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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Silvia Ribeiro

Por amor ao lobo, Sílvia, uma bióloga de 38 anos, dedicou os últimos 15 anos da sua vida a seleccionar e criar cães de gado para proteger os rebanhos dos ataques dos lobos. Parece contraditório, mas não é.

Na década de 70, havia lobos no Alentejo, mas hoje em dia estão, no seu essencial, acantonados entre o Gerês e Trás os Montes. De acordo com o último censo, há cerca de 300 lobos no nosso país, agrupados em 63 alcateias, das quais 54 a norte do Douro, e apenas nove a sul, onde a espécie está mais ameaçada – o rio é uma barreira importante.

Ameaçado pelo ódio ancestral dos pastores (que não lhes perdoam os prejuízos dos seus ataques aos rebanhos), pelas auto-estradas e parques eólicos que lhe invadem o habitat, e, ainda, pela escassez da sua alimentação tradicional (veado e corço), o lobo ibérico muito provavelmente já estaria extinto em Portugal se não fossem os esforços para o proteger desenvolvidos pelo Grupo Lobo, uma ONG fundada há 26 anos por Francisco Petrucci-Fonseca, professor Faculdade de Ciências de Lisboa.

“Não temos qualquer tipo de apoio regular por parte do Ministério do Ambiente”, esclarece Silvia Ribeiro, que mal acabou o curso de Biologia, em Lisboa, se mudou para Vila Real, onde está o quartel general do programa Cães de Gado do Grupo Lobo - que vive dos prémios que ganha (um dos mais recentes foi o Biodiversidade, atribuído pelo BES) e dos projectos que consegue aprovar.

Silvia - que acaba de ser distinguida pelo prémio europeu Terre des Femmes 2011, instituído pela Fundação Yves Rocher para premiar mulheres empreendedoras na área do ambiente - nasceu e cresceu no Seixal, onde se habituou a lidar com animais, pois os avós tinham cães de caça e criavam coelhos, porcos, burros e vitelas.

Sempre teve animais em casa, sobretudo cães  (que prefere aos gatos), como o Dique (um pastor alemão que morreu velhinho), o Ameijoeira (um castro laboreiro vitimado em 2004 por um ataque cardíaco). Agora tem uma cadela serra da Estrela, que, “para ser original”, baptizou Estrela. Não espanta por isso que na hora de escolher o curso o seu coração tenha balançado entre Veterinária e Biologia.

Demonstrar que é possível a coexistência pacífica entre lobos e pastores é a cruzada da Silvia. Ressuscitar o método tradicional de uso de cães de gado para proteger os rebanhos, é a sua principal arma para aumentar a tolerância das comunidades rurais face ao lobo.

“Não é fácil ver um lobo. Em 15 anos só os vi três vezes. O lobo tem um comportamento furtivo. Não arrisca um ferimento e por isso não entra à maluca num rebanho  guardado. Se pressentir um cão, tem o cuidado de se por contra o vento, para o cheiro não denunciar a sua presença. E só ataca pela certa, apanhando uma ovelha ou cabra, doente ou coxa, que fica para trás”, explica Silvia, que escolheu almoçarmos na Proa, o único edifício desalinhado do plano riscado a régua e esquadro por Siza Vieira para revitalizar Matosinhos Sul, uma zona à beira mar outrora ocupada por fábricas conserveiras e armazéns.

Bebeu apenas um copo de Evel branco, a acompanhar a entrada de polvo e o arroz de peixe, partilhamos, e acabou com uma sericaia (desprovida de ameixa e de molho) uma refeição em que falou do seu trabalho de criação de cães de gado e de diplomacia em favor do lobo junto dos pastores.

São quatro as raças nacionais adequadas para cão de gado. Castro Laboreiro, Serra da Estrela, Rafeiro Alentejano e Cão de Gado Transmontano. Silvia selecciona os cães, adquire-os (cada um pode custar entre 350 e 500 euros), coloca-os nos pastores, ajuda a educá-los e nunca os perde de vista.

“É preciso tempo e dedicação para criar um cão de gado. Por volta dos dois meses, logo após o desmame, o cachorro é posto a viver no curral com o rebanho, para criar laços sociais com o gado, evitando-se o contacto desnecessário com pessoas, em especial crianças. Só depois de um período de habituação nunca inferior a 15 dias é que pode começar a acompanhar o pastoreio”, conta Silvia, que sabe de cor o nome de 300 cães de gado que colocou, mas admite que por vezes não se recorda à primeira do nome de um pastor.

Jorge Fiel

Esta matéria foi hoje publicada no Diário de Notícias

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Proa

Rua Sousa Aroso 22, Matosinhos

Couvert … 4,00

Água … 1,50

Polvo com molho verde…  3,50

Arroz de peixe … 19,00

Evel branco … 8,00

Sericaia … 3,10

2 cafés … 2,20

Total … 41,30 euros

 

Curiosidades

“Na montanha, os cães são muito felizes”, garante Silvia, co-autora do livro Cães de Gado, uma edição Bizâncio, e que após se ter licenciado em Biologia (Faculdade de Ciências de Lisboa) e feito um mestrado em Etologia (ISPA) está a doutorar-se no ICBAS com uma tese sobre o comportamento dos cães, nomeadamente os aspectos endocrinológicos subjacentes ao processo de vinculação social

Vila Real é a base das operações de Silvia que ao volante de uma Citroen Berlingo cinzenta (“Não é branca para não se confundir com a do padeiro e a do peixeiro”, explica), percorre regularmente toda a zona de habitat do lobo ibérico, para acompanhar os cães de gado que colocou e falar com os pastores

Farrusco, Dique, Pastor, Laica, Benfica e Mantorras são alguns dos nomes com que os cães de gado são baptizados. Para um rebanho de dimensão normal (150 a 200 animais) são necessários dois cães de gado. Mas há rebanhos com 400 a 600 cabras…

 

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