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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

António Vaz Carneiro

António Vaz Carneiro, 59 anos, é fellow do American College of Physicians, editor português do British Medical Journal e o responsável pelo Centro de Estudos da Medicina Baseada na Evidência da Faculdade de Medicina de Lisboa. Com a camisola às listas amarelas e pretas do XV desta faculdade, ganhou uma Taça de Portugal e foi por duas vezes vice-campeão nacional de râguebi, desporto que ele considera ter sido fundamental na sua formação. “Ajudou-me a focalizar e ensinou-me a não desistir perante as dificuldades”, afirma o professor, que agora, para se manter em forma, joga ténis no CIF e corre à beira do Tejo

 

Dois dias depois do jogo, ainda lhe saía lama dos ouvidos. Aquela meia final da Taça de Portugal em râguebi, entre Medicina e a Cuf, foi mesmo um jogo épico.

Para começar não havia balneários. “Tivemos de nos ir equipar no café”, conta Vaz Carneiro, o número 5 do XV de Medicina, acrescentando que ainda estavam todos com um bocado de sono pois o encontro estava marcado para as nove em ponto da manhã, na Outra Banda.

Depois, não há que esconder, o campo pelado, no Lavradio, não oferecia as melhores condições para a prática da modalidade e, como agravante, o S. Pedro não ajudou – ou seja, as condições atmosféricas não colaboraram.

“A lama era tanta que a meio da segunda parte o árbitro deixou de reconhecer as equipas. Apitava para parar o jogo, dirigia-se para o jogador faltoso e retirava-lhe um bocado da lama da camisola para ver se era verde ou amarela e preta”, recorda António Vaz Carneiro, 2º linha de Medicina.

Como se não bastasse o campo da batalha estar transformado num imenso lamaçal, ainda por cima havia a componente política a toldar os espíritos e elevar a tensão. Naquele pós 25 de Abril, a luta de classes estava condensada ali naquele jogo entre o David - a equipa de operários da Cuf, da 2º Divisão -  e o Golias, personificada no quinze primo-divisionário de Medicina, constituído por futuros doutores que presumivelmente tinham pela frente uma vida airada.

“Cada vez que placávamos um jogador da Cuf, chamavam-nos fascistas”, recorda o professor. Nesta versão da história, Golias ganhou a David (mas por poucos). No final do jogo, operários (e alguns - poucos – engenheiros) da Cuf e os futuros doutores, unidos pela lama que os cobria, acabaram todos juntos no café, a deitar abaixo umas cervejolas e umas fêveras, antecipando o suave clima de aggiornamento que se não demoraria muitos anos a apoderar-se da sociedade portuguesa.

“Só ao fim da tarde, quando cheguei a casa, é que pude tomar banho. E dois dias depois ainda me saia lama dos ouvidos” relembra Vaz Carneiro, 59 anos, sentado na secretária do seu gabinete na Biblioteca da Faculdade de Medicina de Lisboa, onde dirige o Centro de Estudos da Medicina Baseada na Evidência e donde avista o estádio universitário onde treinou e jogou râguebi durante os dez anos da década de 70, até partir para o outro lado do Atlântico onde se demorou seis anos, fazendo a especialidade de Medicina Interna no Mount Sinai, em Nova Iorque, e de Nefrologia na Universidade de Califórnia, em S.Francisco (mais tarde voltaria aos Estados Unidos para preparar, em Washington, o doutoramento em Cuidados Intensivos que defendeu em 1994).

Medicina ganhou na batalha da lama, mas acabou por perder a final da Taça de Portugal com o Belenenses. Dois 2º lugares no Nacional da I Divisão – uma vez atrás do Benfica (“uma equipa mais física”) e outra do CDUL (“tinham um jogo mais táctico, mais fino, e beneficiavam do seu campo de recrutamento não estar limitado aos estudantes de uma só faculdade, como nós, Agronomia, o Técnico ou Direito”) – e uma Taça de Portugal foram os momentos mais vistosos dos dez anos em que jogou, sem nunca ter sofrido uma lesão importante, apenas partiu um dedo duas vezes.

Mas o que de mais importante trouxe do râguebi, não foi a taça, os dois 2º lugares, as recordações, ou até mesmo os amigos (“creio que uns 20% dos meus amigos actuais ainda são desse tempo”), mas o que lhe ficou tatuado no carácter. António era um segunda linha, número 5 nas costas, ou seja integrava o sector da equipa a quem se pede uma enorme solidez, pois repousa nos seus largos ombros a tarefa de aguentar a estrutura. “Estamos numa zona de contacto, de muita percussão, em que é o espírito de sacrifício é fundamental”, explica.

“O râguebi é um jogo de equipa em que não há muita margem para o brilho individual. Se um tipo está a correr isolado é sinal de que a sua equipa está a jogar mal. Para se ganhar é preciso muito espírito de entreajuda e uma equipa sólida, coesa e disciplinada. Um exemplo? Com a excepção do capitão, está toda a gente proibida de falar com o árbitro. Ninguém protesta, porque se o fizer sabe que vai prejudicar a equipa. O râguebi foi fundamental na minha formação porque me ajudou a focalizar e ensinou-me a não desistir perante as dificuldades”, afirma o professor, que nunca perdia a transmissão televisiva de um jogo do Torneio dos Cinco Nações.

Sempre gostou mais do jogo francês (“ninguém agarra os franceses quando estão inspirados”), mas reconhece que os mais completos são, de longe, os All Blacks. “As equipas do Hemisfério Sul aliam um poder físico notável a apuradíssimo sentido técnico. Já do ponto de vista táctico, os ingleses são insuperáveis”, afirma, acrescentando que o seu jogador preferido era o arrière John Davies.

No seu tempo, eram 110% amadores. Não só cada um pagava e tratava do seu equipamento como, ainda por cima, contribuía com 30 escudos por mês para a caixa que financiava as deslocações da equipa. António acabou o curso em 1976, mas mesmo quando estava a fazer a periferia em Portimão, apesar de ainda não haver A2, aos fins de semana metia-se no Honda 600 em segunda mão que o pai lhe oferecera de prenda de licenciatura (que, para teve de transformar, diminuindo drasticamente a oferta de lugares de passageiros, para ele próprio caber lá dentro) e vinha por aí acima, pelas estradas nacionais, para alinhar pela equipa de Medicina, primeiro, e depois do CDUL (onde fez as suas duas épocas).

Só abrandou só nos últimos três anos, entre os 26 e os 29 anos, porque tinha de se preparar para os exigentes exames que lhe dariam acesso a fazer a especialidade e exercer a profissão de médico nos Estados Unidos. “Nesta altura já sabia perfeitamente que não queria ser médico de cuidados primários. Tinha a preocupação de adquirir uma forte formação científica pois queria fazer medicina académica, ser médico hospitalar e dedicar uma boa parte do meu tempo à investigação”.

Filho de um engenheiro de obras públicas, que chegou a ser director geral de Saneamento, viveu até aos dez anos em Vila Real e ainda se demorou três anos por Aveiro, antes da família deitar âncora em Lisboa e ele acabar o liceu no Colégio Moderno. Não se lembra de ter querido outra coisa senão médico, profissão que lhe agradava porque estava convencido lhe iria proporcionar uma grande liberdade de movimentos. Viu bem a coisa.

Alto (1m87), jogou voleibol durante dois anos no secundário. Tomou pela primeira vez contacto com o râguebi em 1969, quando era caloiro de Medicina e um amigo que já jogava o convenceu a ir a um treino. Não foi um caso de amor à primeira vista. Levou umas pancadas e foi para casa a pensar se seria uma boa ideia continuar. Persistiu e com o decorrer dos treinos ficou cliente.

“De então para cá o jogo mudou muito”, garante o professor que continua a acompanhar a modalidade não só pela televisão, mas também ao vivo, pois o Joãozinho (o rapaz do casal de gémeos que teve há 11 anos) joga râguebi no CDUL e ele, na sua qualidade de pai, tem de o levar aos treinos (três vezes por semana) e aos jogos.

“Na altura, eu era alto. Agora seria o tipo mais baixo das equipas de Agronomia ou Direito. Nós éramos ensinados a girar depressa a bola para evitar o contacto. Hoje o jogo é muito mais físico, há menos espaço e por isso muito mais contacto”, diz, enquanto desfia histórias incríveis daqueles heróicos tempos em que havia dez equipas a usarem ao mesmo tempo o Estádio Universitário e em que não raro Medicina tinha de se contentar com uma cabeceira do campo (o único espaço disponível)  - e como não havia iluminação artificial, quando a noite caía o treino acabava e iam todos para casa

Quando atravessou o Atlântico Norte para aprender, viver e trabalhar nos Estados Unidos, passou do oito ao 80 ao trocar o râguebi, um desporto colectivo, pela corrida (uma das mais solitárias de todas as modalidades) e o ténis (um jogo em que não há contacto, pois os adversários estão separados por uma rede). “Quando se trabalha 100 horas por semana, os tempos livres são muito curtos”, explica, acrescentando que a grande vantagem do jogging é de poder correr sozinho e praticamente a qualquer hora e em qualquer lugar. Em Nova Iorque partilhou com dois portugueses um loft na Village e um dos seus grandes prazeres era correr aos sábados de manhã até ao Central Park, através das largas avenidas de Nova Iorque que, no início do fim de semana, até às dez horas, estão sempre muito tranquilas.

Agora continua a correr e a jogar ténis, de acordo com um programa meticulosamente estabelecido. Ao fim de semana, corre junto ao Tejo, às 3ª e 5ª aproveita a hora do almoço para bater umas bolas com os amigos no CIF, e às 4ª vai ao ginásio. A sua presença assídua nas duas corridas anuais de travessias das pontes de Lisboa está documentada pelos dorsais que decoram as vidraças das estantes do seu gabinete, convivendo alegremente com os milhares de livros e as centenas de CDs de música clássica.

Editor português do BMJ (onde publicou recentemente um artigo, com chamada de capa, que é um marco no tratamento dos diabéticos) e um dos raros não residentes nos Estados Unidos é fellow do ACP-American College of Physicians, António Vaz Carneiro faz questão de salientar o código de honra do râguebi: “Apesar de haver muito contacto, a generalidade dos jogadores respeitam as regras. Quando se anda dentro do campo, sabe-se logo quando há alguém que nos quer agredir. E nesse caso combinávamos as coisas de modo a que, da próxima vez que tivesse a bola, o jogador que estava a ter um comportamento desleal levasse com três de nós em cima. Ele percebia logo a mensagem. Era tudo tratado dentro do campo e entre nós. Não íamos fazer queixa ao árbitro”. É talvez devido a este código de honra que se diz que o futebol é um jogo de cavalheiros disputado por cavalheiros – e o râguebi é um desporto de arruaceiros praticado por cavalheiros…

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada em O Jogo

 

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