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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Serafim Ribeirinho Soares

Apesar de pilotar um Lotus, Jim Clark foi o seu primeiro ídolo. Mas Ferrari foi a marca que ele sempre venerou, numa admiração que se estendeu naturalmente aos pilotos que deram grande alegrias à escuderia de Maranello, como Nikki Lauda, Clay Regazzoni ou Michael Schumacher.

Foi preciso chegar aos 47 anos para ter bolsos suficientemente fundos para comprar o seu primeiro e único Ferrari, um 360 Modena, que comprou e vendeu pela mesma razão – e lhe proporcionou a mais estreita das ligações entre a sua paixão pela velocidade e profissão de cirurgião plástico.

“O Modena era um carro fantástico. Comprei-o pelo trabalhar do motor. Quando passava toda a gente virava a cabeça. E vendi-o pelo mesmo motivo. O trabalhar era muito bonito mas a partir de determinada altura não conseguia mais aguentar aquele barulho. Mas ainda o tive dois anos”, explica Serafim Ribeirinho Soares, 55 anos, dono da clínica Artlaser na Foz do Douro, Porto, um cirurgião plástico que não consegue deixar de ser infiel aos carros. Há um par de semanas, usa um Porsche Cayenne S Hybrid, que substituiu um Panamera que apesar de qualificar como “o melhor estradista que já guiei”, não durou mais de nove meses nas suas mãos.

Foi ao volante do seu Ferrari Modena que sofreu o único das largas dezenas de acidentes que pontuam a sua vida que o obrigaram a recorrer aos serviços de um colega cirurgião plástica. Foi algures em 2002, seguia calmamente pela Diogo Botelho, em frente à Católica, quando foi abalroado por um jipe que vinha a alta velocidade de uma transversal. “Tive culpa zero, mas no final acabei por ser eu a pagar a conta, que não foi pequena”, comenta Serafim, tenente coronel médico na reserva, que tem no seu gabinete um retrato seu assinado por Lanhas, que ele caracteriza como “um amigo e a pessoa mais interessante que conheci em toda a minha vida”.

Ao longo dos 28 anos que leva como cirurgião plástico, Serafim calcula lhe tenham passado pelas mãos mais de 14 mil pacientes, dos quais muitos passageiros frequentes da revistas sociais, cujo nome se escusa revelar, em obediência aos regras da deontologia médica. Limita-se a garantir que nunca tratou pessoalmente de José Castelo Branco apesar desta socialite por mais de uma vez ter afirmado publicamente que recebeu tratamento na sua clínica.

Serafim herdou do pai - um clínico geral homónimo que apesar de já contar com 85 anos mantém o consultório aberto (ele não tem outro hóbi senão a Medicina”, explica o filho) – o gosto pelos automóveis. Foi nos jardins da casa em que cresceu, na rua do Falcão, em campanha, que pela primeira vez agarrou num volante e engrenou uma velocidade no Volvo 444 “marreco” do pai, quando ainda tinha nove anos, mal chegava aos pedais e recebia a educação básica ao domicílio, leccionada por uma professora particular – regime também aos seus três irmãos mais novos, duas irmãs e Jorge (que é engenheiro agrónomo), seu companheiro de precoces aventuras e desventuras automobilísticas.

Quando a mãe tirou a carta, estava ele a entrar na adolescência e aproveitou a oportunidade para assistir às aulas de código e assim completar uma formação prática feita em regime autodidacta mas que implicou largos prejuízos às finanças domésticas. Lembra-se, entre outras coisas, de ter batido, nos jardins da casa de Campanhã, com o Fiat Sport do pai, pequena e involuntária patifaria, principalmente se comparada com as malfeitorias protagonizadas pelo irmão, que uma vez deu cabo da frente do Volvo paterno e noutra ocasião destruiu o Austin Maxi novinho em folha que um amigo da família deixara à entrada de casa. “O Volvo era muito alto e como ele estava a tirá-lo em marcha atrás não dava para ver que o outro carro estava em cima da rampa”, alega Serafim, como atenuante para as desgraças perpetradas pelo irmão mais novo.

“ O pai nunca nos bateu. Ficava muito zangado, tentava mostrar-nos o que estava certo e errado, e insistia muito para que não voltássemos a cometer os mesmos erros. Mas nunca nos levantou a mão”, recorda Serafim, que fez o secundário no Colégio Almeida Garrett (que fora fundado por um ti bisavô) e sempre pensou em ser médico, ambição que atribui à influência do pai, que acumulava o consultório com a prática de Medicina do Trabalho na Hidroeléctrica do Cávado (que viria a integrar-se na EDP).

Cresceu numa família que não ligava a futebol, mas estava consciente da importância do desporto na formação de um jovem. Fez equitação, na GNR, até o tempo livre começar a escassear após entrar para a exigente Faculdade de Medicina do Porto. E foi dos primeiros a aderir à moda do karaté, mal esta arte marcial se começou a instalar e popularizar no nosso país, durante os anos 60.

No Soshinkay, na rua Pinto Bessa, foi obrigado a fazer muita ginástica e educou a sua força de vontade. “Para se vencer no karaté é preciso ter uma concentração muito grande”, afirma, acrescentando que o hipismo lhe deu disciplina, rigor e equilíbrio: “Aos domingos, acordava às seis da manhã para ir para os cavalos, onde vigorava uma disciplina militar. O capitão Frazão tratava-nos como se fossemos recrutas”.

Serafim sublimava a montar em cavalos de carne e osso a impossibilidade de dar livre curso à sua paixão pelos motores com muitos cavalos. Como o pai não lhe dava o dinheiro que lhe permitisse concretizar o sonho de ser piloto de corridas, devorava o Motor e o Volante, deleitando-se com os feitos de Carlos Santos, um dos seus heróis.

Jura que só andou pela primeira vez com um carro na rua quando tirou a carta, com 18 anos, em 1972. “Antes do 25 de Abril a polícia era danada e ser apanhado a conduzir sem carta dava direito a prisão”, explica. Não foram muito auspiciosos os seus inícios ao volante do seu primeiro carro, um Fiat 850 Sport vermelho. Logo no primeiro acumulou 21 acidentes, boa parte deles nos descampados vizinhos do Hospital de S. João, quando testava os limites do carro e treinava algumas habilidades. Certo dia, à saída das aulas, com uma mão no volante e outra dependurada na janela, fez uma curva mais apertada, o Fiat bateu no passeio e capotou. A mão que ia de fora ficou tão maltratada que teve de fazer meia volta e dirigir-se à Urgência para receber tratamento. “Andava depressa demais”, reconhece.

Atendendo à sua mania das velocidades, no final da adolescência deixou-se seduzir pelos karts, a cuja prática teve acesso através de Luís Filipe Figueiredo e Silva, seu colega no Almeida Garrett, cujo pai, “que era engenheiro e uma pessoa fantástica”, tinha uma oficina por debaixo de casa onde morava, na rua de Bessa Leite.

No negócio da venda ao engº Figueiredo e Silva do Citroen DS do pai (que só gostava de Mercedes e apenas tinha comprado o carro francês, cuja suspensão era gabada, porque tinha acabado de ser operado às costas) Serafim arranjou maneira de ficar dono de uma kart Zip, com motor Comet, em que atingiu velocidades na ordem dos 100 km/hora em provas no circuito de S. Caetano, em Miramar, até que um dia sofreu o mais grave de todos os seus acidentes. “Não morri por acaso”.

Como não podia deixar de ser, ia de gás. Tinha acabado de entrar, fez uma ultrapassagem, desfez uma curva para a direita, ainda passou a parabólica, mas os pneus estavam frios e na curva seguinte saiu em frente contra um poste, o capacete, que estava mal apertado, voou e a sorte dele foi que não bateu com a cabeça, antes com as partes baixas, e ficou inconsciente. “Magoei-me a sério. O susto foi tão grande que deixei os karts”.

No final do curso, esteve dois anos a fazer a periferia em Boticas, antes de passar no exame para médico militar e corrigir o tiro quanto à especialidade. Ser cirurgião geral era o seu projecto até conhecer o cirurgião plástico Paralta de Figueiredo. Quando regressou às corridas em 97, já tinha participado na primeira lipo-aspiração realizada no nosso país (em 1983, no Hospital S. João) e na mais complicada operação da sua carreira, que demorou mais de 24 horas e teve lugar na Casa de Saúde da Boavista, e envolveu, entre outras coisas, o transplante de dedos dos pés para as mãos de um politraumatizado que tinha sofrido um grave acidente de viação.

Andou pelos troféus, primeiro pelo Fiesta, depois pelos Toyotas, até que um dia o Carlos Rodrigues, que era seu vizinho, lhe tentou vender um Escort, negócio que nunca se veio a concretizar, devido a uma irremediável diferença entre os preços pedido e oferecido, mas que acabaria por ser involuntariamente decisivo no ingresso de Ribeirinho Soares no Nacional de velocidade, na categoria de Clássicos.

As coisas passaram-se assim. Serafim e Carlos Rodrigues estavam a assistir ao Circuito de Vila do Conde, quando, após uma passagem de Mário Silva ao volante de um Chevron B19, o cirurgião plástico desabafou com o amigo e vizinho: “pelo preço que tu me pedes pelo Escort, eu compro em Chevron”. Tudo poderia ter ficado por aqui se não se desse o facto de Carlos Rodrigues não tivesse posto a circular no mercado que o Ribeirinho Soares estava interessado em comprar um Chevron.

O boato chegou aos ouvidos de Carlos Barbot, que pouco tempo depois ligou a Ribeirinho Soares, estava ele de férias a comunicar-lhe que tinha comprado uma barqueta para os dois e que em Setembro iam experimentá-la. Serafim não disse que não. E em Setembro, estava em Silverstone ao volante de um Lola T 212. “Apesar de estar a chover e de nunca ter guiado um carro daqueles, ajeitei-me. E fiz um tempo que todos consideraram fantástico”, relata. Fez negócio.

Logo na primeira prova do Nacional de Velocidade, no ano 2000, em Braga, fez um pódio (2º lugar). E com o Lola seria por das vezes consecutivas campeão nacional (2005 e 2006) que continua a disputar, agora com um Porsche 934.5 . “As corridas representam um escape da minha actividade profissional e obrigam-me a fazer diariamente preparação física”, diz Serafim, acrescentando que a sua melhor característica como piloto é “ser muito ousado e atirado para a frente” e o principal defeito a dificuldade que tem em afinar os carros, que deriva do facto de ter começado tarde.

“Há uma comparação perfeita entre ser cirurgião e piloto. Quando estou a disputar uma prova, tenho de estar super-concentrado, não posso pensar em mais nada, e estou sempre a tentar superar-me. Quando estou a fazer cirurgia passasse o mesmo. Tenho de estar super-concentrado e a superar-me”, concluiu.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada em O Jogo

 

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