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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Raquel Sampaio

 

Raquel Sampaio, 29 anos, é professora de Relações Públicas e a produtora artística da Academai das Emoções, empresa espeializada em acções de motivação e team building, que integra ilusionistas, maestros e bailarinas no seu corpo de formadores. “Ajudamos um grupo a chegar a equipa”, explica esta fanática por desporto, que durante seis anos correu com a camisola amarela do Jovens Unidos Num Ideal, um clube da sua terra (Guimarães). “Foi o atletismo que me fez crescer. Ganhei capacidade de sofrimento e disciplina”, afirma esta mulher que faz musculação e já foi bailarina e instrutora de fitness. “O que o nosso corpo diz é muito importante e deve ser trabalhado. O corpo fala tanto como a boca”, explica

 

Ela é uma falsa alta. Mede 1m65 - mas parece muito maior. Engana porque anda sempre em cima de saltos altos e é muito magra. Agora, que faz musculação, pesa 55 quilos, mas quando corria tinha menos dez quilos. Era uma lingrinhas. À partida para as provas, não eram nem uma nem duas, mas muitas as pessoas que olhavam para ela, levezinha e um pedaço de gente como a Rosa Mota, e apontavam: “Quem vai ganhar é aquela”.

Ao longo dos seis anos que correu por pistas, estradas e a corta mato, com a camisola amarela do JUNI (Jovens Unidos por um Ideal) vestida, Raquel, 29 anos, ganhou umas provas e perdeu outras. A princípio, na sua primeira época, não estava ainda com a cabeça a 100% sintonizada no atletismo. Apesar de miúda, não abandonou logo os hábitos de fumar, beber uns copos e sair à noite. Mas, logo no 2º ano, após ter feito os mínimos para os Nacionais, na prova dos 1500 metros, começou a ganhar o gosto pelas vitórias e numa mais deixou de lutar por elas. Sempre e muito.

“Comecei a adorar ganhar provas e a gostar de ver atletismo na televisão, que antes considerava uma seca”, explica Raquel, que nasceu e cresceu em Guimarães (onde ainda mantém o centro de gravidade) filha do matrimónio entre uma funcionária pública e um operador de máquinas, uma família de benfiquistas, o que reconhece ser uma anormalidade na cidade berço: “98% dos vimaranenses são vitorianos!”.

Irrequieta, na primária fartava-se de andar a correr de um lado para o outro, mas curiosamente, quando chegou ao secundário, feito na Francisco de Holanda, a primeira modalidade que praticou como federada foi o voleibol, em Fermentões, por influência de umas amigas e vizinhas. Treinava três a quatro vezes por semana, mas o jogo não apaixonava. Ao fim de uma época desistiu.

O atletismo a sério veio por acaso. Sempre que havia corta-matos escolares ela participava e era sempre das primeiras a chegar à meta. Um dia, ficou em segundo e a que ganhou, que era federada e corria pelo JUNI, perguntou-lhe se ela não queria entrar no atletismo. Ela disse que sim, mas não estava muito convencida. Na primeira época, faltou a alguns treinos e levava uma vida pouco regrada. “Tinha jeito, mas não gostava muito”, confessa. Foi uma questão de tempo até se apaixonar pela modalidade, onde logo se revelou uma atleta polivalente, que entregava bons tempos e resultados nos três pisos (tartan, estrada e corta-mato) e em distâncias variadas, que iam dos 400 até aos 3000 metros.

O ponto de viragem foi quando fez os mínimos para os Nacionais, disputados em Mafra, proeza que deu direito a entrevista de página, com fotografia, num jornal de Guimarães, o que além de encher de orgulho a família Sampaio também lhe inchou o ego e levou a meter-se em brios.

Rapidamente se transformou numa das estrelas do JUNI, um clube pequeno, com não mais de uma dúzia e meia de atletas, treinados por dois homens, o senhor Salvador (que também andou pelo ciclismo) e o chefe Gaspar (assim chamado por ser graduado nos Escuteiros), cuja coroa de glória era terem sido colegas de Carlos Lopes, a glória máxima do nosso atletismo, que pôs a Portuguesa a ser tocada no Estádio Olímpico de Los Angeles.

“Os treinadores, em especial o chefe Gaspar, diziam que eu tinha qualidade, os meus pais adoravam que eu corresse, os resultados começaram a aparecer, e eu entusiasmei-me. Cortei nos cigarros, nos copos e nas saídas à noite”, explica Raquel, que se demorou seis anos pelo atletismo, treinando todos os dias, nas praias, dunas, serra, pinhais, pista ou estrada, apenas com uma folga por semana –  às 19h00, de 2ª a 6ª,  aos sábados à tarde e a ao domingo de manhã.

Ficou eternamente grata ao atletismo, por a ter ajudado a crescer. “Ganhei capacidade de sofrimento, disciplina e responsabilidade”, refere, acrescentando que apesar da corrida ser um desporto iminentemente individual, também aprendeu a trabalhar em equipa - nos treinos e nas provas em que havia também pontuação por clubes.

Confessa que às vezes lhe custava um bocado sair de casa, principalmente no Inverno, quando no início do treino já era noite. A chuva não a incomodava-a. “Correr à chuva até sabe bem. No Verão era mais fácil sair de casa, mas o treino era mais duro. É muito desgastante correr com muito calor”.

O amor pelo atletismo era tanto, que um dia teve de ser a mãe a impor-se proibindo-a de sair da cama, pois  apesar de engripada e com 39º graus de febre, ela teimava em levantar-se para ir treinar. “Nesse dia, treinávamos em pista que era o meu piso favorito. “, recorda, acrescentando que por essa altura já estava completamente viciada na modalidade – não queria falhar, só pensava em ganhar.       

Foi contemporânea de Fernanda Ribeiro e Manuela Machado, mas também de Jessica Augusto. Desistiu do atletismo devido à conjugação no espaço e no tempo de uma data de acontecimentos, pouco depois de ter ultrapassado o ponto de viragem da promoção de júnior a sénior, uma passagem em que uma atleta habituada a ganhar começa a perder e tem de aprender a aceitar a derrota e não desistir. “O atletismo é muito duro. Para se vencer é preciso ser muito forte, não só fisicamente mas também de cabeça. Metade do sucesso é a cabeça. Veja-se o caso do Mamede, que falhou tantas vezes apesar de ser fisicamente mais forte que o Lopes”, exemplifica.

Para começar foram os estudos. Acabado o secundário, foi para a Escola Superior de Educação de Bragança estudar Animação e Produção Artística (o curso que era o seu plano B accionado mal falhou a primeira opção, que era fazer Design de Comunicação, em Coimbra). Depois foi a operação aos pés que a obrigou a parar precisamente na altura em que o FC Porto começava a namorá-la – e a fez andar nove meses de canadianas. Como se isto não bastasse, apareceram-lhe duas novas nova paixões: a musculação e a dança.

Ainda andava de canadianas quando começou a frequentar o ginásio, que nunca mais deixou. Quando recomeçou a andar pelo seu próprio pé, envolveu-se na dança e foi bailarina de diferentes géneros, do clássico à salsa, passando pelo hip hop e o funk (“gosto de ritmos africanos”, confessa). Por fim tirou um curso de instrutora de fitness.

“Tenho saudades do atletismo. Arrependo-me de ter desistido. Mas agora, com 29 anos, já é tarde para voltar”, diz Raquel, que divide o tempo entre a sua actividade de professora (à 2ª e 3ª feira dá aulas de Relações Públicas na Escola Tecnológica e Profissional da Zona do Pinhal, em Leiria) e de produtora artística da Academia das Emoções, empresa especializada em acções de motivação e team building, que integra ilusionistas, maestros e bailarinas no corpo de formadores porque o seu conceito base consiste em usar a arte para trabalhar e fortalecer o espírito de equipa.

“Ajudamos um grupo a chegar a equipa”, sintetiza Raquel, que a nosso pedido resumiu o programa tipo de uma das suas sessões, que em média duram quatro horas e se dirigem a quadros de primeira linha de grandes empresas.

Para começar, deitam-se todos de costas no chão, de preferência em círculo, olhos fechados e mão dada com a pessoa do lado. Depois, ela pede-lhes para pensarem em coisas positivas enquanto ouvem, durante três minutos, uma voz agradável e profunda, a dizer palavras como Amor, Sucesso e Criatividade. A seguir é a massagem colectiva. À vez, cada um dos membros do grupo (idealmente constituído por 18 pessoas), vai para o meio e, com os olhos vendados, é massajado da cabeça aos pés pelos outros, ao som de Mr Jones (“Shalalalalala, uh huh…Yeah), dos Counting Crows.

Cada massagem dura apenas um minuto. “As pessoas gostam. Querem mais, mas não pode ser”, “As pessoas têm medo do toque. Não compreendem a importância de um bom aperto de mão ou de um abraço forte na hora certa”, explica Raquel, que trabalha o poder de comunicação corporal dos outros com a credibilidade que lhe advém do seu próprio corpo, magro mas com a musculação bem definida, resultado de milhares de horas no ginásio e na dança.

Quebrado o gelo com a massagem, a sessão team building prossegue com exercícios de improvisação que promovam o riso, em que o pessoal abandona definitivamente a pose de quadro superior de uma empresa de telecomunicações ou seguradora, e entrega-se a brincadeiras em que imita a reacção de animais como o elefante, crocodilo ou leão. O objectivo é a risota.

Fazer um andar esquisito (mancar, andar à Charlot…) e transformá-lo num passo de dança, ajuda a ultrapassar o medo do ridículo. E o número de dobrar o jornal estimula a criatividade e põe as pessoas a desempenhar papéis em que nunca se viram. A coisa passa-se assim. É colocada no chão uma folha de jornal. O grupo divide-se em pares, que, à vez, têm de aguentar três segundos com os pés em cima da folha - que se vai dobrando e ficando mais pequena até haver um vencedor. Há truques para se ir longe nesta competição, como pôr-se às cavalitas (ou ao colo…) do outro. E nada impede os mais espertos de arrastarem a folha do jornal para junto à parede… 

Raquel adaptou os três andamentos do desporto  - ouvir e assimilar os ensinamentos do treinador, ser bom a executá-los, apreciar a performance e aproveitar as criticas para a melhorar – à coreografia empresarial dos seus workshops. “Primeiro cria-se, depois executa-se, por fim avalia-se. O que o nosso corpo diz é muito importante e deve ser trabalhado. O corpo fala tanto como a boca”, garante Raquel, que fez rádio em Bragança (“gostava de um dia trabalhar a voz”) e adora os anos 80. “A música puxa-me para cima”, conclui a ex-atleta, que cita Maria Gadu e Lauryn Hill, como duas das suas preferências musicais no momento.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada em O Jogo

 

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