A ampla e sábia comunidade de comentadores e analistas da coisa política convergiria num inédito momento de consenso escandalizado se José Sócrates perdesse o juízo e viesse comunicar-nos que dera instruções severas a todos os ministros para observarem a Constituição da República e deixarem de roubar os contribuintes – e que proibira os polícias de infringirem as leis e os juízes de desrespeitarem o Código Penal.
Mas, que eu tenha reparado, ninguém na curta mas influente comunidade de comentadores a analistas da coisa económica achou digno de nota que Miguel Cadilhe tenha usado o mais importante jornal do país para nos comunicar que proibira expressamente os seus empregados do BPN de cometerem qualquer ilegalidade. Pequena ou grande. Ponto final.
Fiquei arrepiado quando li esta comunicação do novel e austero presidente do BPN. Mas o silêncio dos meus ilustres e avisados colegas, bem como a revelação de pormenores escabrosos da ida ao tapete do Lehman, obrigou-me a pensar melhor neste assunto, antes de abrir a minha bocarra.
Após uma semana de aturada ponderação, concluí que o meu arrepio espontâneo e solitário se filia nas minhas pueril ingenuidade e triste ignorância.
Devemos todos aplaudir, com entusiasmo e ambas as mãos, a eloquente decisão de Cadilhe de proibir o pessoal do BPN de continuar a fazer malabarismos com a leis, a marimbar-se para as regras do Banco de Portugal e a violar alegremente o disposto nas rigorosas alíneas do Código de Valores Mobiliários. Foi uma pedrada no charco. Uma atitude corajosa que deveria ter sido prontamente secundada pelos seus pares.
Confesso que tenho estranhado a demora dos doutores Faria de Oliveira, Santos Ferreira, Fernando Ulrich e Ricardo Salgado em nos informarem que já decretaram internamente a proibição dos funcionários da Caixa, Millennium BCP, BPI e BES de atropelarem a legislação em vigor.
Nesta semana em que os olhos da comunidade financeira estiveram grudados em Bush e na América, tal com o girassóis se voltam para o Sol, terá passado despercebido o atestado de bom comportamento passado à nossa banca por Ricardo Salgado.
“Os bancos portugueses portaram-se bem, não investiam nos produtos tóxicos que estão por trás da crise”, garantiu o presidente do BES.
Longe de mim duvidar da sageza e veracidade da declaração de Ricardo Salgado. Mas nestes tempos em que prudência e sensatez se tornaram palavras arcaicas, não fico sossegado quando vejo grandes bancos portugueses a produzirem espumante (por sinal muito bom, adoro o Vértice!) , serem accionistas de referência de uma multinacional cimenteira e a terem uma presença activa no mercado da construção civil e obras públicas, em vez de concentrarem a sua atenção e esforços na gestão cuidada das poupanças que os clientes lhes confiaram.
Suspeito que há muito lixo escondido debaixo do tapete, que deve ser urgentemente varrido das contas dos bancos, para evitar que o sistema financeiro português perca o seu principal activo: a credibilidade.
Jorge Fiel
Esta crónica foi publicada no DN
"Este é o pensamento político que temos (em Portugal) , está em todas:· Estádios de futebol, hoje às moscas,
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Horácio Roque não hesitou quando lhe perguntei qual o melhor negócio da sua vida. Foi a venda de uma casa, que não era dele, em Luanda, em 1962.
Após ter vendido a casa, foi comprá-la mais barata, para honrar o compromisso. A beleza desta operação consiste em feito um negócio lucrativo sem dinheiro.
Neste negócio, o jovem Horácio, com 20 anos ainda por fazer, evidenciou um refinado raciocínio financeiro e uma vocação para banqueiro que cumpriria mais tarde (é o dono do Banif).
Na gramática financeira, vender um activo que não é nosso não é uma vigarice idêntica à de, por exemplo, vender a Torre Eiffel ao xeique Sulaiman Al-Fahim. Nada disso. Trata-se de uma operação respeitável que responde pelo nome de “short selling” e consta do menu básico de qualquer aprendiz de financeiro.
“Alavancar” é o santo e a senha da acelerada sofisticação da oferta de produtos financeiros. Os gurus da finança copiaram do Euromilhões, o princípio básico da “alavancagem”, que consiste na tentadora oferta de nos habilitarmos a ganhar uma fortuna (pequena, média ou grande), mobilizando apenas um pequeno pecúlio.
A única diferença, é que no Euromilhões arriscamos apenas os dois euros da aposta básica, e quando fazemos “short selling” ou jogamos com derivados corremos o risco de ficar depenados.
A crise financeira em curso há um ano, que conheceu esta semana desenvolvimentos dramáticos com a ida ao tapete da Lehman, é filha da sofisticação da “alavancagem” e a sua essência resume em 177 palavras.
No virar do século, o dinheiro estava em saldo e as famílias aproveitaram a oportunidade para se endividarem muito para além das suas possibilidades, para comprar não só casa, mas também plasmas, móveis novos, portáteis, BMWs e férias nas Caraíbas. O mercado imobiliário respondeu a esta pressão de acordo com a lei da oferta e da procura: entre 2000 e 2006, o preço das casas duplicou nos EUA.
Para estar apto continuar a alimentar a fornalha, a banca inventou um produto conveniente. Titularizou os créditos hipotecários e vendeu-os a fundos de pensões, bancos centrais, “hedge fundos”, etc.
Os mais atentos viram que a coisa ia dar para o torto no final de 2006, quando começou a subir o preço do dinheiro e a descer o valor das casas que sustentavam este engenhoso castelo de cartas, assente em activos tóxicos, de pouca qualidade. As famílias deixaram de pagar as hipotecas e não demorou muito até ficarmos a saber que vivíamos uma crise baptizada com o enigmático nome de “subprime”, que torrou um bilião de euros à banca mundial.
Esta crise marca o fim da época dos eufóricos desvarios financeiros e prova que a auto-regulação é insuficiente. Entregues a si próprios, os mercados têm uma alarmante tendência suicida. Com a sua intervenção, a Reserva Federal norte-americana reconheceu que Keynes estava certo. Agora é urgente que o sistema financeiro recupere a credibilidade e não continue a dar razão a Marx, que teorizou que o capitalismo encerra em si o germe da sua destruição.
Jorge Fiel
Esta crónica foi publicada no Diário de Notícias
Tui dá emprego a 500 portugueses
Não fosse a placa "Espanha" ali ao lado e o novo outlet de Tui, na Galiza, quase pareceria um qualquer centro comercial "luso", tantos são os carros de matrícula portuguesa no parque de estacionamento. E nem faltam centenas de licenciados atrás do balcão de lojas de roupa.
Dentro de dias serão quase 500 os portugueses a trabalhar no local, atraídos por salários 30% a 50% mais no espaço galego do que nas lojas em Portugal.
Das 78 lojas que dentro de dias estarão a funcionar em pleno, entre supermercado, zonas de alimentação, bomba de gasolina, lojas de moda e outros consumíveis, são perto de 800 postos de trabalho, dos quais cerca de 500 ocupados por portugueses.
Muitos destes empregados de balcão trocaram empregos do género em Portugal, onde recebiam pouco mais de 500 euros, por um trabalho idêntico que lhes vale ao fim do mês quase o dobro. "A diferença está no custo de vida de Espanha e nos salários praticados, as empresas reflectem isso mesmo nos ordenados que pagam".
Actualmente o centro funciona com 60 lojas abertas ao público, mas dentro de dias estará em plena operacionalidade, o que corresponderá a um total de 13 lojas de marca portuguesa.
Na restauração, um dos destaques vai para a 'Tasquinha do Tareco', a primeira aventura do casal de Barcelos, Eduardo e Alice Jesus. "Foi um convite e ao mesmo tempo um desafio, mas os espanhóis estão a gostar da nossa comida".
Francesinhas, cachorros e grelhados são os pratos de eleição dos espanhóis.
O Outlet Tui, o segundo maior outlet de Espanha e o único da Galiza, resultou de um investimento de 40 milhões de euros do grupo espanhol DG Center Atlântico e dista poucos metros da fronteira portuguesa de Valença.
Mário Rui Cruz