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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

João Pedro Pais

 

João Pedro Pais, 38 anos, é conhecido como o autor e cantor de hinos tão populares como Não Há, Lembra-te de Mim, Um Resto de Tudo, Mais Uma Vez ou Um Volto Já. Mas antes de ter emergido anonimato na 2ª edição da Chuva de Estrelas, já brilhava nos tapetes, tendo sido mais de uma dúzia de vezes campeão nacional de luta livre olímpica e luta greco-romana, enquanto estudava Artes Gráficas na Casa Pia. “Para se ser bom, na vida ou no desporto, é preciso trabalhar muito, ter ambição e capacidade de sacrifício. A maior parte das grandes estrelas, veio do bairro e queriam muito vencer na vida”, explica o cantor, que esteve quase a conseguir os mínimos para os Jogos Olímpicos de Barcelona

 

 

Saltar à corda dentro do sauna, vestido com um impermeável, para perder peso, era um enorme sacrifício físico. O peso normal dele oscilava entre os 58 e os 60 quilos (a balança continua a acusas o mesmo), mas a categoria internacional em que competia era a dos 52 quilos.

“Nunca mais hei-de esquecer a cena de um lutador nórdico que estava ao meu lado a rapar o cabelo, para abater 50 gramas ao peso”, lembra João Pedro Pais, que apesar de ir fazer 39 anos mantém a cara, corpo e expressões de um miúdo reguila, que abusa do adjectivo “brutal”, dito com os olhos a brilharem de admiração, sempre que a conversa aterra em algo genuinamente admira.

A fobia de perder o peso nas vésperas das grandes competições é a pior recordação que guarda dos 15 anos em que foi atleta de luta livre olímpica e greco-romana, modalidades em que um palmarés tão gordo que até perdeu a conta às vezes que foi campeão nacional – uma dúzia de vezes, pelo menos.

Perder peso era violento. Nas duas semanas anteriores, sofria um regime alimentar rigoroso, à base de saladas e fruta, o que, aliado a cargas pesadas de treino, o deixava física e psicologicamente fragilizado. O que ajuda a explicar porque é que ele, um rapaz vindo de baixo, dos bairros, sedento de vontade de vencer, falhou no início dos anos 90 o salto para o que teria sido o Everest da sua carreira de lutador – a participação nas Olimpíadas de Barcelona, em 1992.

Não façam confusão. João Pedro é doido pelos Jogos Olímpicos. Um das coisas que mais o apaixonam é de, quatro em quatro anos, sentar-se num sofá em frente ao televisão a ver as provas de todas as modalidades, sem excepção.

“É brutal!”, qualifica o cantor que faz planos para, em 2012, assistir ao vivo em Londres às primeiras provas olímpicas, 20 anos depois de ter desperdiçado a hipótese de desfilar no Estadi Olímpic Lluis Companys, e ouvir na cerimónia inaugural dos Jogos a cantora lírica Montserrat Caballé a interpretar a famosa canção Barcelona  (gravada em 1988) em dueto virtual com Freddie Mercury, que tinha morrido no ano anterior.

Leonard Cohen é o ídolo número 1 de João Pedro, que elege o antigo vocalista dos Queen como o maior, em palco, de todos os tempos.  “Brutal!”, exclama o lutador, cuja carreira musical o levaria por diversas vezes à capital catalã, cidade onde gravou o videoclip da canção Um Resto de Tudo e actuou em 2003, quando assegurou as primeiras partes da tournée ibérica de Bryan Adams.

Em 1990, João Pedro fugiu da participação das Mundiais de Roma, onde era suposto conseguir os mínimos para Barcelona. Ele sabe porque não aguentou a  pressão. “O desporto de alta competição não é só corpo mas também alma”, afirma o artista, que além de cantar e tocar, também escreve as letras e compõe as músicas da esmagadora maioria das canções dos seis álbuns que editou.

Fragilizado pela violência da abundância do treino e da frugalidade da comida que lhe punham no prato, João Pedro precisava de ser compensado por uma energia positiva que o búlgaro que era seleccionador nacional não conseguir dar-lhe. “Nos momentos de grande tensão e esforço, tenho de se sentir confiança nas pessoas com quem trabalho. Na alta competição, o treinador tem de ser um líder, um substituto dos nossos pais e avós, e não apenas um técnico frio que age como uma esponja”, afirma João Pedro, sepultando assim o dossier da fuga aos Mundiais de Roma.

Tal como nove em cada dez lisboetas, João Pedro nasceu na Maternidade Alfredo da Costa, em 1971. A mãe trabalhava na Praça do Chile, a fazer micro-radiografias e tinha a categoria de 3ª oficial. Foi criado na Estrela, pelos avós maternos, num lar onde havia sempre música no ar. “Tive uma infância brutal! E isso reflecte-se no futuro”.

A luta entrou na sua vida em 1980, porque era o único desporto disponível no Colégio de Santa Catarina, onde fez a primária, na companhia de uma vintena de rapazes e outras tantas raparigas. Treinado por Francisco Reis, aprendeu a lutar ao mesmo tempo em que começou a fazer contas de cabeça e a tratar as palavras por tu.

Treinava três vezes por semana, às 2º, 4ª e 6ª, duas horas de cada vez. Tinha nove anos e pesava 30 quilos e começou logo a dar nas vistas, ganhando os combates uns atrás dos outros. Usava mais a técnica do que a força bruta para atingir o objectivo – assentar as costas do adversário no chão é o cheque mate da luta.

“Eu tinha muita raça e estudava bem a linguagem corporal do adversário, para antecipar o movimento que ele ia fazer. E era muito rápido, tipo Lucky Luke, que é mais rápido que a própria sombra”, graceja, numa breve auto-avaliação das suas características como lutador.

Aos 17 anos, ainda com a idade de júnior, trouxe para Portugal um honroso 8º lugar no primeiro Mundial sénior em que participou, em Martigny, na Suíça, marco importante de um carreira que encerraria uma vitória num torneio internacional no Rio de Janeiro, em 1995, quando era notório que a luta deixara de ser compatível com a carreira musical que começava a levantar voo.

“Para se ser bom, na vida ou no desporto, é preciso trabalhar muito, ter ambição e capacidade de sacrifício. A maior parte das grandes estrelas do desporto são miúdos dos bairros sociais que espreitam no desporto uma boa porta para vencer na vida. Veja-se o caso do Luís Figo, do Cristiano Ronaldo, da Telma Monteiro, da Naide ou do Nelson Évora. Nenhum deles nasceu num berço de ouro”, afirma João Pedro, que conversou connosco na cafetaria do Centro de Alta Competição do Jamor, onde corre todos os dias seis a oito quilómetros. Meia hora depois, passou por nós Nelson Évora, que o cumprimentou efusivamente. E à saída, quando se dirigia para o seu Audi, para ir ter com a namorada (que estuda Gestão e mora em Benfica), trocou saudações com Naide, que seguia num Smart.

Enquanto estudava Artes Gráficas na Casa Pia, prosseguiu a carreira de lutador, limpando tudo na sua categoria, ao serviço de diversos clubes. Primeiro, representou a Junta de Freguesia de S. Paulo, depois o Lisboa Clube Rio de Janeiro, o Benfica e finalmente Sporting. As primeiras mudanças explicam-se pelo facto de seguir o primeiro treinador, Francisco Reis, a quem não poupa nas palavras quando se trata de o elogiar. O Benfica já tem a ver com ganhar uns dez contitos que lhe arredondava os fins do mês. Curiosamente nunca foi atleta do Belenenses, o clube do seu coração.

“Sempre gostei do Belém. É um clube cheio de carisma, que acompanhei muito de perto durante a presidência do engº Cabral Ferreira. Raramente falhava um jogo no Restelo, onde conheci o Jorge Jesus, por quem ganhei logo um enorme respeito. Ficamos amigos. É um trabalhador nato. Era sempre o primeiro a chegar e o último a sair. Admiro-o muito. Percebe de futebol como poucos, saber motivar os atletas e tem uma enorme vontade de vencer. Veio de baixo…”, diz João Pedro, que atravessou a adolescência sempre a cantar e a tocar numa viola comprada numa feira.

Quando, durante o Mundial de 91, em Varna, na Bulgária, juntou toda a comitiva lusa, incluindo o secretário geral da federação, a ouvi-lo a tocar piano no hall, já sabia que a luta não era o futuro – a música talvez.

Aos 17 anos, quando concluiu o curso de Artes Gráficas, na Casa Pia, ainda arranjou um emprego a trabalhar com uma máquina offset na Tipografia Mirandela. Mas apenas se demorou por lá dois anos. Já ganhava que chegasse para o seu sustento tocando e cantando em bares.

Começou a actuar no Hapenning, um bar na Estrela onde Luís Represas também debutou, e, numa daquelas coincidências em que a vida é fértil, uma dia estava lá a cantar e deu com o vocalista dos Trovante (e tal como ele adepto do Belém) na assistência - “ Foi estranho. Hoje somos grandes amigos”.

Não tinha muitos discos – Brothers in Arms, dos Dire Straits, foi um dos primeiros que comprou. Ouvia muito rádio. Zeca Afonso, Zé Mário Branco, Fausto,  Trovante, Já Fumega, Xutos e Pontapés, Rui Veloso, os Peacemakers, são os nomes que lhe vêm à cabeça quando o desafiamos a abrir o baú das recordações e dizer quem ouvia quando começou a tocar em bares e a compor, metendo letras dele em cima de canções conhecidas de outros autores.

Em 1994, a carreira dele levou um empurrão quando ficou em 2º lugar, com uma interpretação de Ao Passar de um Navio, dos Delfins, na segunda edição da Chuva de Estrelas - a vencedora foi Inês Santos, com Nothing Compares 2 U, de Sinnead O’Connor.

O concurso da Sic ajudou-o a emergir do anonimato e incentivou a compor as canções para o primeiro disco, intitulado Segredos, que foi editado em 1997 pela Valentim de Carvalho, depois de ter sido rejeitado pela EMI e pela Universal, que devem torcido a orelha (mas já não deitava sangue…) quando viram o seu álbum de estreia ultrapassar rapidamente a fasquia dos 20 mil vendidos e tornar-se o seu primeiro Disco de Ouro.

“As rejeições só me deram mais força. Eu sou muito competitivo. Nós somos aquilo que delineamos na vida, aquilo que vivemos, os livros que lemos, as experiências por que passamos e os amigos que temos”, explica.

“O desporto fez de mim aquilo que eu sou. Foi na luta que aprendi a não subestimar os outros e a respeitar os mais fracos. Se eu tenho algum juízo devo-o aos anos em que fiz luta”, acrescenta.

Deixou a luta quando as noitadas e o fumo dos outros (ele nunca fumou) nos bares começaram a tornar-se incompatível com os treinos, onde a possibilidade de magoar-se nos dedos punha em causa o seu ganha pão.

Mesmo depois de alcançar a fama, com canções que estão na cabeça de todo a gente, como Não Há, Um Volto Já ou Mais que uma vez, João Pedro soube manter-se o rapaz bom e humilde que cresceu na Estrela e fez o curso de Artes Gráficas na Casa Pia.

Marcado pela leitura de romances como Morreste-me e Cal, quando soube que José Luís Peixoto dava um work-shop junto à sede da FPF, na Praça da Alegria, foi lá pedir-lhe para autógrafos. “O Zé Luís é um intelectual moderno”, elogia.

Além de ler, como é claro, ouve muita música. Cohen é o ídolo número um, mas logo a seguir vêm Sting e Eddie Vedder a solo. “A banda sonora do filme O Lado Selvagem, de Sean Penn é brutal”, sentencia.  Como gosta de ver os músicos a actuar, é frequentador assíduo do YouTube.

“Não me chega ouvir, quero ver a imagem, as expressões. Nós mostramos o que somos ao vivo”, conclui João Pedro Pais, que em Maio vai voltar ao Rock in Rio Lisboa (ele fez parte do cartaz da primeira edição, de 2004) e se despede com mais uma referência à luta: “Devo ao desporto não me levar muito a sério, ter os pés bem assentes na terra e a consciência que o mundo não gira à minha volta”.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada em O Jogo

 

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