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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Luis Brás

Luís Brás, 44 anos, é o empresário que dirige a cadeia de 60 centros de fotodepilação Não + Pêlo. Interrompeu os estudos com 18 anos, para começar a trabalhar num armazém do avô. Foi ajudante de farmácia, vendeu tabaco açoriano, isqueiros Zippo e canetas Parker, desenvolveu as lojas Pierre Cardin. No râguebi, onde foi vice-campeão nacional com a camisola às riscas horizontais vermelhas e pretas de Direito, temperou o carácter e aprendeu o necessário para triunfar na vida. “É um desporto viril, em que é preciso ter força, espírito de sacrifício e aguentar maldades. Mas isso só nos prepara para a vida, que também é muito dura. Não podemos ser nem santinhos nem anjinhos. Para ser bem sucedido, é preciso ser determinado e ir em frente até cumprir os objectivos”, diz

 

“És bruto como uma porta! Estavas bem era no râguebi”. Na origem de tudo está este desabafo do treinador de basquetebol do Olivais, farto de tentar convencer, sem sucesso, o jovem Brás a usar menos o corpo e moderar as entradas sobre os adversários, para não estar sempre a prejudicar a equipa com a acumulação de faltas técnicas.

Luís tinha 12 anos, bom físico (o inconveniente é que abusava dele, pelo menos a acreditar na opinião do treinador do Olivais) e uma enorme apetência pela prática do desporto. Jogou futebol na escola, chegou a correr pelo Sporting e passou pelo andebol do CDUL, até que decidiu levar à letra o desabafo do treinador de basquete.

Sabia que o Nuno, seu colega no Liceu Camões, jogava râguebi. Pediu-lhe que o levasse a um treino da sua equipa (os Cangurus), no Estádio Universitário. A sua impetuosidade agradou ao “doutor” (era assim que a rapaziada tratava o treinador), que disse que sim, ele podia ficar. “No final, o Nuno perguntou-me se eu tinha gostado, eu respondi-lhe que sim e nunca mais falhei um treino, salvo motivo de força maior”, recorda.

Treinava duas vezes por semana, das quais pelo menos uma vez em pelado, com evidente prejuízo para os seus joelhos, que andavam sempre esmurrados, e para o equipamento, que ficava sempre em mísero estado. A mãe ralhava e tentava convencê-lo a deixar aquele desporto de brutos, mas ele fazia ouvidos de mercador. Durante um ano e meio, como juvenil, alinhou com a camisola às riscas horizontais pretas e brancas dos Cangurus, que trocou pela das riscas, também horizontais, vermelhas e pretas do Grupo Desportivo de Direito, quando passou a júnior. 

Jogar em Direito, mas não estudou Direito nem fez qualquer outro curso superior porque a sua rebeldia não se limitava às consecutivas faltas técnicas que irritaram o treinador de basquete dos Olivais. Estendia-se também às salas de aulas. Um segundo chumbo no secundário, desta vez no 10º ano, fez subir a mostarda ao nariz da mãe, que decidiu interná-lo no Colégio Nuno Álvares Pereira em Tomar.

Em alternativa, Luís contra-propôs ficar em Lisboa, a trabalhar durante o dia num armazém do avô (que tinha um negócio de produção de queijos e de armazenamento e distribuição de produtos alimentares) e a estudar á noite. E para derrubar as últimas reticências maternas à sua sugestão lá lhe foi explicando que estava quase a fazer 18 anos, o que equivalia a dizer que estava à beira de ficar legalmente habilitado a fazer o que lhe apetecesse – e um colégio em Tomar estava completamente fora dos seus planos.

A trabalhar de dia e a estudar à noite, teve de pôr o râguebi entre parêntesis, para grande mágoa sua, pois o treinador tinha-lhe confidenciado que estava a ser observado para ser chamado à selecção e ia haver uma digressão pela Escócia.

O nomadismo que caracterizou a sua passagem pelo secundário, cumprida em quatro escolas (Marquesa de Alorna, Camões, Lumiar e Maria Amália), voltou a fazer-se notar na primeira fase da sua prematura carreira profissional. Não chegou a completar um ano no armazém do avô, que trocou por um emprego de ajudante na farmácia dos primos, em Santo António dos Cavaleiros, onde se demorou dois anos, após o que deixou para todo o sempre de ter familiares como patrões e fez um upgrade de caixa para caixeiro viajante.

Os estudos, esses ficaram no tinteiro, ficando-se pelo 11º ano incompleto, uma formação que complementaria com a escola da vida e um número não negligenciável de cursos de vendas, de informática e de gestão (na AESE).

Tinha 23 anos e a emancipação completa foi ungida por uma volta de carro pela Europa. Foi viver sozinho, para um apartamento em Benfica, comprou o primeiro carro, um VW Polo G40, e descobriu a sua vocação a vender material de escrita, isqueiros Tokai, bem como tabaco açoriano e holandês, a armazenistas, quiosques, papelarias e tabacarias. Simpático e comunicativo, cedo ganhou a reputação de bom vendedor que lhe escancarou as portas da Parker, que era o Real Madrid dos vendedores de canetas, onde voltou a brilhar a grande altura.

A sua carreira profissional estava definitivamente lançada quando um belo dia, estava ele a comprar uns discos na discoteca Via Veneto, tropeçou no Mário Castro, seu antigo colega nos juniores de Direito. Aprendeu que o amigo continuava no râguebi com a resposta à pergunta inevitável nestes reencontros (“Então!? Que é feito de ti?”), e deixou escapar a pena que sentia por ter deixado de jogar.”Se estás com saudades, por que é que não voltas?”, interrogou Mário. Luís pensou “não é tarde, nem é cedo” e voltou às molhadas.

Logo no ano do regresso e da sua estreia como sénior, andou quase dois meses com a perna engessada por ter feito uma ruptura de ligamentos numa molhada. Mas não desistiu. Treinava três vezes por semana, corria todos os dias uma hora, no final do trabalho, e jogava ao fim de semana, nas linhas atrasadas, a ponta, posição que exige rapidez de pernas e bastante determinação.

“Quando atacávamos e eu recebia a bola, tinha de correr até chegar à linha e fazer o ensaio. Quando a equipa adversária iniciava o ataque, cabia-me impedir que a bola saísse - e chutá-la para a frente ou abrir para o arriére”, sintetiza Luís, que não perdia um dos jogos do Torneio das Cinco Nações que a RTP transmitia e eram comentados por Cordeiro do Vale. A França (onde alinhava Blanco, provalemente o maior dos seus ídolos), porque jogava muito à mão, e o País de Gales eram as suas selecções favoritas.

Luís foi vice-campeão nacional em 93/94, época em que Direito deixou escapar o título para o Cascais, ao perder os dois jogos com esta equipa. E na época seguinte, aos 29 anos, deixaria pela segunda vez o râguebi. Tomou a decisão no final no primeiro treino orientado por Tomás Morais. “Percebi que não já não tinha pedalada”, resume Luís, que por esta altura estava num momento de viragem da sua carreira profissional.

Abandonou a bola em forma de melão ao mesmo tempo que o lugar de vendedor de canetas Parker e isqueiros Zippo, para agarrar com as duas mãos um convite do grupo Regojo, que viu nele a pessoa certa para dar a voltar à representação da marca francesa Pierre Cardin que tantas dores de cabeça lhes dava. Luís mudou-se para os trapos, estudou a situação e fez um diagnóstico certeiro, solucionando os problemas a abertura de lojas próprias – controlavam a qualidade, ganhavam o dobro e não tinham problemas de cobrança. Deu resultado.

A bem sucedida experiência com as lojas Pierre Cardin e a amizade com a família Regojo são a pré-história do negócio que absorve agora o essencial da energia de Luís, que no lançamento, em franchise, da cadeia de lojas Não + Pêlo passou a acumular a faceta de empresário à de vendedor. Em pouco mais de um ano e meio, conseguiu que 17 mil portuguesas (70% da clientela) e portugueses (30%) se vissem livres de pêlos em zonas consideradas indesejáveis – axilas, pernas e virilhas, no caso das mulheres, e por todo o lado, no caso dos homens – através de um método inovador, a fotodepilação que é mais durável e indolor que a cera, e mais barata (30 euros por zona) que o laser. O baixo preço que custa abrir um centro Nem + Pêlo (o pacote fica por 30 mil euros) permitiu a abertura de mais de 60 lojas em menos de dois anos e estimulou Luís a formatar um novo conceito (Não+Dietas) para fazer dinheiro correspondendo às preocupações estéticas dos portugueses.

No entretanto, Luís voltou ao râguebi aos 35 anos, alinhando regularmente na equipa de veteranos de Direito, que no fim-de-semana passado disputou, no campo de Monsanto, um quadrangular com uma equipa alemã, Santarém e S. Miguel. E o seu filho de onze anos, que também se chama Luís, está a seguir a paixão do pai e joga na equipa sub 12 de Direito.

“Como se costuma dizer, o râguebi é um desporto de arruaceiros jogado por cavalheiros. É também uma grande lição de vida. Temos de ter muito amor à camisola, uma enorme dedicação, espírito de sacrifício, ser lutador e ganhador. Fazem-se grandes amizades que duram, pois a entreajuda é o princípio base do jogo – é como a divisa dos Três Mosqueteiros, um por todos, todos por um. É uma modalidade viril, em que é preciso ter força e aguentar algumas maldades. Mas isso só nos prepara para a vida, que também é muito dura. Não podemos ser santinhos, nem anjinhos”, afirma.

Luís está na vida como no campo, quando apanha a bola e desata a correr em direcção à linha, para fazer um ensaio. “Para se ter sucesso é preciso ter determinação e ir em frente até cumprir os objectivos e alcançar as metas que fixamos” conclui.

 

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada em O Jogo

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