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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

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A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

Os 2198 dias de consulado Rui Rio observados à luz do «Ensaio sobre a Cegueira»

 

 

A abrir uma declaração de interesses. Sou amigo de Rui Rio, a quem admiro a integridade, rigor, coragem e persistência.

 

Mas esta amizade, nascida a partir de um amigo comum (João Queirós, de cujo talento fomos prematuramente privados pela Grande Ceifeira), não turva o meu discernimento.

 

Da mesma maneira que a visão critica que tenho dos seis anos que o Rui leva como presidente da Câmara não abala uma amizade adulta, tecida nos tempos agitados que se seguiram ao 25 de Abril, quando todos os que o conhecíamos nos espantamos por vê-lo a ele, senhor de um generoso ideário de esquerda, alistar-se no PSD.

 

Usando a memória como único filtro e auxiliar, elaborei a seguinte lista dos presidentes da Câmara do Porto que se seguiram à Revolução e das suas mais importantes realizações.

 

Esta lista vale o que vale . Se me esqueci de algum presidente ou de alguma grande obra, aceito uma parte das culpas. Sendo que a outra parte da responsabilidade a endosso, direitinha, para cima dos ombros de quem não soube ou conseguiu impressionar-me.

 

Aureliano Veloso    

 

O primeiro depois de Abril. O seu filho Rui, cantor do Porto Sentido, foi provavelmente a obra maior que nos deixou.

 

Coelho de Magalhães

 

Muito curriculum oposicionista, pouca uva democrática.

 

Paulo Valada

 

Um homem bom do Porto. Refrescou o discurso da cidade. Recuperou o Mercado Ferreira Borges. Reinstalou na Praça do Império o Monumento ao Esforço Colonizador que estava armazenado no Palácio de Cristal.

 

Fernando Cabral

 

Estava destinado a ser presidente da Câmara de Paredes (ou seria Penafiel?), mas sem ninguém ter percebido como (nem ele próprio, creio…) acabou instalado no gabinete maior dos Paços do Concelho do Porto. Ele há mistérios.

 

O arranjo do piso da rua Pedro Escobar, à Pasteleira, onde ele vivia e eu ainda resido, foi, no meu entender (que não é modesto, como acho que já repararam…), o seu mais importante legado à cidade.

 

Notabilizou-se ainda ao deixar os cofres camarários cheios de dinheiro, permitindo ao seu sucessor Fernando Gomes começar o mandato logo a fazer flores.

 

Fernando Gomes

 

Devolveu-nos o orgulho de sermos portuenses. Ficamos a dever-lhe uma data de coisas, obras maiores e marcantes como o Metro, o Parque da Cidade, o Porto 2001 e a proclamação pela Unesco do Centro Histórico como património da Humanidade.

 

Borrou a escrita ao trocar o Porto por Lisboa, atraído por um lugar de ministro num Governo de onde saiu pela esquerda baixa, coberto de cicatrizes e nódoas negras.

 

Ensaiou um regresso ao Porto, à Napoleão, que fracassou com estrondo – tal como o de Napoleão.

 

Nuno Cardoso

 

Culpou um interruptor anónimo pela falhanço do fogo de artificio na passagem de século. Mas não pode culpar ninguém, além dele próprio, pela maneira canhota como lidou, na hora da saída, com «dossiers» tão escaldantes como o plano de pormenor das Antas e um empreendimento imobiliário numa das esquinas do Parque da Cidade. A um presidente da Câmara não basta ser sério – é também preciso parecê-lo.

 

 

No «Ensaio sobre a Cegueira», José Saramago deixa-nos um precioso ensinamento: «Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara».

 

Ora eu olho para trás, para os 2198 dias do consulado de Rui Rio, esforço-me por ver, vejo, mas reparo em muito pouco.

 

Vejo o seguinte:

 

+ O Grande Prémio da Boavista;

 

+ Uma trapalhada tendo o epicentro como o Rivoli;

 

+ Uma tentativa abortada de acabar com os arrumadores, enroupada num nome infeliz (o falecido programa Porto Feliz que ele tenta desesperadamente ressuscitar) ;

 

+ A polémica requalificação da avenida dos Aliados (de que eu gosto!);

 

+ A Red Bull Air Race (promovida a meias com o seu arqui-inimigo Menezes);

 

+ A identificação das ruas, praças e avenidas com novas, bonitas e informativas placas.

 

Não guardo rancor a Rui Rio por ter escolhido abrir o seu primeiro mandato com uma guerra contra o FC Porto. É um procedimento clássico, desde os tempos do faroeste. O novo xerife quando chega a uma cidade arranja um incidente para tentar demonstrar «urbi et orbi» que a partir de agora quem manda é ele.

 

Mas não estou disposto a perdoar-lhe se as eficazes placas toponímicas forem a sua melhor e maior realização ao fim de dois mandatos como presidente da Câmara.

 

O esforço de reabilitação urbana da Baixa (que sobrevive num estado comatoso), cometido à SRU, é uma bela cruzada, que faz todo o sentido e todos devemos apoiar com entusiasmo. O problema é está a andar a passo de caracol.

 

Ou o projecto de recuperação de um Baixa mete o turbo e ganha asas nos dois anos que faltam para terminar o segundo mandato, ou Rio terá muito pouca obra feita para apresentar a quem o elegeu na hora das próximas autárquicas.

 

Eu olho para Rui Rio na presidência da Câmara do Porto e vejo o homem certo no lugar errado – ou, se preferirem, o homem errado no lugar certo.

 

Eu vejo Rui Rio na presidência da Câmara do Porto e reparo no erro tremendo que é meter mais um defesa (mesmo que seja o melhor defesa do Mundo) numa equipa que está perder e precisa desesperadamente de fazer golos.

 

No futebol, o Porto domina esmagadoramente. Mas no campeonato da prosperidade, o Porto está ser goleado. Precisa, por isso, de um ponta de lança. Como de pão para a boca. Para podermos voltar a ser felizes.

Jorge Fiel

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