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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

José Bento dos Santos

 

José Bento dos Santos, 63 anos, fez fortuna como broker internacional de metais e poliu o nome a produzir, na Quinta do Monte d’Oiro, vinhos mimados com rasgados elogios da crítica. Mas a chave da sua vida é o râguebi, a modalidade onde caldeou o carácter, foi seleccionador nacional, com pouco mais de 20 anos, e campeão pelo Técnico, quer como jogador que como treinador.  “O râguebi é o desporto da minha vida. A luta no mais puro sentido do fair play. Parece que se está a jogar xadrez, só que com contacto físico”, explica este engenheiro que agora joga golfe (handicap 11), dorme pouco mas vive intensamente, e atravessou a vida a fazer aquilo que mais gosta e sabe fazer: construir equipas, seja no mundo do desporto, seja no das empresas

 

Apesar da altura (1m68) não o habilitar a ter uma palavra a dizer na luta pelas tabelas, o basquetebol foi a primeira modalidade em que brilhou, como base titular e capitão no cinco júnior do CDUL -  ao ponto de ter sido justificado uma chamada à Selecção Nacional, quando andava no Liceu Camões. Encestar era um negócio de família, pois o pai, comerciante dono de várias lojas de pronto a vestir em Lisboa, jogara no CIF, clube de que era o sócio nº2 quando partiu deste mundo.

O apoio familiar à sua carreira no basquete era tão entusiástico que o pai até subiu o tecto da garagem da casa da família em Alenquer para aí instalar uma tabela à altura regulamentar, de modo a que, nas férias, o mais velho dos seus três filhos (os outros são Luís, administrador do Santander Totta, e Maria do Céu) não perdesse a mão para os lançamentos.

Quis um daqueles acasos em que a vida fértil que, aos 15 anos, o amor de José Manuel Bento dos Santos pelo basquete desse lugar a uma tórrida e duradoura paixão pelo râguebi, que o fulminou no ano de caloiro de Engenharia Química no IST (Instituto Superior Técnico), um curso que não teve a menor das dúvidas em escolher. Como sempre se sentiu atraído pela Química, ainda antes de lhe ter borbulhas já improvisara em casa um laboratório, onde realizava experiências misturando elementos (oriundos do laboratório do liceu, que lhe chegavam à mão por cortesia de um contínuo amigo) em tubos de ensaio cravados em farmácias. “Ainda arranjei umas chatices. Um dia o carro do meu pai apareceu manchado e ele convenceu-se que tinha sido eu o culpado…”, recorda.

Como esta queda precoce pela Química foi confirmada pelos resultados dos testes psicotécnicos feitos no Instituto de Orientação Profissional, com apenas 15 anos (foi para a primária com cinco) lá estava ele a subir a escadaria do Técnico. Pouco tempo depois, entretinha-se no campo do instituto, a jogar uma futebolada com os amigos (quase todos eles vindos do Liceu Camões), enquanto, mesmo ali ao lado, António Carqueijeiro operava o milagre da ressurreição da equipa de râguebi do Técnico. E deu-se a reacção química: “Mexemos na bola, brincamos com ela  -  e aquela bola tem magnetismo”, resume.

No balneário, Carqueijeiro, antigo internacional de râguebi e ex-treinador de Direito, deixou a sua primeira impressão digital na vida de José Bento dos Santos. Carente de jogadores para reconstruir a equipa e careca de saber que os rapazes da futebolada estavam a ouvi-lo, virou-se para o seu pessoal e disse: “Vocês viram aqueles miúdos? Quando pegaram na nossa bola viu-se logo que têm jeito para o râguebi”.

Seduzidos pela bola em forma de melão, conquistados pela hábil lisonja, inscreveram-se todos (Raul Martins era um deles) no râguebi e logo na primeira época (época 63/64) triunfaram no 1º Nacional júnior, metendo no bolso os Belenenses, Sporting e Benfica e contrariando o favoritismo do CDUL. No ano seguinte, já seniores, foram campeões da 2ª Divisão e subiram à primeira.

Bento dos Santos debutou como talonador, mas nas duas épocas em que jogou como sénior jogou a médio de abertura. “Não tinha a velocidade que a posição exigia, mas compensava isso com uma grande facilidade de chuto”, auto avalia-se. A sua notável capacidade de liderança cedo o empurrou para a carreira de treinador. E na época 67/68, na ausência de Carqueijeiro, de quem era adjunto na selecção, vemo-lo com apenas 21 anos a orientar, na Tapadinha, o quinze de Portugal que galhardamente averbou uma digna derrota por 39-16 num jogo contra a poderosa França.

Treinar e dirigir, no desporto ou nas empresas, sempre foi a especialidade de Bento dos Santos. Mas antes de ser sentar no banco, o râguebi ainda lhe proporcionou o despertar de uma outra paixão – o vinho - que o acompanharia para o resto da vida e é actualmente a menina dos seus olhos. “Tive a sorte de, na minha primeira época como sénior, o Técnico ter ido a França jogar com o Bordeaux Etudiants Club. Aproveitei para visitar caves e beber alguns dos grandes vinhos da região”, conta. A vida dele nunca mais foi a mesma depois de se emocionar com um Château Lafite Rothschild ou ou Châteauneuf-du-Pape.

Como treinador, foi campeão nacional pelo Técnico (77-78) e seleccionador nacional. Como apaixonado, só uma vez não presenciou ao vivo a fase final de um Mundial. “O râguebi é o desporto da minha vida. A luta no mais puro sentido do fair play. Parece que se está a jogar xadrez, só que com contacto físico”, explica, citando de seguida Françoise Sagan: “Não é por ser violento que adoro o râguebi. É por ser um jogo inteligente”.

O râguebi é duro. Mas a vida também é dura. E como a influência da França na formação de Bento dos Santos está longe de se circunscrever aos vinhos e à cozinha, ele cita de cor o académico gaulês Jacques Laurent como argumento a favor da sua tese de que o râguebi espelha da vida: “Uma equipa de râguebi é composta por oito jogadores fortes e activos, dois ligeiros e espertos, quatro grandes e rápidos, e um último, modelo de fleuma e sangue frio, que é a proporção ideal entre os homens”.

Ainda estava a terminar o Técnico, quando o seu amigo Carqueijeiro, advogado no grupo Cuf, voltou a ter um papel decisivo na sua vida, ao subscrever a opinião do então presidente da Federação Portuguesa de Rugby, António Celeste, de recomendar aos Mello que o contratassem, argumentando que ele era “o Beckenbauer da engenharia química”.

Começou a trabalhar na metalurgia do cobre, no Barreiro, no final dos anos 60,  e não descansou enquanto não criou uma equipa de râguebi da Cuf, onde jogavam lado a lado, misturados, operários e engenheiros (como João Dotti). E, ao invés do que era normal, escalou rapidamente na hierarquia do que era na altura o mais poderoso grupo industrial português.

Um dia, tinha ele apenas 24 anos, houve um problema na fábrica. O director, José Frederico da Cunha, antigo jogador de râguebi, chamou-o e pôs-lhe em cima dos ombros a responsabilidade sobre 400 operários, quantificou-lhe objectivos em toneladas de produção de cobre e zinco. O argumento dado para a inesperada promoção foi demolidor: “Se, com essa idade, és capaz de treinar uma equipa de râguebi e ser seleccionador nacional, também és capaz de dirigir uma fábrica”. O tempo deu razão a Frederico da Cunha.

Quando, já após a turbulência do 25 de Abril e a nacionalização do grupo Cuf, passou da ferrugem para parte comercial, ele e Eduardo Catroga (à época administrador da CUF, no entretanto rebaptizada Quimigal)  resolveram criar a Quimibro, uma broker de metais, de que, no entretanto, veio a assumir o controlo e ainda mantém em actividade.

Correu o mundo. Comprava ouro, transformava cobre, transportava chumbo, vendia chumbo e zinco,. Tanto podia estar numa mina na Austrália como numa fábrica no Canadá  - ou a negociar à mesa no Tour d’ Argent em Paris. Curiosamente, a vida agitada de broker internacional de metais engraxou-lhe o sentido do gosto e o prazer pelo vinho e a comida. “A vida comercial presta-se muito a convidarmos e sermos convidados para os melhores restaurantes”, explica. Como sempre gostou de cozinhar, aproveitava todas as oportunidades para ficar até às tantas a conversar e aprender com os chefs.

Foi no negócio de metais que ouviu, da boca de um colega e amigo norte-americano, a frase que o levou a ser produtor de vinhos -  “a única commodity realmente escassez é a terra, pois só há a que existe e não cresce”. Um vizinho da casa dos pais em Alenquer tinha uma quinta que era uma jóia (“um bijou”, diz) mas estava alugada, pois o dono caíra doente. Mal o engenheiro soube que ele não estava satisfeito com o rendeiro, logo foi ter com ele fez-lhe uma proposta de compra e prometeu estimar a quinta. Foi assim que Bento dos Santos ficou proprietário dos 42 hectares da Quinta de Monte d’Oiro.

Estávamos no final dos anos 80 e ele queria fazer um vinho que não fosse apenas mais um vinho. Queria levar até ao limite toda a qualidade que o terroir lhe podia dar. Estudou os solos, experimentou as castas, nacionais e estrangeiras, até que em 1992 fez a primeira plantação. Mas só cinco anos depois, em 1997, fez o seu primeiro vinho.

A exigência compensou. Os elogios, criticas e prémios começaram a chover. Dois anos depois, o seu vinho foi eleito o melhor da Peninsula Ibérica. E não demorou até surgir uma distinção que teve tanto de grata como surpreendente. O Vinha da Nora 1999, da Quinta Monte d’Oiro, fez parte da ementa de apresentação à imprensa mundial do restaurante de Alain Ducasse em Nova Iorque.

“Não faço vinho para matar a sede, para as pessoas gostarem ou não gostarem - mas sim para viverem uma emoção, como experimentamos ao ouvir uma interpretação virtuosa das Variações Goldberg”, explica Bento dos Santos, que além de produzir vinhos excelentes, cozinhar comida requintada e ser um evangelizador do prazer e bom gosto, continua a negociar com metais (cobre, no seu essencial), a gostar de râguebi e a jogar golfe.

Ainda está apaixonado pelo râguebi, apesar de reconhecer que o profissionalismo mudou o jogo – e não necessariamente para melhor. “O campo é do mesmo tamanho, mas os jogadores correm o dobro. O espaço reduziu-se e por isso há mais choque. O mundo mudou. Hoje não seria possível ao Gareth Edwards fazer aquele que é considerado ensaio do século”, lamenta Bento dos Santos, que tem uma fabulosa colecção de livros e arte relacionada com o râguebi, onde avulta o modelo em resina de bronze de uma estátua daquele jogador galês.

O golfe é outra das prendar que o râguebi lhe deu, pois foi-lhe apresentado quando tinha 20 e tal anos e estava em Inglaterra a tirar um curso de treinador – quando acabavam as aulas, o pessoal ia todo dar umas tacadas. Ele ficou fã, e nunca mais deixou de jogar, se bem que variando que com a intensidade e frequência a vogar ao sabor do tempo que a sua vdia cheia lhe deixa livre.

“Durmo pouco mas vivo permanentemente entusiasmado”, declara José Bento do Santos, um golfista com 11 de handicap (já foi 9) e que tem como parceiros frequentes, no campo do Estoril, logo pelas 7h30, vários amigos, como o banqueiro Carlos Rodrigues (Big), o ex-ministro Manuel Pinho e o Rodrigo Costa, ex-vice da Microsoft e CEO da Zon.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada em O Jogo

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