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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Sara Martinho

Não foi pai nem mãe a primeira palavra que lhe saiu da boca, mas sim cã, de cão, referindo-se ao galgo Doff com quem partilhou a primeira casa, um andar à Estefânia também habitado por um mocho (que viria a morrer tragicamente atrás do frigorífico), dois falcões, um gato e uma iguana. Atendendo aos antecedentes, não é de espantar que Sara Martinho, 33 anos, seja, entre outras coisas, uma activista da Animais de Rua e partilhe com duas gatas ex-vadias (Tigra e Mia) o apartamento de Santo Amaro de Oeiras onde vive com a namorada -  e já tenham sido a FAT (Família de Acolhimento Temporário) de mais de 50 gatos que estavam à espera de adopção.

Os animais de rua são uma das muitas causas que cabem no coração de Sara, que se iniciou no voluntariado, ainda miúda de 14 anos, quando morava junto à Feira Popular e frequentava a paróquia do Campo Grande. Foi animadora sócio-cultural no Bairro das Murtas. Aos 21 anos, integrou o grupo de Acção social da Lusíada que dava apoio aos internados no Hospital Prisional de Caxias. Finalmente, aos 25 anos, tornou-se activista da Rede Ex-Aequo, que percorre as escolas deste pais a pregar a mensagem da igualdade dos géneros e a combater a discriminação dos homossexuais. “No primeiro trimestre, fomos a mais de 15 escolas. Não temos oradores que cheguem para as encomendas”, garante a vice-presidente da Ilga (Intervenção Lésbica, Gay, Bissexual e Transgénero), que não falhou por muito o sonho de criança de vir a ser missionária.

Apesar da homossexualidade ser o principal factor de discriminação no nosso país (67%), as apresentações nas escolas correm sempre muito bem. “Paneleiro é o pior insulto que há em Portugal. Quando peço aos alunos para esquecerem os professores e darem sinónimos de homossexual, eles normalmente ficam calados e constrangidos. Para quebrar o gelo, dou dois exemplos que tem a carga negativa de insulto: fufa e paneleiro. E pergunto-lhes se eu sou um insulto e se acham bem haver pessoas que são insultos”, conta Sara, a activista que obrigou a Galp a retirar a frase “e o último a chegar é paneleiro” da letra de um hino publicitário.

Ela foi a primeira a chegar à esplanada do Noobai, junto ao Adamastor, em Santa Catarina. “Tenho gadelha, camisa branca e sapatos amarelos”, identificou-se na SMS. O activismo desta morning person, capaz de mandar mails cheios de links às 6h05 da manhã, é a melhor explicação para ser magríssima e adorar comer.  Escolheu uma tosta de queijo de cabra e, como estava calor, mudou para branco a encomenda inicial de um copo de tinto. Acabou com bolo de mousse de chocolate.

Não usa relógio, maquilhagem ou outros adornos, com a excepção de um discreto fio de ouro ao pescoço com uma abelha – que tem uma explicação. Com formação em Psicologia, trabalhou em headhunting até que há alguns meses se tornou Relações Públicas da Omoura (empresa que vende de jóias e relógios e é agente de marcas como a H. Stern, Chaumet e Dior) que lhe proporcionou profissionalizar o seu activismo, ou seja ganhar a vida a lutar por causas.

A abelha é o símbolo da Chaumet. Em coordenação com a Estação Apícola Nacional da Tapada da Ajuda e com o apoio daquela marca de luxo, Sara está a pôr de pé uma campanha de protecção das abelhas, cuja existência está ameaçada pelo ácora de verroa e pelos campos electromagnéticos dos telemóveis, que lhes baralham o sentido de orientação no regresso à colmeia.

“Se todas as abelhas do Mundo morressem de repente, a humanidade não teria mais de quatro anos de vida, pois elas são responsáveis pela polinização de produtos agrícolas que representam mais de dois terços da nossa alimentação”, diz, citando Einstein. Declara-se contente pela aprovação do casamento gay (“A nossa sociedade português ficou mais inclusiva ao permitir que todos possam escolher a figura que querem para proteger a sua relação”) mas avisa que a luta continua. “Ainda há muito a fazer até que todos tenhamos direitos e deveres iguais, como, por exemplo, no apoio à reprodução medicamente assistida”, diz Sara, que planeia casar, “mas sem mediatismos”.  

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias

 

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Noobai Café

Miradouro do Adamastor, Santa Catarina, Lisboa

Tosta de queijo gratinado com tomate e oregãos … 5,50

Tortilha de frango com verdes, tomate, ananás, molho de iogurte e rutas glaceadas … 7,00

4 copos de branco …10,00

2 cafés … 2,40

Total… 29,10

 

Curiosidades

 

Como há muito mais gatos do que famílias que os queiram adoptar, a associação Animais de Rua tem em curso uma campanha de esterilização. Os voluntários apanham os animais vadios e enquanto eles estão anestesiados para a operação, é-lhes cortada a ponta da orelha esquerda, sinal convencionado internacionalmente que avisa os funcionários do canil municipal de Lisboa (que funciona na dependência do Departamento de Tratamento de Resíduos Sólidos) de que o gato pode ser deixado em paz porque não se vai reproduzir

 

Sara é vegetariana, mas não fundamentalista. De vez em quando come peixe, como, por exemplo, quando, após alguns dias de internamento no hospital, onde lhe tiraram a vesícula, não descansou enquanto não atacou um linguado grelhado

 

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