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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Fumador é o novo vector do boato

A minha experiência pessoal de ex-fumador (deixei há 18 anos) é mais uma prova dos nove da veracidade daquela história da borboleta que bate as asas em Pequim e provoca uma tempestade na Marmeleira, se esta parábola quer dizer, como eu penso, que as consequências de um simples acto são muito mais complexas e profundas do que nós imaginámos à partida.

Deixar de fumar dois maços de SG filtro por dia permitiu-me economizar dinheiro e pulmões. Passei a respirar e a dormir melhor. A acordar mais feliz. Até agora só vantagens. Confesso que nas primeiras semanas senti a falta do cigarro quando tomava café no final de uma boa refeição mas essa carência era compensada pela redescoberta de sabores e aromas.

Mas não demorei muito a perceber que o esplêndido redespertar de sentidos outrora embotados também tinha as suas consequências negativas. Como a comida me passou a saber incrivelmente melhor, ganhei peso e os níveis de colesterol no sangue subiram. Mais. O cheiro do tabaco passou a incomodar-me. Nunca fui fedorento ao ponto de responder que sim  quando alguém ao meu lado perguntava se o fumo me incomodava, mas chateava-me chegar a casa com a roupa a tresandar a tabaco.

Saudei a legislação anti-tabágica de 2006, apoio o seu previsível endurecimento e sigo com curiosidade as consequências do proibicionismo, em particular desde que li um artigo do New York Times sobre o assunto que salientava duas tendências curiosas: a satisfação dos donos dos restaurantes (as receitas tinham aumentado porque diminuição da venda de digestivos, cujo consumo está associado ao cigarro, fora compensado pelo aumento da rotação das mesas) e o anormal crescimento dos divórcios nos casais mistos (um fumador e outro não), recenseado por estatísticas e sociólogos : no final da refeição, vai-se lá fora fumar um cigarrito e, à porta do restaurante, trava conhecimento com outros fumadores, começam a conversar e, já se sabe, muitas vezes é mesmo a ocasião que faz o ladrão.

Em Portugal, a proibição teve o excelente efeito secundário de desencadear o ressurgimento das esplanadas e de estar a alterar de uma forma profunda o relacionamento nos locais de trabalho. Os não fumadores passam o dia sem levantar o cu da cadeira, interagindo pessoalmente cada vez menos com os colegas -  quando têm algo a dizer, usam o telefone interno, o mail ou o Messenger. Os fumadores encontram-se cá fora, várias vezes ao dia, nas pausas para fumar um cigarro, que aproveitam para pôr a má língua em dia. Hoje, para pôr a circular um boato numa empresa, é preciso escolher um fumador para o espalhar.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias

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