Após o 25 de Abril, a avenida sofreu uma fase de terciarização acelerada, que avança no sentido Rotunda/Castelo do Queijo e tem o seu sinal mais visível na coexistência pacifica de três hotéis de cinco estrelas num raio de algumas (poucas) centenas de metros.
Esta vaga de terciarização chegou até às imediações da Fonte da Moura, onde já se pressente o cheiro a maresia, pela mão da Bolsa do Porto, que aqui teve a sua segunda e última casa.
O resultado é a concentração nos
Com quase 90 anos de idade, a Boavista tem diversas caras.
Começa pequeno burguesa, com a Casa da Música a conviver com pequenas mercearias, restaurantes modestos, as sedes do PCP e do Goethe-Institut, a sua única livraria e os Enfermeiros Reunidos.
O Porto Palácio, de um lado, e o palacete Arte Nova da viscondessa de Lobão, do outro, marcam a fronteira para um troço mais cosmopolita, recheado de hotéis cinco estrelas.
E a partir daqui quase nunca mais pára de subir na escala social. O endereço postal diz tudo. Quanto mais alto for o número, maior deverá ser a conta bancária dos seus residentes. A partir do 2000, é praticamente seguro que é da classe média. Do três mil para cima, há pelo menos um BMW ou Mercedes na garagem.
No miolo da avenida, estão expostas à vista de todos os contrastes e as contradições em que o Porto é fértil. Junto ao Estádio do Bessa, o horrível edifício do Dallas – um centro comercial fantasma mandado encerrar pela câmara por ordem do tribunal – mora em frente à elegante galeria Bristol, com as suas lojas requintadas de «griffes» como a Hugo Boss, Godiva ou Stefanel.
(continua)
Jorge Fiel
Não sei se já repararam mas na publicidade, os relógios estão sempre na hora da postagem aqui na Bússola: 10h10
O meu amigo Sousa (nome fictício) é alérgico às horas e geneticamente incapaz de comparecer a um encontro com um atraso inferior a duas horas.
Nós, as vítimas do Sousa, costumávamos brincar, dizendo que o problema era de fabrico, pois ele vinha de origem regulado para funcionar noutro fuso horário (talvez o de Varsóvia) e tudo se resolveria se ele fosse exportado para a Rússia. Em Moscovo, ele até seria capaz de chegar aos compromissos um bocadinho antes da hora.
Toda esta benevolente teoria ruiu como um castelo de cartas quando soubemos que o Sousa chegou mais de 24 horas atrasado a uma reunião com um cliente. Afinal, o caso não se resolveria nem que ele fosse transplantado para Brisbane. Convencemo-nos que os pantagruélicos atrasos dele não são uma manifestação de má educação, mas antes um sintoma de uma terrível doença incurável.
Da mesma maneira que há pessoas que não conseguem evitar roubar (cleptómanas), também há gente, como o Sousa, que não conseguem cumprir horários – ou seja cleptómanas do tempo dos outros.
O problema é que há mais portugueses a sofrer da doença do Sousa do que diabéticos e hipertensos – juntos!
Os nossos costumes são mesmo brandos. Em Portugal pratica-se, convive-se e desculpa-se o péssimo hábito de chegar depois da hora. Ao ponto da etiqueta considerar ”rude” chegar alguns minutos antes – e classificar de “chique” chegar atrasado.
A conferência de imprensa está marcada para as 15 horas? Se aparecer antes das 15h30 ficará para todo o sempre conhecido como o jornalista precoce.
A vernissage de uma exposição está marcada para as 19h00? Se ousar chegar antes das 19h45 ficará para todo o sempre classificado como o bimbo desocupado.
O jantar está marcado para as 20h30? Se se atrever a chegar antes das 21h30 ficará para todo o sempre com a fama de ser o convidado esfomeado.
A AESE- Escola de Direcção e Negócios, dirigida pelo meu amigo e conterrâneo José Ramalho Fontes, reconheceu a importância desta praga quando, no estudo do Caso Portugal, diagnosticou dois aspectos em que temos de melhorar: a gestão do orçamento familiar e a pontualidade.
O combate a favor da pontualidade exige-nos não só chegar a horas, mas também adoptar uma atitude de tolerância zero para com todos os que usam o relógio de pulso apenas como adorno e acham que murmurar uma vaga desculpa sobre o trânsito é suficiente para que 9h30 e 10h10 sejam a mesma coisa.
Não podemos repetir o mantra «tempo é dinheiro» e continuarmos a malbaratar o tempo. Uma maneira fácil e barata de melhorar a produtividade é exterminar a perda estúpida de horas de trabalho provocadas pela falta da pontualidade.
Além de ser um enorme desperdício de horas de trabalho, chegar atrasado é um acto de profunda de má educação e de absoluta falta de respeito pela pessoa que ficou à nossa espera.
Por isso, ficam desde já a saber que a minha tolerância máxima para os atrasos passa a ser de um quarto de hora – com uma única excepção, o Sousa (que tem a desculpa de ser doente).
Jorge Fiel
Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias
A Carris foi tão essencial para o desenvolvimento da avenida como o caminho-de-ferro o foi na construção dos Estados Unidos. A sua importância ressalta de uma frase escrita por um jornalista na sua reportagem sobre o incêndio de 1928 na «remise»:
«Para os lados da Boavista, o movimento é sempre frouxo. A longa e larga avenida só vive da vida dos seus carros e das suas fábricas. Fechadas as fábricas, ao anoitecer, paralisado o trânsito dos eléctricos, fica deserta, recolhida no seu silêncio elegante, de avenida moderna, aristocrática».
A primeira vaga de povoamento da avenida, durou até aos anos 20, com a construção na sua parte inicial (logo a seguir à Rotunda) de casas de brasileiros, amiúde rodeadas das palmeiras que correspondiam ao seu gosto. Foi preciso esperar quarenta anos para a inauguração da ponte da Arrábida ser a locomotiva de um novo e espectacular surto de desenvolvimento da Boavista, para onde se deslocou gradualmente o centro de gravidade da cidade, que outrora residira na Baixa e zona Oriental.
Junto à saída da nova ponte, o BPA implantou nos anos 60, no local onde laborara a Fábrica de Tecidos Graham, o Foco, uma urbanização moderna, com andares destinados às classes média e média/alta. Mais recentemente, junto à Fonte da Moura, o terreno deixado livre pelo fim das Sedas Aviz foi usado para a construção de grande empreendimento, conhecido pelo antigo nome da fábrica (Aviz), com características idênticas às do Foco, mas mais denso e ainda está a ser desenvolvido.
Daqui até ao mar, correndo ao longo do Parque da Cidade até desaguar no Oceano Atlântico, fica a zona com mais baixa densidade populacional da avenida, ocupada com vivendas elegantes mandadas fazer por industriais e banqueiros, a partir de meados do século passado.
Jorge Fiel
O rasgar da avenida demorou o seu tempo. Iniciado no virar do século, só foi concluído em 1917, o ano da revolução bolchevique, com a conclusão do troço final, entre a Fonte da Moura e o Castelo do Queijo, que nos anos 50 viria a ser a principal recta do Grande Prémio de Fórmula I do Porto, estrelado pelo famoso Stirling Moss.
Demorou, mas valeu a pena. Sant’Anna Dionísio considerou-a logo como «a mais bela artéria da zona mais moderna e luxuosa» do Porto e e não poupou nas palavras quando a qualificou como «um dos mais acertados e desenvolvidos golpes de expansão que a cidade recebeu nos últimos 50 anos».
A avenida teria de esperar mais de meio século para acolher dois novos e importantes ícones que romperam com a tímida escala que caracteriza a cidade.
A Casa da Música e o Parque da Cidade foram arrojados empreendimentos apadrinhados por Fernando Gomes, que sonhou reeditar, um século depois, o período mais próspero e expansionista do Porto.
O Parque da Cidade concretizou, em 1991, o velho projecto do pai da avenida, Gustavo Sousa, de equipar o Porto com um vasto pulmão verde, e viria a receber, dez anos depois, um ousado remate marítimo pensado por Solá Morales. Como o parque não chegava à praia, o arquitecto catalão resolveu fazer desaterros, abrindo o caminho para o mar subir até ao parque. Funcionou!
A Casa da Música, saída do estirador do holandês Rem Koolhas, é um espantoso e estranho edifício com uma altura equivalente a 12 andares , implantado no quarteirão outrora ocupado pela «remise» (a recolha dos eléctricos) e pelos escritórios da Carris (actual STCP), que, além de escriturários, albergavam barbeiros e alfaiates que cuidavam das fardas e aspecto dos funcionários da companhia.
(continua)
Jorge Fiel
O pai da avenida da Boavista é Gustavo Adolfo Gonçalves de Sousa, um engenheiro da Câmara e veterano do Cerco do Porto, onde serviu como alferes no batalhão comandado por Vitorino Damásio, o fundador da Associação Industrial Portuense.
Homem de ideias modernas e desempoeiradas, Gustavo de Sousa tinha dirigido as obras de construção do Palácio da Bolsa, empreendimento de envergadura, financiado até ao último tostão pelos homens de negócios reunidos na Associação Comercial do Porto.
Contratado para engenheiro da Câmara, definiu dois grandes projectos baseados na abertura da Rotunda da Boavista, uma praça ampla e arejada, com
O engenheiro imaginou a Rotunda da Boavista como um coração, ligado à Quinta da Prelada por um imenso parque verde e de onde partiriam quatro artérias, das quais a aorta seria a avenida que ligaria a cidade à Foz, que em meados do século XIX era ainda uma humilde povoação piscatória dos arredores. Falhou a primeira concretizou a segunda.
A transferência, no final do século XIX, da Feira de S. Miguel para a Rotunda da Boavista, assegurou a rápida animação desta ampla praça, ao atrair a visita dos lavradores dos arredores que a ela acorriam em busca de alfaias agrícolas, cangas, jugos, tamancos, louças, chapéus de palha, varapaus ou, tão só, do afamado doce da Teixeira.
Também ajudou à festa a construção, em 1889, no local onde está agora o Tabernáculo Baptista, da praça de touros chamada Real Coliseu Portuense.
(continua)
Jorge Fiel
O Porto tem uma escala de cascata de S. João, apenas rompida pelo Paço Episcopal, a avenida da Boavista, o Parque da Cidade e a Casa da Música – e os dois últimos ficam na avenida da Boavista…
Numa cidade em que o poder religioso (apoiado pela burguesia local) foi suficientemente poderoso para impedir os nobres de residirem no interior dos seus muros, não espanta o domínio imperial que o Paço Episcopal exerce sobre o casario que preenche a encosta que desce da Pena Ventosa até à Ribeira e o rio, compondo o mais batido dos postais ilustrados do Porto.
Com os seus
Jorge Fiel
www.lavandaria.blogs.sapo.pt
PS. A publicação, em seis episódios, da curta biografia da nossa mais longa avenidas,deve-se a dois motivos. O primeiro é pessoal – em Abril vou viver para um apartamento na avenida da Boavista. O segundo tem a ver com a minha militância portuense. Irrita-me o imobilismo e a falta de arrojo que se apoderou da cidade e que tem atrasado a abertura da via Nuno Álvares, que ligará Praça do Império à avenida da Boavista. Espero que a canonização do Condestável apresse o início das obras. Quando falha a fé nos homens, só nos resta virar-nos para o divino…
Devido à ausência de gravidade, as esferográficas normais não funcionam no espaço.
Este foi mais um dos milhões de problemas que os cientistas norte-americanos e soviéticos tiveram de resolver nos anos 60, quando a conquista do espaço era um dos tabuleiros em que se disputava a Guerra Fria.
Os americanos desenvolveram uma caneta que escreve em ambiente de gravidade zero. Os soviéticos optaram por uma solução mais simples: equiparam os cosmonautas com lápis.
A opção americana deve ter contribuído mais para o avanço do conhecimento, não seduz-me mais a simplicidade como os soviéticos contornaram o obstáculo.
Há sempre dois tipos de soluções um mesmo problema, as simples e as complicadas. A mim encantam-me as simples.
Foi por isso que gostei de ouvir a explicação simples que Carvalho da Silva deu, na 5ª feira, à Judite de Sousa, para 200 mil pessoas terem preferido descer a avenida da Liberdade a anteciparem o fim-de-semana.
Os 200 mil (e mais uma data de gente) não acham graça a que Armando Vara, destacado em missão de salvamento, vá para o BCP ganhar o dobro do que recebia na Caixa.
Os 200 mil não acham justo que o salário mensal médio na EDP seja de 1669 euros e que o presidente ganhe 1666 euros por dia só em prémio de gestão.
Não me move contra Armando Vara e António Mexia, que tudo leva a crer serem sérios e competentes. Vara não ficou bem na fotografia na trapalhada da Fundação para a Prevenção e Segurança, no Governo Guterres. Mexia não tinha razão quando quis vender as posições que a Galp tinha na exploração petrolífera. Mas, caramba, quem nunca errou que atire a primeira pedra!
Mas Vara e Mexia (e tantos outros gestores) deveriam ter tido o cuidado de não se pôr a jeito dos discursos mobilizadores do líder da CGTP.
Não é bom para ninguém (tirando para o próprio Richard Fuld) que o CEO da Lehman tenha recebido 100 milhões de euros de prémio poucos meses antes do banco ir ao tapete, accionando o gatilho que fez disparar a crise.
Não é bom para ninguém (excluindo os beneficiários) que a AIG se preparasse para distribuir 168 milhões de dólares de bónus aos executivos, depois da Reserva Federal ter gasto 170 mil milhões de dólares a salvá-la.
Da mesma maneira que não é bom para a Igreja Católica (em particular para a credibilidade do voto de pobreza dos franciscanos) saber-se que o padre Melícias tem uma pensão mensal de reforma de 7450 euros, também não é bom para a paz social no país que os gestores do PSI 20 ganhem, em média, 23 vezes mais do que os trabalhadores.
De acordo com um estudo da OIT, Portugal é dos países desenvolvidos onde nas últimas décadas mais cresceu o fosso entre os trabalhadores mais bem remunerados e os que recebem salários mais baixos.
Para evitar o alastrar da contestação, uma solução simples (tipo lápis para os cosmonautas) seria o Governo socialista impor um tecto salarial (um múltiplo razoável do salário mínimo ou o salário do PR) a todas as empresas que sejam apoiadas com o dinheiro dos contribuintes.
Jorge Fiel
Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias
“O coreto era verde ou a sua evasão
na ferrugem instigada pela chuva?
As grades e colunas, a coberta
fatigaram-se, não conseguem reter
tantos mananciais de extinta música,
poderosos ao cativarem os que em volta
se concentravam, evolavam nela.
Os seus rostos reduzidos a tinta
estão a interrogar-me?”
Excerto de poema de José Bento sobre a aguarela Jardim de S. Lázaro, de António Cruz
Vivi os primeiros 15 anos da minha vida no 2º andar do número 304 da avenida Rodrigues de Freitas, ao lado do Jardim de São Lázaro e em frente à Garagem Galiza.
Brinquei muito no Jardim de São Lázaro, em frente ao Colégio Nossa Senhora da Esperança, frequentado só por raparigas, que todas elas me pareciam lindas naquelas batas azul bebé (uma das frustrações que vou levar para a cova é o de nunca ter chegado a namorar com uma miúda do Esperança).
O jardim tem um coreto onde actuavam regularmente bandas de músicos fardados (GNR, polícias, bombeiros?), que foi imortalizado numa maravilhosa aguarela de António Cruz, o pintor que na análise avisada do poeta (Eugénio de Andrade) foi um dos homens que mais espreitou a alma do Porto.
Ao remexer no passado, fiquei com vontade de partilhar convosco uma pobre reprodução desta aguarela e algumas palavras sobre António Cruz escritas por quem as sabia alinhar (novamente Eugénio de Andrade):
“António Cruz inventou para a cidade uma luz de cobre que, vinda do alto, paira sobre o casario e as águas do Douro, fluindo cheia de vagares para a Foz. Uma luz morta, de brasido amortecido na lareira, de um dia de Outono já friorento a chegar ao fim. No cais da Ribeira avistam-se já manchas francas de sombra, as pequenas embarcações perdem os contornos, e Gaia começa a confundir-se com a neblina crepuscular. Ouve-se um silvo distante, que arrepia a água. Não há dúvida, a noite vai cair. Uma noite antiga, de há cinquenta anos, onde nibguém poderá presentir a desgrenhada noite dos nossos dias, ruidosa, insegura, desumana. Olhadas assim, com os olhos fatigados, as aguarelas de que estivemos a falar escorrem, também elas, melancolia”.
Jorge Fiel
As dormidas de estrangeiros no destino Porto e Norte de Portugal cresceram 4,1% face a 2007, que já tinha sido considerado “um ano excepcional”.
Este aumento nas dormidas reflectiu-se positivamente nas receitas turísticas, que subiram 3,8%.
A revitalização do Sá Carneiro é a mãe e o pai destas boas notícias. Abandonado pela TAP, o aerporto do Porto recebeu uma fantástica injecção de adrenalina administrada pelas low cost.
Entre 2003 e 2008, ao número de comapanhias aéreas a voar para o Porto mais do que duplicou (passou de sete a 16, enquanto que as rotas cresceram 140% (passaram a ser 56).
Mas o novo fôlego a dar ao turismo no destino Porto e Norte exige diplomacia e implica agir no mercado interno.
Para continuar a crescer sustentadamente, temos de fazer um esforço de marketing, concentrado na Área Metropolitana de Lisboa, para atrair turismo interno.
Temos também de ter a coragem descomplexada de integrar o produto turístico Lisboa que é vendido por essa Europa fora. Sugerir aos “short breakers” que visitam a capital que é uma excelente ideia tirarem um dia para darem uma saltada até ao Porto.
Jorge Fiel
É assim que a Bragaparques garante vai ficar a praça de Lisboa
É certo que o nome não ajuda. Mas é inadmissível que a praça de Lisboa continue transformada numa feia pústula, um autêntico escarro, no coração do centro histórico.
A praça de Lisboa é um triângulo que fica no coração de um outro triângulo que tem como vértices alguns dos melhores símbolos do Porto - a Torre dos Clérigos, a Reitoria da Universidade e a Lello (a mais bonita livraria do Mundo, Enrique Villa-Lobos escreveu-o assim mesmo. no El Pais, sem a cautela do “provavelmente”, e nós não temos a mínima razão para duvidar dele).
A Bragaparques ganhou a concessão da praça por meio século (o que aparentemente demonstra que a via verde dos empreiteiros de Braga não é válida apenas para os municípios de governação rosa) com um projecto do arquitecto Pedro Balonas, em que uma mega livraria da Byblos no Porto seria a âncora para a ressurreição da praça.
Como a Byblos morreu em Lisboa, de morte matada, já lá vão três meses, acho que os portuenses já tinham obrigação de saber quem a vai substituir como âncora do ressurgimento da praça.
A mim ninguém me teria que ali há enguiço e o mais provável é que a maldição esteja relacionada com o nome. Por isso, pelo sim pelo não, eu começava por devolver à praça o seu nome original (praça do Anjo) e encomendava ao José Rodrigues uma nova estátua de um anjo - para ser colocada no lugar onde estava aquela que foi roubada e destruída por vândalos.
Jorge Fiel
As pontes foram o santo e a senha do Porto 2001 Capital Europeia da Cultura, iniciativa que, como tudo na vida, teve coisas boas, outras nem tanto (e algumas mesmo más, mas isso não é chamado aqui ao caso) – de que herdamos a Casa Música (não só o maravilhosamente estranho hardware riscado pelo Koolhas, mas também o software que lá corre) e alguns intangíveis (as invisíveis sementes da formação de públicos culturais que germinam por aí).
As pontes são fundamentais, no seu duplo sentido literal e figurado. Como nos lembraram, em tempo oportuno, os Jafumega, “a ponte é uma passagem para outra margem”.
Lançar pontes é importante nas vidas das pessoas e das cidades, principalmente das cidades com rio - como é o caso do Porto, nascido no esforço final que as águas do Douro fazem para descansarem no Atlântico.
Vem tudo isto a propósito de um jovem engenheiro de 24 anos, formado numa das escolas onde o Porto manifesta a sua excelência (a FEUP) e chamado Edgar Ribeiro, ter ganho o Prémio Secil com um projecto de ponte pedonal em aço que ligaria a Praça da Ribeira (Porto) ao largo Sandeman (Gaia), tem um ar elegante e um orçamento baixo (5,3 milhões de euros).
Álvaro Azevedo, o professor do Departamento de Engenharia Civil do Porto que coordenou este trabalho de investigação, desabafou a propósito:
“Seria muito interessante a construção desta nova ponte, mas a concretização deste projecto é um problema muito complicado, até porque os presidentes das câmaras do Porto e de Gaia raramente se sentam a conversar”.
Será preciso acrescentar o óbvio? Que o Porto precisa de quem saiba pôr os interesses da cidade à frente das fúteis rivalidades e velhas ciumeiras entre dois membros desavindos de um mesmo partido? Que a ponte é uma passagem para outra margem e nós precisamos mesmo de atravessar este Rubicão?
Jorge Fiel
Os jornais nasceram com um modelo de negócio simples: vendiam palavras aos leitores e leitores aos anunciantes.
A rádio e a televisão forçaram os jornais a adaptar-se à concorrência de meios mais rápidos e atraentes (acrescentavam som e imagem) e que introduziram uma variante ao modelo de negócio, pois viviam apenas da publicidade, uma indústria que cresceu exponencialmente num século em que crédito e consumo foram os motores do boom económico.
A televisão tornou-se uma Meca para as marcas sequiosas de contactarem com consumidores ávidos de gastar dinheiro.
Os patrões dos jornais (mesmo os que sabiamente construíram grupos multimédia) nunca esconderam uma pontinha de inveja por um negócio que não estava dependente dos humores dos leitores, um conceito que os novos meios substituíram pelo de audiências - mais adequado, porque para consumir rádio e televisão não é imprescindível saber ler.
A revolução da Internet (que para chegar a 50 milhões de pessoas só precisou de quatro anos, contra os 13 da televisão e os 38 da rádio), com informação gratuita à distância de um clic, foi a gota de água que levou os patrões de imprensa a sacrificarem o leitor no altar das audiências.
A receita das vendas de papel foi negligenciada e a palavra de ordem passou a ser comprar audiências, a golpes de marketing, que depois seriam transaccionadas por páginas de publicidade.
A capilaridade da rede de distribuição de jornais foi destruída, a tal ponto que é mais difícil comprar hoje um jornal do que era há dez anos. Os ardinas e pontos de venda improvisados foram varridos, só sobrevivendo os quiosques com capacidade de armazenamento da parafernália que passou a parasitar jornais e revistas: DVDs, guarda chuvas, medalhinhas, sacos de praia, chinelos, cursos….
A imprensa entrou em crise no preciso momento em que os seus gestores optaram pela estratégia (no entretanto falida) de comprar audiências em vez de agradar aos leitores.
Enquanto a televisão corrigia o tiro e diversificava as fontes de receitas, com os canais temáticos pagos e distribuídos por cabo, a imprensa deixou-se ficar refém da publicidade e de gente que não compra o jornal por causa da faca de queijo – e não para o ler.
A atenção humana é o factor escasso num mundo em que todos os anos duplica a informação produzida – em 2008 foram gerados 4 exabytes, ou seja mais do que nos 5 000 anos anteriores.
Neste momento, em que todos temos as estantes cheias de enciclopédias que não vamos abrir e de DVDs que não vamos ver, e em que a publicidade vai emergir da crise com uma nova gramática, a única alternativa ao suicídio é os jornais voltarem-se para leitores.
Num mundo em efervescente mudança, em que as dez profissões que vão ser mais procuradas em 2010 não existiam há cinco anos, só sobreviverão os jornais que apostarem no jornalismo e forem capazes de ajudar os leitores a desbravar a selva da informação em que vivemos, dando-lhes coisas (escolhas, explicações e opiniões) que eles não saibam e precisem e gostem de saber.
Jorge Fiel
Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias
Se tivesse de fazer o meu top ten de ruas do Porto, estou certo que a do Campo Alegre teria lá um lugar cativo, ao lado da Rodrigues de Freitas (onde vivi até aos 15 anos, junto ao Jardim de São Lázaro, cujo coreto foi imortalizado num das mais comoventes aguarelas de António Cruz), da Marechal Gomes da Costa (onde eu viveria se fosse rico) e de sete outras – que não vou seleccionar agora.
Nunca morei no Campo Alegre, mas estudei lá durante os três últimos anos do curso, algures entre as mesas do Botânico (cuja esplanada coberta pelas arcadas ainda frequento com bastante assiduidade) e as do Capa Negra (cujos rissóis, francesinha e tripas à moda do Porto permanecem lendários).
A toponímia do Porto prima pela boa disposição e o Campo Alegre não é excepção. Rima e é verdade. Assim de repente, lembro-me da rua da Alegria, do Jardim do Passeio Alegre e do Campo Lindo. Mas há mais.
O Campo Alegre tem inúmeras coisas a seu favor, entre as quais o Jardim Botânico, instalado na Casa Andresen, onde cresceram Sophia e Ruben A., autor da magistral auto-biografia intitulada O Mundo à minha procura.
Em lembrança dos bons momentos passados junto laguinho dos nenúfares, partilho convosco uma frase curta de Sophia (dizia ela que não gostava das pessoas “que não têm dentro - só têm fora” ) e outra, mais longa de Ruben A:
“Dos 40 aos 50 limpa-se a casa, põem-se as telhas onde faltam, instala-se um novo sistema sentimental e no jardim das delícias, depois do jantar, nas madrugadas sem Deus, ouvimos uma voz que nos buzina que dali para a frente a contagem é outra”.
Não é preciso ser engenheiro de foguetões para perceber porquê. Lá mais para o Outono há eleições autárquicas e o ex-número dois de Pedro Santana Lopes e de Manuela Ferreira Leite (1) sabe que, com as suas sucessivas hesitações, desperdiçou para Passos Coelho a hipótese de ter um retrato na escadaria da sede laranja na rua de São Caetano à Lapa.
Por outras palavras. Se o Pinto da Costa aceitasse, não tenho a menor das dúvidas de que no próximo dia 25 de Abril estaria ao lado de Belmiro nos Paços do Concelho.
E não me espantaria nada se o Rui Rio pusesse a varanda da Câmara à disposição dos festejos pela conquista de mais um título pelo FC Porto.
………….
(1) Juro que não há ponta de sarcasmo embutida neste alinhamento. Ao fim e ao cabo, toda a gente sabe que a capacidade de contorcionismo é muito elogiada e uma vantagem comparativa nos tempos que correm.
Imaginem por um segundo que, logo à noite, o FC Porto alinha no Dragão com o Hulk a fazer dupla de centrais com Lucho, Fucile a ponta de lança, o Helton a médio ala e o Raul Meireles na baliza.
Toda a gente diria que o Jesualdo Ferreira tinha endoidecido.
Não é segredo para ninguém que um dos segredos do sucesso é pôr as pessoas certas no lugar certo – que é onde mais rendem. O Helton na baliza, o Fucile a defesa lateral, o Raul Meireles e o Lucho a segurarem o meio campo e o Hulk lá frente a despedaçar (esperemos) a defesa do Atlético de Madrid.
Na política, também se aplica a regra do homem (ou da mulher, como sucede no caso em apreço) certo no lugar certo. É por isso que não faz o mínimo sentido que Rui Rio – que foi um óptimo director financeiro das Tintas Cin e daria um magnífico secretário de Estado do Orçamento – seja presidente da Câmara do Porto.
Um velho provérbio umbundo avisa-nos que se virmos um cágado em cima de uma árvore é porque alguém o pós lá.
Quem pôs Rui Rio na Câmara do Porto foi o PSD e os eleitores do Porto que queriam castigar Fernando Gomes por ter fugido para Lisboa – e ainda por cima ter feito má figura na sua deambulação pela capital.
Fizerem isso, porque, nem o partido nem os eleitores se aperceberam que ele podia ganhar. No dia a seguir, já estavam arrependidos do crime contra a cidade que tinham cometido.
Oito anos depois, está na hora de corrigir este lamentável erro.
O porto de águas profundas de Sines era o centro de gravidade do programa de reconversão industrial marcelista, torpedeado pelos choques petrolíferos e afundado, em definitivo, pela Revolução de Abril.
No virar do século, a península de Setúbal e Sines voltaram a ser eleitos como o coração e motor do desenvolvimento nacional.
O essencial dos recursos do país foi canalizado para esta região, com os sucessivos governos (laranja ou rosa, não importa a cor) a não se pouparem a despesas como ficou demonstrado com a compra dispendiosa da Auto Europa, logo transformada em épico investimento bandeira.
Neste contexto, alguém é capaz de me explicar porque que é que os portos de Norte (Aveiro e Leixões) foram os únicos a aumentarem em 2008 o volume de carga movimentada?
Por que é que o porto de Leixões alcançou o valor recorde de 15,6 milhões de toneladas movimentadas (mais 5% que em 2007), enquanto que o de Lisboa quebrou 1,4% (para 13 milhões de toneladas) e do de Sines caiu para 25 milhões de toneladas?
Terá sido por causa do Apito Dourado?
O que mais me custou durante os quatro meses que estive em Mafra não foi a patrulha das 24 horas non stop, fazer o rappel e o slide, andar no pórtico ou ter passado completamente encharcado a semana de campo, no Sobral de Monte Agraço.
O que mais me custou durante a recruta e a especialidade não foi habituar-me a obedecer sem pensar, as marchas/corridas até à Ericeira ou ser acordado a meio de noites mal dormidas e ter de arranjar tempo e concentração para me iniciar nos cálculos do tiro curvo (morteiro) e tenso (canhão 90 e LGFs).
O que mais me custou durante a minha estadia na ala do Convento ocupada pela Escola Prática de Infantaria não foram tão pouco as brincadeiras irresponsáveis com granadas ofensivas que custaram o braço e ouvido direitos ao aspirante instrutor, a duas semanas dele passar à peluda.
O que mais me custou fazer na tropa foi o salto no escuro. Eu explico. Totalmente equipados (mochila, capacete, cantil cheio e G3) saltávamos para o escuro, numa noite de Inverno e sem estrelas, na Tapada de Mafra.
Não víamos nada. Népias. Sabíamos que iríamos aterrar, mas não fazíamos a mínima ideia de como armar o salto ou flectir as pernas, porque a terra firme tanto podia estar à distância de 30 centímetros ou de dois metros. Acho que todos temos medo de mergulhar no desconhecido.
Peço desculpa por me alongar com esta história. Nós, homens, não nos conseguimos calar quando começamos a recordar episódios da tropa. Mas a verdade é que esta ideia do salto no escuro é a imagem mais aproximada da situação que vivemos.
Sabemos que o inevitável processo em curso de destruição de riqueza vai acabar um dia, mas não sabemos quando, nem até que ponto os governos vão conseguir controlar os danos.
“Vou ter de apagar a tabuada que aprendi e usei até ao ano passado”, confessou, num curioso misto de lucidez e candura, Berardo, um dos protagonistas da festa que acabou em tragédia.
Joe tem razão. Temos de admitir que 2 + 2 possam já não ser 4. Temos de aceitar que vamos ter de usar uma nova gramática na construção do um novo modelo de vida que vai nascer nos escombros do velho.
As velhas receitas não servem no combate a novos problemas, da mesma maneira que os antibióticos eram eficazes no combate à Sida.
A resposta não está em tentar descobrir variantes dos convencionais 4x4x2 ou 4x3x3 das teorias económicas. Os novos e atribulados tempos exigem novas e arrojadas soluções e o fim dos dogmas - que, como dizia Mao, são menos úteis que a bosta de boi, pois esta ao menos serve de estrume.
Uma nova elite vai ter de emergir-se e afirmar uma cultura desprovida do medo do fracasso. Como nos veio cá lembrar Kjell Nordstrom, “aceitar socialmente o falhanço é essencial, por que falhar é a chave da inovação”.
Afinal, a chave do sucesso foi inventada há quase 41 anos e esteve escrita nos muros de Paris: “A imaginação ao poder”.
A inovação e a criatividade são as únicas ferramentas que nos permitirão sair do buraco em que vamos cair quando aterrarmos do salto que estamos a dar no escuro.
Jorge Fiel
Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias
As cidades querem-se densas – senão não eram cidades, mas sim campo. Quanto mais densas forem, maior é a oferta de serviços.
Mas da maneira que uma cidade, para ser eficiente e confortável, precisa de ter uma massa crítica mínima - também há uma lotação máxima que não deve ser ultrapassada.
O modelo de desenvolvimento português dos últimos 50 anos consistiu em concentrar o essencial dos recursos do país na construção de uma metrópole (Lisboa) com massa crítica para ser competitiva com as grandes cidades europeias da segunda linha (ou seja, Paris e Londres excluídas).
Lisboa foi crescendo à custa do resto do país, até atingir uma dimensão que já não interessa sequer aos seus habitantes.
É isso que dizem os dados do Sistema Integrado de Gestão de Inscritos para Cirurgia. Em média, no país, espera-se cinco meses por uma cirurgia não urgente. O tempo que se está em lista de espera no Alentejo (3,2 meses) ou no Norte (4,1 meses) é inferior à média do país. Em Lisboa é muito superior: 6,4 meses, ou seja 192 dias.
Estes são os números da dor de um crescimento exagerado e do centralismo.
Jorge Fiel
Não gosto de clichés. Nunca gostei. Arrepiam-me. É por isso que fujo de ler as crónicas que os jornalistas (e ofícios correlativos) lisboetas escrevem quando regressam de uma estadia no Porto.
Não as lia para não me incomodar. Mas agora arranjei um método infalível de despistagem de idiotices, com a ajuda do software Word.
Antes de me aventurar a ler uma crónica, faço uma busca das seguintes palavras: francesinha, aloquete, cadeado, postura, Aleixo, francesinha e praça de táxis, tripas.
Se tiver apenas duas (ou menos) destas palavras, arrisco uma leitura. Se tiver entre três e quatro ainda fico a pensar. Mais de quatro? Ni hablar!
Desde que inventei este método genial ainda não li mais nenhuma crónica sobre o Porto escrita por um lisboeta.
Jorge Fiel
Uma das grandes lacunas na oferta do Porto metrópole é a ausência de um Jardim Zoológico decente.
Quando eu era miúdo, o mais próximo que havia de um Zoo era um pequeno correr de jaulas, no jardim do Palácio de Cristal, onde as vedetas eram o leão Sofala (dizia-se que tinha as unhas encravadas, não sei se era verdade ou piada aos sportinguistas) e o chimpanzé Chico do Palácio.
Agora, tudo leva a crer que a Câmara da Maia, com o apoio do Fernando Póvoas e outros privados, se prepara para transformar a incipiente colecção de animais que estão em exposição no concelho no melhor e maior Jardim Zoológico da Europa.
Só posso bater palmas, com entusiasmo. Venha daí essa bicharada.
Jorge Fiel
Amar o Porto não me impede de gostar (e muito) de Lisboa, onde trabalhei durante quase seis dos nos nove anos que leva este atribulado século.
Como portuense invejo algumas das coisas que Lisboa tem.
Uma das coisas que invejo em Lisboa é o seu Jardim Zoológico, sendo que nesta frase se compreendem os dois sentidos: o literal e o figurado.
Invejo em Lisboa o Zoo de Sete Rios, a que todos os anos faço questão de levar o meu filho João. É bom uma pessoa poder-se meter no metro e desembarcar num parque onde pode ver ao vivo leões, girafas, hipopótamos, rinocerontes, camelos, macacos, elefantes e preguiças.
Invejo ainda em Lisboa o cosmopolitismo que herdou do facto de ser a capital de um império desfeito – a mistura de raças e culturas, a diversidade de gentes e costumes.
Foi com base num cruzamento de culturas diversas (o famoso melting pot) que a América se tornou grande.
Jorge Fiel
Tenho uma pequena carteira de acções: 7300 Sonae SGPS, 912 Sonae Capital, 466 Impresa, 310 EDP Renováveis e 250 Santander. Valia 7 673 euros a 31 de Janeiro.
Este dinheiro dava-me agora jeito para ajudar a pagar as obras num andar que comprei. Mas custa-me liquidar, a cotações de saldo, uma carteira que a 31 de Janeiro de 2008 valia 13 881 euros (sem as 310 EDP R!).
Não há drama. Posso financiar as obras sem tocar nas acções. Mas me deixassem, fazia com a Caixa um negócio tipo Fino. Vendia a carteira à Caixa por 14 mil euros, salvaguardando o direito de a recomprar nos próximos três anos. O problema é que tenho tantas hipóteses de ser bem sucedido neste negócio como uma bailarina com uma perna de pau.
Estou a ver a cena. Chegado ao balcão, dizia ao que ia e a cara da bancária (preferia que fosse uma mulher) abria-se num largo sorriso e dizia-me: “O senhor está a querer-se armar em Fino!”. Depois explicava-me que o negócio era impossível porque não devo dinheiro à Caixa e a verba em causa é ridícula – para o caso poder mudar de figura, teríamos de acrescentar-lhe dois zeros à direita.
Fino pode vender 10% da Cimpor à Caixa por mais 62 milhões do que valem, porque a astronómica quantidade de dinheiro que deve provocaria rombos enormes nas contas de uma data de bancos, se eles tivessem de assumir que ele não pode pagar.
A explicação de Teixeira dos Santos para esta operação até nem é má – evitou uma perda de 80 milhões pela Caixa, em 2008. Só pecou por não ter usado o verbo adequado: em vez do evitar, deveria ter utilizado os verbos mascarar, camuflar ou esconder.
Os bancos sabem que ninguém está falido enquanto as pessoas não souberem que está falido. Por isso, usam as garantias do Estado e o dinheiro dos contribuintes para maquilharem os erros do passado e manterem créditos zombies artificialmente vivos.
Berardo deve mil milhões de euros a três bancos (CGD, BCP e BES), que usou para comprar 6,2% de um deles (BCP), onde acumulou perdas potenciais de 800 milhões de euros – superiores à contribuição dos EUA para a reconstrução da Faixa de Gaza. Esta notável performance foi premiada com o congelamento do pagamento de juros durante quatro anos e o prolongamento do prazo dos empréstimos.
O BCP tem 10% da Teixeira Duarte (TD), que tem 7,5% do BCP, cujo fundo de pensões tem 10% da Cimpor, onde a TD tem 23,3% (dos quais 5% dados como colateral à Caixa, que está em força nos cimentos). Em face desta teia, é mais provável o Estado português abrir falência do que a TD, que deve dois mil milhões de euros.
É por estas e por outras que o crédito está a ser negado a empresas viáveis, que a banca está a estrangular ao não lhes acudir aos problemas de tesouraria.
É por estas e por outras que dói no coração assistir à falência de grupos exportadores, como o corticeiro Suberus, que a banca asfixiou ao retirar-lhe o crédito operacional.
Os banqueiros que se cuidem. Se não arrepiam caminho, qualquer dia o Bonnie & Clyde volta a ser um filme de culto - e o El Solitário e o gangue das Perucas são os novos Robin dos Bosques.
Jorge Fiel
Esta crónica foi hoje publicada no Diário de Notícias