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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Manuel Teixeira

 

Manuel Teixeira, 41 anos, é o presidente executivo da ANJE, a associação com sede no Porto que reúne cerca de cinco mil jovens empresários espalhados pelo país e que, entre outras coisas, organiza o Portugal Fashion. Licenciado em Gestão de Empresas pela Universidade do Minho, foi com as mãos no volante, em ralis e provas de velocidade, que aprendeu a gerir sob pressão. “Estar em stress é, para mim, o estado ideal para trabalhar. Foco-me mais e sinto que sou mais criativo. Sou viciado em adrenalina. Dá-me gozo viver sob pressão, mas não sem pára-quedas. Não é o abismo. Gosto de ter os meus trunfos”, explica o homem que conquistou o Troféu Starlet, em 1995, apesar de a meio do campeonato ter sofrido um grave acidente que por pouco não lhe custou a vida

 

Nasceu e cresceu em Famalicão e fez o curso de Gestão de Empresas na Universidade do Minho, mas não gosta do circuito de Braga. “É muito lento. Tem uma curva perigosa que faz a diferença”, analisa Manuel Teixeira, 41 anos, presidente da Comissão Executiva da ANJE, uma associação com sede no Porto e que reúne cerca de cinco mil jovens empresários espalhados por todo o país. Francisco Maria Balsemão é o outro presidente (o da direcção nacional) desta organização, de que o Portugal Fashion é provavelmente a mais vistosa das suas iniciativas.

A curva perigosa, no final da recta da meta e à entrada dos S, do circuito de Braga não tem segredos para ele: “Chega-se lá a 190 km/hora, dá-se um toque no travão, respira-se fundo e só se trava depois da primeira curva”.

Na segunda época em que disputou o Troféu Starlet, na categoria de Iniciados, o campeonato ia a meio e Manuel Teixeira ia na frente quando chegou a vez do circuito de Braga. No final da segunda volta, estava na liderança da corrida quando chegou à dita curva perigosa. Deu um toque no travão, respirou fundo e quando ia a travar o seu Toyota Starlet branco levantou voo, após ter sido tocado por José Ramos, neto de Salvador Caetano e o seu mais director perseguidor na luta pela vitória na corrida e no troféu.

“O carro ia todo desequilibrado, a andar em cima de três rodas. Com o toque levantou voo, deu três ou quatro voltas antes de estabilizar virado ao contrário, com as rodas para cima. Durante uns segundos fiquei ali parado, no meio do S, de cabeça para baixo, a ver os outros 20 e tal carros a passarem. Felizmente nenhum me tocou. Foi um susto! Foi tudo muito rápido mas lembrei-me que quatro anos antes, em Vila do Conde, num acidente parecido, um piloto morreu porque um dos concorrentes que vinha atrás não conseguiu evitá-lo e chocou contra ele”, recorda.

Ficou cheio de dores e, pior ainda, sem carro, o que era grave pois no entretanto tinha sido descontinuada a produção dos Starlet. Mas nem sequer lhe passou pela cabeça deixar de competir. Não descansou enquanto não desencantou um carro e o preparou a tempo de estar na grelha de partida na prova seguinte. Limpou o troféu apesar de ser um carro diferente (“não há dois carros iguais”) e de não o conhecer bem. Em dez corridas, fez cinco primeiros lugares e quatro pódios – só não pontuou na corrida de Braga em que o seu carro foi transformado em sucata na curva perigosa.

“Depois do acidente voltei à competição com uma vontade redobrada de vencer. Ainda com mais frieza, profissionalismo e rigor”, explica Manuel Teixeira, que logrou sagrar-se campeão ainda antes da última corrida, no que foi o maior feito da sua carreira de cinco anos como piloto de automóveis.

Depois, chegou a ter em cima da mesa a hipótese de correr no campeonato espanhol de Turismo. Mas a dimensão do orçamento necessário (rondava os 50 mil contos) obrigou-o a recuar e a apostar no Troféu Carina E, onde se demorou duas épocas, mas não foi feliz. Ao contrário do Starlet, que era extremamente fiável, o Carina era um carro que dava muitos problemas mecânicos. “Foi muito frustrante. Gastei rios de dinheiro e nunca acertamos com a preparação. Ganhei alguns pódios e alcancei bons resultados, mas com pouca regularidade”, confessa o presidente executivo da ANJE, que atirou a toalha ao chão depois de ter ficado num decepcionante 4º lugar na sua segunda presença no Grande Prémio de Macau: “A meio da corrida fiquei sem ABS nos travões, quando tinha todas as hipótese de ganhar. No final, ao falhar o pódio, conclui que assim não dava e desisti”.

Dos cinco anos nas corridas, Manuel Teixeira trouxe o hábito de conduzir depressa (elogia, por exemplo, o comportamento do seu Mercedes R 320 CDI familiar por “estabilizar bem a 240 km/h”) e de viver sob pressão: “Estar em stress é, para mim, o estado ideal para trabalhar. Foco-me mais, e sinto que sou mais criativo. Sou viciado em adrenalina. Dá-me gozo viver sob pressão, mas não sem pára-quedas. Não é o abismo. Gosto de ter os meus trunfos”.

Nasceu em Louro, Famalicão já com a mania das velocidades e bicho do empreendedorismo inscritos no ADN. Manuel Francisco Teixeira, o avô paterno, era o dono da Sedil. O pai, Lígio Teixeira, casado com Arminda Sousa Lopes, herdeira dos armazéns C. Lopes de Famalicão, ainda continua a ter uma palavra a dizer no comando dos negócios da família (cujos tentáculos se estenderam desde supermercados e cash and carry até às bombas de gasolina, passando pelo representação da Mobil), que está entregue a Marta 38 anos, a irmã mais nova de Manuel, que lhe dá uma mão sempre que a gestão da ANJE e da sua consultora na área têxtil lhe deixam tempo livre – ele vive em stress permanente mas até gosta disso!

Mal tinha começado a andar e já se deliciava com os primeiros passeios de carro, a bordo do Ford Taunus familiar do avô, e se entusiasmava com frenesim da preparação dos ralis pirata em que o pai participava, ao volante de um Ford Cortina Lotus ou de um Datsun 1200, e organizava com os amigos e a cumplicidade das autoridades locais, que não se limitavam a fechar os olhos a essas competições não autorizadas, quase sempre realizadas em troços de terra batida – também davam uma ajuda fechando os troços, para garantir a segurança daquelas provas improvisadas.

Ainda era analfabeto e já delirava com as narrativas, que o pai fazia à mesa, das facécias dos ralis (a que ele não assistia porque a mãe não deixava) de onde trazia troféus que o faziam sonhar. Nos gloriosos tempos do Rali TAP (depois Rali Vinho do Porto), andava ele na primária, era uma excitação quando ia com o pai ver as classificativas – e não raro ficavam hospedados no mesmo hotel dos pilotos. Marku Allen era o grande ídolo, à época, mas ele preferia Hannu Mikkola. Na velocidade, apreciava Pêquêpê nas corridas caseiras, e os brasileiros Piquet e Fittipaldi, na Fórmula 1.

“Lá em casa líamos tudo sobre o desporto automóvel. O Motor, depois o Volante, Autosport, e Turbo. A minha paixão pelos automóveis foi sempre muito racional. Eu gostava de analisar a trajectória que os pilotos usavam nas curvas, a sua condução debaixo de chuva”, diz, acrescentando não ser do género de ter posters de carros e pilotos nas paredes do quarto – até porque a mãe não aceitaria isso.

Tinha 11 anos quando recebeu o seu primeiro veículo motorizado, uma Solex, que estava apenas autorizado a usar no interior do perímetro da quinta da família ou no Mindelo, onde tinham casa de praia. As deslocações de ida e volta para as Caldinhas, em Santo Tirso, eram feitas a bordo da carrinha do colégio jesuíta onde completou o Secundário.

Aos 14 anos, ganhou a primeira motorizada, uma Yamaha DT, que logo adaptou para o motocrosse, praticado numa pista que improvisou na quinta, onde fazia corridas pirata com os amigos – quem sai aos seus. Tinha jeito, os pais sabiam disso (ele entrava em casa a fazer cavalo), mas nunca os conseguiu convencer a deixarem-no competir a sério no motocrosse, pois não queriam que ele se distraísse do essencial, que era fazer o curso. “O meu pai sempre me prometeu que não me faltaria com dinheiro e apoios para eu correr. Mas só depois de acabar o curso” disse.

Até ao 12º ano, a ideia era ir para Arquitectura. Mas na hora de decidir, seguiu o conselho do pai e foi para Gestão de Empresas. Como se portava bem e cumpria os objectivos, aos 18 anos tirou a carta (na verdade,  já sabia conduzir desde os 14 anos, ensinado pelo pai que o incentivava a guiar dentro da quinta, de forma controlada e vigilante) e teve o seu primeiro carro, um Opel Corsa GT amarelo (a única cor disponível), que ele mandou pintar de preto após três meses a ser gozado pelos colegas.

Durante o curso, iniciou-se na bolsa, comprando e vendendo acções, actividade que lhe seria útil no futuro (o primeiro emprego foi na dealer do Sottomayor), e ia dando vazão à sua paixão pelos automóveis. Como à época poucos estudantes tinham carro, os parques de estacionamento da Universidade do Minho eram o local ideal para treinar os piões que aprendera a dar, com 15 anos, na quinta da família, ao volante do Alfa Romeu do tio, prática que lhe seria útil nos rali paper onde invariavelmente se destacava nas gincanas.

Como o prometido é devido, mal acabou o curso, em 1992, o pai comprou, por 1800 contos, um R5 GT Turbo para ele poder disputar ralis. Manuel não tinha dúvidas de que conduzia bem. Mas não sabia como me comportaria em competição. A prova dos nove foi logo na estreia, no Rali de Famalicão, onde havia mais de 80 inscritos.

Cometeu o erro original de escolher para co-piloto um amigo, que gostava de ralis mas não percebia nada de notas. De manhã, no primeiro troço, da Vilarinha, isso não contou, porque ele conhecia o trajecto de cor e salteado, por isso aproveitava tudo quanto era metro, excitado pelo entusiasmo do público que lhe cortava a visão da saída das curvas, o que era assustador. Apesar disso, teve a grata surpresa e enorme alegria de fazer o 2º melhor tempo, apenas mais dois segundos que o primeiro. E na segunda passagem, igualou fez exactamente o mesmo tempo do primeiro.

O problema foi à tarde. Ele não conhecia o segundo troço, a meio o pendura confessou estar perdido, ele disse-lhe “Então está calado, não digas nada” e foi andando pró ali fora, às apalpadelas, o mais rápido possível, até que a 200 metros da meta fez uma curva rápida a fundo e o R5 GT Turbo foi em frente subiu o morro e desfez-se todo.

“Aprendi que além de andar rápido e sangue frio é preciso saber sempre exactamente quais são os limites - e que as corridas tinham de ser preparadas com mais profissionalismo”, conta Manuel, que não demorou muito até perceber que a sua actividade profissional no CITEVE (centro tecnológico da indústria têxtil) era incompatível com os ralis que exigiam muito mais tempo de preparação do que as provas de velocidade, onde meia hora de treino bastavam para aprender a tirar metros da pista. E mudou-se para o Troféu Starlet, onde, a meio da segunda época, no circuito de Braga,  ficou de pernas para o ar nos S, a ver vinte e tal carros a  passarem por ele, porque o neto de Salvador Caetano lhe deu um toque e fez o seu carro voar, quando, após a segunda passagem pela recta da meta, depois de ter chegado a 90 km/h à curva perigosa, deu um toque no travão e respirou fundo, preparando-se para travar apenas depois da curva…

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada em O Jogo

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