Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Mafalda Amaral

 

Neta de Vasco Morgado, cresceu nos bastidores do Monumental, a ver a avó, Laura Alves, no palco, em revistas, operetas, comédias e dramas. Trabalhou no sector financeiro, enquanto estudava Economia. Tinha 27 anos e estava na Cofaco quando a vida lhe pregou a partida de lhe dar um filho com paralisia cerebral, forçando-a a trocar as conservas de atum pela edição de livros para crianças

 

 

Idade: 39 anos

O que faz:  Director geral da Edicare

Formação:  Licenciada em Economia pela Lusíada, em 1995,  fez posteriormente uma pós graduação na Católica em Finanças Empresariais

Família:  Casada com um economista, de quem tem dois filhos, o Zé Maria, 13 anos, e o Frederico, 12

Casa:  Andar na Lapa, Lisboa

Carro:  Deixou de ter carro desde que há dois anos lhe roubaram, à noite em Telheiras a sua Nissan pick up, que nunca mais apareceu. Ainda encarou a hipótese de comprar um Smart, mas como não cabia lá dentro a cadeira do Frederico e a sede da Edicare fica no mesmo bairro em que mora, decidiu passar a andar a pé, poupando nas multas de estacionamento, revisões, seguros e gasolina

Telemóvel:  iPhone

Portátil: Toshiba Qosmio  

Hóbis: Acima tudo gosta de ler (“Indignação”, de Roth, era o livro que tinha na mesinha de cabeceira) e de reler, sendo que a morte recente de Frank McCourt foi o pretexto para revisitar “As Cinzas de Ângela” - “uma história lindíssima”, não resiste a comentar. Vai regularmente ao cinema, nas Amoreiras, e ao ginásio. E adora jogos de estratégia, em particular Rome e Medieval

Férias:  No Verão fazem quinze dias de férias na praia Verde, em Tavira, em que leva oito crianças. Para este ano estão a planear aos Estados Unidos, hesitando entre Miami e Chicago

Regra de ouro: “As pedras no caminho quero-as todas para um dia construir um palácio. Temos de saber dar tempo às coisas, sermos persistentes e perceber  que sai caro não dizer as coisas no momento certo”

 

 

A vida pregou-lhe uma partida quando ela tinha 27 anos, marido, um filho bebé e uma promissora na área financeira da Cofaco, o maior grupo industrial conserveiro português.

Para trás, tinha uma existência preenchida, como não podia deixar de acontecer à mais velha das netas de Laura Alves e Vasco Morgado, crescida na órbita do Monumental e desde cedo habituada a tratar por tu as alegrias e tristezas da vida - fossem elas sentidas nos bastidores ou fingidas nos palcos.

Com as desventuras empresariais do pai e o seu divórcio da mãe, aprendeu que a vida não é um mar chão e precocemente começou a desembrulhar-se. Aos 17 anos, já a vemos a viver sozinha, hesitando entre Economia ou Arquitectura e sonhando com uma carreira internacional.

Dois anos depois, arranjava, sem querer, o primeiro emprego, ao meter uma cunha ao padrasto para que o banco onde ele administrador (BPA) lhe emprestasse 600 contos para ela comprar um computador IBM. Em alternativa ao crédito, ele arranjou-lhe um emprego na Credinova.

Fez o curso de Economia sempre a trabalhar. Trocou a Credinova pela Unicre, onde ganhava mais e tinha um trabalho mais interessante, e ainda passou pelo BCM. A excepção foi o último semestre, em que foi estudante a tempo inteiro para fazer a cadeira Econometria.

Acabado o curso, meteu logo as mãos na economia real, Foi para a Cofaco, um grupo conserveiro (Bom Petisco, Atum Tenório) açoriano que aproveitava os fundos comunitários para proceder a uma profunda reestruturação interna, que inclui fechar fábricas velhas, abrir novas e despedir pessoal.

Foi nesta altura que a vida lhe pregou a partida de Frederico, o seu segundo filho, nascer com paralisia cerebral. Durante alguns anos, tentou conciliar o controlo de gestão de um grupo em ebulição com a aprendizagem de como lidar com uma criança com necessidades especiais. Aos 33 anos concluiu que as duas coisas eram incompatíveis e foi para casa. Aprender a cuidar do filho e a militância na direcção da APPC (Associação Portuguesa de Paralisia Cerebral) eram as suas novas prioridades.

“Não dava mais para manter um emprego por conta de outrém”, explica Mafalda, que como percebeu que para garantir o seu equilíbrio precisava de fazer outra coisa, optou por antecipar o subsídio de desemprego e criar uma editora, juntando a sua paixão pelos livros com os conhecimentos adquiridos pela necessidade de cuidar do Frederico.

Demorou dois anos a desenhar o projecto e o plano de negócios. Como estava a preparar a entrada num sector com uma concorrência fortíssima, não podia deixar nada ao acaso, nem copiar nada de existente. Em 2005, a Edicare Editora Lda começava a facturar.

A coisa está a correr bem. Com uma estrutura pequena (“somos sete, a caminho de oito, mas bem precisávamos de ser 12”), facturou em 2009 1,1 milhões de euros e mantém activas 900 referências de livros, passatempos e brinquedos educativos.

Pelo caminho, fez correcções da rota. Dada a estreiteza do nosso mercado, teve de deixar cair a grande aposta inicial nos produtos para crianças com necessidades especiais e guias para os seus pais. E foi obrigada a criar a sua própria distribuidora. Apesar disso, está a atingir os objectivos traçados no plano de negócio e acredita que este ano vai ser muito bom. “O truque é ser persistente e, às vezes, não pensar muito senão não se faz”, concluiu Mafalda, a gestora que a vida transformou em empresária.

Jorge Fiel

Esta matéria foi publicada no Diário de Notícias

 

23 comentários

Comentar post

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Mensagens

Arquivo

  1. 2013
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2012
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2011
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2010
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2009
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2008
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2007
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D