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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Catarina Tendeiro

Olha-se para a cara dela e vê-se que anda feliz. O caso não é para menos. Enquanto a esmagadora maioria dos seus colegas estão a despedir gente, Catarina vive no Paraíso dos directores de Recursos Humanos (RH), pois no quadro do seu plano de expansão em Portugal de três para sete lojas, o Ikea vai contratar mais 4500 pessoas nos próximos cinco anos.

“Adoro estar na loja fardada de amarelo”, conta Catarina Tendeiro, 36 anos, que vendeu umas capas de sofá no dia de abertura do Ikea de Loures, onde trabalham as 480 pessoas, das quais 40% licenciadas (em áreas que vão do Direito à Biologia, passando pela História e engenharias), que chegaram ao fim de um processo de selecção a que se candidataram 30 mil.

“Até há pouco tempo, os bons não estavam muito tempo sem trabalho, mas agora…”, comenta a directora de RH do Ikea Portugal, que escolheu almoçarmos na cantina dos empregados da loja de Loures, onde éramos os únicos à civil – ela está dispensada, porque trabalha na área central.  É uma questão de cultura. Todos os 1500 trabalhadores do Ikea se tratam por tu, sem excepção. E à vista do cliente não há nada que diferencie o chefe da loja de um colaborador de base, que ganha 600 euros/mês. Ambos estão fardados e a placa identificativa não se revela o posto – apenas o primeiro nome e bandeiras que identificam as línguas que fala. Nem a idade dá uma pista sobre o lugar que ocupam na hierarquia, pois a empresa faz questão de recrutar gente com 50 e 60 anos. “Os mais velhos nunca faltam, são pessoas sólidas e ajudam a equilibrar as equipas, lembrando aos mais novos a importância de ter um emprego e de comer por pouco mais de um euro..”, explica.

O menu da cantina dos empregados é mais variado do que o do restaurante aberto ao público, pois seria uma violência passarem meses a fio a almoçar almôndegas ou salmão. Havia francesinha, mas Catarina optou por uma lasanha vegetariana, acompanhada por salada e sobremesada com uma gelatina.

Ela é daquele tipo de pessoas despachadas, que são eleitas chefes de turma. Filha de um barman, que passou por diversos hotéis do Estoril, e de uma auxiliar de educação, cresceu na Parede e desde miúda se habituou a trabalhar nas férias. Distribuiu jornais no autódromo, esteve ao balcão numa loja de animais, mas o emprego temporário mais estável e lucrativo que teve foi no bar da piscina do Hotel Inglaterra, servindo pregos e imperiais, nas férias grandes ou ao fim de semana.

A meio do curso de Sociologia percebeu que se tinha enganado na escolha, o que ela queria era tratar de pessoas, mas nessa altura não havia nada a fazer senão acabar o curso e corrigir o tiro depois. Foi o que fez. O primeiro emprego a sério foi na Linha Directa do Banco Fonsecas & Burnay, colocada pela Manpower, com um contrato de seis meses.

No início andou apavorada. Em meados dos anos 90, a banca dava os primeiros passos na relação à distância com os clientes e ainda não descobrira a importância de forma quem atendia o telefone. Rapidamente, e em regime auto-didacta, ela fez uma pós graduação em produtos financeiros e passou a tratar por tu leasing, ALD, cartões de crédito, compra e venda de acções, bem como envios de dinheiro para o estrangeiro. Ao fim de um ano já era a supervisora e organizava o call center do banco. 

Há sete anos, quando lhe apareceu a hipótese Ikea, não hesitou um segundo. Estava em Palmela, numa fornecedora da AutoEuropa, e ,por causa da crise provocada pelo 11 de Setembro, passava o dia nos tribunais, escritórios de advogados ou em negociações com delegados sindicais que ela ainda não tinha dito nada e eles já estavam a dizer que não concordavam.

“Era uma morte lenta. Uma semana despedia duas pessoas. Na seguinte três. Era um desgaste emocional muito grande”, recorda Catarina, que enquanto esperava para saber se tinha ou não sido admitido no Ikea, meteu-se no carro e foi à loja mais próxima da cadeia sueca (Alcorcón, próximo de Madrid) com um duplo objectivo. Comprar uns móveis de cozinha e sofás (estava a mudar de Carnaxide para Carcavelos) e “ver na cara dos trabalhadores se eram felizes”. Eram.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias

 

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Cantina Ikea Loures

EN 250 Rua 28 Setembro, Frielas, Loures

Saladas Tata … 0,60

2 lasanhas vegetarianas … 2,20

Gelatina 0,30

Tarte de frutos silvestres … 0,60

2 águas … 0,60

2 cafés … 0,80

Total … 5,10 euros

 

Curiosidades

 

Quando começou o processo de recrutamento para a primeira loja do Ikea (que abriu em 2004 em Alfragide), Catarina pôs anúncios em jornais e pedia que as respostas fossem enviadas para um apartado (de que ainda guarda a chave) que visitava diariamente, munida com uma data de sacos de plásticos para trazer a enorme quantidade de envelopes com currículos. O recrutamento dos 480 trabalhadores para a loja de Loures decorreu em moldes completamente diferentes. As candidaturas e parte da triagem foram feitas online e ainda recorreu às redes sociais Linkedin e Facebook

 

Catarina está a fazer uma pós graduação (Programa de Direcção para Executivos) na AESE, que funciona com base em casos empresariais. Quando estavam a debater o caso Honda, e a particularidade dos trabalhadores desta companhia andarem fardados, um colega comentou: “Como se isso fosse possível Portugal…”. Ela contrapôs que não só é possível como existe. No Ikea todos os 1500 trabalhadores, excepção feita aos da área central, usam a farda azul e amarela. Na sequência deste esclarecimento pediram-lhe para escrever um caso Ikea, para ser estudado nos próximos programas

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