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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Fernando Peres

Fernando Peres, 44 anos, é dentista e portista, tal como pai e o avô, e piloto de automóveis, como tio José, que por duas vezes triunfou no Nacional de Velocidade. Com 30 vitórias em ralis do Nacional, um recorde apenas superado por Joaquim Santos (36 triunfos), levou das pistas e das estradas para o seu consultório duas grandes lições: não há sucessos sem muito treino e o espírito de equipa é fundamental. Regionalista militante, o tricampeão nacional de ralis e líder da equipa Peres Competição queixa-se dos centros de decisão terem emigrado para Lisboa, levando com eles os patrocínios. E lamenta que o FC Porto seja a única bandeira que resta a um Norte esquecido e subalternizado

 

Sai aos seus. É dentista e portista, tal como o avô José Augusto e o pai Fernando.  É piloto de automóveis, tal como o tio José, campeão nacional de velocidade em 1982 e 1989. Fernando Peres, 44 anos, não degenerou.

O piloto em actividade com maior número de vitórias em ralis do campeonato nacional nasceu em Santo Ildefonso, no Porto, mas tem uma costela arouquense. “Sinto-me mais rural do que citadino”, diz.

Foi o avô José Augusto, que era médico da Caixa e padrinho da filha mais velha de Afonso Pinto de Magalhães (banqueiro e presidente do FC Porto), que inaugurou a dinastia de dentistas e portistas na família Peres.

Embalado num berço azul e branco, habituou-se desde miúdo a passar os domingos no futebol com o pai. Os juvenis às nove horas. Os juniores ao meio dia. À tarde, os seniores. Acompanhavam a equipa por todo o lado. “Só não íamos ao Estádio do Mar, porque havia sempre pancada”, conta.

Recorda-se de ser cuspido no campo do Foz, de ser chamado “Andrade” a título de insulto, e de conviver com os jovens craques do FC Porto. “Como o autocarro estava reservado para os seniores, nas deslocações os jogadores eram distribuídos pelos carros dos dirigentes. Lembro-me muito bem do Fernando Gomes ter ido mais de uma vez no nosso carro”.

O pai Fernando, que viria a ser director da Faculdade de Medicina Dentária, tratou de borla da boca dos atletas portistas, com excepção do período no final dos anos 60 em que esteve em Paris como bolseiro. Ele ainda não tinha entrado para a Primária, mas ficou-lhe tatuada na memória a imagem do pai a partir para França, ao volante de uma Dyane, com o farnel para a longa viagem acondicionado no banco de trás.

O primeiro grande choque seria mais tarde, quando concluiu a primária no Colégio Alemão foi fazer o exame da 4ª classe à Escola do Bom Sucesso (do outro lado da rua onde mora Rui Rio) e viu que parte das carteiras estavam ocupadas por matulões com 14 e 15 anos. Estávamos em 1974 e tinha-se iniciado o grande strip tease das maleitas nacionais proporcionado pelo 25 de Abril.

Passou para o ensino público. Como morava na praça Velasquez, começou o liceu na Augusto Gil (rua da Alegria) e acabou-o no D. Manuel II. Ainda hesitou entre Economia e a Medicina Dentária, mas acabou por não interromper a tradição de família. Mais tarde, quando fundou a equipa Peres Competições, haveria de dar livre curso à paixão pela gestão e os números.

Também não foi clara a opção pelos automóveis. Foi golfinho do FC Porto, mas não evoluiu para a natação de competição pois isso implicava treinos diários que o pai temia prejudicassem os estudos. Vestiu a camisola azul e branca, como futebolista nos infantis (alinhava a extremo direito), dirigidos por Costa Soares, chegando a marcar um golo no relvado principal das Antas, durante um jogo exibição, antes da partida dos seniores.

“Eu acho que tinha jeito para o futebol, mas senti algumas dificuldades de adaptação. Os meus colegas estavam habituados a jogar na rua e olhavam-me como o betinho da equipa”, explica.

A paixão pelos desportos motorizados também veio com o código genético e foi cultivada pelo pai e o tio, que todos os anos o levavam às corridas de Vila do Conde e Vila Real. O pai adoraria ter sido ser piloto de automóveis, um sonho que o seu irmão mais novo, José, veterinário municipal na Maia, já conseguiria concretizar.

Chegado ao 5º ano do liceu (actual 9º), o pai resolveu pôr-lhe uma cenoura à frente: dava-lhe um kart se ele dispensasse dos exames finais. A média de 14 valores foi o abre-te sésamo para, com 15 anos, ser um dois miúdos (o outro era Pedro Matos Chaves) a correrem no kartódromo do Cabo do Mundo, em Leça.

“Mal tive o kart, comecei logo a participar em provas. Para evoluir é preciso não ter medo de competir”, declara Fernando, acrescentando que o pai lhe deu o kart para nem sequer sonhar em ter moto: “Como ele fazia urgências, estava absolutamente fora de questão deixar-me andar de motorizada”.

Em Arouca, aprendeu a guiar com o pai, num jipe Toyota, mas as regras eram claras: não havia carros roubados à noite e as corridas eram nas pistas, não nas estradas. Aos 18 anos tirou a carta e recolheu uma segunda cenoura, um MG Metro, o primeiro carro que premiava a entrada para a Faculdade.

Vendeu o kart a Bernardo Sá Nogueira e começou a procurar patrocínios (um dos primeiros e mais marcantes foi o da Calçado Fundador) a acrescentar ao “paitrocínio”: “Nenhum miúdo consegue correr se não tiver os pais a ajudar”.

Debutou em 1984, no Troféu Citroen Visa, e averbou a sua primeira grande vitória nas 3 Horas do Estoril, fazendo equipa com Rufino Fontes (“ele guiou muito mais tempo que eu”, concede). Em 1989, foi vice-campeão nacional de velocidade, num campeonato ganho pelo seu tio José. “Ganhei mais corridas do que ele, mas na altura as provas contavam todas para a pontuação final e eu desisti em duas”, explica.

Na viragem para a década de 90 tomou duas decisões importantes. No capítulo profissional, resolveu especializar-se em Ortodontia (correcção da posição dos dentes e ossos da face), fazendo uma pós graduação que lhe ocupou as manhãs todas durante três anos a fio e abriu-lhe as portas para se tornar professor universitário. “Não queria ir para outro consultório. Mas também não quis entrar no consultório do meu pai como filho do dr Peres. Preparei-me pois queria ser respeitado”.

Nos corridas, trocou a velocidade pelos ralis. “Na velocidade estamos em pista sozinhos e há uma certa monotonia porque são sempre os mesmos circuitos. Nos ralis há mais trabalho de equipa, conhecemos novas pessoas e estamos sempre em sítios diferentes, em contacto com a natureza, o que eu aprecio porque sou rural”.

Apesar de correr sempre como privado, Fernando Peres foi tricampeão nacional de ralis (94, 95 e 96), ao volante de um Ford Escort Cosworth patrocinado pelo Totta, um assalto ao pódio preparado em 1993, ano em que foi vice-campeão, atrás de Jorge Bica. Nos Açores, onde correu entre 2004 e 2008, acumulou 21 vitórias, sendo três vezes campeão em cinco participações. E do seu curriculum consta ainda um 5º lugar (o melhor português) num Rali de Portugal, atrás de Carlos Sainz.

Depois de durante alguns anos ter alimentado o sonho de apear Joaquim Santos (que tem 39 vitórias) da liderança dos pilotos portugueses com mais vitórias em ralis do Nacional, está prestes a contentar-se com o segundo lugar que ocupa, com 30 vitórias, à frente de pilotos como Adruzilo Lopes (21), Américo Nunes (18), Mário Silva (16) – e de Joaquim Moutinho (15), que foi sempre o seu ídolo.

“Os ralis estão a transformar-se. Agora uma das condições é serem disputados em locais com hotéis cinco estrelas e campos de golfe. Tudo é organizado em função da transmissão televisiva e não do público. Há cada vez mais provas, como o Rali de Portugal, em que se foge do público, fechando-se as estradas. Acho que isso é dar tiros no pé”, critica.

A idade começa a pesar-lhe e ele ainda não decidiu se será ele ou o seu primo Pedro, que é dentista como ele e ganhou os três últimos Nacionais Open, a grande aposta para o próximo Nacional de Ralis da Peres Competições, a equipa que ele criou quando a Diabolique, que lhe prestava assistência fechou.

Sente que está um piloto diferente do que era quando começou: “Dantes eu abominava terra. Nunca fui um piloto de terra. Corria sempre melhor no asfalto, que exige mais coração e travar mais tarde. Agora dou por mim a preferir a terra, que pede mais experiência”.

E sente que é cada vez é mais difícil a um piloto do Norte reunir os patrocínios indispensáveis para ter carros capazes para disputar os títulos nacionais. A seguradora Real, nada e criada no Porto, sempre patrocinou em espécie (trocando publicidade por seguros) a Peres Competições. Agora foi comprada pelo Montepio e logo rompeu o contrato, sem sequer se dignar a convocar Fernando para uma reunião - mandou-lhe uma carta, anunciando a ruptura sem explicitar razões.

“Nos últimos dez/quinze anos os centros de decisão que havia no Porto foram todos para Lisboa e levaram os patrocínios com eles”, lamenta Peres, um regionalista  convicto, que vai frequentemente ao Dragão e lamenta que o FC Porto seja a última grande bandeira que resta à região Norte.

A crítica que faz à evolução recente dos ralis sobe de tom quando se fala da Fórmula 1, que ele passou a detestar: “Nos últimos anos mudou muito. Deixou de ser um desporto para passar a ser um negócio”. O que lhe desperta agora o interesse é o Nascar, as corridas nas pistas ovais norte-americanas, que – confessa - gostaria de experimentar. “Os americanos têm uma excelente noção do espectáculo. Há alterações permanentes na liderança e dezenas de milhar de pessoas a assistir nas bancadas, apesar de serem transmitidas em directo pela televisão”.

A engenharia dos carros da Nascar, que têm de estar de estar preparados para a inclinação das pistas, também interessa a este dentista, que apesar de ser piloto amador gere uma equipa profissional que prepara carros para a alta competição, e três anos desenvolve tecnologia de confecção de peças em fibra de carbono, com colaboração com a Faculdade de Engenharia do Porto e o INEGI. 

O chassis de um dos Lola de Carlos Barbot foi construído na garagem do team, tal como está acontecer com o Porsche Turbo que vai disputar o próximo Nacional de Velocidades e o Mitsubishi Evo 10 que a Peres Competição apresentará no Nacional de Ralis.

A importância nuclear do espírito de equipa foi uma das grandes lições que ele levou das pistas e estradas para o seu consultório. “Num rali, o navegador é fundamental. Ele pode deitar tudo a perder. E um dos segredos da vitória está na sua capacidade em dizer as notas com uma precisão ao décimo do segundo, avisando-nos quando se deve travar e se se trata de uma curva rápida ou lenta, longa ou curta, se fecha ou não no fim e quando se deve travar”, explica.

No seu consultório passa-se o mesmo, com dentistas de cinco especialidades diferentes a colaborarem para tratar uma boca em mudança, com menos dentes e mais arredondados, porque a alimentação moderna dispensa as extremidade aguçadas e duras dos cúspides.

A outra grande lição foi o papel fundamental da prática. “No início, o Ayrton Senna não sabia guiar à chuva. Por isso, sempre que chovia aproveitava logo para ir treinar. E acabou por ser um virtuoso à chuva. Não há nenhum desporto em que se possa ter sucesso sem treinar muito. Não conheço nenhum futebolista que não treine todos os dias”,conclui Fernando Peres, que tem duas filhas, conduz no dia a dia uma carrinha Ford Mondeo – e é piloto de automóveis como o tio, e portista e dentista como o pai e avô. Quem sai aos seus não degenera.  

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada em O Jogo

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