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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

José Nuno Amaro

José Nuno Amaro, 40 anos, sabe que o verdadeiro obstáculo na vida não é a falta de dinheiro, mas de ideias. Por isso, a sua empresa chama-se IdeiaBiba. Caminhou 1,75 km em cima de água, pôs os universitários do Minho a andar de bicicleta e proporcionou a sensação de estar na Lua a 160 mil crianças. Titular da baliza do Recreio de Águeda aos 17 anos, passou pelo Freamunde, Gil Vicente, Braga e Chaves até que, aos 27 anos uma saída em falso a um cruzamento da vida lhe arrumou com a carreira, quando tinha à espera um contrato milionário com o Las Palmas. Habituado, como guarda redes, a viver no balanço entre a ansiedade e a agonia, recomeçou de novo, a vender bilhetes num cinema em Rio Maior. “O passado faz parte do museu”, diz este empresário que ganha a vida a vender emoções 

 

Zé Nuno Amaro rechaçou com os punhos a angústia do guarda-redes face ao final prematuro de uma carreira que podia ter sido ainda mais bonita se não fossem os azares em que às vezes a vida é fértil.

Vendeu bilhetes no cinema de Rio Maior que geriu com a primeira mulher, após ter pendurado as luvas com 27 anos. Para entrar no Guinness, caminhou 1 750 metros em cima da água (dentro de uma bola transparente), na ria da Aveiro. Pôs os estudantes da Universidade do Minho a andar de bicicleta, no âmbito do projecto BUTE (Bicicleta de Utilização Estudantil) que ganhou o prémio nacional de mobilidade. Finalmente proporcionou a sensação de viver uma experiência espacial e de estar na Lua a 160 mil crianças portuguesas, polacas, húngaras, checas, espanholas, italianas, etc.

“Vendo emoções. É isso que eu faço”, remata o antigo guarda redes, que após ter percebido que o verdadeiro obstáculo na vida não é a falta de dinheiro, mas sim a falta de ideias, baptizou de IdeiaBiba a sua empresa, cujo coração bate em Águeda, num enorme armazém a que ele chama fábrica de eventos, onde se acumulam vestígios das suas acções – a mais recente das quais foi a apresentação da Volkswagen no Estoril Open. 

Não deixa de ser curioso ter ido parar à baliza por ser pequenino, ou seja mais fraco e por isso com menos capacidade para espingardar por ter sido chutado para o posto menos atraente. A alternativa era não jogar – o que era bem pior. Agora, do alto do seu 1m85, recorda com ironia esse argumento, usado por amigalhaços que hoje são bem mais pequenos do que ele. 

“A vida é, tal como futebol, uma montanha russa em que tanto estamos em cima como em baixo. Não há vitórias antecipadas. O triunfo só está garantido quando o árbitro apita para o final do jogo”, filosofa um ex-futebolista que, como todos os guarda redes, aprendeu a viver no balanço entre a ansiedade e a agonia.

A sorte caiu-lhe em cima quando tinha ele nove anos e estava a ver o irmão (Carlos Miguel, que viria a jogar no Famalicão, Rio Ave e Belenenses e a quem uma lesão, num jogo contra o Benfica, impediu que cumprisse a promessa de ser o futuro André) no Torneio de Páscoa, em Águeda. O guarda redes aleijou-se e ele tomou conta da baliza, nunca mais a largando.

Aos 15 anos, era o dono incontestado da camisola nº1 quando uma lesão na mão a afastou na baliza. Como nunca foi homem para se atrapalhar, passou a alinhar a ponta de lança. “Nessa época, com 13 golos, fui o melhor marcador da minha equipa no Nacional de juniores. Se calhar não devia ter voltado à baliza”, recorda.

Precoce, tinha apenas 16 anos quando assinou o primeiro contrato como profissional, por três épocas pelo Recreio de Águeda, a ganhar 30 contos/mês no primeiro ano, 55 contos no segundo e 80 contos no terceiro.

Os pais (ele trabalhava nas bicicletas Órbita, ela na Comercial do Vouga, importadora das motos KTM) aceitaram, mas, como contrapartida, obrigaram-no a inscrever-se no curso nocturno na escola Marques Castilho. Ainda andou por lá três anos, mas desistiu sem trazer o curso de electromecânico.

Ele não queria saber de estudos. Apenas e só de futebol. E a carreira abria-se à sua frente, tão larga e veloz como uma auto-estrada alemã. Aos 17 anos, ainda com idade de júnior, estreou-se na equipa sénior do Recreio, que militava na Zona Centro da II Divisão Nacional..

Titular absoluto da equipa do Recreio aos 18 anos, chamou a atenção dos grandes, ao ponto de Osvaldo Silva o ter levado a prestar provas no Sporting, onde, devido às lesões de Damas e Bela Katzirz, fez um treino de conjunto em que Sousa (que viria a ser seu treinador no Beira Mar) e Pacheco (que viria a ser seu colega no Braga) se metiam com ele chamando-lhe Dasaev.

“Sempre admirei muito da agilidade e frieza do Dasaev. Dos estrangeiros também gostava muito do Zenga e do Preudhomme. Dos portugueses, nunca tive dúvidas. O melhor de todos foi o Vítor Baía” , diz, acrescentando, no entanto, que o ídolo da sua vida  não é um guarda redes, nem sequer um futebolista, mas antes o empresário Richard Branson, da Virgin.

Na sua segunda época como profissional , o Recreio disputou até ao final da época a promoção à I Divisão, perdida para a Académica. Como deu nas vistas, choveram os convites (Espinho, Trofense, etc) para mudar de ares. Pediu para ser transferido, porque em Águeda não aceitaram aumentaram-lhe o ordenado mensal, de 80 para 150 contos, como ele pretendia. Foi parar ao Freamunde, trocando a Zona Centro pela Zona Norte - e saindo pela primeira vez de casa.

No Freamunde , treinado por Jorge Regadas, ele e Pedro Barbosa foram as estrelas de uma equipa sensação, que perdeu a subida para o Gil Vicente, num jogo em que foram derrotados por 1-0 pela equipa de Barcelos, sendo que o golo foi na sequência de um penalti inventado – garante Zé Nuno.

Não subiu à I com o Freamunde, mas acabou por ir lá parar. Assinou contrato pelo Gil Vicente na Confeitaria Cunha, sob o olhar protector de Reinaldo Teles, cuja presença indiciava a atenção com o FC Porto seguia a carreira deste jovem e promissor guarda redes.

Foi nesta altura que lhe apareceram pela frente as primeiras esquinas da vida. Chamado sete vezes. por Norton de Matos e António Oliveira. para as selecções sub 21 e Olímpica, não fez parte da convocatória de Carlos Queiroz para o Mundial de Riade, apesar de ser um dos três do lote de seleccionáveis (os outros eram Hélio, do Vitória de Setúbal, e  Filipe, do Torreense) que já jogavam nos seniores. Na sequência da lesão de Vítor Baía, foi posto em stand by pela FPF, mas o escolhido acabou por ser o juvenil Brassard.

A sorte começou a pregar-lhe partidas, umas atrás das outras, interrompendo-lhe uma carreira sempre a subir. No Braga, para onde se transferiu após duas épocas em Barcelos, disputou a baliza com Quim (o que está no Benfica) e Rui Correia - que era quem jogava mais porque a direcção apostava em vendê-lo para um grande.

Farto de ser suplente, pediu para ser emprestado. Foi parar ao Chaves, onde foi titularíssimo e brilhou. Autuori pediu a sua contratação a Damásio, mas entretanto quer treinador quer presidente abandonaram o Benfica e a sua ida para a Luz ficou em águas de bacalhau.

Fez então uma aposta que parecia seguríssima, mas depois, vai-se a ver e perdeu tudo. Tinha 26 anos e era um futebolista livre, pois acabara de comprar o seu passe ao Braga por 350 mil euros. Era a altura de dar o grande salto em frente, mas acabou por estatelar-se ao comprido. 

O Las Palmas acenou-lhe com um contrato milionário de quatro anos, para a reabertura do mercado em Janeiro. Para não ficar parado quatro meses, resolveu fazer o início da época no Beira Mar, treinado por Sousa. Mal ele adivinhava que estava a fazer uma saída em falso a um complicado cruzamento da vida.

Começou a sentir as dores que iriam transformar o sonho espanhol num incrível pesadelo. No Beira Mar diziam-lhe que não era nada, mas as dores não paravam, o braço esquerdo começava a ficar preso, e Zé Nuno resolveu ir às Antas pedir a opinião do departamento médico do FC Porto. O diagnóstico do dr Zito foi rápido: uma vértebra danificada. Tinha de ir à faca. “Em duas horas perceberam o que os médicos do Beira Mar não conseguiram detectar em dois meses”, lamenta.

O Beira Mar não tinha seguro, a operação era arriscada, mas ele não hesitou. A intervenção cirúrgica (a primeira no nosso país em que foi usada uma prótese de titânio) correu bem, mas para a pagar ele foi obrigado a atirar-se para o chão – vendeu a casa, na praia da Vagueira, e ainda ficou a dever dinheiro.

Ficou bem das costas, mas os médicos decretaram-lhe o fim da carreira. Com 27 anos, casado, um filho (Nuno, que seis anos depois teria o João  um irmão mais novo), sem dinheiro e uma enorme vontade de jogar futebol, desobedeceu logo que lhe apareceu um empresário com um contrato para ir defender a baliza do Bradford.

Demorou-se apenas mês e meio por Inglaterra, o tempo necessário para perceber que fora enganado pelo empresário. Ficou farto, descalçou as luvas e fez-se à vida. Sentiu que tinha batido no fundo e fugiu a correr do mundo do futebol.

Estávamos em 1998 e recomeçou a vida com um cinema alugado em Rio Maior. Na viragem do século, apostou numa escola de guarda redes em Vagos. Mas foi através das bicicletas que emergiu do anonimato com o projecto BUTE, o que se compreende, pois nasceu e cresceu na região do país que é o berço da indústria das duas rodas - onde quer o pai quer a mãe trabalharam.

Zé Nuno sempre foi rápido a repor a bola em jogo. O pragmático mantra “o passado faz parte do museu” ajudou-o a ultrapassar a angústia do guarda redes perante o fim da carreira. Não olhar em frente é meter golos da própria baliza. Por isso, quando lhe perguntamos qual o melhor negócio da sua vida  ele não hesita na resposta: “Vai ser o próximo”.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada em O Jogo

 

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