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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Pedro Lôbo do Vale

“Pode viver-se só de soja”, garante Pedro, antes de dar mais uma garfada no pseudo bacalhau à Brás, o prato de resistência do nosso almoço no restaurante da loja da Celeiro Dieta na António Augusto de Aguiar, em frente ao El Corte Inglès. O regime é de self service, mas beneficiei do facto de estar sentado com o dono do negócio para a comida e bebida (uma razoável cerveja biológica alemã Lammsbrau) ser servida à mesa e experimentar variantes ao menu económico (4,80 euros, incluindo sopa, prato, sobremesa e sumo natural) e provar as três saladas de abacate: limão (a minha preferida), maçã e beterraba.

Pedro Lôbo do Vale, 55 anos, médico e empresário, nunca foi muito de comer carne e, no dia a dia, faz a dieta naturista que recomenda aos seus doentes e à farta clientela das 25 lojas (das quais quatro com restaurante) do Celeiro Dieta espalhadas pelo país  -  a nossa mesa era em frente à zona das caixas, que nunca tiveram descanso durante a refeição, um bom indicador da prosperidade de um negócio que faz surf com a crescente preocupação das pessoas em estarem em boa forma e terem uma alimentação saudável.

“Há cada vez mais gente preocupada com o que come. Hoje, nas sociedades desenvolvidas não se morre de fome mas por excesso de comida”, afirma Pedro, que ele próprio é um bom material de propaganda das suas recomendações e produtos, já que não aparenta estar prestes a fazer 56 anos. “Como sopa todos os dias ao jantar”, explica o médico, que na sua juventude foi um desportista abnegado e apaixonado, tendo praticado modalidades tão diversas como judo, karaté e voleibol.

Ele adora grelhar peixe e conta que no fim de semana anterior comprou a pescadores de Cascais um imperador e um robalo (“do mar”, precisou), que marcharam acompanhados de salada e batatas cozidas com casca. “É pelas barbatanas que se reconhece se o peixe é ou não do mar. Os de cativeiro têm as barbatanas muito arredondadas porque cresceram com pouco espaço e a bater com elas nos outros peixes”, esclarece.

A distribuição alimentar é, há várias gerações, um negócio de família. Da família dele e da família da mulher que eram sócias na Martins & Costa, que tinha duas mercearias finas, onde se vendiam frutas tropicais, caviar, salmão fumado, presunto de Parma, vinhos de Bordéus e queijos roqueforte e parmesão, e que tinham na sua carteira de clientes o madeirense Reid’s, o Hotal Aviz, o Tavares Rico, entre outros.

Foi o pai de Pedro, que tomou a decisão, tão improvável quanto estrategicamente acertada, de diversificar dos foie gras, deliciosos mas letais, para os produtos dietéticos (como o pouco sexy mas ultra saudável farelo de trigo) abrindo em Lisboa o primeiro supermercado Celeiro Dieta, onde ele, jovem estudante de Medicina, trabalhou ao balcão.

Os primeiros salários (o pai pagava-lhe 7500 escudos/mês) aplicou-os numa loja das Escadinhas do Duque, na compra de equipamento fotográfico em segunda mão: uma Yashica, várias objectivas e 14 livros de fotografia. Esta paixão acompanhou-o durante toda sua carreira como empresário, que desenvolveu a cadeia Celeiro Dieta, e como médico, feita entre o Desterro e o S. José – agora só tem prática privada, com consultório na Rodrigo Sampaio. 

Falta-lhe o tempo e são tantos os compromissos que provavelmente já não está em idade para mudar tão radicalmente de vida, mas Pedro Lôbo do Vale gostava de ser um dos fotógrafos da National Geographic, uma ambição que não expressa verbalmente mas que é denunciada pelo tipo de viagens que faz e os destinos que escolhe (Etiópia, Mali e Uganda foram alguns dos mais recentes). Viaja sempre acompanhado por 18 quilos de equipamento fotográfico. No regresso, compendia as melhores fotografias num álbum, do tipo coffee table book, legendada e editado pela mulher, impresso na Suíça, e posteriormente distribuído pelos amigos.

À despedida, quando o convenci de que não era só por cortesia que eu lhe dizia que gostara do pseudo bacalhau à Brás (alho francês ripado fazia as vezes do fiel amigo), não resistiu a dar-me um conselho de amigo: “se vier cá comer mais frequentemente vai ver que perde essa barriga”.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias

 

 

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Celeiro Dieta

Av. António Augusto de Aguiar 130, Lisboa

Saladas de abacate com limão, maçã e beterraba

Pseudo Bacalhau à Brás

2 cervejas Lammsbrau

Ananás e papaia

2 cafés biológicos Delta

Pedro argumentou ser o dono do restaurante para não deixar pagar a conta

 

Curiosidades

 

Tinha oito anos quando fez a sua primeira grande viagem de carro com os pais, que foram até Paris e Veneza. No regresso de férias, quando a professora primária pediu aos meninos para fazerem uma redacção com tema livre, ele narrou a viagem pela Europa, descrevendo com pormenor a visita ao Marché aux Puces, de Paris. A professora achou que era tudo resultado da sua fértil imaginação

 

Quando se deu um 25 de Abril em Portugal, Pedro estava em Moscovo, vindo de comboio de S.Petersburgo, no âmbito de um cruzeiro pelo Báltico a bordo de um navio alemão

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