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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Luis Filipe Carvalho

 Luís Filipe Carvalho, 43 anos, é sócio da ABBC e candidato a Bastonário da Ordem dos Advogados. Figura conhecida dos telespectadores, já que é visita frequente da Sic, onde comenta e explica os casos de justiça mais mediáticos, moldou o seu carácter a jogar hóquei em patins no Alverca. “Como temos de manter o domínio coordenado da patinagem e da bola, o hóquei é de uma enorme complexidade e obriga-nos a nunca parar de aprender e evoluir. É um desafio grande porque temos de estar em constante progressão e aperfeiçoamento”, afirma este sportinguista ferrenho que adora velocidade, seja ela em cima das rodas de uns patins ou de um kart, modalidade em que participa regularmente em provas de resistência

 

 

Ainda mal sabia andar de patins, mas apaixonou-se à primeira vista pela modalidade no preciso dia em que acompanhou uns colegas da escola a um treino de hóquei dos infantis do Alverca. Estávamos em 1978. Transmitido pela televisão, um Portugal-Espanha em hóquei em patins parava o país. Para ele, que acabara de fazer dez anos, Livramento era o ídolo e modelo, o mesmo que representa agora Cristiano Ronaldo para os miúdos que estão na antecâmara dessa idade dos sonhos que é a adolescência.

O jeito para o desporto, já manifestado na Primária - feita entre Luanda (onde nasceu e deixou de ser analfabeto) e Alverca (onde cresceu e se fez homem) -, nas aulas de ginástica e nos jogos de futebol de cinco (“rematava e driblava bem”), facilitou-lhe a iniciação a este desporto, disputado sobre rodas, a altas velocidades e com muito contacto físico, que lhe foi moldando o carácter.

As travagens, as viragens em velocidade e o stop and go logo começaram a deixar de ter segredos para ele. O hóquei em patins era uma modalidade de primeira linha, com enorme presença mediática, e todos os miúdos se esforçavam para copiar as habilidades que viam os Livramentos e os Júlios Rendeiros fazer na televisão.

“Como temos de manter o domínio coordenado da patinagem e da bola, o hóquei é de uma enorme complexidade e obriga-nos a nunca parar de aprender e evoluir. É um desafio grande porque temos de estar sempre em progressão e aperfeiçoamento, ao contrário de outras modalidades em que se estabiliza a partir de momento em que se atinge um determinado patamar técnico”, reflecte Luís Filipe Carvalho, 43 anos, candidato a Bastonário da Ordem dos Advogados e uma cara conhecida da maioria dos telespectadores, pois é presença frequente nos espaços informativos da SIC, onde comenta e dá opinião sobre casos de justiça.

Ao habituá-lo a estar sempre a progredir, a adaptar-se e a aguentar a dureza dos choques com os adversários, principalmente junto às tabelas, o hóquei foi uma extraordinária escola que o preparou para ser advogado, profissão com o que sonhava ser desde miúdo, movido pelo impulso quixotesco de ajudar a fazer justiça aos mais necessitados e pela pragmática vontade de resolver problemas – e confirmada durante o Secundário onde sentiu uma maior vocação para as Humanidades.

O equipamento ser caro (patins, caneleiras, coquilha, luvas, stick) era o problema maior que o hóquei em patins levantava à entrada, o que o obrigou a desenrascar-se, pois o dinheiro não abundava, nem em casa, nem no país, que estava a acordar com a ressaca da festa do 25 de Abril. Começou com equipamento emprestado por miúdos mais velhos a quem tinham deixado de lhes servir e assim que podia ia fazendo upgrades. “Os sticks fornecidos pelo clube eram fracos e partiam com muita facilidade”, recorda.

Os pais apoiaram-no sempre, apesar de estarem a refazer a vida, pois a guerra civil angolana obrigou-os a voltar a Portugal. “Foi uma saída com pressa. O meu pai ainda ficou mais um ano, a ver o aquilo dava, mas explicou-nos muito claramente que eu e minha mãe tínhamos de partir, porque Angola já não era mais um local seguro”, conta Luís Filipe, que nasceu em Luanda no ano do Maio francês e aterrou em Lisboa, em 1975, com sete anos, idade suficiente para lhe ficarem gravadas na memória as primeiras e fortes recordações do seu novo país: “Vivia-se um momento especial. Fiquei com a impressão de que reinava um enorme caos e grande desorganização, misturados com uma indisfarçável alegria. Nós tivemos de recomeçar tudo de novo, de nos virar. A minha mãe, que era funcionária pública, arranjou um lugar no Ministério da Educação. O meu pai, que estava no ramo automóvel, arrancou com outro negócio. Foi difícil”.

O pai ia levá-lo e buscá-lo aos treinos, que nos dias frios e molhados de Inverno entravam pela noite dentro. A princípio, nos infantis, treinavam apenas duas vezes por semana. Mas a frequência foi-se intensificando. E aos fins-de-semana havia sempre jogos. O Alverca era uma equipa do meio da tabela, num campeonato muito competitivo, que para além dos tradicionais Benfica e o Sporting, era disputado pelas fortíssimas equipas da Linha – Cascais, Paço de Arcos e Salesianos.

Com o número 7 nas costas, jogava sempre à frente, no lado direito do quadrado, e apesar da baliza ser pequena e os guarda redes grande, cedo se revelou um avançado goleador, dando nas vistas ao ponto de ser chamado à Selecção Nacional. “Os muitos golos que marquei são a melhor recordação que guardo dos meus tempos de hoquista. Como era difícil fazer um golo, era um momento muito electrizante, uma vibração muito especial que contagiava todos os jogadores, incluindo os que estavam no banco”, diz Luís Filipe que treinava afincadamente os remates ao ângulo e para cima do ombro de guarda redes – precisamente os de mais difícil defesa.    

Um dia, estavam a treinar ao ar livre, a chuva era tanta que o ringue ficou todo alagado, ele escorregou, caiu e sentiu-se a deslizar a uma velocidade vertiginosa com a cabeça em direcção à tabela - e não se lembra de mais nada, pois perdeu os sentidos. Ficaram todos preocupados, levaram-no ao hospital, mas não tinha sido nada de grave, apenas uma pancada. “Esta é a pior recordação que tenho do hóquei, devido à sensação de impotência de saber o que me ia acontecer mas não poder fazer nada para o evitar”.

Pendurou os patins quando entrou em Direito. “Tive muita pena. O desporto, de preferência de competição, é uma componente imprescindível na formação humana”, diz, criticando o facto de em Portugal não ser fácil praticar desporto fora do enquadramento clubístico. Está arrependido de ter deixado o hóquei, mas faltava-lhe o tempo. Teve se se aplicar para vencer o cabo dos dois primeiros anos, excessivamente maçudos e teóricos. E a partir do 3º ano começou a dar aulas, primeiro na Escola Secundária Forte da Casa, em Vila Franca de Xira, depois como monitor de Finanças Públicas na faculdade e finalmente como assistente em várias cadeiras, entre as quais Direito Comercial.

A competitividade e força de vontade aprendida nos ringues de hóquei ajudou-o a chegar até ao gabinete no 5º andar do edifício do Largo de S. Carlos, em Lisboa, ocupado pela ABBC  - a firma com mais de 50 advogados de que é sócio, sendo o C (de Carvalho) final  -  e que há cerca de um século foi habitado por Fernando Pessoa, antigo inquilino cuja memória é homenageada no átrio do prédio por um trabalho de Alexandre Farto.

A velocidade sobre rodas continua a seduzi-lo. Dantes eram as rodas dos patins. Agora são as dos karts, pelos quais se apaixonou à primeira vista (tal como tinha sido com o hóquei) há uma dúzia de anos, quando os amigos o convenceram a alinhar numa prova por equipas de endurance (24 horas) em Baltar. “Exige uma grande capacidade de resistência física, técnica, respeito pelas regras e elevadíssimos níveis de concentração porque um erro pode atirar pela água abaixo o esforço da equipa”, esclarece Luís Filipe, que regularmente participa em provas de resistência (seis, 12 ou 24 horas) por equipas, em que cada piloto faz, de cada vez, percursos máximos de 50 minutos e se atingem velocidades na ordem dos 90 km/hora.

“Teria gostado de ser piloto de corridas”, confessa o advogado, que tem no Sporting outra das suas grandes paixões, herdada do pai, que desde pequeno o levava a Alvalade. Yazalde foi o seu primeiro ídolo, mas também recorda com saudade a época extraordinária da dupla Jardel/João Pinto. A mais antiga e grata lembrança que guarda do futebol é Benfica-Sporting em que Vítor Baptista perdeu o brinco.

Luís não só não falha um jogo do Sporting, como tem uma estratégia para o futuro da equipa de futebol, que consiste em fazer uma mistura entre jovens valores oriundos da formação, com uma três/quatro futebolistas experientes, em cuja escolha não pode haver erros. “Têm de ser todos tiros no alvo, não só pela posição que ocupam em campo como também pelo exemplo que dão aos mais novos e à capacidade de liderança no balneário”, explica o candidato a Bastonário do Advogados e sócio da ABBC onde tem como colega Rogério Alves, seu amigo, sportinguista e antigo Bastonário.

“O Sporting tem um problema de equilíbrio. Aos excelentes resultados da formação é preciso agregar jogadores com mais experiência, vindos de fora, e isso não tem corrido bem. Acresce que na figura do treinador temos apostado no modelo de treinador jovem, pouco conhecido e sem curriculum. Foi assim com o José Peseiro e Paulo Bento. E volta a ser assim com o Paulo Sérgio. Eu acho que depois de este modelo se ter esgotado, em termos de liderança e de resultados, devíamos ter apostado num treinador mais velho e com mais experiência, que podia ser português, como o Manuel José, que acalmasse o turbilhão do balneário. Serei o primeiro defensor e apoiante da equipa. Mas temo que as coisas possam descarrilar se não começarmos bem a época. Não estão em causa as pessoas mas o modelo”, conclui Luís Filipe Carvalho, que guarda como pior sensação das sete épocas em que hoquista do Alverca aquela sensação de impotência que, de saber o que vai acontecer mas não poder fazer nada para o evitar, que se apoderou dele quando um dia estava a treinar ao ar livre, o ringue ficou todo alagado, ele escorregou, caiu e sentiu-se a deslizar a uma velocidade vertiginosa com a cabeça em direcção à tabela.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada em O Jogo

 

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