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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

João Paulo Martins

João Paulo Martins, 56 anos, anda numa fase de brancos. À despedida, o edifício da Maternidade Alfredo da Costa testemunhou o conselho de experimentar acompanhar os queijos amanteigados, como os nossos Serra ou Azeitão, com um branco encorpado com muita madeira. “Vais ter uma surpresa!”, garantiu o professor de História reformado que ganhou o direito a ser chamado o papa dos vinhos portugueses por publicar ininterruptamente, desde 1994, o guia que vende 20 mil exemplares e é bíblia que nos orienta na hora de abastecer a garrafeira ou de tomar a decisão após a consulta da carta de vinhos.

Escolheu almoçarmos no Panorama, o restaurante do último piso do Sheraton, o mais alto edifício de Portugal de onde se desfruta de uma vista de cortar a respiração de Lisboa, num dia em que a cidade estava inundada de uma luz tão forte que faria as delícias dos impressionistas do século XIX. Optamos pelo menu executivo de três pratos, convergindo na entrada (carpaccio de novilho com batata frita chips com aroma de presunto) e saída (brulée de cardamomo e sorvete de morango com a sua geleia), divergindo apenas no prato principal –  prudentemente ele foi para posta de garoupa com legumes e batatas salteadas enquanto eu cedi à tentação do bacalhau (arroz de bacalhau com feijão encarnado e grelos e sua posta frita).

Como não estava disponível o Chocapalha Reserva branco  - um vinho feito pela enóloga e ex-modelo Sandra Tavares da Silva (que acaba de ter gémeos) na quinta ribatejana do pai -, João Paulo improvisou um plano B: o Cartuxa branco de 2008.  ”Tem um aroma de recorte clássico e o volume e textura necessários para acompanhar um prato de bacalhau”, dixit.

Fazer um guia com notas de prova de quatro mil vinhos não é brincadeira. A empreitada começa a 15 de Maio e até 15 de Agosto ele não faz mais nada – nem sequer escreve para Revista de Vinhos, apenas mantém a coluna do Expresso. A disciplina é rigorosa. De manhã começa a provar brancos, depois passa para os tintos e fecha com Portos antes do almoço, em que não bebe álcool. Faz uma sesta e à tarde recomeça com um lote de brancos, fechando o dia com tintos. Ao jantar permite-se uma cerveja. 

A esmagadora maioria das provas fá-las nas adegas cooperativas, para onde os produtores mandam duas garrafas de cada vinho -  a segunda previne a hipótese de haver problemas com a rolha provocados por um fungo que está a ser combatido com sucesso. Nas quatro mil garrafas provadas por João Paulo, apenas cinco vinhos sabiam a rolha.

As coisas mudaram muito desde que ele começou a fazer o guia, em 1994, com 900 vinhos provados e três mil exemplares vendidos. A editora (Dom Quixote) é a mesma mas mudou de mãos. O modus operandi mudou radicalmente. Da primeira vez optou por provar os vinhos em casa e arrependeu-se. O apartamento ficou virado de pernas para o ar, deixou de haver espaço no frigorífico para os alimentos. Foi um inferno.

Mudaram mais coisas. O paradigma do vinho bom igual a vinho velho inverteu-se. Hoje o consumidor prefere vinhos novos, frescos e pujantes. E a ideia de que somos um país de tintos e não sabemos fazer brancos deixou de fazer sentido. “Temos brancos muito bons em várias regiões”, garante.

Passamos a beber menos (em 20 anos o consumo per capita caiu de mais de 90 litros/ano para menos de 50) mas melhor. A qualidade geral subiu imenso. “Nenhum dos quatro mil vinhos que provei era mau”, diz João Paulo, acautelando que isso não quer dizer que não os haja (“eu é que não os provei”) e acrescentando: “Uma das surpresas é a melhoria dos vinhos do Algarve”. Outra coisa que mudou foi o gosto pelo vinho, que passou a ser um elemento e conversa e socialização.

“Não gostar ou não perceber de vinhos passou a ser mal visto”, conclui João Paulo, que no seu apartamento em Benfica, com as telas da mulher (que dá aulas de música e pinta) encostadas à parede e caixas de vinhos espalhadas pelos corredores (“só me falta ter vinho debaixo da cama”), mantém uma garrafeira de três mil garrafas, que gere com alguma eficiência: “Esforço-me por manter actualizada a lista dos vinhos que têm de ser bebidos”.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias

 

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Panorama (Sheraton Lisboa)

Rua Latino Coelho 1, Lisboa

2 menus executivos … 94,00

Cartuxa branco 2008 … 24,00

Vitalis 1 litro … 4,50

2 cafés … 8,00

Total… 130,50 euros

 

 

Curiosidades

 

João Paulo não era um homem de champanhes, mas mudou de ideias. “Agora estou como diz o David Lopes Ramos. Se pudesse bebia uma garrafa de Cristal Roederer todos os dias”, diz o critioa que considera os espumantes da Murganheira bem melhores que os Moet et Chandon correntes

 

O problema essencial do vinho português não é a qualidade, mas sim a imagem. “Tirando o Porto, apenas o Douro começa a ter imagem. Os Douro Boys fizeram um bom trabalho e os vinhos de mesa do Douro estão a entrar muito bem no Brasil, Inglaterra e Estados Unidos. São feitos a partir de vinhas velhas, pisados em lagar e produzidos pelos métodos tradicionais com castas originais, com nomes como Tinta Francisca e Touriga Nacional que eles têm dificuldade em pronunciar. O Douro tem história e a sua geografia, com terroirs muito diferentes oferece uma grande diversidade de vinhos”

 

O Mateus Rosé, o vinho português mais vendido em todo o Mundo, agrada a João Paulo Martins. “É um vinho muito bem feito que consegue manter a sua frescura ao longo do ano, porque a Sogrape usa uma técnica de manter o mosto parado nas cubas, como que adormecido, e vai fazendo a fermentação ao longo do ano, à medida que chegam as encomendas. Nos meus cursos, quando faço provas cegas em copos pretos, as pessoas vencem o preconceito e depois de o provarem identificam-no como um vinho branco muito agradável”   

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