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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Um abraço com desembaraço

 

Nunca fui eleitor do Partido Comunista (votei uma vez APU para a junta de freguesia, porque o candidato era meu vizinho e pessoa boa e competente), mas sempre simpatizei com Jerónimo de Sousa.

A primeira impressão foi logo favorável. Num tempo de antena das presidenciais de 1996, em que ele não chegou a ir às urnas, explicou a desistência a favor de Sampaio com o argumento simples e demolidor de que (cito de cor) não podíamos correr o risco de entrar num novo século e novo milénio com Cavaco Silva na presidência.

Meus Deus, como ele estava cheio de razão! Já aturávamos há dez anos aquela cara de sapato (de biqueira quadrada)! Iluminado pelo argumento de Jerónimo, fui a correr inscrever-me num almoço-comício de apoio a Sampaio, num gimnodesportivo de Matosinhos. Depois arrependi-me, mas, que querem?, foi um impulso...

A simpatia aumentou quando o vi desembrulhar-se, com uma desenvoltura à Mário Soares, de uma situação potencialmente gaga. Tinha acabado de ser eleito secretário-geral e estava numa acção de rua, com as câmaras de televisão a segui-lo, quando foi interpelado por um adolescente, que solenemente lhe comunicou que acabara de se inscrever como militante do partido.

"Fizeste bem, camarada. Dá cá um abraço. Vais ver que não te arrependes", respondeu-lhe de pronto Jerónimo (imaginem o embaraço que o seu antecessor Carvalhas sentiria naquele momento), enquanto envolvia o jovem militante num abraço forte, genuíno e entusiasmado.

Ultimamente, Jerónimo voltou a surpreender-me pela positiva. Primeiro, fazendo uma oportuna e inteligente actualização da teoria marxista, ao declarar, na Casa do Alentejo, em Lisboa, na sessão comemorativa do 90.º aniversário do partido, que "os novos proletários são os trabalhadores dos call center".

Os proletários de todo o mundo, a que Marx e Engels apelaram em 1848, no Manifesto do Partido Comunista, já não são mais os operários aburguesados da Autoeuropa, mas sim os trabalhadores dos call center, o pessoal que anda de motocicleta a entregar pizas ao domicilio e os falsos profissionais liberais que ganham a vida atrás do balcão de uma loja num centro comercial ou a servir à mesa numa cervejaria.

Jerónimo voltou a brilhar a grande altura ao sentar-se à mesa com Louçã, numa primeira abordagem a futuras caminhadas conjuntas. O que une PCP e Bloco é bem maior do que aquilo que os divide. E com a provecta idade de 90 anos, sem Sol na Terra para apontar como farol (sim, Bernardino, é melhor não voltares a falar da Coreia do Norte), os comunistas devem apressar-se a abraçar o Bloco - enquanto ainda têm força e desembaraço.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias

 

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