Tropecei na Collectus por acaso, tal como o Colombo descobriu a América.
Seguia por Cedofeita, em direcção à Boavista (apreciando, entre outras coisas, como ficaria a rua coberta e se a percentagem de sapatarias se mantém elevada) quando decidi internar-me pela Travessa de Cedofeita.
Tinha lido no JN que a Margaridense reabrira e achei por bem confirmar a notícia in loco (sim, é verdade, reabriu, mas com novas valências, que exigem uma inspecção mais demorada que a rápida vista de olhos que lhe dei).
A Collectus fica um pouco antes, no número de polícia 8ª/8D, e é um paraíso para coleccionadores. Com ando numa de postais ilustrados, pedi para ver o que tinham sobre o Porto.
Passaram-me para a mão postais antigos - recordações a preto e branco da cidade nos tempos da Outra Senhora (com preços a oscilar entre os três e os 50 euros cada) - e velhos, dos anos 70 e 80, com o colorido típico dessas décadas, com preços entre os 30 e 50 cêntimos.
Comprei oito postais, desta última série, por 3,60 euros, que até ao fim do ano voarão por cima do Atlântico Norte e de todos os Estados Unidos até à caixa do correio da minha filha Mariana, em Los Angeles.
Deixo-vos ficar com a reprodução de um dos postais e a recomendação de uma visita à Collectus.
Jorge Fiel
O grupo Barraqueiro, dono da Fertagus (a empresa que explora o comboio na ponte 25 de Abril em Lisboa), anunciou que está a trabalhar há mais de um ano numa proposta para o concurso da segunda concessão do metro do Porto – que é a principal aposta da empresa para 2009.
A Barraqueiro acrescentou que vai analisar uma candidatura à operação de TGV entre Lisboa e o Porto, que, de acordo com o calendário do Governo, deve estar no terreno em 2015.
Perguntado pelo Jornal de Negócios sobre se estava também interessado no TGV Lisboa-Madrid, José Luís Catarino, administrador da Barraqueiro, respondeu singelamente: “Achamos que a ligação Lisboa-Madrid em Alta Velocidade vai ser difícil de rentabilizar”.
Estas declarações - feitas por quem aposta dinheiro no negócio e não deixa a política entrar na equação - são a prova dos nove da rentabilidade do Metro do Porto e da linha de TGV Porto-Lisboa. E uma bofetada na cara dos tolos centralistas que dizem, histericamente, que “TGV para Madrid sim senhor, mas para o Porto, não, que horror, nem pensar, porque vai dar imenso prejuízo…”.
Rui Rio gosta de gracejar, dizendo que sempre que lhe falam em cultura leva logo a mão ao bolso da carteira, para se certificar se ela ainda lá está (a carteira, já que a cultura seria impossível).
Talvez valha a pena, por isso, espreitar para os números gordos que reflectem a actividade da Fundação da Casa da Música em 2008, o terceiro ano da sua vida.
Começamos logo por ficar satisfeitos ao constatar que o crescimento da actividade da Casa da Música foi acompanhado por um forte aumento nas receitas variáveis (bilheteira, mecenato e outras receitas próprias), virtuosamente muito superior à subida dos custos variáveis (programação, serviço educativo e outros projectos).
Os proveitos aumentaram 2,6%, fixando-se em cerca de 16,4 milhões de euros, à custa da subida das receitas próprias, já que o peso do subsídio do Estado português diminuiu em meio milhão de euros.
Os custos cresceram apenas 2%, o que permitiu apurar um resultado de aproximadamente 1,1 milhões de euros, antes de amortizações e provisões, superior ao previsto.
Esta conta de exploração equilibrada, de acordo com as orientações do Orçamento, possibilita fazer um reforço de 270 mil euros no Fundo de Sustentabilidade, que assim passa a ficar dotado de 775 mil euros.
Para esta boa performance contribuíram diversos factores, sendo justo sublinhar alguns deles, como o crescente peso da bilheteira, cujas receitas foram superiores e 820 mil euros, tendo crescido mais de 23% face a 2007.
Recomenda-se por isso, a leitura atenta do Relatório da Fundação da Casa da Música o presidente da Câmara do Porto, para se abster de persistir, no futuro, em piadas de mau gosto.
Jorge Fiel
O discurso em que Elisa Ferreira apresentou a sua candidatura à presidência da Câmara do Porto foi longo (nove páginas A4) mas merece ser lido - mesmo pelos que o ouviram.
Gostava de chamar a atenção para dois passos desta declaração.
O primeiro é a forma elegante como a Elisa chama a atenção para a dramática hemorragia de massa cinzenta que o Porto está a sofrer:
“Decidi vir aqui pedir-vos que me deixem dedicar, de forma total e exclusiva, os próximos anos da minha vida ao Porto, à minha cidade!, à cidade em que nasci, em que estudei, em que trabalhei e em que gostava que as minhas filhas pudessem viver bem”
O segundo é a maneira definitiva como arrumou num parágrafo com a falsa questão da dupla candidatura (Parlamento Europeu e Câmara do Porto), que à mingua de outros argumentos tem sido brandida pelos indefectíveis de Rio:
“Nada, senão o Porto me faria desistir deste combate essencial para o nosso futuro: o combate por uma União Europeia mais competitiva e mais coesa, por uma Europa em que todos possam ter voz. Daí o meu compromisso de hoje, perante vós: se me derem a vossa confiança, deixarei Bruxelas e consagrarei ao Porto a totalidade das minhas forças nos próximos anos. Serei, a tempo inteiro, a presidente da Câmara Municipal do Porto! A primeira mulher presidente da Câmara do Porto!”.
Ainda bem que a contagem decrescente para a mudança já começou!
Jorge Fiel
Eram muitas mais as vezes que falhava do que as que acertava no alvo. Atrapalhava-se no momento de suspender a respiração e premir o gatilho - essa é que era essa!
O caçador sentia que perdera o dom da caça e preparava-se para acabar com a carreira, quando partilhou o seu drama com um amigo, que o aconselhou a consultar um feiticeiro, que ouvira dizer ser capaz de milagres.
O feiticeiro deu ao caçador uma flauta. Quando estivesse na presença de uma peça que quisesse abater, o que tinha a fazer era tocar a flauta mágica que encantaria e paralisaria o animal. Com a presa imobilizada, seria fácil acertar-lhe.
Foi a medo que o caçador experimentou a flauta do feiticeiro. Mas logo constatou que o remédio tinha tanto de simples como de eficaz.
Prosseguiu a sua auspiciosa carreira, até que um trágico dia avistou um leão, trocaram um olhar e, debalde, começou a tocar na flauta. O leão não parou. Tocou com mais energia - mas nada. O caçador morreu estraçalhado pelo rei da selva.
O triste fim do velho caçador foi presenciado em silêncio por um bando de macacos, prudentemente resguardados nos galhos de uma alta árvore. O silêncio foi quebrado pelo sábio comentário do macaco velho: “Eu não vos disse que ele se ia ver aflito quando encontrasse um leão surdo?”.
Desde que a 15 de Setembro de 2008, as autoridades americanas deixaram cair o Lehman Brothers (permitindo assim que evoluísse para um enfarte no sistema financeiro a crise da hipertensão provocada pelo subprime), que vivemos um ponto de viragem no processo de expansão do crédito iniciado após a II Guerra Mundial, que se tornou explosivo a partir dos anos 80.
A economia mundial vive, em pânico, uma situação nova e perigosa, marcada pela contracção do crédito, liquidação de activos e destruição de riqueza, em dimensões nunca enfrentados por qualquer governante, político, banqueiro ou empresário em funções.
As velhas receitas, que tão bom resultado deram em crises passadas, não servem para atacar esta crise nova. Não vale a pena tocar a flauta, porque a economia ensurdeceu.
O doente (a economia) está nos Cuidados Intensivos. Não é preciso ser um dr. House para perceber que é urgente que o sangue (dinheiro) chegue ao coração (as empresas) do moribundo.
O problema é que as veias (bancos) estão entupidas e o sangue que injectamos perde-se pelo caminho - não chega às empresas.
O melhor é fazer um bypass. Parar a aposta na banca velha – não vale a pena tentar aliviá-la arrumando num banco mau as toneladas de lixo que ela acumulou.
O que há a fazer é canalizar todos os recursos disponíveis para uma injecção de sangue no coração, administrada através de um banco novo – e bom!
PS. Agradeço ao meu amigo Antas Teles ter-me contado esta magnífica história do leão surdo
Jorge Fiel
Esta crónica foi publicada hoje no Diário de Notícias
Na esmagadora maioria das vezes em que a Casa da Música aparece nos títulos dos jornais o sujeito da frase é custos e o verbo é derrapar.
Apesar desenvolver há três anos, e de forma intensa, a sua actividade, e de ser ter transformado num farol na produção e divulgação musical, os resultados da sua aposta de formação e fidelização de novos públicos são ignorados pelos Media lisboetas – ou quando muito guetizados em curtas notícias atiradas para o fundo de páginas pares.
Como portuense, não posso deixar de sentir orgulho quando olho para os números que constituem a face visível da actividade da Casa da Música em 2008: recebeu 267 concertos e realizou 1158 actividades educativas, presenciados por mais de 200 mil pessoas.
Fico muito satisfeito em saber que promoveu, em média, mais de três eventos por dia e que eram portugueses mais de metade dos 1800 músicos que estiveram em palco na Casa da Música.
Números como estes são música para os nossos ouvidos.
Jorge Fiel
António Gomes de Pinho propôs ao Governo um urgente plano anti-crise, baseado nas potencialidades do sector cultural e das indústrias criativas, que apesar da sua importância passou algo despercebido.
O presidente da Fundação de Serralves apresentou uma série de medidas concretas que está convencido terão, no curto prazo, “um forte impacto na criação de emprego qualificado para as camadas mais jovens e contribuirão, a médio prazo, para a reconversão do tecido empresarial português, conferindo-lhe maior competitividade e inovação”.
Gomes de Pinho estima em 50 milhões de euros (uma bagatela para quem meteu 1 800 milhões a tentar tapar o buraco BPN) os custos do seguinte pacote de medidas:
1. Isenção de taxação de direitos de autor por um prazo de três anos;
2. Apoio à reconversão de espaços fabris encerrados, para instalação de núcleos de empresas criativas, em colaboração com as autarquias;
3. Criação de um passe cultural nacional, para facilitar o acesso da população às manifestações culturais, apoiando deste modo as instituições culturais;
5. Facilitação do acesso ao capital de risco e ao crédito dentro de determinados valores;
6. Criação de um programa intensivo de formação em gestão empresarial para jovens candidatos à criação de empresas culturais, em colaboração com as escolas de gestão e as instituições culturais mais relevantes do país.
Em face da clarividência destas medidas, só me resta assinar por baixo.
Jorge Fiel
Com os seus 412.500 visitantes em 2008, Serralves é não só museu mais visitado do país, mas também uma alavanca essencial para o renascimento do Porto.
A Fundação comemora o seu 20º aniversário e o Museu o 10º neste turbulento ano de 2009 que a União Europeia proclamou como sendo dedicado à Criatividade e Inovação.
Serralves está completamente sintonizada com este esforço da Europa em reinventar a sua base competitiva e assumiu-se também como uma incubadora de indústrias criativas.
Transformar a criatividade em negócio é o principal objectivo por Serralves ao criar esta incubadora que alberga projectos tão desafiantes com a empresa que aposta na roupa didáctica e aquela outra especializada no restauro de obras de arte contemporânea - passando pela do Alexandre que produz jingles e toques de telemóvel.
Olhando com olhos de ver para o que Serralves está a fazer, ficamos logo com a certeza que o futuro vai ser melhor que o presente.
Jorge Fiel
Como a mensagem é o meio, mando mais postais ilustrados do que SMS ou mails à minha filha Mariana, que está a viver em Los Angeles.
O computador e o telemóvel são excelentes meios para trocar informações úteis, dar recados e transmitir estados de alma instantâneos.
O postal ilustrado tem sobre todos os tipos de teclados a enorme vantagem de ser manuscrito.
A caligrafia, que na sua imensa sabedoria os orientais elevaram à categoria de arte, e os selos (que faço questão de escolher) dão um toque pessoal insubstituível à comunicação.
Depois, claro, há o conteúdo. Quando se escreve um postal tem de se pôr muito mais do que numa conversa no Messenger, numa SMS ou no mail. Como o conteúdo tem de ser duradouro, exige mais reflexão.
A este propósito recomendo vivamente a compra da magnífica colecção de postais ilustrados com dez olhares de Luís Ferreira Alves (dos quais reproduzo dois) sobre o Porto, que nos recorda uma vez mais como a nossa cidade é bonita.
A minha colecção comprei-a na loja de Serralves e custou-me dez euros e pareceu-me muito pouco dinheiro para tanta beleza, metade da qual já exportei para uma casa em Silverlake, a pouco quilómetros do Oceano Pacífico.
Jorge Fiel
A velhinha chega à peixaria e pergunta: “Tem jaquinzinhos?”. Mal a peixeira disse “Temos sim, minha senhora”, ela fez o pedido: “Então corte-me aí duas postinhas do meio!”.
Pelo conteúdo genuinamente português, esta é minha história preferida do vasto anedotário produzido no nosso país a propósito da crise.
As anedotas que nos desaconselham de tomar café (esse dinheiro dá para comprar uma acção do BCP) ou a dar os 50 cêntimos ao arrumador (com essa moedinha compra uma acção da Sonae SGPS e ainda recebe troco) também têm graça. Mas, para mim, a melhor é mesmo a dos jaquinzinhos.
No dia a dia, somos macambúzios. Quando um espanhol encontra outro na rua e lhe pergunta “como estás?”, recebe como de volta um “de puta madre!”, ou “fenomenal”.
Quando fazemos essa pergunta a um português, arriscámo-nos a que ele nos responde que o colesterol já está controlado, mas as tensões nem por isso e o açúcar não pára de subir.
Somos uns tristes, mas a quantidade e qualidade das graçolas sobre a crise revelam que somos criativos (e a criatividade é uma competência apreciada) e dotados de uma estranha capacidade masoquista para fazer graça com a nossa desgraça.
A nossa criatividade exprime-se ainda através do desenrascanço, a enorme capacidade de improvisar, que é outra competência.
O problema é que, apesar de termos competências invejadas, a riqueza criado por hora trabalhada em Portugal é das mais baixas de toda a UE. E a tendência não é para melhorar. Entre 2001 e 2006, a nossa produtividade cresceu 0,7%, bem abaixo dos 1,3% da média europeia.
Em conversa com a directora de Recursos Humanos da Microsoft Portugal, eleita pelo quarto ano consecutivo a melhor empresa para trabalhar, Teresa Nascimento surpreendeu-me com uma frase arrebatadora:
“Temos vergonha de sermos portugueses. Isso de trabalharmos pior que os outros é tudo uma mentira e uma palermice. Não passa de lixo que nos põe na cabeça quando somos pequenos”.
Teresa documentou esta afirmação com a performance, claramente superior à média das multinacionais em que estão inseridas, de empresas como a sua e a Auto-Europa.
A produtividade dos nossos emigrantes dá-lhe razão. O Luxemburgo, onde 20% da população activa é portuguesa, é o 4º país mais produtivo do Mundo, o que levou Jorge Vasconcelos Sá a fazer umas contas curiosas.
Se os portugueses emigrados no Luxemburgo viessem cá fazer o nosso trabalho, podiam entrar de fim-de-semana às 17 horas de 3ª feira – pois já tinham produzido tanto como nós numa semana de cinco dias. Em alternativa, podiam parar de trabalhar a 15 de Maio.
Se temos competências elogiadas e somos capazes de altos níveis de produtividade, sou forçado a concluir que o defeito está nos chefes, não nos índios. Se calhar, os dinheiros da formação deveriam ser aplicados a ensinar os empresários a liderar.
E se contratamos treinadores de futebol e maestros estrangeiros, por que não importamos políticos e empresários que saibam tirar partido das nossas capacidades para fazer o país andar para a frente?
Jorge Fiel
Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias
Imagem do cavalheiro em quem se malha, obtida a partir de uma fotografia tipo passe, sem grande qualidade, sacada na Net
O vice-presidente do PSD que se celebrizou ao declarar que a Regionalização é uma armadilha para os portugueses é mestre e doutor em Ciências Jurídico-Civilistas, professor em Coimbra e foi juiz do Tribunal Constitucional.
Sendo pessoa com estudos, Paulo Mota Pinto resolveu elaborar pensamento em suporte da declaração:
“Eu acho que num momento de crise, grande, económica, não é altura adequada para lançar esse debate. É um debate que vai dividir os portugueses. Neste momento, deveríamos concentrar-nos no essencial. Não é aí que vai estar a saída para a crise”
Creio que os trabalhadores das empresas europeias apoiadas financeiramente pelos governos regionais, neste momento de crise – contornando a inibição imposta por Bruxelas aos governos centrais –, não partilharão a ideia de Mota Pinto.
E desconfio que quando ele fala num “debate que vai dividir os portugueses” poderia ir um bocado mais longe e ter dito um “debate que vai dividir os portugueses votam no PSD” - que ficará um partido ainda mais partido se o referendo da Regionalização avançar e os seus dirigentes e militantes forem obrigados a escolher a sua trincheira.
Jorge Fiel
Este Mota Pinto não está contra a corrente dominante no seu partido.
Manuela Ferreira Leite, a regente actual dos laranjinhas, é uma opositora tão fervorosa da Regionalização - eu até suspeito que se benze murmura “cruzes canhoto” quando ouve esta palavra maldita.
Pedro Passos Coelho, que vai ser o próximo presidente do PSD, também é um cruzado contra a reforma administrativa do país.
Eis três excelentes razões para não votar PSD.
Jorge Fiel
Groucho, o segundo mais genial de todos os Marx
Quando ouvi na rádio o ruído da marcha atrás metida por José Sócrates na questão da Regionalização, veio-me logo à cabeça o fantástico nonsense de uma das frases predilectas do meu amigo e colega Valdemar Cruz: “a unanimidade nem sempre é consensual”.
Alega o primeiro-ministro que só avançará com um novo referendo sobre a Regionalização depois de ter verificado a existência de um consenso alargado no país, que lhe dê garantias que o Sim triunfará.
Cheirou-me logo a desculpa de mau pagador. O PS não esperou pelo ámen do Cardeal Patriarca e da São Caetano para avançar com o segundo referendo sobre a interrupção voluntária da gravidez.
Porque será que agora tem de esperar por um consenso impossível com a liderança laranja para avançar com um novo referendo sobre a Regionalização?
Será que Sócrates está a tentar fazer concorrência a Groucho Marx, quando este, num genial exercício de humor circular, explicou que não podia ser sócio de de um clube que o aceitasse como sócio?
Jorge Fiel
Os cabecilhas da revolta do 31 de Janeiro
Não tem aparecido na lista dos grandes investimentos públicos, onde as estrelas são as linhas de TGV e o aeroporto de Alcochete.
Mas a reabilitação da frente ribeirinha de Lisboa tem já garantido um financiamento gordo de 400 milhões de euros. Só o Turismo de Portugal entra com 70 milhões.
A lavagem da cara da marginal da capital, que contempla enterrar o comboio da linha de Cascais no troço entre o Museu da Electricidade e o Centro Cultural de Belém, vai ser a grande obra comemorativa do centenário da República.
No Porto, continuo sem saber notícias do concurso internacional aberto para reabilitar os 3,5 quilómetros da marginal do Douro.
Desconheço se há ou não projecto aprovado, quando vai custar a empreitada e quem a vai pagar – e mesmo se o Turismo de Portugal está disposto a dar uma ajudinha ou vai gastar a nota toda em Belém.
Só espero que não estejam à espera das comemorações do bicentenário da revolta do 31 de Janeiro de 1891, o primeiro levantamento armado contra a Monarquia, que teve o Porto republicano como berço.
Não quero ter de viver mais 82 anos para ver a marginal do Douro remoçada.
Jorge Fiel
O chefe Nuvem Sentada era já bastante velho quando morreu, no final do Verão, deixando os destinos da nação Comanche nas mãos do neto, Língua Irrequieta, um jovem desempoeirado mas inexperiente.
Só quando o Outono já ia alto, e o Conselho de Velhos lhe perguntou se os membros da tribo deviam começar a cortar lenha, é que Língua Irrequieta se apercebeu que decidir sobre o aprovisionamento de madeira fazia parte das suas novas funções. Disse-lhes que sim, que começassem a cortar.
Quando, passados 15 dias, voltou a ser confrontado com a mesma questão, já estava habilitado a decidir com base em informações. Telefonara para o Instituto de Metereologia que lhe falara de um Inverno com grandes massas de ar frio. Foi rápido na resposta: os irmãos deviam continuar a agir como valentes lenhadores.
Duas semanas depois, os velhos perguntaram de novo: “O grande chefe acha mesmo que o Inverno vai ser assim tão frio que a lenha já cortada não chegará para nos aquecer?”. Lingua Irrequieta disse que sim: Que sempre era melhor que, no final do Inverno, sobrasse lenha do que se faltasse. Mas ligou para a Metereologia, a saber se se confirmava que o Inverno ia ser anormalmente frio.
“Tudo leva a crer que sim, meu amigo. Os sacanas dos índios continuam a a cortar lenha como doidos!”, declarou-lhe o cientista.
Esta anedota dos índios, que me foi contada pelo meu amigo Antas Teles, ajuda-nos a perceber o processo de formação de um pensamento único em circuito fechado.
As causas produzem efeitos, que se transformam em causas nesta sociedade em que a informação se propaga a uma velocidade supersónica.
Alberto da Ponte contou noutro dia um episódio revelador de como se reproduz numa perigosa espiral esta “crise que só se vive uma vez na vida” - que Basílio Horta compara a um “tremor de terra”, enquanto Ricardo Salgado fala de uma “tempestade” (curioso que ambos atirem para a Natureza as culpas de uma situação que é da responsabilidade da ganância humana).
Um amigo médico, sportinguista como ele, contou ao CEO da Centralcer que, apesar de não sido afectado pela crise, deixara de comprar dois diários desportivos: “Por causa da crise, passei a comprar só um”.
Neste momento, em que o medo – o medo de consumir, o medo de decidir e o medo de falhar – se espalhou como uma epidemia e está instalado, vale a pena relembrar as sábias palavras de Roosevelt (que tirou os EUA da Grande Depressão), no primeiro discurso presidencial:
“Esta Nação, aguentará como aguentou, ressuscitará e prosperará. Por isso, antes de mais, deixem-me afirmar a minha firme convicção de que a única coisa que devemos ter medo é do próprio medo – do terror sem nome, irracional, injustificado, que paralisa os esforços para converter a retirada num avanço”.
Eu, que não comprava qualquer jornal desportivo, decidi que vou passar a comprar “O Jogo” todos os dias. Fico à espera que os meus amigos e conhecidos pensem o seguinte: “ Se o fonas do Fiel, que toma nota num papel de todas as despesas que faz, voltou a consumir, já podemos voltar a jantar fora pelo menos uma vez por semana…!”.
Jorge Fiel
Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias
Se me perguntarem qual é a ponte mais bonita do Porto, eu começo por hesitar, mas acabo por responder que é da Arrábida.
Mas ninguém no seu perfeito juízo pode ignorar a elegante beleza e infinita importância da ponte Dona Maria Pia, que ocupa um lugar de destaque, logo a seguir à Torre Eiffel, em todas as publicações internacionais dedicadas à obra de Gustave Eiffel.
Pois a ponte Dona Maria Pia continua à espera de um projecto de recuperação – e um dia desespera e vai abaixo.
Desafectada ao tráfego ferroviário desde a entrada em funcionamento da ponte D. João, a velha ponte de Eiffel espera que a Refer e as câmaras do Porto e Gaia se entendam quanto ao seu destino.
Se, por falta de uso, um dia a ponte cair, já sabemos quem são os culpados: um anónimo gestor da Refer, nomeado pelos socialistas, e os sociais democratas Rio e Menezes. Vergonha para eles.
Jorge Fiel
Marimbo-me (e de alto!) para o caso Freeport. O que me incomoda mesmo é que o Conselho de Ministros tenha aprovado uma resolução que permite aplicar na região de Lisboa verbas do QREN, que deviam destinar-se às regiões cuja riqueza per capita é inferior a 75% da média comunitária.
O que me chateia é o Governo imite o Xerife de Nottingham e continue a roubar aos pobres para dar aos ricos os dinheiros da coesão vindos de Bruxelas.
O resto do país precisa de um Robin de Bosques (que use calças ou saias, não importa) que nos defenda dos excessos do Estado centralista e vigarista.
Jorge Fiel
Que Governo é este que não desiste de introduzir portagens na Scut Norte Litoral e na Scut Grande Porto, enquanto insiste em manter a Via do Infante gratuita?
Que PS Porto é este que não só engole esta enorme desconsideração, como ainda por cima mete vergonhosamente a sua assinatura por baixo deste miserável tique centralista protagonizado pelo ministério do Mário “Jamais” Lino?
Qual é moralidade do nosso Orçamento obrigar o bancário da Póvoa de Varzim que trabalha no Porto a pagar portagem e dispensa dessa maçada o turista inglês aquartelado em Albufeira que decidiu ir beber umas cervejas a Lagos?
Jorge Fiel
A actual organização político-administrativa do pai data do tmepo de Alexandre Herculano
“Prefiro que haja Regionalização, do que região nenhuma”, admite José Silvano, presidente da Câmara de Mirandela.
“Pagámos um preço muito caro da falta de Regionalização”, concorda José Ernesto Oliveira, presidente da Câmara de Évora.
Num país que mais parece um bilhar que só descai para um buraco (Lisboa), os autarcas transmontanos e alentejanos, que há dez anos estavam contra a Regionalização, começam a torcer a orelha – mas ela já não deita sangue.
Jorge Fiel
Nunca fui à cara com os bifes. Comecei a olhá-los de lado na noite de 26 de Julho de 1966 (tinha eu dez anos), quando vi o Eusébio a deixar o relvado de Wembley a limpar as lágrimas à camisola que eu sabia ser grenat mas aparecia a preto no ecrã do televisor Nordmende que o meu pai comprou, a prestações, para vermos os Magriços no Mundial de Inglaterra.
Não tenho a mínima dúvida de que fomos gamados naquela meia-final e que os ingleses foram levados ao colo até ao título.
Esta primeira e má impressão dos ingleses foi-se esbatendo à medida que fui sendo apresentado ao estilo Carnaby Street, à música dos Kinks, Beatles e Stones, à cultura pop e às mini-saias de Mary Quant.
Tudo voltou a piorar à medida que fui aprofundando os meus conhecimentos de História. O Tratado de Windsor (assinado em 1386 entre Portugal e Inglaterra), pode ser a mais antiga aliança diplomática ainda em vigor, mas foi um péssimo negócio para nós.
Bem vistas as coisas, a Ínclítica Geração de filhos (em particular Henrique e Duarte) que a inglesa Filipa de Lencastre educou e deu a Portugal foram o que de mais lucrativo extraímos destes seis séculos de aliança idealizada por D.João I.
A histórica fragilidade da indústria portuguesa mergulha as suas raízes no Tratado de Methuen (1703), que escancarou as nossas portas aos lanifícios ingleses. As exportações de vinhos portugueses para Inglaterra foi uma fraca contrapartida - como eles estavam em guerra com os franceses não tinham muitas alternativas de abastecimento…
Mas a grande facada que a pérfida Albion nos espetou nas costas foi o Ultimatum de Janeiro de 1890, que feriu de morte a nossa monarquia.
D. Carlos aceitou as exigências britânicas e renunciou ao Mapa Cor-de-Rosa (que consistia na ocupação do actual território da Zâmbia a Zimbabwe, ligando Angola a Moçambique).
Esta humilhação desencadeou uma vaga nacional de indignação patriótica, que tinha como hino A Portuguesa, com um poema de Henrique Lopes de Mendonça que concluía com o apelo explícito: “contra os bretões/marchar, marchar”. Mais tarde, quando a República escolheu esta canção para Hino Nacional, os “bretões” transformaram-se em “canhões”.
Com aliados como os ingleses não precisamos de inimigos. Aturamos as hordas de ingleses bêbados em Albufeira. Aguentamos com uma paciência infinita o circo internacional que montaram a propósito da Maddie. Fazemos ouvidos de mercador aos remoques de mau gosto e péssima educação da imprensa londrina.
Quando tomei conhecimento da carta rogatória britânica, onde se refere que o nosso primeiro ministro “terá solicitado”, “terá recebido” ou “terá facilitado” (ou, digo eu, “terá ido tomar café”, “terá ido dar banho ao cão”...), o licenciamento do Freeport, fiquei logo com vontade de propor que os “bretões” voltem a substituir os “canhões” .
PS. Vou sugerir ao Luís Pedro Nunes que o Inimigo Público envie um repórter a Inglaterra para investigar o que Manuela Ferreira Leite andou por lá a fazer quando alegava que estava a visitar o neto.
Jorge Fiel
Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias