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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Isabel Marrana

 

A primeira mulher a sentar-se à mesa do célebre almoço das 4ª feiras na Feitoria Inglesa, é a mais nova dos cinco filhos resultantes do matrimónio entre um sobrinho de Amadeu Sousa Cardozo com a filha de um coronel de Braga. Rapariga prática, pragmática e cheia de genica, fez o curso de Direito antes de desembarcar, há cerca de um quarto de século, no universo conservador e tradicionalmente masculino do Vinho do Porto

 

 

A miúda que não tinha mesada

e preferia executar a sonhar

 

 

Idade: 46 anos  

O que faz: Directora executiva da AEVP (Associação das Empresas de Vinho do Porto)

Formação: Curso de Direito na Católica do Porto (1986), onde fez também uma pós-graduação em Economia Internacional

Família:  Casada com Rui, professor de Direito Comuniário, de quem teve quatro filhos: Rui Maria, 19 anos (anda em Engenharia Civil), Francisco Xavier, 17 anos (anda no 12º), Sofia, 16 anos (anda no 11º) e Tomás de Aquino, 11 anos. “Só demorei uma semana em casa por cada filho. Não aproveitar as licenças de parto foi a única maneira de constituir família e manter-me num lugar como o meu, no coração de um sector”, explica

Casa:  Vivenda na zona do Pinheiro Manso (Porto)

Carro:  Volvo 90

Telemóvel: iPhone

Portátil:  Sony Vaio

Hóbis:  O trabalho não lhe deixa tempo para hóbis. Gosta muito de ler, mas só consegue fazê-lo de forma sistemática nas férias, ou em alguns dos fins de semana que passa com a família numa casa em Tábua, junto a Santa Comba Dão, que compraram e reconstruíram   

Férias: Por norma, repartem o Agosto entre Tábua e Moledo, onde fazem praia e alugam todos os anos uma casa por 15 dias. Há anos que anda cheia de vontade de ir à Índia, mas ainda não conseguiu arranjar tempo para essa viagem

Regra de ouro:”Fazer tudo bem feito. Já que se tem que fazer uma coisa, faz-se bem feito. Gosto muito de trabalhar e de ter uma vida levezinha, ou seja ser feliz com pequenas coisas - e com o que tenho”.

 

Um dos mais exclusivos almoços que há em Portugal é o que reúne, todas as 4ª feiras, à volta de uma mesa oval da Feitoria Inglesa, os representantes das casas de Vinho do Porto, que após a refeição bebem um tawny, para lavar a boca, levantam-se, atravessam a porta que dá acesso a uma sala rigorosamente igual aquela onde estiveram a comer, onde se sentam no mesmo lugar onde estavam e continuam a conversa sem que o cheiro da comida perturbe a degustação do vintage.

Foi preciso chegar ao século XXI para uma mulher participar pela primeira vez neste célebre almoço na Feitoria. A honra coube a Isabel, a jurista que dirige a Associação de Empresários do Vinho do Porto (AEVP) e conhece por dentro e por fora o sector onde trabalha há quase um quarto de século.

“Já trabalhei com quatro presidentes do Instituto do Vinho do Porto, seis da AEVP, dois da Casa do Douro e um número incontável de ministros. Conheço os protagonistas todos. Desde que aderimos à CEE há poucas coisas que eu não tenha vivido neste sector”, diz Isabel, a mais nova dos cinco filhos do matrimónio entre um engenheiro da Sacor, sobrinho de Amadeu Souza Cardoso, e Maria do Patrocínio, filha de um coronel de Braga.

Cresceu em frente à praia de Leça da Palmeira, perto da refinaria onde o pai trabalhava, e frequentou o Liceu de Matosinhos, onde foi boa aluna e logo revelou um enorme à vontade de expressão e relacionamento, bem como uma notável capacidade de adaptação, duas das mais relevantes características da sua personalidade.

“Não construo sonhos. Sou mais de executar do que sonhar”, afirma Isabel, que tanto podia ter ido para Letras como para Ciências e acabou, aos 16 anos, por inscrever-se em Direito, opção que não constitui uma fuga à Matemática: “Dava-me melhor com os números do que com as abstracções jurídicas, o que levou alguns professores a dizer que se calhar eu teria feito melhor em ir para Economia”.

A seguir a um curso feito sem percalços, o estágio (no escritório de Miguel Veiga) e uma pós graduação, começou a procurar o primeiro emprego a tempo inteiro, pois desde o liceu se habituara a ganhar o dinheiro para os seus alfinetes, primeiro dando explicações, depois trabalhando num consultório médico, porque o pai não dava mesadas aos filhos, limitando-se a atribuir recompensas em dinheiro quando um dos filhos trazia para casa uma nota superior a 15 valores.

Com a legislação comunitária a bater à porta, por causa da adesão de Portugal à CEE, o Instituto do Vinho do Porto, então presidido por Leopoldo Mourão, pôs um anúncio a procurar um jurista. Isabel respondeu e foi contratada, demorando-se dois anos pelo Instituto, até um head hunter a desafiar a ir trabalhar com Carlos Moreira da Silva, nos projectos multimédia da Sonae.

O emprego era atractivo e o salário excitante  - quatro vezes mais do que ela ganhava. Isabel teria mudado de vida se não se desse no entretanto o caso de ter vagado o lugar de director executivo da AEVP e dos amigos do  Instituto a terem convencido a candidatar-se, com o argumento “já que te vamos perder, ao menos que fiques no vinho do Porto”.

Apesar de se tratar de um sector conservador e do enorme rol de candidatos (todos homens), o presidente da AEVP, Manuel Pintão, teve a coragem de a escolher a ela. Sabia que estava a causar um pequeno escândalo, mas também estava consciente de que o Vinho do Porto precisava de abrir as janelas.  

Jorge Fiel

Esta matéria foi publicada hoje no Diário de Notícias

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