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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Joaquim Moutinho

 Joaquim Moutinho, 58 anos, é dono de lojas de marcas como a Hugo Boss e a Max Mara, de que é o representante para Portugal. Durante 15 anos, celebrizou-se e correndo em pista, terra e asfalto, ao volante de carros míticos como o Renault 5 GT Turbo, Porsche Aurora e Opel Commodore GSE. Vencedor do Rali de Portugal, campeão nacional de ralis e de velocidade, foi nas corridas que aprendeu a não baixar os braços e ir buscar forças aonde não sabia que tinha para enfrentar com sucesso, no início da sua vida empresarial, duas crises graves (a dos incobráveis e a cambial), que lhe levaram 1, 3 milhões. “Neste mundo em mutação rápida, a vida no mundo dos negócios é cada vez mais aparecida com um rali cheio de nevoeiro e lama, em que não vemos nada à frente e não sabemos o que vai acontecer a seguir”, diz

 

 

Para celebrar a entrada na Faculdade de Economia e o 18º aniversário de Joaquim, o mais velho dos seus três filhos, o pai decidiu-se a oferecer-lhe uma bomba, o Datsun 1600 SSS, arranjado a bom preço pois, como empresário de plásticos e napas, era fornecedor do Entreposto, que montava em Setúbal os carros da famosa marca japonesa.

Mas ele, que acabara de tirar a carta e desde pequenino era vidrado em automóveis, declinou a oferta generosa. Agradecia muito, mas preferia um carro mais modesto, em segunda mão, e até já tinha um em vista: o Datsun 1200 posto à venda por Teresa Gil da Silva.

O pai fez-lhe a vontade (“Se é esse o carro que queres, seja...”) convencido de que ele estava a ser burro. Só mais tarde se aperceberia de que este estranho comportamento do filho foi o momento fundador de uma extraordinária carreira de piloto de automóveis, que se sagrou campeão nacional de ralis e de velocidade, e triunfou no Rali de Portugal.

Joaquim Moutinho, 58 anos, recorda este episódio numa sala do número 15 da rua das Condominhas, junto ao Largo do Calém e ao rio Douro, onde bate o coração do seu grupo empresarial, que factura mais de dez milhões de euros/ano, e onde convivem lojas da Hugo Boss com a representação e lojas de outras marcas de vestuário, como a Max Mara.

Ele sonhava correr no Campeonato de Promoção (como se chamava na época à competição para iniciados) de ralis e nos troféus. E o Datsun 1200 apesar de menos potente que o 1600 SSS, já vinha com roll-bar e corta circuitos, ou seja preparado para competir sem ser necessário gastar dinheiro que ele não tinha.

Manuel dos Santos Júnior viveu na ignorância da secreta ambição do filho até que numa sexta feira à noite, algures na Primavera de 1972, estava calmamente a ler jornal no sofá junto à lareira, na casa onde moravam, na rua Alexandre Braga, e Joaquim, com um ar comprometido, lhe interrompeu a leitura anunciando: “Pai, vou-me deitar mais cedo, porque amanhã vou entrar numa prova”.

“Vais entrar numa prova? Que prova?”, interrogou o pai, homem duro, deixando escorregar o jornal para o chão. Era o Rali do Académico, que começava com umas voltas ao Estádio do Lima, para estabelecer a ordem de partida, e se disputava em classificativas nocturnas que terminavam no alto de Santa Luzia em Viana do Castelo – a prova de estreia de Joaquim que para todo o resto da vida usaria o apelido da mãe (Lucinda Moutinho), porque, quando preencheu a papelada para tirar a licença desportiva, no ACP, em Gonçalo Cristóvão, não reparou no pedido para sublinhar os dois nomes porque queria ser conhecido. No entretanto, apareceu o Joaquim Santos que leu as letras pequeninas e ele ficou Joaquim Moutinho para todo o sempre.

Dificilmente o Rali do Académico podia ter corrido melhor. Nas voltas ao Lima, fez o 12º tempo, imediatamente à frente do seu amigo Pedro Meireles, um veterano que já andava nos ralis há quase um ano e meio, e que por isso partiu um minuto atrás, o que se viria a revelar uma bênção para Joaquim.

“O carro tinha a suspensão preparada para rampas e pista, No asfalto tudo bem. Mas na primeira classificativa em terra, em Orbacém, a traseira estava sempre a bater na terra. A princípio isso não incomodou. O que importava era que o carro andasse e virasse. Aqueles Datsun nem com um martelo partiam. Mas não demorou muito até o Meireles nos apanhar. Encostamos para o deixar passar a uma velocidade louca”, recorda.

Edgar Fortes, o navegador, fechou as notas, e disse a Joaquim: “Ou vamos atrás dele, ou vamos para casa”. Foram atrás de Meireles. Para o seguir, tiveram de andar à maluca. “Ele vai-se matar”, gritou Edgar ao ver como o carro da frente entrava numa direita lenta. “É impossível andar assim com esta lama e nevoeiro”, acrescentou. Estava enganado.

“Claro que era possível. Quando chegamos ao controlo, colados à traseira do Meireles, estavam lá quatro carros a recolher o carimbo. Foi nessa noite que aprendi a andar na terra”, garante Joaquim Moutinho. À chegada a Santa Luzia, reinava o entusiasmo e optimismo geral entre a maioria das cerca de 50 equipas participantes. Os tempos de penalização que declaravam deixaram-no apreensivo. “Por este andar, o último lugar é nosso”, comentou com Edgar.

No dia a seguir, domingo, foi fazer companhia ao pai que foi de carro para Lisboa. “Não correu lá muito bem”, respondeu quando o pai lhe perguntou que tal tinha corrido o rali. À chegada à capital, telefonou para Edgar e ficou surpreendido quando soube que tinham ficado em 4º na geral, apesar de serem estreantes, e competirem contra Porsches num carro de 60 cavalos e com a suspensão preparada para provas de velocidade. Afinal no alto de Santa Luzia, os outros navegadores tinham-se enganado nas contas de somar.

Na longa de viagem de regresso ao Porto, pela EN1, o pai perguntou o material de que precisava para poderem competir em pé de igualdade com os outros. E ofereceu-lhe dois amortecedores e molas. “O 4º lugar deu-me a sensação de que podia ganhar. Mas fiquei com vontade de provar o sabor da vitória com alguma rapidez”, explica. Não precisou de esperar muito. No rali, seguinte, o de S. Mamede, foi o primeiro na geral com o seu Datsun 1200 castanho metalizado. Era o início de uma bela carreira, que prosseguiria em todos os pisos, desde a terra dos ralis até ao asfalto quente das pistas.

Tinha sete anos quando pregou um enorme susto à mãe que o surpreendeu a manobrar o seu carro, um Fagst igualzinho ao Fiat 600. “Chegava aos pedais porque era grande para a idade e puxava o banco todo à frente”, conta Moutinho, que mede 1m85. O pai alimentou-lhe desde cedo esta paixão. Em 1960, quando ele acabou a primária no Colégio Italiano da rua da Restauração, ofereceu-lhe um kart MC 10  - e nas férias e fins de semana levava-o, a bordo do seu Lancia APP, até ao circuito de São Caetano, em Vilar do Paraíso (Gaia) onde ele demonstrava a suas habilidades precoces competindo taco a taco com pilotos bem mais velhos.

Os 15 anos em que foi piloto deram-lhe muitas alegrias e afinaram-lhe o carácter, mas obrigaram-no a desistir a meio do curso de Economia e a começar a ganhar a vida a trabalhar na empresa do pai, até que um dia, em 1986, sentiu que casado e  com 35 anos, tinha de fazer alguma coisa por ele próprio. Meteu-se num Mercedes 280E de 6 cilindros a gasolina e conduziu até Metzingen, na Alemanha, com o objectivo de ganhar a representação da Hugo Boss. Apesar de haver 92 candidatos, a reunião correu tão bem que no final o contrato estava apalavrado e ele foi ao armazém encomendar roupa.

A volta canhão de 2m05,45seg que fez no autódromo do Estoril (e que ainda é recorde do circuito) na primeira vez que se sentou no Opel Commodore GS/E e permanece é uma das boas recordações que guarda dos gloriosos tempos das corridas, até pelo sacrifício que implicou a compra do carro. “Como os patrocínios não abundavam, para comprar o Commodore ao meu amigo e grande piloto Carlos Santos tive de vender dois carros - um Datsun 1200 GX e um Alfa Romeu 2000 GTV com os quais cheguei a participar em várias provas - juntei todas as minhas economias, e ainda fiquei a pagar 12 prestações de 3.500 escudos, que era uma pipa de massa. E fiquei a andar a pé. Ia para a Faculdade de Economia de autocarro, o que até deu jeito porque naquela época os “burgueses” que tinham carro estavam sujeitos ao ódio revolucionário”, recorda.

A vitória no Troféu Datsun, em 1972, os triunfos no Nacional de Ralis (85 e 86), ao volante do seu mítico Renault GT Turbo, e no Nacional de Velocidade (81) com o não menos mítico Porsche Aurora preparado por Eduardo na sua célebre garagem na Foz, são os momentos Kodak de uma carreira a que pôs termo em 1986.

Abandonou por várias razões. O negócio de representação ocupava-lhe a semana e ao fim de semana tinha as provas, pelo ficava sem tempo para as três filhas que tinha (uma de sete e as gémeas, com cinco, a que se viria a juntar, nove anos depois a mais nova, que tem agora 15 anos) – uma das quais é casada com o filho de Rui Moreira, o presidente da Associação Comercial do Porto. E, last but not the least, o ano da despedida ficou marcado por dois acidentes muito graves. No Rali da Rota do Sol o susto foi tão grande que quando saiu do carro não conseguia aguentar-se de pé. E nos Açores, saiu do R5 GT Turbo in extremis, imediatamente antes do carro começar a arder.

“Tomei a decisão de abandonar no dia do acidente dos Açores. O carro ficou totalmente destruído. Acabamos o campeonato no Alto Tâmega com um carro emprestado pela fábrica, que pesava menos 200 quilos que o nosso e tinha sido do Jean Ragnotti. Pediram-nos para ter muito cuidado com ele porque ia a seguir para o museu da Renault”, diz Moutinho, que questionado sobre os pilotos que mais admirou, nomeia Ayrton Senna , na velocidade, e Henri Toivonen, nos ralis, “dois supra sumos em termos de rapidez”, mas não esquece a inteligência fria de Alain Prost.

“A pista é muito diferente dos ralis. O fundamental é a análise detalhada dos pormenores que todos juntos fazem a diferença. O que conta é a constância e o rigor em todas as voltas. Não é nada fazer uma volta a 1m52, a seguinte a 1m50 e a terceira a 1m54. É fundamental saber gerir os pneus e perceber que uma corrida começa a ganhar-se nos treinos”, explica.

Na velocidade, está-se em confronto directo com os outros competidores, sabe-se sempre em que lugar se vai. Nos ralis já não é assim  - é um contra-relógio. “Cada um de nós anda sozinho, entregue a si e ao co-piloto, que é tão importante como o condutor. Há o inesperado, a lama, a chuva, a noite e o nevoeiro”, compara Joaquim, que agora conduz um BMW 7.30 D, com cinco anos “e não tem um barulho”.

O que é mais parecido com a vida? O rali ou a velocidade? “No princípio é uma mistura das duas coisas. É preciso aliar o rigor e consistência da pista com a capacidade de improviso e o instinto que leva a fazer as coisas certas e evitar as erradas, que se ganham nos ralis. Mas agora com o mundo em mutação rápida, a vida no mundos dos negócios é cada vez mais aparecida com um rali cheio de nevoeiro e lama, em que não vemos nada à frente e não sabemos o que vai acontecer a seguir”.

“Nas corridas aprendi a enfrentar as dificuldades, a não baixar os braços e a ir buscar forças que não sabia que tinha”, concluiu Joaquim Moutinho, que bem precisou dessa capacidade para, nos primeiros anos da sua vida empresarial, ultrapassar com sucesso duas crises bem graves: a dos incobráveis, em que perdeu 800 mil contos, e a cambial, que lhe levou meio milhão de contos.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada em O Jogo

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