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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

O submarino no fundo de pensões da PT?

Devo ao Abílio (nome fictício) a minha iniciação no que mais tarde vim a saber tratar-se de engenharia financeira. Algures no final dos anos 70, andava esse meu amigo a estudar engenharia, quando inventou um método engenhoso e legal de arredondar os fins do mês.

Sempre que precisado de dinheiro, ele recorria à avó, mas ia bem mais além da vulgar pedinchice. Em vez de tirar partido da indulgência dos avós (não é por acaso que os brasileiros lhes chamam os pais com açúcar), ele descontava cheques – transformando assim a avó num banqueira pessoal. Levantava, por exemplo, cinco contos, em notas de mil, mas em troca entregava um cheque no mesmo valor, acompanhado da recomendação, sempre repetida, para que ela guardasse bem no cofre aquele papelinho que valia dinheiro.

Como era previsível (não é habitual as avós sobreviverem aos netos), um dia a velha senhora desapareceu deste mundo e com ela os cheques do meu amigo. Dá vontade de tirar o chapéu a esta mecânica, que creio poder catalogar como um exemplo feliz de engenharia financeira proveitosa para o seu brilhante autor.

Pena que nem todas as engenharias financeiras sejam tão produtivas. Estou a pensar, por exemplo, na venda pela Caixa, por 251,8 milhões de euros, ao fundo de pensões do banco, da sua sede - aquele edifício mastodôntico inspirado no palácio de Bucareste mandado fazer pelo casal Ceausescu.

Ao gerar uma mais valia de 104 milhões de euros, este negócio deu um jeitaço ao semestral da Caixa – um lucro de 105 milhões de euros. Na teoria, foi um belo negócio. Na prática, tudo se resumiu a operações de somar e subtrair no balanço do banco e de um fundo de pensões, que, mais PEC menos PEC, não demorará muito a ir parar à Segurança Social. 

Mutatis mutandis, Bettencourt pôs o Sporting clube a vender a Academia de Alcochete à Sporting SAD, por 23,7 milhões de euros.

Acho este tipo de operações muito estimulantes. Despertam-me a mesma curiosidade que sinto quando tento perceber como é que o David Copperfield fez desaparecer um Boeing ou o Luis Matos adivinhou a chave do Totoloto. Mas sei que estou no domínio do faz de conta. Não é por eu encolher a barriga que ela deixa de lá estar…

Vêm estas histórias a propósito da próxima apresentação do Orçamento 2011, um documento curioso pois, apesar de o desconhecerem, 99% dos portugueses têm opinião fundamentada sobre se ele deve ou não ser viabilizado pelo PSD. Estou mortinho por descobrir os truques.

A propósito, não me posso esquecer de perguntar ao Abílio (nome fictício) se o submarino Tridente não poderia ter sido vendido por uns 600 milhões de euros (ou seja com mais valia) ao Fundo de Pensões da PT, antes dele ser integrado na Segurança Social.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias

 

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