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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Não tenho amigdalas mas gosto dos espanhóis

 

Algures em meados dos anos 50, um congresso médico internacional decretou o fim da degola das amígdalas dos meninos que iam com as mães ao médico queixosos de dores na garganta. Na sequência desta decisão, os portugueses dividem-se entre empregados e desempregados, benfiquistas e anti-benfiquistas, os que preservam as amígdalas e os que foram desprovidos delas.

Esta última divisão coincide com um corte geracional. A esmagadora maioria dos portugueses com mais de meio século de existência não tem amígdalas e cresceu exposta à retórica anti-espanhola que era parte integrante da cultura do Estado Novo.

Na vã tentativa de todos cerrarmos fileiras em torno do chefe (“Portugueses quem manda? Salazar, Salazar, Salazar!”) contra o inimigo externo mais à mão (o mar não se adequava ao efeito) os propagandistas do regime ditatorial agitavam o fantasma da Espanha enquanto enalteciam a padeira de Aljubarrota, alimentavam o folclore de Olivença e dramatizavam numa espécie de nova batalha de S. Mamede cada jogo de hóquei em patins entre as selecções dos dois países ibéricos.

Vítimas deste carpet bombing ideológico, muitos dos portugueses desprovidos de amígdalas estão sinceramente convencidos da bondade do provérbio “De Espanha nem bom vento nem bom casamento” (o que não é verdade porque o excelente pata negra de Barrancos faz a sua cura exposto ao vento quente que sopra do outro lado da raia)  - e estou em crer que evitam fazer compras no El Corte Ingles. Esta rançosa desconfiança não é partilhada pelo pessoal mais novo, que tem amígdalas e escolhe Espanha como destino preferido de Erasmus.

Eu não tenho amígdalas mas admiro as gentes que habitam no resto da Península, sejam eles galegos, catalães, andaluzes ou etc. Acho detestável aquela mania de chamarem pantalones vaqueros aos jeans e de dobrarem os filmes (o Marlon Brando a falar espanhol no Padrinho é de um tipo se rebolar no chão a rir), mas invejo-lhes o manchego, Barcelona, Almodovar, a alegria de viver, o Reina Sofia, a Plaza Mayor de Salamanca, o pulpo à feira, o casco velho de Santiago de Compostela, Penelope Cruz, o Guggenheim de Bilbau, os pimentos de Padrón, Lluis Llach e mais uma data de coisas que não cabem aqui.

Para mim, que não tenho amígdalas, o problema na Península Ibérica não se chama Espanha, mas sim Lisboa (e Madrid). E para os que não estão convencidos disso, recomendo a consulta de Economia Mundial: uma perspectiva milenar, de Angus Maddison, onde se prova que, em toda a nossa História, foi durante a União Ibérica que estivemos mais próximos da riqueza média europeia – 85% em 1600, contra 79% em 1500, 34% em 1913, 41% em 1950 e 69% em 1998.

Jorge Fiel 

Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias

 

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