Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

A vantagem do IPod como repelente de chatos

 

 

O excesso de idade é uma coisa tramada e não me estou a referir aos mais banais malefícios do envelhecimento, como o facto da longínqua data do nosso desembarque neste mundo (eu sou de 56, o ano do Tratado de Roma) nos colocar automaticamente nos lugares cimeiros das listas de despedimento das empresas ineficientes. Devo reconhecer que fiquei incomodado quando, a semana passada, estava a flanar na Almedina do Arrábida Shopping, a fazer horas para ver o Greenberg (recomendo!), e dei de caras com um livro de auto-ajuda intitulado Encontrar Emprego Depois dos 50 – façanha tão provável como nascerem dentes na boca de uma galinha ou cabelos na cabeça de um careca.

O que me chateia mesmo é a fatalidade da quantidade de gente nossa conhecida aumentar em relação directamente proporcional com a idade e inversamente proporcional à capacidade da nossa memória - situação geradora de embaraços. Noutro dia, tropecei num tipo que aparentava conhecer-me de ginjeira, pois saudou-me com um franco: “Ó Fiel, tu estás redondo!”. O triste é que não se fez luz no meu espírito, apesar das coordenadas que ele, simpaticamente, ia debitando: que era o Monteiro, que tínhamos sido colegas na faculdade, que na altura ele usava barba, que eu tinha vagamente namorado com uma prima dele. Tive de assumir a derrota (“É pá, sabes, estou gagá!”), confessar envergonhado que não me conseguia lembrar dele, o que não foi uma saída airosa ou lisonjeira - nem para mim nem para ele.

Depois há aquelas pessoas em que tropeçamos e de que nos recordamos perfeitamente, mas melhor seria se não nos lembrássemos. Estou a falar daqueles chatos que levam a sério quando lhes atiramos o “Olá pá, está bom? A vida corre-te bem?”, com que apenas os queremos despachar, e devolvem-nos, na volta do correio, um relatório circunstanciado sobre a evolução da sua tensão arterial, bem como dos níveis de colesterol, triglicéridos e açúcar no sangue. Uma maçada!

Tenho pensado muito em truques para me desembaraçar de tipos pegajosos. Em O Turista Acidental, William Hurt usava, nas viagens de avião, a leitura de um livro como pára-raios face a vizinhos que estão sempre mortinhos por meterem conversa com o passageiro do lado. Eu ando a testar o Ipod como repelente de chatos. Tem dado um resultadão. Ter os ouvidos tapados com fones é um belíssimo álibi para evitar conversas embaraçosas com as pessoas que nos cumprimentam. Basta acenar-lhes, fazer o sorriso que quer dizer “agora não pá, estou a curtir a minha música” -  e manter a cabeça ocupada com algo realmente importante, como as belas poesias amargas das canções da Aimee Mann.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias

28 comentários

Comentar post

Pág. 1/2

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2013
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2012
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2011
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2010
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2009
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2008
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2007
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D