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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Pinto Brasil

Manuel Machado Pinto Brasil, 52 anos, é um serralheiro mecânico que construiu com as suas mãos um grupo empresarial na área da metalomecânica, que factura 20 milhões de euros/ano e emprega 260 pessoas em empresas espalhados por Portugal, Espanha, Tunísia, Roménia e Marrocos. Antigo extremo esquerdo dos Piratas de Creixomil, redescobriu aos 40 anos os benefícios do desporto. “O que de mais importante o karaté me deu não foi a força muscular mas a flexibilidade de corpo e espírito. Agora tenho outra dinâmica. Passei a encarar o dia-a-dia com outra segurança e aprendi a ser mais tolerante e analítico. Dantes irritava-me com muito mais facilidade”, explica o empresário que tem duas metas na vida: ganhar o cinto negro (o que vai acontecer dentro de dez meses) e ser presidente do Vitória de Guimarães

  

Nunca se saberá ao certo se Machado, extremo esquerdo dos Piratas de Creixomil em meados da década de 70, se poderia ter tornado um verdadeiro craque, com direito a figurar nas cadernetas que compendiavam os cromos dos futebolistas de todas as equipas da I Divisão. A verdade é que o próprio, apesar de declarar que em miúdo tinha jeito para a bola, confessa que não tinha pé esquerdo.

Por mais de uma vez as suas capacidades com a bola nos pés foram escrutinadas pelo senhor Barreira, nos treinos de captação do Vitória de Guimarães, mas nunca o destino quis que ele fosse escolhido.  “Se calhar a culpa foi minha. Era muito orgulhoso. Queria logo ser tratado como um jogador de futebol, como uma vedeta que não era. Não queria ficar à experiência. Ou entrava logo ou acabava-se”, reconhece agora, com a sabedoria acumulada ao longo de 52 anos de vida e de sete no dojo (local de treino) do karaté shotokan.

Não seria a sua habilidade de pés, mas antes a de mãos (e cabeça) que viria a libertar do anonimato este rapaz impulsivo, nascido em Creixomil, Guimarães, no ano de 1958, o mais novo (e único varão) dos três filhos do matrimónio entre uma doméstica e o senhor Silvino, dono da mercearia da freguesia, onde ele, ainda gaiato, se habituou a estar ao balcão, treinando as contas de cabeça para ser rápido nos trocos.

Atravessou a adolescência a ver ou a jogar futebol. “De manhã, tínhamos aulas. À tarde ou jogávamos à bola ou fazíamos asneiras”, conta Manel, que no final da primária foi tirar o curso de serralheiro mecânico na Escola Comercial e Industrial de Guimarães. Ao fim de semana, jogava pelos Piratas de Creixomil, nos torneios inter-freguesias, e ia ver jogar os craques do seu clube, pela mão do padrinho, António Fernandes, sócio nº 7 do Vitória de Guimarães e empresário da Fábrica de Cutelaria 85 Inox, um dos orgulhos de Creixomil.

“Sou do tempo do campo da Amorosa, onde ainda se faziam corridas de galgos. Quem ganhava quase sempre era o galgo do Silva, que era guarda redes do Vitória”, conta, enquanto recorre à memória para fazer desfilar os ídolos da sua juventude: Mendes, “o pontapé de canhão”, Almiro, Tito, Joaquim Jorge, Rui Rodrigues, Custódio Pinto, Blanker, Jorge Gonçalves, etc.

A mania de ser independente (“sou aquilo que os americanos chamam um self made man”, declara) levou-o a começar a trabalhar aos 15 anos, ainda antes de acabar o curso de serralheiro, na Laranjeiro & Oliveira, pequena metalomecânica que fabricava máquinas para a indústria têxtil. Não lhe pagavam muito (debutou a ganhar 20 escudos por semana), mas o essencial é que foi lá que aprendeu a arte – e isso é que era o importante para ele naquela fase da vida.

Continuou a dar uns pontapés na bola, na modalidade de futebol de salão, alinhando por diferentes equipas (Campelos, Riba d’Ave e Taipas) em torneios aqui e ali pontuados por episódios caricatos como aquele em que logo aos dois ou três minutos de jogo, um colega de equipa levou com uma bolada na barriga e, acto contínuo, deitou a carga toda ao mar, tornando o recinto impraticável. “Antes de irmos para o jogo, em Riba d’Ave, a mãe dele insistira em que ele comesse uma enorme malga de leite com sopas, para lhe dar forças”, explica Manel.

Durante os seis anos que trabalhou no Laranjeiro, jogou a bola, namorou, amealhou dinheiro para comprar o primeiro carro (um Fiat 127 azul escuro que logo tratou de kitar, confeccionando um volante de competição e enfeitando a frente com uma data de faróis claramente supranumerários) e tornou-se muito bom na arte de serralheiro industrial, sem que isso tenha implicado matar-se a trabalhar.

Quando os amigos se metiam com ele, acusando-o de não fazer nada, ele respondia-lhes: “Um dia destes, quando eu me lembrar, vós ides ver o que é trabalhar!”. Cumpriu esta promessa, em 1979, quando fez 21 anos. Deixou a bola, desistiu de uma tentativa de aprender karaté, despediu-se da Laranjeiro (“Não era aquilo que eu queria, não era uma empresa onde eu pudesse projectar o meu futuro”) e começou a trabalhar por conta própria fornecendo assistência técnica à Marquil, uma empresa de cutelaria das Taipas.

Casou, alugou um anexo em S. João da Ponte, a freguesia da mulher (que lhe deu quatro filhos: a Andreia, 28 anos, directora de Recursos Humanos do grupo, o António Manuel 25, que se prepara para fazer um mestrado em Engenharia Mecânica, o Pedro, 18, que vai para Engenharia Mecânica, e a Adriana que como ainda só tem 12 ainda não decidiu se o seu futuro passará ou não pela metalomecânica) e começou a fazer trabalhos de serralharia para fora.

“Sempre achei que tinha potencial para ir longe”, diz o empresário que trazia inscrita no seu código genético uma costela industrial. “O meu avô materno tinha sido industrial e fez questão que eu tivesse o nome dele: Manuel Machado”, acrescenta este homem com que responde por vários nome: é Manel para os amigos, senhor Machado nas fábricas e Pinto Brasil no mundo dos negócios - o apelido que usa na razão social da holding do grupo e na candidatura que protagonizou à presidência do Vitória de Guimarães.

Começou sozinho, a fazer uns trabalhos mecânicos para a Krumberg & Schubert. Satisfeitos com a capacidade e qualidade deste seu fornecedor, os alemães rapidamente trataram de o introduzir no admirável mundo das cablagens eléctricas para automóveis. “Ainda fiz máquinas para a indústria de calçado, mas eles às vezes esqueciam-se de pagar e eu especializei-me nos automóveis”, explica.

Em 30 anos, construiu, a partir do anexo em S. João da Ponte, um grupo empresarial na área da metalomecânica, que factura 20 milhões de euros/ano a fabricar máquinas para os fornecedores da indústria automóvel e aeronáutica,  empregando 260 pessoas nas fábricas que tem em Portugal (Guimarães, Mindelo e S. João da Madeira), Tunísia, Espanha, Marrocos e Roménia. “Estou onde estão os meus clientes. Em 24 horas, tenho de ser capaz de por uma pessoa em qualquer parte do mundo a resolver qualquer problema”, conta Pinto Brasil, que anda entusiasmadíssimo com os negócios que faz no Irão: “Pagam adiantado, são profissionais e não incomodam ninguém”.

O lançamento das bases do seu grupo absorveu-lhe toda a energia, deixando sem tempo para cuidar do físico, até que, aos 40 anos, a roupa começar a deixar de lhe servir despertou-o para a necessidade de voltar a praticar desporto. Vagabundeou por diferentes modalidades - fez piscinas, andou de bicicleta, experimentou a canoagem, iniciou-se no jujutsu -, até descobrir que o que ele queria mesmo era retomar o karaté, a arte marcial começara a aprender, de forma incipiente em Creixomil, quando tinha 20 anos, e que abandonou para se lançar na sua aventura empresarial.

Ao longo dos últimos sete anos, faz três treinos semanais intensos, de duas horas, no dojo da rua 5 de Outubro (Porto) da Federação Portuguesa de Karaté Shotokan, o que lhe permitiu progredir do cinto branco inicial até ao castanho, de 1º kyu, que espera substituir pelo preto, dentro de dez meses, quando fizer as provas para uma próxima graduação.

Manel começou tarde, mas adora o seu desporto. “Para quem passa a dia a liderar os outros, faz bem chegar ao fim do dia e ser comandado”, diz, acrescentando que o mais importante que o karaté lhe deu não foi a força muscular, mas a flexibilidade de corpo e de espírito. “Passei a encarar o dia a dia com outra segurança. O karaté ensinou-me a ver as pessoas e as coisas de outra maneira, a ser mais tolerante e analítico. Ganhei uma outra dinâmica e forma de estar. Dantes irritava-me muito mais facilmente”, sintetiza este empresário que tem em curso dois investimentos, no valor global de dez milhões de euros, na flexibilização da actividade do grupo Pinto Brasil.

Para se manter a favor dos ventos que sopram e reduzir a sua exposição à indústria automóvel, apostou no fabrico de componentes para a indústria de energia renováveis, está a investir numa nova fábrica, em Serzedelo, Guimarães, e a negociar com a Câmara de Ribeira de Pena a instalação de uma unidade industrial neste concelho transmontano.

No karaté e nos negócios, trabalha com metas a um ano –  ganhar o cinturão negro e ter a nova fábrica vimaranense em operação. Mas na terceira frente da sua vida, o horizonte é mais dilatado. “Claro que, quando chegar a hora, vou voltar a candidatar-me à presidência do Vitória”, diz Pinto Brasil, que recolheu 32% dos votos nas últimas eleições a que se apresentou “para que quem lá está não pudesse continuar a dizer que só se recandidatava porque não havia mais ninguém disponível para tomar conta do clube”.

“O Guimarães sempre foi mais forte que o Braga, que está na posição em que está porque fez o que eu queria fazer no Vitória, que é profissionalizar a gestão. Nesta altura, no futebol já não há espaço para amadorismos”, remata o antigo extremo-esquerdo dos Piratas de Creixomil, um serralheiro mecânico que soube construir com as suas mãos um grupo empresarial, e que sonha ser cinto negro no karaté e presidente do seu clube.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada em O Jogo

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