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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Luis Magalhães (Deloitte)

Desagrada-lhe a cultura portuguesa do golpe. Dá um exemplo. Um dinamarquês tem vergonha de estar desempregado. E se os amigos acham que ele está a demorar tempo demais a arranjar um emprego um dia, quando estiverem todos a beber umas cervejas, fazem-lhe ver que são eles que o estão a sustentar.

Cá, um tipo que consiga viver à custa do Estado é invejado como um vivaço  - “ele é que a sabe toda”, comentam os amigos. Os dinamarqueses (que produzem o dobro da nossa riqueza, apesar de serem apenas cinco milhões!) sabem que o Estado deve ser visto na primeira pessoa do plural (nós), enquanto a maioria dos portugueses teima em identificá-lo como a terceira pessoa do plural (eles).

“A rede de segurança em Portugal é muito alta. Não há factores de motivação para as pessoas se mexerem”, critica Luís Magalhães, 54 anos acabados de fazer, managing partner da Deloitte, consultora que comemorou o 40º aniversário, proporcionando as condições para que a elite do país procedesse ao exercício de introspecção nacional que dá pelo nome de Projecto Farol.

“Queríamos um documento que pudesse ser lido por toda a gente”, diz Luís, explicando por que é que as conclusões preliminares de um debate que envolveu dezenas de papers, centenas de pessoas e milhares de horas de trabalhos tenham sido em 50 páginas que contêm uma visão e um guia para o desenvolvimento de Portugal - e onde se elencam doze propostas imperativas, sendo que uma delas é estabelecimento de limites à carga fisacl e à despesa do Esatdo.

Luís Magalhães escolheu almoçarmos na trendy Cafetaria Mensagem do Altis Belém. Concordamos num bacalhau à lagareiro que ganhou claramente ao branco ribatejano Fiúza Três Castas com que o acompanhamos. A conversa à mesa levou-nos até Angola, França e Bélgica, a geografia percorrida por Luís até ser adulto e ir parar à Arthur Andersen pelo efeito conjugado do imperativo do abecedário e de um daqueles acasos em que a vida é fértil.

Nasceu no Lobito, onde a família tinha um negócio de impressão, mas cresceu entre cá e lá, viajando a bordo dos míticos paquetes Príncipe Perfeito e Infante D. Henrique. Fez a primária entre Braga (a base dos Magalhães) e o Lobito. Repartiu o secundário entre o Liceu Camões e o da cidade do porto escoava as mercadorias que o caminho de ferro de Benguela trazia da entranhas de África.

Aos19 anos está em Luanda, no 1º ano de Engenharia Electrotécnica, quando se dá o 25 de Abril e os angolanos desatam aos tiros uns aos outros. Como gosta de praia, em Junho de 1975, quando voa para Portugal já decidira a continuar os estudos em Montpellier, eleita por ser a universidade mais francesa mais próxima do mar. Chegou lá e deu com o nariz na porta, mas o facto das inscrições para Engenharia já estarem encerradas não o impediu de dar um giro pela Côte de Azur.

As paredes do Técnico forradas com cartazes do MRPP ofenderam-lhe os princípios anti-comunistas, pelo que eliminou a hipótese de fazer o curso em Lisboa. Estava neste impasse, quando uma amiga de Lobito, que tinha ido para a Bélgica, lhe ligou a saber dele. “Queres que te inscreva cá?”, perguntou-lhe. “Já agora”, respondeu ele, que arrancou para Bruxelas convencido que ia estudar Engenharia - só à chegada soube que estava matriculado em Economia.

Estava convencido que estava de passagem, quando regressou a Lisboa em 1980, já com o curso na mão. Preparou candidaturas para fazer o MBA em diversas universidades americanas. Foi aceite numa data delas, mas em Agosto, farto de estar à espera sem fazer nada,  abriu a lista telefónica e começou a anotar a morada de consultoras. A primeira que lhe apareceu foi a Arthur Andersen (que mais tarde se fundiu com a Deloitte). Foi até ao escritório, na avenida da Liberdade, perguntar se estavam a recrutar pessoas. “Por acaso estamos”, respondeu a recepcionista. Preencheu os formulários, foi à entrevista, e 30 anos depois este no vértice da pirâmide de 1500 pessoas que trabalham nesta consultora.

Na vida há mesmo coincidências. A amiga do Lobito que lhe telefonou de Bruxelas é a mulher de Luis Magalhães. E a recepcionista da Arthur Andersen, em 1980, é agora a sua secretária.

Jorge Fiel

Esta matéria foi publicada hoje no Diário de Notícias

 

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Cafetaria Mensagem

Altis Belém

Doca do Bom Sucesso, Lisboa

2 couvert … 6,00

2 bacalhau à lagareiro … 32,00

1 Luso … 4,50

Fiuza 3 castas … 12,50

2 cafés.. 6,00

Total… 61,00

 

Curiosidades

 

No início dos anos 80, a mãe de Luís (que ficou órfão de pai novo) foi chamada ao Bando de Portugal para explicar porque é que mandava tantos vales postais para Bruxelas. No entanto, ele não estava só dependente das remessas de dinheiro da família. Além de estudar, fazia diversos trabalhos em part time, como carregar e descarregar camiões para supermercados ou lamber envelopes e selos nas Selecções do Reader’s Digest

 

Há quase dez anos, Luís era  o managing partner da Arthur Andersen em Portugal quando, a nível internacional, a consultora perdeu o nome na sequência do seu envolvimento no escândalo Enron. “São dessa altura a maior parte dos cabelos brancos que tenho”, comenta, acrescentando que teve de tomar comprimidos para dormir durante os dois meses em que tinha o nas mãos o futuro de 600 pessoas (e respectivas famílias). Tudo acabou em bem, com uma fusão com a Deloitte.

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