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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Manuel Serrão

 

Manuel Serrão, 51 anos, é um empresário com negócios nos mundos têxtil, moda e eventos, que cuja cara, portismo e envergadura se tornaram familiares da esmagadora maioria dos portugueses devido às suas participações nas Noites da Má Língua e nos Donos da Bola. Mas poucos saberão que esteve quase a morrer de fome à nascença e ostenta um longo curriculum de desportista: foi campeão nacional de basquetebol pelo FC Porto, na categoria de iniciados, fundou e foi o capitão da Dragões 85/O Comércio do Porto, equipa afastada pelo Freixieiro nas meias finais da 1ª Taça de Portugal em futsal, e durante 14 anos jogou squash. Finalmente, aos 47 anos o joelho direito obrigou-o a converter-se ao golfe, desporto que compara ao sexo e adjectiva de tântrico: “pode demorar-se mais, mas chega-se lá na mesma”

 

 

Quem é Manuel Serrão? Um notório portista, irredutível defensor do Norte face ao centralismo lisboeta e um bom garfo que sabe apreciar as coisas boas desta vida. Acertou se respondeu assim, por estas ou outras palavras. Mas sabe mesmo o que é que ele faz para ganhar a vida? Após um momento de hesitação, uma larga minoria de leitores responderá empresário e/ou jornalista – o que também está certo, apesar de um pouco vago. O que muito poucos saberão é que tem sido, ao longo de mais de meio século de existência, um aplicado desportista, ao ponto de ter sido campeão nacional de basquetebol pelo clube que enche o seu coração, um entusiasmo que lhe deve ter sido pegado quando ainda era bebé e andava ao colo de um vizinho que vendia fogões, chamado Jorge Nuno Pinto da Costa.

Manuel José de Valadares Souto Pinto Serrão é um rapaz de Paranhos, que veio ao Mundo na Ordem do Carmo. A Trindade não caiu, mas os dias seguintes à sua vinda ao mundo, a 8 de Julho de 1959, não lhe foram muito venturosos, já que definhava a olhos vistos e manifestava um feitio irascível. Valeu-lhe o arguto diagnóstico do pai, catedrático de Anatomia Patológica e conselheiro do Vaticano.

“O que o rapaz tem é fome”, declarou Daniel Serrão. Não conseguia mamar bem no peito da mãe, professora de Educação Física e portista militante, à diferença do marido, que nunca ligou a futebóis; “Tem a mania que é do Sporting, mas nem gosta nem percebe de futebol”, esclarece o filho. Deram-lhe de comer como remédio e o bebé Manuel (que abriu caminho a uma ninhada global de seis filhos) medrou até se tornar no forte rapagão que todos conhecem, com 1m85 de altura, pé 43 e uma data de peso.

Aprendeu a desembrulhar-se com as palavras e os números entre a escola da Azenha, na rua de S. Tomé (Porto), e o Colégio da Avé Maria, em Lisboa, onde fez a 2ª e a 3ª classe, com os tios Fernando e Manuel a tomarem conta dele, enquanto o pai Daniel cumpria em Luanda o serviço militar obrigatório, como capitão médico.

Foi a asma que o atirou para o desporto. Os médicos das Termas de Vizela, recomendaram-lhe a prática desportiva. Como aos onze anos ele já era alto (1m70) inscreveram-no no mini-basquete do CDUP, onde se demorou dois anos, distinguindo-se não só por ser o mais alto da equipa mas também pela habilidade com que encestava, dote a que a que não eram estranhas as horas passadas a treinar em casa na tabela que o pai instalara no jardim, ainda hoje usada frequentemente pelas suas sobrinhas.

Andava no liceu D. Manuel II e tinha acabado de completar 14 anos quando trocou o CDUP pelos iniciados do FC Porto, treinados por Zulmiro Matos, onde fez amizade com Manuel Queiroz (director do i,) que viria a ser colega na Redacção de O Comércio do Porto. Estávamos em 1973, a cidade vivia a euforia do basquetebol, provocada pela equipa dirigida pelo fantástico jogador norte-americano Dale Dover (onde Fernando Gomes, actual presidente da Liga de Clubes, era o base), e o jovem Manuel conquistava o título de campeão nacional na categoria de iniciados, após ter deixado para trás, na poule final, Barreirense, Vasco da Gama e Ginásio Figueirense.

A política interrompeu-lhe uma carreira promissora no basquete. Trocou a luta nas tabelas pela luta partidária e no tórrido ano de 1975 fez-se notar quandoa irrequietude da sua militância na Juventude Centrista (de que era dirigente regional) foi premiada com uma prisão pelo Copcon, efectuada por ordens do brigadeiro Corvacho, à porta do António Nobre, o único liceu do Porto, onde, graças ao seu trabalho político, a direcção da Associação de Estudantes não era controlada pela esquerda. Devolveram-no ao mundo livre oito horas depois, quando se convenceram que o perigoso detido era menor – em questões de idade.

Além da prisão e da experiência de ter passado uma noite sitiado no Palácio de Cristal (quando da realização do Congresso do CDS, cercado por uma multidão de manifestantes de esquerda, de que eu fazia parte) a política deixou-lhe mais impressões digitais na vida. Chegada a hora de escolher o curso, optou pelo Direito. “Era o curso da maioria dos políticos”, explica Manuel, que se inscreveu no recém-criado curso da Católica, em Lisboa, onde esteve emigrado seis anos (os cinco da ordem, mais o propedêutico), instalado no Colégio Pio XII, onde foi colega de Fernando Seara, o autarca que ambiciona trocar a presidência da Câmara de Sintra pela da Federação Portuguesa de Futebol.

No Pio XII, todos os santos dias jogava cartas e futebol de cinco. Além disso, namorou compulsivamente, fez turismo, muita praia e vigarizou o Benfica ao usar um cartão se sócio correspondente para ir ver todos os jogos que queria. A Costa da Caparica e as bichas na ponte sobre o Tejo eram os locais predilectos de estudo.

Regressou ao Porto já doutor, em 1983, e logo começou a tratar da vida já que a tropa não o quis, estribando a desfeita na miopia do mancebo (4,5 diopterias no olho direito e 3,5 no esquerdo). Estagiou ano e meio no escritório de João Lopes Cardoso, onde tratou do único caso da sua vida: o divórcio de José Carlos Sousa (actual jornalista de A Bola), pelo qual nada cobrou – ganhando apenas o direito a ser convidado para o segundo casamento do amigo, que não primou pela fartura (o facto do noivo repetente ser judeu praticante ajuda a explicar a frugalidade da boda).

 “Não tinha a mínima dúvida de que não ia seguir a advocacia”, refere Serrão, acrescentando ter gostado do curso de Direito, apesar de a meio ter encarado a hipótese de mudar para Gestão de Empresas, o que só não fez porque lhe faltou a lata para por o assunto à consideração dos pais.

A opção de ingressar na vida artística, como jornalista de “O Comércio do Porto”, compreende-se por sempre ter gostado de escrever. Demorou-se apenas três anos pelo que era o mais antigo diário do país, tempo suficiente para chefiar uma secção desportiva recheada de nomes que se tornariam conhecidos - como Juca Magalhães (director de Informação da TVI), João Bonzinho, José Carlos Sousa, José Carlos Teixeira (todos na Bola), Jorge Barbosa (Record) e Adalberto Ramos (O Jogo) -, e para, em 1986, cobrir as mais célebres de todas as presidenciais (na 1º volta acompanhou Soares e na 2ª volta Freitas).

Durante estes três anos liderou a criação de uma equipa de futebol de salão, baptizada Dragões 85/”O Comércio do Porto”, que disputou o primeiro campeonato nacional e Taça de Portugal em futsal. “Fomos derrotados na meia final da Taça pelo Freixieiro”, recorda o sólido defesa de uma equipa que integrava, entre outros, Luís Amorim (empresário e sobrinho de Américo), Francisco Souto (administrador da Sogrape), Luis Jorge Pinto (gerente da Petúlia e filho de Ilídio Pinto) e Joaquim Jorge (Clube dos Pensadores).

“Comecei a jogar à frente e depois fui recuando até defesa central. Era um falso lento. Não é que fosse o Speedy Gonzalez, mas mexia-me”, auto-analisa Manuel Serrão que pendurou as botas aos 31 anos (em 1990), após ter sido expulso por Paulo Paraty, num jogo do Torneio Vitalis, disputado nos Maristas, por ter aproveitado a molhada de um canto para aplicar uma cotovelada num adversário que estava farto de lhe dar porrada.

1987 foi, para ele, um ano preenchido. Em Viena, o FC Porto atingia a glória. No Alto da Lixa, ele celebrou o primeiro dos seus casamentos. Na Bolsa fartou-se de ganhar dinheiro. Aproveitou este ano de todas as mudanças, para trocar de emprego e debutar na Exponor uma bem sucedida carreira de organizador de feiras e desfiles de moda (como o Portugal Fashion), que prosseguiu no Gabinete Portex até se tornar empresário neste ramo – o que não o coibiu de regressar ao jornalismo, como cronista e pela via do éter, primeiro aos microfones da Rádio Nova, como comentador desportivo, depois na TSF, com as Crónicas de Escárnio e Maldizer, a antecâmara das famosas noites da Má Língua, na SIC, que o catapultaram para o espaço e a celebridade.

Aos 33 anos, iniciou-se no squash, modalidade que praticou ininterruptamente durante 14 anos, no Solverde da Granja, até que o menisco externo do joelho direito o obrigou a parar. “Eu tinha decidido que aos 50 anos iria começar a jogar golfe. Antecipei três anos essa mudança”, conta. Aos 47 anos, teve a primeira lição no Clube do Fojo, que lhe desfez todas as dúvidas relativamente à nova modalidade: “Da primeira vez que fui ao campo vi logo que era para ficar”. De então para cá não deve ter passado uma semana sem ele dar umas tacadas.

É sócio de três clubes (Estela, Oporto e Viseu) e entre os seus companheiros habituais de golfe conta-se um punhado de amigos, como Costa Lima (BPI), António Souza Cardoso (antigo director geral da ANJE e seu sócio na HOP, empresa que organiza eventos) e Eurico Castro Alves (Entidade Reguladora da Saúde). Mantém uma contabilidade em aberto com o director de informação da TVI, um duelo que reconhece estar renhido, “principalmente desde que o Juca passou a ter lições particulares com o Joaquim Oliveira”.

Passando em revista o seu percurso desportivo, o empresário consegue identificar com detalhe o que cada uma das modalidades que praticou contribuíram para a sua formação e carácter:

“O basquetebol foi a iniciação ao desporto, fundamental para a minha saúde numa fase em que ficava sem respirar depois de dar duas corridas. E deu-me também a enorme alegria de poder jogar e ser campeão com a camisola do meu clube. O futebol representou a amizade, a solidariedade, o trabalho em grupo. Permitiu-me ainda fazer o tirocínio como gestor, e ganhar traquejo de organização, pois era eu que tratava de tudo; era jogador, mas também o capitão da equipa, chefe de departamento e quase o roupeiro. O squash foi o desabafo, a libertação da adrenalina e da tensão acumuladas ao longo do dia. Ao fim de 45 minutos de jogo eu já não queria bater em ninguém. Devo ao squash nunca ter tomado calmantes e nunca ter andado à pancada com ninguém. O golfe é diferente, dá prazer sem ser violento. É um desporto tântrico – pode demorar-se mais, mas chega-se lá na mesma”, conclui este portista e empresário que 51 anos depois continua com fome. Fome de comer bem e beber melhor. Mas também, e acima de tudo, com uma grande fome de vida, amor, divertimento e prazer, um hedonista perfeito, proprietário de um grande coração – e tensões baixas, como convém.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada em O Jogo

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