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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

João Miranda

Sempre que o encontra, Cavaco pergunta-lhe se já compra cereja da Cova da Beira. É muito doloroso, mas ele continua a responder que não. “Mas não é por não tentar”, garante João Miranda, 46 anos, presidente da Frulact, o quarto maior grupo europeu de preparados de fruta, com quartel general na Maia, seis fábricas (Portugal, França, Marrocos e Argélia), e vendas de 70 milhões de euros/ano, das quais 95% são exportações.

“Tivemos de parar um projecto, que tínhamos no túnel de saída, de um sumo à base de cereja para um cliente, porque os produtores da Cova da Beira não nos garantiam o abastecimento”, conta João, que sofre com a incapacidade dos produtores de fruta em estabelecerem relações estáveis, em termos de quantidades e preços, e a longo prazo com a indústria.

Os exemplos são como as cerejas. Este ano, João desafiou a cooperativa dos produtores da Cova da Beira a fornecer-lhe 1100 toneladas de pêssego. Pouco tempo depois do negócio apalavrado, disseram-lhe que só podiam vender 500 toneladas. Mais uns dias e afinal só garantiam 200 toneladas. No final, ficou tudo em águas de bacalhau. Nem um único pêssego! A Frulact teve de se virar para os produtores espanhóis que lhe colocaram à porta da fábrica, a 27 cêntimos o quilo (dez cêntimos abaixo do preço acordado com os portugueses), os pêssegos de que ele precisava.

Ganância e visão de curto prazo são as explicações para este estranho comportamento dos produtores portugueses de fruta. Como o mercado de fresco paga o dobro da indústria, eles sacrificam o compromisso a prazo no altar da tentação do imediato.

“Temos de trabalhar com quem nos garanta estabilidade, em preços e quantidade, pois temos compromisso com clientes como a Nestlé, Danone, Senoble e Unilever, que têm de por os seus produtos nas prateleiras. Não podemos suportar variações anuais de preços na ordem dos 100 a 200%, como alguns produtores querem. O máximo que podemos acomodar é uma variação de 10%. Nenhum consumidor admitiria que o preço do iogurte de cereja subisse 40% de um momento para o outro”, explica o presidente da Frulact, triste porque as compras em Portugal (essencialmente maçã, pêra e kiwi) valem menos de 5% das 20 mil toneladas que compra todos os anos. Os principais fornecedores são Polónia (morangos), Sérvia (framboesas e cerejas),  Chile e Marrocos.

Almoçamos no restaurante da Casa de Chá da Boa Nova, a primeira obra prima de Álvaro Siza, em Leça da Palmeira, onde João cresceu, já que o pai, Arménio (um auto-didacta que se especializou em lacticínios na Iogurtes Sabóia), trabalhava ali perto, na Longa Vida, onde, entre muitas outras coisas, foi responsável pela produção do camembert.

“Conhecia os buracos todos desta praia. Nas noites de lua cheia, apanhávamos sapateiras e navalheiras que depois comíamos em grandes patuscadas”, recorda João, que nasceu em Roriz, Barcelos, onde tem uma quinta onde se refugia ao fim de semana e ainda é conhecido pelos mais velhos como o neto da Augusta do Monte -  a avó materna, que tinha uma mercearia onde ganhava uns tostões contando o dinheiro ao fim do dia.

Fizemos uma refeição à altura do local, aberta com um Porto seco da Burmester e regada com um branco transmontano Bons Ares (2009) que constou de amêijoas à Bulhão Pato e camarões ao alho e robalo ao sal. Espicaçado por João, o empregado concedei que foi ainda melhor do que a servida a Chavez e Sócrates, quando o presidente venezuelano foi aos Estaleiros de Viana: “A eles servimos-lhes robalo no forno”.

A propósito da sua quinta em Barcelos, falamos dos investimentos que Belmiro de Azevedo está a fazer em fruta (em particular em kiwi). “Ele sabe que, em termos de sustentabilidade, a agricultura é o futuro do país”, declarou João, que, aos 23 anos, após ter trabalhado na gestão de stocks de uma oficina de tractores e na parte administrativa de uma estamparia, agarrou com ambas as mãos a oportunidade de fornecer chila e caramelo à Longa Vida. Pai e filho desalojaram patos, cães (Arménio é caçador) e patos do fundo do quintal, onde construíram um anexo com 120 m2. Estávamos em 1987 e nascia a Frulact.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias

 

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Casa de Chá da Boa Nova

Leça da Palmeira, Matosinhos

2 Portos secos … 7,00 euros

2 Couvert … 5,00

Ameijoas … 22,50

Gambas ao alho … 12,50

Robalo ao sal … 45,00

Bons Ares… 16,50

Total … 110,50 euros

 

Curiosidades

 

João tem uma relação emocional com a chila, que esteve na génese da Frulact. Abastecia-se de chila em Gondomar, e começava o dia às quatro da manhã a cortá-las em quatro pedaços. Depois acendia a lenha e deixava a chila a cozer, enquanto ia buscar os trabalhadores que manualmente extraíam casca e pevides, e armazenavam a polpa em barricas, que ele entregava na Longa Vida, a quem fornecia 350 toneladas/ano

 

A produção da Frulact tem em conta o mercado a que se destina o preparado de fruta. Os portugueses gostam do sabor a morango maduro, enquanto os franceses, por exemplo, preferem o morango mas aberto e florado

 

A Frulact investiu dois milhões de euros no Frutech, um centro de inovação e tecnologia desenvolvido em parceria com o Instituto Politécnico de Viana do Castelo, que vai ampliar o trabalho que é feito por 30 pessoas no laboratório da empresa, uma fábrica de novos produtos, um dos quais consiste em acrescentar ómega 3 (presente no óleo de fígado de bacalhau) que é óptimo para a saúde, nos preparados de fruta

 

 

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