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Bússola

A Bússola nunca se engana, aponta sempre para o Norte.

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A sorte dos peixinhos vermelhos

A sorte dos peixinhos vermelhos é serem absolutamente desprovidos de memória e por isso encararem cada volta que dão ao aquário como se fosse a primeira. O segredo da sua felicidade reside na incapacidade de se lembrarem do que fizeram no segundo anterior. Se tivessem memória davam em doidos.

Esta história dos peixinhos vermelhos faz parte do meu stock de desbloqueadores de conversa, prontos a serem usados para quebrar silêncios pesados, designadamente antes de começar a ser servido o vinho nos jantares em que fui posto numa mesa em que não conheço ninguém.

Uma das vantagens desta história é que tem implícita uma deixa em que qualquer comensal atento pode pegar para a problematizar ou fazer uma sequela, questionando se aqueles peixinhos vermelhos (ou até dourados) que se suicidam saltando para fora dos aquários sofreriam a infelicidade de terem vindo ao mundo equipados com um pedacinho de memória, por uma qualquer deficiência genética - ou distracção do Criador.

Mas não façam confusão. Um desbloqueador de conversa bom para um jantar não é seguramente o mais adequado para um outro tipo de situações, em que o tempo não se mede por horas, mas sim por escassos minutos ou até apenas segundos, como quando encontramos um vizinho (de quem não
sabemos nem o nome nem o que faz na vida) na bicha do supermercado, ou partilhamos o silêncio embaraçante com uma desconhecida num elevador sem banda sonora apropriada - como o "Smooth Operator", da Sade, ou "Orinoco Flow", da Enya.

Nestas circunstâncias a conversa mole sobre o tempo (meteorológico, não o medido pelo relógio) é imbatível. "Sempre é melhor assim do que chuva" é a resposta correcta quando nos dizem, com a cara aberta num esgar: "Isto é que está cá um frio!". São trocas de palavras tão desprovidas de calor como o sol de Inverno mas servem perfeitamente para calafetar o vácuo de um encontro casual no elevador ou na fila do Pingo Doce.

A propósito, devo dizer-vos que apesar de estar frio, e de o frio estar este ano mais caro (por vias do aumento de 6% para 23% do IVA da electricidade), acho exagerado o alarmismo causado pelos meteorologistas com a ameaça da vaga de frio vinda da Sibéria.

Tem estado frio, mas nada de muito diferente do normal para a época. Nada que expulse os fumadores das esplanadas ou me tenha levado ao gavetão onde guardo cachecol, luvas e gorro. Suspeito que os meteorologistas que previram o desembarque em Portugal da massa de ar frio proveniente do Árctico estão tão apanhados pelo clima como os analistas do "Financial Times" e do "Wall Street Journal" que anunciam a nossa bancarrota.

Esta falibilidade dos manda- chuvas e jornalistas anglo-saxónicos leva-me a desconfiar que, ao contrário da previsão catastrofista dos serviços geológicos norte-americanos, os 22 mil ursos polares não estão condenados a desaparecer até 2050, vítimas do aquecimento global.
Ando numa de optimismo - e tentado a dar razão a Paul Valery, que nos aconselhou a não insultar o futuro, tentando prevê-lo.

Jorge Fiel

Esta crónica foi hoje publicada no Jornal de Notícias

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