treinos, os jogos e o treinador. O balneário é igual em todas as divisões”, concluiu Ulisses Ferreira dos Santos.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada em O Jogo

 

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