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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

O Vaticano não perdoou a Eva

Mal se passa o cabo do meio século de existência, a tendência é para começarmos a abusar de frases começadas por "no meu tempo... " e seguidas por idiotices (o ar era mais arejado, o açúcar mais doce, a água mais aquosa...). O lado B da experiência de vida é o aumento exponencial da nossa capacidade de azucrinar o juízo às pessoas mais novas que por algum motivo são obrigadas a aturar-nos.

No meu tempo, as raparigas não podiam ir de calças para a escola, só havia um liceu misto no Porto (o Garcia de Orta), as telefonistas não podiam casar-se, os polícias eram velhos, pançudos e usavam todos bigode - e se alguém ousasse defender em público que as mulheres deviam ir para a tropa o mais provável era ser logo internado no Conde Ferreira, o hospital dos malucos.

Os tempos mudaram. Hoje, as mulheres podem ser polícias ou militares, e vestirem calças, saia ou calções. Mais. Toda a gente pode casar, até os gays. A única excepção são os padres e, vá lá, as freiras, que essas não podem escolher o noivo (são todas casadas com Deus).

As mulheres continuam a ser mais afectadas pelo desemprego e estarem sub-representadas nos postos de comando da política e das empresas - só há uma mulher a presidir a uma empresa do PSI 20 e duas entre onze ministros. Mas a eleição de Assunção Esteves para a presidência do Parlamento, aplaudida de pé, urbi et orbi, por gente de todos os credos, é sintomática do caminho já percorrido no sentido de conceder igualdade de oportunidades aos cidadãos dos dois sexos.

Em Portugal, depois do BCP ter deixado de usar o género como critério de admissão, a Igreja Católica passou a ser a única grande instituição a discriminar as mulheres.

E quando o patriarca de Lisboa tentou abrir uma janela neste quarto bafiento e obscuro da Igreja, ao afirmar que "teologicamente não há nenhum obstáculo à ordenação de mulheres", logo lhe caíram em cima os radicais do Vaticano, invocando as palavras escritas por João Paulo II - "Declaro que a Igreja não tem absolutamente a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres e que esta sentença deve ser considerada definitiva por todos os fiéis da Igreja".

Transformar em dogma a discriminação das mulheres é teimar em mostrar a face retrógada de uma Igreja que nunca perdoou a Eva o alegado pecado original de ter levado Adão a cair na tentação de comer a maçã - e que se revela no carácter vingativo de hereditários de punições constantes do Génesis, como o "darás à luz com dor" ou o "ganharás o pão com o suor do teu rosto".

Se quiser pertencer a este tempo e ser atractiva para as novas gerações, o Vaticano tem de rever os dogmas do celibato dos padres e deixar de discriminar as mulheres, vedando-lhes o acesso ao sacerdócio.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no JN

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