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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Jorge Lemos

 

Como adorava desmanchar coisas, andava sempre com uma chave de parafusos na mão, o que deixava a mãe com os cabelos em pé. Apesar de ser um bocado a puxar para o lingrinhas, jogou 12 anos rugby, no Benfica e em Agronomia. As vicissitudes do 25 de Abril frustraram-lhe os planos de se tornar engenheiro mecânico. Com o curso de Gestão feito e o serviço militar cumprido, arranjou o primeiro emprego na IMS Health Portugal. 30 anos volvidos, não teve medo de voltar ao sitio onde foi feliz   

 

O gestor que não teve medo

de voltar ao sítio onde foi feliz

 

Nome:  Jorge Lemos

Idade: 55 anos

O que faz: Presidente e CEO da IMS Health Portugal

Formação: Licenciado em Gestão de Empresas, pós graduação no Insead

Família: Casado com Teresa de quem tem dois filhos, a Joana, 26 anos, designer de comunicação, que vive e trabalha entre Londres e Lisboa, e o António, 24 anos, engenheiro mecânico que está a fazer um mestrado em energias renováveis

Casa: Apartamento no Monte Estoril

Carro:  Audi A5

Telemóvel:  Blackberry. “Lutei muito para não ter, mas o ano passado desisti. Mas não sou viciado. Quando é urgente, já sabem, o melhor é telefonar”

Portátil:  HP

Hóbis:  É um apaixonado pelo rugby. Quando viveu em Inglaterra ia com frequência assistir a jogos do Torneio das Seis Nações. Os All Blacks são a equipa que ele mais admira. O todo o terreno é a sua outra paixão. Adora fazer raides e conduzir fora da estrada. Há dois anos, na Páscoa, fez o trajecto do Lisboa-Dakar num Mitsubishi Pajero. Ultimamente tem vindo a iniciar-se no golfe - e confessa que está a gostar    

Férias: De vez em quando passa uns fins de semana em Vilamoura. O ano passado, voou até à Namíbia onde, ao volante de um Land Rover alugado, percorreu quatro mil quilómetros

Regras de ouro: “Acredito sempre que o que se faz bem se pode fazer ainda melhor. Não me resigno com facilidade. Aí o rugby foi uma grande escola”

 

A mãe tremia de terror sempre que o via com a chave de parafusos na mão. “Sempre gostei de desmanchar coisas”, confessa Jorge, admitindo que por causa dessa mania destruiu muitas coisas lá em casa.

Se não fosse o 25 de Abril, muito provavelmente teria sido engenheiro mecânico. Mas o dominó do destino fintou-o. Repetiu o 7º ano de Matemática por causa de uma professora chata que não o levou a exame. Por causa disso, apanhou pela frente o ano do Serviço Cívico, que era obrigatório e ele se recusou a fazer. Preferiu passar o Verão Quente de 75 a colar cartazes do PSD, em Lisboa, do que a alfabetizar camponeses, em Bragança. No ano lectivo seguinte ainda andou pelo Técnico, mas a confusão ainda era muita. Após uma tentativa falhada de se inscrever na Universidade de Louvaina, acabou por estudar Gestão no INP.

Antes das trapalhadas que o esperavam no final da adolescência, no Portugal a preto e branco do Outono do Estado Novo, era dos poucos miúdos privilegiados que comiam smarties e toblerones que o pai (director do hotel Metrópole, no Rossio) lhe arranjava no restaurante do aeroporto.

Fez a primária no Externato Luís de Camões e o secundário no Colégio Académico. Apesar de ser lingrinhas, distinguia-se no futebol jogado nas ruas dos Anjos e Areeiro, pelo que não espanta que um vizinho, de nome Mário Soares, o tivesse levado para jogar rugby no Benfica. Tinha 12 anos e estreou-se como médio de formação, evoluindo depois para médio de abertura. Acabou a carreira, já em Agronomia, com 24 anos, como médio centro. “Com a idade começa-se a jogar mais com a cabeça do que com o corpo”, explica, acrescentando que chutava bem e foi duas vezes vice-campeão nacional.

Foi a varejar amendoeiras no Algarve que ganhou o primeiro dinheiro, aos 16 anos, trabalho duro, que dava cabo das mãos e o deixava cheio de fome. O que ganhava durante dia estourava à noite no jantar e copos. Mais tarde arranjaria um part time bem mais leve: fazer inquéritos para a Norma, uma empresa de sondagens.

Aos 23 anos, com o curso tirado e o serviço militar cumprido, arranjou o primeiro emprego, na sucursal portuguesa da IMS Health, que naquele ano de 1979 se resumia a três pessoas: ele, a senhora alemã que dirigia o escritório e respectiva secretária. Contrataram-no porque andavam à procura de alguém que se entendesse bem com os números e falasse línguas.

Começou como uma espécie de faz tudo, sendo que o tudo incluía vender à industria farmacêutica os estudos sobre consumo de medicamentos produzidos pela IMS, uma espécie de Nielsen deste sector. A rapidez com que escalou na hierarquia fala sobre a eficiência do seu trabalho. Em 83, com 27 anos, casou com Teresa, professora de História, e foi promovido a director geral, cargo que desempenhou durante uma dúzia de anos, até ter o desafiarem a testar em vários mercados (Reino Unido, França, Itália, Espanha e Bélgica) o modelo comercial que ele concebera e fazia tanto sucesso em Portugal.  Deu resultado e como prémio, em Junho de 95, entregaram-lhe a direcção do Reino Unido e Irlanda.

Após quatro anos em Londres, fez uma empresa, foi consultor de public health affairs da IMS e aceitou voltar a liderar a filial portuguesa. “Eram oito da manhã e eu estava a conduzir na Marginal quando tocou o telefone. Era o presidente europeu a dizer que precisava da minha ajuda”. Jorge Lemos sentiu que não podia dizer que não.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias

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