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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

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As vantagens de parecer idiota

Nos bons velhos tempos em que as suas consumições empresariais se resumiam ao Expresso, Francisco Balsemão usava um truque eficaz para preservar a paz durante o fim de semana: fazia de conta que não mandava no jornal que fundou e lhe deu boa parte (a melhor) da sua reputação.

Ao longo de meses, talvez de anos, em que aturou amigos e conhecidos sabedores do seu número de telefone que consideravam ter sido prejudicados, ofendidos ou injustiçados na última edição do Expresso, Balsemão foi construindo laboriosamente a lenda de que era total e completamente alheio a tudo quanto era editorial, pelo que a reclamação estava a ser entregue no endereço errado.

Conta-se mesmo, que, num toque de artista, para credibilizar e adornar esta tese, contava a blague de um dia ter contratado uma agência de comunicação para meter uma notícia no Expresso. Claro que, na vida real, Balsemão não precisa de recorrer aos serviços de Luis Paixão Martins ou Cunha Vaz para fazer publicar uma notícia no seu jornal – basta-lhe telefonar a Henrique Monteiro (por uma agradável coincidência ambos fazem anos a 1 de Setembro, o dia em que também começou a II Guerra Mundial). Mas o fazer de conta que não mandava poupou-lhe uma data de dissabores, chatices e trapalhadas – e por isso ele cultivava essa imagem. A isto chama-se saber levar a vida.

A vantagem de vestir a pele de idiota foi uma das coisas mais importantes que aprendi com Francisco Balsemão. É magnífico ter poder e ser muito importante. Mas é muito melhor ainda ter o poder e ser importante sem o aparentar, para assim podermos escapar incólumes aos malefícios daí decorrentes, designadamente o cortejo de cunhas e queixumes.

Aprendi também que é preciso ter uma certa grandeza para se ser realmente humilde. E como isso carece de treino permanente, sinto a necessidade de parecer idiota pelo menos duas vezes por dia para me manter humilde.

Mas, atenção, que vestir a pele de idiota e exibir a humildade de um monge franciscano só é aconselhável se tiver a certeza absoluta de que, na realidade, não é nem idiota, nem arrogante – e não está em apuros. Devo, a propósito, lembrar uma luminosa frase de Groucho Marx: “O meu cliente tem ar de imbecil, mas desconfiem das aparências, ele é mesmo imbecil”.

Nestes tempos tristes, em que o desemprego oficial já roça os 11% e os bancos fecharam a torneira do crédito, se aparentar estar liso as pessoas fugirão de si como se fosse portador de uma doença contagiosa, com medo de que lhes peça emprego – ou, pior ainda, tente cravar dinheiro, com a promessa velha e gasta do “pago-te para a semana”.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias

 

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