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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

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O que Almodovar aprendeu com a mãe

 

Ao formidável talento de cineasta de Almodovar não pode ser estranho o facto de ter aprendido muito novo que a verdade inquestionável é uma coisa que não existe e que aquilo que costuma ser contrabandeado como sendo a genuína verdade não passa de uma interpretação que tem mais a ver com o lugar que ocupamos na cadeia alimentar do que com a descrição precisa do que realmente se passa.

Pedro Almodovar tinha nove anos quando, no início dos anos 60, a sua família se mudou da aldeia da Mancha onde nasceu para uma outra, na Extremadura, onde a maioria dos habitantes eram analfabetos, o que foi identificado como uma oportunidade de negócio pela mãe que logo montou, em sociedade com o filho, um comércio de leitura e escrita de cartas.

Como tinha uma caligrafia muito bonita, ele escrevia as cartas, enquanto a mãe se encarregava da leitura. Cedo Pedro começou a reparar que a mãe romanceava o que estava escrito nas cartas e um dia não se conteve e perguntou-lhe:

- Por que é que lhe disseste que ela sente saudades da avó e se lembra muitas vezes dela a lavar a roupa numa bacia cheia de água à porta de casa, se na carta nem sequer fala da avó?

Ao que a mãe o calou com uma resposta desarmante:

- Mas viste como a avó ficou contente?!!!

“Estes improvisos continham uma grande lição para mim. Estabeleciam a diferença entre ficção e a realidade e a forma como a realidade precisava da ficção para ser mais completa, mais agradável, mais vivida”, escreveu o cineasta no dia seguinte à morte da mãe.

Sábio de outro século, outra arte e outra geografia, Fedor Dostoievski já tinha chegado à mesma conclusão quando nos avisou que “para tornar a realidade mais verosímil, precisamos necessariamente de adicionar a mentira”

Como nestes tempos que põem à prova a alma dos homens ninguém consegue permanecer bom da cabeça num estado de realidade absoluta, temos tido a sorte da vitória do Benfica no campeonato, a visita do papa, a festa do Rock in Rio e os 7-0 aos desgraçados dos coreanos se terem harmoniosamente coligado de uma forma sequencial para amaciar-nos a existência até chegar à altura de irmos para o Algarve de férias.

O chato é se em Setembro não aparece algo a distrair-nos, ou alguém a entusiasmar-nos, de forma competente, com uma ideia arrebatadora e mobilizadora, porque pode viver-se sem dinheiro, sem família, sem amor ou até sem vida (ou seja levando uma vidinha miserável) - mas é impossível ir em frente sem sonhos na cabeça.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias

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