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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

César Pratas

César Pratas, 74 anos, é um dos maiores especialistas portugueses em Direito Penal Económico.  Foi como nadador  do Clube Naval de Setúbal, durante a adolescência, que se iniciou a sua paixão pelo mar que o tem acompanhado ao longo da vida. Skipper do veleiro de 43 pés Post-Scriptum, tem limpado quase todas as regatas disputadas da difícil baía de Sesimbra. “Velejar é como navegar na vida. É preciso estar sempre a manobrar em função do vento. Bolinamos se vamos contra o vento. Ou à popa se o temos a favor. Normalmente as provas, tal como a vida, são disputadas contra o vento”, filosofa o advogado, que garante que em 2011 participará na Regata do Rei de Espanha, na baía de Cadiz

 

Este ano muito provavelmente não vai dar, porque tem entre mãos um processo complicado relativo a um acidente com uma ponte que caiu nas Caldas da Rainha. Mas para o ano não falha. César Pratas, 74 anos, será o skipper do seu Post-Scriptum, um veleiro de 43 pés da classe Grand Soleil, na regata do rei de Espanha que anualmente se disputa na baía de Cadiz.

“Estou ansioso por participar. Sinto que ainda tenho muito para aprender sobre a navegação no Mediterrâneo”, confessa o advogado, especialista em Direito Penal Económico, possuidor da carta de patrão de alto mar, que o habilita a fazer navegação oceânica. “O maior gozo que tive foi uma viagem que fizemos há dois anos, entre Lagos e Cadiz. Durante as 16 horas que ela durou apanhamos as condições ideias. Foi uma navegação perfeita”, recorda no seu escritório decorado com motivos náuticos, no 1º andar do 211 da rua Castilho, junto à Penitenciária, no alto do Parque Eduardo VII.

César trabalha em Lisboa, mas vive em Sesimbra, onde tem o barco. Entre ele e o mar há uma longa história de amor. Nasceu em Setúbal, no ano em que a Espanha se dividiu em duas, quarto filho do matrimónio entre uma doméstica e um ferroviário. Viveu na foz do Sado até ir para a faculdade, com excepção de um curto período em que o pai esteva destacado pela CP na estação das Caldas da Rainha.

Aos sete anos ficou órfão de pai, pelo que a mãe viu-se na contingência de dizer sim pela quarta vez, casando-se com um funcionário da União Eléctrica Portuguesa. Oriundo de uma família apenas remediada, cedo teve de arranjar uns ganchos que lhe garantissem uns tostões, escrevendo para os jornais, enquanto estudava na Escola Comercial.

As professoras protestavam ser uma pena se aquele rapaz tão esperto, que espraiava a qualidade da poesia e prosa na página literária do Setubalense (que ele também coordenava), não continuasse os estudos na Universidade. César deu ouvidos a uma dela, que o aconselhou seguir Direito. Quando concluiu o curso comercial, fez o liceu num par de anos. No primeiro, arrumou o 1º e 2º ciclo (o equivalente ao antigo 5º ano). No segundo, completou o 7º ano e fez o exame de admissão ao que era então o mais afamado curso de Direito do país.

O mar e o desporto são uma constante que o acompanha ao longo da vida. Ainda a Europa estava posta a ferro e fogo por Hitler e já ele debutava como atleta da natação do Clube Naval de Setúbal. À mingua de piscina, treinos e provas eram sempre nas águas frias do mar, que ditavam uma época de apenas dez meses – com dois (Dezembro e Janeiro) de defeso.

“Não era nem mau, nem bom. Era um nadador do meio da tabela”, recorda César, que, mais de meio século volvido, ainda estremece quando se lembra do frio que rapava durante as longas travessias da baía. Apesar de, regra geral, a água estar muito fria, ele aguentou estoicamente durante quase dez anos a condição de nadador do Clube Naval de Setúbal, que além de o ter ajudado a enrijecer as carnes ainda lhe proporcionou uma iniciação à arte da vela.

Aprendeu a velejar num sniper do clube, e aproveitava os fins de semana para praticar. “Velejar é como navegar na vida. É preciso estar sempre a manobrar em função do vento. Bolinamos se vamos contra o vento. Ou à popa se o temos a favor. Normalmente as provas, tal como a vida, são disputadas contra o vento”, filosofa o advogado.

Além de estudar, nadar e velejar, atravessou a adolescência adestrando a escrita, em textos literários para o Setubalense e reportagens para o Distrito de Setúbal, apetrechando a bagagem cultural com um sábio programa de leituras (os Maias, de Eça, e Cartas a um Poeta, de Rilke, foram dois dos livros que mais o marcaram), e cultivando na escola do cineclubismo um espírito oposicionista ao regime salazarista, alimentado em longos serões no Café Esperança (agora reconvertido em McDonald’s).

Começou o curso em Coimbra, mas rapidamente se mudou, instalando-se num quarto alugado em Lisboa, atraído pelo magneto da agitada vida literária e cultural da capital. No tempo que o Direito lhe deixava livre, frequentava assiduamente o nº 20 da rua da Escola Politécnica, onde estava sedeada a Sociedade Portuguesa de Escritores (SPE), presidida pelo” impressionante” Aquilino Ribeiro, onde privou com José Saramago e a então sua mulher Isabel da Nóbrega, Ary dos Santos e outros nomes grandes da nossa literatura. “Nunca me esquecerei das conversas no CaféE Monte Carlo, noite dentro, com o David Mourão Ferreira”.

O jovem César prometia fazer carreira nas letras. Ferreira de Castro atribui-lhe uma bolsa, quando presidiu à SPE. Os três primeiros livros de poesia – Antemanhã, Boletim Meteorológico e Tratado de Geometria do Espaço – foram bem acolhidos nos cafés onde ele parava, o Aviz, Gelo, Brasileira. E a 4º obra, Post Scriptum (o nome que deu aos seus dois veleiros), recebeu o reconhecimento dos seus pares, ao ser distinguido, em 1962,  com o Prémio Revelação da SPE.

Membro da Comissão de Juventude da Candidatura Presidencial de Humberto Delgado, teve a oportunidade de presenciar, na qualidade de correspondente na capital do Notícias de Setúbal, à célebre conferência de imprensa, em que, questionado por um jornalista espanhol sobre o que faria a Salazar se fosse eleito, o general sem medo respondeu: “Obviamente demito-o!”

A sua passagem pelos anos 60 foi adequadamente atribulada, como convinha a esta década agitada. Em 62 viveu a crise académica que fez Jorge Sampaio emergir do anonimato e levou à demissão de Marcelo Caetano do lugar de reitor da Universidade de Lisboa. Em 64 interrompeu Direito e, com a ajuda de uma bolsa, foi estudar para Lausanne, de onde trouxe um diploma em Sociologia e um francês desenferrujado.

Em 69, o ano em que completou a idade com que morreu Jesus Cristo, despediu-se da edição com a publicação do seu último livro de poesias (Sismógrafo): Acabou o curso e dedicou-se a tempo inteiro à profissão. Primeiro no Ministério Público, depois no Contencioso da Petrosul (até à nacionalização da empresa), finalmente como advogado com escritório de porta aberta.

“Ser advogado implica levar uma vida de estudo permanente, ainda para mais num país como o nosso, muito abundante em produção legislativa. Para estar actualizado é preciso estar sempre atento às novas leis e não deixar nunca de ler acórdãos. E nos dias de hoje tratasse ainda de uma profissão mais exigente. Dantes, pressupunha-se que se era bom para se ter conseguido ser médico ou advogado. Ou, o mercado exige que se faça a prova quod est demonstratum de que se é mesmo bom ”, diz, explicando por que deixou de publicar.

Trocou a poesia pela prosa jurídica, mas manteve o amor pelas coisas do mar. Mal pôde, comprou um terreno em Sampaio (entre Sesimbra e Azeitão), ao pé do mar, e encomendou um veleiro da classe Janneau, de 37 pés, que baptizou com o nome do livro que valeu o Prémio Revelação da Sociedade Portuguesa de Escritores, e onde o filho único, que lhe herdou nome, profissão e paixão, aprendeu a velejar.

César Medalha Prata, o filho, tem 31 anos e depois de ter jogado râguebi no CDUL e FCT, aprendeu as manhas no mar na Baía de Sesimbra, onde no espaço de três/quatro milhas se apanham todas as mareações possíveis. “A vela é um desporto apaixonante porque exige uma entrega total. É preciso conhecer o barco, os ventos e as correntes para poder espremer o suminho todo do veleiro e conseguir o melhor aproveitamento das velas”, diz.

“A vela é importantíssima porque me dá tranquilidade e força para o trabalho. É muito bom ter o barco aproado, sentir o mar e o vento e ter o espírito ocupado com outras coisas para além do Direito”, afirma o pai, que tal como o filho, é federado na Federação Portuguesa de Vela e apesar de ainda não ter ganho a regata D.Carlos e D.Amélia, tem no papo já muitas vitórias – este ano, das regatas organizadas pelo Clube Naval de Sesimbra, o Post Scriptum, veleiro de 43 pés da classe Grand Soleil da família Pratas, só não ganhou uma (ficou em 2º).

“Uma das coisas fundamentais na vela é ter uma noção forte da hierarquia a bordo. Há um a mandar e a obediência tem de ser total. Dentro do barco, o skipper é Deus. Se manda virar de bordo ou de vela, mesmo que não se esteja de acordo, faz-se o que ele manda. Não há espaço para discussão”, explica o Pratas filho.

A dedicação extrema que ambos exigem é o grande ponto de contacto que o pai detecta entre a vela e o Direito. “A coisa mais parecida com o Direito é o xadrez. O trabalho do advogado é solitário. No xadrez, o bom jogador é aquele que é capaz de ver algumas jogadas à frente e de antecipar as jogadas da outra parte. No mar temos de saber antecipar as condições meteorológicas”, conclui o Pratas pai, chamando ainda a atenção para outra grande diferença entre o mar e os tribunais: “No final das regatas, vencedor e vencidos vamos todos confraternizar. Num processo judiciário quem perde fica mal disposto e não vai almoçar com o colega que o derrotou…”.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada em O Jogo

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