Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Laurentina Gomes

Laurentina Gomes, 45 anos, é sócia e administradora do grupo Listopsis, que tem origem no departamento da Hoescht onde ela começou a trabalhar no armazém. Reconhece que foi uma grande passada aventurar-se a passar de empregada a patroa. “Sai-se de uma zona de conforto. Mas o atletismo tinha-me ajudado a fortalecer a personalidade e a ter a confiança, persistência e motivação extra que são indispensáveis para ultrapassar as dificuldades”, explica a ex-fundista do Mem Martins e do Campolide, que nunca na vida desistiu: “Sempre levei muito a sério tudo em que me meto. Sair da caminha ainda noite e calçar os ténis molhados para ir correr, não é para qualquer um. O que se aprende no desporto é a ser competitivo e ambicioso, a querer ganhar e fazer sempre mais e melhor”

 

Uma iogurteira. Por junto e atacado, uma iogurteira foi a única coisa simultaneamente útil e tangível que ela ganhou durante as duas épocas (82/83 e 83/84) em que disputou, ao serviço do Mem Martins e do Campolide muitas dezenas de provas de estrada e corta mato.

Após alguns anos em actividade, a iogurteira avariou e foi parar ao lixo. Ficaram as três ou quatro dúzias de taças e medalhas que Laurentina guarda no gabinete em Benfica, onde gere o grupo Listopsis, um grupo que fornece soluções, conselho e equipamentos na área da informação e impressão,  facturando 10,5 milhões de euros e empregando 70 pessoas.

O seu hall of fame privado partilha a mesma parede com as distinções acumuladas pela empresa (os três anos em que foi PME Excelência, as certificações de qualidade, as placas de PME Líder, etc) e ainda com fotografias que documentam diversas etapas da vida dos seus mais valiosos troféus, os três filhos: a Cláudia, 19 anos, que estuda Gestão na Católica (quer trabalhar em Hotelaria e Turismo) e dois gémeos, o Guilherme e o Miguel, que apesar dos 13 anos se interessam de uma forma muito apaixonada por tudo quanto diga respeito à política nacional e internacional.

“O que de mais importante trouxe do atletismo para a vida foi a resistência, a capacidade de trabalho e o querer estar sempre a superar-me. Mantenho essa competitividade ao longo do meu dia de trabalho em que compito comigo própria para conseguir fazer tudo quanto planeei”, afirma Laurentina - Tina para os amigos.

Naquele início da década de 80, Portugal corrigia os excessos do pós 25 de Abril e preparava-se para dar um grande salto em frente para o futuro do país: a adesão à CEE. No atletismo, a prata de Carlos Lopes nos dez mil metros nos Jogos de Montreal, pré-anunciava um período de ouro para o fundo e meio nacionais.

Tina nasceu em 1965 no Hospital de Sintra, a segunda de quatro filhos (das quais todas as três raparigas praticaram atletismo), do matrimónio entre uma auxiliar de educação e um trabalhador de ferro para a construção civil.

Cresceu feliz em Algueirão, num ambiente semi-rural, habituada a brincar na rua, explorar as redondezas em grandes passeios de bicicleta, e a jogar futebol ou râguebi com os miúdos da vizinhança. “Era um bocado traquinas”, reconhece Tina, que recriava com os seus amigalhaços os ambientes e aventuras dos Cinco e dos Sete, inventadas por Enid Blyton e que ela devorava em casa. Como é óbvio, não descansaram enquanto não construíram uma casa no cimo de uma árvore.

Filha de um benfiquista ferrenho, era fã de desporto, gostava de futebol e até simpatizava com o clube da Luz. “Mas não se esqueça de dizer que desde que, há dois anos e meio, compramos a CVCIC no Porto, passei a interessar-me também pelo FC Porto”, pede Tina, que guarda da infância aquele ar e modos de miúda espevitada que nunca desperdiça uma boa oportunidade de ganhar dinheiro.

Aos onze anos, andava ela na escola das Mercês, o atletismo passou a ser a sua modalidade preferida. O clique deu-se quando viu na televisão o sportinguista Carlos Lopes ganhar o Mundial de Corta-Mato.

O fascínio por Lopes e por Rosa Mota, com quem se cruzaria em 1983 num Nacional de Corta Mota, em que ela ainda alinhou como júnior, empurram-na para o atletismo, onde debutou com 16 anos no Mem Martins o clube da sua terra.

Mal a viu, o treinador, o sr Medeiros, apostou logo nela. Era pequena (1m56) e magrinha (46 kg), ou seja tinha as características físicas ideias para ser uma boa fundista. E ainda por cima era aplicada. “Sempre fui muito persistente. Nunca desisti”.

Treinava todos os dias, nunca menos de uma hora e meia, correndo ao chuva e sol, por essas estradas, montes e vales, sempre com o Carocha do sr Medeiros atrás a controlar e a dar indicações.  

A sua enorme determinação e resistência levaram o treinador a inscrevê-la numa prova de 30 km de estrada, entre o Guincho e Lisboa, onde conseguiu aquela que foi provavelmente a mais retumbante vitória da curta carreira no atletismo.

“Gostava mais de estrada. No corta-mato os percursos eram tão difíceis que muitas vezes até os ténis saíam dos pés”, recorda Tina, que após entrar para o ISCPSP, onde se licenciaria em Gestão, trocou o Mem Martins pelo Campolide, pois assim podia treinar na pista do CDUL em pista. Tinha de acordar em Sintra às cinco horas da manhã, para poder ir treinar antes das aulas, mas era recompensada no final pelo luxo de um banho quente. 

Naquela altura, o atletismo tornava-se de dia para dia mais popular e, num avant la lettre do profissionalismo que as vedetas já abraçavam, os organizadores das provas ofereciam electrodomésticos como prémios para atrair a inscrição dos atletas mais credenciados. Além da já referida iogurteira, Tina ganhou prémios menores como o voucher de um almoço para duas pessoas no Nuno, o mais célebre e caro restaurante das redondezas.

O atletismo acabou por indirectamente influenciar toda a sua carreira profissional, já que foi uma amiga do atletismo que a poupou, para todo o sempre, à maçada de ter de andar à procura de emprego.

“Olha que na Hoescht andam à procura de uma pessoa para a gestão de stocks”. Quando uma amiga do atletismo lhe disse isto, Tina estava a milhas de adivinhar que aquela informação iria ser decisiva para o resto da sua vida.

Foi à entrevista, entusiasmada com a perspectiva de se tornar financeiramente independente. Contrataram-na para trabalhar no DEPSI, o departamento de sistemas de informação, instalado em Benfica, que constituía uma idiossincrasia nacional da sucursal portuguesa da multinacional alemã de produtos químicos.

A trabalhar de dia e estudar de noite teve de deixar o atletismo, mas isso era um preço muito baixo a pagar por ter passado a ganhar 30 contos/mês, mais dinheiro do que a mãe - e dez vezes o valor da bolsa de estudo com que vivia.

Desde gaiata que se habituara a nunca pensar duas vezes quando lhe surgia uma boa hipótese de ganhar dinheiro. Quando andava no liceu, em Sintra, era normal passar as férias grandes como monitora em colónias de férias e outros programas camarários de animação e ocupação dos tempos livres da pequenada.

“Era boa, mas não sentia que pudesse vir a ser uma nova Rosa Mota”, explica Tina, que quando deixou de correr estava a treinar para se dedicar à maratona.

No DEPSI da Hoescht gostaram dela e não demorou até lhe passarem para as mãos uma carga de trabalhos, ao fazerem-na acumular a gestão de stocks com a da importação dos equipamentos – computadores, faxes, fotocopiadoras, etc, vindos de sítios tão diversos como Japão ou Holanda. Um trabalho árduo naqueles tempos em que as barreiras alfandegárias ainda não tinham desabado.

“As pessoas hoje não imaginam como era complicado tratar de toda aquela papelada para desalfandegar as mercadorias”, recorda Tina, que depois de acabar o curso, em 1989, viveu uma revoada de intensos acontecimentos: foi promovida a adjunta da direcção financeira, casou com um colega do marketing e comprou o seu primeiro carro, um Alfa Romeu 33 vermelho que lhe permitiu deitar para trás as viagens de comboio da linha de Sintra e os trajectos nos autocarros da Carris.

Nunca deixou de seguir o atletismo. Sempre que podia, nunca perdia uma competição nos Jogos Olímpicos, em particular as estafetas e provas de velocidade. “No fundo e meio fundo trabalha-se e sofre-se muito. Mas sempre me fascinaram as provas de velocidade e as corridas de estafeta, não só pela sua beleza estética mas também pela coordenação, espírito de equipa e grandes competências técnicas que exigem”, explica Tina, que admirava Carl Lewis e Florence Griffith-Joyner.

Em 1992, o ano zero do desarmamento alfandegário e da constituição grande mercado único, os alemães decidiram por termo à originalidade da sua filial portuguesa de vender computadores e faxes, dando ordens a Lisboa para se concentrar no core business do grupo (os produtos químicos) e por à venda o DEPSI.

Onde a maioria dos mais de cem trabalhadores da empresa viram uma ameaça, Laurentina, o marido e os directores comercial e de pós vendas identificaram uma oportunidade que agarraram com ambas as mãos, aproveitando o solavanco para se tornarem empresários ao protagonizarem  um MBO da divisão da Hoescht em que trabalhavam, que deu origem à Listopsis.

“Foi um risco, pois sai-se de uma zona de conforto. Mas o atletismo tinha-me ajudado a fortalecer a personalidade e a ter a motivação extra, confiança e persistência que são indispensáveis para ultrapassar as dificuldades”, afirma Laurentina, que passou os últimos 17 anos a construir um grupo que oferece soluções integradas e globais de sistemas de informação.

“Sempre levei muito a sério tudo em que me meto. No Inverno, quando o equipamento não secava de noite, cheguei a treinar com roupa e ténis molhados. Sair da caminha e calçar os ténis molhados para ir correr, não é para qualquer um. O que se aprende no desporto é a ser competitivo e ambicioso, a querer ganhar e fazer sempre mais e melhor ”, afirma Tina, que todos os dias, às 7h20 da manhã, entra no Solinca do Colombo para fazer 50 minutos de bicicleta e bodypump – e como não consegue deixar de competir com ela própria, está sempre a acrescentar mais peso quer na bicicleta quer nas barras.

“No desporto, continua a pensar que tenho 20 anos…”, explica esta mulher  que acredita que se aplica a tudo na vida “o princípio de que o sucesso é 20% de inspiração e 80% de trabalho, persistência e confiança”. 

Jorge Fiel

Esta matéria foi publicada hoje em O Jogo

8 comentários

Comentar post

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2013
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2012
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2011
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2010
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2009
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2008
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2007
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D